Sophie jordan vanish vol.2

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Sophie jordan vanish vol.2

  1. 1. 1
  2. 2. 2 Vanish Sophie Jordan
  3. 3. 3 Para salvar a vida do garoto que ama, Jacinda fez o impensável: traiu o segredo mais bem guardado de sua espécie. Agora ela precisa voltar para a proteção do clã sabendo que pode nunca mais ver Will — e o pior, porque a mente dele foi sombreada, as memórias de Will sobre aquela fatídica noite e o porquê dela ter que fugir se foram. De volta para casa, Jacinda é recebida com hostilidade e precisa se esforçar para provar sua lealdade, para o seu bem e de sua família. Entre os poucos que ainda falam com ela estão Cassian, o herdeiro que sempre a quis, e sua irmã, Tamra, que foi transformada para sempre por uma reviravolta do destino. Jacinda sabe que precisa esquecer Will e seguir em frente — que se ele conseguir se lembrar e manter a promessa de encontrá-la, só colocaria os dois em risco. No entanto, ela se agarra à esperança de que algum dia eles ficarão juntos novamente. Quando a oportunidade de seguir seu coração chega, ela vai arriscar tudo por amor? Na dramática sequência de Firelight, da autora best-seller Sophie Jordan, o amor proibido queima mais ardente do que nunca.
  4. 4. 4 Algumas vezes eu sonho que estou caindo. Claro, eu começo voando nesses sonhos. Porque é isso o que eu faço. O que eu sou. O que eu amo. Há algumas semanas atrás, eu teria dito que é a coisa que mais amo nesse mundo, mas muita coisa mudou desde então. Tudo, na verdade. Nesses sonhos, eu estou correndo pelos céus, livre como eu deveria ser. E então algo acontece, porque de repente estou descendo em parafuso. Eu fico presa no ar, meus gritos comidos pelo vento raivoso. Eu despenco. Uma humana sem asas. Somente uma garota, de jeito nenhum um draki. Impotente. Perdida. Eu me sinto desse jeito agora: eu estou caindo e eu não posso fazer nada. Eu não posso parar nada disso. Eu estou presa no velho pesadelo. Eu sempre acordo antes de bater no chão. Isso tem sido minha salvação. Só que esta noite eu não estou sonhando. Esta noite eu bato no chão. E cada batida é tão dolorosa como eu esperava. Eu descanso minhas bochechas contra o vidro gelado da janela e observo a noite passar por mim. Enquanto Cassian dirige, meus olhos tencionam através da escuridão imóvel, percorrendo sobre os metros
  5. 5. 5 de rochas e casas de estuque1, procurando por uma resposta, uma razão para tudo que aconteceu. O mundo parece prender a respiração enquanto nós diminuímos para um sinal de pare. Meu olhar desvia para o céu escuro sobre nós. Um profundo mar sem estrelas acenando um promissor santuário. A voz de minha mãe se projeta para frente do banco de trás, baixa e sussurrante, enquanto fala com Tamra, tentando obter uma resposta dela. Eu afasto minha bochecha do vidro e olho por cima de meu ombro. Tamra estremece nos braços da mamãe. Seus olhos vagos encaram à frente, a pele de seu corpo pálida. — Ela está bem? — eu pergunto de novo, porque eu preciso dizer alguma coisa. Eu tenho que saber. Eu fiz isso com ela? Isso também é minha culpa? — O que há de errado com ela? Mãe franze sua sobrancelha e balança sua cabeça para mim como se não devesse falar. Eu deixei as duas para baixo. Eu quebrei a regra inquebrável. Eu revelei minha verdadeira forma para os humanos, pior, caçadores, e todos nós vamos pagar por esse erro. O conhecimento me impressiona, um peso esmagador que se afunda profundamente em meu lugar. Eu olho para frente novamente, tremendo incontrolavelmente. Eu cruzo meus braços prendendo minhas mãos ao meu lado como se isso pudesse detê-las. Cassian me alertou que haveria um acerto de contas por causa do trabalho desta noite, e eu imagino que qualquer coisa que seja já começou. Perdi Will. Tamra está doente ou em choque ou talvez algo pior. Mamãe dificilmente pode olhar para mim. Cada respiração minha é um sofrimento, os eventos da noite queimando dentro de minhas pálpebras. Eu, desprendendo da minha pele humana e manifestando em frente à família de Will. Meu voo desesperado pelo ar crepitante e seco para alcançá-lo. Mas se eu não tivesse me manifestado - não tivesse voado para o lado de Will - ele poderia estar morto, e eu não podia suportar esse pensamento. Eu nunca veria Will novamente, não importa sua promessa de me encontrar, mas ao menos ele está vivo. 1 http://gazetaonline.globo.com/_midias/jpg/232785-4b61c7edc14be.jpg
  6. 6. 6 Cassian não diz nada ao meu lado. Ele falou tudo que precisava para fazer mamãe entrar no carro conosco, para fazê-la entender que voltar para a casa que fugimos era a única opção viável. Seus dedos seguram firmes no volante, os nós dos dedos brancos. Eu duvido que ele vá relaxar seu punho até que nós estivermos livres e longe de Chaparral. Provavelmente não antes de nós estarmos salvos e de volta ao clã. Salvos. Eu sufoquei um riso, ou poderia ser um soluço. Será que eu me sentirei segura novamente? A cidade passou voando, casas diminuindo à medida que nos aproximamos da saída da cidade. Nós iríamos embora logo. Livre desse deserto e dos caçadores. Livre de Will. Esse último pensamento pinça fresco na ferida que já sangra em meu coração, mas não há nada a se fazer sobre isso. Poderia existir algum futuro para nós? A draki e um caçador de draki? Um caçador de draki com o sangue de nossa espécie correndo em suas veias. Essa é parte de tudo que ainda esbarra na minha cabeça, se recusando a penetrar. Eu não posso fechar meus olhos sem ver os fragmentos cintilantes de sangue púrpuro na noite. Como o meu. Minha cabeça dói, lutando para aceitar essa verdade terrível. Não importando o quão válida seja a explicação de Will, sem importar que eu ainda o amo, isso não muda o fato de que o sangue roubado de minha espécie pulse em suas veias. Cassian exala lentamente à medida que deixamos os limites da cidade. — Bom, então é isso — minha mãe murmura com a distância que cresce entre nós e Chaparral. Eu viro e a encontro olhando para trás através da janela traseira. Ela está deixando todas as suas esperanças de um futuro melhor em Chaparral. Era onde estávamos fazendo um novo começo, distante do clã. E agora estamos indo de volta para o meio deles. — Desculpe-me, mãe — eu digo, não só porque eu deveria, mas porque eu quero. Mãe balança sua cabeça, abrindo sua boca para falar, mas nada
  7. 7. 7 sai. — Nós temos um problema. — Cassian anuncia. Bem à frente, vários carros bloqueiam a estrada, nos forçando a diminuir. — São eles — eu me viro para proferir com os lábios entorpecidos ao passo que Cassian se aproxima. — Eles? — exige minha mãe. — Caçadores? Eu dou um aceno duro. Caçadores. A família de Will. Evidentes farois perfuram o escuro e iluminam o rosto de Cassian. Seu olhar se movimenta para o espelho retrovisor e eu posso dizer que ele está pensando em fazer o retorno, correndo para outra direção. Mas é tarde demais para isso - um carro se move para bloquear nossa fuga e várias pessoas ficam em frente ao nosso carro. Cassian pisa no freio, suas mãos flexionando o volante, e eu sei que ele está lutando contra o impulso de destruí-los. Eu procuro por um vislumbre de Will, sentindo-o, sabendo que ele está aqui entre eles, em algum lugar. Vozes duras e cortantes gritam para nós sairmos do carro. Eu fico parada, meus dedos quentes chamuscando em minhas próprias pernas, apertando-as tão profundamente - como se eu estivesse tentando alcançar meu draki enterrado debaixo de minha pele. Um punho bate em nosso capô, e depois eu vejo - o contorno de uma arma na escuridão. O olhar de Cassian se encontra com o meu, comunicando o que eu já sei. Nós temos que sobreviver. Mesmo que isso signifique fazer somente o que nossa espécie pode fazer. Aquela única coisa que eu já fiz e que nos colocou nessa confusão essa noite em primeiro lugar. E por que não? Não é que nós não podemos revelar mais o nosso segredo. Acenando, eu me movimento, saindo do carro para encarar nossos inimigos O primo de Will, Xander, dá um passo à frente empurrando seu rosto presunçoso para mim. — Você realmente achou que conseguiria
  8. 8. 8 escapar? Uma dor forte enche meu peito, com a raiva que esses monstros me fizeram passar essa noite. Cinzas se reúnem no fundo de minha garganta, e eu deixo a queimadura picante crescer, me preparando para qualquer coisa que vier. Um caçador bate um punho na janela de trás, gritando com minha mãe e Tamra. — Saiam do carro! Mamãe sai do carro com toda a dignidade que ela consegue reunir, trazendo Tamra com ela. Minha irmã ficou ainda mais pálida desde o Big Rock; sua respiração ofegante raspa o ar. Seus olhos castanhos âmbar, igual aos meus, parecem nublados, quase transparentes enquanto ela olha o espaço. Seus lábios afastados, mas nenhuma palavra escapa. Eu me aproximo e coloco uma mão, ajudando a mãe a segurá-la. Tam está gelada ao toque, sua pele quase não é uma pele. Mármore frio. Cassian encara Xander, majestoso como o príncipe que ele essencialmente é. Lampejos de luz obscurecem o preto púrpuro dos fios de seus cabelos. Eu molho meus lábios, imaginando como eu posso convencer Xander que ele não me viu manifestar. — O que você quer? O primo de Will levanta um dedo em minha direção. — Nós vamos começar com você - sendo você o que diabos seja. — Fique longe dela — comanda Cassian. A atenção de Xander muda para Cassian. — E depois nós vamos para você, garotão... e como que você caiu daquele penhasco com Will e não teve nenhum arranhão. — Onde está o Will? — eu deixo escapar. Eu preciso saber. Xander empurra um polegar para um dos carros das proximidades. — Desmaiado lá trás. — Eu olho de soslaio na escuridão e noto uma figura caída na parte de trás de um carro. Will. Tão perto, mas ele poderia muito bem estar a um oceano de distância. Quando o vi da última vez, ele estava prometendo me encontrar de
  9. 9. 9 novo. Ele estava machucado, mas consciente. Eu tremo só de pensar o que sua própria família pode ter feito para mudar isso. — Ele precisa de um médico — eu digo. — Mais tarde. Depois de eu lidar com vocês dois. — Olhe — Cassian começa, se colocando a minha frente. — Eu não sei o que você acha. — Eu acho que você precisa se calar. Sou eu quem falo por aqui! — Xander agarra seus ombros. Grande erro. Cassian resmunga, sua pele piscando como um carvão brilhante. Há uma onda de movimento e em seguida Xander está de costas no chão, sua expressão tão surpresa quanto à outra meia dúzia de pessoas ao nosso redor. — Peguem-no! — grita Xander. Os outros se convergem para Cassian. Eu grito, vislumbrando o rosto de Cassian em meio aos caçadores. Eu me encolho ao som das batidas dos punhos e avanço em sua direção, determinada a ajudá-lo, mas mãos me seguram. Um rosnado animal estrondeia no ar. É Cassian. Vários caçadores o seguram. Angus sorri enquanto deixa suas botas em suas costas. Com a sua bochecha pressionada no asfalto. O olhar de Cassian se emparelha ao meu. Seus olhos escuros tremem e as pupilas diluem em fendas verticais. Vapor de ar passa pelos meus lábios, mas eu o reprimo e sacudo minha cabeça, convencendo-o a adiar, esperar, ainda acreditando, na esperança de poder convencê-los de uma saída. Que ele não precisa se revelar como um draki, também. Talvez eu ainda possa protegê-lo. Talvez ele possa sair daqui com mamãe e Tamra. Um beijo frio de uma arma cava minhas costelas e eu congelo. Minha mãe grita e eu levanto minha mão impedindo-a de fazer qualquer coisa tola para me ajudar. — Fique com Tamra, mãe. Ela precisa de você! Um olhar escuro de Xander perambula em cima de mim com desdém. — Eu sei o que eu vi. Uma aberração com asas.
  10. 10. 10 É uma batalha não deixar o medo me engolir em uma lava de fogo - um choque eu não me transformar na minha pele de draki neste momento. — Jacinda — Cassian grita meu nome, me relembrando de sua luta. Xander continua falando. — Não se preocupe, eu não vou te matar. É somente uma arma tranquilizante. Nós iremos mantê-la viva para descobrir que diabos é você. Agora eles estão batendo em Cassian enquanto ele luta para se livrar. — Pare! — eu empurro, passando Xander, mas Angus me bloqueia. Eu assisto em agonia enquanto eles continuam a chutá-lo. — Pare! Por favor, pare! — meu coração se torce. São eles ou nós. Fogo estoura em meus contratantes pulmões e sobe em minha traqueia. Eu não posso deixar eles nos pegarem. Antes que eu possa liberar minha respiração ardente, uma súbita rajada de frio rodopia ao meu redor. Um frio anormal. Eu tremo contra a mudança rápida de temperatura. Enquanto eu giro ao meu redor, minha garganta contrai com a visão de Tamra. Ela está sozinha, mamãe olhando com seus olhos arregalados a vários metros atrás dela. O rosto de minha irmã é um pálido morto, seus olhos não mais os seus. Não como eu. O gelo cinza esfria meu coração. Um ar rola para fora dela como vapor. Exceto que é gelado. A névoa fria cresce, incha em uma nuvem sempre em expansão em torno de nós. Ela arqueia seu corpo em uma onda sinuosa, dilacerando sua blusa, rasgando-a em um movimento feroz com suas mãos. Mãos que de repente piscam e brilham com reflexos perolados brilhantes. Eu somente vi tal cor em uma outra alma. Outro draki. Nidia: o
  11. 11. 11 shader do nosso clã. Eu vejo como as raízes do cabelo de Tamra se transformam em um branco prateado que sangra pelo resto de seu cabelo. O vapor se intensifica, uma névoa de refrigeração que me faz lembrar casa, do nevoeiro que cobre o município em um cobertor fresco. Blindando-nos dos intrusos, de qualquer um que nos caçaria e nos destruiria; obscurecendo a mente daqueles que tropeçam em nosso santuário. — Tamra! — eu a alcanço, mas Cassian já está lá, livre de seus agressores, seus fortes braços me puxando de volta. — Deixe-a — ele diz. Eu olho em seu rosto, reconhecendo uma satisfação profunda e primordial brilhando em seus olhos. Ele está... Contente. Feliz com o que está acontecendo. O que não pode estar acontecendo. Tamra nunca se manifestou antes. Como isso pode estar acontecendo agora? Em um instante em que eu desvio o olhar, está feito. Até o momento em que olho para Tamra, ela já se elevou vários metros do chão. Suas asas finas batem em suas costas, as pontas irregulares espreitam acima de seus ombros prateados. — Tamra. — Eu respiro, absorvendo a visão dela, lidando com essa nova realidade. Minha irmã é um draki. Depois de tanto tempo. Depois de pensar que nunca teríamos isso em comum. Mais do que isso - ela é uma shader. Seu olhar estranhamente calmo varre sobre todos nós na estrada. Como se ela soubesse exatamente o que fazer. E eu imagino que ela saiba. É um instinto. Eu não posso me mover à medida que eu a observo, tão bonita quanto aterrorizante, com sua pele tremeluzente, seu cabelo esvaziado de qualquer pigmento. Ela ergue seus braços magros, névoa percorre sobre nós como uma corrida quente de fumaça. Tão densa que eu mal posso ver minha própria mão ante meu rosto. Os caçadores estão completamente escondidos, mas eu os escuto enquanto eles chamam e gritam, esbarrando uns nos outros,
  12. 12. 12 tossindo, caindo na estrada como vários dominós. Primeiro um, depois outro e outro, então nada. Eu me tenciono por um barulho no silêncio sepulcral enquanto a névoa de Tamra faz o que ela supostamente tem que fazer e sombreia, mascara, encoberta... tudo no seu caminho, todos os humanos próximos. Will. Eu me livro de Cassian e luto desesperadamente através do vapor frio que anuvia tanto o ar quanto a mente. Caçadores espalhados aos meus pés, abaixados pela obra de Tamra. Eu não vejo nada através da extensão da névoa; meus braços balançam descontroladamente dentre o beijo frio da neblina , tateando, buscando o carro onde Will está. Então eu o vejo caído no banco de trás do carro. A porta do motorista aberta, escancarada, deixando a neblina entrar. A névoa de fumaça envolve-se em torno de seu sono de uma forma quase terna. Por um momento eu não consigo me mover. Apenas olhar, estrangulada na minha própria respiração. Mesmo machucado e surrado, ele é lindo. Com essa ação meus membros se incendeiam. Eu abro a porta de trás e o alcanço. Meus dedos trêmulos deslizam pelo seu rosto e alisam seus fios cor de mel, tirando de sua testa. Como seda contra a minha mão. Eu estremeço enquanto Cassian chama meu nome. — Jacinda! Nós temos que ir! Agora! E então ele me acha, me arrasta para longe em direção ao nosso carro. Sua outra mão agarra Tamra. Ele a empurra para mamãe. Seu novo corpo brilhante ilumina a noite no deserto, nos mostrando um caminho através da grande névoa ondulante. Em breve ela irá desaparecer. Quando Tamra tiver ido embora. Quando nós escaparmos. A névoa irá dissipar. E com isso, também a memória dos caçadores. Uma vez eu sugeri a Tamra que seu talento só não se manifestara ainda. Que ela teria somente um início tardio. Mesmo
  13. 13. 13 que eu não acreditasse nisso, eu disse a ela. Para dar esperança. Mesmo que, no fundo, como o resto do clã, eu pensava que ela era uma draki extinta. Em vez disso, ela é uma das mais raras e valorizadas de nossa espécie. Assim como eu. Atrás do volante, Cassian liga o motor e então estamos nos lançando na auto-estrada. Eu olho para trás de nós através do vidro traseiro. Não, eu não posso pensar nele agora - dói demais. Mudo meu olhar de direção, passando sobre a versão pálida de minha irmã, e eu tenho que desviar o olhar. Alarmada com a visão de minha própria irmã gêmea, agora tão estranha para mim como este deserto. Eu respiro estremecido e profundamente. Nós estamos indo para casa, para as montanhas e a névoa e tudo me é familiar. O único lugar seguro para ser quem eu sou. Eu estou voltando para o clã.
  14. 14. 14 Omunicípio encoberto do nosso clã se eleva quase magicamente no ar da noite nebulosa. A estreita estrada de terra se abre mais ampla entre as imponentes, entrelaçadas árvores e lá está ele. Cassian suspira ao meu lado e o aperto no meu peito se alivia um pouco. Casa. No início parece simplesmente um imponente emaranhado de videira e amora, mas em uma inspeção mais próxima você pode ver que isso é realmente um muro. Atrás dele, o meu mundo se esconde em segurança. O único lugar que sempre pensei que poderia viver. Pelo menos até antes de Will. Um guarda está de plantão na entrada arqueada. A névoa de Nidia flui em um vapor espesso ao seu redor. Reconheço Ludo de imediato. Um dos bajuladores de Severin, um draki Onyx que gosta de exibir seus músculos. Seus olhos reviram quando nos vê. Sem uma palavra ele se desloca para o município. Um guarda é uma visão peculiar. A casa de Nidia é posicionada na entrada para um propósito - de modo que ela pode marcar a chegada e saída de qualquer um. Nós a temos, e as guaritas. Um guarda é uma precaução adicional, e eu me pergunto a razão. Fizemos isso? Será que a nossa partida não sancionada desencadeou uma hiper vigilância em segurança? Cassian estaciona na frente da casa de Nidia. Ela já está do lado de fora da porta, esperando como se ela sentisse nossa chegada. E eu
  15. 15. 15 acredito que ela tenha. Esse é seu trabalho no final das contas. Ela está parada tão serenamente; suas mãos entrelaçadas em sua cintura. Os fios grossos de seus cabelos prateados pairam sobre um dos seus ombros. Cabelo quase idêntico ao de Tamra. Meu olhar muda involuntariamente para a minha irmã no banco de trás, agora também uma shader. Mamãe toca em um cacho do seu cabelo como se verificasse para ver se era real. Eu a assisti fazendo isso várias vezes agora. — Você voltou para casa, para nós — murmura Nidia enquanto saio do carro. O sorriso dos seus lábios não condiz com seus olhos, e eu relembro a noite que escapamos para longe do clã - sua sombra na janela e minha certeza de que ela nos deixou ir, nos deixando escapar. — Eu sabia que você iria. Sabia que para você ficar, você teria que ir, desta forma você aprenderia que este é o lugar onde pertence. Eu absorvo o meu redor, minha pele saboreando o ar molhado - e acho que ela está certa. Meu corpo arrepia pelo sentimento estimulante da terra abaixo de mim. Aqui é meu lar. Eu examino as ruas involuntariamente procurando por Az, ansiosa para ver minha melhor amiga, mas ninguém está do lado de fora. Mamãe envolve um braço ao redor de Tamra como proteção à medida que elas saem do carro. Nidia se movimenta para frente para ajudá-la. Minha irmã mal pode andar. Seus pés deslizam ao chão entre elas. — Então você finalmente decidiu se mostrar, hein? — Nidia acaricia uma mecha dos cabelos prateados tirando das bochechas pálidas de Tamra. — Considerando que isso seria somente uma questão de tempo. Gêmeos é uma raridade para a nossa espécie - e eu sabia que Jacinda não poderia ter um talento e você não. Cassian deu a minha irmã um extenso olhar, uma garota que ele - e todo o clã - repudiaram como sem valor. Eu posso somente supor seus pensamentos. Agora, com um dos mais poderosos e desejados talentos dentre nossa espécie, ela representa a segurança futura de nosso clã.
  16. 16. 16 Como se sentisse meu olhar, Cassian olha em minha direção. Eu mudo minha atenção para os outros e os sigo para dentro. Dentro da casa, o cheiro familiar me invade. O prolongado aroma de peixe frito se mistura com o confortante odor de ervas secas da janela da cozinha. Um simples calor ondula através de mim, e eu me livro da sensação, me lembrando que este é um regresso tenso a casa. Eu ainda tenho Severin e os anciões para enfrentar. Quando eu os deixei eles estavam à beira de ordenar o corte de minhas asas. Isso não é algo que eu possa esquecer. — Aqui está. Você não está com frio? Eu me lembro dos dias iniciais da minha primeira manifestação. Eu nunca imaginei que eu fosse sentir o calor de novo. — Nidia coloca sua mão delicada e cheia de veias contra a testa de Tamra. — Vamos pegar para você um chá de raiz. Líquidos a ajudarão se restaurar. E descanse. — Ela se move para dentro da cozinha e coloca um líquido fumegante de uma chaleira em uma caneca. — Restaurar-me da maneira que eu costumava ser? — Tamra fala estridente do sofá, com a voz enferrujada pelo desuso. Estas palavras são mais do que ela disse uma vez que deixamos Chaparral. Eu libero uma respiração irregular, aliviada por ouvi-la falar novamente. Boba talvez, mas levanta meu coração, feliz em saber que, pelo menos, esta parte dela está inalterada. Nidia segura a caneca fumegante aos lábios de Tamra. — É isso que você quer? Tamra tem o olhar afiado para mim, Cassian, e depois para mãe, seus olhos gelados cauteloso. — Eu não sei — ela sussurra antes de tomar um gole da caneca e estremecer. — Muito quente? — Nidia vagueia a mão sobre a caneca, enviando uma névoa de resfriamento sobre o chá quente. Mamãe se abaixa ao lado de Tamra, sentando perto, quase como se quisesse protegê-la. Seu olhar trava em Cassian. — E agora? — sua voz desafiante, como se ele fosse a razão, e não eu, de nós estarmos de volta. — Eles estarão aqui a qualquer momento. O que
  17. 17. 17 irá acontecer? Você nos verá sermos punidas? Como o filho do alfa de nosso clã, Cassian carrega uma influência significativa. Ele é o próximo na linha, primeiro a assumir o controle do clã. Afundada na cadeira, eu observo seu rosto. Alguma coisa vacila em seus olhos negros e suaves. — Eu prometi a Jacinda que iria protegê-la. Eu farei o mesmo para Tamra. E você. Mamãe ri então. O som ressoa profundo e seco. — Obrigada por me colocar nisso, mas eu não acho nem por um momento que você se importe comigo. — Mãe — eu começo a dizer, mas ela me interrrompe. — E está tudo bem. Enquanto eu tiver sua palavra que você manterá Jacinda e Tamra a salvo. Elas são tudo que eu me importo. — Eu dou minha palavra. Eu farei tudo que estiver em meu poder para proteger suas filhas. Ela acena com a cabeça. — Eu espero que sua palavra seja suficiente. — Olhando novamente em direção a Tamra, ela me parece cheia de arrependimento, e eu sei que ela está lamentando a perda da sua única filha humana. Eu me viro, escorrego uma mão para baixo da minha coxa, e a prendo entre eu e o assento, repentinamente incômoda com a certeza que ela lamenta a mim também. Que ela o tem feito há anos. É uma coisa difícil, ouvir minha mãe negociar e pleitear nossa segurança - por mim. Porque eu estraguei tudo. A memória da minha última noite com Will se repete em minha cabeça. O clã tem todo o direito de estar com raiva de mim. Eu quase nos matei, a todos nós, a todos do clã - e por um garoto que eu conheci somente há algumas semanas. Se não fosse pela névoa de Tamra, nosso segredo estaria em mãos inimigas - nossa maior defesa teria acabado. Um banho de água fria nas minhas costas desliza pelo meu couro cabeludo com a inesperada realização impressa em mim. Will não irá se lembrar. Mesmo inconsciente no carro, ele estava bem
  18. 18. 18 próximo da névoa. Ele deve ter sido sombreado. Eu esesperadamente espero que alguma parte de nossa última noite juntos se mantenha com ele, suficiente para ele saber que eu simplesmente não sumi de sua vida. Ele tem que se lembrar porque fui embora. Ele deve. Eu ainda estou tremendo, lutando com a ideia de que Will não irá se lembrar do que aconteceu comigo, quando os anciões chegam, entrando à pequena casa de Nidia sem bater. Eles enchem a sala de estar, aglomerando o pequeno espaço com suas formas muito altas. — Você voltou. — Severin declara, e eu me sobresalto com o som profundo de sua voz, mesmo quando eu espero por isso. Desde que nós fugimos de Chaparral, eu estive ouvindo-o em minha cabeça, imaginando sua voz ressoando em meus ouvidos enquanto ele me sentencia com o corte de minhas asas pelos meus crimes. É com uma aborrecida aceitação que eu o enfrento. Vários anciões aparecem gradualmente atrás de Severin, suas posturas iguais pelas suas rigidezes. Eles não vestem nada especial para marcar seus status. Suas influências inerentes, as características educadas em impassibilidade, são o que os identificam. Não me lembro de uma época em que eu não soube como escolher um ancião do resto de nós. Severin nos verifica com um amplo movimento e seu olhar se detém sobre Tamra. Seus olhos cintilam, o mais básico movimento, o único sinal exterior que ele demonstra que está surpreso com a mudança de sua aparência. Ele a examina, não deixando passar nada. Não os olhos cinza prateados. Não o choque perolado de seu cabelo. É a mesma forma que ele olhou para mim por tanto tempo. Estou apreensiva com o impulso louco de me mover entre eles, para bloqueá-la de seu olhar perfurante. — Tamra. — Ele respira o seu nome como se ele estivesse provando-o pela primeira vez. Ele dá um passo perto para descansar sua mão sobre seu ombro. Eu olho para sua mão sobre minha irmã e algo agita em meu estômago. — Você se manifestou. Como é maravilhoso.
  19. 19. 19 — Então, eu acho que ela importa para você agora. — É tarde demais para retirar as palavras desafiadoras de volta. Rasgam-se de meus lábios com a velocidade de tiros. Severin olha para mim. Seus olhos frios, molhados com a escuridão da noite. — Tudo - todo mundo - neste clã é importante para mim, Jacinda. — Sua mão possessiva ainda permanece em Tamra enquanto ele fala, e eu quero arrancá-la de cima dela. Sim. Alguns de nós só importa mais. — É muito injusto de você sugerir algo diferente — ele acrescenta. Eu resisto ao impulso de me pressionar perto de Cassian, odiando o fato de me aparentar intimidada enquanto seu pai me encara. Eu seguro o meu chão e mantenho os meus olhos travados em Severin. Meu coração dói, uma massa torcida no meu peito. Eu traí a minha espécie. Eu perdi Will. Deixe-os fazer o seu pior. Um canto da boca de Severin se curva para cima com a lenta ameaça. — É bom ter você de volta, Jacinda.
  20. 20. 20 Eu estou detida no meu antigo quarto como uma prisioneira. Os anciões conduziram o caminho e me seguiram pelas costas. Não parece importante eu ter voltado voluntariamente. Cassian mostrou esse ponto ao falar com eles. Ele disse mais de uma vez. Mas somente é importante que eu tenha fugido que eu tive a coragem de escapar - uma conveniência valiosa para quem teve a audácia de fugir quando o clã tinha planos específicos para mim. Entrando na casa de minha infância - o sentimento é estranho. O espaço parece ser menor, mais restrito e eu fico com raiva de mim mesma. Essa casa já foi suficiente antes. Eu respiro o ar envelhecido. Provavelmente ninguém esteve aqui desde que fugimos no meio da noite. Eu encaro o sofá, a almofada do centro com um espaço permanente. É o lugar de Tamra, seu santuário. Marginalizada pelo clã como um draki extinto, ela se perdia por horas na frente da televisão. Parece errado aqui sem ela, mas eu entendo que tem que ser desse jeito por agora. Severin ordenou Tamra ficar com Nidia. Mamãe não discutiu, e eu sei que ela pensa que outra shader irá saber melhor como tomar conta de Tamra durante a adaptação de seu talento. — Vocês vão nos colocar para dentro também? — mamãe estoura com os anciões que se prolongam dentro de nossa casa. Seus
  21. 21. 21 rostos, que eram tão familiares e inofensivos comigo à medida que crescia, observam-me com condenação. Lentamente, eles viram e saem. — Você viu Cassian saindo com Severin? — mamãe pergunta, correndo para a janela. Eu aceno enquanto ela divide as cortinas. — Com esperança ele irá persuadi-lo de não... nos punir tão duramente por termos partido. — Sim. — Relembrando o encanto de Severin sobre Tamra, eu acho que há uma possibilidade eminente dele ser tolerante conosco. Com um resmungo, mamãe deixa as cortinas caírem de volta ao lugar. — Dois deles ainda estão lá fora. Eu olho para fora da janela e espio os dois anciões parados em nossa porta da frente. — Eles não parecem ir embora nas próximas horas. Acho que eles querem garantir que nós não fujamos novamente. — Tamra está com a Nidia — mamãe diz como se isso fosse razão suficiente de nós ficarmos onde estamos. E é. Mesmo se eu quisesse deixar o clã, eu nunca iria sem a minha irmã. Especialmente agora. Meu peito de repente se aperta com o pensamento do que ela deve estar passando. Ela deve estar tão confusa, tão... Perdida. — Eu nunca iria embora sem Tamra. — Mamãe diz repetindo meus pensamentos. Seu olhar exaltado dispara para mim como se eu estivesse implicado que deveríamos. Eu desvio o olhar, para baixo em direção as minhas mãos, atrás para a janela, qualquer lugar sem ser para ela. Eu não quero que ela veja que eu sei a outra coisa que ela não está dizendo. Que eu compreendo o que seu olhar raivoso me diz. Mas eu iria embora sem você. Talvez eu não esteja sendo justa. Talvez seja a minha culpa e ela não se sente dessa maneira. Mamãe suspira, e eu a olho de novo, observando enquanto ela tira suas mãos de seus cabelos. Tem alguns fios grisalhos na massa de seus cabelos ondulados. Um início. — Eu não acredito que nós
  22. 22. 22 estamos de volta aqui — ela resmunga. — Bem onde nós começamos. Pior que antes. Eu me encolho, sentindo isso como um golpe contra mim. Porque é minha culpa nós estarmos de volta em casa. Tudo isso é minha culpa. Eu sei disso. E ela também. — Eu estou cansada — digo. Não é uma mentira. Eu não acho que eu tenha dormido desde que deixamos Chaparral, meus pensamentos muito distorcidos com tudo que aconteceu. Em todos os meus erros colossais. Em Will - imaginando onde ele está, o que ele está fazendo, pensando, lembrando. Ou ainda, falhando em lembrar. Eu me movo em direção ao meu quarto, me sentindo mais velha do que jamais senti. — Jacinda. Eu paro e olho sobre meu ombro para a direção do som do meu nome. O rosto de minha mãe é indecifrável, moldado por sombras. — Você está... — eu a escuto tomar fôlego antes de continuar. — Aquele garoto. Will — O quê que tem ele? — mesmo que Will seja a última coisa que queira falar agora, eu devo respostas a ela. Mesmo que isso signifique mexer em uma ferida aberta. — Você será capaz de esquecê-lo? — o toque de esperança em sua voz é inconfundível. Meus pensamentos se voltam para o Big Rock. À visão de Will descendo a encosta rochosa em linha reta, se agarrando na tarde da noite. Não havia nenhuma escolha. Eu tive que me manifestar. Eu tive que salvá-lo. Mesmo que os caçadores me testemunhassem fazendo. Eu não tive escolha naquela ocasião. E eu tenho uma escolha agora. — Eu tenho que esquecer — eu respondo. O olhar âmbar da mãe brilha com o conhecimento. — Mas você pode?
  23. 23. 23 Dessa vez eu não respondo. Porque as palavras não significam nada. Eu terei que mostrar a ela, provar que ela pode confiar em mim novamente. Provar a todos. Voltando, eu continuo em direção ao meu quarto, passando por fotos emolduradas da família que um dia fomos. Completa com um bonito pai e uma mãe sorridente e duas irmãs felizes que nunca imaginaram o quão diferentes poderiam ser. Como poderíamos saber a realidade que estava nos esperando? Chutando meus sapatos, eu mudo para uma velha camiseta e shorts da minha gaveta da cômoda. Meus olhos quase não vislumbram o brilho das estrelas que mancham o teto antes das minhas pálpebras se fecharem. Parece que foi somente há alguns minutos e alguém me sacode me tirando do confortável abraço do sono. — Jacinda! Acorde! Eu coloco o travesseiro em minha cabeça e espio o vulto de Az. Emocionada como eu estou em vê-la, eu preferiria puxar o travesseiro de volta a minha cabeça e afundar de novo para meu sono, onde a culpa e tristeza não pode me encontrar. — Az — eu esfrego o canto dos meus olhos sonolentos e sujos — Como você conseguiu entrar aqui? — Meu tio Kel está em serviço na sua porta da frente. Ele me deixou entrar. Isso mesmo. O tio de Az era um dos anciões que me encaravam como se eu fosse algum tipo de criminosa. E eu acho que eu sou. Eu estou presa dentro de casa, no final das contas. — Bom te ver — eu resmungo cansada. — Bom te ver? — ela me bate com o travesseiro. — Isso é tudo que você pode dizer depois de me abandonar e me deixar aqui sozinha enquanto você fugia para quem sabe onde? — Mamãe foi meio que insistente. — Agora não era a hora de
  24. 24. 24 explicar porque eu fui embora - o que o clã planejou para mim. Talvez ainda estivessem. Então eu me lembro que Az estava comigo naquela manhã em que eu quase fui capturada por Will e sua família. Nós duas quebramos as regras sagradas por escapulirmos da nossa área para voarmos na luz do dia. Eu me sento, encaro-a com preocupação, olhando-a completamente. — Você não ficou em problemas, ficou? Por sair escondido daqui comigo? Az rola seus olhos. — Eles mal pouparam para mim um pensamento depois que acordaram e descobriram que você tinha ido. A não ser me interrogar sobre isso. Eu exalo e me deixo cair de costas na cama, aliviada. Pelo menos eu não tenho isso em minha consciência também. Az empurra uma longa mecha de seus cabelos negros com listas azuis do ombro e se inclina em minha direção, seus olhos brilhando de emoção. — Você não tem ideia de como tem sido desde que você se foi. Porque você se foi! Eu me rolo e abraço o travesseiro. — Desculpe-me, Az. — Aparentemente minha consciência não estava totalmente isenta. Reconheço que eu pensei pouco em Az enquanto estive fora. Eu tinha bastante para me preocupar tentando passar por todos os dias em Chaparral. Um cansado suspiro sobe de dentro de mim. Desculpar-me parece ser tudo que faço hoje em dia. Az inala. — Bem, pelo menos você está em casa. Talvez as coisas voltem ao normal agora. Eu penso em Will e em como eu traí minha própria espécie por ele, em minha irmã e em como ela deve se sentir perdida, nos anciões parados de guarda na minha porta. Eu duvido que tudo algum dia volte ao normal de novo. E ainda, por tudo isso, eu estou aliviada em estar onde meu draki possa florescer. — Tem sido realmente bem ruim por aqui. Severin impôs toque
  25. 25. 25 de recolher. E ele aumentou o controle no nosso tempo de recreação! Você pode acreditar? Nós temos a permissão de jogar airball2 uma vez por semana. Uma vez! Tem sido somente escola e trabalho, escola e trabalho. Ele é um ditador! Isso é tudo por minha causa? Por que a mamãe nos levou e fugiu? Eles estavam preocupados que outros fizessem o mesmo? — Pelo menos nós ainda podemos voar — ela resmunga. — Não sei o que eu faria sem isso. Ainda que em grupos de voos agendados, naturalmente. Isso não mudou. Mas ele limitou nosso horário no ar. — Você tem visto Cassian? — eu pergunto. Az levanta uma elegante sobrancelha. — Desde quando você fica de olho nele? — Desde que foi ele quem nos achou e nos trouxe de volta. — Cassian foi ao seu encalço? Foi onde ele estava esse tempo todo? O boato era que ele estava fazendo seu tour. — Ela levemente ri. — Cara, oh, cara, ele ainda está mal por você. — Não por mim — corrijo rapidamente. — Ele não está mal por mim. Se ele algum dia realmente me quis... — Se? Eu a encaro e continuo. — Se ele realmente me quis é somente porque eu sou a que respira fogo do clã. — Uma conveniência, a melhor arma do clã. Mas então, não mais. Isso mudou. Agora temos Tamra. Tamra, que sempre ansiou por Cassian. Talvez ele finalmente retorne com seus sentimentos. Esperança enche meu peito com a possibilidade. E alguma outra emoção. Alguma coisa que não consigo identificar. Alguma coisa que eu nunca senti antes. — Qualquer que for a razão, toda a garota desse clã mataria para ter Cassian olhando para ela do jeito que ele olha para você. — Ela amarra a cara e se arremessa de costas na minha cama. — Talvez 2 Algum jogo aéreo, jogado no ar, voando
  26. 26. 26 até mesmo eu. — Você? — eu pisco. — Sim. Não se preocupe. Isso não é um caminho para culpa. Eu nunca pensei de verdade que tinha uma chance. Ninguém pensou. — Ela pisca os olhos para mim. — Não com você por perto. Eu suspiro. Ela soa muito parecida com Tam. A velha Tam. Aquela que por tanto tempo quis a atenção de Cassian e aceitação do clã. Aquela que observava pelos cantos ansiosamente enquanto eu conseguia ambos. Até nós nos mudarmos para Chaparral e ela encontrar uma nova vida lá. A qual tirei dela na noite em que mergulhei do penhasco atrás de um caçador de draki. Az dá uma olhada em volta como se ela tivesse escutado meus pensamentos. — Onde está Tamra? — Você quer dizer que não ouviu? — Ouviu o quê? — Ela está com Nidia. — Meus lábios se torcem em um sorriso mesmo que meu estômago me dê uma guinada nauseante na reviravolta que certamente virá, agora que minha irmã está no caminho de se tornar a próxima shader do clã. — Se recuperando. — Recuperando de quê? — Tamra se manifestou. Ela é uma shader. Os olhos de Az reviram-se. — Sem chance! — ela assobia por seus dentes e arranca de seus lábios. — Acho que você não é mais o único prêmio por aqui então. — Acho que não — eu murmuro, sem saber inesperadamente se isso é uma coisa boa ou ruim. Eu sempre quis ser uma típica draki. Não extraordinária. Nada de a grande respira-fogo do clã sobre o constante olhar minucioso e pressão. Agora eu aprecio que a minha singularidade deve ser a única coisa que me mantêm segura. Mas eu também sei que a nova descoberta do talento de Tamra significa que o clã irá nos manter ambas mais firmemente presas.
  27. 27. 27 Az continua. — Imagino se Cassian vai dar uma segunda olhada agora. O chão range me alertando da presença de outra pessoa. Eu olho para cima, meu rosto se tornando quente pela possibilidade da mãe ter ouvido muito da nossa conversa. Só que não é minha mãe. É pior. O calor desce pelo meu pescoço. — Como você chegou até aqui? — eu exijo, sabendo que mamãe não o deixaria entrar no meu quarto. Pelo menos não sem me avisar. Cassian olha para mim atentamente, seus olhos mais pretos do que púrpuro neste momento. O púrpuro só se mostra quando ele está emocionado. Uma raridade é o que parece. — Como você chegou até aqui? — eu repito. E então eu percebo que é uma questão idiota. Ele é um deles. Um dos meus captores. O futuro líder deste clã, o príncipe pode ir e vir quando quiser. — Onde está minha mãe? — eu pergunto, esforçando um vislumbre além de sua grande estrutura. — Conversando com meu pai. Minha pele se arrepia com isso. Severin e minha mãe nunca foram uma boa combinação. Eu luto com o desejo de sair rápido do quarto, para achar a mãe e a proteger. Na verdade é ridículo. Mamãe que é a grande protetora - sempre cuidando de mim. Mesmo quando não quero que ela o faça. Então eu fico onde estou, ansiando para ouvir o que Cassian veio dizer. Pelo menos eu espero que ele me diga o que está acontecendo. O que vai acontecer comigo. Eu preferia ouvir por ele a Severin. Desde o Big Rock, nós estamos nisso juntos. Eu tenho que acreditar nisso. Ele olha para Az intencionalmente, como se esperasse que ela fosse embora. Para que eu fique sozinha com ele? Não obrigada. Eu deslizo para perto dela na cama. Seu olhar se estreita. Mensagem recebida.
  28. 28. 28 — Bem? Você falou com seu pai. Qual é o veredicto? — eu respiro profundamente, pronta para acabar com a agonia e descobrir se vou ou não ter que sofrer o corte das asas. Será que Severin sabe que eu me revelei para os caçadores? Cassian contou a ele sobre isso? Minha pele fica espinhosamente quente com a específica ideia. Sem chance de a mãe ter se voluntariado com essa informação. — Tudo vai ficar bem, Jacinda. Eu dobro minha cabeça. — Então eu não vou ser punida? — Eu os convenci que você quis voltar. Eu disse que você ansiava voltar para a vida no clã. Que você irá se comportar e ser mais condescendente. Seu lábio superior se torce fracamente e eu me lembro do que ele me disse antes em Chaparral quando ele me achou, que ele gostava de mim porque eu era diferente de todos aqui. Agora ele quer que eu seja igual. Eu respiro rispidamente por meu nariz. Condescendente. Submissa. Humilde. Obediente. Será mesmo que eu tenho isso em mim? — Condescendente? Jacinda? — Az dá risadinhas, inconsciente da tensão. — Eles caíram nessa? Cassian lança um olhar duro para ela, depois olha de volta para mim. Esperando. O que? Ele espera ouvir minha concordância? — Oh — Az se controla, olhando entre nossas duas expressões sérias. — Bem, claro. Eu tenho certeza que Jacinda será mais... Quero dizer, eu tenho certeza que ela percebeu que pertence aqui. Seu pai tem que ver isso. Por que ela gostaria de ficar lá fora - em um mundo no qual ela nunca poderá se encaixar? No meu silêncio, Az move para mim um olhar questionador. Eu desejo poder explicar a ela que eu talvez tenha encontrado uma razão para viver lá fora, junto aos humanos. Isso tomará um tempo para convencer Az a entender como eu pude me apaixonar por Will, e por alguma razão eu não quero falar sobre isso na frente de Cassian.
  29. 29. 29 No entanto, do jeito que as narinas de Cassian se alargam, não está longe de seus pensamentos. Sob a pele morena de seu rosto, lampejos de carvão - como uma criatura nadando abaixo da superfície da água. Um animal que eu devo apaziguar. Eu me lembro da força desse animal, da sua grande estrutura brigando com Will no topo do Big Rock. Da violência incontrolada enquanto os dois rolavam entrelaçados, numa confusão empilhada na extremidade daquele penhasco - eu me arrepio e pressiono uma mão no meu estômago, um pequeno enjôo pela memória. Eles queriam se matar. Eles quase conseguiram. — Você irá ficar aqui com sua mãe. — Cassian anuncia quando se torna claro que eu não irei dar o consentimento que ele procura de ser uma pequena, humilde e condescendente draki. Não é que eu não queira dizer as palavras. Eu simplesmente tenho medo de prometer algo que eu não possa cumprir. — Você pode começar a ir à escola de novo. E trabalhar. Escola, trabalho e casa. Sua irmã vai ficar com Nidia. Isso me dá um começo. Eu não acho que a separação vai ser permanente. Eu não posso me lembrar de uma época que Tam e eu dormimos mais de um quarto de distância uma da outra. Mesmo que isso me perturbe, eu acho que faz sentido. Nidia tomará conta de Tamra. Ela dará o suporte e a orientação que ela precisa agora. Tudo que eu e mamãe não podemos dar. Eu digo a mim mesma que isso é tudo que está acontecendo. O clã não está tentando nos separar. — Tamra, uma shader. — Az balança sua cabeça, maravilhada. — Espere até eu contar a todo mundo. Isso é fantástico. — Minha amiga aperta meu braço com um feliz entusiasmo. — Hey, eu tenho que ir. Ela pula da minha cama com uma ânsia evidente para começar a espalhar a novidade, que o futuro do nosso clã está garantido. Que nós temos uma nova shader que pode substituir Nidia algum dia.
  30. 30. 30 Desde que Tamra não se importe em estar ligada ao clã pelo resto de sua vida. E porque ela se importaria? Uma vez que ela tenha tempo para lidar com a mudança, ela irá perceber que não é mais invisível entre o clã - e que ela tem uma chance com Cassian. Saltando pela porta, Az chama por seu ombro, — Voltarei depois. E eu estou sozinha com Cassian, depois de tudo. Obrigada, Az.
  31. 31. 31 Nós não havíamos ficado sozinhos desde Chaparral. Em nosso caminho até aqui, nós quatro ficamos confinados apertados no carro, raramente falávamos, parávamos apenas para colocar gasolina, ir ao banheiro e pegar alguma coisa para comer. Mas agora éramos apenas nós dois. Eu apenas fiquei olhando, temendo a torrente de advertências que eu estou convencida que ele jogará em cima de mim. Por razões óbvias: expor-me para os nossos maiores inimigos. Amar um desses inimigos. E pior ainda, amar Will depois de ver o sangue dele. Como eu poderia explicar para Cassian que Will não é um dos caras ruins? Ele era apenas uma vítima de seu nascimento. A transfusão de sangue foi forçada nele quando ele estava doente. Mas qual é a real importância de eu explicar qualquer coisa? Eu não irei vê-lo novamente. No silêncio eu conseguia ouvir a voz abafada de nossos pais. O tom era quente. — O que você contou para o seu pai? Eu escorreguei para fora da minha cama, de repente, consciente de que eu estava na minha cama... E que ele estava muito próximo a mim, ameaçadoramente perto de mim. Ele não se moveu, e eu precisava encostar nele para chegar no cadeira estofada perto da janela.
  32. 32. 32 — Você pergunta se eu contei para eles que você se revelou para os humanos? — o olhar dele me cortou. — Para os caçadores? Eu lutei para não me encolher. Isso parecia mais terrível quando ele falava. Eu queria poder negar isto. — Yeah. Sim — sentando na cadeira perto da minha janela, eu tentei agir casualmente, despreocupada com o lembrete dele, despreocupada sobre tudo. Especialmente ele. Aqui no meu quarto, me olhando como se me consumisse, queimando, fazendo com que meus pulmões empurrassem e se contraíssem. — Você contou isso para seu pai? Que eu fiz a única coisa que poderia arruinar a todos nós. Não apenas nosso orgulho, mas nossa espécie inteira. O olhar dele me varreu, sem perder nada. Não a bagunça emaranhada do meu cabelo caindo pelos meus ombros. Não meus pés descalços espreitando debaixo das minhas pernas dobradas. Se ele havia contado para eles o que aconteceu, se ele contou tudo para ele, como eles poderiam não me punir? Até mesmo uma parte de mim acreditava que eu merecia isso. Eu traí meu tipo. Não que iria mudar qualquer coisa que eu fiz mesmo se eu pudesse. Eu sei disso. É uma realização estranha. Sentir culpa não significa que eu me arrependa de algo. Maior do que qualquer culpa que eu sinta, eu sinto uma dor em meu coração por ter perdido Will. Eu não consigo nem imaginar que dor eu sentiria se eu não tivesse o salvado. Se ele realmente tivesse morrido ali no deserto. Finalmente, Cassian me respondeu: — Eu não poderia guardar isso deles, Jacinda. Não isso. Isso afeta todos nós. Afundei um pouco nas pequenas almofadas. Quase como se eu estivesse desapontada com ele. Eu não sei por quê. Mesmo com a nossa amizade do passado, eu não esperava lealdade dele. O clã fica em primeiro lugar quando se trata de Cassian. Ainda assim, Tamra deixou os caçadores nas sombras. Eles não iram se lembrar. Será que ele não podia guardar esse segredo? Isso seria uma coisa tão ruim de
  33. 33. 33 fazer? Desolação me lavava, me percorrendo como água gelada. Eu quase acreditei que ele se importava comigo, que ele iria me proteger. Como ele me prometeu. Ao contrário, ele me jogou aos lobos. — Eu precisei contar a ele que você se revelou aos caçadores, mas eu não disse a eles tudo. Eu não contei sobre ele. Eu olhei para ele com frieza; dizendo a palavra que ele não conseguia fazer-se dizer: — O que você quer dizer Will? Alguma coisa passou pelo rosto dele. Por um segundo as pupilas dele tremeram, encolheram em um flash para estreitas fendas. Depois nada. Ele voltou a ser o impassível Cassian de novo. — Yeah. Eu não contei a eles sobre o sangue. Isso me atingiu como um tiro de vergonha impotente. O sangue de Will. O sangue que é da mesma cor que o meu. Eu assenti. — Eles iriam caçá-lo até o final se soubessem. Eu suponho que eu devo a você por isso. — Você não está apaixonada por ele — ele disso isso tão de repente e com tanta força que eu rapidamente me remexi. — Você nem o conhece. Ele não conhece você. Não como eu conheço. O peito dele subiu e abaixou com respirações serrilhadas. Eu não disse nada em um silêncio estranho que seguiu. Tensão nos cercava, tão densa quanto a névoa de Nidia que pressionava em minha janela. Eu olhei para baixo para minha mão, notando as pequenas meias luas cravadas pelas minhas unhas sem eu ao menos notar. Ele soltou um suspiro pesado. — Olhe para mim, Jacinda. Diga alguma coisa. Eu forcei meu olhar de volta para ele. Ele espera que eu concorde que eu não amava Will? Determinada em não discutir meu
  34. 34. 34 sentimento por Will eu disse: — Tamra os deixou na sombra. Por que você teve que dizer qualquer coisa para eles? Eles iram me ver como uma criminosa — eu acenei com um braço. — Eu estou praticamente em prisão domiciliar! Eles não irão me perdoar nunca! — Eu precisei contar para eles. E se alguns dos caçadores se lembrarem de algo? Tamra não sabe usar seus poderes direito ainda. E se isso não durar? E se ela não apagou tudo direito? Eu assenti, o movimento de alguma forma doloroso, tão doloroso quanto o aperto em meu peito. — Eu entendo. Está tudo bem. — Claramente não está bem. Você está chateada. Eu pressionei uma mão em meu peito — E você não estaria Cassian? Eu serei tratada como uma traidora o resto da minha vida. Ele moveu a cabeça dele vagarosamente, um músculo dele travando em sua mandíbula. — Eles irão esquecer e perdoar. Eventualmente. — Você não pode saber isso. Ele disse que iria tentar tudo que ele podia para me manter salva, mas até eu sei que ele não está no controle total daqui. — O fato de que Tamra está aqui, que ela é uma Shader, isso irá apaziguá-los. Agora que vocês duas voltaram. Mesmo após dizer a eles o que eu fiz? Eu olhei para ele desconfiada, com medo de derrubar minha guarda. — Então eu não estou com problema? — Eu não disse isso. — Alguma coisa apareceu no rosto dele enquanto ele dizia isso. Um resquício de sorriso brincava na boca dele. — Você se revelou para um humano, Jacinda. A família dele era
  35. 35. 35 de caçadores. E por isso, eu precisava pagar. Eu assenti, aceitando isso. — Você tem muito que compensar — ele adicionou, totalmente sério de novo. — E se eu não conseguir? Eu não estava mais certa se eu tinha isso em mim para provar eu mesma para alguém mais. Nesse momento, o pensamento de nunca ver Will novamente me dava vontade de chorar e me fazia sentir machucada e cansada. Mesmo uma parte minha estar feliz por estar de volta no clã, eu não estava na exata condição de bajular ninguém. — Então as coisas serão difíceis para você. Mais difíceis do que elas teriam que ser. E a sua mãe... — a voz dele despareceu, mas a ameaça perdurou. Meus olhos apertaram, a pele pinicou e apertou. — E minha mãe? Ele olhou sobre os ombros dele como se ele pudesse vê-la onde quer que ela estivesse na casa. — Não há amor para ela. Eles a culpam por pegar você e Tamra. Eles estão falando sobre banimento. Eu aspirei bruscamente. — Isso não é justo. Fui eu que... — Foi ela que levou você embora. Você não teria partido por sua própria vontade. Vamos lá, Jacinda. Tudo isso teria acontecido sem sua mãe te puxando para algum deserto? Eu engulo seco e olho para trás para além da janela. Eu odeio não conseguir argumentar esse ponto com ele. Eu odeio ver a lógica dele, tão cruel quanto ele. — Nenhum de nós é como uma ilha. Pense nisso. As ações de um afetam todos.
  36. 36. 36 Eu acho que eu não sou como o resto dele. Por que fui eu que entreguei todos. Eu afaguei suavemente minha boca, falando através dos meus dedos: — Você nunca se cansa disso? Você nunca quis o que você realmente quis? Você não acha que você merece isso de vez em quando? Por que você precisa colocar o clã acima de tudo? Acima da vida de alguém? Você alguma vez coloca algum limite? Você pode racionalizar o sacrifício de um, mas e quando for dois? Três? Quando você irá dizer chega? Eu balancei minha cabeça. Cassian me encarou. — Esse é o jeito que somos. Foi desse modo que nós conseguimos sobreviver esse tanto. O fato é que você questiona isso quando ninguém mais faz. — Ele inclinou a cabeça para lado. — Mas talvez seja isso que faça você tão especial. O porquê eu estar aqui conversando com você. O porquê de eu me importar. Eu engoli contra o aperto em meu pescoço e segurei o olhar dele. — Então você... — eu lutei pela palavra certa, uma palavra que não faria meu rosto aquecer insuportavelmente e me resolvi, —... você gosta de mim por que eu sou o tipo de pessoa que coloca todos nós em perigo? Um raro sorriso brincando nos lábios dele de novo. — Você não é um aborrecimento, isso eu tenho certeza. — Cassian. Meus nervos entraram em colapso enquanto o próprio Severin entrava no meu quarto ficando ao lado de Cassian. Os dois deles... no meu quarto. Não é algo que eu tenha previsto. Cassian é uma coisa. Severin, outra. Mamãe estava atrás de Severin, o rosto dela duro com rebeldia. Eu suponho que quaisquer coisas que eles discutiram elas não
  37. 37. 37 terminaram bem para ela. — Nós terminamos por aqui, Cassian. O olhar de Severin descansou em mim. Eu me senti encolhendo. Mas eu não mostrei isso. Eu me forcei a segurar o olhar dele, fingindo que ele não me fazia me sentir fraca e trêmula por dentro, que eu não merecia ser censurada. Severin acenou de Cassian para a porta. — Me espere lá fora. Cassian me deu um longo olhar e saiu. Mamãe adentrou mais no quarto, os finos braços dela cruzado sobre o peito dela. Ela perdeu peso. Eu imagino como ela conseguiu perdê-los. Ela sempre teve curvas. Severin olhou para ela com frieza. — Eu gostaria de ter uma palavra com Jacinda. — Então você terá que fazer isso na minha frente. Os lábios de Severin se curvaram sobre seus brancos dentes. — Você já se provou ser uma mãe com a paternidade duvidosa, Zara. Não há necessidade de se comportar como se você se importasse com sua filha agora. Um olhar aflito passou sobre o rosto da minha mãe antes que ela se controlasse e o mascarasse, mas a palidez continuava lá, fazendo os olhos delas se destacassem como gigantescas piscinas brilhantes. Desde que papai foi assassinado, Tamra e eu éramos tudo que ela tinha. Toda decisão que ela tomava era para o nosso bem... ou pelo menos o que ela pensa que era o melhor para nós. Ela pode ter cometido alguns erros, mas eu nunca duvidei do amor dela por mim. Uma rápida onda de raiva me atingiu no coração, eu avisei: — Não fale da minha mãe desse jeito.
  38. 38. 38 Severin olhou de volta para mim, olhou para baixo para mim, como seu eu fosse uma sujeira nos pés dele. — Tome cuidado, Jacinda. Você está perdoada por suas ofensas. Um fato que você pode agradecer a Cassian por isso. Eu posso rapidamente ver você sendo punida. — Ele olhou para mamãe de novo. — E você está banida. — Não me faça nenhum favor — eu rebati, incapaz de atingir o tom certo de remorso com Severin — Jacinda — minha mãe disse em uma voz baixa, agarrando meu braço com os dedos frios dela. A expressão de Severin endureceu. — Preste bem atenção. Você está sobre gelo fino, Jacinda. Eu espero um comportamento perfeito vindo de você agora... O rastro da voz dele deixava a ameaça deliberada, explícita. Eu podia praticamente ouvi-lo dizer, Ou eu irei cortar suas asas. Eu me recusei a mostrar o quanto ele me afetou, que a ameaça realmente funcionou, mandando um raio de medo que me fez sentir minha pele apertar e um arrepio quente passar pela minha pele, uma serpente se contorcendo para libertar-se. — Ela não trará nenhum problema. — Minha mãe disse em uma voz que nunca ouvi usar antes. Ela soava quase derrotada. A boca de Severin se curvou em um sorriso presunçoso — Talvez dessa vez você faça um trabalho melhor mantendo ela na linha. Com um aceno frio, ele saiu, o som dele baqueando, saindo de nossa casa. Uma casa que não parecia mais um lar. Apenas uma casa que não é mais nossa. Não se Severin pode marchar para dentro e emitir comandos e ameaças como se ele tivesse todo o direito. Pela primeira vez eu me pergunto se isso é o que o clã se tornou
  39. 39. 39 ou se ele sempre foi desse modo?
  40. 40. 40 Por um momento, nós ficamos em silêncio e então mamãe desabou na minha cama com uma fraqueza que me deu um aperto no coração. Faz um bom tempo que ela se manifestou pela última vez - anos. Ela começou a aparentar a idade dela. Ela pegou o urso maltratado que papai me deu no meu sétimo aniversário e que estava emaranhado entre lençóis e almofadas. Eu me esqueci dele quando partimos com tanta pressa e agora eu estava feliz que eu deixara isto aqui. Agradecida que havia alguma coisa que eu amava e familiar esperando por mim aqui. Mamãe o puxou por uma orelha do emaranhado com um suspiro silencioso. Era um som de derrota. De repente os ombros dela caíram. Então era isso? Ela havia desistido? Finalmente ela falou e a voz dela era tão vazia e inexpressiva quanto seus olhos: — Eu quero você a salvo, Jacinda. Eu não quero machucá-la. Eu assenti — Eu sei. — E agora eu começo a pensar que eu posso ter sido quem te
  41. 41. 41 causou seu maior sofrimento. Eu balancei minha cabeça ferozmente, eu não gosto dessa nova, derrotada versão da minha mãe. Ela é alguém que eu não conheço. Que eu não quero conhecer. Com tudo mais mudando, eu preciso que ela permaneça constante. — Não. Isso não é verdade. — Eu obriguei e empurrei você em cada centímetro do caminho, você gostando disso ou não, tudo pensando em proteger você. — Ela balançou a cabeça dela. — Talvez eu tenha feito tudo piorar. Agora nós estamos de volta. Ela movimentou a mão apaticamente. — Você continua como apenas uma escrava para o clã. Só que dessa vez é pior. Eles não mais tratarão você como um grande presente concedido a eles. Eles irão tratá-la como uma arruaceira. — Mãe? — minha voz tremeu um pouco e eu limpei a garganta — O que você está dizendo? Ela olhou para cima do urso. — Não deixe eles te tratarem como um cão maltratado pelo resto da sua vida. Siga as regras. Abaixe a bola. Volte ao topo. Faça o que você tiver que fazer. — Você realmente quer ficar aqui? Você quer que Tamra fique aqui? — Levar você para Chaparral... Eu estava perseguindo um sonho. Alguma coisa que nunca existiu. Não para você ou até mesmo para Tamra. Ela estava destinada a ser um Draki e eu nem ao menos sabia disso. — Ela segurou um riso, pressionando os dedos nos lábios dela para prendê-los. — E você... bem você tentou o tempo todo me falar que você não podia ser nada mais senão um Draki. Que você precisava estar aqui. Eu apenas não queria ouvir isso. Eu sinto muito, Jacinda. Eu sentei do lado da minha mãe na cama. Ela poderia ter me
  42. 42. 42 enfurecido no passado, mas eu não aguentava vê-la desse jeito. Eu a quero de volta. Eu sinto falta da vivacidade dela. Eu sinto falta dela. — Não se desculpe. Nunca se sinta culpada por ser uma mãe que ama tanto suas filhas que sacrificaria tudo por ela. Eu segurei a mão dela, apertei os dedos gelados e de repente eu me lembrei que ela estava sempre fria aqui. Sempre tremendo na névoa perpétua e ventos. A mesma névoa e vento que é um lar para mim, a qual eu levantava meu rosto para sentir melhor e experimentar. Ela não amava isso. Nunca havia e nunca iria. — Nós iremos descobrir um jeito de viver aqui. Felizes. Eu não vou viver com a minha cabeça baixa e nem você. Ela me deu um sorriso vacilante e me lembrou gentilmente: — A cabeça da sua irmã não precisa ficar mais abaixada aqui. Isso é verdade. Tamra está no topo agora. E ironicamente, eu não. Pelo menos não no momento. Mamãe afagando a minha bochecha com as costas da mão dela. — Eu vivi aqui pelo seu pai. Eu posso fazer isso pelas minhas garotas. É um pequeno preço a se pagar — ela inspirou. — Eu amei seu pai demais. Mas esse amor não era nada como quando eu me senti quando nos unimos. Algumas coisas acontecem, mudam quando vocês se unem naquele círculo. Era como se nós nos tornássemos conectados. Sua expressão se tornou mais melancólica. — Alguns dias, eu não podia dizer quais era as minhas emoções quais eram as dele. — Seu olhar âmbar escureceu. — Mesmo no ultimo dia... eu senti... eu sabia que alguma coisa estava errada mesmo antes de qualquer um me contar. E eu fiquei por tanto tempo dizendo a mim mesma que o vazio que eu senti não era nada, não era ele morrendo. Que ele ainda podia estar vivo lá fora, apenas fora do meu alcance, então eu não poderia mais senti-lo. Eu olhei extasiada para ela.
  43. 43. 43 — Por que você nunca me disse nada? Ao menos a parte de sentir que alguma coisa estava errada no último dia dele. Claro que eu sabia que muitos dos Draki unidos formam uma conexão. Historicamente, dragões ficam unidos para vida inteira e é dessa antiga característica que vem a ideia por de trás da união. Para alguns casais Draki elas são mais profundas. Aparentemente meus pais foram um desses. Ela encolheu os ombros — Você era apenas uma garota. Eu não queria que você soubesse que eu senti o... medo dele. A dor dele. Eu quase morri por causa disso, Jacinda. Eu estava com medo que se eu contasse isso para você, você iria pensar que eu senti... — A morte dele. Eu completei. Minha cabeça doía, minhas têmporas latejavam enquanto eu processava isso. Bem fundo na minha alma, eu ainda tinha esperanças que ele ainda estivesse vivo. Que ele pudesse estar em cativeiro em algum lugar. Eu não sabia o que pensar mais. Ela hesitou, mas assentiu. — Então porque você está me contando isso agora? Eu demandei. Mamãe estivera praticamente na cabeça de papai no final... E ela guardou isso pala ela mesma? — Você precisa saber — ela colocou uma mecha de cabelo para trás da minha orelha. — No caso de você se unir com alguém aqui. Meus olhos se arregalaram já adivinhando a direção que ela estava indo. Eu não podia acreditar nisso. Ela não poderia estar me sugerindo para eu me unir com Cassian. — Você irá sentir... — O que? Ela fixou os olhos dela em mim. — Vai ficar tudo bem, Jacinda.
  44. 44. 44 Bem? — Por que uma vez que nós estejamos ligados não irá importar se eu não o amo? Por que eu vou sentir alguma coisa falsa e eu poderei mentir para mim mesma que isso é amor? Ela balançou a cabeça dela firmemente. — Você se sentirá conectada. Uma vez que isso acontecer, irá realmente importar por que ou como isso aconteceu? Sim! — Importava para você antes. — Eu digo entorpecida. — As coisas são diferentes agora. Nós estamos presas aqui. Você precisa fazer disso o melhor possível. — Eu estou. Eu vou. Mas isso não significa que eu tenha que me unir. Eu fechei meus olhos e esfreguei minhas pálpebras, tentando aliviar a dor lá. Eu realmente tentava ter uma conversa com a minha mãe sobre as vantagens em me ligar para escapar da desaprovação do clã? — Você pode ser feliz aqui, não pode? Cassian... — ela parou. Eu assistir a garganta dela funcionando, incrédula sobre o que ela estava dizendo. — Cassian não é uma pessoa ruim. Ele não é... Quase igual ao seu pai. Quase igual. Eu recuei, certa que minha mãe havia sido abduzida por aliens. — O clã ira esquecer tudo se você e Cassian apenas... — Não! Mãe, não! Eu resisto à tentação de cobrir minhas orelhas com as mãos. Eu não estou ouvindo isso. Não vindo dela. — Eu não estou dizendo agora. Mas com o tempo... — Eu não acredito que você está dizendo isso!
  45. 45. 45 Ela pegou as minhas mãos, falou para mim em uma voz dura: — Eu não posso mais te proteger, Jacinda. Eu não tenho nenhum poder aqui. — E por que Cassian pode é razão o suficiente para me dar em troca? — Eu não estou sugerindo nada que você nunca tenha considerado. E já vi você com ele. Existe alguma coisa lá. Eu assenti vagarosamente. — Talvez. Uma vez. — Quando não havia mais ninguém. Nenhuma alternativa para me tentar. Antes de eu conhecer Will. — Não mais. — Por causa de Will. — Os olhos de mamãe brilharam por um momento com a antiga vitalidade dela. — Você não pode ficar com ele. Isso é impossível, Jacinda. Não há nenhuma chance. Ele não é um de nós. Ele não é um de nós. Eu evitei realmente pensar sobre isso, aceitar isso, mas as palavras me encontraram agora, cavou fundo e me atingiu no meu coração que já doía. Eu inalei fracamente. — Impossível ou não, eu não considero mais ninguém. Eu prefiro ficar sozinha. — Oh, não seja ingênua! Ele é um humano! Um caçador! Esqueça-o! Existirá mais alguém! Por um momento, a conversa soou estranhamente parecida como quando mamãe tentou me convencer a deixar meu Draki ir, deixá-lo definhar. Agora ela quer que eu abrace meu Draki e esqueça Will. Eu balancei minha cabeça. Só que ela está certa. Mais do que ela jamais perceberia. Sair com Will foi burrice. Foi errado. Eu sabia disso. Ele era mais do que um humano intocável. Ele era mais do que um caçador. Ele era muito pior.
  46. 46. 46 Sangue Draki corria pelas veias dele. Um Draki - provavelmente vários - morreu para sustentar a vida dele. Mesmo que o pai dele tenha sido responsável por esse ato terrível, como eu poderia olhar novamente para os olhos de Will? Tocá-lo? Segurá-lo? Beijá-lo? Eu suponho que seja uma boa coisa eu nunca mais ver o rosto dele novamente. Eu preciso parar de esperar, nas mais sombrias sombras do meu coração, que ele irá manter a promessa de me encontrar. — Eu tenho que deixá-lo. — Eu murmurei, minha voz suave. Mamãe me estudou, a expressão dela não convencida. Mas eu não precisava convencê-la tanto quanto eu preciso convencer eu mesma. Aquela noite na minha cama, eu encarei as estrelas brilhantes que papai me ajudou a colocar quando eu decorei o teto anos atrás e gradualmente eu comecei a me sentir segura de novo. Da maneira que eu me senti quando eu era pequena, meus pais dormiam apenas no corredor abaixo de mim. Tão segura. Tão protegida. Eu libertei meus pensamentos e encontrei Will. Ele estava esperando no meu coração sem guardas. Cochilando, meio dormindo, eu lembrei. Lembrei dele, de nós, nos momentos antes do mundo cair ao meu redor. Um sorriso tocou meus lábios enquanto eu me lembrava de tudo. Eu lembrei até a saudade se tornar demais. Até a vontade de ter ele se tornou demais, enquanto lágrimas salgadas escorriam pelas minhas bochechas. Não acabou. Nós não estamos... Eu irei vir por você. Eu irei te encontrar. Eu vou. E nós estaremos juntos de novo. — Não — eu sussurrei para o silêncio do meu quarto, mesmo com meu coração sangrando. Uma parte traiçoeira de mim sempre
  47. 47. 47 iria esperar isso. — Nós não iremos. Mas então eu acordei para uma horrível verdade novamente, atingida por facadas de dor no meu coração. Ele não irá ter essas memórias. Ele não irá se lembrar de ter feito essa promessa para mim. Eu passei meus dedos tremendo pelos meus lábios. Você não irá se lembrar de mim indo. Você não irá lembrar por que eu tive que ir. Você irá apenas pensar que eu deixei Chaparral. Que eu deixei você. Virando meu rosto, eu mordi minha almofada, sufocando o soluço que queria sair do meu peito. Será que ele ao menos ainda pensa em mim? Desesperadamente eu queria saber o quanto ele conseguia lembrar? O quanto de mim havia ido? Tamra era nova nisso. Ele conseguiria me tirar completamente da memória dele? Eu mexi minha cabeça com o pensamento. Eu mordi meu lábio até eu sentir gosto do meu próprio sangue. Eu soltei a ferida, e falei para mim mesma que eu estava ficando paranoica. Eu nunca ouvi falar de um Shader que conseguisse apagar semanas da mente de uma pessoa. Isso é impossível. Isso não pode acontecer. No momento, eu sabia. Eu precisava perguntar para Tamra. Eu precisava descobrir quanto da memória de Will ela pegou. Quanto ela me apagou do coração dele. Rolando para o outro lado, eu senti uma pequena sensação de conforto. Amanhã, eu irei perguntar para ela amanhã. De algum jeito essa decisão me fez sentir melhor. Deu-me alguma coisa para olhar para frente mesmo que nada que ela diga possa mudar algo. Will ainda estará a quilômetros de Chaparral. E eu continuarei aqui.
  48. 48. 48 Quando saí para a varanda na manhã seguinte, eu soltei um profundo suspiro de alívio, agradecida de ver que nossos cães de guarda foram mandados embora. Eu suponho que Severin decidiu que nossa conversa de ontem foi suficiente para me manter na linha. Ainda era cedo. Um espesso nevoeiro mantinha-se baixo no chão, envolvendo minhas panturrilhas e que ia levantando-se à medida que eu me aproximava do chalé de Nadia, determinada a pergunta a Tamra se ela acha que ela foi bem sucedida mexendo na mente de Will e dos outros. Foi à primeira vez dela, afinal. Como ela podia ter certeza do que ela estava fazendo? O cachorro de Jabel começou a latir. Eu acelerei o passo, imaginando as cortinas se mexerem. Eu não queria ficar presa conversando a com a tia de Cassian. Eu olhei por cima do meu ombro, me perguntado se ela foi à razão de Severin ter mandado os guarda costas para casa. Isso era conveniente, afinal das contas, ter os olhos atentos da irmã dele apenas na calçada da frente. Eu deveria prestar atenção para onde eu estava indo. Um gemido escapou de mim enquanto eu colidia duramente em outro corpo. Mãos me alcançaram e me firmaram. Eu soprei uns fios de cabelo do meu rosto e olhei para Corbin. Filho de Jabel. — Jacinda — ele me cumprimentou. — Bom ter você de volta. A boca dele levantou em um sorriso que não parecia ser real, mas também nunca foi. Corbin e eu temos a mesma idade, nós estivemos nas mesmas classes da escola desde o primário. Mas nós nunca fomos próximos. Ele sempre foi o mal-intencionado, roubando na escola e nos jogos. Pregando peças cruéis nos mais novos. Quando se tornou claro que eu era uma respiradora de fogo, ele de repente mudou o tom dele e tentou se aproximar de mim, mas até então eu já sabia quem era o real Corbin. Ele lembrava o tio dele Severin. Muito mais do que Cassian. São os olhos. Corbin e Severin têm os mesmos olhos mortos. Se possível,
  49. 49. 49 ele cresceu mais em minha ausência. Ele está tão alto quanto Cassian agora. Eu me livrei do aperto das mãos dele e tentei não aparecer intimidada. — Para onde você vai? — ele perguntou Eu me arrepiei, pensando em como a mãe dele está nos espiando enquanto ficamos aqui. Como ele estava provavelmente esperando para me emboscar quando saísse de casa. — Por quê? Você foi atribuído para ser meu guarda? Ele me deu o que eu acho que é um sorriso de flerte. — Você precisa de um guarda-costa? Eu balancei minha cabeça, lamentando minha defensiva. Se eu agisse como uma prisioneira, seria assim que eles iriam me tratar. — Eu estou indo ver minha irmã. Para satisfazer meu medo mórbido de que Will não se lembra da nossa última noite juntos. Que ele se lembra é que eu simplesmente desapareci. — Oh — ele afundou as mãos dele mais fundo nos bolsos. — Eu irei andar com você. Eu não vi como recusar isso, eu dei os ombros suavemente e continuei a névoa torcendo em volta do meu tornozelo. Nós andamos passando pelas casas com as janelas fechadas contra a manhã. Eu não me lembrava do clã ser tão quieto desse jeito. Mesmo de manhã havia usualmente alguma atividade. Isso me deu uma sensação de estranheza. De repente a parede de videira não parecia estar nos protegendo, mas nos prendendo dentro. — Tão quieto — eu murmurei. — Yeah. Ainda no toque de recolher. Você não pode deixar sua casa até as sete. — Então o que você está fazendo vagando... — Eu sou parte da patrulha da manhã. — Ele fez um gesto para
  50. 50. 50 a braçadeira azul em volta do braço. Eu não havia notado isso antes — Patrulha. — Eu ecoei entorpecida, encarando o pedaço azul de tecido. — Eu não sabia. Eu deveria voltar depois das... — Nah, eu não irei te delatar. Delatar-me? Ele sorriu como se isso fosse um presente. Não consigo reunir um sorriso em troca. Eu não quero presentes dele. Amanhã eu irei com toda certeza sair depois das sete. Eu me virei e continuei andando. — Bem legal sobre sua irmã — ele disse, mantendo o ritmo comigo. — Yeah. Ele deu um olhar com seus olhos escuros como a noite. — Você não soa feliz sobre isso. — Honestamente, eu não tive tempo para processar isso. Ele assentiu como se ele entendesse isso. — Vai ser um grande ajuste. — Sim. Nidia vai ajudar Tamra a passar por tudo isso. — Eu queria dizer um ajuste para você. — Ele inseriu suavemente, a voz dele tão escorregadia quanto óleo. A pulsação do meu pescoço acelerou erraticamente. — Para mim? O sapato dele escorregou em um cascalho solto no chão. O som irritou meus nervos. — Yeah. Você não é mais o cão no topo por aqui. Eu acelerei meu passo enquanto nós passávamos pelo centro, pela escola e pela sala de reuniões, ansiosa para chegar a Nidia.
  51. 51. 51 — Nunca foi assim. — Yeah, foi sim. Mas agora há duas de vocês. Você conseguiu alguma competição. Eu parei e o encarei, mesmo que uma parte de mim queria andar mais rápido e deixá-lo para trás. Isso ou socá-lo. Ele arqueou a sua sobrancelha dourada. — Eu estou apenas dizendo — ele moveu uma mão. — Cassian não pode ter duas de vocês. Eu o encarei. Ele não se moveu. Nem sequer desviou o olhar. Eu cruzei meus braços acima do meu peito e decidi ir direto ao ponto. — Significa que você tem uma chance de ter uma de nós agora? Ele sorriu aquele não sorriso novamente, eu de repente o detesto, essa ganância, o garoto sedento por poder que vê minha irmã e eu como um meio para subir na hierarquia. Eu desprezo que ele pense que pode possuir qualquer coisa que Cassian não queira. Por que é tão simples quando Cassian escolhendo e Corbin pegando qualquer resto deixado como qualquer cão faminto. Meus músculos ficaram tensos de raiva. Absurdamente. Eu rosnei e virei, voltando a andar novamente, meus passos mais rápidos, passos duros no chão. — Isso não vai acontecer. — Eu falei rapidamente por cima do ombro. — Você não pode correr disso, Jacinda. Não mais. — Do que? — eu girei, pretendendo entender perfeitamente o que quer seja que ele está insinuando. — Se você não se juntar com Cassian, eu serei o próximo para quem meu tio irá olhar. Nós podemos ser bons juntos, Jacinda. — Você só pode estar brincando.
  52. 52. 52 Seu peito encheu com convencimento. — Minha linhagem tem liderado esse clã pelos quatro últimos séculos. Nem mesmo seu pai poderia usurpar o poder da minha família — O que você sabe sobre o meu pai? — eu demandei, enfrentando-o. — Apenas o que foi me falado. Antes de ele desaparecer, ele constantemente desafiava meu tio. Sem sucesso. Minha família é a melhor escolha para comandar esse clã. Nós sempre fomos os mais fortes... e vamos crescer mais forte ainda com um respirador de fogo e um Shader adicionado a nossa linha. Eu sinto meu rosto começar a ficar úmido e frio com o pensamento de Corbin e eu, tive que admitir para mim mesma que a ideia de ficar com Cassian nunca me fez sentir tão mal. — Você é louco — eu continuei andando, alívio me inundou quando ele não me seguiu — Você não decide mais nada agora, Jacinda! — ele diz atrás de mim — Você perdeu sua chance. Vai ser eu ou Cassian. Eu sei que isso não é uma ameaça vazia. Ele é o sobrinho favorito de Severin, afinal. Ele sabe das coisas. Coisas que eu não sei. E diferente de Cassian, ele não está tentando me ajudar por trás das cenas. Eu falei para mim mesma que eu deveria estar agradecida que ele me contou os planos dele. Agora eu poderia agir para ter certeza que isso nunca aconteceria. Tamra e eu não iremos ser forçadas a nos unir com alguém. A não ser que nós quiséssemos, claro, eu estremeço pensando que Tamra definitivamente iria querer se unir a Cassian. A voz de Corbin me segue através da névoa: — Fale para Tamra que eu irei passar mais tarde. E isso me fez tremer. Eu deveria querer que ele fizesse par com Tamra. Para me
  53. 53. 53 separar da horrível perspectiva de ficar com ele. Mas eu não desejaria isso para meu pior inimigo, muito menos para minha própria irmã. Eu caminho para Nidia com passos firmes, trabalhando para me convencer que o clã não é algo como um regime fascista no qual os habitantes sofrem total subjugação. Não é. É o único lugar que o meu Draki pode viver em liberdade. Eu diminuo a velocidade enquanto eu atingia o chalé, notando uma figura solitária parada como guarda em frente ao arco da entrada do clã. Enquanto eu me aproximava, eu reconheci Gil, um amigo de Cassian. Eu acenei para ele em saudação. — Indo ver sua irmã? — ele falou. Eu assenti, então da sua carranca ele foi para um sorriso bobo. — Diga a ela que eu mandei um oi. — Oi — eu ecoei. Gil nunca prestou atenção na minha irmã antes. Pelo que eu saiba, ele nunca ao menos falou com ela antes. Ele é um dos muitos que olha para o que ela é e não para ela. Agora ele quer que eu passe um oi? Nojo passou por mim. Assim como é comigo, ninguém liga realmente para Tamra. Eles não ligam para a garota, só para o talento. Assim que bato Nidia atende a porta. Com um aceno, ela me levou para dentro do chalé que sempre cheirou a ervas e pão fresco. Meu refúgio de tantas vezes. Especialmente depois que papai morreu. Agora refúgio de Tamra. Eu entrei dando boas vindas ao calor. E parei congelada. Eu não era a única visita nessa manhã. Minha irmã relaxando no sofá. Um cobertor sobre ela enquanto ela segura uma caneca entre as mãos. Ela não parece mais como minha gêmea. Cabelo gelo, não mais vermelho, fluía pelos ombros dela. Ela ainda conseguia deixá-los perfeitamente arrumados, melhor
  54. 54. 54 do que jamais conseguiria deixar o meu cabelo. Eu me perguntava se Nidia tinha uma chapinha. Era incrível como uma nova cor de cabelo pode mudar tudo sobre ela. Até o rosto dela parece diferente, mal lembra o meu. Especialmente com esses olhos cinza congelados. Meu olhar foi para o visitante dela, sentando tão próximo, relaxado em um banquinho ao lado do sofá. Cassian sorria para minha irmã de um jeito fácil, sem barreiras. Era o sorriso que ele usava quando nós éramos crianças despreocupadas. Um pequeno arrepio percorreu pela minha espinha, deslizando pelo meu cabelo e ondulando pelo meu couro cabeludo. Eu me abracei como seu eu procurasse calor, mas era outra coisa, eu precisava de outra coisa. Eu olho para minha irmã sorrindo para Cassian e senti uma dor na boca do meu estômago. Naquele segundo, eu me senti mais sozinha do que nunca. Eu não poderia sentir mais falta de Will. Will entendia a solidão. Sobre ser a parte, separado do mundo que você habita. Um estranho entre seu próprio tipo. Will entedia isso. Ele me entendia.
  55. 55. 55 Nidia anunciou minha chegada: — Tão legal de sua parte nos visitar, Jacinda. Você gostaria de um chocolate quente? Eu assenti e rapidamente me encontrei sentada em uma cadeira com uma caneca na mão. Tamra ainda estava sorrindo, mas parecia mais insegura quando ela virou para mim, esperando eu falar. Naqueles estranhos olhos esconde a mesma cautela que eu sinto. Nós não sabemos mais o que dizer uma para a outra ou como se comportar. Nós não conhecemos uma a outra mais. Eu estive apenas supondo como ela se sentiu sobre se manifestar de repente. Eu realmente não sei. — É bom ver você em pé — eu finalmente disse, e então menti. — Você parece bem. — Eu me sinto bem — Tamra respondeu em uma voz que soava amigável, mas distante. Eu queria acabar com essa distância. Sentar perto dela e lembrá-la o que nós éramos uma para outra. — Nidia está tomando conta de mim muito bem. — Nós sabíamos que ela iria. — Cassian ofereceu, e eu queria socá-lo. Nós? Eu me mordo impedindo a réplica de que nós também teríamos
  56. 56. 56 cuidado bem dela. Mamãe e eu. Nós sempre cuidamos uma das outras... Exceto que o clã não nós deixaria mais. Eu não tenho certeza quem eles consideram uma pior influência: mamãe ou eu. Eu encarei a pálida versão de luz da lua da minha irmã e refleti se ela ainda iria querer ficar com a gente. Será que ela sente nossa falta? Será que ela quer ficar aqui? — Você parece bem também, Jacinda. — Tamra adicionou, e eu sabia que ela estava mentindo. Ela nunca foi fã do meu guarda-roupa de camiseta e jeans. E o resto de mim... Eu dei a mim mesma uma inspeção rápida enquanto eu escovava meus dentes essa manhã. As sombras abaixo dos meus olhos pareciam contusões, mesmo meus lábios pareciam pálidos, sem cor. É engraçado pensar que eu pareço com o meu pior aqui, nas montanhas frescas que sempre me revitalizaram tanto, nas brumas e nas montanhas que eu pensei que precisava para manter meu draki vivo. — Obrigada — eu disse. — Eu começo meu treinamento amanhã. — Tamra se colocou um pouco mais alta na almofada do sofá. — Com a Nidia e Keane. Eu assenti. Keane é o melhor lutador do clã. Nenhum draki voa alto sem passar pelo menos uma vez nas cordas com ele. — Eu aposto que você está ansiosa por isso — então eu sorri, realmente feliz que ela vai saber como é voar. Que ela iria experimentar o vento, o céu e as nuvens. Eu sei como isso é maravilhoso e agora ela também irá. Pelo menos nós teremos isso em comum. Ela irá entender sobre o que eu estive falando esse tempo todo, ela irá entender por que eu tive que manter meu draki vivo. É um conceito estranho. Eu consegui enrolar minha cabeça com isso enquanto eu encarava a estranha que minha irmã se tornou. Tamra voando. Tamra finalmente entendendo por que eu não conseguia desistir. Por que eu não consegui deixar meu draki esvaecer. Nidia falou então, e suas palavras eram como uma onda de vento frio:
  57. 57. 57 — Eu sei que vocês duas estão destinadas a grandes coisas. Vocês são crianças tão especiais... E gêmeas são tão raras entre nosso povo. — Meu olhar foi para ela enquanto ela sentava no assento da janela, e pegava o tricô descartado dela. Agulhas faziam click, clack enquanto ela sorria e balançava a cabeça, claramente satisfeita consigo mesma. — Uma respiradora de fogo e uma Shader. Diversos raios de luz passaram direto através da janela para as costas dela. O cabelo prateado dela refletia como se diamantes estivessem enterrados na densa massa. — Eu ainda não posso acreditar nisso. — Tamra disse maravilhada, aparecendo atordoada e um pouco tonta. — Acredite. — Cassian disse, apertando os ombros dela. Eu encarei a mão larga dele, as pontas arredondas dos dedos nos ombros delicados dela, e eu não consegui parar de imaginar se ele já havia tocado nela antes. Eu sei que ele não fez nos últimos cinco anos. Mas eu imagino que antes disso, então. Quando nos éramos crianças, quando você só gostava de quem você gostava e brincava junto. As coisas eram simples então. Antes de eu me manifestar e Tamra não. Antes de ela se tornar um draki disfuncional aos olhos do clã. Eu respirei profundamente e disse para mim mesma que estava tudo bem se ele tocá-la. Isso não significa nada, e mesmo se significasse, mesmo se Tamra acabar ficando com Cassian, seria tão ruim assim? Ela iria conseguir o que - quem - ela sempre quis. Eu não posso invejá-la por essa felicidade. Não quando ela teve tão poucas até agora. E isso não significa que eu irei terminar com Corbin. Não importa o que ele disse. Eu ainda poderia ser a respiradora de fogo do clã sem me unir a ninguém. Corbin estava errado sobre isso. Umedecendo meus lábios eu disse: — Eu devo um grande obrigado a você Tamra. Ela piscou seus olhos congelados:
  58. 58. 58 — Pelo que? — Por nos salvar em Chaparral. — Por me salvar aqui, eu penso, mas não falo. Sem ela, o clã provavelmente teria desencadeado toda sua raiva em mim. — Você está me agradecendo? Isso é inesperado. Eu não achei que você apreciaria se eu mexesse nas memórias de Will. Eu inspirei. — Você fez o que precisava ser feito. Eu sei disso. — Yeah. Eu fiz. Eu estremeci, certa de que ela estava implicando que eu não fiz. Eu não fiz o que deveria ter feito. Eu me manifestei diante dos caçadores para resgatar Will. Ela não concordaria em me perdoar por ter feito isso. Eu olhei desconfortavelmente para Nidia na janela. Concentrada no tricô, mas eu não sou tão idiota para pensar que ela não está observando cada palavra dita e não dita. Como se para ter certeza que eu entendi o que ela quis dizer, Tamra perguntou: — Mas você não fez, fez? Você não fez o que deveria ser feito. — Tamra — Cassian disse advertindo. Como se ele estivesse tentando me proteger. Da minha própria irmã. A ironia disso não estava perdida, eu passara anos protegendo Tamra dele. Mesmo ele não sabendo disso, ele a machucava constantemente com a sua fria indiferença. — Fique fora disso. — Eu rosnei. — Venha, Cassian. — Com uma balançada de cabeça, Nidia levantou e foi até a porta. Cassian assentiu. Juntos, eles foram para fora, nos deixando sozinhas para conversar. Eu fiquei mais próxima do sofá.
  59. 59. 59 — Eu não quero brigar com você. Seus traços ficaram mais suaves. — Nem eu. — Então — eu disse sem muita convicção, sentando na frente dela. — Como você está indo? Como você está lidando com tudo... isso? — Muito bem. — Ela olhou para fora enquanto o ar ficava cada vez mais enevoado. Depois de um minuto ela olhou de volta para mim com os olhos congelados dela. — Venha com a gente hoje à noite. Nós nunca voamos juntas. Eu quero você lá. — Claro — eu concordei. Voar sempre revigorava meu espírito, me dava força, eu podia usar isso hoje. — Quando Nidia irá começar a treinar você? — Na verdade a gente já começou — ela disse com uma risada. — É basicamente ela falando muito e me dando ocasionais demonstrações. Ela disse que eu vou começar a tentar logo. Eu não podia pensar um melhor jeito de entrar no assunto. — Sobre isso, quantos danos você acha que fez naquela noite? Ela piscou com aqueles olhos cristalinos, parecendo estar em outro mundo. Como se aqueles olhos olhassem para mim através de um véu enquanto a real Tamra se escondia atrás dele, enterrada longe. — Dano? Eu estremeci. Tarde demais, eu percebi que devia ter escolhido uma palavra melhor. Uma palavra que retomasse coisas boas. O talento dela é um dom. Cada talento draki é um dom. Isso é o que nos é ensinado desde a escola primária de todo jeito. Mesmo os melhores talentos criados para machucar. Como os respiradores de fogo. Ela é uma Shader. Um draki que não precisa machucar
  60. 60. 60 ninguém para proteger e salvar vidas. Eu gostaria de ser tão sortuda. Eu tentei me recuperar rapidamente. — Eu quero dizer se você sabe a extensão do que... — eu movimentei uma mão, — do que você fez naquela noite? Ela olhou intensamente com os olhos fantasmas dela, me fazendo contorcer. — Você limpou as memórias deles, mas você sabe o quanto você apagou? — eu puxei a borda da almofada. — Você tem alguma ideia... — Isso é sobre o Will, não é? — ela passou a mão no cabelo prateado dela. — Você que saber o quanto de você eu apaguei das memórias dele, é isso não é? O som afiado dela nas minhas orelhas me fez ficar nervosa... Como um elástico pronto para ser solto e bater direto no meu rosto. Eu balancei minha cabeça, sabendo instantaneamente que eu não iria querer ouvir o que ela estava para dizer. — Nã-não... — Você não deixou nada disso para trás, deixou? — ela perguntou calmamente, mas as palavras soavam como se ela estivesse gritando. — Você ainda está presa a ele. — Não — eu neguei, mas a minha voz soava pequena e fraca. Eu não consegui nem me convencer. — Isso não é a verdade, eu sei que eu tenho que deixá-lo, mas eu não posso apenas desligar isso. Eu gostaria disso. Ela suspirou. — Eu acho que posso entender isso. Eu quis alguém por muito tempo que eu não tinha chance nenhuma de conseguir. — Ela estava falando de Cassian, obviamente. — Mas você nunca pode esquecer que ele é um humano. Você não pode continuar amando um cara que caça nossa espécie. Um suspiro afiado de ar surge atrás de mim. Fiquei em um pulo em meus pés e virei, dando de cara com Az e Miriam, irmã da
  61. 61. 61 Cassian, na porta da frente. Nidia estava atrás delas, sua expressão de choque e remorso. — Tamra, você tem mais... Visitantes — ela disse sem jeito. Cassian estava lá também, elevando-se sobre todos eles. O olhar nos olhos dele me fez sentir idiota e patética. Eu fecho os olhos em sofrimento, de repente desejando que Az soubesse sobre Will através de mim e não andando deste jeito para verdade. Eu abri meus olhos novamente vendo o rosto dela, sentindo meu estômago contorcer. Eu fiz um movimento em direção a ela. — Isso é verdade? — ela demandou, olhando apenas para mim. — Você se apaixonou por um caçador? Um desses... cachorros que nos perseguiram na floresta? Que tentou nos matar? Eu conseguia ver nos olhos dela que a memória disto ainda a perseguia, e eu sabia com uma contorção doentia no meu coração que ela nunca acreditaria que Will era outra coisa se não um animal. — Por favor, Az. Deixe-me explicar. Will não... — Isso não tem preço. — Miram nos cortou com prazer. — Miram — Cassian repreendeu a sua irmã. Ela apenas deu os ombros. Az deixou a cesta dela cair, ela estava chorando. Frutas e muffins caíram no chão enquanto ela virava e fugia. — Az — eu sussurrei, o olhar de traição no rosto dela penetrou na minha mente. Outra memória de culpa. Miram ficou. Um sorriso irônico surgiu no rosto dela, ela estava mais animada do que eu jamais havia visto. Visiocrypter não mostram muito suas emoções. Eles não demonstram quase nada. Faz parte da natureza deles. Tranquilos, como cabelos cor de areia e olhos da mesma cor. Eles são indescritíveis, feitos para se misturarem a qualquer ambiente. — Oh, isso é tão bom — ela disse, — eu mal posso esperar para
  62. 62. 62 contar para todo mundo. — Miram — Cassian disse advertindo ela, mas ela já havia ido. Ela se moveu tão rápido, que eu não tinha certeza se ela apenas ficou invisível. Cassian se moveu para o meu lado e olhou para baixo para mim. — Eu irei falar com ela. Por um momento, eu me deixei absorver sua proximidade e me confortar com as palavras tranquilizadoras. Então, eu parei e dei uma pequena chacoalhada na minha cabeça. Mesmo se Cassian quiser fazer isso, eu não posso esperar que ele controle sua irmã mais nova. Mesmo assim, enquanto eu assistia ele tomar longos passos em direção a porta, eu não pude me conter de ter esperanças que ele poderia fazer com que ela não espalhasse o que o próprio Cassian tentou manter em segredo do clã. Para o meu bem. Mas eu duvidava que ele conseguisse. Miram nunca foi minha fã. Combinado com o amor dela por fofoca essa notícia provavelmente já foi espalhada por metade da cidade. E ela é uma Visiocrypter. Ela pode ficar invisível toda vez que ela desejar. Por mais que eu odeie estereótipos, tais draki são traiçoeiros de natureza. O que Cassian estava tentando era me poupar do inevitável. Todo mundo saberia que a respiradora de fogo do clã deu o coração dela para um caçador. Eu posso ter sido perdoada e ter sido poupada de cortarem minhas asas, mas isso nunca será esquecido, nunca mais eu serei vista como alguém que realmente pertence aqui. Pânico surgiu no meu peito enquanto eu escutava os passos de Cassian desaparecerem para longe. Eu me apressei até a porta e olhei para ele até ele desaparecer na névoa da manhã. Eu me virei, eu olhei para o olhar de pena de Nidia. Desde quando eu virei alguém que se deve ter pena? Isso é algo novo. Evidentemente, eu não sou mais para ser invejada. Tamra olhou para baixo para sua caneca, incapaz de encontrar meu olhar. A
  63. 63. 63 inquietação nervosa nas mãos dela me dizia o quanto ela se sentia culpada pelo o que ela disse que Az e Miram ouviram. — Hey — eu forcei minha voz para soar normal, até mesmo alegre. — Não fique assim tão triste. Ela levantou o olhar dela. Os olhos dela brilhavam como gelo. — Eu sinto tanto, Jacinda. Pelo o que eu disse... Pelo que elas ouviram... Eu me movi, indo até ela e me abaixando ao lado do sofá e a abraçando. — Isso não é sua culpa. — Eu fazia pequenos círculos em suas costas. — Nada disso é sua culpa. A única pessoa que eu podia culpar era eu mesma. Escola no clã não é nada como no mundo humano. Nós vamos a ela o ano todo, mas nunca o dia inteiro, apenas alguns dias da semana, dependendo do curso. Todos têm tarefas que atender para que o clã continue funcionando. Nós cultivamos vários alimentos, deixamos linhas nos córregos das montanhas para pescar peixes, ocasionalmente caçamos carne. Nós também reparamos e fazemos a manutenção da nossa estrutura, nossas cercas, e claro, da nossa parede lá de fora sempre cultivada para parecer pertencente ao terreno de selva. Mesmo que nós compramos esporadicamente suprimentos no mundo humano, o clã precisa ser autosuficiente. Isso é por que, depois das minhas aulas, eu vou para livraria fazer minha parte e retornar ao dever que foi me dado. Cuidar dos detalhes da biblioteca é uma das tarefas mais almejadas. É melhor que arar as plantações ou cuidar do esgoto do clã. A biblioteca fica ao lado da escola. Os dois prédios estão ligados
  64. 64. 64 por uma passagem. A porta dá um único sinal sonoro silencioso avisando que eu entrara ansiosa para ver a bibliotecária, Taya, uma das mais antigas draki de terra no clã. Ela não fala muito, preferindo as páginas de um livro a uma real companhia, mas nós compartilhávamos uma camaradagem durante os anos que eu fui resignada para ser a ajudante dela. Eu sempre a achei um fonte de informações. Ela não é simplesmente a bibliotecária do clã. Ela também serve como uma historiadora, responsável por arquivar qualquer evento significante no Livro de Tradições do clã. Ela levanta o olhar deste livro, a caneta posicionada em sua mão em cima do enorme volume de couro. A página vira sem nenhum toque, abaixando suavemente como uma batida de asa de mariposa. Ela nunca realmente toca a página. Como um draki de terra ela tem influência sobre qualquer material originado da terra. Já que a página de um livro deriva das árvores, ela praticamente não tem que segurar nada diretamente em toda biblioteca. Ela aperta os olhos enquanto eu me aproximo, o único draki que eu conheço que precisa de óculos. Como todos os draki têm uma excelente visão, eu tenho certeza que isto é uma consequência dos séculos que ela passou debruçada sobre os textos em luz baixa. — Jacinda — ela disso ocamente, em um tom que eu nunca ouvi dela antes. Ela não mudou sua expressão, nem um único movimento. Ela nem ao menos se mexeu em sua mesa. Ela estava completamente indiferente comigo. E eu sabia que ela sabia... Provavelmente ouviu os sussurros espalhados pelas enevoadas do clã desde ontem. Eu passei a maior parte do dia escondida, esperando com todas as esperanças que Cassian conseguisse conter sua irmã. Mamãe havia saído, mas quando ela voltou, eu vi o olhar em seu rosto carrancudo e sabia que o trabalho de Miriam foi bem sucedido. — Oi Taya — eu parei para inalar profundamente o cheiro de livros e mofo me dando boas vindas. — Eu senti falta desse lugar. Um silêncio estranho permaneceu no ar.
  65. 65. 65 — Então — tento dar um sorriso. — O que você tem para mim hoje? Taya piscou. — Ninguém te disse nada? — Disse-me o que? Seus lábios se contorceram com infelicidade, não por causa de qualquer que fosse a notícia que ela iria dar, mas por que ela teria que contar. — Sua posição foi preenchida. — Preenchida? — eu ecoei. — Isso mesmo — ela assente rapidamente. Então eu ouvi algo. Meu coração afunda quando um suave zumbido agitado surge na quietude da biblioteca. É um ritmo, uma batida pouco notável, e instantaneamente eu sabia a quem pertencia isso e este alguém estava prestes a virar na esquina. Miriam apareceu carregando uma pilha de livros. Ela parou quando ela me viu, seu rosto nada revelando. Naturalmente. — O que você está fazendo aqui? — os lábios, quase da mesma cor que sua estranha pele neutra mal se moveram. — Eu trabalho aqui. Pelo menos eu pensei que trabalhava. — Você pensou errado. Várias coisas mudaram desde que você partiu. — Eu estava começando a ver quantas. Taya olha para trás e para frente entre Miram e eu. Essa é provavelmente a maior conversa que ela tem em semanas. Com um sorriso leve e um encolher de ombros de desculpa, sem nenhum arrependimento real, ela retorna ao trabalho. — Tchau — Miram moveu os dedos dela para mim. Sem uma palavra, eu virei e fui direto para porta, passei pela escola, ignorei os olhares, os sussurros indiscretos e dedos

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