Como lidar com necessidades especiais e en

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Como lidar com necessidades especiais e en

  1. 1. Como lidar com necessidades especiaisO número de crianças portadoras de deficiências físicas –portanto, com necessidades especiais – é crescente nas salasde aula da rede pública.Com esta entrevista, a revista TV Escola pretende contribuircom o debate sobre a questão e ajudar o professor a acolheressas crianças em sua sala de aula.Olhar, abraçar e reconhecer que as crianças portadoras dedeficiência podem fazer muitas coisas, mesmo que seja de um jeito um pouco diferentedos demais alunos. Este é o melhor jeito de o professor acolher seus alunos comnecessidades especiais, diz Marta Gil, socióloga e consultora das séries de vídeos deEducação Especial produzidas pela TV Escola.Marta coordena a Reintegra – Rede de Informações Integradas sobre Deficiências,programa realizado em parceria da Universidade de São Paulo – USP, com a Amankay,uma ONG.Ela começou a atuar na área em 1976, ao dirigir uma pesquisa nacional para traçar operfil do portador de deficiência visual no Brasil.TV Escola: O que você diria ao professor que recebeu ou está para receber umaluno portador de deficiência física em sala de aula?Marta: Acho que, antes de mais nada, é importante olhar para si mesmo e reconhecer ospróprios preconceitos em relação às pessoas que têm algum tipo de deficiência. É muitonatural que tenhamos preconceitos e estereótipos. Fomos ensinados assim. Temospreconceitos contra o negro, o homossexual, o pobre, o louco. No caso da deficiência, oestereótipo pode ser agravado porque temos medo de nos tornarmos deficientes – todosestamos sujeitos a uma bala perdida a um acidente de moto, de carro etc. Isso contribuipara nos deixar aflitos, inquietos ou inseguros frente à deficiência. Não é consciente, fazparte do nosso “equipamento” psicológico.TV Escola: Então o professor não precisa se sentir mal por ter preconceitos...Marta: Exatamente. Aliás, para se livrar do preconceito, é preciso reconhecê-lo. Onascimento de uma criança com deficiência não é uma boa notícia. Olhar uma pessoaportadora de deficiência não é algo que agrade aos olhos – há uma assimetria, umafastamento dos padrões sociais e culturais de beleza. O professor que reconhece essesentimento em si mesmo consegue olhar para uma criança portadora de deficiência commais tranqüilidade e acolher essa criança.
  2. 2. TV Escola: Como é acolher?Marta: É olhar, abraçar e perceber que essa criança tem deficiências, mas também temmuitas eficiências. Ela pode fazer muitas coisas, mesmo que seja de um jeito diferente.Se não consegue escrever com a mão direita, pode conseguir escrever com a mãoesquerda; se não consegue escrever com as mãos, talvez consiga escrever com a boca.Ela vai descobrir um jeito.É preciso dar espaço para essas crianças acontecerem. O apresentador do primeiroprograma da TV Escola da série Deficiência Mental é um rapaz portador de síndrome deDown – ele está orgulhoso e feliz com esse papel que lhe foi dado no filme. Até onde eusei, é a primeira vez que isso foi feito.Geralmente, o excepcional não tem voz própria. Alguém fala por ele, o pai ou a mãe.Acho que esse detalhe mostra a filosofia do mec de uma forma muito clara e concreta.TV Escola: O professor nem sempre tem noção das potencialidades desse alunoportador de deficiência – até onde ele vai, o que pode exigir dele. Isso pode causarmuita insegurança? Como ele lida com isso?Marta: Acho que é importante admitir a insegurança – “Tá bom, eu não sei; estouinseguro, não sei se estou exigindo demais ou de menos” – e ficar tranqüilo, percebendoque, se você ainda não estava preparado, agora pode aprender. É importante observaressa criança, conversar com a mãe. Se for o caso, conversar com o médico, ou pedirpara a mãe um laudo e procurar informações. A criança vai contribuir com odesenvolvimento profissional do professor. É um desafio.TV Escola: Mas esse professor tem em geral pelo menos mais 30 alunos na sala deaula. Como se ocupar dessa criança com necessidades especiais e, ao mesmo tempo,de todas as outras?Marta: Essa é uma situação muito nova no Brasil. O próprio mec, aos poucos, vaidescobrindo formas de lidar com a questão. Na Espanha, por exemplo, as classes sãointegradas, mas têm menos alunos. As crianças ficam um período na classe comum,integradas e em contato com as outras crianças; em um outro período, ficam com apoioespecializado, mas na própria escola. Então vamos ter de criar um caminho enquantoandamos.TV Escola: Para dar atenção diferenciada a uma criança, o professor pode estarperdendo um tempo que é necessário para cumprir seu programa de trabalho como restante da classe.
  3. 3. Marta: Ele pode estar perdendo tempo de um lado, mas ganhando de outro. Ele ganhaquando começa a perceber que tem de se preparar um pouco mais e descobrir outrosmétodos e técnicas pedagógicas. A criança com algum tipo de deficiência vai precisarde um ensino mais concreto – vai precisar manipular, vai precisar cheirar, sentir – paraconstruir conceitos mais abstratos. As novas técnicas podem beneficiar a classe toda.TV Escola: O que seria esse ensino mais concreto?Marta: Aqui na Usp temos um bom exemplo: uma professora de Geografia desenvolveua técnica de construção do que se chama de cartografia tátil, para crianças portadoras dedeficiência visual. E usando sucata, porque nossa realidade escolar não comportamateriais de última geração. Os professores que trabalham com essa técnica em sala deaula perceberam que toda a turma avançou muito na compreensão dos conceitos. Ficoumais fácil para todos entender o que é uma ilha, uma península, um istmo, e a diferençaentre uma coisa e outra. Essa tecnologia está sendo difundida em toda a rede, não sópara classes especiais.TV Escola: Qual tem sido a reação das crianças que passam a conviver comcolegas com necessidades especiais? E os pais?Marta: Os pais geralmente acham que o professor vai ficar muito ocupado e que o filhopode ser prejudicado de alguma forma. Isso não tem acontecido. E as crianças têmmuitos ganhos, que vão além do aprendizado. Quem convive com a diferença nainfância vai se tornar um adulto com quase nenhum ou sem preconceito. Para osportadores de deficiência também é muito importante. Em casa essas crianças são muitoprotegidas, paparicadas. Na escola, o coleguinha não está considerando se elas podemfazer isso ou aquilo. Ele puxa o amigo para correr, brincar... A criança portadora dedeficiência tem ganhos inacreditáveis. Quando ela consegue fazer algo difícil, a classetoda vibra.Conviver com crianças assim, ajuda a desenvolver a solidariedade humana.TV Escola: Mas o professor tem de fazer um certo malabarismo...Marta: Alguns cuidados são super-simples. Se a classe tem uma criança com deficiênciafísica e dificuldades para escrever, o professor pode deixar as coisas um pouco mais detempo no quadro negro. Na hora do desenho, fixando o papel com uma fita crepe, acriança vai conseguir trabalhar melhor. Se a criança não consegue segurar o lápisporque ele é fino, enrolar uma fita e deixá-lo mais gordinho pode ajudar. São pequenassacadas que surgem na sala de aula, muitas vezes dos próprios colegas, que melhorammuito a vida.TV Escola: E já dá para falar em mudança de comportamento?
  4. 4. Marta: Em alguns lugares, como Brasília, em que esse movimento existe desde a décadade 70, já dá para sentir diferenças. Os pais aceitam mais e a equipe escolar também. Aescola começa a irradiar uma nova postura de inclusão. Isso é muito importante.Tv Escola: Comparado com os outros países, o Brasil tem muitos portadores dedeficiência?Marta: A porcentagem de deficientes na população varia muito. Países em guerra têmmédia muito maior. Principalmente em guerras que usam minas, que era um dosgrandes temas da princesa Diana, lembra? No Brasil é muito alta, de 10% a 15% dapopulação, entre deficiências adquiridas ou congênitas.É muito maior que a dos Estados Unidos, por exemplo.TV Escola: Voltando à escola, como o professor pode estimular a comunidadeescolar a participar do movimento de inclusão?Marta: O professor que aceitar essa criança deve convidar os outros – a merendeira, oguarda, o porteiro, a servente, o pessoal da secretaria etc. – aceitá-la também e a reverseus conceitos. Por exemplo, as pessoas usam muito a expressão “fulaninho está presonuma cadeira de rodas”. Para o deficiente é o contrário. Ele fica preso sem a cadeira.Na cadeira de rodas ele está solto, se movimenta, vira parte do corpo dele – ele é umcentauro.TV Escola: Além da escola, como os demais espaços sociais podem participar doprocesso de inclusão?Marta: A questão da inclusão está presente no supermercado, na lanchonete, noplaycenter, no shopping center, na festa do priminho. Toda a sociedade está sendochamada a não mais excluir os deficientes.É um processo colocado em marcha com forte suporte na Constituição, na ldb¸ mas quepara surtir efeito passa por uma mudança de mentalidade e de atitude.TV Escola: Em que a TV, o vídeo e o computador podem facilitar a vida dosportadores de deficiências?Marta: Nos Estados Unidos, a necessidade de adequar os meios de comunicação estápropiciando o surgimento de um novo tipo de tradutor para o portador de deficiênciavisual. Em salas especializadas e em vídeos especiais, já existe alguém ou uma gravaçãopara descrever a cena muda que está acontecendo na tela. Com um fone especial, oscegos ouvem essa descrição. Para o portador de deficiência auditiva, é possível legendartodos os programas – o Jornal Nacional, da TV Globo, já usa esse dispositivo. Os
  5. 5. portadores de deficiência auditiva têm uma reivindicação antiga, que é a presença, natela, de um tradutor de linguagem de sinais.TV Escola: Existem programas de computador específicos?Marta: Existem softwares adaptados para portadores de deficiência mental leve. O rapazque apresenta o primeiro programa sobre deficiência mental da TV Escola usa umcomputador com um Windows simplificado. Existe uma linguagem de programação, aLogo, que é muito usada na educação infantil em geral. O cursor é uma tartaruguinha.Você diz para a criança: “Essa tartaruguinha não sabe nada. Vamos ensiná-la.” Ela já sesente o máximo e, ao ensinar a tartaruguinha, vai aprendendo a usar o computador. Acriança com visão residual começa a trabalhar com o nariz grudado na tela docomputador – ou do vídeo. Dali a pouco ela está trabalhando numa distância normal.Pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro desenvolveram um softwarepara cegos que é um sintetizador de voz. O computador fala o que está escrito nosarquivos de textos. Crianças com deficiência física que não têm o domínio das mãospodem teclar mensagens usando outras partes do corpo.TV Escola: O computador também contribui na profissionalização do portador dedeficiência, não é?Marta: Hoje você tem muitos portadores de deficiência visual trabalhando comoanalistas de sistemas em grandes empresas, como a Sadia ou o Itaú. E é cada vez maiora consciência das empresas de que precisam contemplar essa parcela da população. OBradesco, por exemplo, instalou um software com sintetizador de voz que permite aodeficiente visual fazer suas movimentações bancárias com privacidade. A informáticatorna o portador de deficiência cada vez mais eficiente. Mas as pessoas devem estarpreparadas, autoconfiantes – e isso passa pela escola.TV Escola: De certa forma, a educação especial é uma educação normal. Oprofessor deve partir da realidade e da cultura do aluno para ajudá-lo a construirseu conhecimento.Marta: A educação especial, em primeiro lugar, é educação. Tem pequenasespecialidades, porque o aluno tem algumas limitações. Por isso é importante aexpressão “pessoa portadora de deficiência” ou “com necessidades especiais”: vocêenfatiza que antes de mais nada ela é uma pessoa, é igual à gente, não é um marciano,não escapa à raça humana. É gente. Tem gente gorda, magra, morena, do signo deAquário, e tem pessoas com uma deficiência.

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