NOVAS MÍDIAS, CULTURA E CAPITALISMOResumoQualquer tecnologia traz em si pressupostos sociais intrínsecos, que são agenciad...
As tecnologias de comunicação presentes tendem a sugerir uma nova ordenação social. Nocampo da comunicação social, o conte...
identificamos, de forma grosseira, como “novas tecnologias” recobre na verdade a atividade               multiforme de gru...
Mason (p.28) demonstra que essa cultura está a ponto de ser levada a outro nível: não só asinformações, mas a própria poss...
238-249), mais recentemente, também observam uma mudança essencial, advinda com os novosaparelhos celulares, principalment...
da redução da mensagem ao seu mínimo denominador comum, capaz de ser absorvido de formauniforme independentemente do conte...
verificada atualmente, a depender do modo de evolução dessas apropriações sociotécnicas.                                  ...
[1] http://twitter.com/bispomacedo. O Twitter é a mas recente “next big thing” a ser adotada pelo mainstream,passando a se...
Próximos SlideShares
Carregando em…5
×

Novas mídias, cultura e capitalismo

531 visualizações

Publicada em

Publicado na 3ª Conferência de Comunicação e Tecnologias Digitais (UnB, 2009), o artigo trata de como qualquer tecnologia traz em si pressupostos sociais intrínsecos, que são agenciados pela
sociedade conforme suas necessidades ambientais e históricas específicas. Esses usos podem resultar em configurações bastante diversas das inicialmente imaginadas ou que serviram de inspiração ás técnicas. O artigo aborda tais aspectos, indicando resistências e riscos a um projeto mais democrático de uso das novas tecnologias, por um lado, e a expansão, por outro,
da lógica própria dos meios digitais, que busca chegar até mesmo aos meios de produção,
abrindo oportunidades para uma superação do modelo capitalista, ao menos em sua formulação
contemporânea. Uma versão preliminar foi apresentada em disciplina da UnB.

Publicada em: Notícias e política
0 comentários
1 gostou
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
531
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
3
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
1
Comentários
0
Gostaram
1
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

Novas mídias, cultura e capitalismo

  1. 1. NOVAS MÍDIAS, CULTURA E CAPITALISMOResumoQualquer tecnologia traz em si pressupostos sociais intrínsecos, que são agenciados pelasociedade conforme suas necessidades ambientais e históricas específicas. Esses usos podemresultar em configurações bastante diversas das inicialmente imaginadas ou que serviramde inspiração ás técnicas. O artigo aborda tais aspectos, indicando resistências e riscos a umprojeto mais democrático de uso das novas tecnologias, por um lado, e a expansão, por outro,da lógica própria dos meios digitais, que busca chegar até mesmo aos meios de produção,abrindo oportunidades para uma superação do modelo capitalista, ao menos em sua formulaçãocontemporânea.Palavras-chaveMídia; tecnologia; sociedade; comunicação; economiaAbstractTechnology has intrinsic social purposes, which are employed by society as needed in specifichistorical and enviromental contexts. Such an usage may result in a conformation quite differentfrom the one initially conceived or the one which inspired the invention. The article approachesthose aspects, noting obstacles and risks for democratic application of the new technology aswell as opportunities for the overcome of capitalism, at least as it presents itself nowadays, dueto the expansion of digital media structure and concepts even to means of production.KeywordsMedia; technology; society; communications; economicsResumenToda tecnología trae consigo supuestos sociales proprios, que son manejados por la sociedadde acuerdo a sus necesidades ambientales y de circunstancias históricas específicas. Estos usospueden dar lugar a entornos muy diferentes de los inicialmente imaginados o en que se basáranlas técnicas. El artículo analiza estos aspectos, indica resistencias y riesgos para un proyecto deuso más democrático de las nuevas tecnologías, por un lado, y la expansión, en el otro lado, de lalógica propia de los medios digitales, que buscan incluso los medios de producción, franqueandooportunidades para el superar del modelo capitalista, al menos en su formulación actual.Palabras claveMedios de comunicación, tecnología, sociedad, economiaCurrículoMurilo Laureano Pinto é bacharel em Comunicação Social/jornalismo (UEL/PR, 2003),especialista em Assessoria em Comunicação Pública (IESB, 2007) e graduando em Direito(UDF). Atualmente é analista de comunicação do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Endereçoeletrônico: murilo.pinto@gmail.com NOVAS MÍDIAS, CULTURA E CAPITALISMO
  2. 2. As tecnologias de comunicação presentes tendem a sugerir uma nova ordenação social. Nocampo da comunicação social, o contexto não é diferente. Cabe questionar, no entanto, em quemedida a nova configuração das relações comunicativas constitui efetiva alternativa, promovidapelos indivíduos, à sociedade e à mídia de massas, ou se implica uma nova organização dasmídias estabelecidas, operadas estrategicamente na manutenção de suas funções ideológicastípicas nas democracias ocidentais contemporâneas.Inicialmente, deve-se refutar a inexistência de efeitos sociais das tecnologias de informaçãoe comunicação. Ainda que não se possa deduzir uma sociedade a partir da introdução de umatécnica, é inegável que a abertura de novas possibilidades trazidas por elas podem definir aconfiguração de uma coletividade. A escrita, por exemplo, nasceu há cerca de 5-6 mil anos,mas ainda no século IV a.C. seu uso associado ao conhecimento era bastante criticado, entreoutros, por Sócrates. Para ele, “o desenvolvimento da escrita acarretaria profundas mudançasnas condições de memorização do saber e das informações”, mudanças essas que classificavacomo deletérias, já que levaria aos discípulos a presunção de possuir a ciência, não a ciência emsi mesma. (BRETON;PROULX, 2002, p. 25)Somente no Renascimento a escrita, associada ao livro impresso, atingiria o relevo social queainda mantém. E isso se deveu não apenas à tecnologia. A sociedade chinesa já dispunha dopapel desde o século III, a impressão xilográfica era conhecida desde o século IX e a tipográficadesde o XI. A razão de não ter desenvolvido um sistema semelhante à prensa de Gutenberg –mais confiável e que produzia resultados mais uniformes – deveu-se, provavelmente, pela faltade demanda social por tais práticas. A primazia alcançada pela escrita, por meio do livro, deveu-se, portanto, a seu uso social, vinculado que foi ao mercantilismo e ao universalismo. (BRETON;PROULX, 2002, p.39-50)Depois, com o Iluminismo e o nascimento das sociedades democráticas atuais, a imprensa teveseu uso ampliado, passando a deter a centralidade não só do pensamento científico-filosófico,passando a ser considerada o local de união entre os indivíduos e, portanto, devendo ser dotadada mesma liberdade garantida a estes. (BRETON; PROULX, 2002, p.52) Isso porque a nova liberdade do indivíduo-cidadão supunha uma escolha, e essa escolha, a informação. O acesso à comunicação social tornou-se assim uma necessidade constitutiva da nova democracia. Informar-se não era mais simplesmente um direito pelo qual os povos haviam lutado, mas um dever revolucionário (...) Quase não houve inovação técnica em matéria de comunicação, mas os modos de expressão tradicionais transformaram-se em meios de comunicação a serviço do espírito republicano. (BRETON; PROULX, 2002, p.53)O vasto desenvolvimento de técnicas em diversas áreas observado na Revolução Industrial,da mesma forma, permitiu a associação a novos modelos sociais para renovar os processos decomunicação social. O progresso técnico aliou-se perfeitamente ao liberalismo econômico epolítico, definindo a imprensa livre como garantidora da disseminação de informações necessáriaà democracia. E havia a interdependência entre mercado e publicidade a lhe aproximar aindamais da lógica mercantil. (BRETON; PROULX, 2002, p.53-60)O circunlóquio introdutório busca uma afirmação, enfim: a informática, como a escrita, surge deuma necessidade inicial de cálculo matemático e memória estanque, passando progressivamentepor apropriações sociais que resultam em usos essencialmente diversos dos para os quais foramoriginalmente pensados (BRETON;PROULX, 2002, p. 68-69). Assim, A emergência do ciberespaço acompanha, traduz e favorece uma evolução geral da civilização. Uma técnica é produzida dentro de uma cultura, e uma sociedade encontra-se condicionada por suas técnicas. (...) Dizer que a técnica condiciona significa dizer que abre algumas possibilidades, que algumas opções culturais ou sociais não poderiam ser pensadas a sério sem a sua presença. Mas muitas possibilidades são abertas, e nem todas serão aproveitadas. (...) Aquilo que
  3. 3. identificamos, de forma grosseira, como “novas tecnologias” recobre na verdade a atividade multiforme de grupos humanos, um devir coletivo complexo que se cristaliza sobretudo em volta de objetos materiais, de programas de computador e de dispositivos de comunicação. (LEVY, 1999, p. 25-28)Dessa forma, ao pensar as novas wgias de comunicação e informação e suas implicações, deve-se ter presente que são resultado de processos coletivos e contextualizados e que, se não têmnecessária e apropriadamente um “impacto”, carregam implicações sociais intrínsecas e abrempossibilidades que podem vir a extrapolar seu sentido e proposta iniciais.Antes de se avançar, é preciso especificar o objeto tratado. Quando se fala em novas tecnologiasde comunicação e informação, se passa por mais de meio século de transformações produtivasque distanciam quase que infinitamente artefatos chamados indistintamente de “computadores”.Um mainframe dos anos 40 está muito mais distante de um smartphone atual do que um televisora válvula de um HDTV, e não só nem especialmente em termos tecnológicos. Os dois são, não sepode negar, “computadores”, mas seus usos são tão essencialmente diversos que um observadoralienígena poderia não ser capaz de associá-los. Talvez pudesse associar os computadores atuaisaos televisores de ponta – e estaria correto. Mas, a unir coisas tão diferentes está um mesmoelemento: o digital. Digitalizar uma informação consiste em traduzi-la em números. (...) Em geral, não importa qual é o tipo de informação ou de mensagem: se pode ser explicitada ou medida, pode ser traduzida digitalmente. Ora, todos os números podem ser expressos em linguagem binária, sob forma de 0 e 1. Portanto, no limite, todas as informações podem ser representadas por esse sistema. (LEVY, 1999, p. 50)Assim, a informação digital tem três características fundamentais para o estudo da comunicaçãosocial: pode ser representada por diversos tipos de dispositivos – fios elétricos, fitas magnéticos,discos óticos, moléculas biológicas etc.; pode ser transmitida e copiada sem perda, sendoreconstituída integralmente no momento do uso apesar da degradação decorrente do processode transmissão ou cópia; e qualquer mensagem, reduzida ao código binário, pode ser processadalógica e matematicamente por circuitos eletrônicos especializados (LEVY, 1999, p. 50).São essas características que permitem a emergência de uma transformação central nacomunicação, comparável à invenção do alfabeto e que não pode ser subestimada. Pela primeiravez, uma hipermídia integra modalidades de escrita, oralidade e audiovisual em um sistemainterativo (CASTELLS, 1999, p. 354). Essa interação, efetiva e não somente em termos dereação de mercado ou social, típica das mídias de massa, constitui outra característica essencialdas novas mídias. Foi introduzida no sistema pela necessidade de estudantes submetidosa rigorosos invernos de se comunicar sem deslocamento. O modem pessoal nasceu assim,construído fora da estrutura original da internet, militar, e baseado em códigos livres, como eracomum antes do advento da Microsoft, que criou o modelo de negócios de software proprietário.Ao tornar-se comercial, a internet adotou não só essa tecnologia, mas a própria contracultura domovimento hippie e a cultura universitária, acadêmica, de compartihamento do conhecimento.Decorre dessa origem que os padrões tecnológicos que permitiram e permitem sua amplidãosejam abertos e gratuitos. (CASTELLS, 1999, 362-382).Tais características trazem como conseqüência, que a propriedade intelectual e as informaçõespodem ser instantaneamente distribuídas por todo o planeta, reproduzidas infinitamente,praticamente sem custo, sem necessariamente o conhecimento do autor-proprietário e sem nemmesmo deixar de estar em sua posse (BARLOW, 2003 apud MASON, 2008, p. 4). E as própriasmensagens carregam os atributos da rede, de penetrabilidade, descentralidade multifacetada eflexibilidade (CASTELLS, 1999, p. 381).
  4. 4. Mason (p.28) demonstra que essa cultura está a ponto de ser levada a outro nível: não só asinformações, mas a própria posse dos meios de produção está caindo nas mãos da massa. Eleregistra o projeto RepRap, que busca desenvolver uma impressora caseira de objetos, levandoao extremo uma tecnologia que custa atualmente milhares de dólares e serve apenas para criarprotótipos de engenharia industrial e design. O objetivo do RepRap é construir uma máquinaque custe US$ 400 e use como insumo materiais ao custo de US$ 0,02/cm³ consumido, criadatanto a máquina quanto os objetos sob código livre; a máquina deve ser capaz de se reproduzir.O protótipo atual já gerou sandálias infantis em 2008, levando um dia – de trabalho autônomo,sem operador – para criar um par. Os arquivos com os projetos, que são lidos pela máquina,ficam disponíveis no site. Há iniciativas, não relacionadas, que permitem a criação de celularescompletamente independentes e compatíveis com as redes de telefonia oficiais; software ehardware são livres (TuxPhone, 2008). Há ainda quem pretenda desenvolver até mesmo umainfra-estrutura de rede própria, independente de torres, baseada em redes “mesh” (nas quais ummesmo dispositivo é ao mesmo tempo receptor e retransmissor do canal, amplificando o alcancede nós-chave) (DOTPUBLIC,2006)Castells (1999,p. 397) afirma ainda que a sociedade em rede inclui a maioria de suas expressõesculturais no sistema de comunicação digital. Isso enfraqueceria o poder simbólico dos emissorestradicionais, posicionados fora do sistema (família, moral, autoridade, religião). “Não quedesapareçam, mas são enfraquecidos a menos que se recodifiquem no novo sistema” (id.).Mason (p. 231-240) acredita que, no que tange o mercado, é o que acontecerá. Para ele, omodo “pirata” de produção – cultura de código aberto, compartilhamento, distribuição livre ereaproveitamento, legal ou ilegal – abre novos espaços, fora do mercado, e força as empresasà readaptação, passando a ser mais eficientes e ganhar novos clientes; a sociedade, após oajuste, ganha o máximo de valor adicionado. O autor afirma que os piratas não irão subverter ocapitalismo, mas se apresentam – desde as origens da pirataria, nos mares – como um excelentemodelo de negócios, que irá levar, hoje, à uma nova linhagem de capitalismo, onde a produçãoem massa subsiste, mas de forma mais democrática, que ele chama de “capitalismo punk”.Com relação à cultura, observa-se movimentos semelhantes: enquanto religiões tradicionaisperdem fieis, o bispo Macedo mantém uma conta “pessoal” no Twitter[1]. A mídia pareceentender o contexto, como são exemplos algumas campanhas publicitárias globais – Sprite,“Imagem não é nada” – ou, como coloca o proprietário da NewsCorp, holding de editoras,jornais, rádios, gravadores, estúdios, emissoras, canais a cabo, por satélite, sites, agências depublicidade e de notícias, bares, times de futebol americano e de metade da liga de Rugbi daAustrália, Rupert Murdoch: O poder está se afastando da velha elite de nossa área, os editores, executivos e, encaremos, os proprietários. Uma nova geração de consumidores de mídia se levantou, demandando conteúdos distribuídos quando eles querem, como eles querem e na medida em que eles querem. (apud MASON, p. 49)A situação do jornais atualmente nos Estados Unidos sugere novo reforço à perspectiva deMason. Incapazes de responder às questões colocadas pela internet em seu campo comercial,os jornais tendem a sucumbir, principalmente no momento de crise atual (LERER, 2009). Mas,como Mason, Castells (1999, p.499) também acredita que “essa evolução para as formas degerenciamento e produção em rede não implica o fim do capitalismo. (...) Mas esse tipo decapitalismo é profundamente diferente de seus predecessores históricos.”No campo da comunicação, podemos afirmar que a mudança principal está no domínio sobre osconteúdos. Os magnatas da mídia perceberam que a geração de conteúdos e de sua distribuiçãonão basta mais à manutenção do poder simbólico de que dispõem. Castells e outros (2004, p.
  5. 5. 238-249), mais recentemente, também observam uma mudança essencial, advinda com os novosaparelhos celulares, principalmente: os indivíduos estão constantemente submetidos a contextosdiversos, simultâneos (assistem televisão em família e mantêm contatos com membros de outrasredes, por exemplo); produzem o conteúdo e fornecem serviços alternativos aos oficiais ou domercado; mais que consumismo ou estilo, os aparelhos são expressão de identidade orientadapela apropriação da tecnologia embarcada; a linguagem passa por mudanças; e termos nascidosdas limitações da digitação passam a ser usados em ambientes formais, com implicaçõesculturais. Estamos convencidos que contemplamos a emergência de uma nova paisagem social na qual pessoas individualmente se esforçam para arcar com a responsabilidade de construir redes de comunicação com base em quem são e o que querem. A liberdade é uma aventura perigosa. A alternativa, no entanto, é a exclusão das redes de comunicação que movem nossas vidas em nossa era. (CASTELLS et al., 2004, p. 249)As novas gerações não pretendem se excluir. Dadas as condições de acesso – economia, infra-estrutura etc. – tendem a se adaptar muito bem aos novos recursos. Começam a se tornar comunscasos de contas de telefonia celular de dezenas de páginas, com cobranças pela troca de até 20mil mensagens de texto em um mês, por adolescentes de menos de 15 anos. (MATYSZCZYK,2009; FARRELL, 2009).Mas, a questão está no acesso. E não só em termos de inclusão digital. O papel antes exercidopelos veículos de massa está hoje em parte sendo transferido para os provedores de infra-estrutura de acesso. São eles que detém a capacidade de manipular as informações de modo aprivilegiar ou banir determinadas comunicações – em um mundo onde todos podem produzirconteúdos com os mesmos atributos de qualidade que as empresas de mídia típicas, osprovedores colocam-se como novos gatekeepers em potencial. Não se fala de manipulaçãodas mensagens em si. Mas, sim, dos dados pelos quais elas são transmitidas. Tecnologiascomo filtros de correio eletrônico e de conteúdo ou modelagem de tráfego são buscadas pelosprovedores de internet e o modelo de negócios limitando certos serviços e favorecendo o tráfegooriginado de geradores e distribuidores de conteúdo parceiros – que paguem pelo privilégio –tem sido limitado em maior ou menor extensão por legislações em todo o mundo.A proteção à neutralidade da rede existe desde o telégrafo (ESTADOS, 2003) e permitiu odesenvolvimento da internet como se conhece (BERNERS-LEE, 2006). Mas hoje provedorestem adotado a prática, sem que seja decisivamente proibido, e alguns países estudam leis queefetivamente permitam algum grau de modelagem de tráfego para certos aplicativos, serviçose conteúdos. Nos Estados Unidos, a neutralidade foi removida em 2005, quando se afastou aaplicação do princípio relacionado a telefones (OPEN, 2008). Hoje, com a concentração dapropriedade não só no espaço dos conteúdos, mas também na infra-estrutura, a questão daneutralidade da rede se aproxima do direito à liberdade de comunicação.Na essência, ainda não resolvido, resta o colocado pelo pesquisador do Media Lab do MITStewart Brand na primeira Hacker’s Conference, em 1984: A informação quer ser gratuita – porque agora é tão simples copiar e distribuir casualmente – e a informação quer ser cara – porque na Era da Informação, nada é tão valioso como a informação correta no momento certo. (BRAND apud CLARKE, 2000)No entanto, toda técnica traz embutida em si projetos e esquemas imaginários, mesmo que nãose possa concluir já em sua origem os usos sociais que estão por ela condicionados (LEVY,1999, p. 23). No caso da internet, ela traz como valores intrínsecos a universalidade, a alteridadee a autonomia (id., p. 130-133). Na comparação com as mídias de massa, o que esses valoresimplicam é o afastamento da descontextualização das mensagens. Ao invés de ampliar a lógica
  6. 6. da redução da mensagem ao seu mínimo denominador comum, capaz de ser absorvido de formauniforme independentemente do contexto ou repertório do receptor, diante da incapacidade deinteração e retroalimentação, as novas mídias universalizam o contexto, permitem a interaçãoe favorecem a participação autônoma dos indivíduos em um ambiente compartilhado qualquerque seja a aplicação específica que se trate: comunidades, jornais, blogs, comunicadoresinstantâneos, email... todos estão unidos pelo link, formando um único inter e hipertexto (LEVY,1999, p. 111-121).Observadas as inovações tecnológicas das últimas décadas – Microsoft e Apple, ambiente enavegadores web, Google – e furos “jornalísticos” – de Monica Lewinski pelo Drudge Reportaos bilhetes aéreos no parlamento pelo Congresso em Foco – todos têm em comum terem sidoarticulados inicialmente por indivíduos ou pequenos grupos, dispondo de recursos parcos, nãodiferentes da maioria dos cidadãos de classe média e infinitamente inferiores aos das grandesempresas de suas respectivas áreas. Ao contrário, a fusão AOL-Time Warner em 2000 – amaior até então, englobando marcas como CNN, Forbes e HBO – não trouxe nenhuma inovaçãosignificativa, tendo registrado dois anos após perda de US$ 100 bilhões do total de US$ 350bilhões em que era cotada, em decorrência de reavaliação de ativos intangíveis – como acriatividade e inovação. (HU;JUNNARKAR, 2000; WILLENS, 2003).Esses indícios reforçam a idéia de que há efetivamente espaço para uma superação da lógicamidiática. Certamente, em sua configuração atual, a internet desfavorece a sociedade doespetáculo e propõe um estilo de comunicação não midiático, “mas comunitário, transversal erecíproco” (LEVY, 1999, p. 224). Ao mesmo tempo em que estabelecem uma percepção comum, as mídias não permitem a comunicação entre aqueles que percebem a mesma “realidade”. (...) Em contrapartida, no ciberespaço, não se trata mais de uma difusão a partir dos centros, e sim de uma interação no centro de uma situação, de um universo de informações, onde cada um contribui explorando de forma própria, modificando ou estabilizando (...) O ciberespaço abriga negociações sobre significados, processos de reconhecimento mútuo dos indivíduos e dos grupos por meio da atividade de comunicação (harmonização e debate entre os participantes). (...) Acrescentemos que é muito mais difícil executar manipulações em espaço onde todos podem emitir mensagens e onde informações contraditórias podem confrontar-se do que em um sistema onde os centros emissores são controlados por uma minoria. (LEVY, 1999, p. 224-225).Reitere-se que refluxos e retrocessos são possíveis, e ameaças – como a quebra da neutralidadeda rede, mas também outras – estão constantemente presentes e também sujeitas à criatividade eà inovação de indivíduos e da sociedade. São diversos os ciclos de obscurantismo e renascimentona história da civilização, e a tensão persiste.Mas a realidade atual é que há notícias circulando sem nunca terem sido editadasprofissionalmente; filmes sem atores; teorias sem revisão de pares; patentes sem royalties;campanhas sem partidos... Mais que isso, os indivíduos podem não só acessar às mensagens –em sentido amplo –, mas àqueles outros indivíduos que as conceberam, como antecipava Levy(1999, p. 231).A persistir e aprofundar-se a lógica presente, verifica-se que há espaço crescente para aparticipação de diversos atores no processo de agendamento. E com a crescente dependênciada mídia de massa de fontes e autoridades tradicionais e mensagens de impacto (PAYNE,MATSAGANIS, 2006), ganham força sujeitos alternativos, reforçados pelas possibilidades dasnovas mídias. Vive-se um momento de transição, mas as características das tecnologias quesustentam a nova organização do ambiente de comunicação e os agenciamentos sociais a partirdelas sugerem uma expansão da lógica que hoje apenas insinua uma consolidação futura. Aindaque, quando esta ocorra, poderá estar estabilizada em uma configuração bastante diversa da
  7. 7. verificada atualmente, a depender do modo de evolução dessas apropriações sociotécnicas. REFERÊNCIASBERNERS-LEE, Tim. Net Neutrality: This is serious. DIG. Cambridge, MA. 21 Jun. 2006. Disponível em <http://dig.csail.mit.edu/breadcrumbs/node/144>. Acesso em 24 mar. 2009.BRETON, Philippe; PROULX, Serge. A sociologia da comunicação. São Paulo: Loyola, 2002. 287p.CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. Vol. 1. São Paulo: Paz e Terra, 1999. 617p.______ et al. The Mobile Communication Society. In: International Workshop on Wireless CommunicationPolicies and Prospects, 2004, Los Angeles. Research report.CLARKE, Roger. "Information Wants to be Free ...". Roger Clarke’s Web Site. Austrália. 24 Feb. 2000.Disponível em <http://www.rogerclarke.com/II/IWtbF.html> Acesso em 24 mar. 2009.DOTPUBLIC: The Universal Network. Disponível em < http://dotpublic.istumbler.net/ >. Acesso em 24 mar. 2009.ESTADOS UNIDOS. Pacific Telegraph Act of 1860. 16 Jun. 1860. Central Pacific RailroadPhotographic History Museum. San Diego, 2003. Disponível em <http://cprr.org/Museum/Pacific_Telegraph_Act_1860.html>.Acesso em 24 mar. 2009.FARREL, Nick. Texting teen sent 14,528 text messages in a month. The Enquirer. 13 Jan. 2009. Disponível em<http://www.theinquirer.net/inquirer/news/353/1050353/texting-teen-sent-14-528-text-messages-in-a-month>Acesso em 24 mar. 2009.JUNNARKAR, Sandeep; HU, Jim. AOL to buy Time Warner in historic merger. CNet. 10 Jan. 2000. Disponívelem <http://news.cnet.com/2100-1023-235400.html>.Acesso em 24 mar. 2009.LERER, Kenneth. How We Got Here and How We Get Out of Here. The Huffington Post. Nova Iorque,NY. 24 Apr. 2004. Disponível em <http://www.huffingtonpost.com/kenneth-lerer/how-we-got-here-and-how-w_b_191137.html> Acesso em 24 mar. 2009.LEVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Ed. 34, 1999. 264p.MASON, Matt. The Pirate’s Dilemma. New York: Free Press, 2008. 276p.MATSAGANIS, Matthew; PAYNE, J. Agenda-Setting in a Culture of Fear. International CommunicationAssociation. Annual Meeting. Dresden, Germany, 16 Jun. 2006. Disponível em<http://www.allacademic.com/meta/p_mla_apa_research_citation/0/9/0/3/5/p90352_index.html>. Acesso em 24 mar. 2009.MATYSZCZYK, Chris. Dad takes hammer to kids cell for 10,000 texts. CNet News. 10 Apr. 2009. Disponível em<http://news.cnet.com/dad-takes-hammer-to-kids-cell-for-10000-texts>. Acesso em 24 mar. 2009.OPEN Internet Coalision. Common Questions. Disponível em <http://www.openinternetcoalition.com/ index.cfm?objectid= 00175D28-F1F6-6035- BF6EA329CD5BD3F4> Acesso em 24 mar. 2009.REPRAP. Disponível em <http://www.reprap.org/bin/view/Main/ItemsMade> Acesso em: 24 mar. 2009.TUXPHONE. Disponível em <http://www.opencellphone.org>. Acesso em 24 mar. 2009.WILLENS, Robert. No Tax Break for AOLs $100b in Goodwill . CFO. 10 Mar 2003. Disponível em <http://www.cfo.com/article.cfm/3008674>. Acesso em 24 mar. 2009.
  8. 8. [1] http://twitter.com/bispomacedo. O Twitter é a mas recente “next big thing” a ser adotada pelo mainstream,passando a ser destaque em emissoras, revistas e jornais tradicionais.

×