Acariciada pelo gelo-psy changeling 3

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Acariciada pelo gelo-psy changeling 3

  1. 1. 1
  2. 2. 2
  3. 3. 3 TRADUÇÃO E REVISÃO
  4. 4. 4 Glossário Psy-Changeling Changelings – São humanos que podem se transformar em animais. Eles têm duas naturezas, humana e animal, e são mais fortes, mais rápidos, e com sentidos mais aguçados do que humanos comuns. Eles vivem em Clãs e possuem uma hierarquia rígida e bem definida. Os dois clãs principais na série são os DarkRiver (leopardos) e os SnowDancer (lobos). Temos: DarkRiver DarkRiver é um clã de changelings leopardos que é um dos mais poderosos dos Estados Unidos e que controla San Francisco e arredores. Eles possuem uma aliança recém- formada com os SnowDancers, um antigo inimigo. Alfa: Lucas Hunter Curadora: Tamsyn Ryder Sentinelas - São os imediatos e guarda pessoal do alfa. Eles são: Nathan “Nate” Ryder, Clay Bennett, Vaughn D’Angelo, Mercy Smith e Dorian Christensen SnowDancer Como um dos clãs mais dominantes na Califórnia e um dos maiores nos Estados Unidos, o clã de lobos SnowDancer é uma força a ser considerada. Eles são conhecidos por sua crueldade, o que faz deles um inimigo mortal e um valioso aliado. Alfa: Hawke Curadora: Lara Tenentes - São os imediatos e guarda pessoal do alfa. Eles são: Riley Kincaid, Tomas, Índigo Riviere, Cooper, Jem, Alexei, Matthias, Kenji e Riaz. Psys Psys – São uma raça com grandes poderes psíquicos. Esses poderes cobraram um alto preço a eles; loucura, psicoses, psicopatias. O Conselho Psy então decidiu implantar o Protocolo do Silêncio, que objetivava eliminar todas as emoções da raça. Os Psys passaram a ser friamente controlados e práticos. Eles lideram o governo e os negócios, e todas as suas decisões são baseadas em eficiência e lógica. Ou, pelo menos, deveriam ser.
  5. 5. 5 O Conselho Psy lidera a raça e faz suas próprias leis. Ele é formado por sete Conselheiros: Nikita Duncan, Ming LeBon, Tatiana Rika-Smythe, Henry Scott, Shoshanna Scott, Kaleb Krychek e Marshall Hyde. Algumas designações Psy: E (Empatia) - É a habilidade de sentir e manipular as emoções de outros seres sencientes. Empatas podem afetar um ou mais indivíduos por vez e curar traumas emocionais. Eram conhecidos no passado como curadores de mentes. J (Justiça) – Capacidade de acessar as memórias de pessoas que são suspeitas de algum crime, descobrindo através delas o que eles sabem. Eles fazem parte do sistema de justiça e só são chamados em casos especiais. M (Medicina) – Existem vários tipos de M-Psys, sendo os mais conhecidos os que podem “ver” dentro do corpo e diagnosticar doenças e fraturas. Alguns M-Psys têm a capacidade de “enxergar” em um nível celular, podendo analisar o DNA, por exemplo. Apenas uma pequena parcela de M-Psys pode realmente curar. P (Previsão) - É a capacidade de “ver” um evento futuro antes que ele aconteça. Uma rara expressão da previsão é a capacidade de ver o passado. P-Psys que veem principalmente o passado são extremamente raros, mas a maioria dos videntes pode ter um ou dois flashes do passado durante o ano. Ps (Psicometria) - Em termos básicos, aqueles nascidos com a habilidade Ps podem obter informações tocando objetos. Ps-Psys serão discutidos mais adiante no decorrer da série. Tp (Telepatia) – É a habilidade de se comunicar mentalmente com outra pessoa. Todos os Psys são telepatas em algum grau, pois essa capacidade é essencial para que eles possam se ligar à PsyNet. Telepatas puros são raros, e eles podem enviar e receber mensagens ao longo de grandes distâncias com clareza cristalina. X – Uma designação obscura mesmo entre os Psys. Eles serão discutidos mais adiante na série. Tc (Telecinese) - Habilidade de mover a matéria com a mente. Alguns são capazes de se teletransportar (viajar de um lugar para outro usando poder psíquico). Subdesignações da Telecinese: Tc-Celular – Habilidade de controlar as funções de seu próprio organismo ou as de outro ser vivo em um nível celular. Eles podem, entre outras coisas, parar o coração de um inimigo com um pensamento ou fazer com que seu próprio corpo se cure mais rápido, por exemplo. São muito raros.
  6. 6. 6 Tc-V (Viajantes) – Esses Psys são verdadeiros teletransportadores e podem ir de um lugar a outro num piscar de olhos. Viajantes são extremamente, extremamente raros. Serão discutidos mais adiante na série.
  7. 7. 7 AGRADECIMENTOS Escrever é um negócio solitário, mas não isolado, principalmente quando você está cercada por tantas pessoas maravilhosas como eu estou. Em casa: Minha família, os únicos que têm que aturar o meu foco quando estou trabalhando e que fazem com tal estilo. Obrigada por não me obrigarem a cozinhar ou limpar... Ou passar o aspirador de pó... Ou lavar roupa... Eu amo vocês! Em uma praia da Califórnia bebericando uma margarita (bem, ela poderia estar se não tivesse clientes obsessivo-compulsivas): Nephele Tempest, minha agente e a primeira pessoa a me dizer que amava o meu mundo Psy-Changeling. Obrigada por ser uma grande defensora do meu trabalho. Se algum dia nós conseguirmos nos reunir em pessoa, as margaritas serão por minha conta! Na minha equipe de editoração: Cindy Hwang, minha brilhante editora, que é uma pessoa que me dá a liberdade de seguir para onde quer que minha imaginação me leve; Leis Pederson, assistente editorial supereficiente (e alguém que provavelmente está farto de ouvir minha voz depois daquela maratona de sessões de edição por telefone!); E a equipe sensacional nos bastidores. Um grande obrigada por tudo que vocês fizeram desde o primeiro livro da série Psy-Changeling. Em locais desconhecidos: Todas as livrarias, leitores, críticos, bibliotecários e blogueiros que apoiaram os meus livros até a data. Se eu tentasse listar todos vocês ficaria sem espaço, o que, penso eu, é uma coisa surpreendente, humilhante. Obrigada. Do outro lado da porta exigindo que eu saia ou eles vão me arrastar para fora: Meus amigos, que lidam com minhas tendências eremitas sem riscar-me de suas listas de convite. Você sabe quem você é. Eu me sinto abençoada por ter você em minha vida. E dentro da minha cabeça: Meus personagens, que me deixam contar suas histórias. Obrigada.
  8. 8. 8 ARROWS1 Mercury era um culto. Isso foi o que todos disseram no começo. Os Psys riram das alegações de Catarine e Arif Adelaja de serem capazes de libertar o seu povo da insanidade e fúria assassina. Ser Psy era estar às bordas da loucura. Isso era aceito. Isso era aceito. Não havia nenhuma cura. Mas então Mercury produziu dois graduados em sua versão inicial do Protocolo do Silêncio; os próprios filhos gêmeos dos Adelaja. Tendaji e Naeem Adelaja eram tão frios quanto o gelo, e não sentiam nada semelhante à raiva ou loucura... Por algum tempo. O experimento acabou falhando. O lado escuro da emoção correu de volta para os gêmeos Adelaja em uma avalanche, e, dezesseis anos depois de terem sido anunciados como os arautos de um novo futuro, eles cometeram suicídio. Tendaji, o forte, matou Naeem e depois se suicidou. Não havia dúvidas de que foi uma decisão mútua. Eles deixaram um bilhete: Nós somos uma abominação, uma praga que vai matar o nosso povo de dentro para fora. O Silêncio nunca deve criar raízes, nunca deve se infiltrar na PsyNet. Perdoem-nos. Suas palavras nunca foram ouvidas, seu terror nunca foi entendido. Encontrados pelos acólitos de Mercury, eles foram enterrados em uma cova oculta, suas mortes chamadas de acidentais. Até então Mercury já tinha começado a treinar uma segunda geração, melhorando sua técnica, refinando as ferramentas com as quais extirpar as emoções indesejadas do coração e a loucura da alma. A mudança mais importante foi menos divulgada; desta vez eles tiveram o apoio cauteloso dos líderes de seu povo, o Conselho Psy. Mas eles também precisavam de outro tipo de apoio, o tipo que contivesse qualquer outro lapso e erro antes que ele fosse levado a domínio público... E aos ouvidos ainda céticos do Conselho. Se os Conselheiros 1 Arrow: Em inglês significa seta, flecha, mas manteremos o termo em inglês.
  9. 9. 9 tivessem descoberto sobre as continuas mortes, eles teriam recuado. E os Adelaja não podiam suportar a ideia de que sua visão fosse apontada como lixo pela história. Porque, embora abalados pelas mortes de seus filhos gêmeos, Catherine e Arif nunca perderam a fé no Silêncio. Nem seu filho mais velho; Zaid. Zaid era um telepata Cardeal com uma furiosa habilidade em combate mental. Ele também tinha sido treinado no Silêncio, mas como um jovem adulto, não uma criança. Ainda assim, ele acreditava. O Protocolo tinha pacificado os demônios de sua mente e ele queria espalhar o dom da paz, para acalmar o tormento de seu povo. Então ele começou a limpar os erros, eliminando aqueles que quebraram sob as versões experimentais do Silêncio, enterrando suas vidas de forma tão eficiente quanto ele enterrou seus corpos. Catherine o chamava de seu Arrow Marcial. Logo Zaid recrutou outros como ele. Outros que acreditavam. Eles eram os solitários, sombras desconhecidas mais escuras do que as trevas, homens e mulheres cujo único objetivo era o de eliminar qualquer coisa que pudesse ameaçar a realização bem-sucedida do sonho de Catherine e Arif. O tempo passou. Anos. Décadas. Zaid Adelaja foi lavado da Terra, mas a tocha dos Arrows continuou a ser entregue de um para o outro... Até que não existia mais Mercury e os Adelaja mortos há muito tempo estavam sendo saudados como visionários. O Protocolo do Silêncio foi implementado no ano de 1979. O Conselho Psy foi unânime em sua votação, mas as massas estavam divididas apesar da maioria estar a favor. Seu povo estava matando os seus e os outros com uma raiva e desumanidade nunca vistas em qualquer uma das outras raças. O Silêncio parecia sua única esperança, a única solução para uma paz duradoura. Mas eles teriam dado esse passo se tivessem lido as últimas palavras de Tendaji e Naeem? Não havia mais ninguém que pudesse responder a essa pergunta. Como também ninguém podia responder por que um protocolo que tinha a intenção de trazer a paz trouxe também com ele o mais frio, o mais perigoso tipo de violência; houve muitos rumores de que o Esquadrão Arrow cresceu na esteira do processo de implementação, alimentado pelo medo de muitas mentes de estarem sob o Silêncio. Foi dito que aqueles que protestaram demais tinham o hábito de simplesmente desaparecer.
  10. 10. 10 Agora, nos meses finais do ano 2079 os Arrows são um mito, uma lenda, a sua existência ou inexistência debatida incessantemente na PsyNet. Para os cínicos, o Conselho Psy pós-Silêncio é uma criação perfeita, uma que nunca faria algo tão dissimulado como criar um esquadrão secreto para cuidar de seus inimigos. Mas outros pensavam diferente. Outros viram os vestígios escuros das mentes altamente marciais riscados através da Net, sentiram o arrepio de suas lâminas psíquicas. Mas, claro, esses outros não podiam falar. Aqueles que entraram em contato com o Esquadrão Arrow raramente viviam para contar a estória. Os Arrows não davam atenção aos boatos, pois não consideravam o seu exército secreto um esquadrão da morte. Não, eles mantiveram-se fiéis ao seu fundador. Sua lealdade era somente ao Protocolo do Silêncio e eles eram dedicados à sua continuidade. Execuções às vezes eram inevitáveis.
  11. 11. 11 Um Um punho bateu no rosto de Judd. Focado em eliminar seu oponente do campo ele mal percebeu o impacto, seu próprio punho já balançando para fora. Tai tentou evadir o golpe no último segundo, mas era tarde demais; a mandíbula do jovem lobo chocou-se com um som intenso que falava de danos internos. Mas ele não se rendia. Apertando os dentes manchados de vermelho por causa de um corte em seu lábio superior ele correu para Judd, claramente com a intenção de usar sua constituição mais pesada como um aríete para esmagar o seu adversário na parede de pedra dura. Em vez disso foi Tai que acabou com suas costas batendo contra a pedra, a boca abrindo-se quando o ar foi expulso de seus pulmões em uma explosão incontrolável. Judd agarrou o outro homem pelo pescoço. — Matar você não significaria nada para mim. — Ele disse, aumentando seu aperto até que Tai teve dificuldade para respirar. — Você gostaria de morrer? — Seu tom era calmo, sua respiração modulada. Era uma maneira de ser que nada tinha a ver com sentimento, porque ao contrário do changeling em frente a ele, Judd Lauren não sentia. Os lábios de Tai formaram uma maldição, mas tudo o que se materializou foi um som de chiado incompreensível. Para um observador casual teria parecido que Judd tinha adquirido a vantagem, mas ele não cometeu o erro de baixar a guarda. Enquanto Tai não admitisse a derrota, ele continuava perigoso. O outro homem provou isso um segundo depois
  12. 12. 12 usando a habilidade changeling de se semitransformar; suas mãos tornaram-se garras. Essas garras afiadas cortavam couro sintético e carne facilmente, mas Judd não deu ao rapaz a chance de lhe causar qualquer dano real. Pressionando um ponto de pressão muito específico no pescoço de Tai, ele bateu o seu oponente para a inconsciência. Somente quando o changeling estava completamente inconsciente ele liberou sua presa. Tai caiu para baixo em uma posição sentada, a cabeça pendendo sobre o peito. — Você não deveria usar seus poderes Psy. — Uma voz feminina e rouca disse da porta. Ele não precisava se virar para identificá-la, mas fez isso de qualquer maneira. Extraordinários olhos castanhos em um rosto de ossatura fina, este encoberto pelo boné sobre seus curtos cabelos loiros. Aqueles olhos tinham sido normais e o cabelo não era curto antes de Brenna ter sido sequestrada. Por um assassino. Por um Psy. — Eu não preciso usar minhas habilidades para lidar com garotinhos. Brenna caminhou até ficar ao lado dele, a cabeça apenas alcançando seu peito. Ele nunca percebeu como ela era pequena até que a tinha visto depois do resgate. Deitada naquela cama quase sem respirar, sua energia contraída em uma bola tão apertada que ele não tinha certeza se ela ainda estava viva. Mas seu tamanho não significava nada. Brenna Shane Kincaid, como ele aprendeu, tinha uma vontade de puro, não diluído ferro. — Essa é a quarta vez esta semana que você esteve em uma luta. — Ela ergueu a mão e ele teve que se conter para não se afastar. O toque era uma coisa changeling; os lobos faziam isso constantemente e sem pensar. Para um Psy esse era um conceito estranho, algo que poderia em última análise promover uma perigosa perda de controle. Mas Brenna foi machucada por um mal gerado por sua própria raça. Se ela precisava de toque, que assim seja. Impressões lânguidas de calor em seu rosto. — Você vai ter uma contusão. Vamos lá, deixe-me colocar algo nisso. — Por que você não está com Sascha? — Outra renegada Psy, mas uma curadora, não uma assassina. Judd era o único que tinha sangue nas mãos. — Eu pensei que você tinha uma sessão com ela às oito horas. — Passaram-se agora cinco minutos do horário marcado.
  13. 13. 13 Aqueles dedos lhe acariciando deslizaram para permanecer em sua mandíbula antes de caírem. Seus cílios ergueram-se. E revelaram a mudança que apareceu cinco dias após seu resgate. Os olhos que tinham sido castanho-escuros agora eram de uma mistura que ele nunca tinha visto em qualquer ser senciente; humano, changeling ou Psy. As pupilas de Brenna eram puramente negras, mas ao redor dos pontinhos de noite existiam agora rajadas de um vivido azul ártico. Elas iam de forma irregular em direção ao castanho escuro da íris, dando aos seus olhos uma aparência extremamente triste. — Acabou. — Ela disse. — O quê? — Ele ouviu Tai gemer, mas ignorou-o. O menino não era uma ameaça, e a única razão pela qual Judd lhe permitiu acertar qualquer um de seus socos foi porque ele entendia a forma como a sociedade lobo funcionava. Ser espancado em uma briga era ruim, mas não tão ruim quanto ser espancado sem opor uma sólida resistência. Os sentimentos de Tai não faziam diferença para Judd. Ele não tinha nenhuma intenção de assimilar o mundo changeling. Mas sua sobrinha e sobrinho, Marlee e Toby, também tinham que sobreviver na rede de túneis subterrâneos que era a caverna dos SnowDancers, e seus inimigos poderiam se tornar os deles. Assim sendo ele não tinha humilhado o rapaz pondo fim à luta antes mesmo que ela começasse. — Será que ele vai ficar bem? — Brenna perguntou quando Tai gemeu pela segunda vez. — Dê a ele um minuto ou dois. Olhando para ele, ela arfou. — Você está sangrando! Ele se afastou antes que ela pudesse tocar seus antebraços cortados em tiras. — Não é nada sério. — E não era. Quando criança ele foi submetido a mais excruciante dor e, em seguida, foi-lhe ensinado a bloqueá-la. Um bom Psy não sentia nada. Um bom Arrow sentia menos ainda. Isso tornava muito mais fácil matar as pessoas. — Tai feriu você. — O rosto de Brenna estava furioso quando ela olhou para baixo, para o homem caído contra a parede. — Espere até Hawke ouvir...
  14. 14. 14 — Ele não vai ouvir. Porque você não vai dizer a ele. — Judd não precisava de proteção. Se Hawke soubesse o que Judd realmente era, o que ele tinha feito, o que ele havia se tornado, o alfa SnowDancer teria levado-o para fora em sua primeira reunião. — Explique o seu comentário sobre Sascha. Brenna fez uma careta, mas não pressionou sobre os arranhões em seu braço. — Não há mais sessões de cura. Eu estou bem. Ele sabia o quanto ela tinha sido brutalizada. — Você tem que continuar. — Não. — A palavra foi curta, afiada e muito final. — Eu não quero ninguém em minha cabeça novamente. Nunca mais. De qualquer forma, Sascha não pode entrar nela. — Isso não faz sentido. — Sascha tinha o raro dom de ser capaz de falar facilmente tanto às mentes changelings quanto as Psys. — Você não tem a capacidade de bloqueá-la. — Eu consigo agora, algo mudou. Tai tossiu enquanto despertava completamente e eles se viraram para observar como ele usava a parede para arrastar-se a uma posição vertical. Piscando várias vezes após ficar de pé, ele ergueu a mão para sua bochecha. — Cristo, parece que um caminhão passou por dentro do meu rosto. Os olhos de Brenna se estreitaram. — Que diabos você achou que estava fazendo? — Eu... — Guarde isso. Por que você veio atrás de Judd? — Brenna, isso não é da sua conta. — Judd podia sentir o sangue secando-se em sua pele, as células já se coagulando. — Tai e eu já chegamos a um entendimento. — Ele olhou para o outro homem nos olhos. A mandíbula de Tai se apertou, mas ele assentiu. — Nós estamos quites. E seu status relativo na hierarquia do clã havia sido esclarecido sem qualquer sombra de dúvidas; se o posto de Judd já não tivesse sido maior, ele agora seria dominante em relação ao lobo.
  15. 15. 15 Empurrando a mão pelo cabelo, Tai virou-se para Brenna. — Posso falar com você sobre... — Não. — Ela interrompeu-o com um aceno de mão. — Eu não quero ir com você para sua festa de faculdade. Você é muito jovem e muito idiota. Tai tragou. — Como você sabia o que eu ia dizer? — Talvez eu seja Psy. — Foi sua resposta sombria. — Esse é o boato, não é? Manchas vermelhas apareceram nas maçãs do rosto de Tai. — Eu disse que eles estavam falando merda. Esta era a primeira vez que Judd ouvia falar da tentativa claramente mal intencionada de causar dor emocional a Brenna, e essa era a última coisa que ele teria previsto. Os lobos podiam ser inimigos cruéis, mas eles também eram ferozmente protetores de seu próprio povo e tinham se fechado em torno de Brenna logo que ela foi resgatada. Ele olhou para Tai. — Eu acho que você deve ir. O jovem lobo não discutiu, passando por eles tão rápido quanto suas pernas podiam levá-lo. — Sabe o que torna isso ainda pior? — A pergunta de Brenna trouxe sua atenção de volta do rapaz que se afastava. — O quê? — É verdade. — Ela direcionou todo o poder daquele triste olhar azul- castanho para ele. — Eu sou diferente. Eu vejo coisas com esses malditos olhos que ele me deu. Coisas terríveis. — Eles são simplesmente ecos do que aconteceu com você. — Um sociopata poderoso havia rasgado sua mente, estuprando-a no nível mais íntimo. Que a experiência tivesse deixado cicatrizes psíquicas não era surpreendente. — Isso é o que Sascha disse. Mas as mortes que eu vejo... Um grito rasgou o momento em dois. Ambos estavam em movimento antes que ele terminasse. Uma centena de metros abaixo no segundo túnel eles se juntaram a Índigo e um par de outros. Quando eles viraram a esquina, Andrew veio correndo em
  16. 16. 16 torno deles e apertou a mão no braço de Brenna, levando sua irmã a uma parada e erguendo a mão livre ao mesmo tempo. Todos pararam. — Índigo, há um corpo. — Andrew cuspiu as palavras como balas. — Túnel Nordeste número seis, alcova quarenta. Brenna se soltou do agarre de seu irmão no segundo que ele terminou e decolou sem aviso prévio. Tendo percebido o seu claro acesso de raiva antes que ela rapidamente o mascarasse, Judd foi o primeiro a se mover depois dela. Índigo e um Andrew furioso seguiam às suas costas. A maioria dos Psys teria sido ultrapassado até agora, mas ele era diferente, uma diferença que havia predestinado a sua vida na PsyNet. Brenna era um borrão em frente a ele, se movendo com uma velocidade impressionante para alguém que tinha sido confinado a uma cama apenas poucos meses atrás. Ela tinha quase chegado ao túnel número seis quando ele a alcançou. — Pare. — Ele ordenou, sua respiração não tão irregular quanto deveria ter sido. — Você não precisa ver isso. — Sim, eu preciso. — Ela disse em uma respiração ofegante. Deslocando-se em uma explosão de velocidade, Andrew a agarrou por trás, passando os braços ao redor de sua cintura para levantá-la do chão. — Bren, acalme-se. Índigo passou correndo, um flash de pernas longas, seus cabelos escuros fluindo atrás dela. Ante ao aperto de Andrew, Brenna começou a contorcer-se com fúria o suficiente para se machucar. Judd não podia permitir isso. — Ela vai se acalmar se você soltá-la. Brenna sacudiu-se até parar, o peito arfante e os olhos surpresos. Andrew não ficou calado. — Vou cuidar da minha irmã, Psy. — A última palavra soou como uma maldição. — Como, me prendendo? — Brenna perguntou em um tom afiado. — Eu nunca vou ser colocada em uma caixa de novo, Drew, e juro que se você tentar, eu vou tornar minhas mãos em garras sangrentas até escapar. — Era uma imagem impiedosamente gráfica, especialmente para quem tinha visto a condição em que ela estava depois de ter sido encontrada.
  17. 17. 17 Atrás dela, Andrew empalideceu, mas sua mandíbula ficou determinada. — Isso é o melhor para você. — Talvez não seja. — Judd disse, encontrando os olhos irritados de Andrew sem vacilar. O soldado SnowDancer culpou a todos os Psys pela dor de sua irmã e Judd podia adivinhar a sequência de emoção e lógica que o levara a essa conclusão. Mas essas mesmas emoções também o cegaram. — Ela não pode passar o resto de sua vida acorrentada. — Que porra você sabe sobre qualquer coisa? — Andrew rosnou. — Vocês nem sequer se preocupam com o seu próprio povo! — Ele sabe um inferno muito mais do que você! — Bren. — A voz de Andrew foi um aviso. — Cale-se, Drew. Eu não sou mais um bebê. — Sua voz continha ecos de coisas mais sombrias, do mal testemunhado e inocência perdida. — Você já parou para perguntar o que Judd fez por mim durante a cura? Alguma vez você já se preocupou em descobrir o que lhe custou? Não, claro que não, porque você sabe tudo. Ela puxou uma respiração irregular. — Bem, adivinhe só, você não sabe de nada! Você não foi onde eu estive. Nem sequer chegou perto. Me. Solte. — As palavras não eram mais enfurecidas, mas calmas. Normal para um Psy. Não para um changeling lobo. Especialmente para Brenna. Os sentidos de Judd entraram em alerta máximo. Andrew sacudiu a cabeça. — Não me importa o que diabos diga irmãzinha, você não precisa ver isso. — Então me desculpe, Drew. — Brenna cortou com suas garras os braços dele uma fração de segundo depois, chocando tanto seu irmão que ele a deixou ir. Ela estava se movendo quase antes de seus pés tocarem o chão. — Jesus. — Andrew murmurou, olhando para ela. — Eu não posso acreditar... — Ele olhou para seus braços sangrentos. — Brenna nunca machuca ninguém. — Ela não é mais a Brenna que você conhecia. — Judd disse ao outro macho. — O que Enrique fez com ela a alterou em um nível fundamental, de uma maneira que nem mesmo ela entende. — Ele decolou atrás de Brenna antes que Andrew pudesse responder, pois ele tinha que estar ao seu lado
  18. 18. 18 para desviar as consequências dessa morte. O que ele não conseguia entender era por que ela estava tão determinada a ver. Ele alcançou-a quando ela passou correndo por um guarda surpreso e entrou no pequeno aposento desocupado do túnel número seis. Ela parou tão de repente que ele quase se chocou com ela. Seguindo seu olhar, ele viu o corpo estendido de um desconhecido macho SnowDancer no chão. O rosto e o corpo nu da vítima estavam cheios de ferimentos, a pele salpicada de cores diferentes devido aos danos. Mas Judd sabia que não era isso o que mantinha Brenna congelada. Eram os cortes. O changeling tinha sido cortado cuidadosamente com uma faca, nenhum dos cortes fatais, exceto o último. Este tinha cortado a artéria carótida. O que significava que havia algo errado com esta cena. — Onde está o sangue? — Ele perguntou a Índigo, que estava agachada do outro lado do corpo, um par de seus soldados ao seu lado. A tenente fez uma careta ao ver Brenna ali, mas respondeu: — Não é uma matança fresca. Ele foi despejado aqui. — O lugar é pouco frequentado. — Um dos soldados, um macho magro chamado Dieter, falou. — Fácil para chegar sem ser notado se você sabe o que está fazendo; quem fez isso foi inteligente, e provavelmente escolheu o lugar com antecedência. Brenna puxou em uma respiração, mas não falou. O cenho de Índigo aumentou. — Tirem ela daqui. Judd não seguia ordens bem, mas concordava com essa. — Vamos. — Ele disse à mulher que estava de costas para ele. — Eu vi isso. — Um sussurro fraco. Índigo ficou de pé, um olhar estranho em seu rosto. — O quê? Brenna começou a tremer. — Eu vi isso. — O mesmo sussurro débil. — Eu vi isso. — Mais alto. — Eu vi isso! — Um grito. Judd tinha passado tempo suficiente com Brenna para saber que ela odiaria ter perdido o controle na frente de todos. Ela era uma loba muito orgulhosa. Então ele fez a única coisa que poderia cortar através de sua
  19. 19. 19 histeria. Moveu-se para bloquear sua visão do corpo e, em seguida, usou suas emoções contra ela. Era uma arma Psy que ele tinha afiado à perfeição. — Você está fazendo papel de boba. As palavras geladas atingiram Brenna como uma bofetada. — Desculpe-me? — Ela deixou cair a mão que tinha levantado para empurrá-lo de lado. — Olhe para trás. Ela permaneceu obstinadamente quieta. O inferno iria congelar antes que ela obedecesse a uma ordem dele. — Metade do clã está farejando ao redor. — Ele disse a ela. Impiedoso. Psy. — Ouvindo você perder o controle. — Eu não estou perdendo o controle. — Ela corou quanto percebeu tantos olhos sobre ela. — Saia do meu caminho. — Ela não queria mais olhar para o corpo, um corpo que tinha sido mutilado com a mesma precisão sinistra que Enrique tinha usado em suas vítimas, mas o orgulho não a deixaria recuar. — Você está sendo irracional. — Judd não se mexeu. — Este lugar obviamente tem um impacto negativo sobre a sua estabilidade emocional. Volte. — Isto definitivamente era uma ordem, seu tom de voz tão perto do de um alfa que ela cerrou os dentes. — E se eu não quiser? — Brenna alegremente abraçou a raiva que ele tinha despertado; ela deu-lhe um novo foco, uma maneira de escapar do pesadelo de memórias desencadeadas pelo lugar. Os impassíveis olhos do Psy encontraram os dela, a arrogância masculina neles de tirar o fôlego. — Então vou pegá-la e movê-la eu mesmo. Em resposta, alegria explodiu para a vida em sua corrente sanguínea, afastando o último sabor acre do medo. Meses de frustração, de ver sua independência sendo soterrada por uma parede de proteção, de ouvir o que era melhor para ela, de ter sua racionalidade questionada a cada passo, tudo isso e mais formando uma bola de neve naquele instante. — Experimente. — Um desafio. Ele adiantou-se e as pontas dos dedos dela formigaram, suas garras ameaçando aparecer. Oh sim, ela estava definitivamente pronta para se
  20. 20. 20 meter com Judd Lauren, o Homem de Gelo, e a mais bela criatura do sexo masculino que ela já tinha visto.
  21. 21. 21 Dois Brenna, o que você está fazendo aqui? — A afiada pergunta foi lançada por uma voz familiar. Lara não esperou por uma resposta. — Afaste-se, você está bloqueando a porta. Assustada, Brenna fez como ordenado. A curadora SnowDancer e um de seus assistentes deslizaram, kits médicos portáteis na mão. Judd se moveu quando ela fez isso, continuando a obstruir a sua visão do corpo. — Este lugar está ficando lotado. Lara precisa de espaço para trabalhar. — Ele está morto. — Brenna sabia que não estava sendo razoável, mas estava cansada de ser empurrada. — Ela não pode ajudá-lo agora. — E o que você pretende ganhar ficando aqui? — Uma simples pergunta que destacou seu comportamento ridículo com fria precisão Psy. Fechando as mãos em punhos contra a vontade de bater neste homem que sempre pareceu alcançá-la em seu ponto mais fraco, ela se virou e saiu. Seus companheiros de clã olharam para ela com curiosidade enquanto passava. Mais do que um tinha um olhar julgador; A pobre Brenna finalmente desmoronou. Ficou tentada a passar sem encarar seus olhares, mas se forçou a fazer o oposto. Ela teve o seu autorrespeito roubado uma vez. Ela não iria renunciar a isto nunca mais. Vários pares de olhos se afastaram por terem sidos pegos olhando, enquanto outros continuaram a encará-la sem pestanejar. Se as circunstâncias fossem diferentes ela teria tomado sua intolerância como um desafio, mas hoje ela só queria ficar longe do cheiro esmagador da morte que vinha do corpo. No entanto, a urgência não a cegou para o fato de que mesmo o mais ousado deles baixou seus olhos depois de olhar para o homem que vinha atrás dela.
  22. 22. 22 — Eu não preciso de você para lutar minhas batalhas. — Ela disse depois que passaram a multidão. Judd moveu-se para caminhar ao seu lado, deixando de ser uma sombra à suas costas. — Eu não sabia que estava fazendo isso. Ela teve que admitir que ele provavelmente estava lhe dizendo a verdade; a maioria das pessoas da toca tinha simplesmente muito medo de Judd Lauren para querer chamar sua atenção em qualquer circunstância. — Você viu os cortes. — Ela ainda podia sentir o cheiro da morte misturado ao toque metálico do sangue. — Eles eram como os dele. — O brilho de um bisturi afiado piscou em sua mente. Imagem de sangue jorrando. Gritos ecoando contra as paredes de uma prisão. — Eles não eram idênticos. Sua fria resposta puxou-a para fora do caos de pesadelos em sua memória. — Por que você parece tão certo disso? — Sou Psy. Eu entendo padrões. Vestido de preto e com aqueles olhos sem emoção não havia dúvida de que ele era Psy. Quanto ao resto... — Não tente me convencer de que todos os Psys teriam sido capazes de processar os detalhes tão rapidamente. Você é diferente. Ele não se preocupou em confirmar ou negar. — Isso não muda os fatos. Os cortes nesta vítima... — Timothy. — Ela interrompeu, um nó em sua garganta. — Seu nome era Timothy. — Ela tinha conhecido o SnowDancer apenas de passagem, mas não podia suportar que ele fosse reduzido a nada mais do que uma vítima sem nome. Ele tinha uma vida. Um nome. Judd olhou para ela, então deu um pequeno aceno de cabeça. — Timothy foi morto usando o mesmo tipo de método, mas os detalhes são diferentes. Sendo que a maior diferença é que ele era do sexo masculino. E Santano Enrique, o filho da puta que tinha torturado Brenna e matado tantos outros, tinha tomado exclusivamente mulheres. Porque ele gostava de fazer certas coisas, coisas que exigiam uma mulher; Brenna empurrou as memórias de volta para o armário dentro de sua mente onde guardava os mais escuros pedaços do que ele havia feito a ela. — Você acha
  23. 23. 23 que alguém está copiando ele? — A ideia fez seu estômago se revirar. Mesmo morto, o mal do açougueiro continuou. — Provavelmente. — Judd parou em uma bifurcação nos túneis. — Essa não é a sua luta. Deixe a investigação para aqueles que têm experiência nessa área. — Porque eu só tenho experiência em ser uma vítima? O cheiro metálico de sangue subiu de sua carne retalhada quando ele cruzou os braços. — Você está muito cega por suas próprias emoções para fazer justiça por Timothy. Isto não é sobre você. Ela abriu a boca para dizer-lhe que estava errado, mas fechou rapidamente. Admitir a verdade não era uma opção, pois isso soaria como loucura, um delírio de uma mente fragmentada. — Vá cuidar de seus ferimentos. — Ela disse em seu lugar. — O cheiro de sangue Psy não é particularmente apetitoso. — Ela estava preocupada com a profundidade dos cortes que Tai tinha feito nele, mas foda-se, ela não iria admitir isso. Judd nem sequer piscou ante seu tom insultuoso. — Eu vou acompanhá-la até seu quarto. — Experimente e eu arrancarei seus olhos. — Virando-se, ela se afastou, ainda capaz de sentir seu olhar sobre ela a cada passo do caminho até que virou a esquina. Estava tentada a desmoronar, a enfim liberar a máscara de raiva que usara como um escudo, mas esperou até que estava a salvo em seu quarto antes de ceder. — Eu vi isso. — Ela disse às paredes, apavorada. A separação da carne sob a lâmina, o sangue escorrendo, a palidez da morte, ela viu tudo. Isso a deixou em uma bagunça tremula, abalada, mas havia encontrado conforto no fato de que tinha sido nada mais do que um pesadelo. Só que agora seu pesadelo havia tomado a mais feia das formas.
  24. 24. 24 Judd se assegurou de que Brenna estava em seus aposentos antes de voltar à cena do crime e conversar demoradamente com Índigo. Então fez o seu caminho para seu próprio quarto. Uma vez lá, despiu-se para tomar um banho e remover o sangue seco dos braços. Brenna estava certa; o cheiro só chamaria a atenção para ele, dado o sentido agudo de olfato dos changelings, e esta noite ele precisava ser invisível. Quando ele saiu não se preocupou em olhar no espelho, simplesmente passou a mão pelo cabelo e deixou por isso mesmo. Uma parte de sua mente notou que seu cabelo estava passando do comprimento regular do passado. Outra parte rejeitou a questão como irrelevante, pois ele não era mais um membro do exército de elite da raça Psy. O Conselho Psy havia condenado toda sua família: seu irmão, Walker; a filha de Walker, Marlee; Sienna e Toby, os filhos de sua irmã morta, Kristine. Todos eles sentenciados a uma semivida após a reabilitação. Se eles não tivessem desertado teriam suas mentes limpas, seus cérebros destruídos até que não fossem muito mais do que vegetais andantes. Tinha sido um risco calculado vir para os lobos. Ele e Walker esperavam morrer, mas tinham esperança de misericórdia para Toby e Marlee. Sienna, velha demais para ser uma criança, jovem demais para ser uma adulta, tinha decidido ariscar sua chance com os lobos ao invés da reabilitação. Mas os SnowDancers não mataram os adultos à primeira vista. Como resultado, ele agora vivia em um mundo onde sua antiga vida não significava nada. Ele vestiu-se puxando as calças, meias e botas primeiro. Um homem é capaz de derrotar um oponente sem camisa, mas ter os pés descalços era uma desvantagem muito maior. Foi quando ele estava puxando uma camisa que a mensagem esperada chegou através de seu pequeno telefone prateado. Deixando os botões da camisa desabotoados, ele leu as palavras criptografadas, traduzindo-as em sua mente. Alvo confirmado. Janela de tempo: Uma semana. Ele apagou a mensagem um segundo depois de lê-la. Seu próximo ato foi puxar para cima as mangas longas de sua camisa preta e enrolar ataduras de algodão em torno de seus antebraços; elas iriam ajudar a mascarar o cheiro da rápida regeneração da pele. Brenna teria ficado muito surpresa ao ver o quão rápido ele se curava.
  25. 25. 25 Sua mente foi para a cena do crime mais uma vez. Ele tinha certeza de que estavam lidando com um imitador. Os cortes foram superficialmente semelhantes aos realizados por Santano Enrique, porém nada mais que isso. Enrique sempre teve muito orgulho da precisão com que mutilava os corpos de suas vítimas, mas o assassino tinha fatiado em vez disso. Índigo também confirmou que nenhum aroma Psy foi encontrado na cena do crime. O último fator decisivo era que Santano Enrique estava mais que definitivamente morto; Judd tinha testemunhado o outro Psy ser despedaçado pelas garras dos lobos e dos leopardos. Não existia necessidade de Brenna se preocupar que seu algoz havia voltado do túmulo. É claro, essa era a sua lógica Psy falando, e ela era indiscutivelmente uma changeling. Mais ao ponto, ela não sabia que Judd estivera presente na execução de Enrique e, por extensão, em seu resgate. Ele não tinha nenhuma intenção de mudar isso. Porque, enquanto ele podia não ser muito bom em prever reações emocionais, Judd aprendeu o suficiente sobre Brenna durante as sessões de cura, sessões essas onde ele “emprestou” sua força psíquica para que Sascha reparasse as fraturas na mente de Brenna, para saber que ela reagiria negativamente ao conhecimento de seu envolvimento. Eu não sou mais um bebê. Não, ela não era. E ele não era seu protetor. Ele não poderia ser; quanto mais perto Judd chegasse dela, mais poderia machucá-la. O Silêncio tinha sido inventado para aqueles como ele; assassinos cruéis e violentamente insanos, aqueles que transformaram o mundo Psy em um inferno sangrento tão ruim que o Silêncio se tornou a melhor escolha. No segundo em que quebrasse seu condicionamento ele se tornaria uma arma carregada sem uma trava de segurança. Era por isso que ele nunca faria o que Sascha fez para acabar com o Silêncio em sua mente. Essa era a única coisa que mantinha o mundo seguro do que ele era... A única coisa mantendo Brenna segura. Puxando uma jaqueta preta idêntica a que Tai tinha cortado, ele deslizou o telefone no bolso. Era hora de sair da toca. Ele tinha uma bomba para construir.
  26. 26. 26 Três Kaleb Krychek, Cardeal Tc e mais novo membro do Conselho Psy, terminou a chamada e se recostou na cadeira, suas mãos entrelaçadas na frente dele. — Silver, — Ele disse, ativando o interfone com um uso insignificante de sua telecinese. — encontre todos os meus arquivos sobre o Grupo familiar Liu. — Sim, senhor. Sabendo que a tarefa levaria alguns minutos, ele analisou mentalmente a chamada. Jen Liu, matriarca do Grupo Liu, deixou claro sua opinião. — Nós temos um relacionamento mutuamente benéfico. — Ela disse, sem piscar os olhos verdes. — Eu estou certa de que você não faria nada para prejudicar isso. No entanto, eu não estou tão certa sobre seus colegas do Conselho. Nós ainda estamos pagando por sua última decisão; os preços de Faith NightStar quase duplicaram enquanto sua família tenta recuperar o que perdeu. O Caso NightStar, como esse particular fracasso político era chamado agora, tinha acontecido imediatamente antes da ascensão de Kaleb ao Conselho. Faith NightStar, uma vidente poderosa, tinha escolhido saltar da PsyNet para os braços de um dos felinos DarkRiver. Dois Conselheiros tomaram a decisão precipitada de tentar recapturá-la, colocando sua vida em risco e alienando não só a sua família, o poderoso Grupo NightStar, mas também todas as empresas que confiavam nas previsões de Faith. Empresas como o Grupo Liu. Agora Kaleb olhava pensativo para a tela transparente que momentos antes mostrava a face de Jen Liu. A matriarca tinha sido correta na estimativa de sua lealdade. Ele valorizava as alianças que construiu em seu
  27. 27. 27 caminho para ganhar um lugar no Conselho. Essas alianças foram alimentadas com precisão e sangue frio; ele sabia que um Conselheiro que possuía o apoio de determinados setores da sociedade detinha muito mais do que a sua cota de poder. E Kaleb apreciava o poder. Foi por isso que tinha sido eleito Conselheiro aos vinte e sete anos. Ele tocou na tela, alternando-a do modo de comunicação para o de exibição de dados, abrindo em seguida os arquivos sobre o resto do Conselho. Colocando alguns arquivos de um lado, ele acessou os do Caso NightStar. Ao lado deste ele deixou um espaço vazio para as informações que Silver estava reunindo. Finalmente, ele abriu um arquivo altamente confidencial intitulado ‘Protocolo I’. Neste momento tudo o que tinha sobre esse assunto eram suspeitas, mas isso iria mudar. As questões de Liu seriam um primeiro ataque. Ele não via a necessidade de derramar sangue... Ainda. Kaleb não era nada senão paciente. Da mesma forma que uma cobra é paciente.
  28. 28. 28 Quatro Um dia após o assassinato e incontáveis horas de argumentação consigo mesma mais tarde, Brenna sabia que Judd era a única pessoa a quem ela poderia perguntar, a única pessoa que poderia eventualmente entender. E, no entanto, ele também era o pior de todos, sendo tão frio que às vezes ele parecia ser menos humano do que uma estátua esculpida em gelo. Antes de ser sequestrada ela tinha mantido distância para evitá-lo, intrinsecamente perturbada pelo frio desumano de sua personalidade. Consciente de que seus irmãos se tornariam selvagens ante o mero pensamento dela sozinha com Judd, ela tomou todos os cuidados para se manter invisível quando foi na ponta dos pés para fora das dependências da sua família depois do jantar em direção a seção ocupada por soldados solteiros. Judd vivia sozinho, pois seu irmão Walker e os três menores tinham sido transferidos para a seção de família. A mudança ocorreu quatro meses após os Laurens terem procurado refúgio com os SnowDancers. Surpreendentemente, tinham sido as fêmeas maternas do clã que fizeram Hawke pensar sobre como seria para as crianças Psys estarem isoladas na sessão dos soldados. Dado o quão sensíveis essas fêmeas eram sobre qualquer coisa que pudesse constituir um perigo para os filhotes, Brenna tinha esperando que elas exigissem distância; Marlee e Toby podiam ser crianças, mas eram crianças muito poderosas. Por outro lado, os filhotes SnowDancer tendiam a jogar pesado e podiam machucar as crianças Psy sem querer. Mas as fêmeas maternas estenderam o convite e Walker Lauren aceitou em nome de sua filha Marlee e do seu sobrinho Toby. Aos dezessete anos, a irmã de Toby, Sienna, não podia mais ser classificada como uma criança, mas também não era uma adulta. Neste caso, a adolescente teimosa havia escolhido ficar com as crianças.
  29. 29. 29 Deixando Judd sozinho. Como Judd era considerado o membro mais perigoso da família Lauren seus aposentos nunca foram questionados. Ele continuou a ser visto com desconfiança, embora soubesse que ele foi parte integrante de seu grupo de resgate. Embora ele não tenha sido um daqueles que entraram no cômodo encharcado de dor que foi a sua câmara de tortura, uma omissão pelo qual ela seria sempre grata, ele ajudou Sascha a lançar a armadilha psíquica que levou à captura de Enrique. Ele provou sua lealdade. Mas ainda assim ele continuou a ser um estrangeiro. A injustiça daquilo arranhou seu senso de justiça, mas ela não podia culpar seus companheiros de clã por seus sentimentos, não quando Judd parecia determinado a reforçar essa postura. O homem era indiferente ao ponto da grosseria. Alcançando sua porta, ela bateu suavemente. — Se apresse. — Embora o corredor estivesse deserto no momento, ela podia ouvir o som de passos se aproximando. Com sua sorte, seria um de seus irmãos superprotetores. A porta se abriu. — O que...? Ela passou por debaixo de seu braço e entrou no quarto. — Feche isto antes que alguém apareça. — Por um segundo ela pensou que ele iria se recusar, mas ele empurrou a porta, fechando-a. Virando-se para ficar de costas para a porta, ele cruzou os braços sobre o peito nu. — Se os seus irmãos te encontrarem aqui vão colocá-la em um local fechado à chave. Ela foi subitamente hiperconsciente do cheiro fresco de suor masculino e da sua reluzente pele em um espaço confinado. Terror surgiu dentro dela, mas Brenna o empurrou para dentro de uma caixa inexpugnável em sua mente. — Você não está preocupado com o que eles podem fazer a você? — Apesar do medo seus dedos formigavam, querendo tocar essa criatura perigosa. — Eu posso cuidar de mim. Disso ela não tinha dúvida. — Eu também.
  30. 30. 30 Os olhos de Judd, olhos cor de chocolate amargo exceto pelas partículas douradas na íris, não mudaram o foco de seu rosto. — O que você está fazendo aqui, Brenna? Ela sacudiu-se para fora de seu fascínio. — Eu preciso falar com um Psy e você é um. — Que tal Sascha? — Ela não entenderia. — Brenna respeitava e gostava de Sascha Duncan, a Psy curadora de mentes que tinha acasalado com Lucas Hunter, o alfa dos leopardos DarkRiver. Mas... — Ela é muito boa, muito gentil. — É um efeito colateral de suas habilidades. — Judd disse em seu habitual tom gelado. Era um tom que enfurecia os outros machos, mas Brenna sabia que não era a única mulher que queria descobrir como descongelá-lo. Suas garras picaram o interior de sua pele quando ela foi atingida por uma violenta onda de inexplicável fome sensual. Lutou contra isso; ela não era suficientemente estúpida para pensar que poderia mudá-lo. — Sascha sente as emoções dos outros. — Judd continuou. — Se ela prejudicasse outro ser isto repercutiria de volta para ela. — Eu sei disso. — Com as mãos em punhos, ela girou nos calcanhares e começou a andar ao redor do pequeno aposento. O cheiro dele estava por toda parte, fechando-se em torno de seus sentidos changelings em uma escura e intransigente onda masculina. — Isto aqui é como uma cela. Você não poderia pendurar um quadro, pelo menos? — O tamanho do quarto era comparável aos dos outros soldados solteiros, mas mesmo o pior lobo solitário fazia algumas mudanças no seu espaço vital. Em contraste, o de Judd era gritantemente vazio, sua cama a única peça de mobiliário, com o seu lençol branco e o cobertor institucional cinza. A única adição aparente parecia ser uma barra horizontal de exercício montada trinta centímetros abaixo do teto. — Eu não vejo o ponto. — Ele se encostou contra a porta, o movimento chamando sua atenção para um peitoral que ela sabia ser feito de puro músculo. — Pergunte o que você veio perguntar. — Eu disse que estou vendo coisas. Eu vi que... que... — Ela não tinha coragem de dizer aquilo, de reavivar o pesadelo.
  31. 31. 31 Claro que Judd não tentou oferecer conforto. — Expliquei que não são nada mais do que prováveis ecos psíquicos do trauma que você sofreu nas mãos de Enrique. — Você está errado. É real. — Diga-me o que vê. — Maldades, coisas ruins. — Ela sussurrou, abraçando-se. — Morte, sangue e dor. A expressão de Judd não se alterou. — Seja mais específica. Raiva súbita a cegou, inundando o medo gerado pelas memórias. — Às vezes você me faz querer gritar! Te machucaria tentar parecer um ser humano? Ele não respondeu. — Walker é diferente. — Meu irmão é um telepata com uma afinidade especial com as mentes dos jovens Psys. Ele era um professor na Net. Ela levou um tempo para pensar sobre isso, muito surpresa de que ele a tivesse respondido depois de tudo. — Você está dizendo que ele já tinha a capacidade de sentir emoções antes de desertar? — Nós todos temos a capacidade. — Judd corrigiu. — O objetivo do condicionamento do Silêncio é a cauterização dessa capacidade; eliminar é impossível. Ela se perguntou o que ele viu em seu rosto, porque ela só via a calma mais fria nos olhos dele. Ele estava inalterado por sua raiva, seu medo... por sua dor. O conhecimento causou uma sensação estranha de vazio em seu estômago. — Mas você disse que Walker é diferente. Um aceno fez vários fios de cabelo escuro caírem em sua testa. — Meu irmão tinha contato constante com as crianças que ainda não tinham terminado o processo de condicionamento, além de contato contínuo com Toby e Marlee, o que significa que ele sempre foi mais suscetível à quebra do Silêncio no ambiente certo. — E você? — Foi algo que ela nunca perguntou antes. — O que fazia na Net?
  32. 32. 32 Ela pensou ter visto seus ombros se contraírem, mas quando ele respondeu seu tom estava inalterado. — Você não precisa de mais pesadelos. Agora, me diga o que vê. Ela se aproximou da masculinidade perigosa dele. — Você vai ter que falar sobre isso algum dia. — Mas ela sabia por sua postura inflexível que não seria hoje. Então ela reuniu sua coragem e abriu a caixa do mal e da morte. — Eu vi a morte de Timothy em um sonho. Mas... ele não tinha um rosto então... Só um liso oval de pele nua onde deveria haver um rosto. — Ela não conseguia tirar a imagem perturbadora de sua cabeça. — Eu vi como ele iria morrer. — A lâmina afiada cortando músculos e gordura para expor a carne vermelho-sangue. Judd continuou a observá-la sem pestanejar. — Poderia ser uma simples transferência; uma maneira de sua mente interpretar as imagens que Enrique deixou em seu cérebro. Repugnou-a que Enrique tenha chegado tão longe. Sascha assegurou que Brenna não tinha quebrado, que ela manteve o bastardo longe do núcleo central de sua mente, mas lhe parecia não era assim. Não, parecia para ela que ele tinha se arrastado até a própria essência do seu ser, violando todas as partes dela de dentro para fora. E Sascha não sabia o pior que o açougueiro tinha feito... ao que ele a submeteu; Brenna pretendia levar esse segredo para o túmulo. — Brenna. Com o estômago revirado, ela levantou a cabeça. — Transferência? Seus olhos eram penetrantes, como se ele estivesse tentando ver através de sua pele. — Você pode estar confundindo ou fundindo uma velha imagem sobre uma nova. Porque Enrique gostava de aterrorizá-la mostrando-lhe gravações de suas matanças passadas. — Não. — Ela discordou. — Mesmo antes de ver o corpo de Tim eu podia sentir as diferenças... nos cortes, na maldade. — A arma favorita de Enrique havia sido um bisturi, usado em conjunto com os poderes telecinéticos de sua mente Cardeal. Os Cardeais eram uma das categorias Psy mais fortes, mas Enrique tinha sido uma potência mesmo nesse grupo seleto. — É como se eu estivesse sendo forçada a ver as fantasias de alguém. — Era o seu maior medo; ter sua mente estuprada novamente, ser empurrada completamente na escuridão, nauseada com pensamentos que nada poderia apagar.
  33. 33. 33 — Você é uma changeling, não uma telepata. — Por um segundo ela pensou ter visto as partículas douradas faiscarem à vida no rico castanho dos seus olhos. — Há mais. — Não era uma pergunta. Ela engoliu em seco. — Quando eu vi o assassinato em meus sonhos, quando ouvi os gritos, isso... — Suas unhas cortavam as almofadas carnudas de suas palmas. — Isso o que, Brenna? — Sua voz era quase suave. Ou talvez isso era o que ela queria ouvir. — Isso me excitou. — Ela admitiu, sentindo-se suja e errada... um monstro. — Eu gostei. — Ela tinha desejado a agonia de sua vítima, o sangue dela vibrando com um doente entusiasmo. — Cada corte, cada grito. A expressão de Judd não mudou. — Mas só durante esse sonho? Ela queria tanto ser segurada, mas Judd Lauren era tão propenso a fazer isso quanto a virar um lobo. — É como se ele tivesse deixado um pedaço de si dentro de mim. — Santano Enrique era um verdadeiro sociopata. Ele não sentia nada. Sua risada soou irregular a seus próprios ouvidos. — Se você tivesse visto o que eu vi nunca diria isso. Ele pode ter sido frio, mas gostava do que fazia. E ele me contagiou. — Enrique não tinha essa habilidade. Transferir vírus mental é uma habilidade rara. — Ele se desencostou da porta e caminhou até ela. — Sascha não encontrou nenhum vestígio disso em sua mente e ela saberia, já que sua mãe é a melhor transmissora viral na Net. — Ele fez alguma coisa! — Ela insistiu. — Esses pensamentos, esses sentimentos, eles não são meus. — Eles não podiam ser. Não se ela quisesse permanecer sã. — Você não deveria estar vendo nada. — Ele disse, tão perto que ela podia sentir o calor do seu corpo. Alarme e necessidade misturados em uma confusão crua. — Seu cérebro funciona de forma completamente diferente do cérebro de um Psy.
  34. 34. 34 Ela foi passar a mão pelo cabelo e parou. Sua cabeleira até a cintura tinha ido embora, outra coisa que Enrique lhe roubou. — Você acha que ele mudou isso? Os músculos de Judd ondularam quando ele descruzou os braços. — Esta parece ser a conclusão lógica. Se você me deixar esquadrinhar sua mente... — Não. Ele inclinou a cabeça em um pequeno aceno. — Tudo bem. Mas isso torna muito mais difícil de diagnosticar o problema. — Eu sei. Mas não. — Ninguém nunca mais rastejaria em sua mente. Para a maioria das vítimas esse era o último espaço inviolável. Para ela, esse era o pedaço seu que tinha sido brutalizado uma vez e em que nunca confiaria novamente. — Você tem alguma ideia do que poderia ser? — Não. — Ele estendeu a mão para tocá-la no pescoço. — Como você conseguiu essa contusão? Pega completamente desprevenida, ela encontrou-se colocando a mão sobre a dele. — Uma contusão? Talvez quando eu estava treinando com Lucy. — Brenna podia não ser um soldado, mas precisava ser capaz de proteger-se... Agora mais do que nunca. Porque a verdade que ninguém sabia, o segredo que tinha escondido com sucesso desde o resgate era que Enrique não tinha simplesmente danificado sua mente. Ele a destruiu em um nível muito mais fundamental, um que ameaçava destruir sua própria identidade. — Você pode descobrir mais sobre os meus sonhos? Sua mão era grande sob a dela, seus dedos longos. Ela estava perfeitamente consciente de cada milímetro do contato pele a pele. O toque podia ser uma segunda natureza para sua raça, mas changelings predadores não deixavam qualquer um tocá-los. Só o clã, companheiros e amantes tinham privilégios de toque. Judd não se ajustava a nenhum desses critérios. No entanto, ela não o empurrou longe. — Eu vou fazer alguma pesquisa. — Ele retirou a mão, a aspereza da sua palma um choque inesperado. — Mas você tem que aceitar que nenhuma resposta virá rápido. Você é algo ímpar; a única que sobreviveu aos experimentos de Enrique.
  35. 35. 35 Ele observou Brenna Kincaid deixar o quarto de Judd Lauren das sombras. Era tudo o que podia fazer para não saltar e sufocar a vida dela ali mesmo. A cadela deveria ter morrido meses atrás, mas ela arranhou seu caminho de volta à vida. E agora ela se lembrou de algo. Por que outra razão ela teria feito aquela cena ao ver o corpo? As palavras que saíram de sua boca eram baixas e viciosas. Ele tinha estado quase em pânico nos dias após o seu resgate, mas, felizmente, sua memória tinha ficado cheia de buracos. Se esses buracos fossem preenchidos ele estaria em apuros. O tipo de apuro que poderia levar a uma execução; especialmente se ela tivesse a porra do Psy ao seu lado. Ele deveria ter traído a família Lauren na primeira chance que apareceu, mas esperou demasiado tempo para usar as informações, e agora sua cobiça havia voltado para assombrá-lo. Não fazia diferença. Ele não tinha a intenção de ser caçado como um cão raivoso. Ele olhou para o injetor em sua mão, o mesmo que havia enfraquecido Tim e feito dele uma presa fácil. Podia ser usado em Brenna também. A puta com olhos de louca não iria atrapalhar sua vida. Judd manteve os olhos em Brenna até que ela chegou ao final do longo corredor e virou a esquina para se juntar ao constante fluxo de pessoas do outro lado. Sua mente militar treinada captou alguma coisa no ar um segundo depois que ele abriu a porta, mas Judd não pôde encontrar nenhuma razão para a bandeira de advertência. Ainda assim ele não se mexeu até que ela estava segura. Em seguida, fechando a porta, ele olhou para sua mão, abrindo e fechando-a em um esforço para perder a marca do calor que o queimou no segundo em que tocou Brenna. Tinha sido uma ação totalmente irracional não solicitada pelo pensamento consciente, mas por algum instinto
  36. 36. 36 enterrado que tinha substituído momentaneamente seu condicionamento quando ele percebeu a contusão estragando sua pele. Seu telefone tocou, lembrando-o que tinha um trabalho a ser concluído. Ele não podia se dar ao luxo de ser distraído de suas metas por uma changeling que contava com ele para vencer seus pesadelos. Como se ele fosse... bom. O que Brenna diria se dissesse a ela que ele era o pesadelo? Seu telefone tocou pela segunda vez. Pegando-o, ele desligou o alarme e foi lavar o suor que revestia seu corpo. A sensação tátil da suave pele feminina continuou agarrada a sua mão, mas ele sabia que isso desapareceria em breve; o odor da morte tinha uma maneira de imergir tudo em um arrepiante gelo. E, Judd pensou enquanto pegava o equipamento de vigilância que iria necessitar esta noite, ele era muito bom em causar morte, tinha sido desde os dez anos de idade. Hoje era um trabalho de monitoramento simples, mas faltavam apenas alguns dias até o golpe. As bombas estavam quase prontas. Tudo o que ele precisava agora era de uma janela de tempo, de uma oportunidade. Então o sangue se espalharia através de sua pele mais uma vez, uma flor escarlate que contava a verdadeira história de quem ele era.
  37. 37. 37 Cinco Na rica noite aveludada da PsyNet a porta de uma caixa-forte impenetrável se fechou. Uma vasta rede mental que conectava milhões de Psys do mundo todo, a Net alojava seus conhecimentos coletivos e era atualizada trilhões de vezes por dia com os dados que os Psys enviavam. Isso permitia também que os de sua raça pudessem se encontrar a qualquer momento, não importando sua localização física. Hoje à noite, sete mentes resplandeceram em brilho no escuro núcleo da rede, cada uma assemelhando-se a uma estrela branca tão fria que ameaçava cortar. O Conselho Psy estava em sessão. Kaleb foi o primeiro a falar. — O que você estava pensando? — A pergunta foi dirigida as mentes perigosamente poderosas de Henry e Shoshanna Scott, cônjuges e companheiros de Conselho. — O Grupo Liu não achou graça ao descobrir que seus arquivos de família tinham sido hackeados e vários arquivos dos membros marcados com a etiqueta de ‘em risco’. — Todos sabiam que o rótulo de risco era um passo para uma sentença de reabilitação plena. — Somos o Conselho. — Shoshanna falou por ambos os Scotts, algo que ela parecia estar fazendo cada vez mais. — Nós não temos de explicar nossas ações para a população. Tatiana Rika-Smythe entrou na conversa. — Eu suponho que você tem como alvo outros grupos familiares também. Qual foi o seu propósito em colocar as etiquetas? — Acompanhar aqueles que podem ser suscetíveis a quebrar o Silêncio.
  38. 38. 38 — Reabilitação cuida desse problema. — A voz de Tatiana mantinha um tom de finalidade. — Se esse é o caso, então explique Sascha Duncan e Faith NightStar para mim. — Shoshanna disse, referindo-se às duas desertoras recentes da Net. — Nikita? Sascha é sua filha depois de tudo. — Duas anomalias. — Kaleb muito deliberadamente apoiou Nikita. — Além disso, parece que você estava efetuando pesquisas não sancionadas muito antes de tais anomalias ocorrerem, então não existe nenhuma conexão lógica entre as duas. — Nós vimos essas anomalias se aproximando, enquanto que o resto de vocês não. — Shoshanna não desperdiçava nada do charme Psy que ela usava com a mídia. Calculadamente disse: — Você já ouviu os sussurros na Net? Eles estão falando abertamente de rebelião. — Ela está certa. — Tatiana disse, sua lealdade clara como sempre. — Eu sugiro deixá-los falar. Até certo ponto. — Kaleb dirigiu suas palavras a todo o Conselho. — Tentar abafar todas as dissidências é o que causou problemas no passado. Como a situação está nós podemos manter um olho sobre os agitadores... e cuidar de eventuais problemáticos antes que eles tenham chance de fazer qualquer dano real. — Seja como for, esse não é o assunto em questão. — Nikita apontou. — Proponho que as pesquisas dos Scotts sejam entregues ao Conselho. Se eles estavam agindo como Conselheiros, então as informações pertencem ao Conselho. Se eles estavam agindo por conta própria, eles não tinham autoridade e os dados devem ser aproveitados em qualquer caso. Kaleb ficou impressionado com a simples armadilha de Nikita, mas não disse nada em efeito. Shoshanna já estava no caminho para se tornar sua inimiga. Mas não foi isso que o manteve em silêncio; ele queria ver quem iria falar a favor dos Scotts, traindo uma possível aliança. — Eu estaria interessado em ver os dados. — Ming LeBon finalmente falou. Um mestre em combate mental, ele era um Conselheiro que ninguém nunca tinha visto, apenas seus soldados de elite. Kaleb foi incapaz de encontrar uma única imagem dele; Ming era uma verdadeira sombra. — Pode ser útil. — Disse Tatiana.
  39. 39. 39 — Coloque sobre a mesa e então decidiremos. — Marshall, o Conselheiro mais antigo e seu líder não-oficial; uma concessão ao fato dele ter sobrevivido mais tempo como Conselheiro. Havia três cuja lealdade não estava clara. Nikita e Shoshanna estavam claramente em lados opostos da linha, e Henry era de Shoshanna. — Infelizmente, isso é impossível. — O tom mental de Shoshanna permaneceu extremamente confiante. — Seria necessário entrar novamente em cada um dos arquivos-alvo. — Certamente você manteve um registro mestre? — Marshall articulou o que todos eles estavam pensando. — Claro que sim. No entanto, esse registro foi invadido dez horas atrás. Os dados foram alterados além da recuperação. — Você nos toma por idiotas reabilitados? — Nikita perguntou, sua voz psíquica uma navalha. — Nenhum hacker2 da Net é capaz de contornar a segurança de um Conselheiro. — Foi um vírus. — Shoshanna se recusou a recuar. — A prova está aqui. — Algo foi empurrado para dentro do “espaço escuro” dentro da caixa- forte; um arquivo de dados que vibrava com uma assinatura viral quebrada. Todos exceto Nikita recuaram. — É seguro. — Ela falou um segundo depois. — Não foi projetado para se espalhar através do espaço escuro. Mesmo se fosse, todos os vírus assim se dissipam em poucos centímetros no máximo. O espaço escuro é um ambiente inóspito. — Pelo que deveríamos ser gratos. Caso contrário os transmissores virais teriam corrompido a Net inteira até agora. — Disse Shoshanna em uma referência afrontosa aos rumores das habilidades de Nikita. Eles levaram tempo para examinar as provas de Shoshanna. Era convincente. O arquivo psíquico que ela apresentou deveria ter sido legível para suas mentes Psy, os fluxos de dados limpos e bem ordenados. Mas esses dados foram emaranhados em uma aglomeração gigante, distorcidos por partículas de luz que dissecavam e ainda destruíam enquanto eles observavam. 2 Hacker: (réker) (ingl) sm Inform Pessoa viciada em computadores, com conhecimentos de informática, que utiliza esse conhecimento para o benefício de pessoas que usam o sistema ou contra elas.
  40. 40. 40 — Alimenta-se de si mesmo. — Murmurou Marshall. — Um ciclo que constantemente se destrói. — Sem dúvida uma peça extraordinária de programação. — Tatiana aproximou-se mais. — Precisamos desse indivíduo trabalhando para nós. Eu gostaria de assumir a tarefa de rastrear o autor. — Vá em frente. — Shoshanna disse, empurrando o arquivo para Tatiana. — É improvável que você tenha muito sucesso. O hacker não deixou qualquer assinatura útil. — O vírus é a assinatura. — Nikita apontou. — A menos que ele tenha sido inteligente o suficiente para mascará-lo. Isso poderia se encaixar no padrão dos distúrbios atribuídos ao Fantasma. — Ela nomeou o sabotador que havia se tornado um espinho perigoso para o Conselho. — Possível. — Disse Kaleb. — Mas há outra opção; talvez a família Liu tenha decidido tomar o assunto em suas próprias mãos depois de tudo. — Quem quer que tenha sido, — Disse Nikita. — qual a quantidade de dados que eles removeram? — Nenhuma. Eles inseriram o vírus e foram embora. Nada foi removido. — Você está certa disso? — Nikita insistiu. — Absolutamente. — Henry falou pela primeira vez. — Eu suponho que você está ciente de que tem que parar. — Marshall disse. — Com os murmúrios sobre o Caso NightStar ainda se espalhando nós não podemos correr o risco de alienar ainda mais os grupos familiares mais poderosos. — Concordo. — Shoshanna obviamente sabia quando parar e recuar. — No entanto, enquanto a maioria dos detalhes foi destruída, nós criamos uma lista de dez indivíduos, salvos na memória. Pretendemos continuar a acompanhá-los... com a permissão do Conselho. — Não vejo nenhum problema com isso, enquanto você seja discreta. — Tatiana respondeu. — Concordo. Há mais uma questão que ainda gostaria de discutir. — Shoshanna criou outro arquivo, este bastante pobre em termos de dados. — Brenna Shane Kincaid.
  41. 41. 41 Kaleb recordou o nome imediatamente. — A última vítima de Santano Enrique? Qual é o seu interesse por ela? — Eu suponho que todos vocês já leram o relatório mais recente sobre o que fomos capazes de decifrar das notas de Enrique? — Shoshanna esperou até que todos tivessem confirmado sua suposição. — Então vocês sabem que parece que ele poderia ter conseguido coisas extraordinárias com a sua mente. Nós precisamos examiná-la. — Você sabe tão bem quanto eu — Nikita interrompeu. — que qualquer tentativa de remover Brenna Kincaid equivaleria a uma declaração de guerra contra os SnowDancers. — Não quer mais bagunça em seu quintal, Nikita? — A questão de Shoshanna era válida; ambos os renegados recentes vieram da região onde Nikita morava. A mente de Nikita permaneceu imperturbável. — Não quando a bagunça resulta dos erros de outros Conselheiros. — Uma resposta fria que lembrou a todos da tentativa abortada dos Scotts de capturar Faith NightStar. — A menina está muito bem protegida para ser um alvo viável. — Nikita está certa. — Disse Ming inesperadamente. — Além disso, enquanto Brenna Kincaid é interessante do ponto de vista científico, tenho certeza que nenhum de nós pretende duplicar o processo. — Não. — Tatiana disse. — Os animais devem permanecer animais. Em qualquer caso, pode ser que as alterações que Enrique fez decidam essa questão para nós. — Como assim? — Marshall perguntou. — Nós não podemos dar a chance dos changelings descobrirem e tentarem utilizar o processo em si mesmos. — Seus cérebros não são constituídos para aquilo que Enrique tentou fazer. — Explicou Tatiana. — Podem simplesmente implodir como resultado da pressão interna. — E, — Ming lembrou-lhes — nós já temos um plano em movimento para cuidar do problema changeling. Sugiro esperar que ele dê frutos. Mesmo se o cérebro de Brenna Kincaid sobreviver de alguma forma a pressão, ela estará morta em breve; assim com o resto de seu clã.
  42. 42. 42 Seis Não foi até a manhã do quinto dia após o assassinato que Judd viu Brenna novamente. Ele estava indo falar com Hawke quando ela passou por ele na direção oposta, destruindo a sua decisão de mantê-la à distância; Brenna podia parecer suave e inofensiva, mas ela tinha uma maneira imprevisível e desleal de transformar o seu comportamento. Como agora. Segurá-la por seu braço foi reflexo. Continuar a segurar depois foi um pequeno desvio, mas significativo a partir do Protocolo. E ele não se importava. — Onde estão... — Ele parou no meio da frase quando ela levantou o rosto. Seu rosto estava cansado, com os olhos quase afundados. — Fale para mim. — Uma ordem. Onde normalmente ela teria usado suas garras afiadas sobre ele por ousar dar-lhe uma ordem, hoje ela lançou um olhar nervoso sobre o ombro antes de colocar as mãos em punhos sobre seu peito. — Eu estava procurando por você. — Ela sussurrou enquanto ele ainda tentava assimilar o impacto do seu toque. — Drew e Riley não me deixaram sair de casa nenhuma vez depois que voltei da nossa conversa. Alguém nos viu juntos. Eu só saí agora por pura sorte. Judd sentiu gelo se alastrar por suas veias, mas era um frio que queimava. — Vou conversar com eles. — Ninguém iria trancafiar Brenna novamente. — Apenas me leve para fora, longe o suficiente para que eles não possam acompanhar o meu cheiro. — Um apelo irregular. — Por favor, me tire daqui antes que eu perca minha mente.
  43. 43. 43 — Siga-me. — Liberando seu agarre sobre ela, ele virou-se para levá- la para fora. Uma mão feminina curvou-se em seu braço esquerdo sobre o couro sintético da sua jaqueta. Se tivesse sido qualquer outra mulher ele teria quebrado o contato e garantido que ele não se repetiria. Mas esta não era qualquer mulher. — A que distância? — Ele perguntou, porque ela tinha se tornado quase agorafóbica3 desde o sequestro; embora ela tenha, por vezes, se arriscado a sair a uma pequena distância da toca, ela tinha parado de frequentar a faculdade e nunca mais foi correr com seus companheiros de clã. — Longe. — Sua voz era firme, mas sua mão um torno em seu braço. Ele a levou através de vários túneis para uma saída que ele sabia ser mantida menos bem guardada do que outras, porque ela se abria diretamente para um jardim na Zona Branca. Essa zona era a seção mais próxima do perímetro interno e era considerada suficientemente segura para que os filhotes brincassem sozinhos. — Espere aqui enquanto vou verificar a área. Demorou alguns segundos para que ela o deixasse ir. — Me desculpe, eu só... — Se quisesse um pedido de desculpas eu teria pedido por ele. Sua boca fechou-se. — Onde você aprendeu o seu charme, em ‘arquipélago gulag4’? — Algo como isso. — Ele saiu para encontrar o jardim vazio. Os filhotes provavelmente foram levados para dentro quando o céu ficou pesado com a promessa de mais neve. Acabando o exame visual, ele fez um telepático para confirmar suas descobertas. — Está tudo limpo. Brenna surgiu a partir da porta com uma expressão confiante, mas no segundo em que o ar livre bateu nela sua respiração passou de tranquila para vacilante. Ele podia sentir o medo dela como se fosse uma onda física quebrando-se várias vezes em seu corpo. Voltando, ele pegou a mão dela. Changelings gostavam de tocar. Isso os centrava tanto como fazia o contrário para sua raça. 3 Agorafobia: É o medo de se estar em espaços abertos ou no meio de uma multidão. 4 Arquipélago Gulag (em russo Архипелаг ГУЛАГ): Livro sobre como funcionavam os gulags (campos de concentração e de trabalho forçado na antiga União Soviética) nos tempos de Josef Stálin.
  44. 44. 44 — Fique comigo. — Recusando-se a questionar o porquê dele ter feito algo tão estranho à sua natureza, ele a puxou pelo jardim e em direção a um caminho estreito. — Mais longe? — Sim. — Sua voz rouca assumiu uma borda dura. — Eu estou cansada de ter medo. Ele não vai ganhar. — Você é muito forte para que isso alguma vez seja uma possibilidade. — Depois de saber o que Enrique tinha feito para ela, Judd esperava que a mente de Brenna ficasse completamente abalada e torcida com a loucura. Mas ela não só tinha sobrevivido, ela estava sã. Sua mão apertou a dele. — Judd... Algo roçou a borda do scanner telepático que ele estava fazendo. — Silêncio. — Ele estava consciente dos olhos de Brenna sobre ele, de como ela estava perto o suficiente para que o calor do seu corpo chegasse até ele mesmo através do isolamento reforçado de sua jaqueta. Enterrando esse conhecimento em um canto escuro de sua mente, ele reorientou a verificação. Havia dois soldados caminhando em sua direção, provavelmente voltando de uma ronda no perímetro exterior. Eles não iriam parar, mas ele não tinha a intenção de ter seu paradeiro rastreado. Foi por isso que ele aprendeu várias formas discretas de garantir que suas frequentes viagens dentro e fora do território SnowDancer nunca fossem registradas. No entanto, se vissem Brenna, eles certamente tentariam segurá-la até receberem instruções de Andrew ou Riley. — Você pode enevoar suas mentes? — Brenna perguntou em um sussurro baixo, pressionando-se ainda mais perto de seu corpo. — Fazê-los olhar para o outro lado? — As mentes changelings são mais difíceis de influenciar para nós do que a humana. — Um Psy forte poderia matar um changeling com uma explosão de energia pura, mas manipulá-los era uma proposta diferente. — Talvez exista outra opção. Ampliando seus sentidos novamente, ele encontrou seis mentes sem blindagem. Tomar o controle foi fácil; os jovens ursos negros não tinham muita defesa, especialmente estes em profunda hibernação. — Você pode ficar aqui sozinha por alguns minutos?
  45. 45. 45 A sua pele se esticou sobre as maçãs do rosto quando ela acenou a cabeça. — Vá. — Tirando sua mão com relutância notável, ela virou-se e moveu-se para trás de uma árvore. — Não vou demorar muito. — Ele podia ver o quão perto ela estava de entrar em pânico, mas para seu crédito ela apenas acenou a cabeça quando ele deu a ordem seguinte. — Quando você ouvir os guardas começarem a se mover corra para o sudeste. Sem hesitação. Ele se dirigiu para os dois homens, certificando-se de que estava fora da linha de visão de Brenna antes de ofuscar a si mesmo. Nem mesmo outros homens de sua unidade altamente especializada de Arrows possuíam essa habilidade. A maior parte da habilidade de ofuscar, ou “enevoar” como Brenna tinha colocado, funcionava no plano mental, com o Psy lançando uma interferência telepática na mente do espectador. Judd era diferente. Ele podia alterar sua própria forma física. A habilidade era telecinética e não telepática. Porque Judd não era simplesmente um telepata forte, nem era Tp sua habilidade principal como a maioria das pessoas acreditava; como ele tinha trabalhado muito para que as pessoas acreditassem. O que Brenna diria se percebesse que ele era um telecinético extremamente poderoso; um Tc, a mesma designação do assassino que a torturou naquele aposento encharcado de sangue? Era uma pergunta para qual nunca teria resposta, pois ele não tinha nenhuma intenção de dizer para Brenna o que realmente era. Mudando as suas células para que ficassem uma fração mais em sincronia com o mundo exterior, ele moveu-se ao redor dos outros dois homens; quando ele se ofuscava os changelings não podiam vê-lo, exceto como uma sombra nas bordas de sua visão. Mais importante, eles não podiam farejá-lo, um fato que sustentava a sua teoria pessoal de como sua capacidade funcionava. Um minuto depois ele enviou os ursos derrubando a floresta do lado direito, a favor do vento e dos soldados. As criaturas faziam barulho suficiente para distraí-los e os fazerem mudar de direção. Fazendo suas moléculas voltarem em sincronia, Judd deliberadamente cruzou com os homens; como se ele estivesse em seu caminho de volta para a toca. — Ouviu alguém passando por você? — Elias parou, enquanto o seu parceiro, Dieter, continuou. — Não.
  46. 46. 46 Assentindo, Elias foi atrás de Dieter. Judd aproveitou a oportunidade para criar uma pista falsa por todo o caminho de volta para a toca. Então, tomando um tempo para esconder a trilha de Brenna e a sua própria, dirigiu-se para sudeste. Ele usou mais alguma telecinese no ar enquanto corria, se ofuscando e dispersando seus odores para que não pudessem ser rastreados de uma forma ou de outra. Brenna era rápida. Quando ele a encontrou, ela estava bem fora da Zona Branca, no núcleo central do perímetro interno; considerado seguro para adultos, mas não para crianças. Havia sentinelas nesta seção também, mas eles estavam parados a certa distância, na fronteira onde o perímetro interno dava lugar ao exterior. Ao redor de Judd e Brenna a floresta estava silenciosa, o som abafado pelo espesso manto de neve. As árvores eram azuis até ali no declive da Sierra, com pingentes pendurados nos ramos como lâminas transparentes. — Cuidado. — Ele moveu-se para cobri-la quando ela passou sob um ponto particularmente letal. — O quê? — Ela olhou para cima e para trás, então estremeceu, deslocando-se para se inclinar de lado contra seu tórax. Ele congelou, tão imóvel quanto às árvores. Sua reação não escapou de sua observação. — Sinto muito, eu sei que você não gosta de ser tocado. Mas preciso disso agora. Ele tinha vindo a esperar sua franqueza. — Você não está vestida para este tempo. — Ela não usava casaco, apenas jeans e um pulôver gola alta rosa, embora seus pés estivessem calçados com botas sólidas. Ele deveria ter notado e corrigido a falta antes que saíssem da toca. — Sou changeling, não sinto frio. — Normalmente seria verdade, exceto que ela estava se escondendo debaixo de seu corpo, as mãos erguidas entre eles quando ela se virou ligeiramente. Uma coxa pressionada na sua. — E você? — Eu estou bem. — Ele realmente não sentia frio, mas no caso dele isso tinha a ver com sua telecinese. — Pegue isso. — Ele tirou sua jaqueta. Isso o deixou vestido um suéter de gola fina tão negro quanto seu jeans. — Eu disse que n-n-não sinto f-f-frio. — Seus lábios estão azuis. — Ele colocou o casaco sobre seus ombros. No mesmo instante ele estendeu seu escudo Tc para cobri-la, desviando o
  47. 47. 47 frio. O escudo foi criado através da reorganização das partículas do ar e poeira para formar uma fina, mas altamente impermeável parede invisível. Ela estremeceu e começou a empurrar os braços nas mangas. — Você ganhou. Isso está tão quente. Nadando em sua jaqueta, ela retornou a sua posição contra ele. Nenhum deles falou ou se moveu pelos próximos dez minutos. Brenna parecia satisfeita em simplesmente olhar para a propagação azul e branca da floresta ao seu redor, mas ele estava ciente de cada respiração que ela dava, cada batida do seu coração, cada movimento de seu corpo macio e quente dentro de sua jaqueta. A força desse último pensamento acendeu um alerta em seu cérebro que ele preferiu ignorar. De repente, a luz ofuscante do sol refletiu na neve e em seus olhos. Ele olhou para cima e descobriu que as nuvens tinham se dissipado enquanto eles estavam ali em silêncio. — Lindo. — Suspirou Brenna, enganchando um braço no seu. — Mas ruim para os olhos. Venha. Há um lago por aqui. A área em torno dele é um pouco mais à sombra. — Brilhando no cabelo que estava para fora do boné, o sol era uma faca afiada que o fez questionar o que estava fazendo ali. Mas ele não parou de caminhar até que ela também o fez. — Lá, vê? — Olhando para a superfície coberta de neve do pequeno lago que durante os meses mais quentes ficava colorido com imagens refletidas de montanhas e árvores, Brenna de repente se sentiu mais livre do que tinha se sentido em meses. O medo que a prendeu dentro da toca foi esmagado sob a beleza atordoante do lugar que ela chamava de lar. Tudo o que ela precisou foi de alguém para andar com ela até ali. Sorrindo, ela olhou para o anjo negro ao seu lado. Vestido de preto, com esse cabelo e esses olhos, não havia outra maneira de descrevê-lo. — Obrigada. Seus lábios tinham um formato bonito, cheios o suficiente para tentar, mas com uma borda dura que a fez torcer o estômago. Então ele falou e foi um lembrete brutal de que ele não era simplesmente um homem forte e sexy. Ele era Psy. — Não me agradeça. Fui incapaz de encontrar para você qualquer resposta concreta em relação a seus sonhos precognitivos5. Você 5 Sonhos precognitivos: Habilidade de ver o futuro através de sonhos.
  48. 48. 48 precisa conversar com alguém mais experiente; os sonhos podem ser um sinal de degradação mental. Ela retirou o braço do dele e enfiou as mãos nos bolsos de sua jaqueta. O cheiro dele, poderoso e intrinsecamente masculino, era inebriante para os seus sentidos changeling, mas ela não queria mais ser rodeada por ele. — Você acha que eu estou perdendo minha mente? — Este era o seu medo secreto, o monstro embaixo da cama, o calafrio em sua espinha. — Psys não dançam em torno dos fatos. Eu quis dizer exatamente o que disse. Deus, ele soou arrogante. — Isto é o cúmulo do absurdo. — Ela fez uma careta. — O seu Conselho fez de dançar em torno da verdade uma arte. Olhos escuros com a neve refletida em suas profundezas se viraram para ela. — Eles não são meu Conselho e eu não sou seu fantoche. — Gelo suficiente para esfolar fora sua pele. Ela estremeceu. — A degradação mental? Se isso não significa loucura... — Enrique pode ter danificado as partes orgânicas do seu tecido cerebral durante a execução de suas experiências psíquicas, causando lesões ou contusões. — Olhou-a com o olhar fixo de um predador, como se avaliando sua força. — Ele era um Tc e o uso de poderes telecinéticos quase sempre tem um efeito físico. As autópsias de suas outras vítimas revelaram que elas sofreram lesões cerebrais graves. Retratos. O açougueiro havia lhe mostrado fotos das outras. — Eu me lembro. — No entanto, a probabilidade de tal dano é mínima. Sascha e Lara fizeram questão de reparar todos os rasgos orgânicos antes de começarem a cura em qualquer outro nível. Brenna mordeu o lábio inferior e tomou uma respiração profunda e trêmula. — Sascha disse que essa parte deveria ter levado mais tempo, mas que eu estava tão determinada a ter minha mente de volta que foi como se eu quisesse que minhas partes quebradas se curassem. — Quase como se ela fosse Psy. — Talvez eu a apressei.
  49. 49. 49 — Eu liguei para ela depois que nós conversamos. — Ele disse, continuando a olhá-la com o olhar de um caçador. — Você a apressou, mas não na cura física. Ela queria bater-lhe por sua presunção, apesar do fato de que ela pediu por sua ajuda. — Nada disso muda o fato de que Sascha não tem experiência nesse tipo de coisa. — E a empática, que tinha a capacidade de sentir e curar a mais escura das feridas emocionais, já a tinha visto quebrada e sangrando muitas vezes. Não importa sua bondade, Sascha fazia Brenna se lembrar de coisas que preferiria esquecer. — Não. Mas Faith tem. — Judd cruzou os braços. — Você precisa falar com alguém. — Eu estou falando com você. — Ora, ela não conseguia se explicar racionalmente. Ele era frio e impiedoso, tinha todo o encanto de um lobo selvagem. — Vou arrumar um encontro com Faith. Ela rangeu os dentes. — Vou fazer isso. Vaughn não gosta de você, caso não tenha notado. — Ela tinha conhecido tanto Faith quanto seu companheiro Vaughn quando a vidente foi até a toca para aceitar um presente feito para ela pelas crianças da creche, crianças essas que estavam vivas por causa de uma visão que Faith teve. Sem o seu aviso eles teriam perdido vários filhotes. — Não é que você não seja amigável. — Isso é irrelevante. — Afastando-se, ele olhou para a paisagem congelada. — A emoção não é um dos meus pontos fracos. Faith tinha acabado de terminar uma conversa curta, porém perturbadora com Brenna Kincaid quando Anthony Kyriakus, chefe do Grupo NightStar e seu pai, entrou na sala de reuniões. Colocando o telefone no bolso ela se inclinou para Vaughn esperando Anthony falar. — Há um Fantasma na Net. — Ele circulou para ficar do outro lado da mesa.
  50. 50. 50 Não era o que ela queria ouvir, a criança dentro dela ainda com fome de coisas que ela sabia que Anthony poderia jamais ser capaz de lhe dar. Machucava como uma dor incômoda em seu corpo. Então Vaughn fechou uma mão sobre a sua nuca e a tristeza passou; ela era amada, querida, adorada. — Um fantasma? — Ela sentou-se e os homens a seguiram. — Ninguém sabe a identidade desse indivíduo, mas ele ou ela está sendo apontado como causador de uma série de atividades insurgentes. — Anthony passou-lhe um disco com os nomes das empresas que solicitaram uma previsão desde a última vez que eles se falaram; previsões que ela fornecia sob um acordo de subcontratação com o PsyClã NightStar. Ela colocou o disco de lado mais interessada neste Fantasma. — Ele é um de nós? — Se havia uma coisa que Faith e seu pai concordavam há algum tempo era que eles queriam o seu povo libertado de um Silêncio que era uma farsa; Anthony podia ser friamente Psy, mas ele também era o líder de uma revolução silenciosa contra o Conselho. — Não há nenhuma maneira de saber. No entanto, é evidente que o Fantasma faz parte da superestrutura do Conselho, já que ele ou ela tem acesso a dados sigilosos, mas esse Fantasma ainda não atuou sobre nada acima de um certo nível. Isso pode ser porque essa pessoa não tem mais acesso, ou porque ele... — Está sendo muito cuidadoso para não fazer nada que possa estreitar o foco da investigação de sua identidade. — Faith completou. — Boa estratégia. — O jaguar ao seu lado finalmente falou, seu polegar acariciando sobre sua nuca. — O Conselho tem que estar chateado se esse rebelde está vazando dados sigilosos. — Sim. — Anthony se voltou para Faith. — O Fantasma estava ativo quando você ainda era parte da Net. Você se lembra da explosão nos Laboratórios Exogênesis? — O lugar onde eles estavam teorizando sobre os implantes que poderiam diminuir o percentual de defeituosos? — Ela cuspiu a última palavra. Esse era o rótulo que o Conselho usava para descrever aqueles que se recusassem a se vergar sob o regime antiemoção do Protocolo de Silêncio. — Eles querem cortar cérebros em desenvolvimento e iniciar o Silencio em um nível orgânico.
  51. 51. 51 Anthony não reagiu à sua emotividade aberta. — A explosão no Exogênesis matou dois dos cientistas à frente da equipe de implantes e destruiu meses de trabalho. — O Fantasma não tem medo de matar. Faith não ouviu nenhum julgamento no tom de Vaughn; seu felino tinha matado para proteger inocentes. E as crianças, as primeiras vítimas se o processo de implantação fosse posto em prática, eram os mais inocentes de todos.
  52. 52. 52 Sete — Parece que não. A explosão foi investigada tanto pelos Executores quanto pelo Conselho, mas sem o apoio ativo da maioria da população. — Por quê? — Vaughn perguntou, o calor de seu corpo tão sedutor que ela se encontrou inclinando-se cada vez mais para perto dele, sua mão sobre o músculo rígido de sua coxa. — Esse implante não faria os Psys ainda mais eficientes? Anthony balançou a cabeça. — Em um sentido. Mas os dissidentes afirmam que ao Protocolo I assegurar o cumprimento universal do Silêncio, ele teria também o efeito colateral inevitável de vincular nossas mentes juntas. Não como a PsyNet faz, mas em um nível biológico. Protocolo I? Que isto já tinha um nome oficial era um mau sinal. — Eles estão falando de uma verdadeira colmeia de mentes. — Faith não podia controlar o desgosto que atou suas palavras. — Sim. Não é nada apelativo para aqueles de nós que preferem executar nossas empresas sem interferência externa. Isso seria impossível se a raça inteira começasse a agir como uma entidade. — Ele pegou seu organizador; o tablet fino onipresente entre os Psys. — A partir do padrão de ataques parece que o Fantasma compartilha nossas metas, mas sem saber sua identidade nós não podemos coordenar nossos esforços. Vaughn se inclinou para frente. — Quanto mais pessoas conhecerem seu nome, maior a chance de exposição. Eu digo, deixe o Fantasma fazer seu trabalho, e surfamos a onda que ele provoca.
  53. 53. 53 — Sua conclusão é o espelho da minha. — Seu tom sinalizando o fim do tópico, Anthony procurou algo em seu organizador. — Blue Z tem estado à espera de sua nova previsão por um mês. Você pode movê-la para o topo da sua lista? Faith pegou seu próprio organizador. — Eu posso tentar. — Ela ainda não tinha descoberto o segredo para fazer previsões por ordem. Estava começando a parecer que o Conselho não tinha mentido sobre isso; talvez não houvesse forma de aproveitar o seu dom tão avançadamente. Anthony mudou para outro item da agenda. Meia hora depois eles concluíram e ela estava abraçando-o em um adeus. Ele não devolveu o gesto, mas tocou na parte inferior das suas costas uma vez. Só um ex-detento do Silêncio poderia ter entendido o incrível impacto desse ato. Ela tinha lágrimas nos olhos quando ele se afastou e saiu pela porta. Barker, um soldado DarkRiver, estava esperando para escoltá-lo para fora da sede financeira do clã. Localizado no centro de San Francisco, perto do caos organizado de Chinatown, o edifício era público e altamente seguro. — Vem cá, Ruiva. — Vaughn arrastou-a em seus braços, derretendo o nó em sua garganta com o áspero afeto que era sua marca registrada. Isso a assustou algumas vezes, a força do que ela sentia por ele. — Ele é importante. O Fantasma. — Ela tinha um conhecimento, não uma visão nem nada assim, mas uma dica de como as coisas poderiam ser. Foi quando a visão bateu nela. Uma verdadeira visão. Uma imagem de frações de segundos do futuro. Mas esta nada tinha a ver com o Fantasma. Tratava-se de Brenna. Morte. A SnowDancer estava cercada pela morte, com as mãos encharcadas de sangue. Sangue de quem? Faith não sabia, mas ela podia sentir o cheiro de carne crua, o desespero e o medo. Então a visão se foi; tão rápido que ela nem sequer foi deixada com uma pós-imagem em suas retinas, muito menos nada da desorientação que por vezes acompanhava os flashes de previsão. A visão não lhe deu nada de concreto, nada que ela pudesse compartilhar com Brenna, mas serviu para apoiar seus instintos sobre o que a outra mulher lhe dissera por telefone. Abraçando Vaughn, ela voltou ao tema em questão. — Você acha que eu deveria contatar a NetMind sobre o Fantasma? — A senciência que estava a vontade nas redes de mentes, a
  54. 54. 54 NetMind era a bibliotecária e, alguns acreditavam, a policial da PsyNet. Faith, porém, sabia que ela era muito mais. — Esse cara parece estar funcionando muito bem sozinho. Você tem certeza de que quer mexer com isso? — Eu deveria ter sabido que você adotaria o lado do lobo solitário. — Ela brincou, deliciando-se em ser capaz de fazê-lo. Ele resmungou e ela sentiu a vibração contra seu rosto. — Não me compare a essas malditas coisas selvagens. Inclinando o rosto, ela sorriu. — Malditos lobos. — Era uma maldição muitas vezes murmuradas por felinos DarkRiver. — Muito bem. — Ele a beijou. Forte. Rápido. Vaughn. — Vou aceitar seu conselho, eu não quero inadvertidamente desencadear algo na NetMind. — Embora a senciência em desenvolvimento fosse boa, ela não estava completamente livre do Conselho. — Você sabe, eu acho que o Fantasma vai ser importante para os DarkRiver também. Agora não. Mas um dia. — Uma visão? Ela balançou a cabeça. — Nem mesmo um conhecimento, realmente, mais uma... — As palavras não vieram. — Uma sensação. Um instinto. — Sim. — Não foi à toa que ela não tinha encontrado as palavras; admitir tal coisa teria conseguido que ela fosse medicada na PsyNet. — Ah, e, meu gato querido, nós estaremos indo ao território SnowDancer amanhã de manhã para uma reunião. — Com quem? — Ele segurou seu cabelo na mão, mas ela sabia que era um gesto de afeição. — Brenna Kincaid. — Ela decidiu não mencionar que Judd Lauren também estaria presente. Vaughn tinha uma reação decididamente negativa ao Psy alto, moreno e muito perigoso. Judd... não, ela não via nada sobre ele. De todas as pessoas que já conhecera, Judd era o mais opaco a seu dom de previsão. Tão escuro. Tão brutalmente sozinho.
  55. 55. 55 Vinte e quatro horas após ceder às exigências de Judd, ela ainda não tinha certeza sobre o encontro com Faith, mas Brenna sabia que já era tarde demais para voltar atrás. Eles se reuniram em uma pequena clareira a cerca de vinte minutos da toca. Apesar de seus receios sobre isso, Brenna teve que admitir que o par DarkRiver escolheu um belo local. A neve estava no solo macio e uma cachoeira congelada brilhava a poucos metros dali, o gelo vitrificado brilhando no sol da manhã quase dolorosamente. O cabelo vermelho escuro de Faith parecia estar em chamas contra todo aquele branco. Então não havia mais distância entre eles. — Obrigada por terem vindo. Faith sorriu, mas Judd falou antes que a P-Psy pudesse responder. — Você escolheu um lugar extremamente perto da toca. Por que não em algum lugar mais perto do seu clã? Brenna tinha pensado sobre isso também. Os felinos podiam ser seus aliados, mas os dois lados ainda não eram amigos. E os machos de espécies predadoras changelings eram notoriamente protetores de suas mulheres; companheiras, filhas e irmãs. Ela devia saber. Drew e Riley iriam levá-la à loucura. Ela tinha alcançado o ponto onde sabia que alguém tinha que ceder. Ela só esperava que todos sobrevivessem à explosão. Mas Faith parecia feliz com seu macho superprotetor. — Vaughn acha divertido passar por suas patrulhas sem ser detectado. Vaughn parecia arrependido. — Eles estão ficando desleixados. Mesmo com a Ruiva aqui eu não tive nenhuma dificuldade de entrar. — Ele sorriu quando sua companheira lhe deu um olhar de advertência. Brenna sentiu algo em seu estômago ante a fácil intimidade entre os dois, na visão do sorriso de um felino que ela nunca tinha visto sorrir. Isso era o que ela deveria estar procurando; um sensual e afetuoso macho changeling. Eles não se preocupavam em esconder suas emoções, tocavam tão facilmente quanto respiravam, riam com seus companheiros, mesmo que não com mais ninguém. O problema era que nestes dias apenas um homem parecia registrar- se em seus sentidos femininos, e ele era um Psy que não poderia dar-lhe nada do que Vaughn deu a Faith... Mesmo se ele estivesse interessado nisso.
  56. 56. 56 O que ele claramente não estava. Então, por que ela continuava indo até ele, esperando que ele lutasse com seus demônios para mantê-la segura? — Então, — Faith olhou para ela — vamos falar sobre seus sonhos. Eles eram pesadelos, não sonhos. — Você acha que nós poderíamos fazer isso sozinhas? Lampejos de luz iam e vinham dos olhos Cardeais de Faith; estrelas brancas contra o veludo negro. Sascha era Cardeal também, mas os olhos de Faith eram diferentes dos da outra mulher, mais silenciosos, menos abertos, tocados por um golpe de escuridão. Faith via o futuro e os olhos dela diziam que esse futuro nem sempre era algo bom. Olhando por cima do ombro para seu companheiro, Faith inclinou a cabeça em um gesto suave. Brenna era fascinada pela interação da mulher Psy com o felino que sempre lhe pareceu mais selvagem, mais animal do que a maioria. Talvez ela pudesse aprender algo com Faith sobre como lidar com um macho intratável. Virando-se, ela olhou para o perfil de um homem tão letalmente frio que ela deveria ter estado aterrorizada demais para se aproximar dele. — Por favor. Os cabelos de Judd levantaram-se com a leve brisa e ela teve que enrolar seus dedos para lutar contra a tentação de tocá-los. Porque, ao invés de ser esmagada sob o gelo de sua personalidade, seu fascínio por ele continuou a crescer. — Vou me certificar de que ninguém chegue até você. — Uma promessa tão absoluta que ela a sentiu em seus ossos. — Obrigada. Ele olhou para Vaughn. — Eu vou para o sul. — Eu ao norte. Com isso, os homens foram embora, sombras que se misturaram com as árvores quase em equilíbrio. Brenna esperou até que não pudesse mais ver Vaughn ou cheirá-lo, confiando que ele manteria o código de honra changeling e sairia do alcance da voz de uma conversação normal. — Eu não sei por onde começar. — Ela encontrou-se dizendo.
  57. 57. 57 — Você disse que está experimentando o que poderia ser chamado de visões. — Faith tinha uma voz tão clara, tão assustadoramente clara. — Diga-me o que você vê e quando isso começou. Respirando fundo, Brenna derramou toda a história sórdida, então perguntou: — Será que ele fez alguma coisa para minha mente? — Ela olhou a pureza da neve em um esforço para fazer-se sentir menos suja... Menos estuprada. A resposta de Faith foi dizer: — Caminhe comigo, Brenna. — Ela as levou em uma lenta caminhada para a margem da cachoeira. — Lindo, não é? Ela olhou para cima. — Sim. — Antes, ela teria sido a primeira a dizer isso, em ver o bom que havia ali fora. Um dia, ela prometeu ferozmente a si mesma, ela traria esta parte perdida sua de volta, a parte que acreditava na alegria. Abaixando-se, Faith pegou uma pedra lisa que tinha ficado encalhada na beira da cachoeira e rolou-a entre os dedos enquanto se levantava, seu rosto pensativo. — Eu nunca ouvi falar de uma situação em que um não-Psy fosse alterado para ter habilidades Psys. Mas isso soa como alguma espécie de visão. — Ela deixou cair a pedra de volta à terra e balançou a cabeça como se chegasse a uma decisão. — Eu preciso entrar em sua mente. — Não. — Uma resposta instintiva, não enfeitada por pensamentos civilizados. — Sinto muito, mas não. — Nunca se desculpe por se proteger. — Faith parecia furiosa. — Eu sei como é se sentir como se sua mente fosse o único lugar seguro. — Só que não é. Não mais. — Isso era o que ameaçava destruí-la. Como se lavar, se limpar, se o mal estava hospedado dentro dela, tornando- se cada vez mais uma parte dela a cada hora que passava? Ela acabou com esse despontar de autopiedade com força de vontade; era uma fraqueza que não podia se permitir. — Você ainda pode ajudar? — Eu posso tentar. — Empurrando as mãos nos bolsos do casaco, Faith soltou um suspiro. — Você acha que pode acessar a parte de sua mente de onde as visões estão vindo? — Eu não sei como. — A verdade era que ela não queria ir para aquele lugar torcido de sua alma.

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