Minha para possuir psy chnageling 4

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Minha para possuir psy chnageling 4

  1. 1. 1
  2. 2. 2
  3. 3. 3 Nalini Singh apresenta mais uma camada escura de puro desejo, revelando paixões desconhecidas, em seu último romance sobre o mundo Psy. Um fantasma retorna do passado de um changeling leopardo, fazendo-o questionar tudo: até mesmo os seus instintos animais mais básicos ... Clay Bennett é um Sentinela DarkRiver poderoso, mas ele cresceu nos subúrbios com sua mãe humana sem nunca conhecer seu pai changeling. Como um jovem sem os laços do clã, ele tentou sufocar sua natureza animal. Ele falhou... E cometeu o ato de mais extrema violência, matando um homem e perdendo sua melhor amiga, Talin, no sangrento rescaldo. Tudo de bom nele morreu no dia em que foi informado de que ela também estava morta. Talin McKade mal sobreviveu a uma infância banhada em sangue e terror. Agora um novo pesadelo espreita sua vida; os meninos de rua que trabalha para proteger estão desaparecendo e reaparecendo mortos. Determinada a mantê-los seguros, ela revela o mais obscuro segredo de seu coração e retorna para pedir ajuda ao homem mais forte que conhece... Clay perdeu Talin uma vez. Ele não a deixará partir novamente, pois sua fome por possuí-la é uma necessidade dilaceradora nascida do leopardo em seu interior. À medida que correm para salvar os inocentes, Clay e Talin devem enfrentar as violentas verdades do passado... Ou perder tudo que já lhes importou.
  4. 4. 4 TRADUÇÃO E REVISÃO
  5. 5. 5 Glossário Psy-Changeling Changelings - São humanos que podem se transformar em animais. Eles têm duas naturezas, humana e animal, e são mais fortes, mais rápidos, e com sentidos mais aguçados do que humanos comuns. Eles vivem em Clãs e possuem uma hierarquia rígida e bem definida. Os dois clãs principais na série são os DarkRivers (leopardos) e os SnowDancers (lobos). Temos: DarkRiver DarkRiver é um clã de changelings leopardos que é um dos mais poderosos dos Estados Unidos e que controla San Francisco e arredores. Eles possuem uma aliança recém-formada com os SnowDancers, um antigo inimigo. Alfa: Lucas Hunter Curadora: Tamsyn Ryder Sentinelas: São os imediatos e guarda pessoal do alfa. Eles são: Nathan “Nate” Ryder, Clay Bennett, Vaughn D’Angelo, Mercy Smith e Dorian Christensen. SnowDancer Como um dos clãs mais dominantes na Califórnia e um dos maiores nos Estados Unidos, o clã de lobos SnowDancer é uma força a ser considerada. Eles são conhecidos por sua crueldade, o que faz deles um inimigo mortal e um valioso aliado. Alfa: Hawke Curadora: Lara Tenentes: São os imediatos e guarda pessoal do alfa. Eles são:
  6. 6. 6 Riley Kincaid, Tomas, Índigo Riviere, Judd Lauren, Cooper, Jem, Alexei, Matthias, Kenji e Riaz. Psys São uma raça com grandes poderes psíquicos. Esses poderes cobraram um alto preço a eles; loucura, psicoses, psicopatias. O Conselho Psy então decidiu implantar o Protocolo do Silêncio, que objetivava eliminar todas as emoções da raça. Os Psys passaram a ser friamente controlados e práticos. Eles lideram o governo e os negócios, e todas as suas decisões são baseadas em eficiência e lógica. Ou, pelo menos, deveriam ser. O Conselho Psy lidera a raça e faz suas próprias leis. Ele é formado por sete Conselheiros: Nikita Duncan, Ming LeBon, Tatiana Rika-Smythe, Henry Scott, Shoshanna Scott, Kaleb Krychek e Marshall Hyde. Algumas designações Psy: E (Empatia) - É a habilidade de sentir e manipular as emoções de outros seres sencientes. Empatas podem afetar um ou mais indivíduos por vez e curar traumas emocionais. Eram conhecidos no passado como curadores de mentes. J (Justiça) - Capacidade de acessar as memórias de pessoas que são suspeitas de algum crime, descobrindo através delas o que eles sabem. Eles fazem parte do sistema de justiça e só são chamados em casos especiais. M (Medicina) - Existem vários tipos de M-Psys, sendo os mais conhecidos os que podem “ver” dentro do corpo e diagnosticar doenças e fraturas. Alguns M-Psys têm a capacidade de “enxergar” em um nível celular, podendo analisar o DNA, por exemplo. Apenas uma pequena parcela de M-Psys pode realmente curar.
  7. 7. 7 P (Previsão) - É a capacidade de “ver” um evento futuro antes que ele aconteça. Uma rara expressão da previsão é a capacidade de ver o passado. P-Psys que veem principalmente o passado são extremamente raros, mas a maioria dos videntes pode ter um ou dois flashes do passado durante o ano. Ps (Psicometria) - Em termos básicos, aqueles nascidos com a habilidade Ps podem obter informações tocando objetos. Ps-Psys serão discutidos mais adiante no decorrer da série. Tp (Telepatia) - É a habilidade de se comunicar mentalmente com outra pessoa. Todos os Psys são telepatas em algum grau, pois essa capacidade é essencial para que eles possam se ligar à PsyNet. Telepatas puros são raros, e eles podem enviar e receber mensagens ao longo de grandes distâncias com clareza cristalina. X - Uma designação obscura mesmo entre os Psys. Eles serão discutidos mais adiante na série. Tc (Telecinese) - Habilidade de mover a matéria com a mente. Alguns são capazes de se teletransportar (viajar de um lugar para outro usando poder psíquico). Subdesignações da Telecinese: Tc-Celular - Habilidade de controlar as funções de seu próprio organismo ou as de outro ser vivo em um nível celular. Eles podem, entre outras coisas, parar o coração de um inimigo com um pensamento ou fazer com que seu próprio corpo se cure mais rápido, por exemplo. São muito raros. Tc-V (Viajantes) - Esses Psys são verdadeiros teletransportadores e podem ir de um lugar a outro num piscar de olhos. Viajantes são extremamente, extremamente raros. Serão discutidos mais adiante na série.
  8. 8. 8 Os Esquecidos Quando o Conselho Psy propôs no ano de 1969 promover o Protocolo do Silêncio, um protocolo que eliminaria toda a emoção dos Psys, eles encararam um problema aparentemente insuperável; a falta de homogeneidade racial. Diferentemente do frio e isolado Psy atual, os Psys de então eram uma parte integrante da estrutura do mundo. Eles sonhavam, eles choravam, e eles amavam. Às vezes, como era natural, aqueles que eles amavam vinham de uma raça diferente. Psys acasalavam com changelings, casavam com humanos, e tinham filhos mestiços. Previsivelmente, esses Psys racialmente impuros estavam entre os opositores mais virulentos do Protocolo do Silêncio. Eles entenderam o que levou seus irmãos a condenar a emoção; o medo da insanidade viciosa, de perder seus filhos para a loucura que varria seu povo em uma maré inexorável. Mas eles também entenderam que ao abraçar o Silêncio, eles perderiam tudo e todos que amavam. Para sempre. Até o ano de 1973, as duas facções estavam em um impasse. Negociações aconteciam, mas nenhum dos lados estava disposto a se comprometer e os Psys dividiram-se em dois. A maioria escolheu permanecer na PsyNet e entregar suas mentes à frieza insensível do Silêncio absoluto. O destino da minoria, alguns mestiços, outros com companheiros humanos e changelings, não é tão claro. A maioria acredita que eles foram eliminados por assassinos do Conselho. O Silêncio, sendo a última esperança Psy, era muito importante para correr o risco de ser interrompido por alguns poucos rebeldes. Há também um rumor de que os rebeldes morreram em um suicídio em massa. A última teoria afirma que esses rebeldes de muito tempo atrás foram
  9. 9. 9 os primeiros pacientes da “reabilitação” involuntária no recém-batizado Centro, suas mentes limpas, suas personalidades destruídas. Desde que os métodos do Centro eram experimentais na época, qualquer paciente sobrevivente teria terminado em estado vegetativo. Agora, conforme a primavera desperta cem anos mais tarde no ano de 2080, existe apenas um consenso: Os rebeldes foram neutralizados da maneira mais definitiva. O Conselho Psy não permite discordância.
  10. 10. 10 Capítulo 1 Talin McKade disse a si mesma que mulheres de vinte e oito anos de idade, especialmente as de vinte e oito anos que tinham visto e sobrevivido ao mesmo que ela, não temeriam nada tão simples quanto atravessar a rua e entrar em um bar para encontrar-se com um homem. Exceto, é claro, que esse não era um homem comum. E um bar era o último lugar em que ela esperava encontrar Clay, considerando tudo o que tinha aprendido sobre ele nas duas semanas em que o rastreou. Não era um bom presságio ela ter perdido tão cedo a coragem de ir até ele. Mas ela precisava ter certeza. O que descobriu foi que o Clay que ela conheceu, o alto, bravo e poderoso menino tinha se tornado algum tipo de executor de alta patente para o clã de leopardos dominante em San Francisco. Os DarkRivers eram extremamente bem respeitados, então a posição de Clay falava de confiança e lealdade. A última palavra apunhalou profundamente seu coração. Clay sempre tinha sido leal a ela. Mesmo quando não mereceu isso. Tragando, ela empurrou as memórias para longe, sabendo que não podia permitir que elas a distraíssem. O velho Clay se foi. Esse Clay… Ela não o conhecia. Tudo que sabia era que ele não teve qualquer problema com a lei após ser liberado do reformatório onde tinha sido encarcerado aos quatorze anos pelo assassinato brutal de Orrin Henderson. As mãos de Talin se apertaram com força no volante, fazendo com que suas juntas ficassem brancas. Ela podia sentir o sangue subindo para
  11. 11. 11 inundar seu rosto e seu coração batendo com o medo revivido. Partes de Orrin, coisas macias e molhadas que nunca deveriam ter sido expostas ao ar salpicaram nela quando se agachou no canto enquanto Clay... Não! Ela não podia pensar sobre isso, não podia ir lá. Era o bastante que as cenas do pesadelo, totalmente na íntegra com o espesso e enjoativo cheiro de carne crua ficando estragada, assombrassem seus sonhos noite após noite. Ela não cederia suas horas diurnas também. Luzes azuis e brancas chamaram sua atenção quando um carro da Força de Execução entrou no pequeno estacionamento diante do bar. O que formava dois veículos blindados e quatro policiais muito bem armados, mas embora todos eles tenham saído dos carros, nenhum dos quatro fez qualquer movimento para entrar no bar. Insegura do que estava acontecendo, ela permaneceu dentro de seu Jipe, este estacionado no lote secundário do outro lado da rua larga. O suor escorria por sua espinha ao ver os carros de polícia. Seu cérebro aprendeu desde cedo a associar sua presença à violência. Todo seu instinto a persuadia a cair fora dali. Mas ela precisava esperar e ver. Se Clay não mudou, se ele tivesse piorado... Desenrolando uma das mãos do volante, ela cerrou seu punho sobre seu estômago agitado, torcido com seu desespero. Ele era sua última esperança. A porta do bar se abriu naquele momento, fazendo seu coração pular. Dois corpos vieram voando para fora. Para sua surpresa, os policiais simplesmente saíram do caminho antes de cruzarem os braços e encararem desaprovadoramente o par expulso. Os dois jovens atordoados cambalearam para uma posição vertical... Só para caírem de novo quando mais dois garotos foram jogados em cima deles. Eles eram adolescentes; dezoito ou dezenove anos, a partir da aparência deles. Todos estavam obviamente bêbados como o inferno. Enquanto os quatro se deitaram ali, provavelmente gemendo e desejando a morte, outro homem saiu por seus próprios pés. Ele era mais velho, e até mesmo dessa distância ela podia sentir sua fúria quando ele levantou dois
  12. 12. 12 dos garotos e os jogou na caçamba de uma caminhonete estacionada, seu cabelo loiro platinado ondulando na brisa da tarde. Ele disse algo aos policiais que os fez relaxar. Um riu. Tendo se livrado dos dois primeiros, o homem loiro agarrou os outros dois rapazes pelo cangote e começou a arrastá-los para a caminhonete, ignorando o cascalho que devia estar esfolando a pele das partes expostas de seus corpos. Talin estremeceu. Aqueles infelizes, e provavelmente mal-comportados garotos, sentiriam as contusões e cortes amanhã, junto com as dores de cabeça. Então a porta se abriu de novo com um estrondo e ela se esqueceu de tudo e todos, exceto do homem emoldurado pela luz de dentro do bar. Ele tinha um menino atirado por cima de um ombro e arrastava outro do mesmo modo que o loiro tinha feito. — Clay. Era um sussurro vindo de uma onda obscura de necessidade, raiva e medo. Ele havia crescido, ficado com quase um metro e noventa e três. E seu corpo; ele havia mais que cumprido a promessa de poder bruto que sempre existiu nele. Sobre esse corpo musculoso, sua pele brilhava num rico, delicioso marrom só um tom abaixo do dourado. Sangue de Isla, Talin pensou, a beleza exótica da mãe egípcia de Clay vívida em sua mente mesmo depois de todos esses anos. A pele de Isla tinha sido de um tom de café preto suave, seus olhos de um chocolate amargo, mas ela contribuiu só com metade dos genes de Clay. Talin não podia ver os olhos de Clay dessa distância, mas ela sabia que eles eram de um verde marcante, olhos de um gato da selva; um legado inequívoco de seu pai changeling. Moldurados por sua pele e cabelos escuros como o breu, esses olhos tinham dominado o rosto do menino que ele havia sido. Ela tinha a sensação de que eles ainda o faziam, mas de uma forma muito diferente. Cada movimento dele gritava sobre uma incrível confiança masculina. Ele sequer parecia sentir o peso dos dois rapazes quando os lançou na pilha
  13. 13. 13 já existente na parte de atrás da caminhonete. Ela imaginou os músculos se flexionando, o poder, e estremeceu… Em um absoluto e voraz medo. Lógica, intelecto, sentido, tudo isso ruiu sob um fluxo de lembranças. Sangue e carne, gritos sem fim, os úmidos sons da morte. E ela soube que não conseguiria fazer isso. Porque se Clay assustava-a quando ela era uma criança, ele a aterrorizava agora. Enfiando uma mão em sua boca, ela engoliu de volta um grito. Isso foi quando ele congelou, sua cabeça se erguendo. Atirando Cory e Jason no caminhão, Clay estava prestes a se virar e dizer algo para Dorian quando ele captou um pequeno som na brisa. Sua besta entrou em modo de caça, então se lançou para fora com os seus incrivelmente afiados sentidos de leopardo, enquanto o homem varria a área com seus olhos. Ele conhecia esse som, essa voz. Ela pertencia a uma mulher morta. Clay não se importava. Ele havia aceitado sua loucura há muito tempo. Então agora ele olhou, olhou e procurou. Por Tally. Havia muitos carros no estacionamento do outro lado da rua, muitos lugares onde o fantasma de Talin poderia se esconder. Boa coisa que ele sabia como caçar. Ele deu um passo nessa direção quando Dorian lhe deu um tapa nas costas e entrou em sua linha de visão. — Pronto para pegar a estrada? Clay sentiu um grunhido se formar em sua garganta, e a reação era irracional o suficiente para empurrar alguma sanidade dentro de sua mente.
  14. 14. 14 — Policiais? — Ele moveu-se para que pudesse ver o outro estacionamento. — Eles vão nos dar trabalho? Dorian abanou a cabeça, seu cabelo loiro cintilando sob a iluminação dos postes da rua que tinham começado a se acender quando os sensores embutidos neles detectaram o esvaecimento da luz. — Eles vão deixar em nossas mãos desde que só crianças changelings estão envolvidas. De qualquer forma, eles não têm qualquer direito de interferir nos assuntos internos. — Quem os chamou? — Não foi Joe. — Ele nomeou o dono do bar; um membro dos DarkRivers. — Ele nos chamou, então deve ter sido outra pessoa com quem eles se meteram. Inferno, eu estou contente que Kit e Cory resolveram sua pequena competição irritante, mas eu nunca pensei que eles se tornariam malditos melhores amigos e nos deixariam loucos. — Se nós não estivéssemos tendo esses problemas com o Conselho Psy tentando prejudicar o clã — Clay disse. — eu não me importaria em jogá-los em uma cela por uma noite. Dorian grunhiu em assentimento. — Joe nos enviará a conta. Ele sabe que o clã cobrirá os danos. — E vamos descontá-la desses seis couros. — Clay empurrou Cory de volta para baixo quando o garoto bêbado e confuso tentou se levantar. — Eles vão estar trabalhando para pagar suas dívidas até se formarem. Dorian deu uma risada. — Eu me lembro de aprontar o inferno nesse bar e conseguir ter minha bunda chutada por você. Clay olhou de cara feia para o Sentinela mais jovem, embora sua atenção nunca tenha deixado a área de estacionamento do outro lado da rua. Nada se moveu ali, exceto a poeira, mas ele sabia que, às vezes, a presa se escondia à vista de todos. Brincar de estátua era uma forma de
  15. 15. 15 enganar um predador. Mas Clay não era um animal irracional; ele era um experimente Sentinela DarkRiver. — Você era muito pior do que eles. Porra, você tentou me derrubar com suas merdas de ninja. Dorian disse algo em resposta, mas Clay perdeu isso quando um pequeno Jipe descascado saindo rapidamente do estacionamento chamou sua atenção. — As crianças são suas! — Com isso, ele os abandonou para perseguir sua presa a pé. Se ele fosse humano, a perseguição teria sido um ato estúpido. Mesmo para um changeling leopardo isso não fazia muito sentido. Ele era rápido, mas não rápido o suficiente para acompanhar esse veículo se o motorista acelerasse de verdade. Como ela, e era definitivamente uma ela, fez agora. Em vez de se dar por vencido, Clay arreganhou seus dentes em um sorriso cruel, sabendo de algo que a motorista não sabia, algo que transformava sua perseguição estúpida em sensata. O leopardo podia reagir por instinto, mas o lado humano da mente de Clay estava funcionando muito bem. Como a motorista estaria descobrindo por volta de... Agora! O Jipe guinchou em uma parada, provavelmente evitando o entulho que bloqueava a estrada por centímetros. O deslizamento de terra havia ocorrido a apenas quarenta e cinco minutos atrás. Normalmente DarkRiver já teria tomado providências, mas porque outro pequeno deslizamento de terra tinha acontecido quase no mesmo lugar dois dias atrás, este havia sido deixado inalterado até que ele e a encosta afetada pudessem ser avaliados por peritos. Se ela tivesse estado dentro do bar, teria ouvido o anúncio e saberia tomar o desvio.
  16. 16. 16 Mas ela não tinha estado no bar. Ela estava se escondendo lá fora. Pelo tempo que ele chegou no local, a motorista estava tentando dar a volta. Mas ela continuava se enrolando, seu pânico a fazendo sobrecarregar o sistema computrônico que controlava o veículo. Ele podia cheirar a cortante e pura essência de seu medo, mas era o cheiro estranhamente familiar e ainda assim indefinidamente errado sob a máscara deste que o fez determinado a ver seu rosto. Ofegante, mas não realmente sem fôlego, ele parou no meio da estrada atrás dela, desafiando-a a atropelá-lo. Porque ele não estava deixando-a escapar. Ele não sabia quem diabos ela era, mas ela cheirava perturbadoramente como Tally e ele queria saber por quê. Cinco minutos mais tarde, a motorista parou de tentar religar o carro. A poeira abaixou, revelando a placa do veículo alugado. Os pássaros começaram a cantar novamente. Ainda assim, ele esperou… até que, finalmente, a porta deslizou-se para trás, abrindo-se. Uma perna esbelta coberta por jeans azul-escuro e uma bota até o tornozelo preta tocou o chão. Sua fera ficou extraordinariamente quieta quando uma mão surgiu sobre a porta para deslizá-la mais para trás. Pele sardenta, uma pequena sugestão de bronzeado. Uma pequena forma feminina se desenrolou para fora do Jipe. Mesmo completamente fora, ela permaneceu de costas para ele por vários minutos. Ele não fez nada para forçá-la a se mover, não fez qualquer som agressivo. Ao invés disso, ele aproveitou a chance para beber a visão que ela lhe proporcionava. Ela era indiscutivelmente pequena, mas não frágil, nem facilmente quebrável. Havia força na postura aprumada de sua espinha, mas também havia uma suavidade que prometia uma almofada para um duro corpo masculino. A mulher tinha curvas. Luxuriantes e doces curvas. Sua bunda preenchia a parte traseira de sua calça jeans perfeitamente, despertando os profundos instintos sexuais tanto do homem quanto do leopardo. Ele quis morder, segurar, acariciar. Cerrando os punhos, ele permaneceu no lugar e se forçou a levantar os olhos. Deveria, ele pensou, ser fácil erguê-la pela cintura para que pudesse
  17. 17. 17 beijá-la sem ter um torcicolo no pescoço. E ele planejava beijar essa mulher que cheirava como Talin. Sua fera continuava rosnando que ela era sua, e nesse exato segundo ele não estava se sentindo civilizado o suficiente para discutir. Isso viria mais tarde, depois de ter descoberto a verdade sobre este fantasma. Até lá, ele se afogaria na rajada selvagem de sexualidade, no familiar e ainda sim desconhecido perfume dela. Até seu cabelo era daquele mesmo tom incomum do de Talin; um profundo castanho-amarelado com mechas cor de chocolate. Uma juba, como ele sempre chamou. Semelhante às incríveis variações de cor na pelagem de um leopardo, algo que as pessoas de fora frequentemente perdiam. Para um leopardo companheiro, porém, aquelas variações eram tão óbvias quanto holofotes. Como era o cabelo dessa mulher. Belo. Espesso. Único. — Talin. — Ele disse suavemente, rendendo-se completamente à loucura. Sua espinha endureceu, mas ela finalmente se virou. E o mundo inteiro parou de respirar.
  18. 18. 18 Capítulo 2 — Olá, Clay. O ar correu de volta para dentro do corpo dele com a força de um golpe. Um rugido se construiu em sua garganta, mas ele não o soltou, violentamente ciente do acre odor do medo saindo dela em ondas. Filho de uma puta! Tally estava com medo dele. Ela poderia muito bem ter fincado uma faca em seu coração. — Venha aqui, Tally. Ela esfregou as mãos nas coxas, balançando sua cabeça. — Eu vim para conversar com você, isso é tudo. — Esta é a sua maneira de conversar comigo? Fugindo? — Ele disse a si mesmo para parar, para não rosnar para ela. Esta era a primeira conversa que eles tinham em duas décadas. Mas era como se eles tivessem se falado ontem, era tão natural, tão fácil. Exceto por seu medo. — Você ia parar o carro em breve? Ela tragou. — Eu estava planejando conversar com você no bar. O leopardo teve o suficiente. Movendo-se com a velocidade sobrenatural de sua espécie, ele estava a uma polegada dela antes que Tally pudesse sequer puxar o ar para gritar.
  19. 19. 19 — Você deveria estar morta. — Ele a deixou ver a ira dentro dele, ira que teve vinte longos anos para fermentar. Fermentar e se espalhar até se infundir por todas as veias de seu corpo. — Eles mentiram para mim. — Sim, eu sei… Eu sabia. Ele congelou em descrença absoluta. — Você o quê? Todo esse tempo, enquanto ele tinha estado perseguindo um fantasma, Clay esteve absolutamente certo de que tinha sido enganado, e sem o conhecimento de Talin. O destruía o fato de que ela estivesse lá fora pensando que ele quebrou sua promessa de voltar para ela. Nem uma só vez ele considerou que ela pudesse ter sido uma participante disposta. Olhos da cor das nuvens de tempestade encontraram os seus. — Eu pedi que dissessem a você que morri em um acidente de carro. A faca torceu-se profundamente, esculpindo um buraco em sua alma. — Por quê? — Você não me deixaria, Clay. — Ela sussurrou, atormentando viciosamente sua besta com aqueles grandes olhos cinza rodeados por uma fina faixa âmbar. — Eu estava com uma boa família, tentando viver uma vida normal. — Seus lábios se torceram. — Ou tão normal quanto eu sabia viver. Mas eu não conseguia relaxar. Eu podia sentir que você me caçaria no segundo em que deixasse o reformatório. Doze anos de idade e eu não ousei fechar meus olhos no caso de você me encontrar em meus sonhos! O leopardo dentro dele mostrou os dentes em um rosnado. — Você era minha para proteger! — Não! — Ela fechou suas mãos em punhos, a rejeição escrita em cada linha tensa de seu corpo. — Eu nunca fui sua! Besta e homem cambalearam sob o golpe cruel de seu repúdio. A maioria das pessoas pensava que ele era muito parecido com os frios Psys, que ele não sentia. Nesse momento, ele desejava que isso fosse verdade. A última vez que ele tinha se machucado tanto assim, como se sua alma
  20. 20. 20 estivesse sendo dilacerada por mil chicotadas, foi no dia em que ele saiu do reformatório. Sua primeira ação foi ligar para o serviço social. — Eu sinto muito, Clay. Talin morreu três meses atrás. — O quê? — Sua mente tinha ficado em branco, seus sonhos de futuro dizimados por uma parede negra. — Não. — Foi em um acidente de carro. — Não! Isso o derrubou de joelhos, rasgando-o em pedaços de dentro para fora. Mas a profundidade daquela mágoa, o corte, a dor lancinante, nada disso não era nada comparado a essa rejeição. No entanto, apesar do quanto tinha machucado, ele ainda queria, não, ele precisava tocá-la. Porém, quando ele levantou sua mão, ela se encolheu. Ela não poderia ter feito nada mais concebido para causar dano a seu protetor coração animal. Ele lutou contra a dor como sempre fazia; trancando toda sua ternura e deixando a ira sair para passear. Nestes dias, ele raramente tinha deixado de estar bravo. Mas hoje, a mágoa se recusou a morrer. Ela arranhava dentro dele, ameaçando fazê-lo sangrar. — Eu nunca te machuquei. — Ele disse entre dentes cerrados. — Eu não consigo esquecer o sangue, Clay. — A voz dela tremeu. — Eu não consigo esquecer. Nem ele podia. — Eu vi sua certidão de óbito. — Depois que o primeiro choque passou, ele sabia que aquilo era uma mentira, mas… — Eu preciso saber que você é real, que você está viva. Dessa vez, quando ele ergueu a mão para seu rosto, ela não se encolheu. Mas ela também não se inclinou para seu toque como sempre fazia quando criança. Sua pele era delicada, cor de mel. Sardas dançavam através da ponte de seu nariz e ao longo das maçãs de seu rosto. — Você não tem ficado fora do sol.
  21. 21. 21 Ela lhe deu um olhar assustado seguido de um sorriso tímido que o atingiu como um chute no estômago. — Nunca fui muito boa nisso. Pelo menos ela não tinha mudado a esse respeito. Mas tanta coisa sobre ela havia mudado. Sua Tally tinha vindo correndo para dentro de seus braços todos os dias durante os cinco dos mais felizes anos de sua vida, olhando para ele como seu protetor e amigo. Agora, ela empurrou a mão dele até que a deixou cair, e a reiteração silenciosa de sua rejeição abrasou uma fria queimadura em sua alma. Isso tornou sua voz severa quando ele disse: — Se você me odeia tanto, por que me procurou? — Por que não podia tê-lo deixado com suas memórias, as de uma menina que só via bondade nele? Essas memórias eram tudo que restou em sua batalha para permanecer na luz. Ele sempre carregou escuridão dentro de seu coração, mas agora ela acenava a cada minuto de vigília, sussurrando promessas prateadas de encontrar a paz em não sentir, não ser ferido. Mesmo os poderosos laços do clã não eram mais fortes o suficiente para segurá-lo, não quando a atração da violência o golpeava noite e dia, hora após hora, segundo após excruciante segundo. Os olhos de Tally se arregalaram. — Eu não odeio você. Eu nunca poderia te odiar. — Responda a pergunta, Talin. — Ele não a chamaria de Tally novamente. Ela não era a sua Tally, o ser humano único que amou sua alma bastarda antes dele ser arrastado para dentro de DarkRiver. Essa era Talin, uma estranha. — Você quer alguma coisa. As bochechas dela arderam como fogo. — Eu preciso de ajuda. Ele não podia mandá-la embora, não importa o quê. Mas ele ouviu impassivelmente, seu carinho por ela ameaçando se transformar em algo que desejava ferir e machucar. Se ele traísse a profundidade da sua fúria, se
  22. 22. 22 ele a fizesse fugir correndo novamente, isso só poderia empurrá-lo sobre a última borda mortal. — Eu preciso de alguém perigoso o suficiente para enfrentar um monstro. — Então você veio a um assassino nato. Ela se encolheu de novo, então aprumou sua postura. — Eu vim para a pessoa mais forte que já conheci. Ele bufou. — Você queria conversar. Então fale. Ela olhou para trás, por cima de seu ombro. — Nós poderíamos fazer isso em algum lugar mais privado? As pessoas poderiam dirigir até aqui. — Eu não levo estranhos para minha toca. — Clay estava puto e quando ele ficava puto, ele ficava mal. Talin levantou o queixo em um gesto de desafio que enviou centelhas de memória através de sua mente. — Certo. Nós podemos ir para meu apartamento em San Francisco. — Como o inferno. — Ele ocasionalmente trabalhava no HQ de negócios dos DarkRiver perto de Chinatown, mas a sede era construída para felinos. Ela não o deixava no limite. — Eu passei quatro anos em uma gaiola. Isso sem contar com os catorze que passou nos apartamentos semelhantes a pequenas caixas que ele e sua mãe chamavam de casa. — Eu não fico bem dentro de paredes. Uma dor crua atravessou suas feições, transformando o tempestuoso cinza de seus olhos quase em negro, por pouco eclipsando o anel de fogo âmbar.
  23. 23. 23 — Eu sinto muito, Clay. Você foi para a prisão por minha causa. — Não se iluda. Você não me fez estripar seu pai adotivo ou dilacerar o rosto dele. Ela apertou uma mão em seu estômago. — Não. — Por que não? — Ele pressionou, uma mistura cáustica de raiva e possessividade subjugando ferozmente seus instintos protetores onde Tally estava em causa. Mais uma vez, ele lembrou a si mesmo que esta mulher não era sua Tally, que ela não era a menina por quem ele teria rasgado suas veias para manter segura. — Eu matei Orrin enquanto você estava no quarto. Nós não podemos agir como se isso nunca tivesse acontecido. — Nós não temos que falar sobre isso. — Você costumava ter mais espinhos. A cor inundou suas bochechas novamente, e elas brilhavam em contraste com a luz minguante do dia. Mas ela deu um passo adiante, raiva vibrando através de seu corpo. — Isso foi antes de que eu tivesse sangue de um homem espirrado em meu rosto, antes de minha cabeça ser preenchida com seus gritos e com os rugidos de um leopardo. Um predador changeling podia caçar em completo silêncio, tanto em sua forma humana quanto animal, mas ele tinha sentido tal ira naquele dia que o animal nele subiu totalmente à superfície. Naqueles minutos encharcados de sangue, ele tinha sido um humano insano, um leopardo sobre dois pés. Eles tiveram que atirar uma overdose de tranquilizantes para animais nele para afastá-lo do corpo mutilado de Orrin Henderson. A última coisa que ele tinha visto quando estava deitado no chão, seu rosto pressionado contra o sangue ainda quente, foi Tally enrolada em um canto, seu rosto salpicado com sangue e outras coisas rosadas e carnudas… E cinza, pedaços cinza. Os olhos dela olhavam através dele, e suas sardas
  24. 24. 24 eram pontos gritantes contra sua pele branca como giz claramente visível contra todo aquele vermelho. Uma parte daquele sangue tinha sido dela mesma. A maioria era de Orrin. — Você costumava ter mais sardas em seu rosto. — Ele comentou, preso na memória. Não era horrível para ele. Ele era animal o suficiente para não se importar com ninguém de fora de seu clã, especialmente aqueles que ousaram fazer mal aos seus companheiros de clã. Naquela época, Tally e Isla eram os membros exclusivos dele. Ele sempre soube que mataria para proteger qualquer uma delas. — Não mude de assunto. — Eu não estou. Seu rosto foi a última coisa que eu vi do lado de fora. — Ele passou um dedo sobre aquelas sardas. — Elas devem ter se desbotado ou mudado quando você cresceu. — Não, elas não fizeram isso. — Tally retrucou, e pela primeira vez ela soou exatamente como a menina que ele conheceu. — Elas se multiplicaram, se espalharam. Malditas coisas. — Você as possui agora. — Ele disse, divertido como sempre por sua antipatia para com os pequenos pontos de pigmento. — Elas são suas. — Desde que os cremes não fazem com que elas desapareçam e eu não quero fazer cirurgia a laser, eu acho que são. Ele quase relaxou, preso nos ecos de um passado há muito tempo ido. Oh, o poder que Talin tinha sobre ele. Ela podia fazê-lo rastejar. A compreensão de sua contínua fraqueza por uma mulher que achava seu selvagem coração repulsivo, tornou suas próximas palavras afiadas como navalhas. — Entregue sua chave. Ela deu um passo cauteloso para trás.
  25. 25. 25 — É alugado. Eu posso... — Passe a porra da chave ou encontre outro idiota para te ajudar. — Você não costumava ser assim. — Grandes olhos assombrados, lábios suaves pressionados juntos como que para reter a emoção. — Clay? Ele estendeu a mão. Depois de um segundo tenso, ela pôs a fina chave computrônica na palma dele. A maioria dos carros era chaveada com a impressão digital do dono, mas locadoras de carros usavam chaves pré- programadas ao invés de gastar meia hora de codificação a cada novo cliente. Economizava tempo, mas isso também permitia que os ladrões roubassem os veículos. Idiotas. — Entre. Ele rodeou o Jipe sem mais palavras e tomou o assento do motorista. No momento em que ela parou de fazer birra e entrou no carro, ele deu partida no veículo. Ele lhe deu tempo suficiente apenas para colocar o cinto antes de dar ré, girar e voltar por onde ela tinha vindo. O bar ficava nos subúrbios de Napa, perto das florestas maciças que margeavam a área, florestas estas que eram parte do território DarkRiver. Ele se dirigia ao tranquilo isolamento daquelas árvores, fazendo seu melhor para ignorar o picante aroma feminino da mulher que se sentava tão perto. Tão fascinante quanto esse aroma era, ainda assim havia algo estranho nele, e isso confundia o leopardo. Mas nesse momento ele não estava disposto a analisar sua reação. Ele estava funcionando sob uma descarga de pura adrenalina. — Onde nós estamos indo? — Ela perguntou dez minutos mais tarde quando ele saiu da estrada pavimentada em direção às sombras dos enormes pinheiros que dominavam a área. — Clay? Ele rosnou baixo em sua garganta, muito malditamente puto com ela para se importar em ser educado. Talin sentiu os cabelos de sua nuca se erguerem em alerta primitivo. Clay sempre foi menos que civilizado. Mesmo preso nos confins claustrofóbicos do complexo de apartamentos onde eles se conheceram e com
  26. 26. 26 sua fúria animal contida sob um véu de comedida intensidade, ele havia caminhado como um predador à caça. Ninguém nunca tinha se atrevido a dar uma de valentão com Clay, nem os meninos com o dobro de sua idade, nem os agressivos membros de gangues que viviam para aterrorizar, nem mesmo os ex-presidiários. Mas isso foi naquela época; seu comportamento atual era outra coisa. — Pare de tentar me assustar. Ele realmente estalou os dentes para ela, fazendo-a saltar em seu assento. — Eu não tenho que tentar. Você já está se borrando de medo de qualquer maneira. Eu posso cheirar seu medo e é um insulto do caralho. Ela havia esquecido esse aspecto de suas habilidades changelings. Por mais de vinte anos, ela viveu entre humanos e changelings não predatórios, deliberadamente aumentando a distância entre ela e Clay. Mas o que tinha conseguido com isso? Aqui estava ela, de volta ao começo… Perdendo tudo que já lhe importou. — Você disse isso na primeira vez que nos encontramos. Ele tinha sido um tão grande, alto e perigoso garoto que ela esteve mais que assustada com ele. Em toda sua curta vida as pessoas tinham machucado-a, e ele lhe pareceu exatamente o tipo de pessoa que faria isso. Então ela manteve distância. Mas naquele dia, quando ela o viu cair e quebrar a perna no pátio do complexo, que era mais um ferro-velho, não um parque, ela não pôde deixá-lo sofrer sozinho. Tão assustada que seus dentes tinham começado a tocar castanholas, ela foi para a sala e pegou o telefone. Orrin estava no sofá, desmaiado. De alguma forma, ela conseguiu fazer um telefonema proibido; para os paramédicos. Então, destrancando a porta, ela correu para se sentar com Clay até que a ajuda chegasse. Ele não esteve muito feliz. Nove anos para seus precoces e totalmente verbal três anos, ele tinha sido uma criatura genuinamente perigosa.
  27. 27. 27 — Você rosnou para que eu desaparecesse e disse que gostava de mastigar ossos de garotinhas. — Era um truque dela, a memória. Ela podia se lembrar de tudo desde o momento de seu nascimento, e às vezes antes disso. Que foi como havia aprendido a falar mais cedo que os outros, e a ler antes de poder falar. — Você disse que eu cheirava como uma macia, suculenta e deliciosa presa. — Você ainda cheira. O comentário a fez se eriçar apesar de sua prudência. — Clay, pare com isso. Você está agindo como um adolescente. — Ele também estava conseguindo aumentar o medo dela; Será que ele sequer percebia quão intimidante era? Grande, incrivelmente forte, e tão terrivelmente bravo que Tally sentiu seu olhar como um golpe quando ele girou seus olhos para ela. — Por quê? Eu poderia muito bem conseguir alguma diversão dessa visita. Consigo isso atormentando você. Ela se perguntou se havia cometido um erro. O Clay que conheceu tinha sido selvagem, mas ele estava do lado dos anjos. Ela não estava tão certa sobre este homem. Ele se parecia com um verdadeiro predador, sem honra ou alma. Mas seu coração muito mole lhe disse que continuasse pressionando, que havia mais nele do que essa raiva incandescente. — Você pertence ao clã DarkRiver. Nenhuma resposta. — Esse era o clã do seu pai? Isla era humana. Foi de seu pai que Clay herdou sua habilidade de mudar de forma. — Tudo que sei sobre meu pai é que ele era um felino. Isla nunca me disse nada além disso. — Eu pensei, talvez...
  28. 28. 28 — O quê? Que ela mudou de ideia, tornando-se sã em seu leito de morte? — Sua risada era amarga. — Ela provavelmente estava acasalada com um leopardo e ele morreu. Eu suponho que ela era frágil para começo de conversa. Perder seu companheiro a destruiu completamente. — Mas eu pensei que você não sabia se eles foram casados. — Acasalados, não casados. Um inferno de uma diferença. — Ele virou em um caminho escuro como breu, a luz da noite bloqueada pelas copas das árvores. — Eu soube de toda essa merda sobre minha própria raça desde então. A menos que os doutores intervenham, e mesmo nesse caso é uma roleta russa, os changelings leopardos não são férteis exceto quando acasalados ou em uma relação estável a longo prazo. Nenhuma gravidez acidental, nenhum casamento rápido. — Oh. — Ela mordeu o lábio inferior. — Os DarkRivers te ensinaram sobre como ser um leopardo? Ele lhe lançou um olhar de soslaio e este não era nada amigável. — Por que a necessidade súbita de conversar? Só cuspa o que você quer. Quanto mais cedo você fizer isso, mais cedo poderá desaparecer de volta para o buraco onde esteve vivendo pelos últimos malditos vinte anos. — Você sabe o quê? Eu não tenho mais certeza de que vim ao homem certo. — Ela retrucou, imprudente em face de sua agressividade. O ar dentro do carro se encheu com um senso de ameaça. — Por quê? Porque eu não sou tão fácil de manipular quanto você se lembra? Seu leopardo de estimação. Ela desatou a rir, seu estômago doendo pela força disso. — Clay, se alguém tivesse seguido alguém, essa seria eu me grudando em você. Eu não ousava te dar ordens. — Um monte de besteira. — Ele resmungou, mas ela pensou ter ouvido um abrandamento em seu tom. — Você me fez participar de malditas festas de chá.
  29. 29. 29 Ela se lembrava de sua ameaça antes da primeira festa: Conte a alguém e eu te comerei e usarei seus ossos como palitos. Ela devia ter ficado assustada, mas Clay não tinha “maldade” nele. E mesmo há apenas três anos no planeta, ela já sabia bastante sobre a maldade, e podia dizer quais adultos a tinham. Clay não tinha. Então, com os olhos arregalados, ela se sentou com ele e eles tiveram sua festa de chá. — Depois disso, você era meu melhor amigo. — Ela disse em um apelo silencioso. — Você não pode ser meu amigo agora? — Não. — Sua resposta plana a sacudiu. — Nós chegamos. Ela olhou através do para-brisa para encontrar-se em uma pequena clareira. — Onde? — Você queria privacidade. Isso é privado. Desligando as luzes e o motor, ele saiu. Sem nenhuma outra escolha, ela o seguiu, parando no meio da clareira enquanto ele se inclinava contra um tronco de árvore no outro lado, de frente para ela. Seus olhos brilhavam no escuro, fazendo-a arfar. Perigoso, ele era definitivamente perigoso. Mas ele era bonito também; da mesma maneira que os irmãos selvagens dele. Letal. Intocável. — Por que você me trouxe aqui? — Este é um território DarkRiver. É seguro. Ela se abraçou. Embora o ar do início da primavera fosse frio, não foi isso que a fez buscar conforto. Foi a fria distância que Clay havia colocado entre eles, dizendo o que pensava sobre ela sem palavras. Isso doía. E ela sabia que causou isso a si mesma. Mas não podia fingir. O que viu Clay fazer traumatizou sua mente de oito anos, silenciando-a por quase um ano.
  30. 30. 30 — Você foi brutal. — Ela se achou dizendo ao invés de pedir o que queria, de dizer a razão pela qual tinha lutado com as viciosas verdades de seu passado e procurado-o. Ela precisava que ele compreendesse, perdoasse sua traição. — Você era meu único porto seguro, a única pessoa que confiei que nunca se perderia para raiva e me machucaria. — Ela insistiu diante de seu silêncio. — Mas você acabou sendo o mais violento de todos. Como eu podia deixar de me perguntar se essa violência não se voltaria contra mim um dia, hein, Clay? O rosnado dele ergueu todos os pelos de seu corpo. Capítulo 3 Corra! A mente dela gritou. Talin não correu. Ela estava cansada de correr. Mas seu coração parecia um tambor em sua garganta. — Você sempre soube o que eu era. — Clay disse, seu tom cheio de uma fúria profunda. — Você escolheu não pensar nisso, fingir que eu era o que você queria que eu fosse. — Não. — Ela se recusou a recuar. — Você era diferente antes. — Antes que ele descobrisse o que Orrin tinha feito. Antes que ele tivesse que matar para mantê-la segura. — Você era... — Você está inventando contos de fadas. — A mais severa das respostas. — A única coisa diferente era que eu te tratava como uma criança. Você não é mais uma criança. E ele não iria embainhar suas garras, ela pensou.
  31. 31. 31 — Eu não me importo com o que você diz. Nós ainda somos amigos. — Não, nós não somos. Não quando você está tremendo em suas botas só de olhar para mim. Meus amigos não me olham e veem um monstro. Talin não podia contestar isso. Ela o temia, talvez mais do que a qualquer outro nesse planeta. Clay quase a destruiu uma vez, e era a única pessoa que podia fazer isso mesmo agora. — Me desculpe. — Desculpe por minha fraqueza te transformar em um assassino, desculpe por não ser forte o bastante para superar o que vi naquele quarto banhado de sangue. Desculpe por ter vindo aqui. Não. Ela não se desculpava por tê-lo encontrado. — Eu senti sua falta. — A cada dia sem ele, ela sentiu sua falta. Agora, ele era uma sombra na escuridão. Tudo que ela podia ver claramente era aqueles seus olhos de gato. Então ela o sentiu se mover e percebeu que ele tinha cruzado os braços. Fechando-se para ela. — Isso não vai funcionar. — Ela sussurrou, consciente de que algo muito frágil tinha se quebrado dentro dela. — É minha culpa, eu sei. Se ela tivesse vindo a ele aos dezoito anos, Clay podia ter ficado chateado com o que ela tinha feito, mas ele teria lhe perdoado, teria entendido sua necessidade de se tornar forte o suficiente para lidar com ele. Mas ela havia esperado muito tempo e agora ele não era mais dela. — Eu devia voltar. — Diga-me o que você quer, então eu decidirei. A aspereza na voz dele afagou-a em uma carícia terrivelmente íntima. Ela estremeceu. — Não me dê ordens. — Ela disparou antes de poder se censurar. Quando criança, ela tinha aprendido a manter suas opiniões para si mesma. Era muito mais seguro. Mas meia hora com Clay, um Clay que era quase um estranho, e ela já estava caindo nos velhos padrões entre eles. Ele era a
  32. 32. 32 única pessoa que ficava zangado se ela mantivesse sua boca fechada, ao invés do contrário. Talvez, ela pensou com uma faísca brilhante de esperança se acendendo, talvez ele não tenha mudado nesse sentido. — Eu não sou um cachorro para ficar me arrastando a seus pés. Um breve silêncio, seguido pelo som de roupas deslocando-se sobre a pele. — Você ainda tem uma língua afiada. A tensão em seu peito diminuiu. Se Clay tivesse mandado-a calar a boca... — Posso te fazer algumas perguntas? — Me entrevistando para o seu trabalho? Desculpe Talin, eu tenho o poder aqui. O escárnio emocional feria mais que qualquer golpe físico. Eles sempre foram iguais; amigos. — Eu quero te conhecer de novo. — Tudo que você precisa saber é que eu sou até mais mortal do que costumava ser. — Ele se afastou o suficiente das sombras para que ela pudesse ver os planos hostis de seu rosto. — Eu sou o único que deve fazer as perguntas. Diga-me, para onde você foi quando eles me levaram? Suas palavras abriram outra comporta de memórias. Um Clay grogue sendo erguido por Executores vestidos de preto, suas mãos presas atrás das costas por algemas extra-fortes. Ele não resistiu, impedido pelos tranquilizantes que eles atiraram nele. Mas seus olhos se recusaram a fechar, nunca deixando os dela. Verde. Essa era a cor que preenchia suas memórias daquele dia. Não o vermelho rico do sangue, mas a chama quente do verde incandescente. Olhos de Clay. Ela choramingou quando eles o levaram, mas seus olhos lhe disseram para ser forte, que ele voltaria para ela. E ele tinha.
  33. 33. 33 Foi Talin que desonrou o acordo silencioso deles, Talin que tinha estado muito ferida para ousar dançar com um leopardo. Esse fracasso assombrou todos os dias de sua vida. — Houve muita atenção da mídia após a morte de Orrin. — Ela disse, forçando-se a superar a lâmina afiada da perda. — Eu não estava ciente disso no momento, mas depois eu pesquisei. — Eles quiseram me derrubar. Como um animal. — Sim. — Ela deixou seus braços caírem ao lado do corpo e cerrou as mãos em punhos, incapaz de suportar a ideia de um mundo sem Clay. — Mas a Agência de Proteção à Criança interveio. Eles foram forçados a isso depois que alguém vazou a verdade sobre Orrin… e sobre o quê ele tinha feito comigo. — Bile inundou sua boca, mas ela lutou contra isso com uma força nutrida por uma jornada através do próprio inferno. Ela não podia apagar o passado, sua memória visual do pesadelo, mas aprendeu sozinha a pensar além da escuridão. — Se tornou uma questão política secundária e as autoridades condenaram você por um crime menor, te colocando em um reformatório até os dezoito anos. — Eu estava lá. Sei o que aconteceu comigo. — Ele disse, sarcástico. — Eu perguntei sobre você. — Estou tentando te dizer! — Ela aprumou os ombros diante de sua masculinidade dominante. — Pare de pressionar. — Inferno, eu tenho a noite toda. Não se apresse. Eu estou aqui para sua conveniência. — O sarcasmo não combina com você. — Ele era muito cru, muito terreno, muito selvagem. — Você não me conhece. Não, ela aceitou isso com outra explosão de dor, ela não conhecia. Ela tinha desistido de todos os direitos sobre ele no dia em que o deixou acreditar que tinha sido esmagada até a morte em um acidente de carro.
  34. 34. 34 — Por causa da atenção da mídia — Ela continuou. — muita gente se apresentou com ofertas para me adotar. — Eu sei, estava nos jornais. Ela assentiu. — Meu antigo assistente social foi despedido depois que a imprensa descobriu que ele gastava a maior parte de suas horas de trabalho apostando. — Com as mesmas vidas que lhe foram confiadas para proteger. — O novo sujeito, Zeke, tinha uma garotinha da minha idade. Ele fez mais que o suficiente, examinando pessoalmente todos os candidatos. Clay estava mudo, mas seus olhos eram os do leopardo, perigosos ao extremo. E então ela se lembrou que foi Zeke quem havia mentido para ele sobre sua morte. Ela encarou os olhos do leopardo que estava à sua frente, temerosa, confusa, estupidamente carente. Às vezes lhe parecia que havia nascido necessitando de Clay. — Ele me entregou à família Larkspur, que vive na parte rural de Iowa. O espaço, os infinitos campos verdes, a provisão constante de alimento, tudo isso foi um grande choque para o sistema dela. — Você gostaria do Ninho; é assim que os Larkspurs chamam a fazenda. Muito espaço para correr, para brincar. Pareceu-lhe que sua postura se tornou um pouco menos agressiva. — Eles eram bons para você? Ela assentiu, mordendo duramente a língua antes que pudesse ceder e implorar para que ele voltasse a ser como era antes do dia em que tudo se despedaçou. Orrin tinha partido seu lábio, quebrado suas costelas, mas foi ver Clay ser arrastado pela porta afora que a destruiu. — Eu estava mal, Clay. Eu estava mesmo antes que Orrin morresse. Isso apenas empurrou minha mente para além do limite. Mas os Larkspurs
  35. 35. 35 me acolheram, não me julgaram, tentaram me fazer parte da família. De repente eu tinha dois irmãos mais velhos, uma irmã mais velha e uma irmã caçula. — Soa como coisa demais para se lidar. — Por um tempo, foi. — Subjugada pela barulhenta e risonha família, ela se encolheu nos cantos, escondendo-se. — Então um dia eu percebi que estava lá por um ano e que ninguém tinha me machucado. No momento em que você foi solto, eu tinha doze anos e tudo estava funcionando bem. Pesadelos só uma ou duas vezes por semana, faltando a escola cada vez menos. — Então você decidiu me deixar no passado. — Uma risada amarga. — Por que diabos não? — Não. Não foi assim. — Ela estendeu a mão para ele, deixando-a cair na metade do caminho quando ele se aprofundou ainda mais na escuridão. — Eu só... Como ela poderia explicar a angustiante confusão que havia dirigido- a? Talin sabia que ainda não era forte o suficiente para enfrentar Clay ou aos horrores do seu passado, mas ela tinha se preocupado com ele também. — Eu roubei quatro anos de sua liberdade. Eu estava determinada a não ser um fardo para você pelo resto de sua vida. — Apenas doze anos e ela já sabia que ele desistiria de tudo para mantê-la segura. — Eu não quis te forçar a uma escravidão, a cuidar de mim por eu ser fraca demais para fazer isso por mim mesma. Você já tinha passado a maior parte de sua vida fazendo isso por Isla. — Esse fato distorceu a relação entre mãe e filho, transformando-a em de cuidador e paciente. O pensamento de Clay colocando-a na mesma categoria tinha perturbado Talin. Ainda perturbava. — Não minta para mim. — Foi a advertência letal. — Você estava com medo, então você fugiu. — Eu estou dizendo a verdade. — Ela tragou. — Mas sim, eu estava com medo, também. Você não viu o que eu vi, Clay. Naquele dia no quarto de Orrin, você se transformou em alguém que eu não conhecia, alguém mais
  36. 36. 36 cruel do que qualquer outra pessoa que eu já tivesse conhecido. — Ela esperou que ele dissesse que tinha feito aquilo por ela, mas ele não disse. Sua culpa se intensificou. — Por que você não me culpa? Isso tornaria tudo muito mais fácil. Culpe-me, grite comigo, droga! — Para quê, Talin? O que você fez? Foi minha amiga. Esse foi seu único crime. — Ele permaneceu imóvel, tão integrado na floresta que ela mal podia dizer onde ele começava e a noite terminava. — Esses Larkspurs, por que você não foi atrás deles por ajuda? — Eu trouxe escuridão para essa família. Eu não posso trazer o mal. — Eles são seu clã, eles ficariam ao seu lado. Ela foi surpreendida por seu uso da palavra. — Meu clã? Não, eu não acho que eles sejam. Eu... eu era uma visita. Eu me fiz uma visita, e me afastei da família aos dezesseis, quando consegui uma pensão completa e uma bolsa de estudos. — Até mesmo o nome deles, ela manteve emprestado só até a maioridade. Tempo suficiente para turvar as águas e fazer com que qualquer futura procura de Clay acabasse em um beco sem saída. — Eu nunca os deixei entrar. — Por que não? — Você deixa seu clã tocar sua alma? — Ela perguntou, desesperada para aprender sobre sua nova vida, seu novo mundo, anos de fome se combinando nesse momento único. — Os felinos de DarkRiver têm uma maneira de te adotar mesmo que você particularmente não queira ser adotado. — Foi um grunhido. — Se eu sangrar, eles virão ao meu auxílio. Eles matariam por mim. Ela estremeceu com a violência selvagem de sua declaração. Mas havia também uma sedução nesse tipo de lealdade. Isso a fez se perguntar sobre vínculos de uma espécie muito diferente. — Você… você tem alguém em seu clã? Ele ficou muito quieto.
  37. 37. 37 — Eu não sinto o cheiro de nenhum companheiro em você. — Eu? — Sua voz saiu alta, assustada. — Não. Eu... Não. — Ele permaneceu em silêncio. Ela tossiu. — Eu não quero atrapalhar um relacionamento, envolvendo você em meus problemas. — Deixe meus relacionamentos comigo. Ela se torceu por dentro. — Certo. Clay esperou. O reformatório tinha sido um inferno, mas lhe ensinou a conter suas emoções, a manter sua raiva em seu interior até que fosse preciso usá-la como arma. Os cientistas Psys que vieram observar “o comportamento de um animal cativo” tinham sido seus professores inconscientes. Naquela época, ele era um solitário changeling predador sob um longo encarceramento; clãs changelings normalmente lidavam com os seus sem o envolvimento dos Executores. Mas não só Clay não tinha um clã, ele havia cruzado uma fronteira racial em seu crime. Orrin era humano. No entanto, ao invés de submetê-lo a uma intensa pesquisa e aprender coisas, coisas essas que poderiam ter dado ao Conselho Psy uma vantagem na guerra fria que era atualmente travada contra os changelings, os Psys o trataram como uma curiosidade, como um animal atrás das grades. Foi o animal que tinha observado e aprendido. Agora ele observou como Talin trocou de um pé para o outro antes de se abraçar novamente. — Eu trabalho com crianças em San Francisco. — Ela disse de repente. — Eu tenho feito isso desde que me formei. Mas não aqui. Eu estava em Nova Iorque até o começo do ano. — É um deles que está em perigo? — Ele sentiu as brasas de sua fúria se acenderem ao perceber que ela esteve em seu território por quase três meses. Todas as vezes que ele tinha captado a sugestão do cheiro dela em
  38. 38. 38 Chinatown ou descendo o Fisherman’s Wharf1, só para se encontrar perseguindo uma estranha, ele achou que esse era um sinal de que realmente tinha ficado louco. — Não desse jeito. — Deixando cair os braços, ela olhou para seus olhos, e ele fez com que estes brilhassem no escuro. — Clay, Por favor. Pare de fazer essa coisa de gato e venha para que eu possa ver seu rosto. — Não. — Ele não estava pronto para mostrar-lhe qualquer coisa. — Você sabia que eu estava na cidade? — Não no começo. Eu não tive como te localizar depois que você saiu do reformatório. — Ela chutou a grama. — Então um dia, algumas semanas atrás, eu pensei ter visto você. Isso me enlouqueceu, e eu pensei que estivesse alucinando, fantasiando como você pareceria adulto. Ele não respondeu, apesar disso ecoar seus pensamentos anteriores. Ela soltou um suspiro. — Eu juro... — O som abrasivo de dentes rangendo uns contra os outros. — Fui para onde pensei ter te visto, percebi que era o HQ de negócios dos DarkRiver e os pesquisei na Internet. Eu ainda não tinha certeza; não havia nenhuma fotografia e você mudou seu sobrenome para Bennett. Tinha sido uma forma de desaparecer da face da terra, de se afastar da efervescente atenção dos meios de comunicação. Mas ao longo dos anos, esse acabou se tornado seu nome. — Nós conversaremos sobre como você me rastreou mais tarde. — Ele disse, fogo frio queimando um buraco em seu intestino. — Primeiro me diga por que você precisa de minha ajuda. — Se você estiver tentando me assustar, está funcionando. Isso não significa que eu vou me virar e correr. 11 Fisherman’s Wharf: É um bairro e popular atração turística em San Francisco, Califórnia.
  39. 39. 39 Nesse desafio cheio de bravata, ele teve outro fugaz vislumbre da menina que ela foi. No dia em que eles se conheceram, ela se sentou ao lado dele, seus olhos arregalados e apavorados fixos em seus pequenos sapatos, mas teimosa o suficiente para não ir embora até que os paramédicos tivessem chegado. — Por que não? — Ele disse, trocando sua raiva por sarcasmo. — Você é realmente boa nisso. Ela levantou o rosto em direção às copas das árvores e respirou fundo, como se tentasse controlar seu temperamento. Ele se perguntou se ela teria sucesso. Sua Tally sempre era muito quieta… exceto com ele. Só ele sabia que ela não era nem tímida nem particularmente tranquila. A menina tinha um temperamento semelhante a uma banana de dinamite. Rápido para se acender, rápido para explodir. — As crianças estão desaparecendo, não só aqui, mas em todo o país. — Ela disse agora, sua raiva incandescente, mas não mais dirigida a ele. — No começo, eles foram rotulados como fugitivos, mas eu conhecia alguns deles. Eles não eram desse tipo. — Seus ombros se endireitaram. — Agora eu tenho a prova de que estava certa, e desejo todas as noites que não estivesse. A voz dela tremeu. — Converse comigo. — Ele não gostava de vê-la sofrendo, nunca gostou, e provavelmente nunca gostaria. Esta estranha familiar, esta mulher que o via como um monstro e que era o seu único maldito ponto fraco fatal, e isso não era uma droga? — Eles acharam o corpo de Mickey há duas semanas. — Uma lágrima riscou por seu rosto. Isso o atingiu como um furioso golpe. — Ele tinha onze anos, e era brilhante, tão brilhante. Ele podia se lembrar de tudo que lesse. — Como você. — Sim. Só que ao invés de ser abandonado quando bebê, ele teve o azar de viver com uma mãe que sempre escolhia homens abusivos. — Ela lhe deu um sorriso, mas este não era nada feliz. — Ele era meu, Clay. Eu
  40. 40. 40 prometi segurança a ele em troca de que fosse para a escola todo dia. — Tremores sacudiram seu corpo, e os nós de seus dedos ficaram brancos. — Alguém o espancou até a morte. Tudo estava quebrado. Os bastardos pulverizaram seu rosto; como se fosse uma execução! Raiva disparou através de sua corrente sanguínea. Ele pensou nas crianças do clã e no que faria para qualquer um que ousasse prejudicá-las. — Um dos homens da mãe dele? — Eu poderia ter imaginado isso, mas Mickey estava em um acampamento fora do estado quando eles o levaram. E não foi só ele que perdemos. — A respiração saía dela como se sua garganta estivesse recoberta por vidro quebrado. — Eles acharam mais dois corpos esta semana. Pelo menos mais uma criança continua desaparecida. O leopardo que era metade de sua alma e que estava bravo, magoado, e ainda em choque por sua volta, quis se aproximar dela. Para segurá-la. O contato tátil, o afeto como um método de cura, era o modo dos changelings, algo que lhe foi ensinado depois de ter sido arrastado para os DarkRivers. Mas Talin tinha medo dele. Ela disse isso na sua cara, e essa faca afiada ainda estava enterrada no coração dele. O homem não estava certo de que queria se arriscar a ser rejeitado outra vez. Mantendo seus instintos animais sob controle, ele finalmente saiu das sombras. — Você quer que eu te segure, Talin? — Seus olhos úmidos se arregalaram com sua contundente pergunta, então ela acenou levemente com a cabeça. Algo nele permaneceu quieto, esperando. — Então venha aqui. Uma pausa em que a floresta inteira pareceu se congelar, as criaturas noturnas cientes da tensa expectativa do leopardo. — Oh, Deus, Clay. — De repente os braços dela estavam embrulhados ao redor de suas costas, seu rosto pressionado contra a camiseta branca de algodão dele.
  41. 41. 41 Mal ousando respirar, ele fechou os próprios braços ao redor de seu calor feminino, nitidamente consciente de cada centímetro dela que se apertava contra ele, de cada gota úmida que ensopava sua camiseta. Ela era tão pequena, tão malditamente suave, sua humanidade aparente na delicadeza de sua pele, na leveza de seus ossos. Os Psys podiam ser frágeis quando comparados aos changelings, mas eles tinham poderes mentais para compensar. Os humanos tinham a mesma fragilidade, mas nenhuma das habilidades psíquicas. Uma onda de proteção o transpassou. — Shh, Tally. — Ele usou o apelido porque, neste momento, ele a conhecia. Ela sempre teve um coração muito grande para seu corpo, um coração que sentia tanta dor pelos outros, ignorando a sua própria. — Eu acharei o seu garoto perdido. Ela agitou sua cabeça contra ele. — É tarde demais. Três corpos já. Jonquil está provavelmente morto, também. — Então eu encontrarei quem fez isso com eles e o pararei. Ela se congelou contra ele. — Eu não vim aqui para te transformar em um assassino de novo.
  42. 42. 42 Capítulo 4 — Eu sou um assassino. — Ele disse, pouco disposto a deixá-la se esconder disso. — Eu sou um changeling leopardo, e em meu mundo matar para proteger seu clã é entendido e aceito. — Eu não sou parte do seu clã. — Não. — Então por que ele iria ajudá-la? Especialmente depois que ela deixou sua opinião sobre ele tão clara. — Nenhuma criança merece morrer dessa forma. Um breve silêncio.
  43. 43. 43 — Obrigada. — Ela não se afastou dele. — Você se tornou tão forte. — Eu sempre fui forte comparado a você. — Agora ele podia quebrá-la em dois sem pensar. Era essa diferença de força que sempre o manteve longe das fêmeas humanas. As raras amantes que ele tomou eram todas changelings. Ele era quem era. E gentileza não fazia parte de sua natureza. — A menos que você tenha músculos que eu não esteja vendo? Ela riu, um som morno, intrinsecamente feminino. — Eu ainda sou uma anã, mas você; você se tornou um leopardo. Ele entendeu. Ela o conheceu como um menino zangado preso dentro das paredes claustrofóbicas de seu complexo de apartamentos. A falta de ar puro sufocou o leopardo, ferindo-o em um nível elementar. Ele nem sequer podia trocar de forma sem que alguém chamasse a polícia para relatar um animal selvagem à solta. E então havia Isla, que era incapaz de suportar a visão de seu filho em forma de leopardo. — Você é feliz com os DarkRiver? — Talin perguntou agora. — Eles são minha família, meus amigos. — Para Clay, essa lealdade significava tudo. Eles o aceitaram como ele era, não se importavam que ele preferisse vagar sozinho na maioria das vezes, e convidavam-no para suas casas sem discriminação. — Quem era o homem loiro com você? Ele enrijeceu. — Dorian, ele também é um Sentinela. — O mais bonito de acordo com a maioria das mulheres. — Vocês dois estavam sendo duros com aqueles meninos. — Eles mereceram. Ficaram bêbados e bagunçaram tudo no bar. — Então você veio para levá-los para casa. — Ele podia ouvir o riso na voz dela. — Vocês cuidam uns dos outros. No seu clã, quero dizer.
  44. 44. 44 — Eu vou arrancar suas peles quando eles ficarem sóbrios. Nós não somos A Família Robinson2. — Eles não podiam se dar ao luxo de ser, especialmente agora com o Conselho Psy tentando derrubar os DarkRivers e SnowDancers, os únicos grupos changelings que ousaram desafiar seu domínio absoluto. Algo fez um barulho estrondoso. — Com fome, Tally? Ela assentiu, mas continuou grudada nele. — Eu estava tão nervosa por te encontrar que não comi o dia todo. — Se você não quer me irritar — Ele retrucou. — pare de falar sobre o quanto eu assusto você. — Isso não mudará a verdade. — Talin sabia que havia surpreendido- o. Os músculos dele se contraíram. Então ele soltou um rugido baixo que desceu por sua espinha como milhares de alfinetadas. — Pare de titubear ou vou mordê-la e realmente te dar algo com o quê se preocupar. Ela piscou. — Você não me morderia. Morderia? — Experimente e veja. Cercada por todos aqueles poderosos músculos e sentindo-se aquecida e segura, ela decidiu não pressioná-lo. Não hoje. — Você me ajudará? Sua resposta foi uma respiração quente em sua orelha. — Continue fazendo perguntas tolas e veja o que isso te trará. Ela tomou isso como um sim, e apesar de seu coração ameaçar pular de seu peito, ela continuou grudada nele. E rezou. Rezou para que pudesse 2 Swiss Family Robinson (A Família Robinson) : Série de Tv que narrava as aventuras de uma família suíça de náufragos perdida numa ilha deserta.
  45. 45. 45 fazer isso sem revelar o único segredo que faria com que Clay realmente a odiasse. Vinte minutos mais tarde, ela encontrou-se sentada no mesmo bar que os jovens machos tinham destroçado. — Não parece tão ruim. — Ela acenou com a cabeça em direção às paredes relativamente intactas. — O gerente sabe como construir firmemente. Joe é um companheiro de clã. — Oh. — Ela ficou em silêncio enquanto uma loira curvilínea de expressão mal-humorada colocava a comida na sua frente antes de se virar para Clay. — Eu espero que Cory, Kit, Jase e o resto daqueles macacos bêbados consigam o mesmo castigo que eu. Joe acha que é hilário me fazer vestir essa droga de roupa. — Sua voz era um grunhido quando ela acenou para sua baby look rosa e minissaia preta. Complementadas por suas botas até o joelho, as roupas a tornavam sensual e estonteante. Mas Talin tinha a sensação de que qualquer homem estúpido o bastante para dar em cima dessa mulher logo encontraria seu braço quebrado em pedacinhos. Clay ergueu sua cerveja e tomou um longo gole. — Devia ter pensado nisso antes de socar sua verdadeira garçonete, Rina. Você será uma Opal até que o nariz dela se cure. Rina bateu o pé. — Não há nada de errado com o nariz de Opal! Eu mal toquei nela! — Você é um soldado DarkRiver. Você não sai descarregando seu mau gênio por aí. A carranca de Rina se transformou em um sensual beicinho. — Clay, por favor.
  46. 46. 46 — Nem pense nisso, gatinha. — Ele disse, com uma faísca de diversão em seus olhos que atingiu Talin com a força de um soco em seu plexo solar3. — Onde está o meu hambúrguer? Rina realmente silvou, todo o flerte abandonando seu rosto e corpo. — Sabe qual é o seu problema? Você precisa transar! Talin ficou tensa, esperando pela explosão do vulcão adormecido que era o temperamento de Clay, mas tudo que ele fez foi abaixar sua cerveja e chamar com o dedo a loira. Quando a mulher carrancuda se inclinou, ele sussurrou algo em sua orelha que a fez corar furiosamente. Erguendo-se novamente, ela foi direto para a cozinha. — O que você disse a ela? — Talin estava chocada com as garras afiadas do ciúme que se arrastavam através de seu corpo. — Rina é jovem. Ela só precisava de um pouco de carinho. — Os olhos dele a observaram brincar com a comida com uma desconcertante intensidade. — Coma. Ela não podia, pois seu estômago se revirava com os pensamentos de como ele “acarinhou” a jovem mulher sensual. Mas ela deu uma mordida num esforço para manter sua boca fechada. A comida de Clay chegou alguns segundos mais tarde, entregue por uma Rina ainda ruborizada. A jovem mulher hesitou, então se inclinou para beijá-lo na bochecha antes de ir embora, toda calor feminino e longos cabelos loiros. Talin teve que se forçar a engolir a mordida que tinha dado. Aquele beijo tinha sido familiar, afetuoso. Ele não se encaixava na imagem que ela formou de Clay na última hora. — Ela é muito bonita. Droga! Ela encheu a boca com hambúrguer. Clay levantou uma sobrancelha. 3 Plexo Solar: É um conjunto de células nervosas no corpo humano que está localizado embaixo do diafragma na cavidade abdominal.
  47. 47. 47 — Eu não fodo menininhas. Ela quase se engasgou, e teve que tomar um grande gole de água para conseguir que a comida descesse por sua garganta. — Não quis dizer isso. — Você sempre foi uma coisinha possessiva. — Ele deu uma mordida em seu próprio hambúrguer e o ajudou a descer com um gole de cerveja. — Então, com quem você conversou sobre essas mortes? A mudança abrupta de assunto a deixou perdida, mas só por um momento. — Com a Força de Execução quando Mickey desapareceu. Eles não levaram isso a sério. — Ela pousou seu hambúrguer meio comido. — E depois que os corpos foram achados? — Eles começaram uma investigação. — Ela disse. — Um dos detetives, Max Shannon, realmente parece se importar. Foi ele que me disse sobre outros desaparecimentos por todo o país. — Mas? — Mas eu não acho que seja algo tão simples quanto um assassino que persegue crianças fugitivas. Isso parece errado, Clay. — Continua tendo seus pressentimentos, não é? Ela encolheu os ombros, desconfortável com o assunto. — Eles não valem nada. É só uma sensação de algo errado. Intuição feminina. Quão bom é isso para alguém? Ela teve o mesmo pressentimento sobre Orrin, o homem que era supostamente um pai adotivo exemplar. Ela cometeu o erro de compartilhar esse pressentimento com seu antigo assistente social e ganhou um tapa em seu rosto.
  48. 48. 48 Você devia se considerar sortuda por ele e sua esposa estarem felizes em acolher um pedaço de lixo como você. Se eu fosse eles, deixaria você apodrecer no orfanato do estado. Como uma adulta, ela sabia que esse assistente social tinha passado dos limites, que ele era um ser que nunca deveria ter obtido permissão para exercer aquele cargo. Mas como uma criança a cinco semanas de seu terceiro aniversário, ela acreditou nele. Ela não tinha mais para onde ir, ninguém a quem recorrer. Então ela aprendeu a se manter em silêncio sobre seus pressentimentos... E sobre tudo que veio depois. Não desejando reviver os horrores de seu passado, ela decidiu concentrar sua atenção no aqui e agora, contando as gotas d’água que escorriam pela garrafa de cerveja de Clay. — Você disse que iria encontrá-lo; o homem que está fazendo isso. — Sim. Ela olhou para o verde indescritível de seus olhos. Florestas, Talin pensou, ela sempre tinha visto florestas nos olhos de Clay, uma liberdade que era o presente dele para ela. — Por que todo mundo automaticamente assume que só os homens podem fazer coisas ruins? As mulheres podem ser tão más e depravadas quanto. — Délia ainda está na prisão. — A mão dele se apertou em torno da garrafa. — Não muito depois que eu fui levado, eles acharam os corpos que ela e Orrin tinham enterrado no ferro-velho. Havia tanta evidência forense que ela vai estar apodrecendo na prisão até que a funerária a leve. — Eu sei. Depois de ter se mudado para o Ninho dos Larkspur, ela teve pesadelos constantes em que Délia vinha para arrastá-la de volta para Orrin. Ele estaria sentado na cama esperando por ela, um cadáver apodrecido com larvas que rastejavam para fora de todos os orifícios possíveis. Esses sonhos duraram até que Mamãe Larkspur encontrou Talin encolhida na banheira numa noite em que se levantou para usar o banheiro.
  49. 49. 49 A mulher mais velha entrou na internet na mesma hora e baixou as imagens de Délia sendo levada dentro de um furgão para a prisão. Talin tinha assistido obsessivamente essas filmagens por um mês. — Eles encontraram gravações caseiras dos assassinatos, você sabia? — Meu advogado me disse. — Ele encarou o olhar dela, um frio e calmo predador com o coração cheio de um fogo turbulento. — Eles usaram essas gravações para te aterrorizar? Ela negou com a cabeça. — Esse era o prazer secreto deles. Eu costumava ouvi-los assistindo os vídeos tarde da noite. — Enquanto ela estava trancada em seu quarto. Eles preferiam muito mais colocá-la no armário especial de castigo, mas perceberam logo que o terror era ainda maior se a deixassem correr livre e impune por algumas semanas, nunca sabendo quando seria empurrada de novo para o abafado e escuro buraco. Esse havia sido um novo nível de tortura. — Ninguém tem certeza de quantas crianças eles mataram. — Ela disse, colocando uma tampa sobre aquela memória sombria. — Eles foram espertos. Só mataram a um par de filhos adotivos. O resto deles eram todos fugitivos. — A represa dentro dela se rompeu de repente. — Você nunca deveria ter ido para a prisão! Você fez um favor ao mundo se livrando de Orrin! Clay encolheu os ombros. — O juiz White me ofereceu uma escolha entre um reformatório com um curso de gerenciamento da raiva e horas regulares na escola, ou uma instalação residencial psiquiátrica. — Psiquiátrica? Por quê? — Ele viu que eu tinha um problema com a raiva e era um homem bom o suficiente para tentar me ajudar com isso antes que eu saísse completamente dos trilhos. — Ele acabou sua cerveja. — Eu sabia que se eles me trancassem em um pequeno quarto branco, eu enlouqueceria. Pelo
  50. 50. 50 menos o reformatório onde eu fiquei era fora da cidade e projetado para meninos. Nós tínhamos espaço para correr, trabalhar o físico. — Mas havia cercas. — Ela sussurrou. Seu olhar se aguçou. — Você fala como se tivesse me visitado. Ela começou a destruir metodicamente um pedaço de alface que tinha caído de seu hambúrguer. — Zeke ficou desesperado quando eu não quis falar por um longo tempo após a morte de Orrin. Ele pensou que te ver poderia ajudar. — Diga-me. — Nós nos sentamos no estacionamento com vista para um dos pátios de exercício. — Ela estava com quase nove naquela época. Muda, quebrada e perdida. — Ele subornou um administrador para conseguir que você saísse de alguma maneira. Você estava vestindo uma calça de moletom cinza e uma blusa cinza com as mangas cortadas. Eu assisti você correr ao redor da pista. Clay sabia a data e a hora exata da visita dela. Seu leopardo tinha enlouquecido naquele dia, desesperado por causa do cheiro dela; tão desesperado que ele imaginou que podia cheirá-la na brisa. — Eu corri por horas. — Eu sei. Eu fiquei lá até você voltar para dentro. — Ela lhe deu um sorriso trêmulo. — Eu sabia que você devia odiar as cercas, mas lá estava você, sobrevivendo. Eu pensei que se você podia fazer isso por mim, eu podia fazer o mesmo… por você. As mãos de Clay se fecharam em punhos. Maldita. Era muito mais fácil continuar sentindo raiva quando ela não lhe lembrava a menina que tinha sido. — Como você se saiu? — Ele perguntou, cedendo ao desejo de saber tudo sobre ela.
  51. 51. 51 Ela tomou uma respiração para responder, mas alguém escolheu ligar a jukebox4 naquele momento. Música alta preencheu o lugar. Ela era modulada para não ferir a aguçada audição changeling, mas não era exatamente propícia para conversar. Ele passou seu cartão de débito no leitor embutido na mesa e se levantou. — Vamos. Assentindo, ela tomou um rápido gole de água, então o seguiu, mantendo-se perto dele. Eles encontraram Dorian logo na saída. O Sentinela loiro estava no processo de descer de sua elegante motocicleta preta. — Essa é sua coelha5? — Tirando o capacete, ele sorriu para Talin, e esse era um sorriso encantador com um toque de selvageria. Clay já tinha visto mulheres se lançarem em Dorian após estarem no lado receptor desse sorriso. — Ela é um petisco muito grande para você. Por que você não entrega para mim? Clay esperou para ver o que Talin faria, bem ciente de que o outro Sentinela estava apenas brincando com ela. De acordo com a lei do clã, Talin era de Clay, porque ela tinha vindo para ele. Pelo menos até que ela quisesse dar o fora; Clay cerrou os punhos de novo. Nenhum homem do clã iria tocá-la. — O que você me diz, coelhinha? — Eu sinto muito. — Talin respondeu doce como mel. — Eu não faço com meninos bonitos. De fato, eu não faço com qualquer menino. Dorian sufocou uma risada, então olhou para o rosto chocado de Clay. — Bem, merda. Ela é toda sua, amigo. Clay apressou Talin para seu Jipe e a prendeu contra a porta do passageiro colocando uma mão de cada lado do corpo dela. Seu medo era 4 Jukebox (Vitrola automática): Aparelho que toca uma música mediante a colocação de uma moeda. 5 Coelho [gíria]: Uma pessoa que tem muitos relacionamentos rápidos.
  52. 52. 52 uma coisa viva entre eles, um intruso repugnante que não tinha nenhum lugar lá. Ele lutou para conter a ira correspondente do leopardo e soube ao olhar nos olhos dela que tinha sido só parcialmente bem sucedido. — Você gosta de garotas? — Ele perguntou muito, muito calmamente. Ela balançou a cabeça, seus olhos arregalados. — Eu ainda posso dizer quando você está mentindo, e você não estava mentindo para Dorian. — Não, eu não estava. — Ela mordeu o lábio inferior. — Eu estava brincando com ele, porque ele estava brincando comigo. Eu disse que não gostava de meninos bonitos. O leopardo estava muito ferido para ver a lógica. — Do que você gosta? — Homens. O tempo parou enquanto ele digeria o conhecimento nos olhos dela. — Você tem estado com homens. Ele sentiu como se ela tivesse cortado seus joelhos fora e não deveria ter se sentido assim. Os changelings leopardos eram criaturas sensuais; contato sexual regular era considerado saudável e natural. Ele nunca antes julgou uma mulher por quais ou quantos homens ela já teve. — Sim. — A pele dela empalideceu. — Muitos homens. Tantos que eu não consigo lembrar seus rostos, muito menos seus nomes. Demais até mesmo para minha memória lidar. Ela estava tentando feri-lo de propósito? Que ela tivesse a capacidade de fazê-lo enfureceu o leopardo. Mantendo essa raiva sob controle apenas por força de anos de experiência, ele se afastou do carro. — Por quê? Você não era assim. — Você me conheceu antes do golpe da puberdade. — Ela disse, amargura reprimindo seu tom. — Nós podemos ir agora ou você gostaria de saber tintim por tintim? — Que diabos, entre!
  53. 53. 53 Talin entrou, consciente de um profundo senso de auto-aversão. Ela nunca pretendeu que Clay soubesse o quão profundamente tinha se afundado, mas foi como se outra pessoa estivesse controlando sua boca, como se alguma parte desafiante sua quisesse que ele soubesse. Agora ele sabia. E qualquer chance que teve tinha desaparecido. Talin não podia culpá-lo por sua reação. A orientadora com quem ela finalmente se consultou por um curto período após ter começado a trabalhar para a Fundação Brilhar lhe assegurou que suas ações como uma adolescente e como uma jovem adulta eram uma reação compreensível, algo frequentemente apresentado por vítimas de abuso infantil. A mulher classificou isso como uma espécie de auto-agressão e disse que Talin não precisava sentir vergonha. Mas mesmo após oito anos de celibato, exceto por... Não, ela não pensaria sobre aqueles tempos. Seus punhos cerrados ficaram pálidos. Tinham se passado oito anos desde a última sessão de terapia, oito anos desde que ela começou a tentar tratar seu corpo como algo bom, algo precioso de se ter, oito anos… Mas Talin ainda não tinha certeza se acreditava na orientadora. Talvez ela fosse a prostituta em que Orrin tentou transformá-la. Talvez esse defeito estivesse embutido em seus genes. A clínica onde ela foi abandonada quando bebê era pública e utilizada quase que exclusivamente por prostitutas. Orrin a chamava de filha de prostituta. Tal mãe, tal filha. — Onde fica seu apartamento? Ficando ereta por causa de sua fria pergunta, ela percebeu que eles tinham chegado aos subúrbios de San Francisco. Com os lábios secos e a boca cheia de bolas de algodão, ela lhe deu as direções para o pequeno arranha-céu em que a Fundação Brilhar alugou seu apartamento. — Obrigada. — Ela disse quando ele estacionou na rua em frente. — Aqui. — Ele lançou a chave. Uma fração de segundo depois ele abriu a porta e foi embora, uma sombra letal que era invisível no nevoeiro que aumentava. Com os olhos ardendo, ela foi para o banco do motorista e levou o Jipe para dentro do estacionamento subterrâneo.
  54. 54. 54 Clay estava desgostoso com ela. Um soluço ficou preso em sua garganta quando ela se sentou na garagem mal iluminada. Mesmo quando Clay tinha inicialmente descoberto seu sombrio segredo quando eram crianças, apenas segundos antes que ele matasse Orrin, ele nunca olhou para ela com acusação em seus olhos. Em vez disso, ele tinha escrito cartas do reformatório dizendo-lhe que ela ainda era a sua Tally, que ainda era a melhor coisa em sua vida. Essas cartas ajudaram-na por mais anos do que Clay jamais saberia. Mas agora… agora ele a culpou pelo que ela tinha se tornado. Como ele não culparia? Ele passou quatro anos em uma gaiola para que ela não tivesse que viver em um pesadelo, e o que ela fez? Ela cuspiu em seu presente, o transformou em uma ninharia. Não era de se admirar que ele a odiasse. Que ela estivesse quase louca naqueles perdidos, atormentados anos não soava como uma desculpa particularmente boa. Cedendo à vontade, ela apoiou a cabeça contra o volante e chorou. Capítulo 5 Ashaya Aleine era uma M-Psy com uma classificação de 9.9 no gradiente. Esta a tornava muito incomum. A maioria dos Psys poderosos tendia a saltar o 0.1 e ser um Cardeal. Cardeais eram imensuráveis. Alguns eram mais poderosos que outros, mas todos tinham os mesmos olhos; estrelas brancas sobre um preto aveludado. Inconfundíveis. Memoráveis. Ashaya não era nenhum dos dois. Seus olhos eram de um ordinário tom azul acinzentado, e seu cabelo de um singelo preto. Era ondulado, mas uma vez preso em um coque severo, este tornava-se esquecível. Sua escura
  55. 55. 55 pele morena também não era nada surpreendente entre a população geneticamente mista Psy. Mas os Psys não eram os únicos que ela devia considerar. Para que seu plano tivesse sucesso, ela teria que aprender a tornar-se invisível entre os humanos e changelings, uma tarefa muito mais complicada. A luminosa tela de seu computador assinalou uma chamada recebida. Ela respondeu-a e encontrou-se diante de uma mulher de olhos amendoados e cabelos negros que pareciam ter sido cortados com uma régua. — Conselheira Duncan. O que posso fazer por você? Nikita Duncan pousou o que parecia ser uma caneta eletrônica. — Eu gostaria de um relatório de progresso. Em que ponto você está? — Seu rosto era uma parede estática, o testamento de um Silêncio perfeito. — De volta ao começo. — Ela manteve-se tão imóvel quanto a Conselheira. — A sabotagem do antigo laboratório destruiu a maior parte da minha pesquisa. — E sua pequena modificação na programação dos protótipos do implante estava cuidando daqueles poucos que tinham saído do laboratório sem seu consentimento. — Nada pode ser salvo? — É possível. — Ela admitiu. — Porém, em minha opinião, seria mais eficaz recomeçar do começo. Havia erros nos protótipos antigos que eu fui incapaz de identificar. Se eu recomeçar com esses erros em mente, posso ser capaz de erradicá-los. — Claro. — Os olhos escuros de Nikita não piscavam. Como os de uma serpente. Era uma comparação apropriada, dado que Nikita tinha a reputação de ter a letal habilidade de infectar outras mentes com vírus mentais; essa era uma forma excelente de se livrar de concorrentes sem ser descoberta. — Quando o Conselho pode esperar por uma atualização completa? — Eu enviarei uma esta semana, mas ela será simplesmente uma reiteração detalhada do que eu já indiquei.
  56. 56. 56 — Entendido. Eu esperarei por esse relatório. — Nikita terminou a chamada. Ashaya não encontrou nada de incomum na aceitação da Conselheira. Como M-Psy chefe da equipe dedicada à implementação do Protocolo I, também conhecido como Protocolo de Implante, Ashaya tinha total autonomia sobre a pesquisa e desenvolvimento deste. Seu objetivo era simples: Desenvolver um implante que pudesse ser inserido em todos os cérebros Psys, mas que se enfocasse principalmente nas crianças, a fim de criar uma sociedade completamente unificada. Em outras palavras, uma colmeia de mentes. Capítulo 6 Quando Talin entrou em seu apartamento sem ter qualquer ideia de quanto tempo tinha levado dentro do Jipe, seus olhos estavam inchados, provavelmente injetados. Lambendo o sal dos lábios, ela pressionou a palma contra o scanner ao lado de sua porta, esperando que a fechadura se destravasse, então empurrou a porta aberta. As luzes se acenderam automaticamente; ela odiava estar em um espaço fechado no escuro. Estar em uma área aberta no escuro não lhe assustava. Era a sensação de estar encerrada que fazia isso, e ela não precisava de nenhum diploma em psicologia para entender o porquê.
  57. 57. 57 Fechando a porta atrás de si, ela deu um passo para frente. E congelou. A princípio, ela não pôde compreender o que estava vendo. Então tudo chegou até ela com uma rapidez que fez seu estômago se revirar, um caleidoscópio de cor e destruição perfumado com o cheiro da morte. Os intrusos já tinham ido embora, isso era óbvio. Mas eles deixaram sua marca. Ela deslizou pela porta quando desmoronou em uma posição sentada, incapaz de tirar os olhos da mensagem gotejante em vermelho- escuro na parede oposta que gritava com o rico aroma ferroso do sangue. Pare. Ou você será a próxima. Que mensagem estúpida, ela pensou, que escarnecedora simplicidade infantil. Mas funcionava. O calafrio de um medo visceral rastejou pelo corpo dela até se fechar ao redor de sua garganta, deixando-a enjoada. Ainda assim, ela não piscou, não desviou o olhar. Como eles ousam? Como eles ousam! Ela não se importava com a intrusão ou a bagunça. Essas coisas pouco significavam para uma mulher que nunca se permitiu estar em casa em qualquer lugar. Mas fazer o que eles fizeram com as fotos das suas crianças? Os porta-retratos holográficos foram esmagados no tapete, mas eles não pararam por aí. As cópias foram retalhadas, os pedaços delas grudados no sangue que escorria pela parede. Essa profanação ela não podia perdoar. Isso a fez querer gritar, chorar e rastejar adiante para recolher os cacos. Mas ela não era uma idiota. Apesar da angústia e raiva profunda que agitavam seu interior, Talin não tentou resgatar essas pequenas coisas que significavam tanto para ela. Era isso que eles queriam, o monstro ou os monstros que levaram e assassinaram as crianças sob seus cuidados. Eles queriam retalhar sua credibilidade, transformá-la em uma mulher louca em que ninguém acreditaria. Bem, fodam-se. Agarrando seu telefone celular, ela começou a apertar as teclas. Só no último segundo Talin percebeu que estava teclando o número do escritório de Clay. Um tipo diferente de náusea encheu sua boca. Tomando várias
  58. 58. 58 respirações curtas, relutante em inspirar o ar violado de seu apartamento, ela agitou a cabeça, limpou a tela e discou um número muito mais familiar. Depois de deixar Talin, Clay fez seu caminho de volta para o bar e começou a tentar ficar cegamente bêbado. Ele estava ciente de Dorian ter vindo se sentar com ele, ciente de que Rina lançava olhares preocupados em sua direção e que Joe tinha se aproximado várias vezes, mas ele ignorou todos eles, determinado a apagar a imagem de Tally, sua Tally, com outros homens. — Chega. — Dorian tomou a garrafa de sua mão. Clay acertou o outro Sentinela com as costas da mão, ao mesmo tempo recuperando a garrafa. — Jesus Cristo. — Dorian se levantou do chão esfregando o queixo. — Eu não vou deixar você desmaiar aqui. — Vá embora. — Clay tinha toda a intenção de se deixar em um estupor inconsciente. Dorian praguejou, então se aquietou. — Bem, graças ao sangrento Deus. Talvez você possa colocar um pouco de sentido nele. Clay não disse nada quando Nathan sentou-se do outro lado da cabine. O Sentinela mais velho de DarkRiver cruzou os braços e se recostou contra o couro sintético carmesim do assento. — Nos dê um minuto, Dorian. Peça a Rina para colocar gelo nesse machucado. — Chame se você precisar de uma mão para arrastá-lo para fora daqui.
  59. 59. 59 Clay esperou que Nate lhe passasse um sermão, mas o outro homem apenas o encarou com aqueles olhos azul-escuros que sempre eram tão malditamente calmos. — O quê? — Ele disse, seu tom vazio. Outros leopardos poderiam ter rosnado ou estourado, mas Clay sabia que se ele permitisse que sua raiva fosse à tona esta noite, isso acabaria em sangue. — A única vez em que eu te vi bêbado, — Nate respondeu. — foi quando eu arrastei o seu traseiro gordo daquele bar em Nova Iorque. Clay grunhiu, bem ciente de que Nate havia salvado sua vida naquela noite. Recém-saído do reformatório e recentemente informado de que Talin estava morta, ele estava no caminho para a sua autodestruição. Foi essa dor abastecida pela raiva que fez com que ele puxasse uma briga com Nate. Sendo dez anos mais velho e um lutador treinado, Nate limpou o chão com ele. Mas em vez de deixá-lo para os carniceiros, o Sentinela tinha arrastado Clay com ele para seu quarto de hotel. A companheira de Nathan, Tamsyn, lhe deu uma olhada e disse: — Bom Senhor, eu não achei que existisse qualquer grande felino em Nova Iorque! Essa tinha sido a primeira vez na vida de Clay em que ele esteve na companhia de outros leopardos. — Daquela vez, — Nate comentou. — foi por causa de uma menina. Você tinha perdido a sua Talin. — Eu nunca deveria ter contado a você sobre ela. — Você era jovem. — Nate deu de ombros. — Rina disse que você esteve aqui com uma mulher mais cedo. — Rina tem uma boca grande. Nate sorriu.
  60. 60. 60 — Lei do clã. Ser curioso sobre os companheiros do clã é obrigatório. Então, você vai me dizer? — Não. — Justo o suficiente. — O outro homem se levantou. — Quando terminar de se autodestruir, você poderia se lembrar de que Lucas e Sascha têm uma reunião com Nikita Duncan amanhã. Você deveria estar protegendo as costas de nosso casal alfa. — Merda! — Clay pousou a garrafa, a névoa negra de sua raiva se dissipando sob um severo ímpeto de realidade. Nikita Duncan era a mãe de Sascha, e um membro poderoso do Conselho Psy. Ela também era uma cadela assassina. — Eu estarei lá. — Não. — Os olhos de Nate tornaram-se frios. — Você está comprometido. Eu te cobrirei. Isso alcançou Clay como nada mais poderia ter feito. Sua lealdade para com os DarkRivers era o que o manteve no lado certo da linha. Tire isso e ele seria um assassino frio e inflexível. Especialmente agora que Talin tinha arrancado seu coração diretamente para fora dele. — Ponto feito. — Você ainda está fora amanhã. — Nate estendeu uma mão. — Vamos. Após uma pausa perigosa em que o leopardo se agachou em prontidão, faminto por violência, Clay aceitou a oferta e deixou que um dos poucos homens que ele chamava de amigo o ajudasse a se levantar. O chão girou. — Merda. Eu estou bêbado. — Ele atirou um braço sobre os ombros de Nate. — Você acha, Sherlock? — Dorian apareceu para sustentar seu outro lado. — Cara, deve ter doído saber que sua garota só gosta de outras garotas. — O quê? — Nate tropeçou, ameaçando levar todos para o chão.
  61. 61. 61 Clay arreganhou os dentes. — Ela gosta de homens. — Outra onda de fúria. — Só não de meninos bonitos como você. Dorian fez uma carranca. — Espertinha. Espere até que eu a veja de novo. Clay estava prestes a responder quando o álcool o alcançou e seu corpo changeling decidiu que seria melhor se ele apagasse como um bêbado. Max chegou com uma equipe de perícia criminalística à cena do crime meia hora depois do telefonema de Talin. Até então, ela usou a oportunidade para lavar as lágrimas do rosto, pensando com clareza o suficiente para comprar garrafas d’água da máquina de venda automática do térreo em vez de entrar e usar sua própria pia. — Você tocou em alguma coisa? — Max perguntou ao examinar a cena, e seus olhos inclinados e pele azeitonada davam a seu rosto um aspecto exótico. A pele de Clay é mais escura do que a de Max, ela encontrou-se pensando mesmo enquanto negava com a cabeça. — Nada além da porta e do pedaço de tapete ao redor dela. — Bom. Ele acenou para a equipe de criminalística. Talin assistiu desapaixonadamente os homens e mulheres vestidos de branco entrarem, seus sapatos dentro de protetores para pés descartáveis, seus cabelos e roupas cobertos para minimizar a contaminação. — Eles não conseguirão nada. Isso pode parecer uma brincadeira de adolescentes, mas esta foi uma operação profissional.
  62. 62. 62 Max se afastou um pouco da porta aberta de seu apartamento. — Você provavelmente está certa. Mas isso é ruim, Talin. Um dos meus homens é changeling, e seu nariz lhe diz que isso é definitivamente sangue humano. Ela sentiu seus dedos se curvarem em garras. — Deve ser de uma das crianças. — Os monstros estavam fazendo jogos mentais, e eles eram repugnantes, brutais e desprovidos de consciência. Max não se preocupou em discutir a afirmação dela. — O que me incomoda é que eles sabem o quanto você tem pressionando a investigação. — A Força de Execução é uma peneira. — Ela murmurou. — Sim. — Um incomum olhar amargo nublou a expressão dele. — Se não tivesse nascido com escudos mentais herméticos, eu provavelmente teria sido feito capitão agora. Ela esfregou uma mão pelo rosto. — Os espiões Psys não podem ler sua mente? — Não. Mas isso não faz nenhuma diferença aqui. — Ele pôs as mãos nos quadris por baixo de seu sobretudo. — Os espiões do Conselho são simplesmente os mais óbvios. Nós temos outros que não pensam em nada além de vender informações por lucro. Abaixando sua mão, ela balançou a cabeça. — Por que continuar em um sistema tão corrupto? — Porque nós fazemos mais bem do que mal. — Ele disse, sua dedicação evidente. — Os Psys não interferem na maior parte das investigações, principalmente nas que envolvem outras raças. — Talvez não, — Ela concordou. — mas eles continuam tratando seres humanos como uma espécie inferior. Faz com que eu me pergunte por que eles nos permitem viver. — Toda sociedade precisa de suas abelhas operárias. — O sarcasmo seco nas palavras de Max não negava sua veracidade. — Nós fazemos todos os trabalhos que eles desprezam. Mas nós não podemos culpar os Psys pela
  63. 63. 63 falta de apoio neste caso. Isso é culpa do velho e puro preconceito humano. As pessoas veem as vítimas, seus estilos de vida, e fazem julgamentos. — Para que sevem os Executores se eles ignoram aqueles que mais precisam deles? — Ela sabia que Max não merecia sua raiva, mas por Deus, ela estava furiosa. — São crianças, e a maioria não tem ninguém que fale por eles. A mandíbula de Max se cerrou. — Às vezes eu prefiro a maneira changeling. — Ele disse, para sua surpresa. — Você atinge a um deles, você é executado. Fim da história. O estômago dela se torceu. — Quem faz as execuções? — Os homens de alta patente dos clãs predatórios. Homens de alta patente como Clay. Talin não mentiria para si mesma, ela também quis matar esses bastardos, mas o lembrete da brutalidade implícita no mundo de Clay a fez suar frio. Você sempre soube o que eu era. Você escolheu não pensar nisso, fingir que eu era o que você queria que fosse. Talin tinha rebatido sua afirmação, mas agora ela se perguntava se ele não estava certo. Ela aceitou da boca para fora seu leopardo, enquanto esperava que ele agisse como um humano, exatamente como a mãe dele fez? A compreensão disso esmigalhou a fundação já instável de seu atual estado emocional. Afastando o cabelo do rosto, ela forçosamente conteve sua confusão e se concentrou em algo que pudesse entender. — Quando eu poderei ter meu apartamento de volta? Max negou com a cabeça. — Você não pode ficar aqui e sabe disso. Você precisa estar sob proteção da justiça. — Não. — A última vez que fugiu ela perdeu todos os direitos sobre o único homem que tinha sido bom com ela. — Talin, não seja estúpida. Se essas pessoas — Ele acenou com a cabeça em direção a seu apartamento. — pensarem que você está chegando perto demais, eles não pararão só com um aviso.
  64. 64. 64 — Eu sei. — Ela o encarou. — Eu ficarei bem. Sei como me cuidar. — Ela não se encolheria mais num canto enquanto outra pessoa lutava por ela. Max jogou as mãos para cima, tendo aprendido sua lição após ter batido cabeça com ela mais de uma vez. — Pelo menos ache um lugar seguro para ficar. Este apartamento não tem segurança o bastante para deter alguém que esteja determinado a entrar. Você tem para onde ir? Clay. A resposta pairou na ponta de sua língua, mas ela mordeu esta com força antes que pudesse deixar escapar. A dor trouxe lágrimas aos seus olhos, mas serviu para limpar a confusão e iluminar a dura verdade; Clay não era mais seu há muito tempo, não tinha sido por duas longas décadas. Essa admissão era uma música desafinada em sua cabeça, dolorosa e áspera. — Sim. — Ela mentiu. — Eu tenho um amigo que pode me hospedar. Ela não tinha amigos, pois passou toda sua vida evitando compromissos. Nem mesmo os Larkspurs conseguiram alcançá-la. A verdade era que ela não confiava em ninguém. Nem em si mesma. Especialmente em si mesma. Clay, sua mente sussurrou novamente. Chame ele. Você ainda confia nele. Não é verdade, ela argumentou. Sim, ela havia confiado no menino que ele foi, mas não conhecia o homem que ele tinha se tornado. E ele a odiava, estava certo em odiá-la. Quando pensava sobre como havia tratado seu corpo, sua alma, ela também se odiava. — Eu farei com que um dos meus oficiais te dê uma carona. Ela saltou com o som da voz de Max. — Não. Vou esperar até que vocês terminem, juntarei algumas coisas e irei. — Já vai ter amanhecido até lá. Se você está preocupada com um vazamento, não esteja. O homem que eu tenho em mente é changeling. À prova de vazamentos. — Ele bateu em sua têmpora, como que para lembrá-

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