Vento22 maio

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Página Miúdos da Pública de 22 de Maio de 2011. Pé de Vento. Blogue Letra pequena online, de Rita Pimenta

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Vento22 maio

  1. 1. miúdosPé de VentoDos livros para o palcoRetiram um texto de um livro que não foi escrito para teatro e dramatizam-noou então pedem a um autor que crie uma narrativa sobre um tema. Depois,levam-nos ao palco. E funciona. Os escritores mais cúmplices com a companhiaPé de Vento são Manuel António Pina, Álvaro Magalhães e Teresa Rita Lopes. “Têmuma escrita poética”, diz João Luiz, o encenador. Porque a palavra é que conta.Texto Rita Pimenta
  2. 2. O escritor Manuel ideia um bocado anárquica”. E O Senhor do Seu Nariz (Edições António Pina esse espírito mantém-se. ASA), “aqui houve cortes, lembra-se de ter “Se continuamos aqui há 30 mas não senti falta de nada”. participado na anos, eles ficam satisfeitos e Também na adaptação deste escolha do nome voltam, é porque alguma coisa último (que vai estar em cena da companhia se passou. Começamos a ter no mês de Junho na Bibliotecade teatro Pé de Vento, há mais adultos, que assistiram aos Municipal do Porto) o escritorde 30 anos. “Ao volante de uma nossos espectáculos quando não sentiu desconforto. “Nemvelha Diane branca”, como tinham dez anos, a trazer agora sempre gosto do resultado. Àsescreveu no livro Memória dos as suas crianças ao teatro”, diz, vezes, incomoda-me escutar asDezoito Anos. “A meu lado vão satisfeito, o encenador. minhas imperfeições. Mas hojea Maria João [Reynaud] e o João não me senti incomodado”,Luiz. Falamos os três de sonhos O teatro conta histórias disse depois de assistir àe de coisas irreais. O resto é Conseguiram manter o núcleo representação do seu textoconfuso. Acho que é de noite. fundador e também a filosofia no 2.º Encontro de Literatura ManuelAcho que seguimos, lentamentee sem destino, pela Estrada que desde logo norteou o projecto: “Fazer espectáculos a Infanto-Juvenil da Sociedade Portuguesa de Autores. António PinaMarginal do Porto para Entre- partir de um escritor. Eu sou dos O também autor de O Limpa- foi o primeiroos-Rios. (...) Lembro-me de que, que sempre gostaram da língua Palavras e Outros Poemas (quede súbito, no interior da Diane, portuguesa e sempre acharam integrou a Lista de Honra do escritor a sernós pronunciámos finalmente onome. E logo o reconhecemos, que o teatro conta histórias.” O primeiro autor a ser Prémio de Hans Christian Andersen, em 2002) diz à encenado pelae logo o sonho a si mesmo nelese reconheceu. E, nomeado, encenado foi justamente Manuel António Pina, agora Prémio Pública: “Eu queria era ser companhia poeta, mas a Ilse Losa disse-mecomeçou assim a ter vida própria Camões. “Escritor-poeta a que se que eu tinha uma voz apropriada Pé de Vento, háe distinta.” Estava encontrado oPé de Vento. foram juntando outros com uma escrita irmã. Sempre em língua para jovens. O Pina também e...” Acabou por sê-lo. Poeta. mais de 30 anos Desde então, este grupo do Por- portuguesa. Trabalhando em João Luiz fala dos doisto encena peças que podem ser Portugal, acho que devemos usar escritores: “Eles são diferentes.vistas por públicos de todas as originais portugueses”, defende Com o Manuel António Pina, asidades. “Um pouco como quando João Luiz. coisas nascem feitas. No dia emse chegava ao terreiro da aldeia: Um dos escritores que se lhe que escrever, está feito e nãotanto viam as crianças como os juntaram foi Álvaro Magalhães, se consegue mexer. O Álvaro éadultos. O avô levava o neto pela que disse divertido no mesmo diferente, faz uma escrita paramão”, lembrou o encenador da encontro: “O encenador do Pé depois se tirar um quadro.”companhia, João Luiz, à Pública, de Vento obriga-nos a trabalhar. Tudo numa parceria deem Abril, no encontro de literatura Às vezes, zango-me, porque ele respeito, cumplicidadeinfanto-juvenil Palavras Para Que corta isto e aquilo, parece que e amizade. “HáVos Quero, na Biblioteca Almeida quer cortar tudo. Mas depois uma grandeGarrett, no Porto. verifico que ele tinha razão...” confiança. Mesmo No entanto, há um grupo fiel e Exercício do contraditório: se discordamos,regular de espectadores que vem “Nessa transposição, posso cortar sabem que, no final, não saiusobretudo das escolas. Miúdos, palavras... e digo que vou cortar e o essencial do texto nem asportanto. No início do projecto, o tenho mesmo de cortar. Porque, ideias, nem a linguagem.”encenador dizia: “Naquela altura às tantas, não é visível. ‘Teatro só Para assinalar os 30 anos de[1978], havia uma lacuna no teatro visto, contado ninguém acredita.’ trabalho de Manuel Antónioem Portugal: não havia quem fi- Mas há um grande respeito entre Pina com o grupo, o autorzesse espectáculos para a infância a escrita e o teatro.” escreveu História doe juventude. Aí surgiu-me a ideia Álvaro Magalhães dá dois Sábio Fechado na Suade fundar um grupo que baseas- exemplos distintos sobre o que Biblioteca. A estreiase a sua acção nesse campo.” E sente perante a encenação das foi em 2008 e, no anoassim fez. suas obras: o livro O Rapaz do seguinte, a Assírio & Alvim A designação “quer dizer Espelho — O Melhor Conto do publicou o texto com ilustrações Ilustrações de João Fazendaexactamente o que diz. Chegar Jovem Hans Christian Andersen de Ilda David’. para o livro O Senhor do Seua qualquer lado e fazer um ‘pé (Texto Editores) “tem excesso A escritora Teresa Rita Lopes Nariz e Outras Histórias, textode vento’ é desestabilizar a de texto narrativo, se calhar faz igualmente parte da história de Álvaro Magalhães (Ediçõesformalidade, transmitir uma devíamos ter cortado mais”, e da companhia, “também tem c ASA, 2010)
  3. 3. miúdos DR Patrícia Queirós interpreta O Senhor do Seu Nariz. Encenação de João Luiz, cenografia de João Calvário,figurinos de Susanne Rösler e música de Blandino uma escrita poética, veja-se o ou de mudança de ares... valor”. E aposta no teatro texto Andando, Andando ou a Fizemos Jorge de Sena, O “como um dos veículos para Asa e a Casa”, diz o encenador. E Físico Prodigioso. Mas mesmo isso”. Considera que “a oratória recorda divertido como de início assim é para ‘pegar’ nos 10- está cada vez mais distante e lhe enviava os manuscritos: 12 anos e dizer que funciona. árida” e lamenta nem sequer “Assim com uma letrinha... vinha Para perceberem que a escrita se conseguir escutar um bom num envelope. Era uma cartinha fantástica de Jorge de Sena não sermão. “É uma infelicidade. que eu recebia. Aqui vai o texto.” é um monstro… Aquela poesia Antigamente, se uma pessoa Já encenaram livros de no meio, aquele balanço, tudo tinha saudades de ouvir alguém Gonçalo M. Tavares, O Sr. aquilo é um esquema popular, pregar, podia ir a uma igreja. Juarroz e O Sr. Valéry (Caminho). matemático e medieval. Tem Mesmo que não se acreditasse, “Foram verdadeiros buracos muito de canção de amigo. Mas é ouvia-se uma boa prédica.”“Cada vez é mais financeiros”, lamenta. “São preciso ir lá buscá-lo”. Tem pena de que se tenha bons espectáculos, adorei perdido a prática da leitura em importante fazê-los, mas o Gonçalo é Não carregar as palavras voz alta. “Se fizermos a história reencontrar a muito pouco conhecido pelos professores, e tivemos pouca O que une o trabalho dos autores que escolhem é a língua, das comunidades de leitura, vemos que antigamente se lia palavra e o seu procura do nosso público fiel.” “aquela plataforma da língua uns bocados de livros. Agora, as Susanne Rösler, figurinista, portuguesa que atravessa a pessoas lêem em casa e depois valor. O teatro explica que as peças do Pé escrita de muitos escritores, discutem. Estamos a distanciar- pode ajudar de Vento são normalmente representadas no Teatro da do Padre António Vieira a Fernando Pessoa”. nos da audição da palavra. Nós vemos hoje o que é a pobreza da nisso”, diz Vilarinha: “Durante a semana, actuamos para grupos, Para João Luiz, “a palavra é que conta, não precisamos de comunicação e do vocabulário. É fundamental voltar a encontrar João Luiz sobretudo escolas. Divulgamos a carregar. Todas as palavras isso. Mas o teatro vai lá chegar.” E os espectáculos logo no início suportam uma graça e uma através da literatura. do ano lectivo. Mas também desgraça e portanto cada “O pretexto e o texto, há que fazemos divulgação para o um recebe-a da maneira que buscá-los na literatura. Textos público em geral.” Algumas lhe der jeito”. Desta forma, escorreitos, só no osso, sem encenações prestam-se a acredita que “é possível um gordura. Com um esqueleto, de itinerâncias, “mas agora diálogo diferente. Desde que forma a que se possa pôr alguma é muito mais difícil, nós queiramos ser emissores coisinha à volta”, conclui. as câmaras pedem e digamos: ‘Agora ponha- Para o ano, está prometido menos”. lhe a carga que quiser, a sua novo texto de Manuel António Embora actuem história, o seu afecto’”. Pina. Em Outubro, no Teatro sobretudo para um Para o encenador, “hoje é da Vilarinha, haverá uma público infanto- cada vez mais importante, “ensalada” de textos de Gil juvenil, por vezes devido ao isolamento e ao Vicente. Para todos e em voz saem desse desmembramento de alguns alta. a universo “por sectores da sociedade, necessidade artística reencontrar a palavra e o seu rpimenta@publico.pt

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