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           Professor de
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Promover A Compreensão E Educação Em Toda A Europa - As Visitas De Estudo

  1. 1. REVISTA EUROPEIA Dimitris Mattheou Professor de Promover a compreensão Educação Comparada, Universidade de da educação em toda a Atenas A aprendizagem com os outros Europa. através de visitas de estudo e da observação directa possui uma As visitas de estudo e o contributo da longa tradição no domínio da edu- cação. A ideia de que a experiência educação comparada dos outros poderá contribuir pa- ra que evitemos determinados er- ros sempre foi reconfortante. Ac- tualmente, esta expectativa assu- Há mais de um século e meio, Marc Antoi- cas estrangeiras bem sucedidas, depois de me uma dimensão ainda mais ne Jullien de Paris, um intelectual e peda- cuidadosamente observadas e estudadas, alargada nos nossos esforços de gogo francês, um homem cosmopolita que poderiam ser transpostas e reproduzidas no construção de um futuro euro- travou amizade com grandes personalidades próprio país. Os Estados só teriam a bene- peu. Todavia, estes esforços nem como Napoleão, Jefferson, Pestalozzi e Hum- ficiar com este processo (2). sempre são bem sucedidos. Os bold, foi um dos primeiros a reconhecer o estabelecimentos de ensino são demasiado complexos e encon- contributo que a educação poderia dar pa- Porém, no final do século XIX, era perfei- tram-se demasiado interligados ra o bem-estar das pessoas e o progresso tamente claro que os recém-criados siste- com a sociedade para permitir das sociedades europeias. Jullien acredita- mas educativos nacionais possuíam carac- uma fácil e clara compreensão va firmemente que, se as nações mais atra- terísticas muito diferentes. Não obstante uma do seu funcionamento. sadas da Europa se familiarizassem com vasta apropriação dos sistemas educativos O presente artigo procede a uma os métodos pedagógicos aplicados, com êxi- estrangeiros, a harmonização estava longe análise crítica da natureza e das perspectivas dos programas de to, em outros países europeus, iriam bene- de ser alcançada, existindo diferenças ao visitas de estudo. Identifica as di- ficiar com o seu exemplo e poderiam pro- nível dos seus valores fundamentais, estru- ficuldades e os riscos das visitas gredir (Jullien, 1817). Com esse objectivo tura, organização, administração, etc. Talvez de estudo, analisando ainda as em mente, criou um questionário porme- ainda mais significativas fossem as diferen- condições necessárias para que norizado (1) para recolher informações de ças na imagem condicionada que os po- estas possam efectivamente contri- forma sistemática e recomendou a organi- vos da Europa tinham uns dos outros, um buir para uma correcta definição das políticas e para a resolução zação de visitas de estudo de funcionários facto que contribuiu para os confrontos san- de problemas no sector da edu- do sector da educação a outros países eu- grentos que devastaram por duas vezes, em cação. ropeus. De certa forma, foi o pioneiro de 30 anos, o velho continente, durante o sé- muitos dos actuais programas comunitários, culo XX. (1) A versão inglesa do questionário tais como o Arion. pode ser consultada na obra cita- da de Steward Fraser (1964). A versão Actualmente, a Europa é uma região pacífi- grega pode ser consultada na obra Embora o seu projecto não tivesse alcança- ca. Os antigos ódios deram lugar à coope- citada de D. Mattheou (2000). Ver do um grande sucesso, os funcionários do ração e ao compromisso. A concretização ainda Kalogiannaki, P. (2002). sector da educação seguiram algumas das da visão de uma Europa unida é um pro- (2) Horace Mann, por exemplo, num suas recomendações e viajaram para o es- cesso gradual, caracterizado, por vezes, por relatório apresentado, em 1844, à Direcção-Geral da Educação do Es- trangeiro, visitaram escolas e outras insti- alguns ressentimentos. Não obstante ser ain- tado de Massachusetts afirmou que, tuições, observaram e tomaram notas, re- da de jure da exclusiva responsabilidade de se tivessem o discernimento sufi- colheram dados e elaboraram relatórios des- cada país, a educação é novamente chamada ciente para aprender com a expe- riência dos outros, talvez pudessem tinados às respectivas autoridades nacionais. a desempenhar um papel fundamental, des- escapar às monumentais calamidades O seu objectivo consistia em identificar, nos ta vez não apenas na prossecução do inter- que afectavam outras comunidades, sistemas educativos estrangeiros, a melhor esse nacional, tal como aconteceu no pas- acrescentando que existiam mui- tas coisas boas no estrangeiro que solução para os seus problemas a nível da sado, mas também no desenvolvimento da deveriam ser imitadas. No seu re- educação. Era o tempo da construção de identidade europeia, através da promoção latório (1833), Victor Cousin reite- nações através da criação de sistemas edu- de uma compreensão mútua, da aprendi- rou esta ideia, declarando que a ver- dadeira grandeza do ser humano cativos nacionais (Green, 1990), uma era zagem com as experiências dos outros e, consistia em “pedir emprestado” tu- que os especialistas em educação compa- em geral, da eliminação de qualquer obstácu- do o que existia de bom no mun- rada designam normalmente por período da lo à integração europeia. Para este fim, as do, aperfeiçoar esse conhecimento e utilizá-lo em benefício próprio. “apropriação selectiva dos sistemas educa- autoridades europeias estão a fazer uma ten- Cousin salientava ainda que era tivos” (selective education borrowing [Noah tativa mais determinada, mais sistemática e possível assimilar tudo o que os ou- e Eckstein, 1969]), uma vez que se acredi- mais aberta para ajudar os especialistas no tros povos tinham de bom sem re- ceio de perder a identidade. tava firmemente que as instituições e práti- domínio da educação a compreender a es- Cedefop 6
  2. 2. REVISTA EUROPEIA sência do pensamento de outros povos, Três destes artigos merecem especial des- tal como é desenvolvido através da edu- taque, visto serem particularmente relevantes cação. Tendo em vista a prossecução des- para o objectivo do presente artigo. te objectivo claramente político, foram de- senvolvidos vários programas, entre os quais O primeiro artigo de fé da educação com- os programas de visitas de estudo reminis- parada descreve a educação como um “or- centes de algumas práticas do século XIX. ganismo vivo” (Sadler, 1964). Não é possível Para servirem da melhor forma esta nobre extrair selectivamente um dos seus elementos causa, os programas comunitários de visitas (uma instituição, por exemplo), transpô-lo de estudo, que constituem o tema do pre- para um contexto nacional diferente e es- sente artigo, devem aproveitar ao máximo perar que o mesmo se desenvolva e dê os a valiosa experiência e a ciência conven- mesmos frutos que daria no seu ambiente cional da educação comparada. Seguida- original. É o mesmo que tentar transplantar mente, são apresentados os principais ele- tamareiras de uma zona tórrida para uma mentos desta valiosa experiência e sugeri- região do Árctico ou plantar uma laranjei- das formas de transformar as visitas de es- ra com folhas e flores apanhadas no jardim tudo em instrumentos eficazes de com- de um vizinho. A desilusão dos consultores preensão mútua em toda a Europa. estrangeiros que tentaram transpor insti- tuições ocidentais para países do Terceiro A ciência convencional da Mundo na década de 1960 (Arnove, 1980) educação comparada ou dos reformadores que procuram ac- tualmente importar o managerialismo anglo- A educação comparada é uma daquelas dis- saxónico para os seus próprios sistemas edu- ciplinas académicas caracterizadas por um cativos (Cowen, 1996) atesta bem a veraci- percurso turbulento e cheio de vicissitudes dade desta afirmação. (Bray, 2003; Wilson, 2003; Cowen, 2000; Crossley, 2000; Mattheou, 2000; Holmes, O segundo artigo de fé refere que os fac- 1965; Hans, 1949). Esta disciplina foi criada tores exteriores à educação, isto é, os fac- como uma tentativa de expor e compreen- tores que integram um contexto social mais der as razões subjacentes às diferenças exis- vasto, são mais importantes do que os as- tentes entre os recém-criados sistemas edu- pectos intrínsecos do próprio sistema edu- cativos do século XIX, não obstante as si- cativo (Sadler, op. cit.), na medida em que gnificativas e duradouras influências trans- o desenvolvimento deste sistema depende nacionais neste campo. Inicialmente, a edu- essencialmente do contexto social. Os va- cação comparada pretendia, como parte do lores subjacentes à nossa educação são seu contributo para a nobre causa da ma- valores sociais; as preocupações e priori- nutenção da paz no período entre guerras, dades educativas são fundamentalmente confirmar a relação causal que alegadamente preocupações e prioridades sociais. Enquanto existia entre a sociedade e a educação. Nas indivíduos, fomos moldados pela socieda- primeiras décadas do período pós-guerra, de em que crescemos; somos um produto esta disciplina dedicou-se ao estudo de pro- do nosso tempo e das circunstâncias, pri- blemas relacionados com a democratização sioneiros de uma rede de conceitos e pre- do ensino e o seu desenvolvimento. Mais missas sociais que nós próprios não re- tarde, dando resposta às preocupações então conhecemos, como costumava afirmar um manifestadas, passou a lidar com questões conceituado especialista em educação com- contemporâneas, desde a globalização e a parada (King, 1976). sociedade do conhecimento à exclusão social e ao processo de aprendizagem, A preocupação com a igualdade de opor- questões que, hoje em dia, fazem parte da tunidades na educação tem expressão di- agenda da educação. Porém, mesmo reafir- recta no movimento para a igualdade social. mando a sua dedicação à causa da teoria O apelo à continuação das reformas na edu- pura, da explicação e da compreensão, a cação reflecte as actuais preocupações so- educação comparada nunca renunciou, em ciais com o aprofundamento e o reforço da nenhum destes momentos, às suas aspirações participação democrática dos cidadãos, es- políticas. Por conseguinte, o seu longo en- pecialmente nos países que, até há bem pou- volvimento com o processo de decisão no co tempo, se encontravam sob regimes domínio da educação proporcionou-lhe uma autocráticos. O respeito pela diferença nas vasta e valiosa experiência, que se encon- escolas traduz a aceitação generalizada do tra reunida numa série de “artigos de fé”. pluralismo cultural e da tolerância política Cedefop 7
  3. 3. REVISTA EUROPEIA e religiosa. Os esforços desenvolvidos para ideias, na prática, à organização e realização reforçar a relação entre a escola e o merca- de visitas de estudo. Para proporcionarmos do de trabalho confirmam a importância que uma resposta convincente, apesar de pro- a sociedade atribui ao papel desempenha- visória, a esta questão, devemos começar do pelas escolas na economia. por identificar os principais objectivos destes programas de visitas de estudo. Neste as- O último destes três artigos afirma que os pecto, o Arion constitui um bom exemplo. contextos sociais e, consequentemente, a Segundo a Comissão Europeia, os principais educação são diferentes. Sob a influência de objectivos das visitas de estudo são: “per- forças e factores distintos, evoluíram de for- mitir às pessoas com importantes respon- ma diferente ao longo da história, e as cir- sabilidades em matéria de educação ... re- cunstâncias actuais e as perspectivas futu- ver e alterar o seu trabalho à luz da expe- ras contemplam diferentes prioridades e riência directa de estruturas e reformas edu- agendas de acção política no domínio da cativas noutros Estados-Membros” e “au- educação. Comparemos, por exemplo, as mentar a quantidade de informação fidedi- sociedades irlandesa e francesa e o lugar gna, seleccionada e actualizada sobre os pro- que a religião ocupa no currículo escolar de gressos alcançados na Comunidade em ma- cada um destes países; ou as sociedades bri- téria de educação, disponível aos decisores tânica e grega e a autonomia administrativa políticos” (Comissão Europeia, 2003). das escolas inglesas com a total depen- dência administrativa das escolas gregas per- O Arion e outros programas de visitas de ante o Ministério da Educação; ou ainda estudo semelhantes, tal como o programa as sociedades sueca e alemã e a organização Leonardo da Vinci, possuem uma vertente global da primeira com o sistema multi- claramente reformista e melhorista. Os partidário da segunda. Se compararmos o decisores políticos, os administradores dos individualismo e o pragmatismo norte-ame- estabelecimentos de ensino e os educadores ricanos com o corporativismo e paternalis- que participam nestes programas devem ad- mo japonês que caracteriza o mundo dos quirir, em primeira mão, informações fide- negócios, descobriremos a sua relação com dignas que possam ser, e sejam efectiva- valores sociais e pedagógicos, nomeada- mente, utilizadas nos projectos de refor- mente com a ética protestante e o espírito ma e nas políticas de educação nacionais, pioneiro dos primeiros imigrantes dos EUA que poderão beneficiar com a experiência e com os valores familiares do respeito e da de outros países europeus. Trata-se de uma ajuda mútua predominantes na sociedade premissa e de uma abordagem à definição japonesa. Se pensarmos um pouco em to- de políticas por parte das autoridades eu- dos estes exemplos, compreenderemos ime- ropeias que faz lembrar as nobres intenções diatamente o papel desempenhado pela dos fundadores dos sistemas educativos na- história e pela tradição. Podemos ainda com- cionais, que, de facto, nunca deixaram de parar a cultura empresarial que foi introdu- ser considerados instrumentos políticos. Há zida nas universidades inglesas e neerlan- muitos anos que os políticos regressam a desas com a adopção do conceito de ensi- casa, após participarem em reuniões mi- no superior como um serviço público pelas nisteriais, impressionados com os bons re- universidades gregas e compreenderemos sultados obtidos por determinados países imediatamente que estas sociedades enca- no domínio da educação e dispostos a em- ram de formas muito distintas questões que barcar em mais um projecto de reforma. Es- permeiam o discurso político sobre o futu- te fenómeno é cada vez mais visível, dado ro, nomeadamente a globalização, a concor- que as referidas reuniões são cada vez mais rência internacional, a modernização, etc. formais, frequentes e multilaterais (Phillips, 1989; 2002). Será necessário recordarmos o A educação comparada e os entusiasmo manifestado pelos políticos so- programas de visitas de estudo ciais-democratas em relação à reforma glo- bal levada a cabo na Suécia durante a dé- Para os responsáveis pela política de edu- cada de 1960? Ou talvez a expectativa cria- cação, a questão mais importante não é, po- da em toda a Europa em relação à capaci- rém, a validade dos três artigos de fé su- dade do ensino técnico-profissional para pramencionados; provavelmente, até sub- aliviar a pressão sobre o sistema geral de screvem as ideias neles expressas. Para eles, ensino e fomentar o desenvolvimento a questão fundamental consiste em encon- económico? Devemos ainda recordar o im- trar uma forma de aplicar eficazmente essas pacto que as políticas inglesas de educação Cedefop 8
  4. 4. REVISTA EUROPEIA da década de 1980 tiveram sobre os políti- nunca poderão ser verdadeiramente objec- cos neoliberais europeus ou a actual ob- tivas. Tal não se deve tanto ao facto de as sessão com a aprendizagem ao longo da vi- coisas mais importantes na vida e na edu- da, a educação de adultos ou a garantia da cação, bem como as situações sociais em qualidade? Quantas vezes os tecnocratas, que as mesmas assumem o seu verdadeiro os administradores dos estabelecimentos de significado, serem demasiado complexas pa- ensino e os educadores de todas as áreas, ra se prestarem a qualquer tipo de obser- a nível local, nacional e internacional, in- vação alegadamente objectiva (King, op.cit: fluenciaram as comissões de decisão com 14), mas sobretudo ao facto de vermos aqui- o seu alegado conhecimento sobre os sis- lo que aprendemos a ver. Sempre que ob- temas educativos estrangeiros? Não faltam servamos algo, somos influenciados pela exemplos de uma mistura desconexa de nossa história, a nossa personalidade, as provas circunstanciais, informações desa- emoções que estamos a sentir naquele dequadas, interpretações ingénuas, gene- momento e a nossa bagagem intelectual ralizações não fundamentadas, desejos pes- (ibid: 15). soais e preconceitos. Todos os especialis- tas em estudos comparados que participa- Esta afirmação é igualmente verdadeira pa- ram em comissões de decisão estão em ra o leigo e para o especialista. Também es- condições de citar exemplos de propostas te, especialmente quando analisa um de- inviáveis, formuladas com base em várias terminado aspecto de um sistema educati- concepções desajustadas sobre a realidade vo estrangeiro, tem uma perspectiva dife- das instituições estrangeiras. Perante tudo rente, que varia consoante ele seja um in- isto, o que tem a educação comparada vestigador académico, um consultor das au- para oferecer? toridades estrangeiras responsáveis pelo sec- tor da educação, um participante numa vi- O primeiro conselho que a educação com- sita de estudo ou um parceiro num projec- parada tem para oferecer aos funcionários to de reforma. A experiência académica, que participam na organização das visitas bem como as prioridades e as competências de estudo foi já indirectamente menciona- no domínio da investigação, são igualmen- do. Ao salientar a natureza histórica/contex- te factores relevantes. tual dos estabelecimentos de ensino e as consequentes limitações à apropriação dos O facto de a nossa objectividade não ser ab- sistemas educativos estrangeiros, a educação soluta impõe-nos certos limites e obrigações. comparada alerta os decisores políticos Em primeiro lugar, devemos aceitar esta ideia nacionais para os perigos associados a uma e mantermo-nos constantemente atentos aos interpretação ingénua e superficial das su- limites das nossas observações. Em segun- gestões formuladas pela UE relativamente do lugar, devemos confirmar sistematica- às modificações da política nacional “à luz mente os nossos dados, comparando-os com da experiência directa de estruturas e re- outros dados fidedignos ou consultando ou- formas educativas noutros Estados-Mem- tras pessoas que estejam mais familiarizadas bros” (Comissão Europeia, op. cit.) como com o sistema educativo em causa e o seu apelos à adopção indiscriminada de práti- contexto social. Devemos procurar desen- cas de ensino estrangeiras. A educação com- volver as nossas capacidades de comparação, parada abre igualmente o caminho à crítica estudando métodos e técnicas aplicáveis nes- de todas as convenientes premissas e cer- te domínio. Por último, devemos manter tezas não fundamentadas que pautam fre- sempre um espírito aberto e uma atitude quentemente a actuação de várias comissões realista, moderada e circunspecta, estando de decisão. Desta forma, os decisores políti- preparados para testar todas as informações cos, potenciais participantes em visitas de e pontos de vista, bem como para reconsi- estudo, tomam consciência, desde o início, derar as nossas opiniões perante novos fac- da complexidade da sua tarefa. tos. Hoje em dia, talvez mais do que nun- ca, devemos estar preparados para sujeitar O segundo importante contributo da edu- ao teste da comparação e a uma análise críti- cação comparada consiste em chamar a ca todas as informações relativas a desen- atenção de todos os agentes envolvidos num volvimentos verificados em sistemas edu- programa de visitas de estudo para as difi- cativos estrangeiros e todas as recomen- culdades inerentes à sua tarefa. O primei- dações relevantes emitidas por organizações ro tem natureza epistemológica. Por mais internacionais, tendo em conta o nosso que nos esforcemos, as nossas observações contexto nacional. Cedefop 9
  5. 5. REVISTA EUROPEIA A segunda dificuldade é de natureza concep- mo, uniformidade estrutural, legalismo, etc., tual. Lembra-nos que todos os estudos váli- teria grandes dificuldades em compreender dos e fidedignos devem basear-se numa cla- o funcionamento de um sistema caracteri- ra compreensão dos conceitos, bem como zado pela diversidade estrutural, adminis- das premissas ideológicas que lhes estão trativa e curricular. Da mesma forma, um es- subjacentes, que moldam a nossa percepção tudante inglês teria semelhantes dificuldades do mundo e da educação, especialmente em compreender a natureza do ensino nas quando se trata do estudo de sistemas edu- escolas gregas - onde a organização, os cativos estrangeiros. A formulação de concei- conteúdos e os métodos pedagógicos são tos está intimamente associada a uma de- estabelecidos pelo Estado - se procurasse es- terminada sociedade, pelo que tem um ca- tudar esse sistema com base no conceito de riz cultural. Até mesmo no seio de uma úni- autonomia profissional vigente em Inglater- ca sociedade as pessoas atribuem significa- ra. Por conseguinte, se não enquadrarmos dos diferentes ao mesmo conceito. Este fac- os sistemas educativos estrangeiros no de- to é particularmente evidente quanto se tra- vido contexto conceptual, é quase certo que, ta de conceitos modernos, tais como glo- no final do nosso estudo, ficaremos com uma balização ou sociedade do conhecimento, ideia incorrecta dos mesmos; chegaremos aos quais os analistas académicos atribuem a conclusão erradas e, consequentemente, significados distintos. Por conseguinte, esta não teremos conseguido aproveitar em nos- situação exige uma prudência acrescida da so benefício a experiência dos outros. nossa parte quando nos é dito que temos de obedecer às normas impostas pelas for- O terceiro contributo da educação compa- ças inexoráveis da globalização, da concor- rada para o sucesso de um programa de vi- rência internacional ou da inovação tec- sitas de estudo está relacionado com o fac- nológica. Voltemos, porém, à vertente com- to de os sistemas educativos existirem e fun- parativa. Quando procuramos estudar um cionarem num contexto social constante- sistema educativo estrangeiro, devemos ter mente moldado pela tradição e pela visão plena consciência de que, nesse país, as pes- de um futuro melhor. Se este contexto não soas podem atribuir significados diferentes for compreendido e ponderado, o estudo a alguns dos nossos conceitos. O termo “es- nunca estará completo. Se nos limitarmos a tabelecimento de ensino público”, por exem- visitar estabelecimentos de ensino (normal- plo, tem um significado totalmente diferen- mente os melhores que existem no país te em Inglaterra e na Europa continental. Os de acolhimento), a participar em conferên- gastarbeiter (trabalhadores convidados) e o cias e a falar com os professores e os ad- seu sistema educativo são tipicamente alemães. ministradores desses estabelecimentos, nun- Os professores gregos só recentemente se ca poderemos ter a certeza de que possuímos familiarizaram com o conceito de currículo uma perspectiva abrangente do sistema, ou no seu sentido anglo-saxónico, mas muitos de parte dele, e da política que estamos in- deles ainda entendem o currículo - ou o pro- teressados em estudar. Mais importante ain- grama analítico, termo ainda utilizado pela da, não nos será possível identificar e ava- maioria deles - como uma lista dos capítu- liar as forças intangíveis que lhes estão sub- los dos manuais escolares que devem ser jacentes, nem explicar a sua função e a di- ensinados nas aulas. O mesmo se verifica nâmica de mudança no sistema educativo em relação ao conceito de autonomia pro- em causa. Porém, se não o fizermos, não fissional, que, segundo eles, está mais re- conseguiremos alcançar uma verdadeira com- lacionado com os limites da sua obrigação preensão, nem retirar lições úteis de uma de seguir as directivas emitidas a nível cen- visita de estudo. Esta afirmação pode ser tral do que com a sua plena participação nas ilustrada com alguns exemplos retirados do decisões tomadas ao nível do estabeleci- contexto grego. mento de ensino. Imaginemos que o tema de uma visita de De facto, todos os estudantes de educação estudo à Grécia é a dimensão europeia nas comparada sofreram inicialmente um choque escolas. É muito provável que, durante es- cultural ao tentarem abordar um sistema edu- sa visita, os participantes se deparem com cativo estrangeiro com a bagagem concep- professores dinâmicos, que trabalham com tual inerente ao seu próprio contexto cul- alunos extremamente motivados em vários tural. Um estudante grego, por exemplo, ape- projectos bem concebidos, nos quais são gado aos conceitos básicos de um sistema usadas diversas abordagens criativas. Toda- educativo centralizado, tais como centralis- via, estes casos de sucesso não serão par- Cedefop 10
  6. 6. REVISTA EUROPEIA ticularmente úteis como exemplos a seguir nuinamente útil, em detrimento do conhe- no âmbito da reforma a desenvolver nos cimento prático, e os professores aprende- seus respectivos países, a menos que os par- ram, ao longo do tempo, a respeitar esta ticipantes consigam ter em conta o contex- ideia no seu trabalho. Para conquistar um to social específico da situação que obser- lugar cativo no currículo escolar, a tecnolo- varam. A sociedade grega, considerada co- gia tem de ultrapassar obstáculos institu- mo um todo, tem revelado sempre uma ten- cionais e modificar também a cultura esco- dência para reforçar as suas ligações com a lar tradicional. Europa e a União Europeia, tanto a nível cultural como político. Os gregos sempre se Alguns membros dos círculos reformistas orgulharam de ter oferecido à Europa as fun- mais optimistas e empreendedores contes- dações da sua civilização e de serem, eles tam a importância atribuída ao papel de- mesmos, filhos do Iluminismo europeu. Pa- sempenhado pela tradição e pelas forças so- ralelamente, a adesão à União Europeia ciais e culturais. O seu argumento é o de foi sempre vista como uma protecção contra que, actualmente, a educação está basica- ameaças externas e a instabilidade política mente associada à aquisição de competên- interna. Sem este tipo de apoio político, a cias, à capacidade de adaptação e à flexibi- dimensão europeia na educação não teria, lidade num mundo caótico e globalizado, provavelmente, as mesmas oportunidades em constante evolução; está associada ao de sucesso. Consequentemente, se não com- individualismo e às preferências culturais, preenderem esta situação, os participantes ao vivere mais do que ao philosophare. Se- em visitas de estudo dedicadas à dimensão gundo esta argumentação, os Estados e os europeia nas escolas gregas não conseguirão indivíduos que preferem ignorar a realida- retirar as valiosas lições que procuram, nem de da globalização, da explosão tecnológi- aprender com as experiências dos outros. ca no domínio da informática e da biologia, do carácter multicultural das sociedades pós- Da mesma forma, será difícil apreciar ple- modernas e da relatividade cultural, do namente o sucesso das políticas relaciona- declínio do estado-nação e da queda do ilu- das com a educação de imigrantes e refu- minismo, e que, em geral, não tomam em giados na Grécia, bem como retirar lições consideração a omnipotência das forças in- úteis das mesmas, sem ter em consideração ternacionais e a inevitabilidade das mudan- o facto de quase metade da população gre- ças que estas implicam, acabarão provavel- ga ser descendente de refugiados gregos mente por ficar à margem da sociedade mun- que abandonaram a Ásia Menor em 1922 e dial e na retaguarda da história. Por conse- de os gregos partilharem, há muitas gerações, guinte, os educadores são constantemente as dificuldades dos emigrantes. pressionados para seguir a tendência geral e marginalizar todos aqueles que optam por Eis um último exemplo extremamente es- um caminho diferente. clarecedor. Não obstante se terem registado alguns progressos, o processo de introdução A resposta a estes argumentos tem duas ver- das TIC nos estabelecimentos de ensino gre- tentes. Em primeiro lugar, esta noção sobre gos ainda está longe dos seus objectivos. as forças internacionais e os respectivos co- Talvez alguns dos obstáculos e dificuldades rolários é, pura e simplesmente, incorrecta. se tornassem evidentes durante uma visita O Estado mantém o seu poder e continua a de estudo, provavelmente aqueles relacio- ser o único quadro de referência para a le- nados com a inércia administrativa do Esta- gitimação política de forças supranacionais do, as deficiências na formação inicial e (Mattheou, 2001), não obstante ter cedido contínua dos professores ou a falta de infra- algumas das suas competências a nível estruturas adequadas. Contudo, não é possível económico e político. A globalização, uma obter uma perspectiva mais completa e mais questão controversa e criticada a vários níveis, clara, que permita retirar lições úteis, sem não é um fenómeno novo, nem totalmen- avaliar simultaneamente os factores intelec- te abrangente (Hirst e Thomson, 1996, Ash- tuais e ideológicos subjacentes ao ensino na ton e Green, 1996). A actual explosão tec- Grécia. nológica, apesar de impressionante e, pos- sivelmente, mais poderosa do que nunca, Na Grécia, por razões históricas, o ensino não é mais de que uma nova fase numa lon- tem sido tradicionalmente dedicado ao de- ga série de explosões relevantes, que ainda senvolvimento do espírito e da moral. O não tiveram um impacto criativo em todo o conhecimento teórico era considerado ge- mundo. Cedefop 11
  7. 7. REVISTA EUROPEIA Em segundo lugar, a maioria dos argumen- esses e preferências pessoais. Uma vez que tos supramencionados, para além de posi- estes participantes provêm de países e/ou tivista e, em certa medida, determinista, pe- contextos culturais diferentes, as suas su- ca por falta de precisão histórica. Não to- posições, interesses e quadros conceptuais mam em consideração a capacidade do Ho- são também diferentes, o que os leva a in- mem para rejeitar e confrontar forças terpretar de formas distintas a mesma men- omnipotentes, nem a sua determinação em sagem, ou seja, a apreciar a situação de ma- influenciar o rumo da história. O longo pas- neira diferente. sado intelectual do continente europeu ilus- tra bem a natureza dialéctica da história e Por último, o encontro entre o visitante e do progresso da Humanidade. O enorme o visitado resulta da aplicação de um pro- contributo da Europa para a civilização mun- cedimento administrativo de dois níveis: dial demonstrou, de forma inequívoca, a re- as autoridades do país de acolhimento de- levância da participação política activa pa- cidem quais os programas disponíveis e or- ra a construção da História. ganizam as visitas de estudo, enquanto as autoridades do país dos participantes se- Preparação das visitas de estudo leccionam os candidatos de acordo com de- numa perspectiva comparativa terminados critérios, fornecem informações de base antes da visita e recebem os re- A passagem da teoria à prática é, sem dúvi- latórios após a sua realização. Ambos os da, uma tarefa difícil; um curso de aeronáutica níveis desempenham um papel extrema- e o manual do avião não são certamente su- mente importante no processo de comuni- ficientes para realizar um voo em condições cação, na medida em que escolhem o “emi- de segurança. Da mesma forma, a educação tente”, o “destinatário” e o tema e, por conse- comparada fornece directrizes destinadas guinte, são igualmente responsáveis, em a tornar as visitas de estudo mais eficazes, grande parte, pela mensagem e pela sua in- mas não tem capacidade para eliminar com- terpretação. pletamente os perigos da falta de com- preensão. É neste espírito que as observações Identificados os interlocutores no processo que se seguem devem ser entendidas e pon- de comunicação, podemos agora passar à deradas. descrição das fases de uma visita de estudo e destacar as áreas em que a educação com- Uma visita de estudo é, no fundo, um acto parada poderá dar o seu contributo. Para fa- de comunicação e, para aumentar a sua cilitar a nossa análise, dividimos o proces- eficácia, é necessário que seja considerada so em cinco fases distintas. A primeira fase como tal. O participante na visita de estudo abrange a escolha do tema, conteúdo e entra em contacto com várias pessoas que estrutura da visita de estudo pelas autori- trabalham ou colaboram de alguma forma dades do país de acolhimento. A segunda com uma organização e/ou instituição. Su- refere-se à selecção dos participantes de postamente, estas pessoas estão preparadas acordo com determinados critérios pré-de- para satisfazer o seu interesse, explicando finidos. A terceira fase corresponde à pre- a situação em causa e respondendo às suas paração e apoio aos participantes por par- perguntas. Neste sentido, transmitem uma te das autoridades do seu país. A quarta fa- mensagem codificada de acordo com as suas se consiste na própria visita, que inclui tan- suposições quanto à natureza dos interesses tos os participantes como as pessoas se- dos participantes e com os aspectos que elas leccionadas pelas autoridades do país de próprias consideram fundamentais e repre- acolhimento, mais uma vez de acordo com sentativos da sua organização ou instituição. determinados critérios. A apresentação de Estas pessoas utilizam certos conceitos relatórios, tanto às autoridades do país dos que lhes são familiares (e que, supostamente, participantes como a um grupo mais vasto serão familiares para os participantes) e, por de especialistas no domínio da educação, vezes, partem do princípio de que os seus constitui a última fase. interlocutores conhecem o contexto em que a sua mensagem está inserida. A primeira fase depende consideravelmen- te de dois factores determinantes. As visitas Os participantes interpretam (ou, num sen- de estudo devem dar resposta às prioridades tido mais técnico, descodificam) a mensa- específicas dos Programas Sócrates/Leonar- gem com base nas suas próprias suposições, do da Vinci e corresponder à realidade do no seu quadro conceptual e nos seus inter- ensino na Europa dos nossos dias, deven- Cedefop 12
  8. 8. REVISTA EUROPEIA do ainda tomar em consideração as poten- apoio especializado no domínio da educação cialidades do país de acolhimento. Embo- comparada, poderão escolher um tema e or- ra a maioria dos problemas e das políticas ganizar a visita de estudo em função desse no sector da educação seja basicamente co- mesmo tema, procurando destacar os prin- mum a todos os países da UE - o resulta- cipais elementos contextuais da política de do inevitável de, por exemplo, as forças de educação e salientar as diferenças entre o globalização, a integração europeia e a so- que é específico e o que é semelhante. Da ciedade/economia do conhecimento - exis- mesma forma, uma vez que, até mesmo nu- tem certas questões que são específicas de ma única sociedade, coexistem perspectivas determinados países, quer ao nível das cir- e pontos de vista diferentes, as autoridades cunstâncias neles vigentes, quer ao nível do do país de acolhimento devem permitir a carácter inovador das políticas adaptadas. A apresentação de opiniões contrárias/mino- transformação dos estabelecimentos de en- ritárias, bem como a visita e observação sino nos países ex-comunistas europeus (em de estabelecimentos de ensino com de- circunstâncias certamente diferentes dos ou- sempenhos mais fracos. Esta abordagem pro- tros) e a política de managerialismo nos es- porcionará não apenas uma compreensão tabelecimentos de ensino ingleses - uma mais abrangente e correcta da situação, mas inovação consentânea com as tradições in- elevará também o nível de confusão criati- glesas ao nível da organização - perten- va dos participantes que, tratando-se de um cem a esta categoria. Consequentemente, a elemento essencial do interesse genuíno e distinção entre problemas/políticas “seme- da participação activa, conduzirá a uma com- lhantes” e “específicos” coloca a questão da preensão mais profunda e mais correcta relevância do tema de uma visita de estudo da situação. Este é, afinal, o verdadeiro ob- para os educadores estrangeiros (especial- jectivo da visita. A primeira fase não se re- mente quando se trata de circunstâncias es- sume apenas a aspectos organizacionais e pecíficas) e exige certamente um maior conhe- administrativos, estabelecendo efectivamente cimento das circunstâncias vigentes no país as bases para o sucesso da visita de estudo. de acolhimento por parte dos participantes. Por conseguinte, as autoridades nacio- Um educador grego, por exemplo, pergun- nais/regionais não devem, nesta fase, hesi- tar-se-ia até que ponto o estudo da gestão tar em pedir a ajuda de especialistas em edu- local de um estabelecimento de ensino in- cação comparada e em cooperar com os glês seria relevante para o seu trabalho, que seus homólogos estrangeiros. se desenvolve num sistema educativo alta- mente centralizado. Caso chegasse à conclusão A segunda fase é da responsabilidade das de que este seria um tema interessante pa- autoridades do país dos participantes. Ge- ra a sua visita de estudo, teria de aprofun- ralmente, os participantes são seleccionados dar os seus conhecimentos sobre as tradições com base nos seus conhecimentos linguísti- de descentralização dos estabelecimentos cos (devem ser fluentes na língua em que de ensino ingleses, sobre o profissionalis- decorrerá a visita de estudo) e no seu in- mo dos professores ingleses, sobre o carácter teresse ou relevância para o tema da visi- liberal da política inglesa, sobre a confian- ta, bem como na posição que ocupam na ça generalizada na gestão científica, etc., o hierarquia do sistema educativo. Embora que não aconteceria se optasse por estudar, estes critérios não mereçam críticas, não são por exemplo, o ensino especial. suficientes. Se tiverem em consideração que uma visita de estudo é um exercício de A educação comparada pode fornecer os comunicação em que a observação, a des- meios para distinguir entre o semelhante e codificação e a compreensão dependem o específico - este tem sido, desde sempre, efectivamente do contexto conceptual dos um dos seus principais objectivos - e para participantes, do seu sistema de valores, das descortinar a natureza e a relevância das se- suas ideias sobre o que é uma boa educação, melhanças e das especificidades no processo da sua verdadeira motivação, etc., as auto- de decisão. Trata-se naturalmente de um im- ridades deverão estar em posição de defi- portante contributo para a escolha e a es- nir, de forma mais completa e precisa, o per- truturação das visitas de estudo. Desde que fil dos participantes. A experiência demonstra as autoridades não se limitem a proporcio- que, para alguns educadores, a participação nar aos participantes o acesso àquilo que numa visita de estudo é apenas uma questão é mais impressionante ou está mais à mão de curiosidade ou uma oportunidade para apenas para cumprirem os seus deveres viajar para o estrangeiro e conhecer outras convencionais e disponham do necessário pessoas (um objectivo válido em si mesmo, Cedefop 13
  9. 9. REVISTA EUROPEIA mas não uma das principais prioridades dos instituições (que, actualmente, são transmi- programas em causa). Para outros, são as tidas de outras formas pelas autoridades do suas tendências pessoais que os afastam de país de acolhimento e do país de origem) uma observação objectiva. Existem profes- farão verdadeiramente sentido e se revelarão sores que, por exemplo, consideram o sis- úteis. Estes minicursos poderão culminar na tema de ensino técnico-profissional alemão elaboração de um fluxograma ou de uma o modelo perfeito, enquanto outros, que de- grelha de observação geral e flexível, que fendem o enciclopedismo e criticam a es- ajude os participantes a concentrarem a sua pecificidade das matérias abrangidas pelo atenção apenas nos aspectos institucionais diploma do ensino secundário, tendem a mais importantes, a distinguirem entre o ge- procurar apenas a confirmação da sua po- ral e o particular, a reconhecerem aquilo que sição durante a visita de estudo. A definição é inovador e útil, etc. do perfil dos participantes com base em de- terminadas características qualitativas é um Poderão ainda ser organizados minicursos exercício útil, indispensável para a fase se- destinados a actualizar os conhecimentos guinte. dos participantes (para aqueles que dão os primeiros passos neste campo, esta acção A terceira fase é a mais importante de to- de formação poderia corresponder a um cur- do o processo. Durante esta fase, os parti- so introdutório) quanto aos mais recentes cipantes recebem as informações necessárias desenvolvimentos, tanto em termos científi- para que a visita de estudo seja bem suce- cos como políticos, no campo em que se in- dida. Com base em informações pormeno- tegra o tema da visita de estudo. Estas acções rizadas e rigorosas sobre o tema, o conteúdo são extremamente importantes, sobretudo e a estrutura da visita de estudo (informações em áreas interdisciplinares recentes, como essas que são transmitidas pelas autoridades é o caso do ensino de TIC, das necessidades do país de acolhimento às autoridades do educativas especiais ou do ensino multicul- país de origem durante a primeira fase) e tural, especialmente nos países com pouca nos perfis individuais traçados durante a se- experiência e falta de conhecimentos espe- gunda fase, as autoridades estão agora em cializados neste domínio. Poderá ainda ser condições de organizar seminários ad hoc, ministrado um curso final, com o objectivo que poderão incluir minicursos de formação de transmitir aos participantes técnicas de sobre o estudo comparado dos sistemas edu- comunicação e ajudá-los a ultrapassar as di- cativos. Independentemente do tema es- ficuldades relacionadas com a sua aplicação, pecífico da visita de estudo, os participantes especialmente em contextos internacio- serão alertados contra os perigos da ob- nais/culturais com códigos de comunicação servação parcial, da descontextualização das normalmente diferentes. Como exemplos questões, da confusão entre o geral e o par- do carácter cultural destes códigos, pode- ticular, da minimização da importância das mos referir o “ensino particular” que, no ca- circunstâncias concretas e das tradições, etc. so da Grécia, exclui o financiamento pelo A vasta bibliografia sobre educação com- Estado (uma situação totalmente distinta da parada contém diversos estudos de caso que se verifica na Europa Ocidental), e o sobre falhas de compreensão e juízos in- ensino laico, que tem conotações diferentes correctos que estiveram na origem do fra- em França, na Irlanda e na Grécia. casso de algumas políticas, estudos esses que se poderão revelar uma grande ajuda. A quarta fase corresponde à própria visita. Os participantes na visita de estudo rece- É nesta fase que a qualidade e a eficiência berão igualmente informações de base sobre do planeamento e das actividades de pre- o sistema educativo do país de acolhimen- paração desenvolvidas anteriormente são to, bem como sobre o seu contexto sócio- postas à prova. Esta fase está associada aos económico, cultural e político. Estas infor- aspectos estruturais e organizacionais da vi- mações não deverão ser transmitidas de mo- sita, aos funcionários envolvidos, à escolha do desconexo e fragmentário, mas sim de dos locais e/ou dos eventos da visita, à forma sistemática, o que permitirá aos par- gestão do tempo, etc. Todos estes aspectos ticipantes compreenderem as relações exis- são determinantes para o sucesso da visita tentes entre a instituição observada, por um de estudo, bem como para a sua qualida- lado, e as forças intangíveis e os factos reais de pedagógica e a sua utilidade em termos que afectam o seu funcionamento, por ou- da definição de políticas. Importa aqui sa- tro. Só assim as informações sobre o país de lientar o papel fundamental desempenha- acolhimento ou sobre uma ou mais das suas do pelos funcionários envolvidos na visita Cedefop 14
  10. 10. REVISTA EUROPEIA de estudo. Uma vez que são intervenientes- ma mais estruturada e sistemática. A defi- chave no processo de comunicação, de- nição de perfis, os seminários sobre edu- verão conhecer plenamente o significado cação comparada e sobre técnicas de co- dos códigos, tanto os seus como os dos par- municação estarão obviamente a cargo de ticipantes, o que lhes permitirá estar per- especialistas (por exemplo, professores uni- manentemente em sintonia com os seus in- versitários) nos domínios relevantes. Espe- teresses e acompanhar o seu raciocínio. É ra-se que, em conjunto, contribuam para fundamental que todo o processo da visi- melhorar a coerência e eficiência do siste- ta seja avaliado, de forma sistemática, quer ma e, desta forma, se aproximem mais dos pelas autoridades e participantes do país de ideais dos fundadores dos programas de vi- acolhimento, quer pelos participantes do sitas de estudo. país de origem, com base em objectivos e critérios estabelecidos de comum acordo, e Conclusão que, para tal, sejam utilizados todos os ins- trumentos de avaliação válidos e fidedignos A aprendizagem com os outros através de disponíveis. visitas de estudo e da observação directa possui uma longa tradição no domínio da Por último, as conclusões da avaliação de- educação. Sempre foi reconfortante saber vem ser registadas num relatório bem es- que podemos evitar determinados erros e truturado e documentado. As diferentes pers- adoptar uma orientação segura na definição pectivas revelarão as falhas de compreensão das políticas de educação se seguirmos me- e os pontos fracos, bem como os pontos todicamente os passos dos outros e apro- fortes, das visitas de estudo, contribuindo, veitarmos a sua experiência. Esta expecta- desta forma, para o aperfeiçoamento contínuo tiva assume uma dimensão cada vez mais de todo o programa. alargada à medida que avançamos no pro- cesso de integração europeia e aprofunda- Serão de esperar, pelo menos, duas grandes mos o conhecimento que temos uns dos ou- reservas e/ou objecções ao processo su- tros. Todavia, este exercício nem sempre é pramencionado. A primeira prende-se com bem sucedido. Os estabelecimentos de en- o esforço exigido a todos os agentes e en- sino são demasiado complexos e encontram- tidades envolvidos no processo (autoridades, se demasiado interligados com a sociedade educadores, instituições de acolhimento, or- para permitir uma fácil e clara compreensão ganizadores, etc.). A segunda diz respeito à do seu funcionamento por parte dos estu- falta de conhecimentos especializados, so- dantes. bretudo ao nível da definição de perfis, no domínio da educação comparada, das téc- A educação comparada pode dar um im- nicas de comunicação e da avaliação de pro- portante contributo nesta matéria, cha- jectos. Embora o processo acima descrito mando a atenção para a importância e as di- exija grandes esforços, é importante definir ficuldades da tarefa e proporcionado abor- correctamente as prioridades. A maximização dagens e técnicas adequadas para a sua boa dos resultados de uma acção extremamen- execução. Tal implica a reconsideração dos te apreciada (e bastante dispendiosa) com- procedimentos seguidos até agora nos di- pensa largamente o esforço acrescido. Afi- versos programas comunitários de visitas de nal - e isto leva-nos à segunda objecção - o estudo, bem como da participação activa de projecto, no novo formato proposto, com- outros agentes e especialistas que estariam pensa o volume adicional de trabalho com dispostos a trabalhar em estreita colaboração o envolvimento de recursos humanos es- com os administradores dos estabelecimentos pecializados e com a introdução de uma es- de ensino e os educadores. Embora a abor- trutura organizativa mais racional e efi- dagem que aqui se propõe talvez pareça, ciente, que impede a duplicação de esfor- à primeira vista, demasiado complexa, vale ços e maximiza os recursos funcionais do a pena experimentá-la. A compreensão a Estado. Neste contexto, os administradores nível internacional é a base de uma paz du- poderão continuar o seu trabalho de orga- radoura e da prosperidade, os verdadeiros nização e de coordenação e os participantes objectivos da integração europeia. poderão elaborar os seus relatórios de for- Cedefop 15
  11. 11. REVISTA EUROPEIA Bibliografia Arnove, R. Comparative education and the world- Holmes, B. Problems in education. A compara- systems analysis. Comparative education review, tive approach. Londres, Routledge and Kegan Paul, 1980, n.º 24, p. 48-62. 1965. Ashton, D.; Green, F. Education, training and Jullien, M.A. Esboço de uma obra sobre a peda- the global economy. Londres: Edward Elgar, 1996. gogia comparada. Instituto de Inovação Educa- cional, 1998. Bray, M. Tradition, change and the role of the world council of comparative education societies. Kalogiannaki, P. Textos pedagógicos: educação In Bray, M., (ed.) Comparative education. conti- comparada: uma abordagem francófona. Atenas, nuing traditions, new challenges and new para- Atrapos, 2002 (em grego). digms. Londres: Kluwer, 2003. King, E. J. Other schools and ours. Londres, Holt, Comissão Europeia. http://europa.eu.int/comm/ Rinehart and Winston, 1976. education/programmes/socrates/arion/ann_pt.pdf, consultado em 15 de Janeiro de 2003. Mann, H. Seventh annual report of the board of education: together with the seventh annual re- Cousin, V. Rapport sur l’ état de l’ instruction pu- port of the Secretary of the Board. Boston, Dutton blique dans quelques pays de l’ Allemagne et par- and Wentworth, 1844. ticuliérement en Prusse. Paris, F.-G. 1833. Mattheou, D. A universidade na era da recente Cowen, R. Comparing futures or comparing pasts? modernidade: um estudo comparativo da sua Comparative education. 2000, Vol. 36, n.º3, p. transformação ideológica e institucional; Atenas, 333-342. 2001 (em grego). Cowen, R. Coda: autonomy, the market and eva- Mattheou, D. Estudo comparativo da educação: luation systems and the Individual. In: Cowen, R., abordagens e questões; Atenas, 2000 (em grego). (ed.) The evaluation of higher education systems. Londres: Kogan Page, 1996. Noah, H.; Eckstein, M. Towards a science of com- parative education: Londres, Macmillan, 1969. Crossley, M. Bridging cultures and traditions in the reconceptualisation of comparative and in- Phillips, D.; Ochs, K. Comparative studies and ternational education. Comparative education: ‘Cross-national attraction’ in education: a typo- Set. 2000, vol. 36, n.º 3, p. 319-332. logy for the analysis of English interest in educa- tional policy and provision in Germany. Educa- Fraser S. Jullien’s plan for comparative educa- tional studies. 2002, vol. 28, n.º 4. tion 1816-1817. Nova Iorque: Teachers College, Columbia University, 1964. Phillips, D. Neither borrower nor a lender be? the problem of cross-national attraction in edu- Green, A. Education and state formation: the ri- cation. Comparative education. 1989, vol. 25, se of education systems in England, France and n.º 3. USA, Londres, 1990. Sadler, M. How far can we learn anything of prac- Hans, N. Comparative education: a study of edu- tical value from the study of foreign systems of cational factors and traditions. Londres: Rout- education. Comparative education review, Fev. ledge and Kegan Paul, 1949. 1964, vol. 7. Hirst, R.; Thomson, G. Globalização em questão: Wilson, D. The future of comparative and inter- a economia internacional e as possibilidades de national education in a globalised world. In Bray, governabilidade. Petrópolis, Vozes, 1998. M. (ed.). Comparatives. Londres: Kluwer, 2003. Palavras-chave Decision making, education system, national context, education policy, foreign institution, school culture. Cedefop 16

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