ARVORE GENEOLOGICA DA FAMILIA SAMPAIO

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TUDO COMEÇOU HÀ TANTO TEMPO,MAS AS RAIZES SÃO MAIS PROFUNDA, VEM DESDE OS PRIMÓRDIOS DA HUMANIDADE.AFINAL, SOMOS SOMOS UM ÚNICO RAMO...

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ARVORE GENEOLOGICA DA FAMILIA SAMPAIO

  1. 1. ÀRVORE GENEALÓGICA FAMÍLIA SEBASTIÃO FLORIANO DE CAMARGO SAMPAIO E MARIA MIQUELINA RIBEIRO DE SAMPAIO
  2. 2. Adolpho José Manzutti e Ilze Maria Pinheiro Sampaio Manzutti S-13
  3. 3. Casa de Adão Camargo Sampaio – Família Antonio Souza Sampaio Antonio – José Wilson – Ilze Maria – Maria Lucia – Maria do Carmo FIGUEIRA - Sylvia, Paulo, Mariza, Amélia, Lourdes, Soninha e Afonso TOCO – Amiga – Sylvia – Mariza – Nilva - Nadir 3
  4. 4. Procissão na Capela da Fazenda Pinheiro Antonio Sampaio, Wilson, Ilze, Maria Lucia, Maria Helena, Bené Dia de Festa de São Joaquim e Santa Ana Amélia, Luiz, Irani, Ernestina, Ivone, Maria Aparecida, Maria Luiza ORAÇÃO DE UM PAI Peço a Deus, a Jesus e a Virgem Santíssima que protejam a mim, minha esposa, filhos, noras, genros, netos, meus pais, 4
  5. 5. irmãos, sogros e cunhados, meus tios e os de minha esposa, nossos afilhados, conhecidos, necessitados, a todos os familiares e descendentes para que sejam bastante felizes e protegidos de todos os males e maus fluidos, para que eles galguem o que tenham em mente, alcançando tudo aquilo que lhes trará felicidade e realização. Peço que sejam protegidos na saúde, no trabalho, nos estudos, nas viagens e no trânsito e que nunca percam a memória e a inteligência. Que assim seja, Graças a Deus. 5
  6. 6. AGRADEÇO A DEUS A VIDA QUE ME DEU Quando aqui chegamos, nossos pensamentos vagavam pelo infinito, não imaginávamos como seriam preenchidos os anos que viriam e o que estaria acontecendo hoje, e como seriam as nossas vidas. Hoje compreendemos que é preciso lutar, temos tarefas a cumprir e que se soubermos vencê-las de acordo com as leis da natureza e divinas, seremos felizes eternamente. Nada do que acontece de bom ou ruim, em nossas vidas é por acaso. Em qualquer situação devemos estar sempre atentos, permanecendo firmes, sem nos vangloriar ou esmorecer, pois esses são os parâmetros que nos guiam para o caminho do bem. Quando nascemos, iniciamos a luta pela sobrevivência, é um período muito importante e perigoso, não podemos perturbar e nem explorar nosso irmão, procurar sempre ajudar quem necessita e viver em comunhão com todos. Desta maneira amenizaremos nossos sofrimentos e poderemos ter uma passagem feliz pela Terra e consequentemente uma recompensa no Céu. Não devemos deixar nosso barco à deriva e navegar sempre com muita fé em Deus, em Jesus e na Virgem Santíssima para que nos abençoem e nos ajudem a seguir o caminho do bem e 6
  7. 7. cumprir o que nos foi designado para nossa permanência na Terra. PREFÁCIO A Nossa Árvore Genealógica Meu pensamento sempre foi conhecer sobre a família, não se limitando à minha, mas de todo grau de parentesco. Sempre pensei resgatar conhecimentos sobre nossos antepassados, saber suas origens e de como foram constituídas nossas famílias. Em 2001, já aposentado definitivamente, resolvi fazer as árvores genealógicas de nossas famílias, parei para pensar como ia iniciar e deparei-me com um alto grau de dificuldades. Infelizmente era um pouco tarde, pois os esteios das famílias 7
  8. 8. que podiam me fornecer com naturalidade esses dados desde a origem, já eram falecidos. Para obter os dados (das árvores) resolvi convocar o parentesco das quatro famílias: Manzutti e Santos, de minha parte, e Sampaio e Pinheiro, da parte de minha esposa Ilze. Distribui os questionários para serem preenchidos e recebi os dados. Infelizmente poucos forneceram alguma historia sobre a família e os antepassados, limitando-se a fornecer dados de sua árvore, mas agradeço de coração a todos, por colaborarem. Das famílias Manzutti e Santos, consegui além dos dados para a árvore algumas histórias vividas por alguns familiares. Das famílias, Sampaio e Pinheiro, além dos dados da Árvore Genealógica, acrescentei as histórias de Tibiriçá, Bartira e João Ramalho, e também transcrevi dados do livro “Diogo Antonio Feijó” de Ricardo Gumbleton Daunt – 1943. 8
  9. 9. Os dados das Árvores Genealógicas foram fornecidos pelos parentes no período entre 2001 e 2011 e tive também a colaboração de meus filhos: Adolfo Júnior sua esposa Madelon, Alexandre José, Ana Aparecida e Ana Carmen; de meus netos Adolpho Neto e Rodrigo; também colaboraram meus primos Alcyr Azzoni e Emery do Carmo Granja; Paulo Roberto Moura Castro e Maria Sylvia Braga Castro; Valéria Guimarães; meu cunhado Carlos José Pinheiro Sampaio; meu afilhado Julio Sampaio Guimarães; e também a tia Benedita de Souza Sampaio Parente (Sinhá). Trata-se de um presente aos parentes. Anexo, uma mídia onde esta registrado o conteúdo impresso, para que seja fornecido aos familiares que tenham interesse. Estarei à disposição, nos endereços abaixo. 9
  10. 10. Adolpho José Manzutti & Ilze Maria Pinheiro Sampaio Manzutti São Paulo/Brotas – SP - Dezembro de 2012 Email – adolphojmanzutti@terra.com.br Fones: 014/3653-8561 e 011/3031-2335 Brotas – SP – Rua Guido Coró, 12 – Jardim Parizi – CEP. 17380-000 São Paulo – SP – Rua Brás Mendes, 63 – Vila Madalena – CEP. 05443-070 10
  11. 11. CACIQUE TIIRIÇÁ Cacique Tibiriçá foi o primeiro índio a ser catequisado pelo padre José de Anchieta. Foi convertido e batizado pelos jesuítas José de Anchieta e Leonardo Nunes. Seu nome de batismo cristão foi Martim Affonso, em homenagem ao fundador de São Vicente. Sua data de nascimento é calculada em 1440. Seus restos mortais 11
  12. 12. encontram-se na cripta da Catedral da Sé, na cidade de São Paulo. "Maioral" ou "Vigilância da Terra", na língua Tupi, Cacique guaianás ou tupi, (sendo) divergem nesse ponto as opiniões dos historiadores. Chefe de uma parte da nação indígena estabelecida nos campos de Piratininga, com sede na aldeia de Inhampuambuçu foi irmão de Piquerobi e de Caiubi, índios que se salientaram durante a colonização do Brasil, o primeiro como inimigo e o segundo como grande colaborador dos jesuítas. Teve muitos filhos. Com a índia Potira , teve Ítalo, Ará, Pirijá, Aratá, Toruí e Bartira. A índia Bartira, viria a ser mulher de João Ramalho, de quem era grande amigo e a pedido do qual defendeu os portugueses quando chegaram a São Vicente. Em 1554, Tibiriça acompanhou Manuel da Nóbrega e Anchieta na obra da fundação de São Paulo, e estabeleceu-se no local onde hoje se encontra o mosteiro de São Bento, espalhando seus índios pelas 12
  13. 13. imediações. A atual rua de São Bento era por esse motivo chamada primitivamente Martim Affonso (seu nome de batismo). Graças à sua influência, os jesuítas puderam agrupar as primeiras cabanas de neófitos nas proximidades do colégio. Tibiriça deu aos jesuítas a maior prova de fidelidade, a 9 de Julho de 1562 ( e não 10 como habitualmente se escreve), quando, levantando a bandeira e uma espada de pau pintada e enfeitada de diversas cores, repeliu com bravura o ataque à vila de São Paulo, efetuado pelos índios tupi, guaianás e carijós, chefiados por seu sobrinho (filho de Piquerobi) Jagoanharo. TIBIRIÇÁ Esse cacique indígena, chefe da nação Guaianaz, um dos chefes das tribos aliadas de São Paulo, prestou inúmeros e relevantes serviços à colonização paulista. À sua boa índole, energia e ao seu esforçado concurso, deveu Martim Afonso de Sousa uma boa parte do progresso da capitania de 13
  14. 14. S. Vicente. Era irmão de Arari, chefe dos Tupis e Carijós, que, naquele memorável dia 9 de junho de 1562, atacaram a vila de São Paulo, sendo derrotados, graças aos esforços dos jesuítas e do Cacique Tibiriçá. Amigo dedicado de Martim Afonso tomou o cacique o seu nome ao ser batizado, quando convertido pelas prédicas de Anchieta e Leonardo Nunes. Faleceu a 25 de dezembro de 1562, com avançada idade, vítima de prolongada enfermidade. Aquele dia de natal foi de tristeza para os índios. O cacique, desde cedinho, estava passando muito mal. O padre Anchieta, a seu lado, empenhava-se em suavizar-lhe os últimos momentos. Havia muito tempo vinha ele sofrendo de câmaras de sangue. E com a avançada idade que atravessava aquilo mais lhe torturava os derradeiros estertores... A indiada, cá fora, não se conformava, e chorava. Chorava aos gritos angustiados. E pela aldeia rolava um lamento surdo e inquietante. Os tambores lá longe, ecoavam. Logo mais, a nova melancólica 14
  15. 15. caiu como um raio: Tibiriçá morrera! O Martim Afonso deixara de existir. Piratininga inteira vibrou: os índios e os padres. À tardinha, realizou-se o sepultamento com toda a pompa. Compareceu todo o mundo. João Ramalho e sua mulher Bartira, batizada com o nome de Isabel, seus numerosos filhos, seus netos, todos os seus descendentes, os jesuítas, os indígenas chorando... Seu corpo foi levado para o colégio de São Paulo e ali sepultado. Hoje jaz na cripta da Catedral de São Paulo, ali no largo da Sé. 15
  16. 16. BARTIRA Princesa Mbicy ou Bartira ou Isabel Dias ou Butira-Flor Os arautos reais trombeteavam pelas ruas e vielas de Lisboa, as alegrias Del-Rei, o Venturoso, e liam a carta histórica de Pero Vaz Caminha, contando as belezas e a fecundidade da terra recém-descoberta por Cabral (Que não era Cabral, e sim Pedro Álvares Gouveia). Os que ouviam iam logo levar a notícia de casa em casa, e em pouco toda a Lusitânia sabia e comentava o auspicioso acontecimento. Os camponeses ficavam com inveja da terra ubérrima, na qual "em se plantando nela dará tudo". Sabiam que eram terras sem fim que eles saberiam aproveitar. E meditavam tristes, olhando as pequenas faixas de terra milenar e cansada, que tinham diante de si, terra por eles trabalhada com tanto sacrifício e amor! Pelas suas cabeças cheias de sonhos e de 16
  17. 17. cobiça passava a ideia: Ah! Se pudéssemos lá ir... Os rapazes ficavam encantados com as noticias das moças morenas, de corpos de cor de cobre, talhados em curvas sedutoras, as quais andavam nuas e belas, "tão bem feitas e tão redondas” diz Caminha de uma delas "que a muitas mulheres de nossa terra vendo-lhes tais feições fizera vergonha". Os poetas e os artistas ficavam enamorados ao pensar nas paisagens constituídas de montanhas e selvas entremeadas pelas curvas prateadas dos rios e ribeirões, nas florestas cerradas onde tinham animais estranhos e aves de linda plumagem; onde o pôr do sol tingia o céu e as águas com revérberos de ouro, rubis e ametistas... Os banqueiros pensavam em numa certa madeira cor de brasa, e em outras especiarias de que era farta a terra; nas minas de ouro que certamente existiam; na fonte inesgotável de riquezas de que era 17
  18. 18. prolífera a terra morena e graciosa, que Caminha tanto gabava. E perguntamos nós, seria por um desses motivos que de lá abalou João Ramalho, de maneira quase desconhecida, afrontando a imensidão dos mares, as tempestades os perigos, para se homiziar num cantinho desse paraíso por tanto sonhado e desejado? Teria anseios de plantar, colher, enriquecer?...Vontade de conhecer as belas moças cor de bronze? Desejaria deliciar os olhos e a alma com a paisagem deslumbrante e encantadora desse mundo longínquo, ou teria ânsias de aventura de qualquer espécie, em buscas das quais se atira de olhos fechados? Ou uma desilusão terrível, uma dor, uma mágoa profunda, fizeram-no procurar esses riscos como se fosse um suicídio? Ninguém sabe. Quando teria ele deixado Portugal, a terra amada? Tanto historiadores como pesquisadores estão em desacordo. Uns afirmam que saiu de Portugal em 1510; 18
  19. 19. outros afirmam que saíra de Portugal em 1512; outros mencionam o ano de 1515, e ainda outros atestam ter ele chegado aqui em 1498. Não importa quando tenha saído de Portugal, e porque o fez. Quem sabe mesmo se não teria sido impelido a essa aventura empurrado pelo medo de um castigo cometido por crime? Não importa também. O fato certo e sabido é que os primeiros exploradores vieram encontrá-lo já unidos a mais linda índia da tribo, a filha do Cacique Tibiriçá, falando e entendendo a linguagem dos índios brasileiros da costa paulista. Lá estava ele, feliz, descivilisando à medida que procurava civilizar os bugres; desdobrando-se os filhos, os primeiros mamelucos que a linda esposa Bartira, ofertava à terra vermelha de São Paulo. Bartira ou Butira (Machado de Oliveira, dálhe o nome de Butira), nome bonito que significa "flor". Ela mesma representa na sua figura gentil de índia guianaz, a 19
  20. 20. primeira flor humana transformada na primeira mãe cristã, de paulistas cristãos. Filha do Cacique Tibiriçá, a escolhida por João Ramalho, esse histórico português que foi Capitão entre os seus compatriotas e, segundo Pedro Taques, o linhagista, teve o foro de Cavaleiro e foi mais tarde o fundador da vila de Santo André da Borba do Campo, foi Guarda-Mor e Alcaide-Mor da expedição contra os índios Tupiniquins que, confederados com outras tribos, assaltaram a nascente povoação de São Paulo de Piratininga. Esse João Ramalho que se esqueceu de deixar gravada a sua história, e, como se viu um dia, naqueles primeiros anos do século XVI, aportado às terras do Brasil. A linda Bartira casou-se com ele pelo cerimonial do íncola; o casamento foi abençoado por Deus, que lhes floriu a vida dando-lhes muitos filhos (Tiveram oito filhos, diz Alfredo Ellis Jr. em "Primeiros Troncos Paulistas"). 20
  21. 21. Quando Padre Manoel da Nóbrega os conheceu, ambos avançados em anos e felizes, não se conformou com a ilegitimidade dessa união fora da igreja. Precisavam da bênção católica, e fazendo João Ramalho confessar, soube que o mesmo era casado em Portugal, perante o altar do Senhor, e que ao partir para rumo desconhecido, deixara a esposa, a quem jamais dera notícias suas. O grande missionário jesuíta, para tranquilizar sua consciência e cumprir sua missão, regularizando aquele casamento perante a Igreja, escreve uma longa carta datada de 31 de Agosto de 1553 aos jesuítas em Portugal pedindo à Companhia que investigue se é viva ou morta a esposa de Ramalho, "QUE QUER SABER PARA PODER CASAR COM BARTIRA, E QUE HÁ MAIS DE 40 ANOS VIVE NO BRASIL E TEM DELA MUITOS FILHOS E FILHAS". Nóbrega batizou-a de Isabel Dias; batizou lhes os filhos e filhas, os primeiros 21
  22. 22. cristãos de São Paulo, nascidos dessa mãe semibárbara e linda. Boa mãe, boa esposa, essa quase desconhecida Bartira, foi aos poucos adquirindo hábitos civilizados; viu a chegada de Martin Afonso de Souza em 1532, viu mais tarde a chegada de Ana Pimentel, fidalga, rica, trazendo da Metrópole uma civilização palaciana; viu a fundação da Vila de Santo André da Borba do Campo, como já havia visto em 22 de Janeiro de 1532 a fundação de São Vicente no dia do santo homônimo; viu Braz Cubas construindo a Casa do Porto de Santos; viu a ereção do Hospital de Misericórdia fundado por Ana Pimentel; viu Anchieta atraindo a si os curumins e cunhatains, para ensinar-lhes noções de coisas e a rezar, adorar Deus e ela também vai aprendendo muitas coisas. Quando João Ramalho, aos 73 anos de idade, foi convidado para ser Prefeito de São Vicente, ela lembra-lhe a idade, e ele serenamente, numa carta ao Governador, recusa o alto cargo por "sentir-se velho e 22
  23. 23. cansado" e achar que o governo da cidade necessitava de uma pessoa moça, cheia de vida, de entusiasmo e de disposição para o trabalho. Essa é a mulher que deve descerrar as cortinas do pórtico da História da Mulher Paulista, pois que seu sangue vem passando de geração em geração pelas veias da gente de nossa terra, formando os bandeirantes que alargaram as fronteiras da Pátria, sangue que ainda hoje circula nas veias dos estadistas, dos agricultores, dos industriais, dos poetas, dos operários, e da juventude gloriosa de São Paulo! Bartira - Flor, seu nome ficará nas paginas da História, como já está gravado no sangue heroico dos bandeirantes de todas as eras. Tirado do livro "A Mulher Paulista na História" Adalzira Bittencourt - 1954 23
  24. 24. JOÃO RAMALHO 24
  25. 25. Quando Martim Afonso de Sousa aportou em São Vicente, pelas alturas de 1532, foi recebido, com surpresa sua, por dois patrícios que aqui já se encontravam havia longo tempo: Antonio Rodrigues e João Ramalho. Do primeiro muito pouco se conhece. Apenas que se casara com uma filha de Piquerobi, o cacique de São Miguel de Ururai, com quem teve muitos filhos. Quanto ao segundo, a fama era das piores. "Judeu degredado para uns; simples náufrago casual para outros; precursor de Colombo na América, segundo frei Gaspar da Madre de Deus; filho da casa real, dí-lo Pedro Taques; uma e única pessoa, pelo menos, iniciado nos rudimentos da Cabala, para Horácio de Carvalho", João Ramalho foi uma autêntica figura de novela. Deixara crescer a barba descuidada. Vivendo no mato, no meio da indiada, pouco ligava à indumentária. Era truculento, despótico, dominado pelos modos desabridos. Em consequência, não havia quem não o temesse. Um dia, andejando sempre, 25
  26. 26. galgou a Paranapiacaba, e veio bater nas margens de Guapituba, onde conheceu o cacique Tibiriçá, com quem fez boa amizade. O aventureiro apreciou o lugar. Resolveu ficar. Aquilo por ali estava cheio de "índias passivas e ofertantes, que andavam nuas e não sabiam se negar a ninguém". Uma, porém, no meio de tantas, mexeu-lhe com o coração. Chamava-se Bartira. Além de bonita, Bartira sendo filha do cacique Tibiriçá, era um bom partido. João Ramalho não vacilou. Abandonou as demais e ficou com ela. Tornou-a á predileta. O chefe da tribo gostou. Ter um branco como genro era uma incomensurável honraria para a família... O núcleo de Santo André, assim chamado em memória do padroeiro da vila, foi atraindo outros forasteiros. A seleção não poderia ser das maiores. Apareceu gente de toda a espécie: bons e maus, estes em maior número do que aqueles. Quem era Ramalho 26
  27. 27. Quando Martin Afonso de Sousa aportou a São Vicente, pelas alturas de 1532, foi recebido, para sua surpresa, por dois patrícios que aqui já se encontravam, havia longo tempo: Antônio Rodrigues e João Ramalho. De Antônio Rodrigues, muito pouco se conhece. Apenas que se casara com uma filha de Piquerobi, o cacique de São Miguel de Ururaí, e teve muitos filhos. E sobre João Ramalho? "Judeu degredado, para uns; simples náufrago casual, para outros; precursor de Colombo na América, segundo frei Gaspar da Madre de Deus; filho da casa Real, di-lo Pedro Taques; uma e única pessoa com o bacharel de Cananéia, na opinião de Cândido Mendes; boçal e rude analfabeto; personagem pelo menos iniciado nos rudimentos da Cabala, para Horácio de Carvalho." Na verdade, João Ramalho foi uma autêntica figura de novela. Deixara crescer a barba descuidada. Vivendo no mato, no meio da indiada, pouco ligava à indumentária. Era truculento, despótico, 27
  28. 28. dominando pelos modos desabridos. Em consequência, não havia quem não o temesse. Além, muito além daquelas serras. Um dia, andejando sempre, galgou a serra de Paranapiacaba [subida de Santos ao planalto paulista] e veio bater nas margens de Guapituba, onde conheceu o cacique Tibiriçá, com quem fez boa amizade. O aventureiro apreciou o lugar. Resolveu ficar. Aquilo ali estava cheio de "índias mansas, daquelas índias passivas e ofertantes, que andavam nuas e não sabiam se negar a ninguém". Uma delas, no meio de tantas, lhe mexeu com o coração. Chamava-se Bartira. Além de bonita, Bartira vinha a ser a filha do cacique Tibiriçá. Era um bom partido. João Ramalho não vacilou. Abandonou as demais e ficou com ela. Tornou-a predileta. O chefe da tribo gostou. Ter um branco como genro era uma grande honraria... O núcleo de Santo André 28
  29. 29. O núcleo de Santo André, assim chamado em memória ao padroeiro da vila, foi atraindo outros forasteiros. A seleção não podia ser das maiores. Apareceu gente de toda espécie: bons e maus, estes últimos em maior número do que aqueles. Tendo brotado na beira do sertão, ficou conhecido como Santo André da Borda do Campo. Como seria, naqueles tempos primitivos, Santo André da Borda do Campo? Naturalmente, tinha um aspecto selvagem. A terra era selvagem, os casebres de taipa-de-mão, cobertos de sapé, selvagens; as mulheres mestiças, mal enrodilhadas em panos de algodão, de fisionomias endurecidas pelos trabalhos incessantes, seriam, também, selvagens. "E os homens, na sua rudeza incomparável, barbudos e desataviados, possivelmente vestidos de pele, por toda parte alçando o perfil de lince, seriam, entre todos os seres, entre as próprias feras, os mais temerosos e os mais selvagens." 29
  30. 30. Mas não tardou que o pequenino arraial viesse a receber o título honroso de vila, passando o seu fundador a ser apontado com o título mais honroso ainda "Alcaide Mor e Guarda Mor do Campo"... Um Alemão Assustado Foi nesse tempo que, por ali, apareceu o viajante alemão Ulrico Schmidel, que andava correndo mundo. Tinha um tipo esquisito. Sofria de delírio ambulatório. De Assunção, viera a ter em São Vicente. De São Vicente foi andando. E andando, andando sempre, quando viu, estava no meio de gente branca. Era ali Santo André. Cedamos-lhe a palavra: Afinal, chegamos a uma aldeia habitada por cristãos, cujo chefe se chamava João Reinvelle (sic). Felizmente, para nós, andava ausente, pois o arraial tinha-me cara de ser um covil de bandidos. Partira Reinvelle (Ramalho) para ir com outros cristãos que habitavam uma 30
  31. 31. povoação chamada Vicenda (São Vicente), a fim de, com eles, concluir um tratado. "Apenas lhe vimos o filho, que nos recebeu bem, embora nos inspirasse muito mais desconfiança do que os próprios índios. Deixando este lugar, rendemos graças ao céu por dele havermos podido sair sãos e salvos." "Apesar de tudo, João Ramalho era o homem mais poderoso da região, mais do que o próprio soberano: havia guerreado e pacificado a província, reunindo cinco mil índios enquanto o rei de Portugal só reuniria dois mil". Ramalho excomungado No ano de 1553, Santo André da Borda do Campo viveu o ponto mais alto de sua vida florescente. Então, surgiram os primeiros jesuítas: Manuel da Nóbrega e Leonardo Nunes. O segundo ficou horrorizado com o que presenciava: a mancebia dos portugueses com as índias e o cativeiro dos índios. 31
  32. 32. Aquilo lhe pareceu pior que Sodoma e Gomorra. E não teve dúvidas em excomungar João Ramalho. João Ramalho achou ruim... E começou a luta, uma luta de vida e morte. A mulher de Ramalho decidiu a questão Uma manhã, a coisa tomou aspecto muito sério. O padre, tendo ido dizer missa na igrejinha do povoado, viu entre os presentes João Ramalho e mandou expulsálo do templo. Foi à conta. Saiu um sarilho de todos os diabos. Os filhos de João Ramalho [que não eram poucos] resolveram tomar um desforço. Lá apareceram armados de trabuco, dispostos a matar o jesuíta corajoso. E foram entrando... Na frente, André, o mais velho. Depois, os outros: Vitório, Antonio, Marcos, João... Em casa, ficaram apenas as meninas: Joana, Margarida, e Antônia... Quando Bartira soube de que planejavam os filhos, foi atrás, e meteu-se 32
  33. 33. no meio, desarmou-os, fê-los retroceder... Foi água na fervura. Desistiram do seu intento. E só assim escapou com vida o padre Leonardo Nunes. Um dia depois do outro A coisa era desse feitio, naqueles áureos tempos, na primitiva Santo André da Borda do Campo. Tudo se resolvia a trabuco. No princípio, João Ramalho deu aos padres muita dor de cabeça, e por um triz “não quebrou a pau” a dita cuja de Leonardo Nunes, o padre intrujão. Com os anos, tudo foi mudando. O belicoso João Ramalho já não era o mesmo das primitivas eras. Foi perdendo aquela arrogância, aquele jeitão distorcido... Os filhos, sim, os mamelucos da sua numerosa descendência, aqueles primeiros e desenvoltos paulistas, tornaram-se o terror das cercanias. E deram trabalho medonho... Foi um tempo quente. O fim da vila na borda do campo 33
  34. 34. Já nessa época, São Paulo de Piratininga progredia, absorvendo completamente a vila que ficara atrás. Mem de Sá determinara que Santo André se extinguisse e todos se mudassem para São Paulo. O próprio João Ramalho acabou por concordar. E, para contentá-lo, nomearamno capitão-mor de São Paulo. Era uma maneira jeitosa de atraí-lo. Mas ele, a tempo, descobriu o golpe. Desiludido, não desejou ficar por aqui. Resolveu abandonar o Planalto e ir morar longe. E foi habitar uma cabana rústica no vale do Paraíba. Hospedou-se em casa de Luís Martins. Estava velho e cansado. Apesar de tudo, embora com setenta anos, não tinha uma cã [cabelos brancos] na cabeça nem no rosto, e costumava andar nove léguas a pé antes de jantar... Ramalho vereador 34
  35. 35. Um dia, naqueles 15 de fevereiro de 1564, um grupo pacífico de homens foi procurá-lo na sua casinhola. João Ramalho recebeu-os com certo embaraço. Que queriam dele? Mandou-os entrar. Não havia banco para tanta gente... Ficaram de pé, e de pé falaram. Era uma comissão do Conselho Paulista. Vieram comunicar-lhe que a gente de Piratininga o havia elegido para vereador de sua Câmara. Á hora do troco Ramalho ouviu tudo com a maior atenção. Seu olhar parecia andar por muito longe, distante mesmo... Lembrava-se, talvez, das ingratidões de que fora vítima. Recordava-se das humilhações sofridas. E no mesmo instante, mal sopitando a revolta tardia, alçou o rosto, e achou que chegara o momento azado para a desafronta. Solene, pausado, com um tom superior, retorquiu, altivo: "Não aceito. Vivo bem no meu exílio. Pra que voltar? Além disso, estou velho: sou 35
  36. 36. um homem que já passou dos setenta anos... Digam ao Conselho que João Ramalho declina da honraria, e prefere ficar onde se encontra: prefere acabarem seus dias entre os contrários do Paraíba, na terra dos índios..." E deu-lhes as costas. Um a um, foram saindo. O velho dominador tinha razão: "não nasceu para vereador de um mísero burgo, aquele que sempre foi um rei da floresta”. Morre Martim Afonso Tibiriçá (o cacique) Naquele dia 25 de dezembro de 1562, sofreram os índios um rude golpe. A notícia espalhara-se rapidamente. O cacique Tibiriçá estava passando muito mal. O padre Anchieta, ao seu lado, empenhava-se em suavizar-lhe os últimos momentos. Havia muito, vinha ele sofrendo as “câmaras de sangue”. E com a avançada idade que atravessava aquilo mais lhe torturava os derradeiros estertores. A indiada, cá fora, não se conformava e chorava. Chorava aos gritos angustiados. E 36
  37. 37. pela aldeia rolava aquele lamento surdo e inquietante. Os tambores, lá longe, ecoavam. Logo mais, a nova melancólica caiu como um raio. Tibiriçá morrera! O Martin Afonso [nome cristão que ele adotara] deixara de existir. Piratininga inteira vibrou. Os índios e os padres. Desaparecia um dos seus melhores amigos. À tardinha, realizou-se o sepultamento. Um sepultamento com toda a pompa. Compareceu todo o mundo. João Ramalho e sua mulher, Bartira, batizada com o nome de Isabel, seus numerosos filhos, seus netos, todos os seus descendentes, os jesuítas, os indígenas, chorando... Seu corpo foi levado para o colégio São Paulo e ali sepultado. Era uma deferência das maiores. O repórter Padre Anchieta O padre Anchieta, em carta escrita a 16 de abril de 1563, contava, então, o que acontecera: "Foi enterrado na nossa igreja, com muita honra, acompanhando-o todos 37
  38. 38. os cristãos portugueses com a cera de sua confraria”. "Ficou toda a capitania com grande sentimento de sua morte pela falta que sentem, porque este era o que sustentava todos os outros, conhecendo-se-lhes muitos obrigados pelo trabalho que tomou em defender a terra, mais que todos, acho que nos devemos nós os da companhia e por isso determinou dar-lhe em conta não só de benfeitor, mas ainda de fundador e conservador da Casa de Piratininga e de nossas vidas”. "Fez testamento e faleceu com grandes sinais de piedade e fé, recomendando à sua mulher e filhos que não deixassem de honrar sempre a verdadeira religião que abraçaram." Quem mais sentira a morte de Tibiriçá fora seu genro, aquele barbaçudo e intrépido João Ramalho. Regressara, depois do enterro, ao seu retiro às margens rumorejantes do Paraíba. Parecia que a vida perdera para ele a razão de ser, seu 38
  39. 39. encanto maior. Talvez a idade avançada, talvez os dissabores enormes... E meditou muito longamente sobre a morte. O vale da sombra da morte O velho João Ramalho tratou de preparar-se para enfrentar o momento fatal que haveria de vir, mais dias, menos dias. Mandou chamar à sua presença o tabelião Lourenço Vaz, naqueles três de maio de 1580. Conversaram os dois longamente. Soube-se apenas que, no mesmo dia, o funcionário regressava à casa do ex-rei do Planalto, armado de enorme livro e com a sua pena de pato. Acompanhavam-no o juiz ordinário Pedro Dias e quatro testemunhas. Vinham solenes e carrancudos. E João Ramalho ditou seu testamento. O documento famoso ficou transcrito nas notas do tabelião da Vila de São Paulo. Narrava toda a sua vida, uma vida novelesca e cheia de altos e baixos. Frei Gaspar da Madre de Deus revelou mais tarde que possuía uma cópia do documento 39
  40. 40. original, mas o certo é que pouquíssimas pessoas manusearam o testamento tão discutido. Capistrano de Abreu [historiador, contemporâneo de Rocha Pombo], escrevendo a respeito, deu sua opinião valiosa: "fora de dúvida está que João Ramalho foi um dos colonos mais antigos; preferiu o planalto à beira-mar, fez-se respeitado pelos indígenas, entre os quais granjeou numerosa prole”. "Os hábitos, adquiridos em decênios de vida solta, incompatibilizaram-no com os jesuítas, de cujas crônicas saiu mal notado. Muito deu que falar o seu testamento, do qual sonsamente deduziu frei Gaspar da Madre de Deus que fora ele o verdadeiro descobridor da América; o documento não foi visto só por frei Gaspar, mas até agora não reapareceu." Paulistas de quatrocentos anos 40
  41. 41. João Ramalho morreu tempos depois. Deixou uma descendência colossal, gerando os primeiros paulistas: 1) Beatriz Dias, que foi casada com Lopo Dias, natural de Portugal; 2) Francisco Ramalho Tamarutaca, que foi casado três vezes, sendo a primeira e terceira com Francisca e Justina, índias; 3) Antônio de Macedo, casado; 4) Vitorino Ramalho, casado, que foi assassinado pelos índios Tupiniquins, nas imediações da Vila de São Paulo; 5) JOANA RAMALHO, casada com Jorge Ferreira, que foi, em 1556, loco tenente do donatário da Capitania de Santo Amaro, pertencente a Martim Afonso, filho de Pedro Lopes de Souza. E outros mais... Um lugar perdido no tempo Santo André - já asseverou Teodoro Sampaio [historiador, contemporâneo de Rocha Pombo] - como um ninho de escravismo e toca de turbulência, 41
  42. 42. desapareceu sem deixar vestígios, como se, de vez, a arrasara um braço exterminador. Nas margens do Guapituba, que flui para Piratininga, cerca de uma légua na atual vila de São Bernardo, o viajante debalde procura um trecho de velho muro que lhe recorde este baluarte do alcaidemor da Borda do Campo. Como se fora edificada na areia movediça, onde um sopro de desolação tudo subvertera e apagara, nem mesmo a tradição mameluca se salvou na memória dos raros habitadores destas paragens. É que as cidades também se apagam na vida, como se apagam na iniquidade dos homens. (Fernando Correia da Silva - Sertanejo, pioneiro, 1493(?) – (1580)). Quando Tudo Aconteceu.. 1493 (?): Nascimento de João Ramalho, em Vouzela, distrito de Viseu. 1512 (?): Sua viagem para o Brasil. - 1514 (?): É aceite pela tribo tupiniquim chefiada pelo cacique Tibiriçá, o qual lhe dá como 42
  43. 43. esposa a sua filha Bartira. - 1532: Ajuda Martim Afonso de Sousa a fundar a vila de São Vicente (no litoral do atual Estado de São Paulo). - 1553: Funda e é nomeado Alcaide-mor da vila de Santo André da Borda do Campo, no planalto de Piratininga. - 1554: Ajuda o jesuíta Padre Manuel da Nóbrega a levantar a povoação de São Paulo de Piratininga. - 1560: Mem de Sá, Governador - geral do Brasil, extingue a vila de Santo André e promove São Paulo a vila. - 1562: João Ramalho, com a ajuda de Tibiriçá, comanda a defesa de São Paulo contra o ataque da chamada "confederação dos tamoios". - 1564: Recusa o cargo de vereador da vila de São Paulo e retira-se para o vale do Paraíba. - 1580: Morre João Ramalho em São Paulo. Confissão Vossa Reverendíssima insiste ouvir-me em confissão? Compreendo e agradeço o cuidado. Já fiz 87 anos, amanhã vou apagar-me e quereis que eu vá sem mácula 43
  44. 44. à presença do Criador. Porém, nesta passagem, mais temo por vós do que por mim. Explico-me e perdoai-me o doesto: sois muito verde, noviço recém-chegado. Sem prévia vivência das terras do Brasil, não conseguireis entender os volteios da minha vida. Ireis ficar escandalizado como escandalizado ficou em tempos o Padre Manuel da Nóbrega, o fundador desta vila de S. Paulo. Chegou mesmo a pregar que petra scandali era toda a minha vida. Mais tarde corrigiu a opinião, mas que o disse lá isso disse, e quase me excomungou. “Não, Padre, Ramalho é a minha alcunha por causa da minha barba que foi sempre ramalhuda. Maldonado é que é o apelido do meu pai. Nome de cristão novo achais que sim? Antes de vós, já outros disseram o mesmo e até disseram que a rubrica ou gatafunho com que assino os documentos é um kaf, letra hebraica. Portanto, para eles, marrano fugido ou degredado para o Brasil serei eu. Outros opinam que eu sou apenas um náufrago que 44
  45. 45. deu à costa. Nada disso eu desminto ou confirmo. Padre: mais vale cair no mar fundo do que rolar nas bocas do mundo... Contra correntes adversas, não vale a pena resistir-lhes. Não se perca o fôlego, é deixar que nos arrastem. Só quando começam a enlanguescer é que, num repelão, delas podemos nos safar. E eu safei-me, como estais vendo, pois venho aqui a morrer de velho. Padre foi por entre duas águas que atravessei a vida”. A Ilha do Paraíso Em Vouzela, onde nasci, despeço-me de Catarina, a minha esposa, e parto para Lisboa. O motivo? Padre: essa é matéria que não vem ao caso. Pecados, se os cometi, foram aqui e não em Portugal, e pecados é o que eu devo confessar. Abalo de Vouzela, coração apertadinho... Suponho, e bem, que nunca mais tornarei a ver a Catarina, pois o meu destino é o Brasil tão distante. Mas, ao chegar a Lisboa, logo me animo. Não só por causa das novas da expedição de Fernando Noronha que, esse 45
  46. 46. sim! Veramente cristão-novo e mercador, o que não obstou que El-Rei D. Manuel, o Venturoso, lhe tivesse arrendado as terras de Vera Cruz desde 1502 a 1505 para o abate e recolha de pau-brasil, então muito procurado para a tingidura de panos. E foram 20 mil quintais que renderam cinco por um. Pensei que o nome do pau-brasil lhe viesse da cor de brasa, mas um marinheiro bretão, com quem fiz amizade, conta-me que na sua terra, e na sua língua, corre a antiga lenda que O'brazil é o nome verdadeiro da Ilha do Paraíso, e que tinham sido os afortunados portugueses a descobrila, e por isso está ele em Lisboa na esperança de poder ser engajado numa viagem ao Paraíso. Arribo a esta costa do Brasil em 1511, talvez em 12, ou 13, não sei ao certo, com tantos anos em cima do lombo a memória já me vai falhando. Bem acolhido sou por António Rodrigues, o degredado português a quem todos chamam, ou chamavam, o "bacharel de Cananéia", e que há muito 46
  47. 47. tempo vive entre os índios tupiniquins da beira da praia. Apadrinha-me e logo me parece que demandei veramente o Paraíso, pois, ao acolherem-me, os índios começam por me dar mulher nova, escorreita e muito limpa, e eu estou na casa dos 20 anos, deslumbramento... NUDEZ E MALÍCIA É o que eu temia: Vossa Reverendíssima já começa a benzer-se e a apostrofar-me por ter caído eu em pecado mortal, que é o da fornicação e luxúria. Segui o ditado em Roma sê romano e confesso que, entre os índios, índio fui. Para 47
  48. 48. eles, pecado é recusar o que a natureza prazerosa manda colher. Vossa Reverendíssima escandaliza-se com a nudez das mulheres nativas e desvia os olhos para não mirar aquilo a que chama suas vergonhas. Mas se malícia existe não será nelas, pois com inocência revelam os corpos que Deus lhes deu, tal como vós mostrais a nudez das vossas mãos. E mais vos digo que assim desnudas são elas mais discretas e modestas do que as ataviadas damas do Paço e nem sequer estou a compará-las com as marafonas que, vestidas da cabeça aos pés, andam em requebros pelas ruas de Lisboa. Quanto ao relacionamento que estas índias têm com os homens, procedem elas com a mesma naturalidade e prazer com que se refrescam e matam a sede com a água de coco. Uma coisa de comum têm as nativas com as reinóis: a vaidade. Mas enquanto as de lá gastam os dias a escolher tecidos, brocados e roupas com que pensam adornarem-se, estas daqui passam o tempo 48
  49. 49. a fazer cocares com penas de aves e a fantasiar desenhos e motivos com que irão pintar os corpos umas das outras. São elas também que pintam, com mão firme, a geometria que se espalha sobre os corpos de rapazes e guerreiros. Tintas preparadas com barro, resinas e sumos de frutas. Portanto pinturas que duram apenas até ao próximo banho. Porque estes índios são muito asseados, chegam a tomar um, dois, ou mesmo três banhos por dia. São muito diferentes dos portugueses, que fedem como os porcos que trouxeram do Reino. Potira e Tibiriçá Vinda do planalto de Piratininga, um dia baixou à praia, Potira, cujo nome quer dizer flor. Não sei por que os portugueses insistem em chamá-la de Bartira, já que o seu nome verdadeiro é Potira... Índia jovem, quase uma menina, esbelta, verdadeira flor de manacá. Boto os olhos nela e quedo logo embeiçado. Afaga-me as barbas, ri-se do meu enleamento e vai-se 49
  50. 50. embora. Resolvo segui-la. Por veredas que descubro ou invento por entre o mato grosso da encosta íngreme, trepo pela serra de Paranapiacaba acima. Aquela a que ides chamando Serra do Mar. Potira é filha de Tibiriçá, cacique de Inhapuambuçu, a principal taba ou aldeamento dos campos de Piratininga. Também o cacique parece gostar de mim. Espanta-se com a minha barba ramalhuda e diverte-se com a minha forma de falar a sua língua. Adopta-me e dá-me Potira em casamento. Antes de construir a minha oca, ficamos provisoriamente a viver na maloca, ou palhoça colectiva, do meu sogro. Promiscuidade? Saiba Vossa Reverendíssima que homem nascido numa maloca não pode casar ou ter conjunção carnal com mulher nascida na mesma maloca e todos aceitam voluntariamente esta lei. Portanto, promiscuidade não é, mas outra forma de vida muito diferente daquela a que os portugueses estão acostumados. Na maloca de Tibiriçá vivem, entre 50
  51. 51. homens, mulheres e crianças, umas duzentas pessoas. Está dividido em várias secções, em vários lares, e em cada lar um homem com as suas mulheres e os seus filhos. Entre os moradores da maloca não há segredos e o que pertence a um pertence a todos. E o mesmo altruísmo estende-se aos moradores das seis malocas vizinhas, e aos dos outros aldeamentos mais à frente porque, por casamentos cruzados das mulheres de um grupo, ou maloca, ou taba, com homens de outro grupo, de outra maloca, de outra taba, todos eles são parentes, e assim todas as tribos de uma mesma nação que ocupa um território por vezes maior do que o de Portugal vive em amizade e harmonia. Sim, Padre, confesso que mulheres tive e tenho muitas, pois todos os caciques queriam e querem ser meus parentes. Mas a esposa principal é Potira. Respeitada pelas demais, na minha maloca a sua rede fica sempre armada junto à minha. De Potira e das outras tenho muitos filhos e filhas. Os 51
  52. 52. meus meninos mestiços... Ou caribocas, como dizem os índios; ou mamelucos, como dizem os portugueses; mas esta é palavra árabe que perdeu o rumo, porque significa pajem, escravo ou criado e os meus filhos nunca foram nem meus pajens, nem meus escravos, nem meus criados, embora outros caribocas, que não os meus, tenham sido tudo isso para outrem que não eu. Os meus caribocas andam por aí desde as praias de S. Vicente, Bertioga e Itanhaen até aos campos de Piratininga, a dar-me força e prestígio, pois casaram e tiveram filhos e netos que, por sua vez, também se casaram, e por isso me tornaram parente de quase todos os tupiniquins. De mim alguém disse (e não mentiu) que, se necessário, num só dia eu poderia reunir à minha volta 50 mil homens. E reuni, não foram precisos tantos, mas uma vez eu reuni largos milhares e por isso o Padre Manuel da Nóbrega me ficou muito agradecido. O caso aconteceu lá pelos idos de 1562, depois eu conto. 52
  53. 53. Se tudo isto é pecado, então, Padre, eu pecador me confesso. Mas bater no peito eu cá não bato, nem faço acto de contrição. Não podeis, por isso, absolver-me, nem darme a extrema unção? Sossegai, pois, na Sua omnisciência, saberá Deus Nosso Senhor entender e perdoar os volteios da minha vida... Padre, o que fiz nesta vida, nesta vida eu não renego. E na outra, a ver vamos... Fundação de São Vicente João Ramalho ajuda Martim Afonso de Sousa a fundar a vila de São Vicente. E, entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica Padre: em 1532, tenho eu uns 40 anos, ouço a nova que várias canoas grandes (assim os índios chamam às naus) com homens brancos a bordo, tinham fundeado junto à praia. E que António Rodrigues, o "bacharel de Cananéia", em vão tentava interpor-se entre índios e brancos, guerra à vista. Com os meus 53
  54. 54. homens desço a serra, chego à praia. Comanda a expedição Martim Afonso de Sousa, a quem El-Rei D. João III concedera donataria com cem milhas de costa e todas as terras que houvesse dentro, limitadas a norte e a sul por duas paralelas ao Equador. Se, por um lado, eu sou respeitado chefe tupiniquim, por outro, português continuo ainda a ser. A nadar assim por entre duas águas, só a paz poderá sossegar o meu tormento e trato de promovê-la. Em tupi, discurso para os índios e, em português, para os lusos. Digo-lhes que os brancos ocupem o litoral, mas que deixem os índios continuar nas suas fainas de pesca. Que uns não molestem os outros. Que iniciem o escambo do que uns têm a mais e outros a menos, e todos alcançarão seus proveitos. E assim se faz. Martim Afonso de Sousa e os seus dão seis anzóis e dois cunhas por 80 patos, e duas cunhas grandes mais 20 punções e quatro tesouras por dois antas, e cinco cunhas mais cinco anzóis por cinco cargas de milho, e 100 54
  55. 55. facas por 200 rolas, e 15 cunhas mais 15 anzóis médios por 15 veados, e 40 cunhas mais 12 tesouras e 52 anzóis por 52 cabaças de mel em favo, e dois tesouras mais 25 punções e 24 anzóis por 26 cargas de ostras. Portugueses e tupiniquins ficam todos muito contentes com o escambo, pois os brancos estão muito carenciados de mantimentos e, para os índios, ferramentas de ferro é algo de milagroso. Mais se firma a paz e a boa amizade quando eu facilito mulheres para os portugueses solteiros e as cunhantãs até quedam muito felizes com o arranjo, pois num repente melhoram de vida. Padre: podeis excomungar-me, mas atentai que alcoviteiro não fui eu, porém apaziguador de vendavais. Com António Rodrigues e os meus filhos caribocas e muitos outros tupiniquins, ajudo os portugueses de Martim Afonso de Sousa a construir casario de pedra e cal, também a igreja matriz e assim rompe a vila de São Vicente. 55
  56. 56. Então, nos campos em redor de São Vicente, os portugueses começam a plantar cana de açúcar e a levantar engenhos e pedem-me que lhes forneça escravos para os trabalhos da lavoura. Os tupiniquins não sabem o que isso seja, mas sei eu. Nas guerras que mantínhamos com os tamoios e outros tapuias, fazíamos muitos prisioneiros. E então me ponho a pensar que mais vantajoso será vendê-los aos portugueses do que comê-los, costume que veramente me dá a volta ao estômago e à alma. Tento conciliar o inconciliável e assim ajudo a abrir as portas do inferno em que hoje vivem todos os índios, os tapuias, mas também os meus tupis, porque os portugueses, a partir do momento em que passam e ter índios como escravos, e não querendo distinguir tupis de tapuias, acham que todos os índios devem ser escravos seus... Padre, por ora não estou a falar de vós nem dos outros missionários jesuítas, mas daqueles portugueses que vêm do Reino ao Brasil com a ambição de fazer 56
  57. 57. fortuna rápida e logo tornar à pátria. Deles também se queixa o Padre Manuel da Nóbrega. Um dia ouço que se lamenta, embora aos solavancos, pois tartamudo é ele: -De quantos vieram lá do Reino, nenhum tem amor a esta terra. Todos querem fazer em seu proveito, ainda que seja à custa da terra, porque esperam de se ir. Não querem bem a terra, pois têm a sua afeição em Portugal; nem trabalham tanto para favorecê-la, como para se aproveitarem de qualquer maneira que puderem. ... Mas doutra ouço que assopra aos missionários:- Se El-Rei quer ver os índios todos convertidos, pois deve mandar sujeitá-los. Deve haver um protector dos índios para fazê-los castigar, para não deixá-los comer carne humana, nem guerrear sem licença do Governador, fazerlhes ter uma só mulher, vestirem-se, pois tem muito algodão, fazê-lo viver quietos sem se mudarem para outra parte. E eu já não sei Padre, já não sei qual é 57
  58. 58. a pior sujeição: se a física ou a mental. ESCRAVIDÃO Comedores de Carne Humana Sim, Padre, confesso que, embora a contra gosto, também eu fui um comedor de carne humana, em Roma sê romano. Não fique Vossa Reverendíssima horrorizado que eu sei de horrores maiores cometidos lá no Reino. Quando, numa guerra, os tupiniquins aprisionam um tapuia, não tratam mal o 58
  59. 59. prisioneiro, até antes pelo contrário. Dãolhe de comer e beber, tudo quanto queira. Chegam mesmo a dar-lhe mulher que em tudo o serve. E quando amanhece o dia marcado para o sacrifício, empunhando o tacape, que é um pilão de guerra, o carrasco aproxima-se da vítima e diz-lhe: - Sim, vou matar-te, pois a tua gente também matou e comeu muitos dos meus. Se o tapuia não tremer, não desfalecer de medo, se for homem de coragem, responderá: - Depois que eu for morto, os meus irão vingar-me, tu vais ver. Então o carrasco, com o tacape, acerta-lhe uma pancada na nuca e assim é morto o prisioneiro. Só depois começam a assar-lhe o corpo. E se ele foi homem de coragem, mais disputada é a sua carne, porque todos pensam partilhar assim de tal coragem. Padre, não me comove a vossa repugnância, pois eu sei que no Reino agora a voga é, em nome de Deus, prender judeus 59
  60. 60. e cristãos-novos, é torturá-los até lhes partirem os ossinhos todos, é levá-los ainda em vida à fogueira, o que é grande maldade que não se usa por aqui. Assam-nos em vida e depois nem sequer os comem; desperdício. Santo André da Borda do Campo João Ramalho é nomeado Alcaide-mor da vila de Santo André da Borda do Campo. E, entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica Padre: em 1553, aproximadamente 20 anos depois de Martim Afonso de Sousa se ter ido embora, e estava eu com mais ou menos 60 anos, o seu primo Tomé de Sousa fundeia as suas naus ao largo de São Vicente. Mas vem como Governador-geral do Brasil, porque El-Rei tinha acabado com as donatarias, pois das 15 só dois tinham resultado: a de São Vicente, por esforço meu, e a da Bahia por esforço de um Diogo Álvares Correia, a quem os tupinambás, 60
  61. 61. com os quais vivia, chamavam Caramuru. Junto com Tomé de Sousa vinha o jesuíta Padre Manuel da Nóbrega, com a missão de evangelizar os tupiniquins. Antipatiza logo comigo e quase me excomunga, já vos disse. Mas, em abono da verdade, devo acrescentar que, anos depois, para me safar de pecado mortal, tentará casar-me com Potira. Aviso-o que tenho mulher legítima no Reino. Escreve para Vouzela, a saber, novas de Catarina, se ainda é viva ou já finada. Não vem resposta. Na dúvida, manda que eu acabe com a mancebia. Recuso repudiar Potira eu cá não repudio. Para escândalo do Padre decido continuar a viver em pecado mortal... Este Tomé de Sousa é homem decidido. Para evitar incursões dos corsários franceses que infestam as costas do Brasil, manda construir um forte na barra de Bertioga. E para congregar os colonos que andavam esparsos pelo litoral ao sul de São Vicente, manda edificar a vila de Conceição 61
  62. 62. de Itanhaen. Depois, para sustar o comércio dos moradores de São Vicente com os castelhanos de Assunção do Paraguai, na serra de Paranapiacaba cega as veredas de acesso ao planalto e decide construir, lá no alto, uma vila cuja guarnição impeça a passagem dos mercadores num e noutro sentido. A medida revolta a população de São Vicente que tem os seus interesses em tal comércio, mas foi pensado assim e assim se faz. E, contra a opinião do Padre Manuel da Nóbrega, sou eu o indicado para, lá na boca do sertão de Piratininga, fundar a vila de Santo André da Borda do Campo. Também sou o seu primeiro e único Alcaidemor, pois a vila será extinta em 1560 pelo novo Governador-geral Mem de Sá. São Paulo de Piratininga João Ramalho ajuda o Padre Manuel da Nóbrega a fundar São Paulo. E, entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica. 62
  63. 63. Saiba Vossa Reverendíssima que, apesar da má vontade do Padre Manuel da Nóbrega, em 1554 ajudo-o a fundar São Paulo de Piratininga, povoação que Tomé de Sousa mandara levantar. Sempre esta minha mania de nadar por entre duas águas, conciliação... Santo André e São Paulo, duas povoações tão próximas uma da outra, mas por quê? Um capitão, que é muito meu amigo, pois muito lhe facilitei a vida junto dos tupiniquins, comete inconfidência e mostra-me o Regimento de D. João III para Tomé de Sousa. As instruções são claras: "Será grande inconveniente os gentios, que se tornaram cristãos, morarem na povoação dos outros e andarem misturados com eles; e será muito serviço de Deus e meu apartarem-nos da sua conversação. Encomendo-vos e mando que, os que forem cristãos, morem junto, perto das povoações das ditas capitanias, para que conversem com os cristãos e não com os gentios, e possam ser doutrinados e ensinados nas coisas da Santa Fé; e aos 63
  64. 64. meninos, porque neles imprimiram melhor a doutrina, trabalhareis por dar ordem como se façam cristãos e que sejam ensinados e tirados da conversação dos gentios". Tomé de Sousa não pensava povoar o planalto. São Paulo, com o seu Colégio, e com o seu Padre Anchieta que tão bem aprendeu a falar tupi que até nessa língua faz hinos e poemas, era apenas um aldeamento para a evangelização dos índios. Já Mem de Sá, terceiro Governadorgeral do Brasil, é um pau de dois bicos. Começa por proibir escravizar os índios. Mas, ao mesmo tempo, manda desimpedir as veredas de Paranapiacaba e em 1560 extingue a Santo André dos meus guerreiros tupiniquins (e de escassos peões portugueses) e promove São Paulo a vila. É um nebuloso convite aos aventureiros, porém convite: subam ao planalto a caçar índios! E eles começam a subir, ó se começam... E são perigosos, devastadores, pois os portugueses facilmente se adaptam 64
  65. 65. a tudo: se não há farinha de trigo, pois coma-se a de mandioca, se não há uvas, pois comam-se jabuticabas, se não há bagaço de vinho, pois beba-se aguardente de milho, se não há colchões, pois durma-se em rede, se não há putas brancas, pois fodam-se índias! Desleixados, sem planos prévios levam tudo a eito, dispostos apenas ao trabalho de pôr os outros a trabalhar para eles, sequiosos que estão de honrarias e riquezas... Atormentado, rolado entre duas águas, com os meus tupiniquins abandono a extinta vila de Santo André e retiro-me para o sertão. A Conferência dos Tamoios 65
  66. 66. Tantas atrocidades são cometidas que bastam apenas dois anos para unir todas as tribos dos tamoios, desde Bertioga ao Cabo Frio, e até mesmo ao vale do Paraíba... E eis uma nação de índios congregada para arrasar São Paulo, com todos os seus moradores, homens de armas, padres, artesãos, mercadores e senhores de engenho, o povo todo... Em desespero de causa o Padre Manuel da Nóbrega mandame pedido de socorro. Atendo, é a pecha do costume, as duas águas... Com Tibiriçá, o 66
  67. 67. meu sogro, em dois dias reúno milhares de homens. Em 1562 há lutas, escaramuças, guerras e morticínios, mas os tamoios não conseguem entrar em São Paulo. Sou eu quem comanda toda a defesa. Assim o querem os portugueses, assim o faço. Depois os Padres Manuel da Nóbrega e Anchieta entram a parlamentar com os tamoios. Dão razão às suas queixas e prometem-lhes que os brancos não mais irão prear índios porque eles, Padres, são contra a escravização. Os tamoios acreditam que assim vai ser. Em 1563, em Iperoig, os Padres e os tapuias fazem a paz. Coitados de tapuias e tupis... MEDITAÇÃO Em 1564 oferecem-me o cargo de vereador de São Paulo. Recuso e, com os meus homens, retiro-me para o vale do Paraíba. Por lá fiquei até hoje, já lá vão 16 anos. Tive muito tempo para meditar sobre as duas águas em que andei e ando sempre a rolar. 67
  68. 68. Padre: o índio segue a natureza, o português luta contra ela. Quando, por causa das queimadas, se esgotam as suas terras, o índio abandona-as, procura e desbrava outras e tantas há que parecem não ter fim... Constrói uma nova taba ou aldeamento, reconhece o novo território de caça. Para apanhar pacas, capivaras, tamanduás, coatis e outros bichos, coloca as armadilhas nos trilhos novos. Nos rios que descobriu observa a que pegões vão os lambaris e outros peixes em cada época do ano. O índio está sempre a mudar de lugar, para ele não tem sentido a casa de pedra e cal. Também não tem sentido a acumulação de víveres, pois o calor apodrece-os. Conhecendo a natureza como conhece, em cada momento dela vai retirando o que precisa. Já a ambição do português, habituado à penúria dos seus Invernos, é acumular, de tudo, o mais que possa, em tempo curto, cereais e frutos secos, conservas em azeite, ou fumeiros, ou salgadeiras de carnes e peixes. Nem os 68
  69. 69. índios conseguem entender os portugueses (aos quais chamam de loucos), nem os portugueses conseguem entender os índios (aos quais chamam de selvagens). Padre: olvidei estas diferenças, quis conciliar o inconciliável e o resultado é o que se vê. Reparai agora que todas as tribos de fala tupi, que ocupam a faixa litorânea desde o norte do Brasil até ao rio da Prata, por causa dos casamentos cruzados e alargados, são todas elas aparentadas. Só mais para o interior é que vivem e reinam as outras tribos ou nações tapuias, que são dezenas, se acaso centenas não forem elas. Até parece que Deus Nosso Senhor, ao espalhar os tupis pela costa do Brasil, quis preparar a entrada dos portugueses, pois a estes lhes bastou aprender apenas mais uma língua, para se fazerem entender de norte a sul em tamanho território. Vossa Reverendíssima não torça o nariz porque, embora os portugueses sejam os novos donos do Brasil, aqui a língua portuguesa é como o latim, lá no Reino, só 69
  70. 70. poucos a falam. Aqui, a língua-geral é o tupi, embora corrompido pela língua portuguesa, porém tupi ainda. E até a língua portuguesa que algumas criancinhas aprendem no Colégio (não nas ocas ou malocas) vai sendo corrompida pelo tupi. Vossa Reverendíssima, em Coimbra, falava um português impecável. Aqui já vai dizendo urubu em vez de abutre, mirim em vez de pequeno, saúva em vez de formiga, capim em vez de forragem, jabuti em vez de cágado, arapuca em vez de armadilha, catapora em vez de bexigas, jararaca em vez de cobra, e tantas mais... E eu pergunto-me se as facilidades que os povos de língua tupi deram aos portugueses estão a ser devidamente retribuídas pela forma como estes tratam aqueles. Não, Padre, não estou a falar apenas da sujeição física, mas também daquela outra que promoveis com a evangelização dos índios, esse vosso trabalho de sapa das suas antigas crenças e tradições, afinal suas referências para a vida 70
  71. 71. ter sentido e apetecer. Estou a falar dos muitos milhares de índios que, em consequência, vão perdendo a vontade de viver e de resistir à opressão dos brancos. Bem sei que anjos, não homens, é o que vós, jesuítas, pretendíeis fabricar nos vossos aldeamentos. Mas vejo que não haveis conseguido nem uma coisa nem outra, apenas mortos-vivos. Padre: estou velho e prestes a apagarme. Português nasci e só ambiciono, na hora da morte, ouvir falar a minha língua natal. Só por isso tornei a esta vila de São Paulo, é ainda esta minha pecha das duas águas... Padre: se tudo o que digo vos parecer blasfêmia, pois relevai as patetices de um velho senil que a vós chega amparado pelos seus caribocas, e tratai de encomendar-me a alma a Nosso Senhor, deus dos brancos, que um pajé, antes do meu retorno, já a encomendou a Tupã, deus dos índios. 71
  72. 72. 72
  73. 73. Histórias das Famílias Relatos de Antonio Souza Sampaio SEBASTIÃO FLORIANO E MARIA MIQUILINA Meu avô Sebastião Floriano de Camargo Sampaio, filho de Francisco de Paula Souza Camargo e Maria Fausta do Amaral Camargo, casou-se em Campinas em 25/01/1872, na Matriz de Santa Cruz. Era advogado na cidade de Campinas, exerceu suas funções em Amparo (onde nasceu meu pai, Adão de Camargo Sampaio) também em Atibaia, Bragança Paulista, Mogi - Mirim e Capivari. Minha avó, Maria Miquilina Ribeiro de Camargo e Castro, era filha do maior fazendeiro de Campinas, Comendador e Tenente Coronel Querubim Uriel Ribeiro de Camargo e Castro. A fazenda do Tenente Coronel Querubim era no arraial dos Sousas, hoje Distrito de Sousas é ligada á Campinas, 73
  74. 74. ocupava uma imensa área nos dois lados do rio Atibaia. O Tenente Coronel também tinha uma chácara maravilhosa na cidade de Campinas, fornecia muitos produtos ao povo da cidade, como leite, frutas, verduras e legumes. Político influente e de grande prestígio social, foi vereador e presidente da Câmara, cabendo-lhe saudar o Imperador Dom Pedro II, em 1846, quando este visitou Campinas pela primeira vez e ficou hospedado em sua casa. Sua majestade o agraciou com a “Ordem das Rosas” - Tenente Coronel Chefe do Estado Maior da Guarda Nacional dos municípios de Campinas, Bragança, Atibaia, Nazaré, Jundiaí e Constituição, depois Piracicaba da Província de São Paulo. O Comendador das Rosas cultivava suas fazendas com escravos, e seu genro, meu avô, Sebastião Floriano de Camargo Sampaio, tinha muita pena da escravidão e trabalhava com afinco para a libertação, era 74
  75. 75. abolicionista, o que acabou criando uma grande inimizade com o sogro. O Coronel ficou muito sentido e bravo com meu avô. ANTONIO DE SOUZA LARA Meus avôs Antônio de Souza Lara e Eudoxia Lazara Ribeiro de Souza Lara, ele paulista de Piracicaba, ela carioca do Rio de Janeiro, quando se casaram foram morar em São Carlos. Meu avô era um famoso mestre de obras, viviam muito felizes. Trabalhou com afinco e conseguiu ser proprietário de várias casas na cidade, onde nasceu minha mãe. O coronel Querubim Vieira, político forte da cidade de Brotas, possuidor de várias fazendas, contratou meu avô para construir o prédio do Grêmio Literário Brotense. Meu avô mudou-se com a família para Brotas e começou a obra com muitos empregados. A construção já estava bastante adiantada, quando durante uma 75
  76. 76. grande chuva, meu avô foi surpreendido por uma enxurrada canalizada em direção aos alicerces, o que comprometeu o serviço já feito, abalando as paredes, as quais já estavam respaldadas. Toda culpa recaiu sobre meu avô. Homem sério, honesto e cumpridor de seus deveres, meu avô Antonio demoliu tudo o que tinha feito e reconstruiu por sua conta. Para isso teve que vender seu patrimônio, ficando quase a zero. Posteriormente foi comprovado que a canalização da enxurrada, nos alicerces do prédio do Grêmio, foi criminosa, feita as escondidas, por homens a mando de políticos do partido contrário ao do coronel. O Coronel era um homem honesto e muito bom, após os esclarecimentos do acontecido quis recompensar meu avô por perdas e danos. Vendeu-lhe a fazenda Bela Vista por um preço bem baixo, facilitou-lhe o pagamento, o que o deixou muito feliz e contente. Após o término dos serviços da construção do Grêmio Literário Brotense, 76
  77. 77. que até hoje é um belo prédio, mudou-se com a família para a sua fazenda, onde viveram felizes muitos anos. ADÃO DE CAMARGO SAMPAIO E ERNESTINA DE SOUZA LARA SAMPAIO Adão de Camargo Sampaio nasceu na cidade de Amparo – SP, em 28/09/1883, 77
  78. 78. onde seus pais Sebastião Floriano de Camargo Sampaio e Maria Miquilina Ribeiro Sampaio residiam, sendo Sebastião advogado nessa cidade. O interessante é que na Igreja Matriz de Amparo existe a imagem da Padroeira, com os braços curvados em forma de um amparo, e em 1883, o nenezinho Adão foi colocado e Batizado nos braços de Nossa Senhora do Amparo. Adão, quando criança, juntamente com seu irmão gêmeo Wenceslau, ficaram internos e estudaram no Liceu Coração de Jesus, em São Paulo. Adão era um menino aplicado e muito querido pelos professores, possuía uma excelente voz e fazia parte integrante do coral, da Igreja, tendo participado de várias apresentações do Coral em lugares importantes na cidade de São Paulo. Eles não se acostumaram naquela vida rígida imposta aos internos do Liceu, principalmente com a comida, e repetidas vezes fugiram e voltaram para casa. 78
  79. 79. Sebastião Floriano, saturado com essas idas e vindas dos filhos, sempre fugindo do Liceu, desgostoso, levou-os para o Colégio de sua cidade. Com o passar do tempo, Adão estava casado com Ernestina de Souza Lara Sampaio e morava no município de Brotas – SP – Fazenda Bom Jardim, lecionava e trabalhava na lavoura. Fazenda Bom Jardim Quando nasci, meu pai era o professor da Escola da Fazenda Bom Jardim, uma fazenda muito bonita, e lecionava para uns trinta alunos. Essa fazenda era cortada pelo rio Jacaré Pepira e os proprietários eram meus tios Job, Ana e Francisco Uladislau Figueiredo e tia Mariquinha. Também me lembro de meu padrinho Albino. Lá morei até os meus sete anos, época em que mudamos para a Fazenda Bela Vista. Valentia Dobrada Meu pai lecionava, nas horas de folga fazia algumas plantações e também era 79
  80. 80. barbeiro. Sempre havia pessoas para cortar o cabelo ou fazer a barba, e ele vivia sempre ocupado. Certo dia, meu pai pediu para o empregado José ir lavar sua espingarda no rio. Além da espingarda, José levou também os aviamentos. Após lavá-la, começou a dar tiros, mirava e atirava nas bananeiras inclusive colocando a vareta como munição. Contaram a meu pai o que o camarada estava aprontando e ele saiu ás pressas rumando até o local. Chegou muito nervoso, tomou a espingarda da mão do José e o despediu. Esse empregado era encrenqueiro e gostava de uma briga, tratava-se de um negro, magro, alto e muito valente, que andava com uma faca bem afiada, de ponta aguda, na cintura. No acerto de contas, o empregado ficou devendo e, como pagamento da dívida, meu pai ficou com enxada dele, que estava na roça. José não gostou do acerto, e na hora que foi despedido prometeu que 80
  81. 81. no dia seguinte iria á roça buscar a sua enxada. Na manhã seguinte, meu pai estava rumando para a roça, foi aconselhado por seus primos a esquecer da enxada, porque o José prometeu que a levaria de qualquer maneira. Mesmo assim, como meu pai não tinha medo, foi para a roça pegou a enxada e começou carpir. Chegou José, reclamou pela sua enxada, meu pai repetiu que era pagamento de sua divida e não iria devolvê-la. José tirou a faca da cinta e avançou, meu pai ergueu a enxada e foi ao seu encontro, o camarada ficou com medo e saiu correndo. Meu pai voltou para a sede da fazenda e foi ovacionado com vivas, o que o deixou muito envaidecido. Conta-se que até hoje ninguém sabe o paradeiro do José. Fazenda Bela Vista A fazenda Bela Vista era propriedade dos meus avôs Antônio Souza Lara e Eudoxia Lazara Ribeiro de Souza Lara, 81
  82. 82. sendo ele paulista de Piracicaba, e ela carioca do Rio de Janeiro. Quando se casaram, foram morar em São Carlos, meu avô era um famoso mestre de obras, viviam muito felizes, trabalhou com afinco e conseguiu ser proprietário de várias casas na cidade, onde nasceu minha mãe, Ernestina de Souza Lara Sampaio. Posteriormente, trabalhando em Brotas, conseguiu comprar a Fazenda Bela Vista e a cultivou por muito tempo. Depois de muitos anos, a Fazenda Bela Vista foi dividida entre aos filhos e meu pai mudou-se para lá e assumiu a parte que lhe coube. Mas, como nas famílias sempre há discordantes, meu pai e o tio Antonio, irmão de minha mãe, sempre estavam se estranhando. Tio Antonio sempre irritando meu pai, muitas vezes chegou às vias de fatos e foram apaziguados pela turma do “deixa disso”. 82
  83. 83. Adão não estava gostando nada daquilo, vivia sempre com o cunhado atravessado na goela. Daquela maneira não podia continuar, precisava resolver a situação, trocou ideias com minha mãe e resolveram pedir conselho a avó Miquilina. Montou em seu cavalo e foi conversar com sua mãe na Fazenda Pinheiro. Contou o que estava acontecendo, ela ficou muito triste e procurando uma saída para o caso contou tudo ao Maneco (Manoel Antonio de Oliveira Pinheiro), administrador da fazenda, e primo de meu pai. Maneco, para dar uma solução e por um fim nas desavenças, combinou com meu pai para que vendesse sua parte na fazenda Bela Vista, que ele, Maneco, venderia a sua parte que tinha na Fazenda Pinheiro para meu pai. Chegando de volta á Bela Vista, meu pai procurou o tio Antônio e ofereceu suas terras, era o que ele sempre queria, devido ás terras estarem anexas ás dele. Mais que 83
  84. 84. depressa combinaram o preço e fecharam o negócio. Logo que meu pai vendeu sua parte na Fazenda Bela Vista, foi procurar Sr. Maneco na Fazenda Pinheiro e comprou suas terras, como haviam combinado. Deixamos a Bela Vista e mudamos para a Fazenda Pinheiro. Foi maravilhoso porque mudamos em nossas terras e livres das encrencas com meu tio Antonio. Fazenda Pinheiro Meu pai, além de cuidar de suas terras, foi contratado pelo inesquecível José de Oliveira Pinheiro, para lecionar na escola da fazenda. Quem diria posteriormente Juca Pinheiro, como era conhecido, seria meu sogro e a Carmem, minha esposa, ela nasceu alguns meses após o falecimento de seu pai. Meu Pai e o Juca Pinheiro Recordo que meu querido pai, quando lecionava, certo dia aparece na sala de aula, 84
  85. 85. Juca Pinheiro, e encontrou meu pai dormindo e os alunos fazendo a maior algazarra. Quando os alunos viram o Sr. Juca, ficaram todos quietinhos, ele tossiu e meu pai acordou. Quando viu o Juca na sua frente, levou um grande susto. Meu pai alegou que tinha dormido muito mal, devido um filho que chorou a noite toda, pediu desculpas e também que o perdoasse. O Sr. Juca deu por isso mesmo, conversaram sobre alguns assuntos e retirou-se, e meu pai continuou dando aulas. Nossa Casa em Brotas Recordo-me por volta do ano de 1948 o dia que fui á Brotas procurar uma casa para meus pais morarem. Eles estavam envelhecendo e precisavam descansar dos anos de labuta que tiveram em fazendas. Visitei muitas casas para comprar, não tinha gostado de nenhuma, até que encontrei uma casa perfeita para eles, bem em frente á Matriz de Brotas. Levei-os para conhecer e 85
  86. 86. dar opinião sobre a compra, meu pai estava doente, mas, levantou da cama e fomos. A casa tinha catorze cômodos num terreno enorme que ia de uma rua á outra, tinha um grande pomar, horta, e quando eles abriram a janela da frente ficaram maravilhados com a vista panorâmica, viram a Igreja Matriz do outro lado da praça, meu pai até sarou, pois eram muito religiosos, e quiseram que eu fechasse o negócio com urgência. A compra foi realizada, sendo passada á escritura e registrada em cartório. Eles mudaram-se da fazenda para a cidade e ficaram muito felizes na nova morada. Posteriormente, vendemos a fazenda e passamos a residir com meus Pais na cidade de Brotas. Trabalhava na praça com o meu Fordinho, o meu filho Mauro a trabalhar na Granja de Brotas, e o meu filho Wilson foi trabalhar em São Paulo. Em 1960, meu pai ficou muito aborrecido devido à esposa ter sofrido um derrame cerebral, ela ficou com a memória 86
  87. 87. atrapalhada. Dois anos mais tarde, ela caiu de cama e passou a necessitar de todos os cuidados possíveis, falecendo em 17/06/1963. Meu pai envelheceu e foi levando a vida até 05/06/1969, nesse dia, assistiu a procissão de Corpus Christi passar em frente à sua casa, depois começou a passar mal. Naquela tarde, inicio da noite, o vigário da Paróquia foi chamado, e ele faleceu durante a extrema unção. O padre nos disse: “Ele morreu como um passarinho”. 87
  88. 88. Ernestina e Adão – Início dos Anos de 1960 Minha mãe, Ernestina, nasceu em São Carlos, em 15/02/1887, filha de Antonio de Souza Lara e Eudoxia Lazara Ribeiro de Souza Lara. Meu avô era mestre de obras. Posteriormente, foi trabalhar na cidade de Brotas, e comprou a Fazenda Bela Vista, para onde mudaram com a família. Em Brotas, Ernestina conheceu meu pai, Adão de Camargo Sampaio, com quem 88
  89. 89. se casou, constituíram familia e tiveram onze filhos. Morando na Fazenda Bela Vista, Ernestina sofreu muito devido ao seu irmão Antonio estar sempre discutindo e em desacordo com o seu marido Adão. Sua vida melhorou muito, quando mudou para a Fazenda Pinheiro, onde viveu muitos anos feliz ao lado de meu pai e parentes. Lá casaram todos seus filhos. Em 1948, já com a idade de 61 anos, mudou-se para a cidade de Brotas onde foram muito felizes. Por volta de 1960, minha mãe adoentou-se, começou ficar esquecida e foi perdendo á memória aos poucos, depois sofreu um derrame cerebral que a levou para a cama. Minha filha Ilze cuidava dela, sendo ajudada pela irmã Maria Lúcia, que também foi para Brotas, as duas cuidavam, davam banhos, trocavam de roupas, penteavam-na, davam comida na boca e assim foi até a sua morte no dia 17/06/1963, dia em que a Ilze ficou noiva. 89
  90. 90. 90
  91. 91. O Falecimento da Vovó Ernestina Naquela época, a Vovó Ernestina estava passando mal, Eu e a Maria Lucia que cuidávamos dela. No dia que fui para Bariri, ficar noiva e receber a aliança, a situação da vovó era crítica, minha mãe “Carminha” veio da fazenda para ficar no meu lugar. Antes de sair, pedi para a vovó não morrer, que me esperasse voltar de Bariri com a aliança, que eu ia mostrar para ela. Á noitinha, quando cheguei de Bariri, ela estava passando muito mal, mostrei a aliança, ela sorriu, mas, notei que suas horas estavam contadas. O Adolpho, que tinha ido comigo á Brotas, queria ficar, mas, pedi que regressasse porque ela podia resistir ainda muitos dias. Logo que o Adolpho saiu, talvez ainda estivesse em viagem, ela faleceu. No outro dia após o enterro, telefonei ao Adolpho dando a notícia. 91
  92. 92. Tenho muitas saudades da avó Ernestina, eu morei um bom tempo com ela. Quando criança ela fazia vestidinhos maravilhosos e me presenteava, e eu curtia muito. Sua Neta – Ilze Maria Avó Ernestina Lara, lutadora de grande caráter, batalhou na educação de todos seus filhos. Sempre trabalhando na costura para ter seus filhos com boa aparência, e também sempre dando ensinamentos da sua grande fé e nos ensinando a espiritualidade, nos abençoando em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo. Sua Neta – Diva Celeste 92
  93. 93. ANTONIO SOUZA SAMPAIO (Antoninho) – Histórias de minha biografia Recordações desde minha Infância Antonio Souza Sampaio e Maria do Carmo Pinheiro Sampaio Fazenda Bom Jardim Nasci na Fazenda Bom Jardim, município de Brotas – SP, cortada pelo rio Jacaré Pepira, onde as folhagens e parasitas se espalhavam por toda margem, tudo era florido e maravilhoso. Fazenda propriedade de meus tios Job, Ana, a querida tia Aninha e Francisco Uladislau Figueiredo, e a 93
  94. 94. inesquecível tia Mariquinha. Lá também morava o meu padrinho Albino, muito querido; quando o encontrava, sempre me agradava e dava dinheiro, me fazendo muito feliz. Recordo com alegria da moradia de meus tios Lau e Mariquinha. Tinha uma grande mata ás margens do rio Jacaré Pepira, e no meio dela existia um jabuticabal. As jabuticabas eram pintadas, grandes e deliciosas, daquelas que estouravam na boca. Nas épocas das frutas reuniam-se os primos e amigos, e partíamos para a mata rumo às jabuticabeiras, chupávamos até nos empanturrar, era uma delicia. Bons tempos aqueles. Na fazenda funcionava uma escola, o professor era meu pai, que lecionava para uns trinta alunos. Morei nessa fazenda até os meus sete anos, e guardo muitas recordações em meu coração, dos tempos felizes que lá passei. Um Grande Susto 94
  95. 95. Sinto calafrios ao lembrar-me de uma aventura no rio Jacaré Pepira, que passava no fundo de nosso quintal. Margarida, minha irmã, e minha prima Alexia, filha do tio Job, lavavam roupas ás margens do rio, usando uma grande bacia. Resolveram brincar e colocaram a bacia vazia nas águas, entraram dentro e começaram a navegar pela beirada. Eu estava por ali e vendo-as alegres e contentes pedi para participar da brincadeira e elas me colocaram junto á elas. Estava uma delícia até que as águas foram ficando rebeldes, levando a bacia para a correnteza e começando a descer o rio. Segurávamos nos capins e ramagens das margens que alcançávamos, mas, arrebentavam e nós continuávamos descendo, cada vez com maior velocidade. Num certo momento, conseguimos agarrar num galho resistente e paramos ás margens. Foi um grande susto, pois pensávamos que no caso da bacia virar seria trágico e 95
  96. 96. era uma vez. Mas, com as graças de Deus, nos salvamos dessa assustadora aventura. Valentia Dobrada Meu pai lecionava, nas horas de folga fazia algumas plantações, e também era barbeiro. Sempre havia pessoas para cortar o cabelo ou fazer a barba. Ele vivia sempre ocupado. Certo dia, meu pai pediu para o empregado José ir até o rio, lavar sua espingarda. Além da espingarda, José levou também os aviamentos e, após lavá-la, começou dar tiros. Mirava e atirava nas bananeiras, inclusive colocando a vareta como munição. Contaram a meu pai o que o camarada estava aprontando, e ele saiu ás pressas, rumando até o local e chegou nervoso, tomou a espingarda da mão do José e o despediu. No acerto de contas, o empregado ficou devendo, como pagamento da dívida, 96
  97. 97. meu pai ficou com enxada do José, que estava na roça. Esse empregado era encrenqueiro e gostava de uma briga. Tratava-se de um negro, magro, alto e muito valente, que andava com uma faca bem afiada, de ponta aguda, na cintura. Na hora em que foi despedido, prometeu que no dia seguinte iria á roça buscar a sua enxada. Na manhã seguinte, meu pai estava rumando para a roça, quando foi aconselhado por seus primos a esquecer da enxada, porque o José prometeu que a levaria de qualquer maneira. Mesmo assim, como meu pai não tinha medo, foi á roça pegou a enxada e começou carpir. Chegou o José e reclamou pela sua enxada, meu pai repetiu que era pagamento de sua dívida e não ia devolvê-la. José tirou a faca da cinta e avançou, meu pai ergueu a enxada e foi ao seu encontro, o camarada ficou com medo e saiu correndo. Meu pai voltou para a sede da fazenda e foi ovacionado com vivas que o deixaram 97
  98. 98. muito envaidecido. Conta-se que até hoje ninguém sabe o paradeiro do José. A Procissão Eu tinha cinco anos, trago gravado em minha memória, quando houve uma procissão na Igreja, eu e o Nenê, filho do tio Job, acompanhamos vestidos de vermelho e branco, e cada um de nós carregava uma bandeirinha na mão. Foi um dia muito feliz. A Cobra Eu estava sentado no terreiro em frente à minha casa, nervoso, porque tinha encrencado com alguém e estava chorando. Do porão da casa, vi sair uma grande cobra que passou pelo terreiro e enrolou-se no mourão do paiol. Chamei por socorro, e veio o nosso vizinho, o Leopoldo, que trouxe uma espingarda, mirou na cobra que estava toda enroladinha, puxou o gatilho e ela despencou do mourão. Depois com um pedaço de pau o Leopoldo levantou-a, todos 98
  99. 99. admiraram o tamanho, jogou-a no pasto dos porcos, que disputaram para comê-la. Os Carros de Bois Lembro-me com saudades dos carros de bois do tio José da Silva Braga, proprietário da Fazenda Roseira, uma das maiores do município de Brotas. Passavam pela estrada, perto de onde morávamos carregados com canas de açúcar, eu e meus amiguinhos corríamos atrás, pedindo uma cana, os carreiros sempre jogavam um punhado, ficávamos felizes da vida, descascávamos com os dentes e fartávamos de chupa-las. Minha Doença Ainda com a idade de cinco anos fiquei muito doente, meus pais me levaram á diversos farmacêuticos e depois á bons médicos, mas cada vez mais minha saúde piorava. Meus pais ficaram desesperados, eu era o primeiro filho homem, contaram-me 99
  100. 100. que emagreci muito e meu pescoço ficou tão fino que minha cabeça balançava. Disseram-me que fui salvo por uma vaca chamada “Cabrinha”. Ela havia criado um lindo bezerrinho e como o curral ficava ao lado da janela de meu quarto eu ficava olhando o bezerrinho mamar. Fiquei com vontade de tomar daquele leite, pedi á meu pai, o qual foi ao curral e tirou um copo e deu para eu beber, tomei e pedi mais, até ficar satisfeito. Daquele dia em diante, continuei tomando daquele leite, fui melhorando até sarar completamente, graças á querida “Cabrinha” e ao poderoso Deus Pai. O Medo Certa vez eu, minha saudosa mãe e minhas irmãs Margarida e Zezé, fomos dominados pelo medo. Atravessamos o rio e o marginamos no outro lado, passando por uma plantação de arroz, lugar muito perigoso. 100
  101. 101. Seguíamos minha mãe, por uma trilha e, em dado momento, ela parou e pediu para que ficássemos bem quietinhos. Vimos atravessar á nossa frente uma cobra muito grande. Ficamos atentos, e demorou um bom tempo para ela sumir de nossas vistas, indo rumo ao rio e pudemos ouvir um enorme barulho ao ela entrar nas águas. Nessa hora agradecemos á Deus pela proteção, de nada ter nos acontecido. Essas e muitas recordações trago de todos os anos que morei na adorada e inesquecível Fazenda Bom Jardim, meu querido berço natal, da qual me despeço e agradeço á Deus, pela melhor parte de minha infância. Fazenda Bela Vista Mudamos para a Fazenda Bela Vista, propriedade dos meus avós Antônio Souza Lara e a querida Eudóxia Lázara Ribeiro de Souza Lara, ele paulista de Piracicaba, ela carioca do Rio de Janeiro. A avó Eudóxia era uma pessoa muito gentil e amável, com 101
  102. 102. todos os que a visitavam. Ela servia quitutes e doces muito gostosos, mas, nada se comparava á delícia de seu famoso pudim de queijo. Quando se casaram, foram morar em São Carlos. Meu avô era um famoso mestre de obras, viviam muito felizes. Trabalhou com afinco e conseguiu ser proprietário de várias casas na cidade, onde nasceu minha mãe. O coronel Querubim Vieira, político forte da cidade de Brotas, possuidor de várias fazendas, contratou meu avô, para construir o prédio do Grêmio Literário Brotense. Meu avô mudou-se com a família para Brotas, e começou a obra com muitos empregados. A construção já estava bastante adiantada, quando durante uma grande chuva, meu avô foi surpreendido por uma enxurrada, canalizada em direção aos alicerces, o que comprometeu o serviço já feito, abalando as paredes, as quais já 102
  103. 103. estavam respaldadas. Toda culpa recaiu sobre meu avô. Homem sério, honesto e cumpridor de seus deveres, meu avô Antonio demoliu tudo o que tinha feito e reconstruiu por sua conta. Para isso teve que vender parte de seu patrimônio, ficando quase a zero. Posteriormente, foi comprovado que a canalização da enxurrada, nos alicerces do prédio do Grêmio, foi criminoso, feito às escondidas, por homens a mando de políticos do partido contrário ao do coronel. O Coronel era um homem honesto e muito bom, e após os esclarecimentos do acontecido quis recompensar meu avô, por perdas e danos. Vendeu-lhe a fazenda Bela Vista, por um preço bem baixo, facilitou-lhe o pagamento, o que o deixou muito feliz e contente. Após o término dos serviços da construção do Grêmio Literário Brotense, que até hoje é um belo prédio, mudou-se com a família para a sua fazenda, onde viveram felizes muitos anos. 103
  104. 104. Dias Amargos Na fazenda Bela Vista, morávamos nas terras que recebemos de meus avós Antônio e Eudóxia, a fazenda foi dividida e cada filho recebeu sua parte. Tio Antonio, irmão de minha mãe, era nosso vizinho, apenas separado por um terreiro, e ele vivia encrencando com meu pai. Daquela maneira não podia continuar, precisava resolver aquela situação, trocou ideias com minha mãe e resolveram pedir conselhos á avó Miquelina. Montou em seu cavalo, e foi conversar com sua mãe na Fazenda Pinheiro. Contou para a avó Miquilina o que estava acontecendo, ela ficou muito triste e procurando uma saída para o caso, contou tudo ao seu Maneco administrador da fazenda (Manoel Antonio de Oliveira Pinheiro) filho do padre Antonio. Maneco para dar uma solução e por um fim nas desavenças combinou com meu pai para que vendesse sua parte na fazenda Bela Vista, que ele Maneco venderia a sua parte, 104
  105. 105. que tinha na Fazenda Pinheiro, para meu pai. Chegando de volta á Bela Vista, meu pai procurou o tio Antônio e ofereceu suas terras, era o que ele sempre queria, devido ás terras estarem anexas ás dele, mais que depressa combinaram o preço e fecharam o negócio. Logo que meu pai vendeu sua parte na fazenda Bela Vista, foi procurar Sr. Maneco na Fazenda Pinheiro e comprou suas terras como haviam combinado. Em seguida, mudou para lá. Passado muito tempo, em 1941, quando faleceu minha avó Miquilina, foi feito o inventário, meu pai recebeu a parte que lhe coube e também comprou a parte do seu primo Sebastião, que era solteiro e residia em Brotas. Nessa época, os cafezais estavam com uma grande carga de frutos, nossas terras aumentaram bastante, foi um ótimo negocio, meu pai ficou muito contente. 105
  106. 106. Fazenda Pinheiro Agora morando na fazenda Pinheiro, estávamos maravilhados em nossas terras, e também meu pai voltou a lecionar. A Fazenda Pinheiro tinha sido formada pelo “padre Antonio”, inicialmente chamouse Fazenda Santana, homenagem a sua esposa Ana, que era da família Camargo, Ana Izabel Ribeiro de Camargo e Castro, depois Fazenda Santana do Laranjal e, finalmente, Fazenda Pinheiro. Padre Antônio Antonio José de Oliveira Pinheiro, devido a ter estudado para padre era conhecido como “padre Antônio”, uma pessoa muito caridosa e boníssima, que nos domingos montava no lombo de seu burrico e se locomovia de sua fazenda á Brotas, para ajudar o vigário rezar a missa. Tinha costume de levar dinheiro numa bolsa, para distribuir aos pobres. Quando chegava á Brotas, logo na entrada, já encontrava com pessoas pobres esperando 106
  107. 107. por ele, ali já começava distribuir esmolas e continuava até aos arredores da Matriz. Deixava o burrico no quintal da casa de um amigo e se dirigia à Igreja, colocava a batina, e ajudava o vigário rezar a Santa Missa. Terminada a missa, costumava reunirse com amigos e fazendeiros, os quais sempre o convidavam para bater um papo e tomar um café. Depois, montava no burrico e voltava para a fazenda onde todos os filhos, netos e colonos estavam esperando-o felizes com seu regresso. Chegava, almoçava e depois descansava. Ás seis horas da tarde se reunia com os familiares e colonos na frente de sua casa diante da Santa Cruz e todos o acompanhavam na reza do terço. Isso se repetia todos os domingos e dias Santos. Nossa Nova Morada Meu pai além de cuidar de suas terras, foi contratado pelo inesquecível José de Oliveira Pinheiro, para lecionar na escola da 107
  108. 108. fazenda. Quem diria posteriormente Juca Pinheiro, como era conhecido, seria meu sogro e a Carmem, minha esposa, ela nasceu alguns meses após o falecimento do pai. José de Oliveira Pinheiro, um dos filhos do proprietário da Fazenda Pinheiro, pessoa boníssima, havia estudado medicina e utilizava seus conhecimentos na sua fazenda. Tinha sua farmácia, onde aviava receitas caseiras e homeopáticas, fabricava um bom purgante e também fazia lavagens de intestinos; era ajudado pela sua esposa Amélia, que também havia aprendido com ele, e era a sua enfermeira. Atendia seus colonos e também os das fazendas vizinhas, e nunca cobrava nada. Seus colonos recebiam leite e produtos oriundos da fazenda, tudo de graça. O Sr. Clementino Florim, genro do “padre Antonio”, era o administrador da Fazenda Pinheiro, casado com a Maria do Rosário conhecida pelo nome de Marica. O 108
  109. 109. “padre Antonio” e Aninha eram meus padrinhos e tios avós. Depois de seu falecimento, a administração da fazenda passou para seu filho mais novo, Manoel Antonio de Oliveira Pinheiro conhecido, por Sr. Maneco. A Fazenda Pinheiro era maravilhosa, nos fins de semana havia um movimento muito grande de pessoas, aparecia gente que vinha de todas as fazendas vizinhas. Reuniam-se e divertiam-se nos diversos jogos, principalmente no futebol, e á noite não faltava o melhor de tudo, o baile. O baile era organizado pelas professoras das fazendas, que pediam o salão e o enfeitavam. Acabavam conseguindo tudo o que queriam, também, uma mais bonita que a outra, e com tanta beleza o que elas não conseguiam. Os bailes eram muito animados, o pessoal amanhecia dançando. Meu Pai e o Juca Pinheiro Recordo de meu querido pai quando lecionava. Certo dia aparece na sala de 109
  110. 110. aulas meu querido Juca Pinheiro e o encontrou dormindo, enquanto os alunos faziam a maior algazarra. Quando os alunos viram o Sr. Juca, ficaram todos quietinhos, ele tossiu, meu pai acordou e, quando viu o Juca na sua frente, levou um grande susto. Meu pai alegou que tinha dormido muito mal devido a um filho ter chorado a noite toda, pediu desculpas, e também que o perdoasse. Sr. Juca deu por isso mesmo, conversaram sobre alguns assuntos, e retirou-se, meu pai continuou dando aulas. Um Dia Muito Triste Era o mutirão na Fazenda Bom Jardim, os trabalhadores de todas as fazendas vizinhas tinham ido dar a sua colaboração. Já era noite e estavam todos reunidos por lá para o grande baile e catira. Pouco antes de iniciarem a festa, chegou uma triste notícia, um portador anunciou a morte do inesquecível José de Oliveira Pinheiro (Juca Pinheiro), primo e 110
  111. 111. patrão de meu pai e muito estimado por todos. Na hora, a festa foi cancelada. A morte de Juca Pinheiro deixou uma lacuna muito grande no seio da família e de todos os amigos e conhecidos. Tenho certeza que hoje ele tem um lugar muito bom no descanso eterno, porque mereceu. Sebastião Floriano e Maria Miquelina A tia Aninha esposa do “padre Antônio” era da família “Camargo” irmã de minha avó Maria Miquilina Ribeiro de Camargo e Castro, filhas do maior fazendeiro de Campinas, Comendador e Tenente Coronel Querubim Uriel Ribeiro de Camargo e Castro. Maria Miquelina era casada com meu avô Sebastião Floriano de Camargo Sampaio, pais de meu pai Adão de Camargo Sampaio. Sebastião Floriano era advogado na cidade de Campinas, exerceu suas funções em Amparo onde nasceu meu pai, também em Atibaia, Bragança Paulista, Mogi - Mirim e Capivari. 111
  112. 112. A fazenda do Tenente Coronel Querubim era no arraial dos Sousas, hoje Distrito de Souzas, bairro ligado á Campinas, que ocupa uma imensa área nos dois lados do rio Atibaia. O Tenente Coronel também tinha uma chácara maravilhosa na cidade de Campinas, fornecia muitos produtos ao povo da cidade como leite, frutas, verduras e legumes. Político influente e de grande prestígio social, foi vereador e presidente da Câmara cabendo-lhe saudar o Imperador Dom Pedro II, em 1846, quando este visitou Campinas pela primeira vez e ficou hospedado em sua casa. Sua majestade o agraciou com a “Ordem das Rosas” - Tenente Coronel chefe do Estado Maior da Guarda Nacional dos municípios de Campinas, Bragança, Atibaia, Nazaré, Jundiaí e Constituição (Piracicaba) da Província de São Paulo. O Comendador das Rosas cultivava suas fazendas com escravos, e seu genro, meu avô, Sebastião Floriano, tinha muita pena da escravidão e trabalhava com afinco 112
  113. 113. para a libertação. Isso acabou criando uma grande inimizade com o sogro, que ficou muito sentido e bravo com meu avô. Nossa Vida na Fazenda Pinheiro Minhas irmãs, Margarida, Iaiá (Eudóxia), Zezé e Cacilda casaram com primos, e posteriormente eu também, outras três irmãs também se casaram com primos. Leonor, minha irmã “raspa do tacho”, era casada com nosso primo Cássio, de Campinas. Ela faleceu em 1957, com vinte e oito anos, e na época foi um grande choque. Lembro-me do sofrimento de meus pais e dos familiares e também de muita gente chorando por todos os cantos. Nossas Vacas Leiteiras Lembro-me das criações que nós tínhamos, das nossas vacas leiteiras de estimação, que davam bastante leite, e de suas crias. Minha irmã Zezé é que cuidava da ordenha (“tirava o leite”). Eu sempre ficava 113
  114. 114. esperando, com os copos com açúcar, então ela na hora enchia meu copo, que vinha derramando espuma, e ai voltava para encher o copo dela. Meu Irmão Ricardo Ricardo era estimado por todos, principalmente por minha mãe. Ele costumava presenteá-la trazendo do pomar as frutas maiores e bonitas, também trazia flores do campo. Ele tinha bondade em tudo, só que não aguentava desaforos e dificilmente se rebaixava. Meu irmão gostava muito de desafios, e certa vez, numa roda de amigos, convidou-os para uma disputa de cabeçadas, tratava-se de bater a cabeça um contra o outro para ver quem vencia. Iniciou-se a disputa, era uma coisa de loucos, pareciam carneiros montanheses, Ricardo tinha a cabeça grande e treinava muito isso, ele batia com força e ninguém conseguiu vencê-lo. 114
  115. 115. Lembro-me de quando meu pai fazia compras de vestuários para nós, eu sempre gostava das coisas que comprava para o Ricardo, eu pedia á ele para trocar comigo, era chapéu, sapatos, cinta, camisa, calças, ele trocava com a maior naturalidade. Essas lembranças e muitas outras agradáveis de meu saudoso irmão Ricardo ficaram em minha memória. Quando tinha 15 anos, Ricardo ficou doente, foi desenganado, o médico que começou tratar dele não estava acertando. Quando o médico de nossa confiança voltou de São Paulo para onde tinha viajado á negócios, meu pai o chamou, e ele constatou que o tratamento estava errado, a doença era outra, mas, a cura já era impossível. Ricardo faleceu em 05/06/1934 no dia de Corpus Christi. Minha mãe jamais conseguiu esquecê-lo, entre os familiares ele deixou uma enorme lacuna e muitas tristezas. 115
  116. 116. Ricardo foi enterrado no cemitério da cidade de Brotas, numa vala simples. Passado algum tempo meu cunhado Celso Guimarães, marido da Nair, fez uma promessa que iria mandar construir um túmulo para o Ricardo, assim que pudesse removê-lo, mas, não deixou nada combinado na Prefeitura. Passado alguns anos o coveiro foi fazer a exumação do corpo de Ricardo e levar os ossos para o ossuário. Quando começou cavoucar, apareceu na sua frente um moço de terno branco, e lhe disse: Antes de começar a remover essa terra, o senhor precisa falar com o coletor federal, Sr. Celso Guimarães. O coveiro virou para o outro lado e desvirando não viu mais o moço, procurou pelos arredores e nada encontrou. Caindo em si, ficou assustado, tudo aquilo tinha acontecido em fração de segundos. O coveiro foi até a casa do Celso Guimarães e explicou o que tinha acontecido. Celso lembrou-se da promessa e mandou que o coveiro aguardasse, foi até o 116
  117. 117. cemitério comprou um terreno e mandou fazer um túmulo para o Ricardo. Minhas Peraltices Na Fazenda Pinheiro, passei uma infância muito feliz, recordo sempre com muitas saudades. Tinha mais ou menos sete anos, sempre costumava passar uns dias na casa de minha irmã Margarida. Numa dessas vezes, lembro-me que o paiol tinha espigas de milho estocadas e num cantinho havia uma ninhada de gatinhos. Comecei a brincar com eles, peguei um que era muito bonitinho e comecei a dar ordens e queria que me obedecesse, mas, como não atendeu o meu pedido dei-lhe uma espigada na cabeça matando o pobre gatinho. Sai do paiol, desesperado e fui chamar a Margarida para salvarmos o gatinho, ela veio depressa, mas, como já estava morto o jogamos junto a um pé de bananeira. Minha irmã me deu pega, disse que era o gato de estimação de meu cunhado Joãozinho e que 117
  118. 118. ele iria ficar muito bravo quando soubesse do seu sumiço, isso me deixou muito triste. Quando meu cunhado chegou logo notou a falta do gatinho e gritou perguntando por ele, estava uma fera de bravo, eu percebendo sai de mansinho e escondi no quintal. Minha irmã contou-lhe o que tinha acontecido e ele saiu a minha procura soltando fogo pelas ventas, encontrando-me quis saber, porque eu tinha feito aquilo, contei a ele como tinha acontecido, mas, enfurecido ficou muito bravo. Quando estávamos voltando para casa vimos o gatinho que vinha cambaleando e miando, meu cunhado ficou admirado e correndo pegou-o e tudo voltou ao normal, o gatinho ficou completamente recuperado, foi só alegria. Nossos Carrinhos Naquela época também tínhamos carrinhos de soltar nas descidas, não era de rolimãs, mas sim, com rodas de madeiras. 118
  119. 119. Fazíamos estradas perigosas com mourões fincados pelo caminho para tirarmos a famosa fina. Todos eram craques, mas, sempre um ou outro caia ou “enchiam o caneco nos mourões”, e quando isso acontecia era um belo de um tombo e só risada que se ouvia. Os que caiam eram vaiados, sempre se esfolavam, coçavam as pernas, braços ou apertavam as costelas, ficavam muito bravos o que causava muitos risos entre os que assistiam, e assim passávamos muitas horas de entretenimentos nos divertindo, o dia parecia curto demais. Meu Amigo Mário Hoje, quando me lembro, penso que não morri porque não tinha chegado á minha hora, Deus não me chamou. Essa aventura foi com meu amigo Mário, menino muito bonzinho, filho de colonos da fazenda. Estávamos perto da represa, á água era usada para impulsionar a máquina de 119
  120. 120. beneficiar café, também ali havia um desvio para o moinho de fubá. Naquele dia, nadamos bastante na represa e depois fomos brincar na bica, sem saber o perigo que nos rondava. Certo momento a correnteza ficou mais forte levando-me para a parte mais estreita onde as águas caiam de uma considerável altura, tentei segurar nas beiradas, mas, era cheio de limbo e muito lisa, continuei escorregando devagar em direção à queda. Como nós todo tem anjo da guarda, apareceu o Mário para ajudar-me. Ele tinha saído ás pressas da bica e correu pelo lado de fora, alcançou-me e segurou-me pelo braço e não largou até eu conseguir ficar em pé fora da bica, salvando-me da morte certa. Mário era um grande amigo, mas, Deus precisou dele, tudo que gostamos nem sempre dura, depois de um ano dessa aventura Mário ficou doente e nada pode ser feito para salvá-lo, sofri muito a sua morte. 120
  121. 121. Peço á Deus para que ele esteja num bom lugar. Os Coelhos do Sr. Maneco Nossa turma, todos com armas de fogo, nos domingos saíam para caçar coelhos e pássaros. Eram armas perigosas e dos mais variados tipos e modelos, cartucheiras, winchester, revolveres, espingardas de carregar pela boca, etc. Havia bons e maus atiradores. Os coelhos abatidos eram levados ao Sr. Maneco, ele gostava muito de carne de coelho, e comprava de nós. Todos colaboravam, combinávamos que aqueles que não tinham boas pontarias faziam o cerco e espantavam os coelhos para o nosso lado, assim a caça vinha de encontro com o cano de nossa arma, passávamos o dia divertindo e ganhávamos algum dinheirinho. Certo domingo, um de meus colegas, com uma espingarda de carregar pela boca e espoleta externa de papel a municiou com muita pólvora, mirou a caça e disparou o 121
  122. 122. tiro. O baque foi enorme a espingarda saltou de sua mão e foi parar longe, a fumaça tomou conta do pedaço, nós gritamos que estava incendiando a sua cabeça, ele começou a se debater de todos os lados para apagar o fogo. Depois do susto começamos a vaiar e rir dele, ficou valente desafiando todos nós, depois se acalmou e vimos que o incêndio era apenas a fumaça embaralhada nos cabelos. O Varal Lembro-me de nossas cavalgadas, eu no meu cavalo e meu primo no dele. Certa vez ele chegou e pedi para que recolhesse no curral o meu cavalo que estava no pasto, para sairmos passear. O meu cavalo estava rebelde, corria por todos os lados e estava difícil de entrar no curral. Meu primo a todo galope não viu o varal de roupas estirado perto de minha casa, enroscou o pescoço e despencou do cavalo estatelando no chão. 122

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