Miudos 28-11-10 Andante

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Página Miúdos 28 de Novembro de 2010. Blogue Letra pequena online, de Rita Pimenta

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Miudos 28-11-10 Andante

  1. 1. miúdos Levar as palavras onde elas não chegam Texto Rita Pimenta Fotografia Fernando Ladeira Fazem teatro sem texto dramático, partilham o prazer da leitura com os mais novos e com os outros, levam literatura aos lugares onde se desconfia das palavras e dos livros. Chamam-se Andante, Associação Artística e não vão deixar de andar por aí.
  2. 2. C ristina Paiva, actriz, diz já ter assistido “a coisas extraordinárias” no seu trabalho de promoção da leitura. E dá um exemplo passado numa prisão, “palco” onde a Andante periodicamente “representa”: “Um homem um pouco assustador esteve todo o espectáculo de óculos escuros. Com uma atitude corporal de recusa ao que estava a acontecer. Não queria estar ali.” (Aqui, explica como é complicado estar perante uma série de homens condenados. E desculpa-se por este não ser um exemplo com crianças.) “No final do espectáculo, veio ter comigo, ele era enorme, um gigante. Tirou os óculos escuros, deu-me um aperto de mão e agradeceu-me comovido.” Cristina tem muitas histórias assim. É por isso que nunca desistirá. Seduzir leitores. Eis um dos grandes propósitos desta companhia teatral que raramente está num palco convencional. “Somos uma companhia de teatro com algumas particularidades: não trabalhamos em teatros, mas em bibliotecas escolares e públicas, em salas de escolas. Não trabalhamos com texto dramático, mas com a poesia e a prosa que vamos buscar aos livros e às quais damos uma linguagem cénica, teatral”, explica a fundadora da Andante, Associação Artística. A sede é em Alcochete, mas são inúmeras as paragens pelo país. Levam as palavras onde elas não chegam. Hoje, por exemplo, vão estar na Biblioteca de Constância, às 15h30, a apresentar Às Escuras, o Amor. Textos para jovens. Ou para quem quiser. Precisardomaravilhoso “Desde o início que temos um objectivo: a promoção da leitura.” Dito de outra forma e mais adiante: “Nós partilhamos o prazer das palavras, o prazer de ler”, continua a actriz, numa conversa telefónica com a Pública. Por isso, as bibliotecas são o cenário privilegiado para esta “espécie de missão de cavaleiros andantes”. Mas o leitor pode muito bem ter a sorte de os encontrar na inauguração de uma livraria, num congresso de literatura ou numa exposição. Haja orçamento... Cristina Paiva lembra que ainda há pessoas que têm “pudor em entrar nas bibliotecas, em mexer nos livros. Há quem tenha ouvido dizer que ler é difícil e aborrecido”. A Andante quer desmontar tudo isso. Apagar a ideia de que os livros são para um “grupo de ‘intelectualóides’ ou são algo de inacessível”. Acredita que é possível “mudar a vida de uma pessoa a partir das palavras e dos livros” e tem a certeza de que o trabalho que desenvolve desde 1999, quando é acompanhado e continuado pelos técnicos das bibliotecas, “faz a diferença em muitos lugares”. Porque estas iniciativas trazem as pessoas para um outro universo. “O ser humano precisa do maravilhoso. Vamos procurá-lo em alguém que canta bem, vamos procurá-lo na arte, em qualquer lugar. Quanto c
  3. 3. miúdos mais lermos, mais graus de maravilhoso podemos ir buscar.” Depois, há a identificação com os textos. “Quando as pessoas se encontram nas palavras dos outros, se revêem nelas e pensam ‘estas palavras também foram escritas para mim’, há um clique que se dá. É evidente que se nunca mais ninguém trabalhar com estas pessoas, mais ninguém lhes mostrar um livro, provavelmente o espectáculo teve só o efeito emocional naquela hora. Mas nos vários locais que sei que o trabalho foi desenvolvido com continuidade isto faz a diferença.” Para ontem (falando de continuidade), estava marcada uma actividade do Clube de Leitura em Voz Alta (que se reúne quinzenalmente na Biblioteca de Alcochete para leituras partilhadas) de que fazia também parte a plantação de árvores no concelho. Há um espectáculo para crianças do 1.º ciclo que resulta sempre muito bem quando há articulação entre todos os mediadores. Chama-se Às Avessas. “A escola prepara com os meninos alguns dos poemas que vão ser lidos. Não é análise de texto, é leitura conjunta ou encenação. Qaundo os miúdos vão ver o espectáculo e, de repente, escutam aquele texto que já conhecem, com a nossa música, ficam entusiasmados e já têm uma referência.” É uma semente que se lança. Para o 2.º ciclo, a Andante tem no seu “catálogo” o atelier Anatomias e, para o ensino secundário, o espectáculo Às Escuras, o Amor. O centenário da implantação da República motivou um desafio por parte da Biblioteca de Alcochete, que resultou num espectáculo (fotos nestas páginas) que tem andado a viajar pelo país. Há marcações até meados de Fevereiro de 2011, “sem confirmação por causa dos cortes orçamentais”. É possível conhecer (e solicitar) os vários trabalhos desta companhia em www.andante.com.pt/. Em 2011, irão homenagear Manuel da Fonseca, no centenário do seu nascimento. Por isso, andam “deliciados a trabalhar textos da Seara de Vento e Cerro Maior”. A Gulbenkian e a DGLB Actriz“desdesempre”,CristinaPaiva assistiu por dentro ao crescimento darededasbibliotecaspúblicas,“no meiodosanos90”,ecomeçouapen- sarquepodiajuntarasduascoisasde que mais gostava de fazer: “Teatro e ler em voz alta.” E juntou mesmo. “Duas instituições grandes conheceram o nosso trabalho e pegaram em nós. Foi o IPLB, agora chama-se DGLB [Direcção- Geral do Livro e das Bibliotecas] e qualquer dia não se chama coisa nenhuma... Colocaram- nos na carteira de itinerâncias. Também a Gulbenkian, que tinha uma rede de bibliotecas e o seu próprio serviço de itinerâncias, com acções de formação e espectáculos de promoção da leitura. Começámos a andar com estas duas instituições.” Pensaram que poderiam crescer, mas hoje são apenas duas pessoas a tempo inteiro na Andante: Cristina Paiva (actriz) e Fernando Ladeira (sonoplasta). Durante algum tempo foram três, mas tornou-se insustentável. “Os espectáculos custam menos agora do que quando começámos. A reboque da crise, cortam- se actividades. As bibliotecas deixaram de ter possibilidade de adquirir espectáculos (e até livros e pessoal para trabalhar). Somos um complemento ao trabalho dos técnicos, mas, com os cortes, somos os primeiros a ser dispensados.” No entanto, Cristina Paiva sublinha “a capacidade de resistência brutal dos artistas”. Por isso está certa de que vai continuar o seu trabalho. “Fazemos isto porque não podemos fazer outra coisa. Só paramos quando não tivermos o que comer. Tirando isso, voltaremos sempre aqui.” A andar. a rpimenta@publico.pt O espectáculo sobre o centenário da República viajou pelo país e tem marcações até Fevereiro de 2011, mas a ideia nasceu em Alcochete

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