Agorafobia

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Agorafobia

  1. 1. AgorafobiaPerspectivas fenomenológica e existencial GONÇALO REIS (*) JOSÉ A. CARVALHO TEIXEIRA (**)A experiência de quem sofre pode continuar a como sendo estados neuróticos com medo anormal-ser a mesma, os critérios de diagnóstico conti- mente intenso perante certos objectos ou situaçõesnuam a evoluir. específicas que normalmente não causariam esse (Davidson, 2004) efeito. Se a ansiedade tende a ampliar-se de uma situação ou objecto específico para uma variedade de circunstâncias, então aproxima-se ou torna-se 1. INTRODUÇÃO idêntica ao estado de ansiedade e deve classificar-se como tal (Vallejo, 2006). Uma fobia é um medo A finalidade deste artigo é reflectir sobre a persistente, irracional e involuntário que surgecompreensão do fenómeno psicopatológico agora- perante uma situação ou um objecto específico. Ofobia e sobre o que é a experiência agorafóbica, medo é reconhecido pelo indivíduo como excessivoa partir das perspectivas fenomenológica e exis- e o comportamento de evitamento pode ser inca-tencial. Mais do que uma categoria nosológica, pacitante. Existem quatro factores invariantes queinteressa-nos a compreensão fenomenológica da caracterizam as fobias: a persistência do medo, oexperiência agorafóbica e o seu significado existencial. evitamento da situação temida, a irracionalidade Phobos era um deus grego que costumava ser percebida e o grau de incapacidade associado. Actual-evocado para assustar os inimigos. A palavra fobia mente, consideram-se três grupos de perturbaçõesapareceu há mais de 2000 anos atrás, na termino- fóbicas: fobias simples, fobia social e agorafobia.logia romana, aquando da descrição de hidrofobia Agorafobia significa medo fóbico de espaçoscomo um sintoma da raiva, mas só começou a ser abertos, mas designa actualmente uma perturbaçãousada no jargão psiquiátrico no século XIX, embora fóbica constituída por fobias múltiplas e difusas,as descrições de medos fóbicos tenham existido associadas a ansiedade generalizada e reduçãomuito antes (Goodwin, 1983). Segundo a CID-10, estados fóbicos definem-se progressiva da possibilidade de afastamento dos locais onde o sujeito se sente seguro. Para além do medo fóbico dos espaços abertos, a perturbação agorafóbica inclui outros medos fóbicos associados (*) Mestrando em Relação de Ajuda – Perspectivas aos transportes públicos (comboios, autocarros,da Psicoterapia Existencial, Instituto Superior de Psico- metropolitano, intoleráveis quando cheios de gente),logia Aplicada, Lisboa, Portugal. (**) Instituto Superior de Psicologia Aplicada, Lisboa, aos espaços fechados (túneis e elevadores, por exemplo),Portugal. Sociedade Portuguesa de Psicoterapia Exis- ao estar sozinho em casa, e a estar longe de casa,tencial, Lisboa. O DSM IV-R estabelece a distinção entre per- 675
  2. 2. turbação agorafóbica com e sem ataques de pânico. ficados, é na atitude para com o espaço que habita eEmbora o fenómeno psicopatológico seja comum, que o rodeia que podemos compreender a espaciali-a história natural de cada uma é diferente. De facto, dade. O facto da referência principal no espaço orien-muitas vezes a limitação agorafóbica surge após tado ser o próprio corpo sobreposto num eixo vertical,a experiência de um ataque de pânico, o que conduz que nos é revelado pela experiência da gravidade,a ansiedade antecipatória e que leva ao evitamento mas também horizontal que nos possibilita direccio-das situações temidas. Contudo, existem casos nos narmo-nos no espaço, mostra a importância quequais o quadro agorafóbico não é precedido de ataque a consciência do corpo adquire para a compreensãode pânico, aparecendo em indivíduos com história da agorafobia.de experiência psicopatológica de temática ansiosa Porém, quando se fala em termos psicopatoló-e, nestes casos, a agorafobia está mais circunscrita gicos da espacialidade, e tendo em conta o constantea determinadas situações, tais como autocarros, movimento que é o devir da existência, poderámetropolitano, elevadores, entre outras. existir uma hiper-ordenação da espacialidade, na qual A perturbação agorafóbica tende a complicar-se a estrutura rígida e sequencial prevalece na relaçãopor depressão, relacionada com os sentimentos de e, por outro lado, pode observar-se a espacialidadeinferioridade e/ou de incapacidade que emergem vivida como caos ou buraco negro onde tudo seperante as limitações condicionadas por evitamentos consome, levando à indefinição anárquica das possi-múltiplos, mas também por comportamento depen- bilidades de relação.dente, que significa geralmente uma forma de lidar No caso da agorafobia a espacialidade é caracte-com a ansiedade agorafóbica, uma modalidade de rizada pela vivência da distanciação, onde tudoobtenção de tranquilização. está como muito distante para o indivíduo e onde Karl Jaspers descreveu a experiência agora- a constante procura de referências espaciais temfóbica da seguinte maneira: “Quando o paciente papel importante na estruturação da espacialidade.deve atravessar uma praça ou se encontra numa rua O conceito de espaço orientado refere-se aodeserta diante de fachadas altas e largas, apossa-se que experimentamos no dia a dia, uma vez quedele um enorme sentimento de medo de morrer, somos a referência, quer no eixo horizontal querligado a um tremor generalizado, pressão no peito, vertical. Cada dimensão tem o seu valor específico,palpitações, sensações de calafrio ou de calor que há objectos, limites, distâncias e direcções que podemsobe para a cabeça, transpiração, sensação de estar ter o mesmo comprimento, mas serem valorizadaspreso ao solo ou de fraqueza das extermidades, com de formas bastante diferentes, dependendo se estãomedo de cair” (Jaspers, 1959). Na consciência agora- a ser experimentadas no nosso espaço próximofóbica mostra-se uma afectação vincada da espa- ou remoto. É o corpo humano que condiciona acialidade. experiência do espaço, quer pela sua mobilidade Segundo Guimarães Lopes (2006), “A raiz sâns- quer pelos orgãos dos sentidos, por isso o espaçocrita spray, donde derivou o termo espaço, tem o orientado não pode ser visto como um continuumsignificado original de ‘desenhar´. Desenhar é espa- vazio, “[... tem limitações e conteúdos, é mapeadocializar uma ideia. (...) o design das nossas relações por objectos que têm um “dentro” e um “fora”...]”intencionais a partir do que as torna tangíveis e (May, 1967).peculiares. Já não estamos a falar de espaço mas Binswanger descreveu o espaço afectivo comode uma qualidade, a ‘espacialidade’. Isso acontece uma experiência determinada pelo humor ou tona-quando a finitude (necessidade) é interceptada pela lidade afectiva, é a qualidade espacial existenteinfinitude (possibilidade).” Heidegger (cit. por Santos, ao mesmo tempo que experimentamos o espaço1996) referia-se à espacialidade como: “... uma orientado. Definiu o eixo vertical como a base daabertura luminosa, que dá luz e significação ao existência humana, considera que a vida é umaespaço dos objectos e ao espaço compartilhado com constante tentativa de movimento para cima, paraoutros seres humanos...” A partir desta definição, nos sentirmos “leves”, claramente uma alusão aopara além de uma vivência global e ligada inten- conceito de equilíbrio emocional.cionalmente ao objecto que se apresenta perante o Minkowski (cit. por Santos, 1996) definiu doissujeito, há um conceito que surge como central na subtipos no espaço afectivo: o espaço claro, queabordagem clínica da espacialidade: a significação. possui uma perspectiva, um horizonte e permiteDe facto, sendo o Homem capaz de construir signi- a amplitude da vida e que tem como característica676
  3. 3. fundamental a distância vivida, o espaço livre entre sem nunca o ultrapassar. Os sintomas são determi-dois pontos que permite o salto no desconhecido, no nados pelo ultrapassar desse limite, cuja soluçãoencontro fortuito entre indivíduos. Por outro lado é encontrada pelo regresso afectivo ao aquém. Oexiste também o espaço escuro, no qual deixa de agorafóbico está fixo no medo de se perder noexistir a distância vivida e o espaço vital sofre um muito distante, que é definido pelo medo de ser-estreitamento que cerca e penetra a existência do além, em qualquer dimensão. A agorafobia seria,indivíduo. então, uma expressão desse ultrapassar o limite e o aquém a que está condicionado que, por sua vez, é dinâmico e indica quer um lugar (o lugar 2. PERSPECTIVA FENOMENOLÓGICA DA do fóbico), quer um movimento de retirada desse AGORAFOBIA lugar, que o define. A retirada é uma expressão do agorafóbico para regressar ao aquém do “muito distante” no 2.1. Espaço vivido na agorafobia qual se pode perder, estando constantemente de prevenção, em permanente inquietação. É através do espaço que se exprime o campo A agorafobia é, assim, considerada a manifes-do possível e a estrutura de si, estrutura essa que tação central das patologias de ser-em-retirada-inclui simultaneamente a relação com o mundo -de-si ou patologias de inibição. O espaço é vividode possibilidades. Nesta relação dialéctica, o espaço como um lugar de exposição, no qual o risco devivido é a relação do ser conSIgo. São as direcções se perder ao meio e muito distante da margem éde sentido de si que podem fornecer um modelo constantemente projectado. Na experiência agora-heurístico de compreensão de configurações psico- fóbica há uma divisão entre o espaço familiar, depatológicas. Tendo a experiência humana o foco reencontro afectivo e o espaço de perda, de ser-no ser-em, na situação, a qual: “actualiza a expe- -aquém. Contudo, dialeticamente existe entre ambosriência do Homem, como um movimento perma- os espaços um limite elaborado pelo agorafóbiconente de retotalização e redifinição situacional, do para poder manter-se aquém. O limite é sempreser em relação ao seu Todo” (Charbonneau, 2004), se elaborado para que se consiga manter aquém, semser-no-mundo não actualiza, está perante um bloqueio, nunca o ultrapassar.preso numa configuração que, no caso fóbico, é o O muito distante estrutura por isso o espaço doser aquém de si. agorafóbico. Pode assumir a forma de ser-ao-meio, Ser-aquém representa um bloqueio no qual o a igual distância do ponto de partida como do pontoHomem perdeu a possibilidade de habitar o de chegada, ou ao meio de um lugar, ou ao meioespaço total e integral, de se estender nas suas de um espaço público, como aqueles que ele evita,possibilidades. É um obstáculo existencial, iden- criando assim uma posição de ausência de refe-tificado pela direcção de sentido que demonstra uma rencial que se traduz na ansiedade em situaçõesposição, um lugar que no caso é o ser-aquém, de chave. O ponto de chegada torna-se sempre familiar,um ponto de vista psicopatológico. De qualquer dá-se o regresso das referências espaciais. São estasforma, Charbonneau (2004) salientou que essa posição situações de estar-longe-da-margem, estando pornão é necessariamente negativa, uma vez que pres- isso ao-meio, o que angustia o agorafóbico.supõe uma situação na qual os sentidos podem O espaço afectivo do agorafóbico é definido peloreabrir-se e o desenlace tornar-se possível, uma vez medo do inabitado ou medo do excessivamenteque o espaço vivido não é um espaço empírico mas habitado, um medo do vazio, longe de alguém queum lugar de expressão da presença humana na estru- o implique o estar em relação. O investimento inter-tura espacial global na qual a perturbação repre- subjectivo não é importante para o fóbico, emborasenta um afastamento dessa estrutura. No caso Charbonneau refira que ao fóbico basta-lhe o estardo fóbico surge uma ideia fixa pelo afastamento ao lado de, caracterizado por ser um estar junto,do próximo, quer no espaço afectivo, quer no espaço sem implicação afectiva. Existe por isso umasocial. função positiva no estilo relacional e no espaço O espaço vivido do agorafóbico caracteriza-se intersubjectivo do fóbico que, ao não negar a relaçãopor uma relação obsessiva com estabelecimento (estar-com), permite-se que exista alguma expansãode um limite espacial, no qual tem de se manter afectiva, apesar da inibição geral. 677
  4. 4. 2.2. Vertigem agorafóbica Lopes, 2006). A problemática do agorafóbico centra- -se por isso na ansiedade que existe e envolve o Charbonneau (2004) faz uma analogia entre o seu modo de estar-no-mundo, especialmente atravéscaminhar à beira duma falésia e a situação de crise das experiências de espaços sociais.agorafóbica. A crise agorafóbica caracteriza-se Segundo Henri Ey (cit. Villegas, 1994) “Se nãopor uma manifestação de pânico, que é consti- há liberdade humana, não há loucura”, o que de-tuida pela perda de referências espaciais e pela monstra que perante as possibilidades existentesmobilização de todas as energias na contínua procura o Homem pode sempre escolher e decidir, emborada margem. É a perda do “fio” que liga à margem. É por vezes o contrário também seja válido, o quevivido como um ter-ido-muito-longe, mas com o configuraria uma situação de obstáculo existencial,caminho de regresso perdido. À medida que a crise se ou a incapacidade para agir e tomar decisões livre-desvanece as referências espaciais voltam a aparecer. mente. A neurose seria a impossibilidade de pro- Na margem da falésia o espaço desdobra-se na jectar-se autonomamente no mundo. Liberdade ésua imensidão e dá-se uma desorganização total do determinação, posição activa perante o mundo,espaço vivido. É o estar longe da margem. O próximo ao contrário de indeterminação com ausência dee o distante misturam-se no espaço vivido. O aqui posição.e o acolá confundem-se. Dá-se um impulso de Segundo Villegas (1995), o conceito de dilemasquerer regressar ao meio, sem o desejar. É uma morais que muitas vezes aparecem associadas aangústia de não poder reencontrar a margem, mas patologias depressivas e ansiosas é uma porta deao mesmo tempo uma obsessão em ficar perdido entrada para compreendermos os modos comono além de si, ficando fixo no regresso ao aquém enfrentamos as situações de conflito. Refere quede si perante o medo de se situar perante o seu a superação destes dilemas supõe uma afirmação,próprio tornar-se, que aqui parece uma alusão ao uma reconquista da capacidade de decidir, e queconceito de projecto e suas escolhas e decisões em a não superação destes dilemas, que se configuraautenticidade, próprias da compreensão existencial. como uma renúncia à liberdade, pode associar-se a A compreensão fenomenológica da agorafobia é perturbações psicológicas graves, tais como a agora-uma tentativa de entender a experiência vivida fobia.agorafóbica, focalizando na vivência patológica. A agorafobia é uma perturbação da ansiedadeSe quisermos utilizar as heurísticas anteriormente na qual existe uma restrição da liberdade de movi-mencionadas, vimos que o ser-aquém-de-si é um mentos e uma limitação ao espaço familiar. Aomodo fóbico de relação com um limite estabe- considerar que a agorafobia corresponde a um conflitolecido, o qual é, à partida, impossível de ultrapassar. moral da liberdade nas relações intersubjectivas,Quando, por qualquer motivo, o movimento do o enfoque é posto na falência de um projecto exis-indivíduo se aproxima dessa ultrapassagem, surgem tencial no qual a dificuldade em enfrentar espaçosos sintomas agorafóbicos, deixando antever por abertos é expressão de uma dificuldade em afastar-isso que para o agorafóbico seria necessário ir- -se de uma relação não escolhida em liberdade,-além-de-si, rompendo com as normas e distâncias ou que existe às custas da mesma. A liberdade éintersubjectivas. vista como incompatível com as obrigações dadas por um destino não escolhido. O factor determi- nante da agorafobia estaria na impossibilidade de 3. PERSPECTIVA EXISTENCIAL DO ser autónomo sem quebrar as obrigações morais, AGORAFÓBICO que chegam ao indivíduo como uma fatalidade, não escolhidas em liberdade. É a obrigação moral A conceptualização da agorafobia tem em conta que surge quando em certo ponto do seu desen-“o modo pessoal de conseguir viver a minha vida volvimento, o sujeito necessita de uma maior auto-própria, nela me realizar como pessoa humana nomia e que, dadas as circunstâncias relacionais,ao transformar o viver em existir, não meramente geram um conflito moral e acabam por levar oum saber de espectador. Vivencio-a na primeira indivíduo a ter que carregar essas relações quepessoa como seu autor e simultaneamente, como são vividas como limitadoras da sua liberdade.actor do meu texto, no espaço e tempo compar- Segundo Villegas (1995), “conseguir ser autó-tilhados com o Outro, ou seja, em situação” (Guimarães nomo, leva-me a não cumprir as minhas obriga-678
  5. 5. ções; assim devo limitar a minha necessidade de consequência de um acontecimento específico ouautonomia, esta limitação gera conflito interno uma surgir abruptamente sem nenhum evento que sevez que vai contra a minha vontade de exploração possa considerar precipitante. Torna-se então pre-e assim o espaço é vivido como ameaçador, for- ferível falar num autêntico sindroma de pânicoçando-me a evitá-lo, não quero responsabilizar-me, que, do ponto de vista das manifestações obser-prefiro estar mal”. Assim, a agorafobia sinalizaria váveis, é constituído por vivido de perda e/ou sepa-a existência de um conflito, um dilema moral que ração (que pode preceder o início da perturbaçãofaz o sujeito ficar preso ou bloqueado porque é o de pânico), ataques de pânico propriamente ditos,que deve fazer, em vez de evoluir autonomamente, limitação agorafóbica da actividade, ansiedadeque é o que quer ou necessita. de antecipação e, ainda, possibilidade de evolução O paradoxo é central na dinâmica agorafóbica. depressiva (Carvalho Teixeira, 1997).Ser consciente de nós próprios como seres finitos Desta forma, e tendo em conta a experiênciacom possibilidades infinitas traz consigo a ansie- vivida de uma insegurança extrema, vital até, odade existencial de conseguir um equilíbrio em evitamento do aumento da distância de locais fami-ser-no-mundo. Ao reflectir e integrar a sua ansie- liares vai condicionar o indivíduo, aquilo que caracte-dade mediada essencialmente pelos espaços, a rizamos como agorafobia. É o evitamento de locaisredefinição exigida à existência agorafóbica é um que são associados à experiência de ataque deprocesso de ajustamento, quer aos espaços vividos pânico, limitando a sua liberdade de movimentoscomo ameaçadores como ao próprio existir. e aumentando por isso sentimentos de incapaci- Escolher implica afirmar uma posição perante dade e inferioridade e podendo conduzir à depressão.um conflito. É o confronto com a nossa liberdade. No caso do pânico, o medo está directamenteSe conseguirmos superar os dilemas inerentes à relacionado com a percepção de ameaça vividanossa existência, reconquistamos a nossa capa- durante o ataque de pânico, a insegurança perantecidade de decidir, e a nossa autonomia cresce. Se a incerteza que surge durante e após o ataque derenunciamos à nossa liberdade, estamos próximos pânico sobre o desconhecimento do que se está ada patologia. Segundo Villegas (1995), “a reso- passar e do que se irá passar, a angústia emerge dalução deste conflito exige a elaboração de um sistema corporalidade, sem conteúdos psicológicos numaepistemológico mais complexo, quer a nivel cognitivo primeira fase, mas podendo remeter para a expe-como moral, em que autonomia e o compromisso riência reflexiva e revelando-se por isso fulcralmoral sejam compatíveis”. na compreensão do pânico e, por último, a ansie- dade assume o carácter de antecipação perante a incerteza sobre o que irá acontecer no futuro, ligando-se 4. PÂNICO, INTERSUBJECTIVIDADE E à expectativa de vir a experimentar novos ataques PSICOTERAPIA EXISTENCIAL de pânico. Através das descrições da experiência de pânico Como referido anteriormente, o conflito assi- podemos constatar que o medo patológico parecenalado pela agorafobia pelo despoletar de uma advir da corporalidade e existem duas formula-crise psicológica apresenta-se como hipótese de ções de bases distintas que nos podem ser útil paradesenvolvimento e de retoma do projecto existencial, pensar sobre o pânico, o conceito de disrupção dasuma vez que leva à análise e clarificação das mun- fronteiras protectoras corporais, de base psico-divivências do indivíduo. O que daria à experiência dinâmica, e o conceito de disrupção da crença emde pânico um papel de precipitador de uma possível ser especial, de base existencial. Ambos os con-experiência reflexiva. Desta forma parece-nos rele- ceitos assentam na palavra disrupção o que, na nossavante considerar a experiência de pânico como central, opinião, se deve a algo que era assumido como garantido,tendo em conta a sua presença na agorafobia. é subitamente ameaçado ou retirado, como parece Ao propor uma via alternativa procuramos outras ser a natureza do medo patológico descrito acima.trajectórias que, se possível, clarifiquem signifi- Parece-nos assim, que este conceito é de algumcados existenciais no agorafóbico. modo equivalente à crença em ser especial, refe- Na maior parte dos casos, o desenvolvimento rida por Yalom (1980), fundamentada no pressu-da agorafobia começa com a experiência de um posto que de, alguma maneira, nós somos especiaisataque de pânico num local público, que pode ser e que vamos permanecer magicamente vencendo 679
  6. 6. a morte, crença que foi também descrita por Pio uma vez que se decidir agir, isso representa umde Abreu (2001). Desta forma, o pânico assume risco acrescido para o próprio devido à possibili-um papel de disruptor conseguindo rasgar as nossas dade de ataques de pânico e se por outro lado decidirfronteiras protectoras do corpo e abanar as crenças não agir, isso leva a um crescente sentimento dede imortalidade levando ao sindroma de pânico. Surge frustração e inferioridade, revelando a incapaci-então a insegurança, tudo aquilo que sustentava o dade perante a fatalidade de um destino no qualindivíduo parece ruir, descrita como sensação de não há nada a fazer.“groundlessness” (Yalom, 1980), sentindo-se por isso Enfrentar a tensão conflitual do ser no mundo,exposto ao mundo e às suas vicissitudes, contra- apresenta-se perante o sujeito agorafóbico de umaditórias às crenças que sustentavam o projecto forma invasiva que impregna a sua consciência eindividual do sujeito até ao momento. A vivência que conduz de certo modo à angústia existencial,da ameaça torna-se numa constante e a angústia mas não reflectida em liberdade. A angústia existencialexistencial presentifica-se, levando o sujeito a evitar que falamos é a mesma que que todo o ser humanoa experiência reflexiva (residindo aqui um dos experiencia ao estar-no-mundo e que Kierkegaardobjectivos da terapia) e a conduzir-se dessa forma (1969) definiu como vertigem da própria liberdade,à limitação agorafóbica na qual o sentirem-se olhados que surge quando nos questionamos sobre a liber-por outras pessoas é vivido de forma invasiva, pelo dade de escolha. No caso do agorafóbico, actuariaque a procura de retorno ao familiar e protector é como obstáculo à sua existência em liberdade umauma constante. vez que é vivenciado como uma crise de “fronteiras” Esta é uma noção muito próxima do papel do pessoais, afectando a espacialidade do indivíduo,olhar descrito por Sartre (1993) que considerou e que a reconstrução da sua identidade como ser-no-que o olhar do outro, ao objectivar, pode fazer sentir -mundo é constantemente sentida como estando emno visado uma perda de controlo sobre si próprio risco, invadida pela desconstrução que, pela essênciae sobre uma dada situação, o que precipitaria ansie- de espaços físicos socialmente sentidos como consu-dade e representaria uma negação da percepção de midores, como são os espaços públicos e em par-si pela percepção do outro. Assim, a experiência ticular os supermercados, vai adiando o confronto comdo pânico é o que diferencia o agorafóbico, que o seu projecto existencial (Davidson, 2003).não conseguiria estar indiferente ao olhar público e Para Kierkegaard (1969), “o Homem experimentaestranho, uma vez que o pânico abanou as suas um isolamento básico que pertence à existência ecrenças e fronteiras protectoras prévias que o que, nas camadas mais profundas do seu ser, omantinham seguro e, sobretudo, a uma distância separa dos outros e do mundo, apesar das relaçõessegura. Para não ser descoberto esconde-se do olhar afectivas gratificantes que vai estabelecendo”.do outro, uma tentativa de ocultação equivalente Perante isto, a pessoa só conseguirá vencer a inse-à atitude de má fé (Garcia Arroyo, 2004). gurança ontológica gerada pela angústia, quando Um facto curioso reside na apetência, facilidade se entregar a esse sofrimento e escolher-se a sie segurança que os agorafóbicos experimentam próprio, só a partir da angústia se poderá alcançar aem relação à noite. A escuridão da noite revela-se liberdade.segura e facilitadora para os agorafóbicos, prote- Porém, no caso do agorafóbico a simples expo-gendo-os do olhar público. Poderíamos fazer aqui sição à sua ansiedade de uma forma comporta-uma alusão ao conceito de abertura/fechamento mental não é o que descrevemos aqui, mas antesdo Dasein, levando no caso do indivíduo agora- uma clarificação e confronto existencial da condiçãofóbico a tornar-se num ser opaco, devido ao seu representada pela angústia na existência do ser humano.fechamento ao Mundo e à negação do estar-com. Ou seja, ao invés da banalização da ansiedade e da A experiência de pânico, embora traumática promoção de renovados comportamentos de evita-no seu aparecimento súbito pode ser catalisadora mento, tenta-se explorar e reformular o modo dede um voltar-se para si próprio, e para uma atitude existir perante as condições da existência, na qual areflexiva, que põe o indivíduo em contacto com ansiedade se insere, mas de uma forma responsávelo seu projecto existencial, ficando muitas vezes que tem que levar em conta a escolha em liberdadebloqueado, neste caso na limitação agorafóbica do sujeito, no encontro consigo mesmo e o seu projecto.que tem subjacente um paradoxo que deixa o Um outro aspecto que é necessário ter em conta,sujeito numa situação aparentemente sem saída, diz respeito ao espaço subjectivo do agorafóbico,680
  7. 7. que funciona quase como uma segunda-pele (Davidson, seu mundo relacional, a psicoterapia existencial2003) e permite a integração da identidade pessoal, tenta, através da exploração das dimensões rela-pela segurança que lhe transmite (muitas vezes, cionais e sobretudo espaciais do agorafóbico, clarificaresse local é a própria casa, e noutros casos, o próprio o seu modo de existir para que este inclua a suaquarto). O problema surge quando, ao deixar esses experiência vivida do mundo e dos outros quelocais, o espaço deixa de ser sujectivo e passa a ser existem nele, ao invés de evitar a sua consideraçãoinevitavelmente intersubjectivo. O desconforto ou construindo e mantendo a possibilidade de umagorafóbico pode ser expresso pela angústia de mundo que não se integra na sua experiência vivida.não-estar-em-casa. A tarefa clínica é evidenciar o papel importante Sartre (1993), que descreveu o modo de existir que a experiência do pânico pode ter como potencialde forma inautêntica como sendo aquele no qual o desencadeador do contacto do sujeito com a suaindivíduo nega a sua existência preferindo submergir existência, e ao invés de tentarmos dar uma possívelna corrente de massificação e banalização da indivi- explicação causal para para esse fenómeno e dedualidade humana, desculpando-se do seu próprio certa forma perpetuarmos a continuação de umaexistir e evitando a ansiedade inerente à existência existência que se evita a si própria. Pode ser essee que no caso da agorafobia, ao contrário da maioria o crédito (Chadwick, 1997) do pânico e da agora-das situações, se traduz num conflito existencial. fobia. É na exploração da experiência e significados Para se tornar naquilo que é, o sujeito tem deque levam uma pessoa a questionar os pressu- se afirmar perante a sua existência e, antes depostos que sustentam o seu sentido de si e a sentir-se assumir qualquer possibilidade, necessita sentirameaçada pela relação com as suas referências que essas possibilidades existem e que é dele aespaciais, que pode residir a tarefa central da psico- autoria do seu projecto existencial.terapia existencial. Referimos ainda que a situação existencial doagorafóbico continha outra preocupação inerente, a REFERÊNCIAS BILBIOGRÁFICASinevitabilidade da morte e a sua negação. Após adisrupção causada pelo ataque de pânico na crença Carvalho Teixeira, J. A. (1993). Introdução às abordagensde ser especial, o sujeito é confrontado com a fenomenológica e existencial em psicopatologia (I):inevitabilidade da morte mas evita a angústia A psicopatologia fenomenológica. Análise Psicoló-recriando as fronteiras protectoras permanecendo gica, 11 (4), 621-627.em espaços familiares e desenvolvendo a crença Carvalho Teixeira, J. A. (1996). A relação terapêutica emna existência de um outro salvador evitando assim psicoterapias existenciais. In R. Guimarães Lopes, V. Mota, & C. Santos (Eds.), A Escolha de Si-Próprio.o confronto angustiante com a inevitabilidade da Actas do II Encontro de Antropologia Fenomeno-morte, desenvolvendo uma existência montada lógica e Existencial (pp. 51-58). Porto: Hospital dosobre o outro e não no desenvolvimento do seu Conde de Ferreira.próprio projecto. Carvalho Teixeira, J. A. (1997). Experiência fenomeno- A análise da existência do Homem com pertur- lógica e qualidade existencial da perturbação de pânico.bação de pânico pode ser a análise de um projecto Boletim de Psiquiatria do Barreiro, 2, 33-39.existencial que fracassou na tentativa de transcender Carvalho Teixeira, J. A. (1997). Introdução às aborda- gens fenomenológica e existencial em psicopatologiao isolamento existencial e o medo da morte (Carvalho (II): As abordagens existenciais. Análise Psicológica,Teixeira, 1997). A experiência de pânico confronta 15 (2), 195-205.o Homem com o seu projecto existencial, reve- Chadwick, P. (1997). Schizophrenia: The Positive Pers-lando-lhe as suas possibilidades e limites, condu- pective. In Search of Dignity for Schizophrenic Peoplezindo-o à autenticidade. (pp. 2-16). London: Routledge. Assim, parece fundamental tentar a compreensão Charbonneau, G. (2004). L’être en deçà de Soi ou la hantisee a clarificação dos significados atribuídos pelos phobique de l´outrepassement. In Les Directions desujeitos com experiência agorafóbica, situando-os Sens. Phénomenologie et Psychopathologie du Espace Vécu (pp. 115-130). Paris: Le Cercle Hermeneutique,sempre na sua dimensão intersubjectiva. Consi- Collection Phéno.derando a relação terapêutica como constituinte no Davison, J. (2004). Phobic Geographies: The phenomenologymundo de relações intersubjectivas do paciente, and spatiality of identity. Aldershot: Ashgate Publi-e não como representante única e exclusiva do shing Press. 681
  8. 8. Ellenberger, F. H. (1967). Psychiatric phenomenology RESUMO and existential analysis. In R. May, R. Angel, & F. H. Ellenberger (Eds.), Existence (pp. 110-111). New Os autores desenvolvem uma análise fenomenoló- York: Aronson Publishers. gica e existencial da agorafobia, caracterizando o papelGarcia-Arroyo, J. M. (2004). Aportaciones de la obra da vivência agorafóbica como ser-aquém-de-si, e refe- filosófica de Jean-Paul Sartre a la psiquiatria actual. renciando a experiência da vertigem agorafóbica como Anales de Psiquiatria, 20 (5), 211-221. central para a compreensão do fenómeno. A agorafobia éGoodwin, D. W. (1983). Phobia: the Facts. London: Oxford considerada como um dilema moral na existência que University Press. restringe as escolhas em liberdade do indivíduo e a expe-Guimarães Lopes, R. (2006). Psicologia da Pessoa e Elu- riência de pânico é analisada seguindo o movimento subjectivo- cidação Psicopatológica. Porto: Higiomed Edições. -intersubjectivo demonstrando o seu possível crédito paraGuimarães Lopes, R. (1996). Ansiedade. Ensaio de antropologia fenomenológica. In R. Guimarães Lopes, a psicoterapia existencial, que surge assim como relação V. Mota, & C. Santos (Eds.), A Escolha de Si-Próprio. terapêutica integrada na mundivivência do indivíduo e Actas do II Encontro de Antropologia Fenomeno- que permite a exploração dos pressupostos que sustentam lógica e Existencial (pp. 73-94). Porto: Hospital do o mundo agorafóbico como possibilidade de existir. Conde de Ferreira. Palavras-chave: Agorafobia, ser-aquém-de-si, vertigemJaspers, K. (1979). Psicopatologia Geral (Vol. 1). Rio de agorafóbica, dilema moral, psicoterapia existencial. Janeiro: Livraria Atheneu.Kierkegaard, S. (1969). O Conceito de Angústia. Lisboa: Editorial Presença. ABSTRACTMay, R., Angel, E., & Ellenberger, F. H. (Eds.) (1967). Existence. New York: Aronson. The authors develop a phenomenological and exis-May, R. (1977). The Meaning of Anxiety. New York: Norton. tential analysis of agoraphobia, characterizing the role ofPio Abreu, J. L. (2001). Como tornar-se doente mental. the agoraphobic experience as to-almost-being-oneself, and Coimbra: Quarteto Editora. make reference to agoraphobic vertigo experience as centralSantos, C. (1996). Remanência e Includência. In R. Gui- for the understanding of the phenomena. The agoraphobia marães Lopes, V. Mota, & C. Santos (Eds.), A Escolha de Si-Próprio. Actas do II Encontro de Antropologia is considered as a moral dilemma in existence that restricts Fenomenológica e Existencial. Porto: Hospital do the individual’s freedom of choice and the panic expe- Conde Ferreira. rience is analyzed following of the subjective-intersub-Santos, N. B. (1997). Funcionamento psicológico do hipo- jective movement demonstrating its possible credit for condríaco. Aspectos fenomenológicos. Boletim de existential psychotherapy which, as a therapeutical relation, Psiquiatria do Barreiro, 2, 29-32. is part of the individual’s lived world of relations andVallejo, J. (2006). Introducción a la psicopatologia y la allows the exploration of the assumptions that support psiquiatria (pp. 390-391). Barcelona: Masson. the agoraphobic world as a possibility to existence.Villegas, M. (1995). Psicopatologia de la libertad (I). La Key words: Agoraphobia, to-almost-being-oneself, agorafobia o la constricción del espacio. Revista de agoraphobic vertigo, moral dilemma, existential psycho- Psicoterapia, 21, 17-40. therapy.682

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