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Era suposto que Jacinda tivesse um vínculo com Cassian, o
“Príncipe” do seu orgulho. Mas, ela resistiu muito antes de se...
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Dedicatória
A você, leitor fiel.
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Epígrafo
Meu amor por você é uma jornada.
– Anônimo
6
O ar quente se prendeu dentro de meus pulmões quando eu pairei do
lado de fora da van, espreitando seu interior, estudan...
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— Não. Isso vai funcionar. — A ideia foi minha. É claro que eu
acredito nisso. Convenci-os todos, reagindo a seus protes...
8
nova. Quando ele finalmente olha, eu aceno com a cabeça para ele. Ele dá um
leve aceno de volta.
Eu rodo um dedo em um p...
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Suas mãos me envolvem em torno de minhas costas. Eu o beijo até que
a queimadura familiar começa no meu interior e se ar...
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enviam os caçadores atrás dos da minha espécie. Finalmente seus rostos serão
revelados para mim. Uma respiração trêmula...
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metal frio e as mantenho lá, como se eu pudesse de alguma forma alcançá-lo,
senti-lo do outro lado. Ele. Não Cassian.
U...
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algo maior, alguma coisa a mais para mim. A busca pela verdade. Will sabe
disso. Eu não acho que Tamra percebe, ou mesm...
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que as amarras se afundavam em minha carne, cortando minha circulação,
eu empurrava de lado os pensamentos de Tamra e m...
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Cassian. De pé ali, com eles. A ironia não tinha se perdido em mim.
Um desejo ridículo de rir borbulhou na minha gargan...
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Eles devem ir. Eu sei que isto está matando a ambos e eu não posso
arriscar qualquer um deles mostrando o menor sinal d...
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Eu estou me movendo. Eu não posso mais ver Will ou Cassian.
Mas o medo e a frustração de Cassian ainda me alcançam. O g...
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Agora sou só eu e os meus sentimentos, mas pelo menos não tenho
mais que escapar de minhas emoções e lutar para separar...
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Eu realmente sou um animal para eles. Menos do que isto. Um toque
de desgosto se esconde em seus olhos, mas também um t...
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possa processar que sou eu. Talvez ela tenha sido drogada. Quem sabe o que
eles fizeram com ela.
Então, eu não posso ma...
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— Acha que esse aqui é o mesmo?
— Sei lá. Não importa. Meu ponto é que ela escapou deles. Não
subestime esta. Agora, va...
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Eu deito no chão, tremendo, minha barriga ainda pulsando no lugar
de onde o bastardo me machucou. Os efeitos do choque ...
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câmeras nos cantos possam perder. Eu odeio isso. Que eu nunca possa fazer
um movimento sem ser notada.
Eu começo a junt...
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Nada. Eu pensei que a menção de seu irmão iria acordá-la como nada
mais poderia. É por isso que eu entrei. Além de esta...
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— Não, eu não desisti. — Ele soa indignado agora. Melhor do que a
draki do meu outro lado que soa meio louca com seu su...
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— Se eles não te pegarem, o cinza irá.
Ela soa como uma criança, eu penso, angulando minha cabeça. — O que
você quer di...
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— Prepare-se! — O draki macho que falou comigo ordena.
Preparar-me? Preparar-me para quê?
Mesmo assim, meus músculos se...
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Com essa constatação, tudo dentro de mim fica preso. Eu me lembro
do aviso sobre o draki cinza.
Fique longe dele...
For...
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um draki que não pertencia a meu clã antes. Historicamente, os clãs são
incontroláveis, tribos em guerra. Isso é o que ...
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Eu tento me lembrar do que o novato fez para sobreviver, porque,
claro, ele é o herói que chega ao fim. Assim como eu p...
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mim. Eu sou rápida, mas ele também é. Vai, vai, vai, vai eu desejo por meus
lábios em um mantra interminável.
A ideia d...
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sim, ele está atrás de mim de novo, implacavelmente me perseguindo. Eu não
paro dessa vez. Eu atiro fogo para trás, por...
32
Vários deles envolvem o draki cinza. Mesmo em seus ternos, não
colocam a mão sobre ele, e eu acho que é porque ele rasg...
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— Ei, Jacinda! — O sussurro alto penetra meu nevoeiro de
pensamentos. É a draki jovem que falou comigo antes. — Você es...
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Uma draki da água como Az. Uma pontada golpeia perto do meu coração
quando eu penso em minha amiga de infância. Lembro-...
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— O que ele é? De onde é que ele vem?
— Ele não é como qualquer um de nós.
— Considerando que seu primeiro impulso é o ...
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podem ter tido algo a ver com Papai ter sido tomado de mim. Mesmo que
eles não o tenham feito, eles precisam ser parado...
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— Brava? — A voz familiar finalmente rachou através do ar. — Por
que eu estaria brava? Você só me fez ser capturada por...
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Roc apenas murmura: — Vamos ver —, mas eu posso ouvir um fio
tênue de esperança em sua voz.
— O que eu preciso fazer pa...
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Meu olhar ficou embaçado quando eu fiquei muito tempo encarando o
Plexiglas. Eu pisquei meus olhos doloridos e desviei ...
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Pela primeira vez eu preciso que a ligação entre a gente funcione. Ele é
a minha única conexão com o lado de fora. Com ...
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Eles sorriem, achando graça da minha explosão.
— Eu acho que ela nos entende. — O Comedor de Sanduíche concorda
como se...
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Abaixando minha cabeça, eu fecho meus olhos de novo e eu sou
sugada novamente para dentro da visão nebulosa. Com Will e...
43
A conexão começa a se dissipar, mas eu estou confortada. Aliviada.
Não vai demorar muito mais. Eles virão nos buscar.
E...
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apenas com meus colegas draki (exceto um, claro, que preferia me matar) e
sentindo saudade do céu, estou sentido o abis...
45
Eu achato minhas mãos contra a parede novamente e balanço a cabeça
de um lado para o outro como se eu pudesse fazer tud...
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com isso. Eu apenas digo a mim mesma que eu tenho que continuar. Eu
tenho que aguentar até Will chegar aqui.
Os rostos ...
47
Eu caio de joelhos, o impacto abalando profundamente meus ossos.
Alguém está atrás de mim. Eu ouço a alta descamação de...
48
Eles me amarram, me prendem com tiras de couro nos tornozelos e
nos pulsos.
E como se isso não fosse o bastante, uma fa...
49
viro minha cabeça, dispensando o toque dele. Ele estala a língua e olha para
os outros.
Ele continua no seu tom apazigu...
50
Eles olham através do vidro curiosamente, como espectadores em um
circo vindo testemunhar uma aberração. E eu acho que ...
51
Eu luto, me virando na direção oposta. Minha cabeça é forçada a voltar
para o lugar com mãos duras enquanto a tira gros...
52
Ele pega a pinça e abaixa a gaze na minha cabeça.
Eu faço uma careta, incerta do que é, mas me preparo para o
desconfor...
53
É assim que deveria acontecer. Essa é a maneira que supostamente era
pra acontecer.
Só que não acontece.
54
O médico me corta, empurrando a lâmina profundamente em minha
pele, passando pelos tecidos. Sangue quente se esvai livr...
55
Ele se move devagar, com cuidado, seus movimentos precisos e
experientes enquanto ele lida com o pequeno disco, e eu nã...
56
Uma camada de temor drapeia na sala. As luzes de emergência voltam
a piscar. Um brilho vermelho escuro permeia o ar, le...
57
Eu me agito contra minhas amarras. Sem esperança. Meu olhar se fixa
na sala de vidro, onde meu público estava. Vazia ag...
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coisa da mesma maneira, nunca tomarei nada nem ninguém sem
consentimento.
Will estremece e roça seu polegar sobre minha...
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unidos e tão próximos quanto dois draki podem estar, emocionalmente
ligados, nós não estamos... juntos.
Não da maneira ...
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Não vemos ninguém nos arredores, e eu estou esperando,
fervorosamente, que todos os draki ainda estejam dentro de suas ...
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Eu olho para Tamra. Ela virou-se para mim, mas está apontando para
a cela de Lia sobre o ombro. A mensagem em seus olho...
62
ideia numa emergência. Se a energia acabasse, estaríamos presos dentro
deles.
— Esperem!
Paramos, observando enquanto L...
63
Eu angulo minha cabeça, estudando-a. Para alguém tão jovem, ela é
sabia.
— Ele é louco, — Miram sussurra fervorosamente...
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Nós corremos por outro corredor, pés e sapatos batendo duro no
ladrilho. Eu olho para Tamra. Seu cabelo branco parece v...
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Parece que ninguém diz nada por algum tempo, mas não pode ser
mais do que trinta segundos. Nós só olhamos em uma espéci...
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Balanço a cabeça e me concentro no caminho diante de mim, os golpes
constantes de meus pés, ignorando o sussurro na par...
67
onde paramos. É tudo imaginação. Não há nada atrás de nós além de uma
sala confusa tingida de vermelho. Quando eu me vi...
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Tamra ataca o botão sem luz do elevador como se pudesse de alguma
forma fazê-lo funcionar. — Seja lá o que eles estão t...
69
Essa ideia me dói fisicamente. Eu respiro profundamente. Pode ser
que eu sinta Cassian, mas eu quero Will.
Eu ando em d...
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Seus lábios são frios, também. Secos e frios enquanto eles se movem
contra os meus. Isso não me intimida – nenhuma das ...
71
Eu sondo mais a fundo, sentindo-o lá dentro de mim... tentando pegar
o que quer que o esteja levando a agir tão loucame...
72
bochecha. Eu aperto a mão no lugar. O cimento começa a dar lugar à terra
batida, um solo marrom escuro que cheira argil...
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Um olhar em seus olhos cor de avelã e eu sei. Eu entendo o que ele
quer dizer. Eu o vejo novamente como eu o vi lutando...
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um momento, eu acho que é uma súbita corrente de gás disparando da
tubulação acima de nós. Não mais uma morte lenta hes...
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A de Cassian não está.
Will se obriga e outro boom sacode o ar, irradiando do solo e subindo
até minhas pernas. Uma ond...
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  1. 1. 1
  2. 2. 2
  3. 3. 3 Era suposto que Jacinda tivesse um vínculo com Cassian, o “Príncipe” do seu orgulho. Mas, ela resistiu muito antes de se apaixonar por Will — um ser humano e, pior, um caçador. Quando ela fugiu com Will, ela terminou em um desastre, com a irmã de Cassian, Miram capturada. Atormentada pela culpa, Jacinda sabe que ela deve resgatá-la para fazer as coisas certas. Mas, para fazê- lo, ela terá que aventurar-se profundamente no coração do território inimigo. A única forma de Jacinda poder alcançar Miram é colocando-se como uma prisioneira, embora, uma vez que ela assume seu disfarce, as coisas rapidamente se movem em espiral para fora de seu controle. Quando ela passa a aprender mais sobre seus captores, ela percebe que mesmo que Will e Cassian possam executar suas partes do plano, não há nenhuma garantia que todos voltarão vivos. Mas, o que Jacinda nunca poderia prever é que a fuga seria apenas o começo… Lealdades são testadas e sacrifícios feitos na conclusão explosiva da trilogia Firelight da Sophie Jordan.
  4. 4. 4 Dedicatória A você, leitor fiel.
  5. 5. 5 Epígrafo Meu amor por você é uma jornada. – Anônimo
  6. 6. 6 O ar quente se prendeu dentro de meus pulmões quando eu pairei do lado de fora da van, espreitando seu interior, estudando as profundezas sombrias, tão parecidas com outra van há não muito tempo atrás. Esta está vazia, mas em breve eu vou ocupar o seu espaço. Sozinha. Meus olhos começam a queimar por encarar tão firme o lugar onde logo estaria presa e eu pisquei rapidamente. Esta é a minha escolha, eu lembro a mim mesma. — Você não tem que fazer isso —, diz Will, segurando a minha mão, os dedos roçando para frente e para trás contra o interior do meu pulso, fazendo minha pulsação dar um salto para a vida, e de repente eu me lembrei de como respirar. Com ele, tudo é sempre mais fácil. Suportável. Mesmo isso. Eu concordo, mesmo que o medo se contorça como um ferro quente dentro de mim. Livrar minha mão da dele e me agarrar à beirada da porta exige tudo de mim. — Sim. Eu tenho. — Nós podemos pensar em outra coisa –
  7. 7. 7 — Não. Isso vai funcionar. — A ideia foi minha. É claro que eu acredito nisso. Convenci-os todos, reagindo a seus protestos até que eles concordaram. Will. Cassian. Tamra. Nós já tínhamos chegado tão longe. Deixamos minha irmã várias milhas para trás, esperando, escondida até que Will e Cassian retornem para ela. A expressão de Will se aperta, fazendo-o parecer mais velho cansado. Mas ainda extremamente bonito. Eu pisco e aliso meus dedos contra seu rosto, ao longo de sua mandíbula quadrada, fios de barba por fazer. — Vai ficar tudo bem, — eu o tranquilizei. — Basta seguir com o plano. —Não faça nada estúpido lá... não tente dar uma de herói — Eu pressiono meus dedos em seus lábios para silenciá-lo e saborear a textura firme e fria. Seus olhos se abrandam, o ouro, marrons e verdes como uma floresta no outono. Algo se abre em meu peito como sempre acontece quando ele olha para mim desse jeito. Puxando uma respiração profunda, eu olhei para Cassian, autoconsciente de que ele está nos observando. Mas ele está olhando para a linha das árvores, um sapato chutando o chão. Mesmo assim, eu posso senti- lo através da nossa consciência comum um com outro. Ele está tentando duramente dar a Will e a mim nosso espaço, mas eu sinto sua vívida concentração para evitar olhar para nós... sua luta para esconder o aborrecimento contorcendo-se através dele. Eu espero que ele dê uma olhada. Talvez eu mesma deseje que ele o faça. Eu não sei. Essa coisa toda de nós-compartilhamos-uma-ligação ainda é
  8. 8. 8 nova. Quando ele finalmente olha, eu aceno com a cabeça para ele. Ele dá um leve aceno de volta. Eu rodo um dedo em um pequeno círculo e digo alto o suficiente para que fique claro que eu estou me dirigindo os dois, — Agora virem-se de costas. O menor sorriso ergue-se da boca de Will, mas ele se obriga. Cassian também. Com as costas deles para mim, tiro minhas roupas, com foco em meus movimentos, cada um deles calculado – desamarro meus sapatos, saio do meu jeans. Eu dobro a roupa perfeitamente em uma pilha, tomando cuidado extra... como se esta ação fosse de extrema importância. Eu acho que estou protelando. Nua, eu encaro as costas de Will. O algodão cinza macio, esticado sobre seus ombros fortes. O ar desliza sobre mim e o sol beija minha carne. É quando eu supostamente devo subir na van e fechar as portas. É quando nos dirigimos para a cova do leão. Aonde eles vão me deixar. Abandonar-me – a meu pedido. Se as coisas derem errado... Eu me dou uma sacudida mental. Não pense nisso. Minha garganta aperta de qualquer maneira. De repente, o recato não importa tanto. Eu agarro o ombro de Will e o forço a se virar, fixando meus lábios nos dele em um beijo que se parece muito com um adeus. Dou-lhe tudo. Eu coloquei a memória de nós nele. Tudo o que nós já passamos. Nosso tempo em Chaparral. Sua família – caçadores –tentando me destruir. Perder Miram. Corbin tentando matá-lo...
  9. 9. 9 Suas mãos me envolvem em torno de minhas costas. Eu o beijo até que a queimadura familiar começa no meu interior e se arrasta até minha traqueia. Com meu rosto vermelho quente, eu fujo ofegante, nostálgica. E nua. Seu olhar flutua para baixo, não perdendo nada antes de olhar novamente para cima. Seu peito se ergue alto numa inspiração. Minhas bochechas queimam mais quentes, mas eu ainda hesito. Uma crua emoção pisca em seus olhos cor de avelã e eu sei que eu tenho que ir. Eu tenho que ir, ou eu nunca irei. Eu salto na van e começo a puxar as portas, fechando-as. Sua voz me impede. — Espere. Eu aperto meus olhos, olhando para ele. — Você tem que se manifestar. — Ele segura as portas. — Ah. — Como me esqueci? Nós temos que fazer isso direito. Isca no anzol. Eu desço. Parada ali, eu forço a mudança. Com minhas emoções elevadas, meu corpo enrubescido e latejante em reação a Will, não leva muito tempo. Eu me manifesto rapidamente, minha pele estalando com força, minhas asas empurrando-se livres com um estalo fraco no ar. Will olha para mim um momento, sua admiração evidente. Isso me envolve, derrete-me por dentro ver que ele ainda pode olhar para mim, em minha forma draki, me apreciando. Assim como ele fez na primeira vez que me viu. Como se eu fosse algo bonito e não a criatura que sua família caça. É um estímulo útil para a minha confiança quando eu estou prestes a enfrentar os bichos-papões nebulosos da minha infância – os enkros – aqueles que
  10. 10. 10 enviam os caçadores atrás dos da minha espécie. Finalmente seus rostos serão revelados para mim. Uma respiração trêmula e apertada ondula através de mim. Will amarra meus pulsos rapidamente, mas com cuidado, e depois as minhas asas. Ele evita meus olhos enquanto ele trabalha, como se ele não pudesse suportar fazer isso comigo. Eu sinto a mudança vindo de Cassian quando ele se vira. Dúvida irradia dele enquanto eu estou amarrada como uma prisioneira diante de seus olhos. Will olha para meu rosto enquanto me ajuda a voltar para a van. Eu ofereço um sorriso. Ele se sente fraco, e forçado, por isso deixei o sorriso escapar e apenas me comunico com os meus olhos. Isso está certo. Então eu viro, me posicionando de costas para ele. Assim, ele não pode mais ver meu rosto. Assim, eu não vejo o dele e volto atrás. Eu o sinto esperar, hesitar atrás de mim, assim como eu sinto as ondas de preocupação roendo e rolando por Cassian. Mas eu não vou olhar para trás. Não para qualquer um deles. Eu não posso. Se eu olhar, eu tenho medo de que eu vá desabar, me dobrando na menina que tremia sob as cobertas quando Az sussurrava histórias no escuro, sobre os enkros e as coisas terríveis que eles faziam para os draki que eles capturavam. Nós não temos nenhuma maneira de saber ao certo porque nenhum dos draki jamais voltou para casa. Finalmente, Will empurra as portas fechadas em mim, selando-me dentro da van. Por um momento, eu pressiono minhas mãos trêmulas no
  11. 11. 11 metal frio e as mantenho lá, como se eu pudesse de alguma forma alcançá-lo, senti-lo do outro lado. Ele. Não Cassian. Um momento depois, portas batem quando Will e Cassian sobem na frente. Então, nós estamos nos movendo. A van faz barulho à minha volta. Eu encontro um lugar para me sentar no chão encardido e me abraço com força, meu estômago em nós. Inalando respirações profundas, eu espero a van parar e para isso começar – a batalha que eu esperei minha vida inteira para lutar. A viagem atribulada esvazia um pouco a minha coragem. É tudo tão familiar que eu questiono a minha sanidade em me voluntariar para passar por isso novamente. A parte de trás da van parece claustrofóbica. Pouco ar. Não há espaço para me mover. E eu estou incapacitada. Amarrada como nos meus piores pesadelos. Minha mente se crava nisso, fixada na memória da última vez que eu era prisioneira em uma van como esta. A última vez... É a razão pela qual eu estou aqui, afinal de contas. Eu tomo pequenos goles de ar, lutando para manter a calma e prometendo a mim mesma que eu estou no controle dessa vez. Balançando a cabeça, eu tiro os fios emaranhados de cabelo do meu rosto e tento manter o equilíbrio enquanto tomamos uma curva acentuada. Eu faço uma lista mental das diferenças para acalmar os nervos. Eu confio nos motoristas. Eles me darão cobertura. Eu sei para onde estamos indo – já vi nosso destino. E eu não estou com dor neste momento. Pelo menos não fisicamente. Mas eu também estou sozinha. Sem Miram. É por Miram que estamos fazendo isso – quem estamos salvando. Para ser honesta, ela é apenas uma parte do por que eu estou aqui. Isso se tornou
  12. 12. 12 algo maior, alguma coisa a mais para mim. A busca pela verdade. Will sabe disso. Eu não acho que Tamra percebe, ou mesmo Cassian, mas Will sabe que isso se trata de encontrar respostas. Encontrar meu pai. A van desacelera e para. Prendo a respiração, o ar sopra de meus lábios e nariz como neblina. Não é proposital. Eu não posso consertar isso – é o que eu sou: uma criatura que respira fogo. Agora mesmo a emoção me governa, tornando especialmente difícil ser qualquer outra coisa. Medo. Fúria. Dúvida. Eu estava brincando com Will quando eu disse que isso funcionaria? Iludindo a mim mesma? Tudo isso aumenta dentro de mim em um banho de carvão e cinzas, pronto para estourar livre em chamas e fogo. Vozes se transportam de fora da minha caixa de lata. Em momentos eu estarei por conta própria entre os enkros. Assim como o planejado. Eu espero, músculos tensos e vibrando sob minha pele draki. Minhas asas se puxam contra a sua amarra. Will fez um bom trabalho. Eu não poderia me libertar, se eu quisesse. E eu não quero. Esse não é o plano. O plano é que eu desempenhe o papel de uma verdadeira prisioneira. Por um momento, eu penso na minha irmã sozinha no quarto de motel, esperando que os rapazes voltem. Ela sorriu quando nos separamos, mas o sorriso não atingiu seus olhos. Ele não estava em seu coração. Umidade brilhava no seu olhar como de gelo e eu sei que ela começou a chorar assim que saí. Tamra era contra esse esquema todo, logo que eu o propus. Mesmo depois que eu convenci Will e Cassian, ela continuou a se opor. À medida
  13. 13. 13 que as amarras se afundavam em minha carne, cortando minha circulação, eu empurrava de lado os pensamentos de Tamra e minhas preocupações crescentes. Com determinação fresca, fixo meu olhar nas portas de trás da van e espero. Vozes passeiam pelo ar e eu acho que reconheço o som abafado da voz de Will. Ou pode ser apenas porque eu quero ouvi-lo muito, muito mesmo. Cassian está lá. Eu não preciso ouvi-lo para perceber isso. Eu posso senti-lo. Enquanto eu espero na sombra, sua raiva me atinge como um punho, rápida e feroz. Ele deve estar cara-a-cara com eles agora. Uma respiração sibilante escapa entre meus dentes quando sua raiva me cobre em um frio tão profundo que congela e queima até a medula de meus ossos. Para combater isso, eu alcanço meu interior pelo que eu sei – o que eu sou. Calor incha dentro de mim, arde num caminho até minha traqueia para enfrentar a fúria gelada de Cassian. Há um som metálico e o raspar de metal contra metal. Eu viro meu olhar para frente, observando enquanto a portas se abrem. A luz inunda minha gaiola de paredes de metal e eu levanto minhas mãos amarradas para proteger meus olhos. Espio por entre as fendas nos meus dedos e reconheço Will, olhando relaxado e à vontade, sem revelar nada. Pelo menos exteriormente. Um músculo vacila, cobre a carne de sua mandíbula, sinalizando sua tensão para mim quando ele fez um sinal com sua mão em minha direção. — Lá está ela, meninos... — Cassian permanece a poucos metros atrás dele com vários outros – indivíduos de jaleco que me espiam com olhos profundos, avaliadores. Enkros. Esta visão me abala. Eu não poderia ter me preparado para isso.
  14. 14. 14 Cassian. De pé ali, com eles. A ironia não tinha se perdido em mim. Um desejo ridículo de rir borbulhou na minha garganta. Eu me forço a me focar. A van está de ré em algum tipo de porta da garagem. Um longo corredor estreito, branco opaco, se estende diante de mim. Uma única porta de aço espera na extremidade. Não há nenhuma possibilidade de escapar para o mundo exterior, para o céu. Não que eu esteja aqui para escapar. Ainda não, de qualquer maneira. Um dos casacos de laboratório dá um passo à frente. Ele tem um bastão com um laço em torno do fim. Antes de eu perceber o que ele está fazendo, ele põe o círculo firme em torno de minhas mãos atadas e aperta ainda mais, arrastando-me da van com um puxão áspero. Eu pego apenas um vislumbre dos olhos determinados do homem, um azul tão pálido que parece incolor, antes de mergulhar da van e bater no chão frio. Caindo sobre meu ombro, eu grito de dor – ao mesmo tempo, me surpreendendo que estes homens pareçam tão normais em seus jalecos de laboratório. Como médicos ou pesquisadores e não a secreta ameaça que acompanhou minha vida por tanto tempo. Uma nova onda da raiva de Cassian se varre em mim. Tremo e tento removê-la. É debilitante – me faz querer lutar, para liberar tudo o que sou nestes enkros. E eu não posso. Um som escapa de Will. Algo entre um grunhido e um gemido. Quando eu olho para cima, o meu olhar se choca com o seu. Suas mãos se fecham a seus lados. Ele está mal se contendo. Eu dou um mínimo aceno com a cabeça, na esperança de comunicar que ele deveria se manter sob controle.
  15. 15. 15 Eles devem ir. Eu sei que isto está matando a ambos e eu não posso arriscar qualquer um deles mostrando o menor sinal de que eles foram afetados com meu tratamento. — Levante-se! Vamos! — O cara puxa o bastão e as amarras cortam meus pulsos tão profundamente que eu estou convencida de que se eu não me mover eu posso perder minhas mãos. Olhando para ele, eu estou impressionada com o desapego naqueles olhos azul pálido. Não há nada lá, nem mesmo o que eu esperava. Nenhum veneno, nenhuma malícia. Porque ele está despreocupado. Ele acredita que está fazendo a coisa certa. A cólera de Cassian continua seu caminho sinuoso através de mim. — Olhe para ela, — um dos casacos de laboratório exclama. Estou quase tentado a olhar para mim para ver do que ele está falando. Há um rumor de movimentos rápidos, em pânico, e então a minha boca está selada com fita adesiva antes mesmo de eu ter tempo para reagir. Eu acho que eles sabem o suficiente para saber o que eu sou. O que eu posso fazer. O jaleco está de volta. — Ora. Isso será por agora, até que ela seja processada. Ela não vai acender ninguém. Sufocada, eu grunhi. Meu olhar se virou freneticamente, procurando por Will, a necessidade de vê-lo de novo, apenas mais uma vez antes que eu seja levada e "processada". Outro puxão firme e eu me embaralho em meus pés. Sou puxada para frente rapidamente pelo corredor, passando pelos outros. Lâmpadas em armações de metal emitem um impiedoso amarelo.
  16. 16. 16 Eu estou me movendo. Eu não posso mais ver Will ou Cassian. Mas o medo e a frustração de Cassian ainda me alcançam. O gelo furioso dessas emoções me lava. Eu olho por cima do ombro para um vislumbre final deles. Cassian é uma estátua ainda, me encarando. Will está falando com um dos casacos de laboratório. Seu olhar desliza para mim uma vez, brevemente, e depois se distancia. Ele parece excepcionalmente pálido, sua mão esfregando o lado do pescoço, como se houvesse algo ali que pudesse apagar. Então eu chego ao final do corredor. Nós somos a porta e eu não consigo mais ver Will. Há apenas o que está à frente de mim agora. O elevador desce comigo dentro, cercada por meus captores. Eles ficam distantes de mim, se apertando contra as paredes, armas prontas. Mesmo com a boca colada, é tranquilizador saber que ainda me consideram perigosa. Eu sinto falta de Will e Cassian tão intensamente quanto a lâmina de uma faca. Mesmo que meu coração sinta a falta de Will, é o vazio de Cassian que eu sinto mais intensamente enquanto sua raiva fria desvanece, partindo com ele. E não é apenas a sua raiva que eu perdi. Sua preocupação, sua aflição e medo... suas dúvidas. Tudo isso se evapora como fumaça no ar.
  17. 17. 17 Agora sou só eu e os meus sentimentos, mas pelo menos não tenho mais que escapar de minhas emoções e lutar para separar o que sou eu e o que é Cassian. Eu não preciso fingir meu medo enquanto eu era levada para as entranhas da fortaleza. Eu não tenho certeza do que eu esperava... talvez um calabouço como um castelo? De qualquer maneira, as paredes brancas e teto brilhante iluminado não o são. O piso de ladrilho é frio e liso sob meus pés descalços, e apesar de eu geralmente preferir o frio, eu tremo. Esse não é o macio chão frio da floresta com agulhas de pinheiro e de solo rico. O chão estéril é duro e sem vida debaixo de mim. Nós nos aproximamos de uma porta que se abre silenciosamente do teto ao chão. Eu pisco no clarão súbito da sala diante de mim. Quando meus olhos se ajustam à luz, minha garganta contrai com a visão que me cumprimenta. Uma longa mesa de observação se estende na frente de várias celas. Todas elas têm frentes de Plexiglas1 com três paredes brancas simples. E dentro de cada cela está um draki. De todas as formas, tamanhos e cores. Eu não consigo ter uma contagem exata. Talvez 10 todos juntos. É demais para absorver e eu não posso me mover. Sou golpeada nas costas com tanta força que eu cambaleio. O jaleco diante de mim grita os lábios torcendo em um grunhido enquanto ele sacode meus pulsos e me puxa para cima um momento antes de eu cair de joelhos. A dor se lança através das articulações em meus ombros. As amarras de plástico apertam, cortando minha circulação. 1 Vidro plástico de alta resistência.
  18. 18. 18 Eu realmente sou um animal para eles. Menos do que isto. Um toque de desgosto se esconde em seus olhos, mas também um toque de fascínio. Por mais que eu seja uma besta para eles, eu sou parecida o suficiente para assustá-los. Se eu fosse apenas um animal simples, uma criatura comum da floresta, eles me tratariam com mais gentileza e cortesia. Mas eu não sou. Eu sou essa coisa estranha para eles, uma aberração que eles veem como uma anomalia mesmo que meus antepassados, dragões, estivessem aqui a mais tempo do que o homem. Meu coração bate num ritmo selvagem em meu peito enquanto sou empurrada para dentro da larga sala. Eu rapidamente examino cada célula, não absorvendo qualquer draki individualmente em minha busca por Miram. Eu a reconheço. Minhas narinas incendeiam com respiração animada por vê-la viva. Ela está enrolada de lado, sua pele, bronzeada e indefinida, está entorpecida, não tão vibrante como qualquer um de seus vizinhos. Seus olhos estão fechados e seus cabelos se arrasta sobre o piso, liso e sem graça, como trigo seco. Eu grito com ela na nossa língua draki. Apesar de a fita cobrindo minha boca, eu faço um monte de barulho. Vários draki levantam a cabeça em minha direção. Mas ela não reage. Nem mesmo um piscar de olhos. Eu grito contra a minha mordaça, dizendo seu nome mais e mais. Seus olhos se abrem, e eu acho que ela me ouviu. Ela até olha em minha direção. Em seguida, não. Suas pálpebras se fecham novamente. Eu me esvazio por dentro. É como se ela não se importasse. Ou talvez ela não
  19. 19. 19 possa processar que sou eu. Talvez ela tenha sido drogada. Quem sabe o que eles fizeram com ela. Então, eu não posso mais vê-la, porque eu sou levada a uma cela vazia. O Plexiglas se abre e sou empurrada para dentro. Vários jalecos me seguem. Eles me prendem com um novo bastão e este me sacode com uma corrente elétrica. Eu caio, peso morto, engasgada com um grito. Eles fazem o trabalho rápido de desvinculação de minhas asas e meus punhos enquanto eu estremeço no chão frio, capaz de ver e sentir, mas incapaz de controlar meus movimentos. Em suma, o inferno. Eles deixam a fita adesiva sobre minha boca, mas eu não tenho a força para rasga-la e me liberar. Todos eles deixam minha cela, exceto um. Ele permanece, me olhando com interesse suave. Meu pulso gagueja contra meu pescoço enquanto eu suporto sua análise, sabendo que ele pode fazer qualquer coisa comigo e eu não posso levantar um dedo para me proteger. Ele se abaixa e acaricia o meu braço com um arrastar lento dos dedos que faz com que o meu estômago se contorça, doente. Bile escaldante sobe para a parte de trás da minha garganta. Outro jaleco aparece atrás dele. — Vamos lá, Lewis. Lewis balança a cabeça, meditando, — Este com certeza tem uma pele muito bonita. — Ele me olha com curiosidade fria. — Sim, e ela respira fogo, por isso, se eu fosse você, eu sairia daqui até que tenhamos a estudado adequadamente e saibamos como lidar com esse dragão em particular. Lembra-se das histórias dos caçadores que capturaram um engolidor de fogo ultimamente?
  20. 20. 20 — Acha que esse aqui é o mesmo? — Sei lá. Não importa. Meu ponto é que ela escapou deles. Não subestime esta. Agora, vamos lá. — O jaleco que deu o conselho se afasta. Lewis continua a observar-me, a cabeça inclinada em um ângulo. — É. Mas você não pode fazer nada agora, você pode? Você é inofensiva. — Sua mão desliza sobre a minha barriga. Ele espalma minha carne vagarosamente antes que seus dedos agarrarem e me belisquem, torcendo minha pele com rápida selvageria. — Como é a sensação de estar indefesa? Você está à nossa mercê agora. Não há escapatória. Entendeu? Depois de um longo momento, ele dá um aceno satisfeito e me libera. — Vejo você mais tarde. — Ele recua vários passos até que o Plexiglas deslize se fechando entre nós. Sozinha, eu permaneço deitada e pressiono meus lábios trêmulos fechados. É tudo que eu posso fazer para não gritar.
  21. 21. 21 Eu deito no chão, tremendo, minha barriga ainda pulsando no lugar de onde o bastardo me machucou. Os efeitos do choque elétrico gradualmente desaparecem de meus membros e eu agarro meus joelhos perto do meu peito, olhando vagamente para os enkros se movendo para frente e para trás do lado de fora da minha cela. Será isso o que aconteceu com o meu pai? Ele esteve aqui? Eu não tive tempo para ver muita coisa antes deles me forçarem para dentro da cela. Se eu chamasse "Magnus", ele me responderia? As figuras fantasmagóricas de jaleco branco se embaralham em volta, preocupadas com suas tarefas. Minutos passam antes que eu me sinta pronta para me mover novamente. Desenrolando, eu me empurro para cima com as palmas das minhas mãos, meus músculos tremendo com o esforço. Eu percebo uma voz, um draki sussurrando suavemente de algum lugar à minha direita. Eu me esforço para ouvir além do clique fraco das teclas de computador e dos zumbidos de vozes humanas na mesa de exame. Dois enkros estão sentados ali, olhando de vez em quando. Às vezes para mim, às vezes para as outras celas. Eu apostaria que alguém se senta ali em todos os momentos, observando, nos estudando por qualquer coisa que as
  22. 22. 22 câmeras nos cantos possam perder. Eu odeio isso. Que eu nunca possa fazer um movimento sem ser notada. Eu começo a juntar as palavras que passam através da parede. Euqueroirpracasa Euqueroirpracasa Euqueroirpracasa porfavor... É uma draki fêmea e eu não posso ajudar, mas me pergunto se ela não está um pouco louca. Quem sabe por quanto tempo ela está aqui. Quanto tempo qualquer um deles estão sendo mantidos aprisionados. Eu tremo e rapidamente me lembro de que eu só tenho que sobreviver por um dia. Eu posso fazer isso. Vinte e quatro horas e Will e Cassian virão me buscar. Este lembrete funciona – me traz de volta para o meu propósito. Eu me levanto, ignoro os olhos me observando, a lente da câmera registrando cada movimento meu. Meus dedos agarram as bordas da fita adesiva que cobre minha boca e eu a arranco fora, livre com um rasgão ardente. Eu estremeço e arrasto o ar através de meus lábios. — Miram! — Eu chamo com voz rouca no início, em seguida, novamente, mais firme, batendo no vidro com a palma da minha mão. Os enkros me observam, mas eu os ignoro, sabendo que não podem me entender. — Miram, sou eu, Jacinda! Não se preocupe, Miram. Estou aqui para te salvar. Nada. Apenas a garota da porta ao meu lado resmungando seu mantra interminável. Eu me impeço de gritar com ela para calar a boca. — Miram você pode me ouvir? Por favor, diga alguma coisa. Cassian me enviou. Ele está aqui também. Só que lá fora. Estamos aqui para te levar embora!
  23. 23. 23 Nada. Eu pensei que a menção de seu irmão iria acordá-la como nada mais poderia. É por isso que eu entrei. Além de estar aqui, Cassian poderia nos localizar através de sua conexão comigo, eu estou aqui para avisar Miram... para prepará-la para a fuga. Com estes pensamentos urgentes em minha mente, eu prossigo. Eu tenho que tentar. — Miram —, eu grito. — Você não tem que responder a mim, mas esteja pronta. Nós vamos te tirar daqui. Nas próximas vinte e quatro horas, nós vamos fugir. Esteja pronta para isso. Risadas se transportam da cela à minha esquerda. Risos de draki. Os jalecos de plantão parecem fascinados pelos rosnados explosivos de som. Eles caem em um turbilhão de atividades, documentando os estranhos sons. Claro. Eles provavelmente não ouviram muitas risadas dentro destas paredes. O som arranha. Eu pressiono minhas mãos contra a parede que compartilho com o draki rindo. — O que é tão engraçado? — Eu assobio. O riso só continua. Eu cubro minhas mãos sobre meus ouvidos. — Já chega! De repente o riso para. Eu levanto minhas mãos. Por um momento, eu acho que não serei respondida, então de repente os tons guturais de um draki masculino raspam o ar. — Que você ache que vai sair daqui viva. Isso que eu acho altamente divertido. Com estas palavras minha ousadia oscila. Eu consigo pegá-la de volta e exijo através da parede: — Então o que? Você não tem mais qualquer esperança? Você apenas se entregou? Aceitou sua sorte aqui?
  24. 24. 24 — Não, eu não desisti. — Ele soa indignado agora. Melhor do que a draki do meu outro lado que soa meio louca com seu sussurro incessante. — Eu só estou tentando manter minha sanidade e ficar vivo aqui. A amiga que você está chamando – Miram? Ela já desistiu há muito tempo. Eu balanço minha cabeça. — Você está satisfeito em viver seus dias aqui? — É a vida. — Dificilmente. Estamos fugindo daqui, — eu prometo. —Basta ver. O rangido do riso retorna. — Bem, se isso acontecer, eu vou estar grudado em você. Eu me abaixo de volta ao chão frio, descansando as pernas que ainda parecem tão moles como geleia. Eu observo o que posso ver da sala do outro lado do Plexiglas: um longo balcão de observação, várias câmeras posicionadas em cada canto. Os poucos enkros na sala conversam em voz baixa. Eles parecem estar no processo de decidir alguma coisa. Um dos jalecos olha para o seu relógio e faz um sinal para que todos nós nos alinhemos em nossas celas. Outro de jaleco olha para mim incisivamente e balança a cabeça, discordando claramente sobre algo. Eu me inclino para o lado até que o meu ombro toca o Plexiglas. Tento decifrar suas vozes abafadas, certa de que, seja o que for que eles estão falando, tem a ver comigo. Eu preciso estar pronta. Mais enkros chegam, e os detrás da mesa de observação praticamente se curvam e se esfregam diante deles. Eu estou prestando atenção em tudo isso, quando outro draki fala, sua voz jovem carregada de algumas celas adiante.
  25. 25. 25 — Se eles não te pegarem, o cinza irá. Ela soa como uma criança, eu penso, angulando minha cabeça. — O que você quer dizer? — Se os enkros não acabarem com você, então ele irá. — Ela pronuncia ele como se eu devesse entender seu significado. — O cinza. — Quem é o 'cinza'? — Ah, ele é mau. Ele está aqui a mais tempo do que qualquer um de nós. — Ela faz um som fungado. — Provavelmente por isso ele é tão asqueroso. Você tem que ficar longe dele. — O que ele é? — Eu nunca ouvi falar de um draki cinza antes. Ele deve possuir um talento que eu não sei. Em vez de medo, excitação treme através de mim... por conhecer outros draki, aprender sobre um draki que eu nunca soube que existia. Não é algo que eu considerei ao vir aqui. Muitos outros pensamentos me consumiam. — É melhor desejar que você não descubra. Basta ficar fora de seu caminho. Se esconder. Estou prestes a perguntar quando eu supostamente posso encontrar esse draki – nós estamos mantidos nestas celas, afinal de contas – quando uma sirene começa a tocar baixo e uma luz vermelha piscante inunda a sala. — O que está acontecendo? — Eu peço, olhando em volta freneticamente. Mesmo da minha cela, eu posso ouvir os draki lutando para ficarem de pé. No fundo da minha mente, me pergunto se Miram também se move. Ou ela é ainda um caroço no chão de sua cela?
  26. 26. 26 — Prepare-se! — O draki macho que falou comigo ordena. Preparar-me? Preparar-me para quê? Mesmo assim, meus músculos se contraem e se juntam debaixo da minha carne. De repente, o lado de trás da minha cela é aberto. A parede não é uma parede, então. Ela desce no chão como uma janela de carro, revelando um mundo exuberante de vegetação. Há vários barulhos de vento enquanto os draki fogem pelo ar e desaparecem na densa vegetação. Eles se foram num piscar de olhos, fantasmas no ar, perdidos na folhagem que zumbia com vida, muito rápido para que eu pudesse processá-los ou identificar se Miram está entre eles. Eu avanço até a margem com cuidado, não sei o que esperar. Assim que eu saio do limiar da minha cela, ela desliza e se fecha atrás de mim. Não há volta. Eu libero uma respiração lentamente, flexionando os pés descalços no solo. Sou só eu. Nenhum outro draki à vista. Nem mesmo a inútil Miram, enrolada-em-uma-bola. Mas eu sei que eles estão todos lá fora, nesta vasta simulação de floresta. O que será que os enkros estão fazendo? O que eles estão esperando alcançar? Eu olho em volta, assimilando a espessa simulação de árvores, e é aí que eu as localizo. Câmeras. Em todos os lugares. Posicionadas acima das folhas de uma árvore. No nó da madeira de um tronco. Duvido que haja um centímetro desta floresta simulada que eles não possam ver. O que me faz perguntar o que eles estão esperando filmar. Nossa interação? Porque até onde eu posso dizer, ninguém está interagindo. Todo mundo está... escondido.
  27. 27. 27 Com essa constatação, tudo dentro de mim fica preso. Eu me lembro do aviso sobre o draki cinza. Fique longe dele... Fora do seu caminho... Escondida... Assim como todo mundo está fazendo agora. Exceto eu. De repente eu sei que não deveria estar de pé num campo aberto como este. Tarde demais, um rosnado pula no ar fresco, e uma segunda constatação se apodera de mim. Eu não estou sozinha. Ele é cinza. Assim como a garota draki o descreveu. Um cinza ardósia como o aço líquido, possivelmente o maior draki que eu já vi. Ele é mais alto do que os ônix do clã. Ele é, obviamente, forte. Talvez rápido, também. Suas asas são de couro, mas cor de cinzas, atravessando o ar acima de seus enormes ombros. Eu não acho que ele é velho, mas há algo sobre seus olhos... esse olhar cinza-azulado contém tal astúcia, uma ameaça selvagem que parece antigo. De repente, eu gostaria de ter feito mais perguntas, exigido mais respostas da menina quando ela tinha vindo oferecer seus conselhos. — Oi, — eu digo, me mantendo parada, sem saber o que fazer. Meus dedos tocam as minhas coxas em agitação. Eu nunca fiquei cara-a-cara com
  28. 28. 28 um draki que não pertencia a meu clã antes. Historicamente, os clãs são incontroláveis, tribos em guerra. Isso é o que levou à última Grande Guerra. Os textos antigos narram sobre várias centenas de clãs, muitos para se ter certeza. Nós aprendemos sobre eles na escola. Eu até li sobre algumas histórias com a nossa bibliotecária Taya, fascinada com o tempo de antes das guerras, quando os clãs eram unidos como uma grande nação. Enquanto eu o encaro, eu aceito que não deve ser um choque conhecer um novo draki. Eu sempre soube que eles estiveram por aí. Mas é uma grande coisa. Cada fibra de meu ser pulsa com o instinto de luta, de defesa. É a mesma reação que eu tive quando os caçadores me perseguiram, mas eu nunca pensei que me sentiria assim em torno de outro draki. Parece alguma forma de sacrilégio. Nós somos o mesmo, afinal. Ah, claro, existem os encrenqueiros como Miram, e até mesmo aqueles que me fazem sentir intimidada como Severin e Corbin. Mas enfrentar este draki... isso é diferente. Agora, neste momento, eu sinto como se meu próximo passo significará vida ou morte para mim. Ele não responde a minha saudação. Carvão e cinzas crescem em minha garganta e meus músculos se torcem mais apertados, prontos para entrar em ação. De frente para ele, lembro-me de um filme de prisão que assisti há muito tempo, alojado no fundo da minha memória. É uma estranha sensação de déjà vu. Como se eu estivesse escalada para esse filme. Eu sou a nova prisioneira, de pé no pátio, me defendendo dos valentões já estabelecidos.
  29. 29. 29 Eu tento me lembrar do que o novato fez para sobreviver, porque, claro, ele é o herói que chega ao fim. Assim como eu pretendo. Ou, pelo menos durante as próximas vinte e quatro horas até que meus amigos nos tirem daqui. — Eu não quero nenhum problema —, eu digo. O draki faz um barulho estranho, um som de chocalho gutural na garganta que eu nunca ouvi falar de outro draki antes, e eu me pergunto se é algum tipo de chamada para a batalha. Enquanto o encaro vejo sua carne escamosa se ondular e estremecer. — O-o que você está fazendo? — Eu lhe pergunto, sabendo que poderia ser qualquer coisa. Eu não sei o poder que ele possui. Seja o que for, é o suficiente para fazer outro draki se esconder. Eu deslizo de volta um passo sobre o solo úmido, o meu olhar fixo nele, com medo de desviar o olhar. De repente, suas escamas se levantam. Cada centímetro dele está coberto com afiados discos perpendiculares a seu corpo maciço. Eles brilham afiados e eu sei que um roçar contra ele vai me cortar em tiras. Meu estômago dói. Em um lampejo de clareza, eu sei por que os outros fugiram no minuto que as portas se abriram. Com uma maldição murmurada, eu me balanço ao redor e me empurro do chão em um movimento suave, decidindo que os outros tiveram a ideia correta. Eu preciso ficar longe deste draki. Rápido. Imediatamente, eu estou perdida no rugido do vento enquanto eu chicoteio através do espinheiro de árvores. Eu o ouço bater as asas atrás de
  30. 30. 30 mim. Eu sou rápida, mas ele também é. Vai, vai, vai, vai eu desejo por meus lábios em um mantra interminável. A ideia de ele me pegar, batendo seu corpo afiado contra o meu, me enche de um medo tão intenso que o fogo se constrói em meus pulmões e envolve minha boca. E eu sei que não há escolha. Eu tenho que ficar e me defender. Eu paro no ar e rodopio, minhas grandes asas como velas batendo atrás de mim – mas nada como ele que corta o ar, criando afiadas rajadas de vento que rasgam as folhas das árvores. Enquanto ele vem a mim, eu construo e recolho o calor dentro de mim, sabendo que nenhum pequeno sopro de vapor em advertência será suficiente. Para ele, eu preciso de fogo. Chamas mortais. Quando ele se aproxima – seu rosto tão perto que eu posso ver as linhas duras e implacáveis de suas características, o nariz sulcado e as largas narinas – eu libero a imensa queimadura de calor de dentro de mim. Ele explode em um redemoinho de chamas crepitando com raiva. Ele cai para o lado e abaixo de mim, por pouco escapando de todo o impacto. Eu giro, olhando abaixo de mim, e o vejo de volta, subindo em minha direção. O brilho em seus olhos me diz que não se sente intimidado pelo meu talento. Na verdade, ele o agrada. Talvez seja isso que me descontrola mais. Fogo não o assusta? Será que ele quer ser queimado? Será que ele tem desejo de morrer? Percebendo que eu não sei nada sobre como este draki vai reagir, eu mergulho, voando baixo perto do chão, olhando por cima do meu ombro. E,
  31. 31. 31 sim, ele está atrás de mim de novo, implacavelmente me perseguindo. Eu não paro dessa vez. Eu atiro fogo para trás, por cima do meu ombro. Ele desvia em meu rastro, determinado a me pegar. É como se não houvesse nada além do selvagem dentro dele, o dragão antigo, sem um pingo de humanidade. Ele quer me destruir. Meus dentes se apertam duramente em minha boca e eu me esforço para ir mais rápido. Meus pensamentos correm. Eu sei o que tenho que fazer. Eu caio até tocar o chão, e então eu me viro e espero, o fogo arde lentamente dentro de mim, a grama é macia e flexível debaixo de mim enquanto eu olho para o draki vindo em minha direção. Vapor escapa do meu nariz. Seu olhar segue este vapor antes de travar em meus olhos. Há satisfação naquele azul- acinzentado reluzente... e eu tenho a suspeita de que essa satisfação não é porque ele está convencido de que ele está prestes a me matar. Não. Ele quer que eu ganhe. Ele quer que eu o vença. Assim, ele estará livre deste lugar. Logo que ele está prestes a chegar até mim, estamos cercados. Os enkros invadem a floresta simulada, uma dúzia deles vestidos dos pés à cabeça em trajes brancos que os fazem parecer como astronautas. Sou agarrada pelos braços e arrastada. Eu luto – é o meu instinto fazê-lo. Mesmo que eles estivessem me resgatando de um infernal draki assassino. Ou o resgatando de mim. Eu não tenho certeza qual é o caso. — O que vocês estão fazendo? — Eu grito com eles. — Não é isso que vocês queriam? Vocês não querem que nós matemos uns aos outros? Vamos lá! Vamos lá! — Eu me debato em seus braços, soprando fogo que não faz nada contra seus trajes resistentes ao fogo.
  32. 32. 32 Vários deles envolvem o draki cinza. Mesmo em seus ternos, não colocam a mão sobre ele, e eu acho que é porque ele rasgaria direto através do material especial de seus equipamentos de proteção. Eles o apunhalam com uma vara afiada - e então eu percebo que não é uma vara. É um bastão elétrico como aquele que usaram em mim. No entanto, não parece ter qualquer efeito sobre ele. Talvez ele não o penetre? Ou talvez ele seja muito forte para se importar? E está lá, crescendo dentro de mim, talvez seja inacreditável, mas é verdade, no entanto. Pena. Ele rosna e rosna, uivando enquanto é golpeado repetidamente. No entanto, ele nunca cai. Ele recebe os choques de novo e de novo e não se perturba. Deus, o que ele é? Então, eu estou de volta a minha cela e a parede está deslizando fechada, selando-me ao entrar. Eu estou sozinha, estremecendo com grandes e fumegantes respirações. E eu não consigo ver mais nada.
  33. 33. 33 — Ei, Jacinda! — O sussurro alto penetra meu nevoeiro de pensamentos. É a draki jovem que falou comigo antes. — Você está bem aí? Deitada de lado no chão, ainda atordoada do meu encontro com a morte, eu abro um olho numa fenda. A luta com um draki camicase me deixou abalada, por dentro e por fora. Fisicamente drenada. Mentalmente exausta. E eu não estava aqui nem há uma hora. Ou eu estava? Cada momento se arrastava em agonia. Sento-me lentamente, esfregando o lado do meu rosto. — É. Eu estou bem. Qual é o seu nome? — Eu pergunto, calculando que já é hora de saber. A voz chega a mim novamente. — Eu sou Lia —. Mesmo através das paredes eu posso ouvir a sua juventude e inocência. — Eu nunca conheci uma respira-fogo antes. Eu não me incomodo em apontar que não nos conhecemos realmente. — Não? Que tipo de draki é você? — Eu sou um draki da água. Por cerca de seis meses, de qualquer maneira.
  34. 34. 34 Uma draki da água como Az. Uma pontada golpeia perto do meu coração quando eu penso em minha amiga de infância. Lembro-me que este não é o fim, mesmo que por apenas um curto espaço de tempo, este mundo, o meu papel como prisioneira, esteja me consumindo. Parece que é tudo. Parece que eu estou presa aqui por dias. Como deve ser para os outros que já estão presos há muito mais tempo? Lembro-me do draki cinza... a fome de morte em seus olhos, e eu imagino que eu sei o que seria. Em seguida, as últimas palavras de Lia entraram em minha cabeça. Seis meses? — Quantos anos você tem? — Eu pergunto. — Doze. Doze! Ela é um bebê. — Há quanto tempo você está aqui? — Alguns meses agora. — Ela diz isso com tanta naturalidade que eu estremeço. Se é que é possível, as paredes de repente parecem mais perto, mais apertadas a minha volta. Esfrego forte em minhas têmporas. — Desculpe eu não a ter prevenido melhor sobre o cinza – Eu balancei minha cabeça antes de lembrar que ela não pode me ver através das paredes da cela. — Você tentou. Não havia muito tempo para explicar. — Nunca há. — O que você quer dizer? — A primeira coisa que fazem quando capturam um draki novo é jogar todos juntos na Floresta. É onde eles o mantém. — Eu sei que ela quer dizer agora. — Eles querem ver como cada draki novo age na população em geral. Bem, a maioria deles quer ver como um novo draki reage ao cinza. Você sabe se temos um bom talento ou não.
  35. 35. 35 — O que ele é? De onde é que ele vem? — Ele não é como qualquer um de nós. — Considerando que seu primeiro impulso é o de tentar aniquilar sua própria espécie? É. Meio que percebi isso. O draki masculino do outro lado de mim se intromete na conversa, — Ele é velho. Mais velho do que todos nós. — Ele não meu pareceu assim tão velho —, eu digo. — Meu palpite é que ele é o mais velho de qualquer draki vivo. Mais dragão que humano. Eu franzi a testa. — Como você sabe disso? — Roc sabe tudo. Ele é muito inteligente, — Lia assovia. — É apenas uma teoria, — Roc diz. — Conforme o tempo passa, nós nos tornamos mais e mais humanos. Eu estou supondo que costumávamos ser mais como ele... mais dragão. Ele é o que éramos. — Ele faz uma pausa e eu quase posso imaginar o draki dando de ombros do outro lado da parede. — Ele é o que éramos talvez há uns mil anos atrás. Antes da civilização tomar o controle. Primitivo. Selvagem. Eu mordo meus lábios. Talvez. Mas eu também queria saber se ele era cruel como resultado do que os enkros fizeram com ele. Talvez ele só tenha ficado louco por estar em cativeiro. Mesmo agora eu posso me sentir enfraquecendo. Eu engoli e balancei a cabeça. Eu não estou aqui para resolver o enigma do draki cinza. Estou aqui para resgatar Miram e espero que, no processo, detonar com toda esta operação. Acabar com esses enkros que
  36. 36. 36 podem ter tido algo a ver com Papai ter sido tomado de mim. Mesmo que eles não o tenham feito, eles precisam ser parados. Silêncio desce em torno de mim e eu sei que estamos refletindo sobre nossos próprios pensamentos. Em algum lugar distante, abaixo da linha de celas, ouço uma voz murmurando na língua draki. Os humanos no balcão de observação falam em um zumbido baixo e maçante. Um deles me pega olhando para ele e eu desvio para longe, muito desconfortável para segurar o seu olhar, como se ele pudesse ser capaz de ver dentro de mim até os meus segredos. Inquieta, eu ando no comprimento curto de chão, perguntando-me quanto tempo se passou desde que eu estou nesta cela. Já parece ser muito. Eu não sou feita pra isso – para ficar encurralada. Não que alguém seja, mas eu me sinto especialmente no limite. Como se eu pudesse arrancar meus cabelos se eu não escapar desta caixa em breve. — Miram —, eu chamo após vários momentos, determinada a tentar novamente. — Você está aí? Claro, ela está aqui. Onde ela teria ido? — Eu sei que você está aí —, afirmo. — E eu sei que você está brava comigo. — Além da nossa missão para resgatá-la, de alguma forma, tornou- se importante acertar as coisas entre nós. Desde minha ligação com Cassian, meus sentimentos em relação a ela já não são tão... difíceis. Estou certa de que sentir as emoções de Cassian, seu amor e carinho por sua irmã tinham me influenciado.
  37. 37. 37 — Brava? — A voz familiar finalmente rachou através do ar. — Por que eu estaria brava? Você só me fez ser capturada por caçadores e lançada neste inferno! Eu puxo uma respiração profunda e resisto dizer a ela que a culpa é tanto dela quanto minha. Ela não deveria ter me seguido e me espionado em primeiro lugar! Mas eu não estou aqui para discutir com ela. Eu tenho que fazê-la ver – ver que nós somos aliadas. — Seu irmão está aqui, Miram. Uma longa pausa antes de seguir: — Cassian? — Sim. — Ele está vindo me buscar? — Sim. Todos nós estamos. Tamra também. Eu fui pega para que Cassian possa nos encontrar uma vez que eles estejam aqui dentro. — Eu engoli. — Nós fomos unidos. Ele vai saber de imediato onde eu estou. Nós vamos libertar você. — Eu não mencionei Will. Considerando que Miram não escapou comigo da última vez, porque Will estava lá junto de mim, eu acho que é melhor deixá-lo de fora por enquanto. Todos os draki a minha volta estão quietos e sei que Miram não é a única a ouvir. Eles estão absorvendo minhas palavras, tanto quanto ela está. Eu estaria fazendo a mesma coisa – meus pensamentos estariam correndo, será que eu poderia ser libertada também. — Todos vocês —, eu chamo. — Estaremos todos escapando deste lugar. — Oh, obrigada —, Lia chora animadamente.
  38. 38. 38 Roc apenas murmura: — Vamos ver —, mas eu posso ouvir um fio tênue de esperança em sua voz. — O que eu preciso fazer para ajudar? — Miram pergunta. Relaxo meus ombros, aliviada com as palavras dela – que ela está a bordo. — Esteja pronta. Siga minhas instruções, não importa o que aconteça. Mesmo quando você vir Will. — Não pode ser como da última vez, — eu avisei. — Não entre em pânico... — — Eu estarei pronta. — Há um sussurro de raiva em sua voz e eu acho que isso é bom. Uma coisa boa, mesmo. Um pouco de raiva é saudável. Talvez ela vá lhe dar coragem quando chegar a hora de agir. Eu deslizei para baixo, a parede atrás de mim. E então aquela draki começa de novo com seus cânticos enlouquecedores. Aparentemente, a minha promessa de fuga não se registrou nela. As palavras escapam coladas tão rapidamente agora que eu não posso nem compreendê-las. Eu pressionei ambas as mãos nos ouvidos para tentar bloquear a sua voz estridente. Impossível. Roc berra com ela e eu pulo. Ela não dá uma trégua, de qualquer forma. Na verdade, ela fala ainda mais alto. Outro som junta-se a cacofonia. O som de alguém batendo nas paredes. É quase como um corpo se chocasse contra uma cela. A força envia uma vibração através do piso que percorre as minhas pernas. Eu enterro meu rosto em minhas mãos, convencida de que eu acabei de mergulhar em um asilo. Apenas um dia. Apenas um dia. O tempo não pode se mover rápido o suficiente.
  39. 39. 39 Meu olhar ficou embaçado quando eu fiquei muito tempo encarando o Plexiglas. Eu pisquei meus olhos doloridos e desviei o olhar, tentando me concentrar nos meus pensamentos novamente. Difícil. Impossível. Minha adrenalina se foi, eu me sinto quase doente, drenada, doentia e letárgica. Uma dor maçante pulsa na parte de trás da minha cabeça, torturando-me como se algum tipo de besta estivesse mordiscando um osso. Eu esfrego minha mão na base do meu crânio. Eu não consigo me encontrar em nenhum lugar no meio da agitação confusa dos meus pensamentos. Toda a minha confiança escapa de mim. Sim. Nós temos um plano, mas e se não funcionar? E se Will, Cassian, e Tamra tentarem nos resgatar e falharem? E se eu ficar presa aqui? Presa numa cela para sempre? O pânico enfia suas garras na minha garganta. Cassian. Minha mente sussurra o nome dele, procurando por ele, tentando alcançá-lo. Ele pode me sentir? Me ouvir? Cassian, eu não sei por quanto tempo mais eu posso suportar isso. Eu penso as palavras, eu as formo em minha cabeça como se eu estivesse falando com ele, como se ele estivesse lá, dentro de mim.
  40. 40. 40 Pela primeira vez eu preciso que a ligação entre a gente funcione. Ele é a minha única conexão com o lado de fora. Com a vida longe daqui. Com Will. Um jaleco passa e volta, parando na frente da minha cela com uma rapidez que me faz recuar. Ele segura uma prancheta numa mão e um sanduíche na outra, uma abundância de alface saindo de todos os lados do pão. Ele me observa com uma fascinação curiosa – como se de repente eu fosse fazer algo interessante. Ou já estou fazendo... Ele bate no Plexiglas com um dedo, borrando a superfície com uma mancha de mostarda. — Olá, você. — Ele arrulha comigo como se eu fosse um bichinho de estimação para adestrar. — Você não é uma menina bonita? Eu inclino minha cabeça. Meu peito se expande com calor. Baforadas de vapor saem do meu nariz enquanto eu o observo. Ele dá uma risada. Outros enkros param ao lado dele. — Ela é especial. Acha que nós conseguiremos abrir esta? Seria interessante ver como os pulmões e vias aéreas funcionam. — Eu imagino que poderemos eventualmente. — Ele dá uma mordida em seu sanduíche e fala com a boca cheia. — Depois que nós tivermos feito todas as avaliações. Nós nunca tivemos uma como ela. Doutor vai querer dar uma olhada por dentro. Eu fico de pé. Seus rostos balançam enquanto eu vou tropeçando em direção a eles. Incapaz de parar, eu bato no vidro com o meu punho. Ele estremece sob a força, mas não cede. Não que eu esperasse que fosse acontecer.
  41. 41. 41 Eles sorriem, achando graça da minha explosão. — Eu acho que ela nos entende. — O Comedor de Sanduíche concorda como se ele estivesse convencido e então coloca seu sanduíche na metade inferior de sua prancheta para que ele possa rabiscar uma observação sobre o meu comportamento. — O doutor ficará satisfeito. Ele sempre acreditou que eles tivessem inteligência. O outro jaleco bufa e balança a cabeça. — Eles são apenas animais. Criaturas fascinantes, claro, mas eles entendem tanto quanto o meu Labrador. Eles se afastam então. Eu caminho dentro de minha prisão e tento alcançar Cassian de novo, desesperada, incapaz de afastar o pânico de que eu nunca serei resgatada dessa cela. Eu arrasto minhas mãos pelo cabelo e caio contra a parede. Lágrimas quentes deslizam pelas minhas bochechas. Deslizando até o chão, eu libero uma grande rajada de fôlego e fecho os olhos, lutando contra a emoção. Sem lágrimas. Eu não vou deixar que eles me vejam chorando para que possam escrevem em seus relatórios. Cassian. Me ajude. Ajude Miram. Baixando minha cabeça nos meus joelhos, eu afundo no casulo escuro que sou eu, sem esperar a cena que me aguarda ali. Uma imagem embaçada preenche a minha mente. É dia. Ao ar livre. Eu vejo a minha irmã e Will. Ele está caminhando próximo a van. Eu abro meus olhos rapidamente e me encontro ainda em minha cela. Até mesmo embaçada, a imagem tinha parecido tão real.
  42. 42. 42 Abaixando minha cabeça, eu fecho meus olhos de novo e eu sou sugada novamente para dentro da visão nebulosa. Com Will e Tamra. Mas onde está Cassian? Will caminha rápido em minha direção, seu rosto rígido e ansioso, seu peito tenso sob a camiseta que ele estava usando quando nos separamos. Meu coração incha, dominado pela visão dele. — Você a sente? Como ela está? Ela quer que a gente vá? Então eu entendo. Eu consegui chegar a Cassian. Além das minhas fantasias desordenadas, eu consegui me conectar a ele. Tanto que eu estou dentro dele nesse momento. Eu posso sentir e ver tudo que ele está passando. A voz de Cassian se levanta de dentro de mim – ou melhor, dentro dele. — Sim. Eu a sinto. Ela não está... se segurando muito bem. — Eles a estão machucando? — Will exige. Sua pele fica pálida, olhos tensos e sem piscar enquanto ele encara Cassian. — Eu acho que não, — Cassian responde. — Não agora, pelo menos. Eu não sinto nenhuma dor. Mas... — — Ela está assustada? — Tamra pergunta. Minha visão salta quando Cassian assente. Tamra umedece seus lábios. — Então faça algo por ela. Você pode alcançá-la. Confortá-la... — A expressão de Will é selvagem. — Nós precisamos entrar. Nós não podemos esperar. — Antes que qualquer um possa responder, ele xinga e se afasta, saindo da visão de Cassian. Minha irmã começa a segui-lo, mas pausa e volta para Cassian.
  43. 43. 43 A conexão começa a se dissipar, mas eu estou confortada. Aliviada. Não vai demorar muito mais. Eles virão nos buscar. Exausta, eu durmo de novo e sonho com Will. Não é a primeira vez que ele preenche meus sonhos, mas é a primeira vez que ele está voando ao meu lado como um draki. Seus olhos são os mesmos, exceto pelas pupilas totalmente verticais. Elas brilham com prazer enquanto subimos e mergulhamos, cortando através dos beijos das nuvens molhadas. A pele dele é iridescente, indo do dourado para o marrom para o verde – igual aos seus olhos castanhos claros. Suas asas se movem fluidamente pelo ar, grandes velas movendo-se como ondas ao meu lado. Quando eu acordo, eu sinto a vontade irracional de chorar quando a realidade bate de frente comigo. Lágrimas queimam por trás de meus olhos. Porque Will está voando – isso nunca pode acontecer. A doçura daqueles momentos encontrados no sono nunca acontecerá. Ele e eu nunca poderemos ter aquilo, ficarmos juntos daquela maneira, como dois draki. Mesmo se for provado que ele é outra coisa, algo mais do que humano, ele nunca poderá tomar os céus comigo. E ele tem que fazer isso? Uma voz baixa sussurra dentro da minha cabeça. Você nunca se importou com isso antes. Eu puxo meus joelhos até meu peito e esfrego minha pele flexionada com as duas mãos. Talvez por estar aqui, uma prisioneira dos homens, aliada
  44. 44. 44 apenas com meus colegas draki (exceto um, claro, que preferia me matar) e sentindo saudade do céu, estou sentido o abismo entre eu e Will mais acentuadamente. A porta da sala de observação abre. Mais jalecos fluem para dentro. Eles estão empurrando uma maca coberta por um lençol com tiras de couro marrom penduradas dos lados. A visão disso começa uma vibração lenta e nervosa no meu estômago. Eu fico de pé, meu ritmo cardíaco aumentando. Eu me afasto contra a parede, pressionando minhas palmas no concreto gelado. Um draki no final do corredor começa a fazer uma confusão. Quase como se ele estivesse cavando o chão de concreto. — O que está acontecendo? – eu chamo, esperando que um deles me responda. Lia responde – seu tom em desculpas – como se ela fosse de alguma forma responsável. — Eles vieram te buscar. É a sua vez. Eu ofego. — Minha vez de quê? — No começo, eles levam cada um de nós... colocam alguma coisa dentro de nós. — Que coisa? — Eu grito, andando rapidamente dentro da minha cela, de um lado pro outro, como se os meus rápidos movimentos pudessem de alguma forma me levar para longe de tudo isso. — Eu não sei realmente... um negocinho brilhante de metal. Machuca apenas por um segundo. Negocinho brilhante de metal?
  45. 45. 45 Eu achato minhas mãos contra a parede novamente e balanço a cabeça de um lado para o outro como se eu pudesse fazer tudo isso parar, que os enkros não viessem me pegar. Eu não havia previsto isso. Eu não achei que eles teriam tempo de fazer qualquer coisa ruim comigo antes de eu ser resgatada. — Não adianta lutar contra, — Roc dá sua opinião, sua voz amarga. — Todos nós temos que passar por isso. Todos nós temos que passar por isso. De alguma forma isso não me anima. O terror sobe pela minha garganta enquanto eu assisto os humanos pararem do outro lado da minha cela de Plexiglas. Não era para que eu passasse por isso. Apenas vinte e quatro horas. Esse era o plano. Não isso. Isso nunca foi o plano. E agora supostamente deveria ser mais cedo. Will disse que eles estavam vindo. Onde eles estão? Algo deu errado? Eu posso ter sido uma criatura dócil antes, quando eu cheguei e estava interpretando um papel, mas eu não posso me dar ao luxo de ser uma vítima tão fácil nem mais um minuto. Eu não posso ser nada a não ser eu mesma. Estou pronta para eles quando eles abrem o acrílico. Eu faço um caminho de fogo crepitante, com a intenção de evitar que eles cheguem a mim. Eles vão embora de início, mas depois voltam novamente, agachando- se. Diversas vezes eles tentam, aproximando-se cuidadosamente da cela. Cada vez eu os presenteio com fogo, empurrando-os de volta para fora. Eu ofego ruidosamente, um hálito quente e enfumaçado saindo dos meus lábios. Eu recuso a me perguntar por quanto tempo eu posso continuar
  46. 46. 46 com isso. Eu apenas digo a mim mesma que eu tenho que continuar. Eu tenho que aguentar até Will chegar aqui. Os rostos deles estão irritados e vermelhos quando eles fecham o acrílico e se reagrupam. Eles me olham feio, a determinação deles de me ter, de me pegar, me quebrar, não menos brilhante em seus olhos. — Ela era fácil antes, — um diz sua voz próxima a uma lamúria. Fácil? Certo. Um finalmente ordena, — Já chega disso. Vão vestir os trajes. Meu estômago se aperta e eu sei de que traje ele está falando. Aqueles que são a prova de fogo, que usaram naquela floresta simulada para evitar que eu e o dragão cinza nos matássemos. Dois homens nas vestes retornam. Aparentemente eles pensaram que dois seriam o suficiente para lidar comigo. Eu fico tensa, minhas coxas tremendo em prontidão. Um rosnado baixo incha a minha garganta. Os outros dão um passo pra trás enquanto os dois homens com as vestimentas se enquadram na frente da minha cela, cada um segurando os bastões elétricos dos quais eu me lembro tão bem de quando eu cheguei aqui. O Plexiglas se abre de novo e eu os explodo com fogo, seguindo o rastro de chamas. Eu me forço entre o corpo deles, com a intenção de fugir. Mas eu não consigo passar por eles. Eles me dão um choque. Cada um de meus músculos se contrai enquanto a corrente elétrica passa por mim. Um grito estrangulado se prende na minha garganta. Eu não consigo me mover. Não importa o quanto a minha mente comande o meu corpo a se mover, a ir – eu não posso.
  47. 47. 47 Eu caio de joelhos, o impacto abalando profundamente meus ossos. Alguém está atrás de mim. Eu ouço a alta descamação de uma fita adesiva. Uma mão agarra um punhado do meu cabelo e força a minha cabeça pra trás. O meu couro cabeludo arde. Manchas pretas dançam perante aos meus olhos. É a fita adesiva novamente, esticada sobre minha boca. Ele larga o meu cabelo e eu caio para frente, um peso morto. Eu me forço a me mover, a me levantar. Nada. Eles não se importam em amarrar as minhas asas. Eles nem mesmo prendem os meus pulsos. Eu acho que depois da descarga elétrica, eles não estão muito preocupados que eu vá atacar. Dois homens pegam os meus braços e me arrastam. Meus pés se contorcem, lutando para ficarem planos e conseguir andar pelos ladrilhos lisos. O cômodo gira. Rostos passam. Pessoas. Como eu. Eu quero gritar, Eu sou como vocês! Vocês estão machucando alguém que faz todas as coisas, grandes e pequenas, que vocês fazem. Alguém que pensa e vive e ama e odeia. E odeia... Odeia todos vocês. Fogo queima através de mim como uma doença que se propaga rapidamente. Meus lábios formigam embaixo da fita sufocante. Eles me arremessam em uma maca como se eu fosse nada. Já morta. Um cadáver. Exceto que, se eu fosse um cadáver, eles não iriam se importar em fazer as coisas horríveis que eles tinham planejado. Eles não precisariam enfiar um negocinho metálico brilhante dentro de mim. Minha mente gira, o cérebro acelerando-se descontroladamente, tentando pensar no que poderia ser. O que isso faria comigo.
  48. 48. 48 Eles me amarram, me prendem com tiras de couro nos tornozelos e nos pulsos. E como se isso não fosse o bastante, uma faixa de couro se estica pelo meu peito e nos meus quadris. Eles a ajustam apertam e prendem com tanta força que eu mal consigo respirar pelo meu nariz. Eu começo a sentir tontura. Um dos jalecos me observa. — Ela é forte. Certifique-se que esteja bem apertado. — Ele faz uma careta e recoloca os óculos na ponte de seu nariz. — Você tem certeza que ela não pode queimar a fita adesiva? — Ela não o fez da última vez. Tolos. Eu não tentei da última vez. Agora eu tenho que tentar. Eu reúno as brasas do fundo do meu peito, deixo-as crescer. Eu empurro o escaldo pela minha traqueia e tento deixá-lo preencher a minha boca, mas não funciona. Não está certo. A fita é muito constritiva. Eu não consigo trabalhar os meus músculos faciais, não consigo abrir a boca o suficiente. Frustração queima um diferente tipo de fogo através de mim. Fúria impotente. Eu não consigo flexionar minhas bochechas como eu preciso fazer. Eu nem consigo abrir meus lábios o suficiente. Desesperada agora, eu luto contra as minhas tiras de couro. Inútil. Um dos jalecos passa a mão com suavidade na minha sobrancelha suada. — Calma aí, garota. Como se eu fosse algum tipo de cachorro para ser acalmado. Se eu tivesse o uso da minha boca eu cuspiria nele. Espere – não. Eu o queimaria até ficar crocante. Foi para isso que eu nasci. Por causa disso que o clã sempre achou que eu era importante. Mas eu não sou. Eu nem consigo me ajudar. Eu
  49. 49. 49 viro minha cabeça, dispensando o toque dele. Ele estala a língua e olha para os outros. Ele continua no seu tom apaziguador, — Isso nos ajudará a cuidar de você, garantirá que você esteja segura... — Eu tento adivinhar o que isso significa. É algum tipo de implante para monitorar meus sinais vitais? Até que ponto eu não posso supor. Quem sabe de que tipo de tecnologia eles são capazes? Tudo que eu sei é que eu não quero isso em mim. Eu não posso deixá-los colocar isso em mim. — Ela é mal-humorada. Essa vai precisar de uma supervisão séria. — Se alguém pode fazê-lo é você. Você tem um jeito tão carinhoso com eles. Risadinhas baixas me acompanharam enquanto eu era levada da cela, e eu sei que a última coisa que esse cara tem é um jeito carinhoso. Eu estico minha cabeça e tento seguir a direção que nós tomamos pelos corredores, que passam como um borrão por mim, eu tento descobrir maneiras para sair de lá. Nós viajamos uma longa distância e então viramos para a esquerda. De lá nós não vamos muito longe. Eu sou empurrada através de um conjunto de portas duplas de vaivém que me lembram daquelas nas salas de emergência que você vê na TV. O interior da sala é tão estéril e hostil como uma sala de cirurgia. Eu sou levada para o centro da sala embaixo de diversas luzes que chegam a cegar de tão brilhantes. Outros jalecos esperam aqui. Eu vislumbro uma ampla janela retangular à minha direita. Diversas pessoas se aglomeram lá, mais jalecos e até mesmo pessoas de aparência comum, vestidas como civis.
  50. 50. 50 Eles olham através do vidro curiosamente, como espectadores em um circo vindo testemunhar uma aberração. E eu acho que é só isso que eu sou pra eles. Minha cabeça gira ansiosamente, tentando achar uma maneira para escapar disso. Eu olho para cima e vejo o jaleco me observando. Ele é velho. Mais velho do que os outros enkros que eu já vi. O cabelo é tão branco e esparso em sua cabeça que eu posso ver a pele de papel fino de seu couro cabeludo. Seu toque no meu braço é frio. Ele aperta um pouco como se estivesse testando a minha textura e a densidade. O terror me abraça, se torcendo ao redor do meu coração, e... e então algo mais se intromete. Um fio crescente de emoção se tece através de mim. A emoção espirala de uma dor torturante mordiscando a minha mente para um poderoso golpe nas minhas entranhas. É preocupação. Pura e simples. Só que não está vindo de mim... não está vindo nem um pouco de mim. Cada nervo meu explode, ultrapassado e rebatido com um ataque súbito de emoções. O nome dele estremece através de mim num suspiro. Cassian. Ele está próximo. Sua preocupação e ansiedade me lavam em picadas que causam frio e calor. Eles estão vindo? Eu me animo com essa possibilidade. De repente eu não me sinto tão miseravelmente sozinha presa nessa mesa. Com uma nova explosão de energia, eu me concentro no velho sobre mim e na maneira como o bisturi reflete ameaçador sob a luz implacável. A mão enluvada dele trilha meu pescoço, deixando um rastro de arrepios. — Agora, — ele murmura, — vamos ver. — Seus dedos viram a minha cabeça e percorrem o meu cabelo, parando acima da minha orelha.
  51. 51. 51 Eu luto, me virando na direção oposta. Minha cabeça é forçada a voltar para o lugar com mãos duras enquanto a tira grossa de couro é puxada com força na minha testa, cortando minha pele. O toque do velho fica mais firme enquanto ele mergulha entre as mechas do meu cabelo... procurando por algo, aparentemente, no meu couro cabeludo. — Esse local parece perfeito, — ele anuncia. Os outros dois jalecos olham por detrás dele, observando seus cuidados. O velho olha por cima do ombro, cada movimento dele impaciente e incomodado. — Jenkins? — Sim, doutor, — uma voz responde com deferência absoluta. Um alto zumbido enche o ar. É um som irritante, vivo e ameaçador. Eu não consigo mover minha cabeça. Meus olhos rolam descontroladamente, tentando ver o que é. Jenkins aparece ao lado do médico, um barbeador na mão. Eu gemo contra a fita enquanto os dentes frios do barbeador são pressionados em meu couro cabeludo, um pouco acima da minha orelha. Um mero momento, um local pequeno está totalmente raspado. Um tufo de cabelo vermelho dourado flutua diante dos meus olhos. Então há o silêncio quando o dispositivo é desligado. — Lá vamos nós. — O médico desliza seus óculos mais para cima do seu nariz fino. Jenkins pega o barbeador e dá um passo rápido para o lado, fora da minha visão. Ele volta com um par de pinças que prendem um pedaço de gaze. O algodão está manchado com uma coloração amarelo alaranjada com algum tipo de pomada. — Aqui está, doutor.
  52. 52. 52 Ele pega a pinça e abaixa a gaze na minha cabeça. Eu faço uma careta, incerta do que é, mas me preparo para o desconforto. A gaze me acerta, gelada e molhada, mas indolor. Ele a esfrega contra a pele nua do meu couro cabeludo em diversas passadas. — Quase pronto. — O médico entrega de volta as pinças e volta para a minha linha de visão com um bisturi na mão. Eu respiro fundo através do meu nariz. Ele não fala, simplesmente franze a testa enquanto ele se concentra na minha cabeça. — Isso vai parecer apenas um beliscão. — Seu olhar corta para o meu e se fixa por um momento, e eu me pergunto se ele suspeita que eu possa entendê-lo. Eu me empurro contra a tira segurando minha cabeça para baixo, esticando meu pescoço. — Vai machucar mais se você se mexer. — Ele segura o meu olhar com aqueles olhos frios dele por um longo momento, e não há mais dúvidas. Ele não acha que eu o entendo. Ele sabe. E isso apenas o torna ainda mais um monstro. Derrota se espalha através de mim. Ele dá um aceno com a cabeça, satisfeito que eu não me mexi mais na maca. E eu não me mexo. A última coisa que eu quero é que ele corte a minha garganta ou arranque minha orelha. A lâmina desce. Essa é a parte onde eu seguro a minha respiração e digo a mim mesma que aquelas portas de vaivém irão se abrir com Will e Cassian e Tamra. Que eles vão invadir a sala e me libertar das tiras que me restringem. Os braços de Will vão se posicionar ao meu redor. Seus lábios irão se pressionar nos meus.
  53. 53. 53 É assim que deveria acontecer. Essa é a maneira que supostamente era pra acontecer. Só que não acontece.
  54. 54. 54 O médico me corta, empurrando a lâmina profundamente em minha pele, passando pelos tecidos. Sangue quente se esvai livre, escorrendo pelo meu cabelo. Eu grito através da fita, o som de um grito abafado. Fogo queima minha garganta, uma defesa automática que não me faz nada bem agora. Ar enfumaçado corre das minhas narinas. Ele talha. Eu sei que leva apenas alguns segundos, mas parece uma eternidade. Como tudo aqui embaixo, a pressão acentuada se estende infinitamente. Eu olho para ele quando ele se endireita, dedos enrolados em torno do bisturi. Meu sangue cobre a sua superfície prata, um roxo reluzente na luz brilhante, proclamando minha herança. Ele rapidamente solta a faca e, em seguida aperta um pequeno frasco contra o corte ardente em meu couro cabeludo e coleta o sangue. — Nenhuma gota desperdiçada, — ele murmura. Feito isso, ele aceita um novo item de Jenkins. Um disco de metal pequeno, não maior do que a minha unha.
  55. 55. 55 Ele se move devagar, com cuidado, seus movimentos precisos e experientes enquanto ele lida com o pequeno disco, e eu não posso deixar de me perguntar se Papai deitou nesta mesma maca, um pequeno disco metálico pousado sobre ele. De repente, meu pânico declina em algo mais calmo. Eu me sinto estranhamente em paz. Como se Cassian estivesse ao meu lado, sussurrando encorajamento. E eu sei que não posso ter aquela coisa dentro de mim. Eu luto novamente, tentando afastar-me, mas minhas amarras não cedem. Não há para onde ir. Eu me encolho e tenciono contra as correias. Suas curvas de borracha apertam contra meu crânio. Eu choramingo, narinas dilatadas rapidamente com baforadas quentes quando ele se estende ampliando a incisão que fez, baixando o disco de metal pequeno em direção a mim, trazendo-o mais para baixo, de modo que eu não posso mais vê-lo. De repente, as luzes piscam e brilham. O medico faz uma pausa olha para cima com as sobrancelhas se juntando. E então as luzes se apagam e estamos mergulhados na escuridão. A escuridão dura apenas um momento. Apenas o suficiente para um dos jalecos soltar uma maldição. Mas tempo suficiente para eu sentir a tensão varrer sobre os enkros.
  56. 56. 56 Uma camada de temor drapeia na sala. As luzes de emergência voltam a piscar. Um brilho vermelho escuro permeia o ar, lembrando-me sangue. Sangue humano é claro. Ele colore tudo. Transforma seus jalecos brancos em rosa. Pinta os rostos tensos dos meus captores em um vermelho demoníaco. — O... o que é isso? — Jenkins praticamente sussurra. O medico balança a cabeça. — Provavelmente apenas um exercício – — E ninguém nos alertou? O medico franze a testa, suas sobrancelhas de lagarta se juntando ainda mais apertadas, e eu posso dizer que ele não está convencido, também. Ele não sabe o que está acontecendo. Ele balança a cabeça. — Tenho certeza de que estamos apenas executando algum tipo de teste de operações ou – Um zumbido baixo e firme grita pelo ar. Jenkins engasga. — É a sirene! Os olhos do doutor se arregalam. — Não pode ser. Eles debandam, derrubando uma mesa em sua pressa, enviando as ferramentas ao chão com barulho, e deixando-me amarrada a maca. Vozes ansiosas desaparecem, colidem umas com as outras no corredor, e então eu estou sozinha, presa a uma mesa, incapaz de até mesmo virar a cabeça. Ótimo. Logo eu não posso nem ouvir as vozes a distancia. Apenas a sirene. Uma voz automática enche o ar, falando sobre o uivo incessante. Todos os funcionários, evacuar através da escada. Proceder com cautela.
  57. 57. 57 Eu me agito contra minhas amarras. Sem esperança. Meu olhar se fixa na sala de vidro, onde meu público estava. Vazia agora. Várias cadeiras tombadas, a porta da sala boceja aberta. Tentadoramente perto, e ainda assim eu não posso chegar lá. Sobre o lamento da sirene, ouço um som. Eu me esforço para ouvir, penso que são pés correndo. A porta de vai-e-vem atrás de mim dá um leve baque – como se uma mão empurrasse contra ela – e em seguida um rangido fraco de dobradiças. Alguém entrou na sala. Prendo a respiração, quase com medo de ter esperança... — Jacinda? Mesmo que eu reconheça a voz de Will, eu ouço o medo, e então percebo que ele não pode ver o meu rosto. Estou deitada tão silenciosa como uma pedra. Ele provavelmente acha que estou morta. Eu lamento contra a fita cobrindo minha boca e contorço meu corpo para que ele saiba que estou viva. Então ele está na minha frente, Cassian e Tamra bem atrás dele. Só a minha irmã se manifesta. Cassian não. Eu me rendo a meu alívio – e obtenho uma onda quente de alívio de Cassian também. Unida à minha, a emoção me domina e eu afundo na maca. — Jacinda! — Will está lá, cercando-me com seu calor. Não se passou muito tempo, mas é como vê-lo com outros olhos, devorando a visão dele com uma fome que eu nunca senti antes. Não até que fui rebaixada neste abismo. Enquanto Cassian e Tamra trabalham no resto das minhas correias, ele rasga a fita da minha boca. Eu estou livre. Eu nunca vou olhar para qualquer
  58. 58. 58 coisa da mesma maneira, nunca tomarei nada nem ninguém sem consentimento. Will estremece e roça seu polegar sobre minha boca ferida, pressionando um beijo rápido e febril nos meus lábios. Aperta meu rosto em ambas as mãos, os olhos procurando e com fome ao mesmo tempo. Seu brilhante olhar chega a meus fios de cabelo ensanguentados e ele olha mais de perto a ferida lá. — O que eles fizeram com você? Você está bem? — Não é tão profundo. Eu estou bem, — eu digo, sabendo, é claro, que ele não pode me entender. Estou falando draki. — Ela está bem, — responde Cassian, seu semblante sombrio na luz vermelha quando ele varre-me com seu olhar púrpura misterioso. — Rápido. Veja se ela pode ficar de pé. Os olhos de Will brilham, revelando apenas um lampejo de irritação ao tom de Cassian. Sempre o príncipe. As mãos de Will se movem rapidamente, soltando as últimas correias, e em um segundo eu estou livre e deslizo para fora da maca para os braços de Will. Então estou nos braços de Tamra, apertada em seu abraço com mais força do que eu percebi que ela possuía. Ela dá um passo para trás para olhar- me. — Esse tem que ser o pior dia da minha vida. Eu quase sorri, pensando que provavelmente não se compara com o meu. Cassian me estuda, mas não se move para me abraçar. Seu rosto é uma mascara rígida. Isso me lembra de tudo que aconteceu antes deste momento. Embora tenhamos vindo aqui juntos resgatar Miram, apesar de que estamos
  59. 59. 59 unidos e tão próximos quanto dois draki podem estar, emocionalmente ligados, nós não estamos... juntos. Não da maneira como ele queria que estivéssemos. Quando eu olho para ele, tudo isso me lava novamente. Que eu escolhi Will. Ao invés dele. Ao invés do clã. Cassian olha de mim para Will e volta, e sua irritação rasteja sobre minha pele como uma coisa viva. Seu olhar sombrio brilha roxo, pupilas verticais tremulam. Ele pisca e o aborrecimento desaparece de seus olhos, mas eu ainda o sinto persistente nele. Em mim. — Onde está Miram? — ele pergunta todo negócios agora. Concordo uma vez, focando-me novamente. — Siga-me. Nos apressamos através das portas vai e vem, mas eu paro, quando encaro a obra de Tamra. Sua névoa paira, a deriva sobre os corpos dos enkros caídos. Talvez apenas meia dúzia se espalham pelo chão. Os que não conseguiram sair. Ao meu olhar, ela encolhe os ombros, as pontas de suas asas brilhantes pulando por cima de seus ombros. Eu prossigo, pisando em torno dos corpos, levando-os pelos corredores ao som do alarme incessante e da voz automatizada aconselhando todos os funcionários a proceder com cautela. Minhas orelhas picam, detectando pés correndo a distância. Aparentemente a névoa de indução ao sono de Tamra não se infiltra em cada canto do prédio. Os ecos dos passos desaparecem no espaço oco dos corredores, e eu acho que ele é o último dos enkros em fuga.
  60. 60. 60 Não vemos ninguém nos arredores, e eu estou esperando, fervorosamente, que todos os draki ainda estejam dentro de suas celas e que não foram movidos no êxodo em massa. Os enkros não pararam para se preocupar comigo, afinal. Alívio passa por mim quando chegamos ao bloco da prisão. Eles ainda estão lá. Alguns de pé, alguns passeando em suas celas pequenas, todos claramente assustados devido ao alarme. Eles nos observam com olhos desconfiados ao entrarmos na sala. Cassian se atira em frente à cela de Miram. Ele toca o Plexiglas, pressiona uma grande mão na barreira, como se pudesse chegar a ela. Eu corro para a mesa de observação e estudo o painel com todos os seus monitores e aparelhos, tentando descobrir como abrir as celas. Tamra caminha lentamente para cima e para baixo na linha das celas, examinando todos os outros draki. Ela para diante da cela de Lia. É a primeira vez que eu dou uma boa olhada para ela, também. Ela é apenas uma menina – a menor draki que eu já tinha visto – e eu sei que Tamra está surpresa ao ver alguém tão jovem aqui. — Jacinda, eu acho que sei como. — A voz de Will atrai minha atenção. Ele aponta para uma linha de interruptores, cada um numerado. Ele vira o numero três. A cela de frente a Cassian desliza aberta. Miram sai e cai nos braços de Cassian soluçando. Eu sorrio leveza se espalhando através de mim enquanto eu assisto Cassian levantá-la do chão em um abraço. A felicidade de Cassian viaja através de mim. É impossível não absorver a sua alegria absoluta de encontrá-la viva. — Jacinda.
  61. 61. 61 Eu olho para Tamra. Ela virou-se para mim, mas está apontando para a cela de Lia sobre o ombro. A mensagem em seus olhos é clara. Ela quer libertar a menina. Eu vou fazer mais do que isso. Com um aceno de cabeça, uso as duas mãos para virar cada opção de uma vez só. Todas as celas se abrem. Eles não esperam por um convite. Draki mergulharam fora simultaneamente. Vários passam voando por nós sem uma palavra, com o único objetivo de fugir. O que eu suponho ser Roc, um Ônix, pisca e acena seus agradecimentos quando suas asas passam por nós. Lia hesita, seus grandes olhos azuis encararam de mim para Tamra e de volta, incertos. Eu me afastei do painel e me aproximei dela. — Venha. Você deve ficar com a gente. — Eu não percebi o que eu ia dizer até que saiu dos meus lábios, mas é tão obvio para mim. É claro que eu não vou deixá-la sozinha. De repente, a voz automatizada muda de tom, torna-se um novo mantra. Aviso. Retirada pelas escadas imediatamente. Operação Lilith terá inicio em cinco minutos. Operação Lilith? Os enkros devem ter se evacuado em segurança e mudaram para o plano B. O que quer que seja isso, não deve ser bom para nós. — Eu acho que é hora de darmos o fora daqui, — Will anuncia. Concordo com a cabeça e todos nos corremos para as portas, prontos para ir às escadas uma vez que há obviamente um motivo que ninguém está usando os elevadores. Mesmo se funcionarem, provavelmente não é uma boa
  62. 62. 62 ideia numa emergência. Se a energia acabasse, estaríamos presos dentro deles. — Esperem! Paramos, observando enquanto Lia corre de volta para o quadro de controle. Ela olha para as celas abertas por um longo momento, antes de considerar o painel de botões. — Venha! — Eu chamo, pensando naqueles cinco minutos que estão correndo rapidamente. Com um aceno firme de cabeça, como se chegasse a uma conclusão, ela bate um botão. A parede atrás das celas desliza aberta, expondo o verde exuberante da floresta simulada. Corro para frente. — O que você está fazendo? Ela agarra meu pulso, me impedindo de bater o botão novamente para fechar a parede – para nos defender daquele mundo... dele. — Nós não podemos deixa-lo lá, — ela diz solenemente. Seus grandes olhos, assim como os de Az, me espreitando, dentro de mim, parecendo saber exatamente o que dizer para me afetar. — Ele vai nos matar. — Mesmo enquanto eu pronuncio isso, eu não estou totalmente certa. Se ele estiver livre, eu duvido que ele se importe o suficiente para vir atrás de nós. Ela balança a cabeça. — Eu acho que não. Ele vai se concentrar em escapar, assim como nós.
  63. 63. 63 Eu angulo minha cabeça, estudando-a. Para alguém tão jovem, ela é sabia. — Ele é louco, — Miram sussurra fervorosamente para Cassian. — Do que ela está falando? — Cassian questiona. — Há outro draki lá... — Minha voz para. Eu olho nos olhos de Lia, as pupilas verticais estremecendo com intensidade. Ela está determinada a ajudar o cinza... e eu realmente não discordo dela. Ele não merece ser um prisioneiro mais do que qualquer outro draki. Mais do que eu. Eu olho de volta ao pulsante mundo verde, tão em desacordo com o resto desse submundo estéril, frio. — Jacinda, — Will puxa meu braço. — Nós temos que ir. — Tudo bem, — eu digo, — vamos dar o fora daqui antes que ele perceba que as portas estão abertas. Nós escapamos da sala. Ninguém pede mais explicações, e eu acho que todo mundo está apenas satisfeito que finalmente estamos saindo. Eu deslizo um olhar para Cassian. Ele corre com uma mão em volta do braço de Miram, como se ele de alguma forma, tivesse medo de perdê-la novamente. Em seguida, um guincho terrível rasga pelo ar. É um som que eu reconheço. Foram somente algumas horas atrás que eu ouvi aquele som, convencida de que eu poderia morrer? O cinza está livre. — Por aqui! — Will grita sem precisar que seja dito que o som não natural vem de uma criatura que não queremos enfrentar.
  64. 64. 64 Nós corremos por outro corredor, pés e sapatos batendo duro no ladrilho. Eu olho para Tamra. Seu cabelo branco parece vermelho no brilho das luzes de emergência que cobrem o ar. Da forma como ele costumava ser. Do jeito que eu sou. À frente há uma passagem aberta e exatamente além dela, um conjunto de amplos degraus de concreto. — A escada, — Tamra grita, com um sorriso dividindo seu rosto. O primeiro que eu vi desde que a convenci a se juntar a nós nesta viagem. Eu sorrio também. Estamos quase lá. Nós conseguimos. Em seguida o alarme para, juntamente com a voz estridente automatizada vinda de cima. Um silêncio sepulcral desce – o único som é o de nossas respirações explodindo quando estamos perto do primeiro degrau. O primeiro passo para nossa liberdade. O súbito mergulho na quietude nos força em câmera lenta, nos fazendo pausar. Hesito, olhando ao redor incerta. Um erro. De repente, uma grande porta de aço desliza fechada diante de nós, cercando a escada. E nos fechando dentro.
  65. 65. 65 Parece que ninguém diz nada por algum tempo, mas não pode ser mais do que trinta segundos. Nós só olhamos em uma espécie de descrença atordoada para o local onde uma vez estavam as escadas. Escadas que deveriam levar-nos daqui. — Onde está o elevador? — Tamra fala sem pensar, girando ao redor, seu olhar penetrante como se ela fosse de repente encontrá-lo bem atrás de nós. É o único lembrete de que precisamos. Há outra maneira de sair daqui. Arriscado ou não, subir em um elevador é a nossa única chance. Temos pressa pelos corredores largos, nossas sombras escuras e formas fluidas nas paredes tingidas de vermelho. Draki e humano – a combinação ataca meu coração com um calafrio, especialmente neste ambiente onde draki e humanos não se misturam. E então eu me sinto culpada, porque eu sei o que eu sou. Eu sei o que Will não é. E eu já decidi que não importava. Eu acredito nisso.
  66. 66. 66 Balanço a cabeça e me concentro no caminho diante de mim, os golpes constantes de meus pés, ignorando o sussurro na parte de trás da minha cabeça. A voz de que me lembra de que aqueles cinco minutos estão quase acabando. Nós puxamos para uma parada no elevador. As portas estão fechadas, os painéis de prata completamente selados. Will aperta o botão, batendo duro duas vezes. Nada. Nenhuma luz. Nenhum sinal de que ele está realmente funcionando. — Eles bloquearam o lugar —, Cassian anuncia severamente. — O que você quer dizer? O que você está dizendo? — Tamra olha descontroladamente para cada um de nós. — Nós não podemos sair? Tipo... pra sempre? — Deve ser o procedimento para fechar tudo quando algo dá errado – como nossa infiltração, — Will explica. Mesmo sem entender Tamra, ele pode adivinhar a essência da nossa conversa. — Então, nós estamos presos? — Eu pergunto, balançando a cabeça, recusando-me a acreditar nisso. — Por quanto tempo? — Eles não querem correr o risco de que qualquer um de nós escape —, anuncia Lia. Eu rosno com desgosto. Nós não deveríamos ter voltado para salvar o cinza. Deveríamos de ter conseguido sair daqui como os outros draki, todos os quais estão provavelmente voando para casa agora. Se tivéssemos continuado, estaríamos livres. Mas agora estamos presos aqui. Com ele. Sinto uma picada na carne na parte de trás do meu pescoço e me arrepio, olhando em volta, como se ele estivesse lá. Pronto para retomar de
  67. 67. 67 onde paramos. É tudo imaginação. Não há nada atrás de nós além de uma sala confusa tingida de vermelho. Quando eu me viro, meu olhar encontra Lia. Ela dá um pequeno encolher de ombros em desculpas, lendo minha mente perfeitamente. É. Agora, ela deseja que ela não tivesse apertado o botão para libertá-lo. Eu abro minha boca, decidida de que é melhor eu avisar os outros sobre exatamente o que estamos enfrentando – que há um draki cinza de mais de dois metros, capaz de abater alguém com um único toque. Que um roçar contra ele pode decepar um membro. Mas um novo perigo aparece primeiro. O tubo fino que corre ao longo das bordas do teto vem à vida e jorra uma névoa turva com um fraco som assoviado – como o ligar de um aspersor de água. Will aponta sua voz dura: — Eles estão inundando o prédio com gás! — Com o quê? — Eu rosno, mesmo que ele não possa me entender. Meus pensamentos dão uma guinada enquanto olho para aquela névoa crescente. Eu não acho que os enkros vão nos matar – não quando somos valiosos para eles vivos. Cassian balança a cabeça, dando uma olhada para o spray fraco. — Eu não sei... talvez seja algo para nos deixar inconscientes. Assinto com a cabeça. Isso faz mais sentido do que nos envenenar até a morte e matar todos os draki aprisionados. Eles perderiam sua coleção inteira antes de chegar a realizar seus experimentos totalmente.
  68. 68. 68 Tamra ataca o botão sem luz do elevador como se pudesse de alguma forma fazê-lo funcionar. — Seja lá o que eles estão tentando fazer, estamos muito ferrados mesmo se não sairmos daqui! Lia se abraça e cai para trás contra uma parede, como se suas pernas de repente não pudessem suportar seu peso. — Eu sinto muito. Nós não vamos conseguir fugir, vamos? —, ela sussurra, sacudindo a cabeça e espalhando seus cabelos escuros, listrados de azul, ao redor de seus ombros pequenos. E a visão desta pequena menina indefesa faz algo comigo. Ela não deveria estar aqui. Nenhum de nós deveria. Algo torce e aperta com força dentro de mim. Eu pressiono quatro dedos no centro do meu peito, mas isso não ajuda. A dor não vai embora e eu inalo profundamente – então paro abruptamente, surpreendendo a mim mesma. Eu olho para os vapores circulando acima de nós. Eventualmente os vapores farão seu caminho até nós, através de nós, nos devorarão – e farão tudo o que eles deveriam fazer. Uma calma repentina cai sobre mim. Eu abaixo minha mão do meu peito e olho de minha irmã para Cassian, e então para Will, percebendo que pode ser isso. E se for, eu sei quais braços eu preciso sentir em torno de mim quando der o meu último suspiro. Will olha para mim então, como se estivesse lendo minha mente. Ele segura meu olhar por vários momentos antes de olhar de novo para o tubo cuspindo vapor. Eu tremo ao pensar o que eles farão com ele quando encontrá-lo aqui conosco. Se eles descobrirem que ele não é realmente como eles – não inteiramente humano, não inteiramente draki – mas algo entre isso...
  69. 69. 69 Essa ideia me dói fisicamente. Eu respiro profundamente. Pode ser que eu sinta Cassian, mas eu quero Will. Eu ando em direção a Will. Ele ainda está ocupado estudando a tubulação, determinado a descobrir uma maneira de nos salvar, sem dúvida observando uma maneira de impedir que o gás descarregue seus danos. Mas não há nenhuma maneira. O tempo está acabando e eu não vou ter meus últimos momentos desperdiçados. Eu toco seu rosto, meus dedos firmes em seu queixo, inclinando-o a olhar para mim. Não temos palavras agora. Eu não posso me desmanifestar. Eu preciso ficar o mais forte que puder. E eu sou mais forte como uma draki. Mas eu tenho que fazê-lo me ver, me ouvir em seu coração. Seus olhos estão atentos e preocupados, brilhando com uma febre para fazer alguma coisa, para salvar a nós. A mim. Eu sei que ele está mais preocupado comigo agora do que consigo mesmo. Porque isso é tão como ele. Tão Will. Bom, cuidadoso, auto sacrificante. Isso me faz sentir pior por arrastá-lo para dentro do meu mundo. Eu sorrio para ele e roço meu polegar em seus lábios. Algo reluz em seus olhos cor de avelã, compreendendo. Sua cabeça se lança para baixo e ele me beija rapidamente. Digo a mim mesma que é assim que tudo termina, não é uma maneira ruim de ir. Eu deslizo meus dedos ao redor de seu pescoço, acaricio a pele macia lá, muito mais fria do que a minha, e não me importa que tenhamos público. Eu os ignoro me concentrando apenas em Will. Nisso. Eu não vou deixar qualquer das outras coisas tirarem isso de mim.
  70. 70. 70 Seus lábios são frios, também. Secos e frios enquanto eles se movem contra os meus. Isso não me intimida – nenhuma das diferenças, o que eu sou, o que ele é, o que não somos – nada disso importa mais. Frustração brota dentro de mim, irritação... e uma dor devagar começa a zumbir dentro do meu peito. Eu tento me concentrar em Will, sobre o gosto dele. Nunca tinha sido uma tarefa difícil antes. Eu tento, mas aquela dor vaga cresce, torna-se mais nítida, mais aguda. Eu recuo, esfregando os dedos no centro do meu peito novamente. — O que foi? —, pergunta ele, preocupado. Eu balancei minha cabeça, me sentindo tonta. Eu engasgo. Dor. O desconforto coincide com um barulho súbito. Eu pisco contra o mundo de vermelho, olhando ao redor, reconhecendo Cassian a poucos metros de distância, agora totalmente manifestado. Ele está batendo seus punhos na parede até que suas juntas brilham molhadas com sangue purpúreo. Eu estremeço, encolhendo-me enquanto o cimento se entorta e se quebra sob a pressão, pedaços caindo aos seus pés. Eu sempre soube que ele era forte. Ônix tipicamente o são. Meu pai era. Mas vendo Cassian assim, sentindo isso... Eu enrolo e desenrolo minhas mãos, o eco de sua dor vibrando em meus ossos. Sua ira me atinge, tóxica como veneno. Por um instante eu me preocupo se é alimentada por mim e Will... observando nos beijarmos. Eu fiz a minha escolha, mas ainda assim, isso não significa que eu queira machucar Cassian. Especialmente agora, possivelmente nosso último momento. Eu não quero lhe causar dor.
  71. 71. 71 Eu sondo mais a fundo, sentindo-o lá dentro de mim... tentando pegar o que quer que o esteja levando a agir tão loucamente. Ele perdeu a cabeça? Miram grita seu nome, pressionando as mãos. O medo está por todo o rosto dela e eu estou certa de que ela nunca viu seu irmão tão fora de controle antes. Cassian sempre foi uma constante, forte e sereno. Então eu percebo seu único pensamento está envolvido com a sobrevivência, em se libertar. Eu vejo como ele ataca a parede, seus músculos se esticando enquanto ele trabalha pistas de carvão escuro ondulando sob a superfície de sua carne, como piscadas de uma escuridão noturna. Ele soca e rasga o cimento, em um frenesi. Tão tolo quanto esse método pode parecer, ele não se importa. Seu desespero escoa para dentro de mim e eu deslizo meio passo para frente... como se eu estivesse prestes a me juntar a ele em sua loucura. Eu paro, balançando a cabeça. É onde isso fica confuso. Separar seus sentimentos dos meus. — O que você está fazendo? — Eu grito. — Você não pode quebrar a parede. Nós estamos embaixo da terra! Eu me movo para me aproximar dele, mas Will agarra meu braço, me segurando. Ele provavelmente está com medo de que eu seja pega em um dos impulsos selvagens de Cassian. Eu aceno um braço. — O que você vai fazer? Um túnel através da terra? Ele me envia um olhar rápido e continua batendo na parede. Sujeira e fragmentos de pedra solta voam. Uma pedrinha afiada bate em minha
  72. 72. 72 bochecha. Eu aperto a mão no lugar. O cimento começa a dar lugar à terra batida, um solo marrom escuro que cheira argiloso e rico. — Isso soa apenas certo —, ele braveja enquanto continua seu ataque. E então percebo que ele está falando sério. A névoa pulverizada começa a descer mais perto de nós agora. Tosses esporádicas soluçam através do nosso grupo. Eu ondulo o ar em frente do meu nariz, como se isso fosse dispersar qualquer efeito que o vapor exerça. — Podemos fazer isso?— Tamra pergunta. Ela aperta as mãos ansiosamente em frente a ela como se estivesse rezando que esta pudesse ser uma possibilidade verdadeira. — Se ninguém mais puder nos tirar daqui, Cassian pode —, Miram diz, seu medo se foi agora, substituído com total confiança que seu irmão mais velho pode resolver qualquer coisa. Reviro os olhos e resisto, repreendendo que mesmo sendo Cassian, ele não pode cavar um caminho para a liberdade. Estamos enterrados muito profundamente no subsolo. — Eu posso fazer isso —, Will diz em voz baixa, olhando para todos nós atentamente, absorvendo nossa troca mesmo sem compreender tudo. Em seguida, ele anuncia novamente, — Eu posso fazer isso. Com sua veemência, Cassian hesita. Ele recua seu punho, o sangue escorrendo grosso de suas juntas rompidas para chão de ladrilhos. — Will —, eu murmuro, e mesmo que o som de seu nome em meus lábios seja diferente, mais um rosnado que um discurso real, ele vira a cabeça para olhar para mim.
  73. 73. 73 Um olhar em seus olhos cor de avelã e eu sei. Eu entendo o que ele quer dizer. Eu o vejo novamente como eu o vi lutando com Corbin, terra se deslocando e voando em seu comando. — Para trás, — Will ordena. Surpreendentemente, Cassian o faz. Nós todo observando, tentando manter nossas respirações pequenas e esparsas, como se nós não pudéssemos de modo algum inspirar o ar que está se tornando cada vez mais contaminado. Will encara a parede quebrada. Miram começa a tossir, cobrindo a boca com as duas mãos. Logo, Lia se junta a ela. Os sons de sua tosse apenas torna tudo mais tenso, mais urgente. Eu estremeço em compaixão quando Cassian dobra Miram em seus braços. E se estivermos errados? E se este gás tem a intenção de nos matar? Com as duas mãos posicionadas no ar em sua frente, Will concentra-se na parede. Eu fico olhando para as palmas das mãos dele completamente abertas, desejando que elas façam algo, possuam o mesmo poder que eu tinha observado antes, quando ele enfrentou Corbin. Suas mãos começam a tremer, mas nada. A parede cortada não mostra qualquer sinal de movimento. Cassian grunhe com desgosto. Eu balanço minha cabeça. Eu não sei o que eu esperava. Ver algo milagroso? Que ele talvez pudesse fazer algo mais? Algo que mesmo os draki da terra de meu clã não poderiam fazer? Ridículo. Isto não é como no meu sonho onde ele desenvolve asas e se leva para o céu comigo. Então, de repente, há um gigantesco desabamento. Uma enorme nuvem de fumaça aumenta no corredor, temporariamente me cegando. Por
  74. 74. 74 um momento, eu acho que é uma súbita corrente de gás disparando da tubulação acima de nós. Não mais uma morte lenta hesitante. Mas então eu percebo que isso não é apenas fumaça por toda parte. São detritos também. Partículas e pedaços de parede cobrem cada centímetro da minha pele e ferroam meus olhos. Eu olho para trás para a parede e suspiro ao ver que ela não só se foi... mas um buraco bruto de vários metros de profundidade toma seu lugar. Will fez isso. Ele realmente manipulou a terra para criar uma saída. É claro, ele precisa fazer isso várias vezes mais para que nós realmente escapemos. — Como você sabia que...? — Minha voz desaparece maravilhada. E claro qual seria a razão para perguntar? Ele não pode me entender. Will encontra o meu olhar desnorteado. Ele deve ler a pergunta lá porque ele dá de ombros. — Eu não sei. Eu só sabia que poderia fazê-lo. Um sentimento... um impulso veio até mim. — Bom trabalho —, diz Tamra em aprovação, pisando dentro do buraco irregular que Will criou. — Você pode fazer mais alguma coisa? — Ela aponta para frente. O resto de nós segue, entrando na fissura na parede, um por um... mas algo me dá o que pensar. A sensação de picadas na parte de trás do meu pescoço está de volta. Os minúsculos pelos formigam e vibram. Viro-me e olho para fora no corredor. Atrás de mim, ouço os outros pedindo a Will que se repita, para fazê- lo novamente e nos faça um túnel, um caminho de fuga para fora daqui. Mas não todas as vozes estão aí.
  75. 75. 75 A de Cassian não está. Will se obriga e outro boom sacode o ar, irradiando do solo e subindo até minhas pernas. Uma onda gigante de vento, poeira e detritos bate em mim na volta. Eu cambaleio por um momento antes de voltar ao meu equilíbrio. Imóvel, eu olho para fora no corredor de onde fizemos nossa fuga e encontro Cassian de pé no meio do spray possivelmente tóxico, olhando para a direita, sua atenção fixa em algo. Ele tosse, cobrindo a boca com a mão. Ele precisa sair de lá, mas ele está hesitando por algum motivo. — Cassian? O que foi? Ele balança a cabeça. — Eu não sei. Alguma coisa – Ele não termina o resto de sua sentença. De repente ele se foi, arrancado da minha vista por uma faixa de cinza. Aquela que nós libertamos. — Cassian! — Eu grito, mergulhando depois dele, sabendo o que estou prestes a encarar... e sabendo que desta vez não haverá qualquer enkros para nos separar.

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