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Cidade Educadora: Uma cidade que acolhe, ensina e ama as crianças1
                                                                          Francismara Pilatti2




RESUMO


              O presente artigo discorre sobre como a criança e as infâncias estão sendo discutidas
no presente momento, as implicações que a cidade e sua organização têm no desenvolvimento
das mesmas e os aspectos e práticas pedagógicas que podem contribuir para que a cidade se
torne uma cidade que acolhe, ensina e ama as crianças, permitindo que se sintam sujeitos
ativos e pertencentes à sociedade em que estão inseridas.


PALAVRAS-CHAVE: Criança. Infâncias. Práticas Pedagógicas. Cidade Educadora.


INTRODUÇÃO


               Na perspectiva de se ter um olhar que privilegie a criança não apenas enquanto
criança, mais enquanto um ser social em pleno desenvolvimento, capaz de contribuir na
melhoria da sociedade, surge na contemporaneidade discussões profundas em torno da
“Infância” e dos cuidados que se deve ter com a criança pertencente a este momento histórico
marcado por profundas e complexas transformações sociais. Nesse cenário o desenvolvimento
e a formação da criança/cidadã, perpassam o ambiente familiar (pais/tatinhas) e escolar
(professores/gestores) e chegam às cidades (ruas, políticas, estrutura física e ideológica)
provocando e instigando um novo olhar à organização das cidades e como ela acolhe ou não
estes pequenos cidadãos, sujeitos de deveres, mas também de direitos, os quais nem todos
estão sendo proporcionados e cumpridos devido à estrutura que a cidade e a sociedades têm.


Crianças, Infâncias e Singularidades
              A definição do conceito de criança e infância apresenta uma complexa rede de análises
diante da realidade da qual faz parte e das subjetividades que a sociedade apresenta. Dessa
                                                            
1
 Artigo apresentado para o componente curricular - Cidades, instituições de educação e infância: um olhar para
os espaços que educam, do Curso de Pós - graduação em Anos Iniciais do Ensino Fundamental e Educação
Infantil, ministrado pela MSc. Giovana Maria Di Domenico Silva.
2
 Graduada em Pedagogia e pós-graduanda em Anos Iniciais do Ensino Fundamental e Educação Infantil, na
Universidade do Oeste de Santa Catarina – UNOESC, Campus de São Miguel do Oeste. 
maneira, conceitua-se infância(s) a partir do olhar da autora Sonia Kramer, que entende a
infância como uma categoria social e também como um período da história que passa cada ser
humano. Já criança é um sujeito/cidadão, que tem direitos, faz sua história e pela estrutura
social a qual está inserida, vem a assumir vários papéis, como de aluno, educando... que
podem ser desempenhados de maneira diferente dependendo da classe social. As Diretrizes
Curriculares Nacionais para a Educação Infantil também nos apresenta a criança como:



                       Sujeito histórico de direitos que, nas interações, relações e práticas cotidianas que
                       vivencia, constrói sua identidade pessoal e coletiva, brinca, imagina, fantasia, deseja,
                       aprende, observa, experimenta, narra, questiona e constrói sentidos sobre a natureza
                       e a sociedade, produzindo cultura. (BRASIL, 2010,p.14)



       Sabemos que a ideia de infância(s), o cuidado com a criança e as discussões em torno
dela, vão surgindo timidamente e se manifestam com mais força, a partir da modernidade,
com o capitalismo, onde as crianças também assumem seu papel social (bons consumidores).
Segundo Kramer (2006, p.14): “A inserção concreta das crianças e seus papéis variam com as
formas de organização da sociedade”. Assim a ideia de Infância(s) não existiu sempre da
mesma maneira.
       O conceito de criança e de infância foi modificando-se ao longo do processo histórico
e social, sendo representativo ao tempo e a organização da sociedade. O sentimento de
infância, de cuidado com a criança começou nas famílias burguesas, a partir das pesquisas
científicas realizadas para diminuir o alto índice de mortalidade infantil. Compreender que a
infância surge inicialmente no contexto burguês contribui para refletirmos por que o conceito
de infância, é de uma criança universal e homogenia, não considerando-se suas
singularidades.
       Atualmente, o conceito de criança e de infância, que teoricamente dá a ideia de que
todas as crianças passam pelo mesmo processo em condições iguais, já está sendo visto com
outro olhar, por que elas não pertencem todas as mesmas realidades e por consequência, o
papel desempenhado na sociedade difere de acordo com sua estrutura familiar, classe social,
hábitos e brincadeiras, as formas de infância podem ser bem variadas. Kramer (2006, p.18):
“Numa sociedade desigual, as crianças desempenham nos diversos contextos, papéis
diferentes”. Isso contribui para manter a desigualdade e reproduzir o sistema econômico
capitalista, onde segundo Kramer (2006, p.18):
[...] a sociabilidade se transforma e as relações entre adultos e as crianças tomam
                        rumos desconcertantes. O discurso da criança como sujeito de direito e da
                        infância(s) como construção social é deturpado: nas classes médias, esse discurso
                        reforça a ideia de que a vontade da criança deve ser atendida a qualquer custo,
                        especialmente para consumir; nas classes populares, as crianças assumem
                        responsabilidades muito além do que podem. Em ambas, as crianças são expostas à
                        mídia, à violência e exploração.



       A partir dessa reflexão, podemos sentir como é importante, o educador ter um olhar
reflexivo, atento, crítico quanto a maneira que a criança percebe o mundo, como o sente,
como participa das interações, familiares, sociais e educativas, para que seja possível,
contribuir de forma significativa no seu desenvolvimento psíquico, afetivo e social, a ponto de
minimizar as disparidades que as influencias econômicas causam ou podem causar no sujeito.
       Outro aspecto, fruto de nossa sociedade atual a ser mencionado, são as relações que
(não) estabelecesse com as crianças, o diálogo, a interação entre o adulto e a criança, que pode
gerar ou não, a sensação de abandono, descaso e insegurança para a criança enfrentar
determinadas situações. Muitos adultos não conseguem orientar as crianças, por não terem a
narrativa da experiência, foram crianças que cresceram com as mesmas dúvidas, assim,
deixam a criança sem resposta e reforçam a situação de descaso e indiferença, dando
continuidade ao processo de desigualdades e injustiças. Ou seja, como contribui Kramer
(2006, p.21):


                        Sem conhecer as interações, não há como educar crianças e jovens numa perspectiva
                        de humanização necessária para subsidiar políticas públicas e práticas educativas
                        solidárias entre crianças, jovens e adultos, com ações coletivas e elos capazes de
                        gerar o sentido de pertencer a.



       Sem orientações a criança fica a mercê das mais variadas influencias, meios de
comunicações, redes sociais, jogos... perdendo sua identidade enquanto sujeito/cidadão, não
sente-se pertencente a nenhum espaço, grupo que possa dar-lhe segurança de como agir.
Nesse sentido, podemos refletir o porquê temos tantas dificuldades em pensarmos e
desenvolvermos políticas públicas que atendam a criança enquanto sujeito participativo e
ouvido no seu processo de desenvolvimento. Pois, para isso, é necessário que o adulto deixe
de conceituar a infância e a criança a partir do seu olhar e tente interpretar o mundo a partir
dos olhos da criança.
Está se perdendo os valores, a cultura... por falta da narrativa , o adulto não sabe seu
lugar, trata por vezes a criança como adulta, hora não a responde por estar inseguro, expondo
a criança a situações que não tem maturidade nem condições de entender. A partir disso,
Kramer (2006, p.19) nos diz que:


                       Com a perda da capacidade do diálogo na modernidade, as pessoas só conversam
                       sobre o valor das coisas; sem o diálogo, sem a narrativa, ficam impossibilitadas de
                       dar ou ouvir um conselho que é , segundo Benjamin(1987ª), sempre a sugestão de
                       como poderia uma história continuar. Desocupando seu lugar, os adultos ora tratam
                       a criança como companheira em situações nas quais elas não tem a menor condição
                       de sê-lo, ora não assumem o papel de adultos nas situações nas quais as crianças
                       precisam aprender condutas, práticas e valores que só irão adquirir se fossem
                       iniciadas pelo adulto.



       A contemporaneidade apresenta uma complexa realidade, ao mesmo tempo em que se
fala tanto em cuidados com a criança e com a infância, temos vários casos de violência contra
ela, resultados dessa crise de identidade. Para haver a mudança temos que promover a
sensibilização dos adultos, desenvolver uma nova visão da educação, como nos fala Redin e
Müller (2007, p.8):


                       A educação é um processo contínuo de vida, e muitas vezes, a condição de não saber
                       pode ser uma base de estímulo para a ação criativa. Aceitar o fato de que as crianças
                       podem criar coisas que os adultos desejariam ter criado ou esperar ver algo que não
                       se tinha visto antes pode ajudar a fortalecer a crença no protagonismo infantil.


       Diante disso, a escola é de fundamental importância para iniciarmos o processo de
mudança, de resgate do sentimento de pertencimento do cidadão, da valorização, do amor e da
compreensão de nossas crianças nos mais variados espaços. O educador deve ficar atento às
singularidades e às relações que cada criança estabelece ao seu redor e proporcionar-lhes
práticas pedagógicas que as ensinem a viver, amar e respeitar o próximo, que hes permita
brincar e ser feliz, para que façam parte do conhecimento historicamente produzido de
maneira consciente e participativa. Segundo Müller e Redin (2007, p.17):


                       A criança é um ser que dá sentido ao mundo em que vive fazendo diferentes leituras
                       das tramas sociais. Tem, portanto, no decorrer da vida, não só a possibilidade de
                       aprender como também de contribuir para a constituição de um novo momento
                       histórico social, feito da diversidade cultural e da singularidade dos sujeitos. Quanto,
                       mais diversificado o meio sociocultural, maiores serão as possibilidades de
                       conhecimento e criação.
As crianças veem o mundo de uma forma mágica, onde todos os lugares podem ser
explorados, sua imaginação é fantástica, elas podem fazer da coisa mais simples um
brinquedo por horas, não lhes importa o tempo, mas a liberdade de brincar sem ter alguém o
tempo todo lhes impondo regras, que se colocadas em prática na convivência, não precisariam
ser lembradas a toda hora.


Uma cidade que acolhe, ensina e ama as crianças: Práticas Pedagógicas Possíveis.

       A Escola, mais especificamente a Educação Infantil deve ser um mundo mágico, mas
não pode limitar-se só a escola, é preciso ir a outros espaços como as ruas, arredores, pois
deve ser um lugar de descobertas, de alegrias, de desafios, onde não se é escravo do tempo e
tão pouco do disciplinamento de suas condutas padronizadas, as coisas consideradas as mais
simples devem ser transformadas nas mais inusitadas, a fantasia e a imaginação não tem
limites. Segundo Redin (2007, p.17):



                       A escola pode e deve ser considerada um espaço privilegiado para a aprendizagem
                       de uma prática social, um espaço de cultura, de criação como resposta aos desafios
                       da vida, um espaço fértil de produção do novo e do inusitado. A escola para a
                       infância precisará constituir-se nesse tempo e espaço transformando em lugar, ou
                       seja, lócus de sentido de construção de identidades. “O lugar ao ser construído pelo
                       grupo que ali vive, passa ao mesmo tempo sua base e sua expressão, Lopes (2000,
                       p.146)”.



       Nessa perspectiva, as relações sociais também são estabelecidas de maneira
transcendente e as trocas de experiências se tornam significativas, pois, a criança participa,
interage, aprende a viver e a amar seus colegas, seus amigos de forma espontânea, como deve
ser e não pelas regras combinadas. Assim vão desenvolvendo sua identidade de pertencimento
ao grupo, a escola e a comunidade onde vivem, sendo possível sentir-se cidadão. Dessa
maneira, é necessário que o educador esteja aberto, feliz, disposto a brincar, a sair dos muros
da escola, a ensinar e também a aprender com as crianças. Saber planejar de forma aberta,
contemplar as singularidades de cada um e permitir que as crianças falem, se expressem,
estando o educador interessado em ouvir, em entendê-las, ensinar coisas práticas do seu dia-a-
dia, coisas que vão lhes ser útil no momento e não só no futuro. Precisamos pensar a criança
hoje e não no que ela se tornará no futuro, é o que nos fala Tonucci (2005, p.207): “A criança
a ser considerada, a ser ouvida, a ser defendida e amada é a criança de hoje com aquilo que
ela sabe e que e que sabe fazer com seus sentimentos. A nova cultura da infância é a cultura
do presente, da criança de hoje. Pois, a infância é o período onde se tem melhores condições
biológicas de aprendizagem e é onde se estabelecem as bases da personalidade do adulto.
       Para considerarmos a criança enquanto sujeito de direitos e um cidadão, precisamos
também repensar nossas políticas públicas no âmbito do ambiente ao qual a criança não faz
parte, mas deveria fazer as cidades. Hoje o sistema capitalista, elegeu a cidade para os adultos
produtivos, marginalizando nossas crianças, elas não têm espaço e nem segurança para andar
nas ruas, seus espaços se confinam em suas casas de muros fechados e a escola, a qual chega
geralmente de carro. Por essas condições, as crianças não tem a oportunidade de exercer seu
papel social e sua autonomia. A estrutura da cidade e a sua organização, gera o sentimento de
individualismo e de descaso dos cidadãos para com a própria cidade e de cidadão com
cidadão. Cada um se fecha num pequeno espaço, não sendo permitida a entrada de outras
pessoas, as crianças não têm acesso às ruas e nem ao seu bairro, a descoberta dos espaços que
se tem nas proximidades de suas casas não são explorados, os pais não permitem que seu filho
saia de casa, preferem que ela passe o dia todo entretido em milhares de parafernálias que lhes
são dadas para passar o tempo dentro de casa, assim não estabelecem relações com seus
vizinhos e nem faz amizades, muito menos o sentimento de pertencimento a cidade. Aí
podemos pensar o porquê estamos nessa crise de identidade, de cuidado com o público e com
o próximo, pois, se não proporcionamos as crianças oportunidades de estabelecerem relações
de afeto, cuidado com o outro, de autonomia, como podemos querer adultos que se importem
com os outros? Com o que é público e com sua cidade? E uma sociedade amorosa? Segundo
Pacheco (1996 apud Redin e Didonet 2007, p. 23):



                        A cidade é feita de lugares e pensamentos. De lugares e emoções. É feita de gente.
                        Porque vendo bem, a cidade é produto das atitudes da gente que a usufrui. Gente
                        concreta, nas situações cotidianas que constroem o mistério de viver (Helder
                        Pacheco, “A cidade é um sentimento”).



       Para que a criança se sinta um cidadão, é necessário que ela tenha amor, carinho pela
cidade, que ela faça parte de suas lembranças, que tenha boas recordações, que ao caminhar
pela cidade sinta-se feliz e tenha boas sensações, mas para que isso aconteça, é necessário que
a criança tenha espaço para desfrutar dos mais variados espaços que a cidade dispõe. Pois,
segundo Cabezudo (2004,p.11) Hoje mais do que nunca, a cidade grande ou pequena dispõe
de incontáveis possibilidades educadoras [...].
Para que se consiga desenvolver práticas pedagógicas que envolvam o contexto da
cidade, primeiramente é necessário sensibilizar os adultos quanto a importância da cidade ser
planejada para as crianças, pois atendendo as crianças, todos terão acesso e serão inclusos na
sociedade, como nos fala Tonucci ( 2005, p.209) [...] assumir a criança como parâmetro para a
garantia de todos os cidadãos, a partir dos mais fracos, na certeza de que, se uma cidade for
adequada às crianças, será uma boa cidade para todos.
       A cidade educadora tem como objetivo principal despertar o sentimento de
pertencimento a ela, fazer parte das recordações, da história do sujeito, fazê-lo sentir-se bem
em morar na cidade, desenvolver o sentimento de cuidado e zelo pelas ruas, pelos jardins,
pelas crianças, enfim tudo que faz parte da cidade. Segundo Cabezudo (2004, p.12): “Uma
cidade é educadora se oferece generosamente a seus habitantes, se se deixa utilizar para seu
crescimento e se os ensina a fazer-se sujeitos e cidadãos”. Nesse contexto, a cidade educadora
quer o desenvolvimento de práticas que contribuam para o desenvolvimento integral de seus
cidadãos, que saibam de exercer seus direitos e contribuam para transformá-la e melhorá-la.
Sendo seu objetivo principal como contribui Cabezudo (2004, p.13):



                       O objetivo prioritário é, na realidade, formar cidadãos conhecedores de seus direitos
                       e obrigações com respeito à sociedade e que, a partir do conhecimento e da
                       identificação com a própria cidade, empreendam uma ação participativa e
                       transformadora desta.



       As cidades possuem inúmeras alternativas educativas, sendo que estão ao alcance de
todos, desde que se saiba explorar e utilizar a cidade. Nessa perspectiva, Cabezudo (2004,
p.14) nos diz que:


                       Convertendo a cidade onde vivemos em cidade educadora, poderíamos nos apropriar
                       dela, identificar-nos com seu passado, melhorar seu presente, projetar seu futuro em
                       uma tarefa de construção cotidiana na qual todos, incluídas as autoridades locais, são
                       responsáveis.



       Para a transformação da cidade em cidade educadora são necessárias transformações
que o município juntamente com seus cidadãos devem fazê-las, por serem sabedores das
necessidades do município. Assim, Cabezudo (2004, p.29) nos diz que:
O conceito de cidade educadora implica a necessidade de realizar uma tarefa
                       sensibilizadora, pois, por um lado, lembra aos cidadãos que é uma responsabilidade
                       compartilhada fazer com que uma cidade seja mais civilizada, pacífica, democrática,
                       justa e acolhedora e, por outro lado, lembra aos que exercem o poder político e a
                       gestão de governo que nem todos possuem as mesmas responsabilidades, já que
                       muitas das ações que estes empreendem tem caráter educativo.



       Nós enquanto educadores, precisamos contribuir para despertamos e sensibilizarmos o
olhar de nós adultos e gestores de nossos municípios quanto a importância de aproximarmos
as crianças e a cidade. Ressaltando assim, os primeiros passos para que ocorra a
transformação. Segundo Cabezudo (2004, p. 30) “[...] toda a cidade é educativa, mas não
educadora. Isso implica uma passagem que se leva adiante a partir da vontade política, da
participação cidadã e da construção de uma estratégia coletiva”. Assim, pontua-se cinco
questões essenciais para caminharmos rumo a cidade educativa. A primeira é considerar a
cidade como um espaço educativo e de aprendizagem para a vida cotidiana. A segunda é
aprender a ler a cidade, perceber como é sua dinâmica e como se estrutura. A terceira é
aprender a conviver e estabelecer relações harmoniosas. A quarta é desenvolver habilidades
para circular e utilizar a cidade plenamente. A quinta e última questão é reconhecer-se
enquanto cidadão, saber seus direitos e deveres.
       Para possibilitar este novo olhar e as novas práticas pedagógicas, é necessário também
repensar o currículo, desmistificar o currículo oculto das cidades e desenvolvermos uma nova
prática. Segundo Gadotti (2004, p.122):



                       A maior ambição da Escola Cidadã é contribuir na criação das condições para o
                       surgimento de uma nova cidadania, como espaço de organização da sociedade para a
                       defesa de direitos e a conquista de novos. Trata-se de formar para a gestação de um
                       novo espaço público não-estatal, uma “ esfera pública cidadã” ( Jürgen Habermas),
                       que leve a sociedade a ter voz ativa na formulação das políticas públicas, visando
                       uma mudança do Estado que temos para um Estado radicalmente democrático.



       A cidade educadora é a busca de uma convivência harmoniosa entre todos, do
equilíbrio entre nós e o ambiente que nos cerca, de uma cidade que acolhe, ensina e ama as
crianças, que a partir do amor e do cuidado busca respeitá-las e ensiná-las o amor ao próximo.


Considerações Finais

       Promover a educação numa perspectiva de desenvolvimento integral da criança, faz
com que o educador não se detenha mais nos conhecimentos científicos apenas, mas no
desenvolvimento do ser humano, enquanto um ser sensível, de sentimentos, de olhar crítico,
que respeita o ambiente que o rodeia e aprende nele, com as pessoas com que estabelece
relações diretas e indiretas. Uma educação que promova o bem estar social de todos os
indivíduos.
       Planejar e desenvolver novas práticas que permitam esta educação, nos fez procurar
refletir novas formas de ensinar e ver o mundo. Refletir como cuidamos de nossas crianças? O
que proporcionamos à elas? Qual o papel que representam na sociedade? A quem estou
defendendo com minha prática? Qual currículo? Como fazê-las mais felizes? Como
sensibilizar os adultos para cuidarem das crianças? Para ouvi-las? A realidade de cada escola,
cada comunidade, as necessidades que cada uma apresenta pode ser o início da reflexão.
Utilizar bom exemplo, as situações cotidianas, perceber a cidade como processo educativo
para as crianças e inseri-las neste espaço pode contribuir para o desenvolvimento de uma
sociedade mais feliz e amiga das crianças.
Referências


BRASIL, As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil, 2010.


GADOTTI, Moacir; Padilha, Paulo Roberto; Cabezudo, Alicia (Org). Cidade Educadora:
princípios e experiências. São Paulo: Cortez, 2004.


REDIN, Marita Matins; Fernanda MÜLLER; REDIN, Euclides (org). Infancias: Cidades e
escolas amigas das crianças. Porto Alegre: Mediação, 2007.


TONNUCI, Francesco. Quando as crianças dizem: agora chega!Porto Alegre: Artmed,
2005.

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  • 1. Cidade Educadora: Uma cidade que acolhe, ensina e ama as crianças1 Francismara Pilatti2 RESUMO O presente artigo discorre sobre como a criança e as infâncias estão sendo discutidas no presente momento, as implicações que a cidade e sua organização têm no desenvolvimento das mesmas e os aspectos e práticas pedagógicas que podem contribuir para que a cidade se torne uma cidade que acolhe, ensina e ama as crianças, permitindo que se sintam sujeitos ativos e pertencentes à sociedade em que estão inseridas. PALAVRAS-CHAVE: Criança. Infâncias. Práticas Pedagógicas. Cidade Educadora. INTRODUÇÃO Na perspectiva de se ter um olhar que privilegie a criança não apenas enquanto criança, mais enquanto um ser social em pleno desenvolvimento, capaz de contribuir na melhoria da sociedade, surge na contemporaneidade discussões profundas em torno da “Infância” e dos cuidados que se deve ter com a criança pertencente a este momento histórico marcado por profundas e complexas transformações sociais. Nesse cenário o desenvolvimento e a formação da criança/cidadã, perpassam o ambiente familiar (pais/tatinhas) e escolar (professores/gestores) e chegam às cidades (ruas, políticas, estrutura física e ideológica) provocando e instigando um novo olhar à organização das cidades e como ela acolhe ou não estes pequenos cidadãos, sujeitos de deveres, mas também de direitos, os quais nem todos estão sendo proporcionados e cumpridos devido à estrutura que a cidade e a sociedades têm. Crianças, Infâncias e Singularidades A definição do conceito de criança e infância apresenta uma complexa rede de análises diante da realidade da qual faz parte e das subjetividades que a sociedade apresenta. Dessa                                                              1 Artigo apresentado para o componente curricular - Cidades, instituições de educação e infância: um olhar para os espaços que educam, do Curso de Pós - graduação em Anos Iniciais do Ensino Fundamental e Educação Infantil, ministrado pela MSc. Giovana Maria Di Domenico Silva. 2 Graduada em Pedagogia e pós-graduanda em Anos Iniciais do Ensino Fundamental e Educação Infantil, na Universidade do Oeste de Santa Catarina – UNOESC, Campus de São Miguel do Oeste. 
  • 2. maneira, conceitua-se infância(s) a partir do olhar da autora Sonia Kramer, que entende a infância como uma categoria social e também como um período da história que passa cada ser humano. Já criança é um sujeito/cidadão, que tem direitos, faz sua história e pela estrutura social a qual está inserida, vem a assumir vários papéis, como de aluno, educando... que podem ser desempenhados de maneira diferente dependendo da classe social. As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil também nos apresenta a criança como: Sujeito histórico de direitos que, nas interações, relações e práticas cotidianas que vivencia, constrói sua identidade pessoal e coletiva, brinca, imagina, fantasia, deseja, aprende, observa, experimenta, narra, questiona e constrói sentidos sobre a natureza e a sociedade, produzindo cultura. (BRASIL, 2010,p.14) Sabemos que a ideia de infância(s), o cuidado com a criança e as discussões em torno dela, vão surgindo timidamente e se manifestam com mais força, a partir da modernidade, com o capitalismo, onde as crianças também assumem seu papel social (bons consumidores). Segundo Kramer (2006, p.14): “A inserção concreta das crianças e seus papéis variam com as formas de organização da sociedade”. Assim a ideia de Infância(s) não existiu sempre da mesma maneira. O conceito de criança e de infância foi modificando-se ao longo do processo histórico e social, sendo representativo ao tempo e a organização da sociedade. O sentimento de infância, de cuidado com a criança começou nas famílias burguesas, a partir das pesquisas científicas realizadas para diminuir o alto índice de mortalidade infantil. Compreender que a infância surge inicialmente no contexto burguês contribui para refletirmos por que o conceito de infância, é de uma criança universal e homogenia, não considerando-se suas singularidades. Atualmente, o conceito de criança e de infância, que teoricamente dá a ideia de que todas as crianças passam pelo mesmo processo em condições iguais, já está sendo visto com outro olhar, por que elas não pertencem todas as mesmas realidades e por consequência, o papel desempenhado na sociedade difere de acordo com sua estrutura familiar, classe social, hábitos e brincadeiras, as formas de infância podem ser bem variadas. Kramer (2006, p.18): “Numa sociedade desigual, as crianças desempenham nos diversos contextos, papéis diferentes”. Isso contribui para manter a desigualdade e reproduzir o sistema econômico capitalista, onde segundo Kramer (2006, p.18):
  • 3. [...] a sociabilidade se transforma e as relações entre adultos e as crianças tomam rumos desconcertantes. O discurso da criança como sujeito de direito e da infância(s) como construção social é deturpado: nas classes médias, esse discurso reforça a ideia de que a vontade da criança deve ser atendida a qualquer custo, especialmente para consumir; nas classes populares, as crianças assumem responsabilidades muito além do que podem. Em ambas, as crianças são expostas à mídia, à violência e exploração. A partir dessa reflexão, podemos sentir como é importante, o educador ter um olhar reflexivo, atento, crítico quanto a maneira que a criança percebe o mundo, como o sente, como participa das interações, familiares, sociais e educativas, para que seja possível, contribuir de forma significativa no seu desenvolvimento psíquico, afetivo e social, a ponto de minimizar as disparidades que as influencias econômicas causam ou podem causar no sujeito. Outro aspecto, fruto de nossa sociedade atual a ser mencionado, são as relações que (não) estabelecesse com as crianças, o diálogo, a interação entre o adulto e a criança, que pode gerar ou não, a sensação de abandono, descaso e insegurança para a criança enfrentar determinadas situações. Muitos adultos não conseguem orientar as crianças, por não terem a narrativa da experiência, foram crianças que cresceram com as mesmas dúvidas, assim, deixam a criança sem resposta e reforçam a situação de descaso e indiferença, dando continuidade ao processo de desigualdades e injustiças. Ou seja, como contribui Kramer (2006, p.21): Sem conhecer as interações, não há como educar crianças e jovens numa perspectiva de humanização necessária para subsidiar políticas públicas e práticas educativas solidárias entre crianças, jovens e adultos, com ações coletivas e elos capazes de gerar o sentido de pertencer a. Sem orientações a criança fica a mercê das mais variadas influencias, meios de comunicações, redes sociais, jogos... perdendo sua identidade enquanto sujeito/cidadão, não sente-se pertencente a nenhum espaço, grupo que possa dar-lhe segurança de como agir. Nesse sentido, podemos refletir o porquê temos tantas dificuldades em pensarmos e desenvolvermos políticas públicas que atendam a criança enquanto sujeito participativo e ouvido no seu processo de desenvolvimento. Pois, para isso, é necessário que o adulto deixe de conceituar a infância e a criança a partir do seu olhar e tente interpretar o mundo a partir dos olhos da criança.
  • 4. Está se perdendo os valores, a cultura... por falta da narrativa , o adulto não sabe seu lugar, trata por vezes a criança como adulta, hora não a responde por estar inseguro, expondo a criança a situações que não tem maturidade nem condições de entender. A partir disso, Kramer (2006, p.19) nos diz que: Com a perda da capacidade do diálogo na modernidade, as pessoas só conversam sobre o valor das coisas; sem o diálogo, sem a narrativa, ficam impossibilitadas de dar ou ouvir um conselho que é , segundo Benjamin(1987ª), sempre a sugestão de como poderia uma história continuar. Desocupando seu lugar, os adultos ora tratam a criança como companheira em situações nas quais elas não tem a menor condição de sê-lo, ora não assumem o papel de adultos nas situações nas quais as crianças precisam aprender condutas, práticas e valores que só irão adquirir se fossem iniciadas pelo adulto. A contemporaneidade apresenta uma complexa realidade, ao mesmo tempo em que se fala tanto em cuidados com a criança e com a infância, temos vários casos de violência contra ela, resultados dessa crise de identidade. Para haver a mudança temos que promover a sensibilização dos adultos, desenvolver uma nova visão da educação, como nos fala Redin e Müller (2007, p.8): A educação é um processo contínuo de vida, e muitas vezes, a condição de não saber pode ser uma base de estímulo para a ação criativa. Aceitar o fato de que as crianças podem criar coisas que os adultos desejariam ter criado ou esperar ver algo que não se tinha visto antes pode ajudar a fortalecer a crença no protagonismo infantil. Diante disso, a escola é de fundamental importância para iniciarmos o processo de mudança, de resgate do sentimento de pertencimento do cidadão, da valorização, do amor e da compreensão de nossas crianças nos mais variados espaços. O educador deve ficar atento às singularidades e às relações que cada criança estabelece ao seu redor e proporcionar-lhes práticas pedagógicas que as ensinem a viver, amar e respeitar o próximo, que hes permita brincar e ser feliz, para que façam parte do conhecimento historicamente produzido de maneira consciente e participativa. Segundo Müller e Redin (2007, p.17): A criança é um ser que dá sentido ao mundo em que vive fazendo diferentes leituras das tramas sociais. Tem, portanto, no decorrer da vida, não só a possibilidade de aprender como também de contribuir para a constituição de um novo momento histórico social, feito da diversidade cultural e da singularidade dos sujeitos. Quanto, mais diversificado o meio sociocultural, maiores serão as possibilidades de conhecimento e criação.
  • 5. As crianças veem o mundo de uma forma mágica, onde todos os lugares podem ser explorados, sua imaginação é fantástica, elas podem fazer da coisa mais simples um brinquedo por horas, não lhes importa o tempo, mas a liberdade de brincar sem ter alguém o tempo todo lhes impondo regras, que se colocadas em prática na convivência, não precisariam ser lembradas a toda hora. Uma cidade que acolhe, ensina e ama as crianças: Práticas Pedagógicas Possíveis. A Escola, mais especificamente a Educação Infantil deve ser um mundo mágico, mas não pode limitar-se só a escola, é preciso ir a outros espaços como as ruas, arredores, pois deve ser um lugar de descobertas, de alegrias, de desafios, onde não se é escravo do tempo e tão pouco do disciplinamento de suas condutas padronizadas, as coisas consideradas as mais simples devem ser transformadas nas mais inusitadas, a fantasia e a imaginação não tem limites. Segundo Redin (2007, p.17): A escola pode e deve ser considerada um espaço privilegiado para a aprendizagem de uma prática social, um espaço de cultura, de criação como resposta aos desafios da vida, um espaço fértil de produção do novo e do inusitado. A escola para a infância precisará constituir-se nesse tempo e espaço transformando em lugar, ou seja, lócus de sentido de construção de identidades. “O lugar ao ser construído pelo grupo que ali vive, passa ao mesmo tempo sua base e sua expressão, Lopes (2000, p.146)”. Nessa perspectiva, as relações sociais também são estabelecidas de maneira transcendente e as trocas de experiências se tornam significativas, pois, a criança participa, interage, aprende a viver e a amar seus colegas, seus amigos de forma espontânea, como deve ser e não pelas regras combinadas. Assim vão desenvolvendo sua identidade de pertencimento ao grupo, a escola e a comunidade onde vivem, sendo possível sentir-se cidadão. Dessa maneira, é necessário que o educador esteja aberto, feliz, disposto a brincar, a sair dos muros da escola, a ensinar e também a aprender com as crianças. Saber planejar de forma aberta, contemplar as singularidades de cada um e permitir que as crianças falem, se expressem, estando o educador interessado em ouvir, em entendê-las, ensinar coisas práticas do seu dia-a- dia, coisas que vão lhes ser útil no momento e não só no futuro. Precisamos pensar a criança hoje e não no que ela se tornará no futuro, é o que nos fala Tonucci (2005, p.207): “A criança a ser considerada, a ser ouvida, a ser defendida e amada é a criança de hoje com aquilo que ela sabe e que e que sabe fazer com seus sentimentos. A nova cultura da infância é a cultura
  • 6. do presente, da criança de hoje. Pois, a infância é o período onde se tem melhores condições biológicas de aprendizagem e é onde se estabelecem as bases da personalidade do adulto. Para considerarmos a criança enquanto sujeito de direitos e um cidadão, precisamos também repensar nossas políticas públicas no âmbito do ambiente ao qual a criança não faz parte, mas deveria fazer as cidades. Hoje o sistema capitalista, elegeu a cidade para os adultos produtivos, marginalizando nossas crianças, elas não têm espaço e nem segurança para andar nas ruas, seus espaços se confinam em suas casas de muros fechados e a escola, a qual chega geralmente de carro. Por essas condições, as crianças não tem a oportunidade de exercer seu papel social e sua autonomia. A estrutura da cidade e a sua organização, gera o sentimento de individualismo e de descaso dos cidadãos para com a própria cidade e de cidadão com cidadão. Cada um se fecha num pequeno espaço, não sendo permitida a entrada de outras pessoas, as crianças não têm acesso às ruas e nem ao seu bairro, a descoberta dos espaços que se tem nas proximidades de suas casas não são explorados, os pais não permitem que seu filho saia de casa, preferem que ela passe o dia todo entretido em milhares de parafernálias que lhes são dadas para passar o tempo dentro de casa, assim não estabelecem relações com seus vizinhos e nem faz amizades, muito menos o sentimento de pertencimento a cidade. Aí podemos pensar o porquê estamos nessa crise de identidade, de cuidado com o público e com o próximo, pois, se não proporcionamos as crianças oportunidades de estabelecerem relações de afeto, cuidado com o outro, de autonomia, como podemos querer adultos que se importem com os outros? Com o que é público e com sua cidade? E uma sociedade amorosa? Segundo Pacheco (1996 apud Redin e Didonet 2007, p. 23): A cidade é feita de lugares e pensamentos. De lugares e emoções. É feita de gente. Porque vendo bem, a cidade é produto das atitudes da gente que a usufrui. Gente concreta, nas situações cotidianas que constroem o mistério de viver (Helder Pacheco, “A cidade é um sentimento”). Para que a criança se sinta um cidadão, é necessário que ela tenha amor, carinho pela cidade, que ela faça parte de suas lembranças, que tenha boas recordações, que ao caminhar pela cidade sinta-se feliz e tenha boas sensações, mas para que isso aconteça, é necessário que a criança tenha espaço para desfrutar dos mais variados espaços que a cidade dispõe. Pois, segundo Cabezudo (2004,p.11) Hoje mais do que nunca, a cidade grande ou pequena dispõe de incontáveis possibilidades educadoras [...].
  • 7. Para que se consiga desenvolver práticas pedagógicas que envolvam o contexto da cidade, primeiramente é necessário sensibilizar os adultos quanto a importância da cidade ser planejada para as crianças, pois atendendo as crianças, todos terão acesso e serão inclusos na sociedade, como nos fala Tonucci ( 2005, p.209) [...] assumir a criança como parâmetro para a garantia de todos os cidadãos, a partir dos mais fracos, na certeza de que, se uma cidade for adequada às crianças, será uma boa cidade para todos. A cidade educadora tem como objetivo principal despertar o sentimento de pertencimento a ela, fazer parte das recordações, da história do sujeito, fazê-lo sentir-se bem em morar na cidade, desenvolver o sentimento de cuidado e zelo pelas ruas, pelos jardins, pelas crianças, enfim tudo que faz parte da cidade. Segundo Cabezudo (2004, p.12): “Uma cidade é educadora se oferece generosamente a seus habitantes, se se deixa utilizar para seu crescimento e se os ensina a fazer-se sujeitos e cidadãos”. Nesse contexto, a cidade educadora quer o desenvolvimento de práticas que contribuam para o desenvolvimento integral de seus cidadãos, que saibam de exercer seus direitos e contribuam para transformá-la e melhorá-la. Sendo seu objetivo principal como contribui Cabezudo (2004, p.13): O objetivo prioritário é, na realidade, formar cidadãos conhecedores de seus direitos e obrigações com respeito à sociedade e que, a partir do conhecimento e da identificação com a própria cidade, empreendam uma ação participativa e transformadora desta. As cidades possuem inúmeras alternativas educativas, sendo que estão ao alcance de todos, desde que se saiba explorar e utilizar a cidade. Nessa perspectiva, Cabezudo (2004, p.14) nos diz que: Convertendo a cidade onde vivemos em cidade educadora, poderíamos nos apropriar dela, identificar-nos com seu passado, melhorar seu presente, projetar seu futuro em uma tarefa de construção cotidiana na qual todos, incluídas as autoridades locais, são responsáveis. Para a transformação da cidade em cidade educadora são necessárias transformações que o município juntamente com seus cidadãos devem fazê-las, por serem sabedores das necessidades do município. Assim, Cabezudo (2004, p.29) nos diz que:
  • 8. O conceito de cidade educadora implica a necessidade de realizar uma tarefa sensibilizadora, pois, por um lado, lembra aos cidadãos que é uma responsabilidade compartilhada fazer com que uma cidade seja mais civilizada, pacífica, democrática, justa e acolhedora e, por outro lado, lembra aos que exercem o poder político e a gestão de governo que nem todos possuem as mesmas responsabilidades, já que muitas das ações que estes empreendem tem caráter educativo. Nós enquanto educadores, precisamos contribuir para despertamos e sensibilizarmos o olhar de nós adultos e gestores de nossos municípios quanto a importância de aproximarmos as crianças e a cidade. Ressaltando assim, os primeiros passos para que ocorra a transformação. Segundo Cabezudo (2004, p. 30) “[...] toda a cidade é educativa, mas não educadora. Isso implica uma passagem que se leva adiante a partir da vontade política, da participação cidadã e da construção de uma estratégia coletiva”. Assim, pontua-se cinco questões essenciais para caminharmos rumo a cidade educativa. A primeira é considerar a cidade como um espaço educativo e de aprendizagem para a vida cotidiana. A segunda é aprender a ler a cidade, perceber como é sua dinâmica e como se estrutura. A terceira é aprender a conviver e estabelecer relações harmoniosas. A quarta é desenvolver habilidades para circular e utilizar a cidade plenamente. A quinta e última questão é reconhecer-se enquanto cidadão, saber seus direitos e deveres. Para possibilitar este novo olhar e as novas práticas pedagógicas, é necessário também repensar o currículo, desmistificar o currículo oculto das cidades e desenvolvermos uma nova prática. Segundo Gadotti (2004, p.122): A maior ambição da Escola Cidadã é contribuir na criação das condições para o surgimento de uma nova cidadania, como espaço de organização da sociedade para a defesa de direitos e a conquista de novos. Trata-se de formar para a gestação de um novo espaço público não-estatal, uma “ esfera pública cidadã” ( Jürgen Habermas), que leve a sociedade a ter voz ativa na formulação das políticas públicas, visando uma mudança do Estado que temos para um Estado radicalmente democrático. A cidade educadora é a busca de uma convivência harmoniosa entre todos, do equilíbrio entre nós e o ambiente que nos cerca, de uma cidade que acolhe, ensina e ama as crianças, que a partir do amor e do cuidado busca respeitá-las e ensiná-las o amor ao próximo. Considerações Finais Promover a educação numa perspectiva de desenvolvimento integral da criança, faz com que o educador não se detenha mais nos conhecimentos científicos apenas, mas no
  • 9. desenvolvimento do ser humano, enquanto um ser sensível, de sentimentos, de olhar crítico, que respeita o ambiente que o rodeia e aprende nele, com as pessoas com que estabelece relações diretas e indiretas. Uma educação que promova o bem estar social de todos os indivíduos. Planejar e desenvolver novas práticas que permitam esta educação, nos fez procurar refletir novas formas de ensinar e ver o mundo. Refletir como cuidamos de nossas crianças? O que proporcionamos à elas? Qual o papel que representam na sociedade? A quem estou defendendo com minha prática? Qual currículo? Como fazê-las mais felizes? Como sensibilizar os adultos para cuidarem das crianças? Para ouvi-las? A realidade de cada escola, cada comunidade, as necessidades que cada uma apresenta pode ser o início da reflexão. Utilizar bom exemplo, as situações cotidianas, perceber a cidade como processo educativo para as crianças e inseri-las neste espaço pode contribuir para o desenvolvimento de uma sociedade mais feliz e amiga das crianças.
  • 10. Referências BRASIL, As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil, 2010. GADOTTI, Moacir; Padilha, Paulo Roberto; Cabezudo, Alicia (Org). Cidade Educadora: princípios e experiências. São Paulo: Cortez, 2004. REDIN, Marita Matins; Fernanda MÜLLER; REDIN, Euclides (org). Infancias: Cidades e escolas amigas das crianças. Porto Alegre: Mediação, 2007. TONNUCI, Francesco. Quando as crianças dizem: agora chega!Porto Alegre: Artmed, 2005.