Resenha documentos de identidade

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Resenha documentos de identidade

  1. 1. ISSN 1981-1225 Dossiê Foucault N. 3 – dezembro 2006/março 2007 Organização: Margareth Rago & Adilton L. Martins Documentos de Identidade Osvaldo Mariotto Cerezer Professor Departamento de História – UNEMAT Correio eletrônico: omcerezer@hotmail.com SILVA, Tomaz Tadeu da. Documentos de Identidade: uma introdução às teorias do currículo. 2002. 2 ed. Belo Horizonte, Autêntica.A obra intitulada Documentos de Identidade: uma introdução às teoriasdo currículo, de Tomaz Tadeu da Silva, (2002) faz uma importanteanálise sobre as teorias do currículo, desde sua origem até as teoriaspós-criticas, e a contribuição destas nos estudos sobre o currículo e suasimplicações na formação da subjetividade e identidade dos sujeitos. Asteorias do currículo procuram justificar a escolha de determinadosconhecimentos e saberes em detrimento de outros, considerados menosimportantes. Para a teoria tradicional, o currículo deveria conceber uma escolaque funcionasse de forma semelhante a qualquer empresa comercial ouindustrial. Sua ênfase estava voltada para a eficiência, produtividade,organização e desenvolvimento. O currículo deve ser essencialmentetécnico e a educação vista como um processo de moldagem. Na décadade 1960 surgem as teorias críticas que questionam o status quo vistocomo responsável pelas injustiças sociais e procura construir uma 1
  2. 2. Osvaldo Mariotto Cerezer Documentos de Identidadeanálise que permita conhecer não como se faz o currículo, mascompreender o que o currículo faz. Seguindo Althusser, a escola écompreendida como aparelho ideológico do Estado, que produz edissemina a ideologia dominante através, principalmente, dosconteúdos. Bowles e Gintis dão ênfase à aprendizagem por meio davivência e das relações sociais na escola que irão repercutir na formaçãode atitudes necessárias no mercado de trabalho capitalista. Bourdieu ePasseron desenvolvem o conceito de “reprodução” e “capital cultural”,onde a cultura dominante incorpora, introjeta e internaliza determinadosvalores dominantes através do currículo escolar. Na década de 1970, o movimento de reconceptualização critica ocurrículo por considerá-lo tecnocrático. Este se limitou às questõesfenomenológicas, hermenêuticas e autobiográficas de crítica aoscurrículos tradicionais. Na concepção fenomenológica o currículo éconcebido como um lugar de experiência e como local de interrogação equestionamento da experiência. A hermenêutica contesta a existênciade um significado único e determinado e defende a idéia deinterpretação múltipla dos textos não só escritos, mas qualquerconjunto de significado. Na autobiografia, o currículo é entendido deforma ampla, como experiência vivida. Aqui se entrelaçam oconhecimento escolar, as histórias de vida e o desenvolvimentointelectual e profissional, permitindo a transformação do próprio eu. Para Michael Apple, o currículo representa, de forma hegemônica,as estruturas econômicas e sociais mais amplas. Assim, o currículo nãoé neutro, desinteressado. O conhecimento por ele corporificado é umconhecimento particular. Importa saber qual conhecimento éconsiderado verdadeiro. A reprodução social não se dá de formatranqüila, há sempre um processo de contestação, conflito, resistência. 2
  3. 3. ISSN 1981-1225 Dossiê Foucault N. 3 – dezembro 2006/março 2007 Organização: Margareth Rago & Adilton L. Martins Henry Giroux concebe o currículo como política cultural,sustentando que o mesmo não transmite apenas fatos e conhecimentosobjetivos, mas também constrói significados e valores sociais eculturais. Vê o currículo por meio dos conceitos de emancipação elibertação. Paulo Freire critica o currículo existente através do conceito de“educação bancária”. Nesse contexto, o currículo tradicional estáafastado da situação existencial das pessoas que fazem parte doprocesso de conhecer. O currículo deve conceber a experiência doseducandos como a fonte primária para temas significativos ougeradores. Sua teoria é contestada na década de 1980 por DermevalSaviani na pedagogia histórico-crítica ou pedagogia crítico-social dosconteúdos. A educação só será política quando esta permitir às classesdominadas se apropriarem dos conhecimentos transmitidos comoinstrumento cultural que permitirá uma luta política mais ampla. Acrítica de Saviani à pedagogia libertadora de Paulo Freire está na ênfasedada por esta aos métodos e não à aquisição do conhecimento. Ao analisar as influências da “nova sociologia da educação” sobre osestudos curriculares, Tomaz Tadeu da Silva salienta que a preocupaçãoda mesma estava voltada para as questões de relação entre currículo epoder, entre a organização do conhecimento e a distribuição do poder. Ocurrículo é visto como uma “construção social”. Basil Bernstein analisa ocurrículo a partir de duas distinções fundamentais: o currículo tipocoleção e o currículo integrado. Para o primeiro, as áreas e os camposdo conhecimento são organizados de forma isolada. No segundo, háuma diminuição das distinções entre as áreas do conhecimento. A 3
  4. 4. Osvaldo Mariotto Cerezer Documentos de Identidadeclassificação determina o que é legítimo ou ilegítimo incluir no currículo.A classificação para Bernstein é uma questão de poder. O autor, ao abordar o currículo oculto, analisa-o como sendo aqueleque, embora não faça parte do currículo escolar, encontra-se presentenas escolas através de aspectos pertencentes ao ambiente escolar e queinfluenciam na aprendizagem dos alunos. Na visão crítica, o currículooculto forma atitudes, comportamentos, valores, orientações etc., quepermitem o ajustamento dos sujeitos às estruturas da sociedadecapitalista. Na perspectiva das abordagens sobre diferença e identidade,o currículo multiculturalista se apresenta como uma possibilidade deabordagem e inclusão dos grupos raciais e étnicos, pois representa umimportante instrumento de luta política. A análise crítica divide ocurrículo multiculturalista entre as concepções pós-estruturalista ematerialista. Para a primeira, a diferença é um processo lingüístico ediscursivo. Para o materialismo de inspiração marxista, os processosinstitucionais, econômicos e estruturais, fortalecem a discriminação edesigualdades baseadas na diferença cultural. Importa compreendercomo as diferenças são produzidas através das relações dedesigualdade. Para obter a igualdade, é necessário uma modificaçãosubstancial do currículo existente. As perspectivas críticas sobre relações de gênero e pedagogiafeminista passaram a ser questionadas por não levarem emconsideração a questão de gênero e da raça no processo de produção ereprodução das desigualdades. Nesse contexto, o currículo refletia ereproduzia uma sociedade masculina. A pedagogia feminista passa adesenvolver formas de educação que levassem em consideração osvalores feministas, para contrapor-se à pedagogia tradicional de 4
  5. 5. ISSN 1981-1225 Dossiê Foucault N. 3 – dezembro 2006/março 2007 Organização: Margareth Rago & Adilton L. Martinsvalorização do masculino. O currículo é visto como um artefato degênero, pois corporifica e ao mesmo tempo produz relações de gênero. Em relação ao currículo como narrativa étnica e racial, a questãocentral consistia em compreender e analisar os fatores que levavam aofracasso escolar as crianças e jovens pertencentes a grupos étnicos eraciais minoritários. Na perspectiva critica, o currículo lidaria com aquestão da diferença como uma questão histórica e política, pois nãoimporta apenas celebrar a diferença e a diversidade, mas questioná-la.Para a teoria queer, a identidade sexual, assim como a de gênero, éuma construção social. Para ela, a identidade é sempre uma relaçãodependente da identidade do outro. Não existe identidade semsignificação, assim como não existe identidade sem poder. A teoriaqueer pretende questionar os processos discursivos e institucionais, asestruturas de significação sobre o que é correto ou incorreto, o que émoral ou imoral, o que é normal ou anormal. O movimento pós-moderno toma como referência social a transiçãoentre a modernidade iniciada com o Renascimento e Iluminismo e a pós-modernidade iniciada na metade do século XX. Questiona as pretensõestotalizantes de saber do pensamento moderno. Nesse contexto, opensamento moderno prioriza as grandes narrativas, vistas comovontade de domínio e controle dos modernos. Nesta perspectiva, a pós-modernidade questiona as noções de razão e racionalidade. Duvida doprogresso, nem sempre visto como algo desejável e benigno. Critica osujeito racional, livre, autônomo, centrado e soberano da modernidade.Para o pós-modernismo, o sujeito não é o centro da ação social. Ele nãopensa, fala e produz: ele é pensado, falado e produzido. 5
  6. 6. Osvaldo Mariotto Cerezer Documentos de Identidade Fundamentado em Foucault, Derrida entre outros, o pós-estruturalismo coloca sua ênfase na indeterminação e na incerteza sobreo conhecimento. Destaca o processo pelo qual algo é consideradoverdade, ou seja, como algo se tornou verdade. Seguindo Derrida, opós-estruturalismo questionaria as concepções de masculino/feminino;heterossexual/homossexual; branco/negro; científico/não cientifico dosconhecimentos que constituem o currículo. Já a teoria pós-colonial dáênfase ao hibridismo, mestiçagem, entendendo a cultura nos espaçoscoloniais e pós-coloniais como uma complexa relação de poder ondeambas, dominadora e dominada são modificadas. Com as teorias criticase pós-criticas, não podemos mais ver o currículo como algo inocente,desinteressado. Recebido em dezembro/2006. Aprovado em fevereiro/2007. 6

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