N.º 6 NOVEMBRO 2012				   FUNDAÇÃO JOSÉ SARAMAGO
Contar pelos d encont mão ch   2
os diasdedos e trar aheia...     3
leitu ras do mêsA grande fusão editorial                                 O boom latino-americanono Brasil                 ...
Manuel RivasAs Voces BaixasEdicións Xerais    Autor prolífico e com registos que andampelos territórios da literatura e do...
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SARAMAGO 90 ANOS                O das barbas é Deus,                  o outro é o Diabo                                   ...
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SARAMAGO 90 ANOSser o deus de um povo pequeníssimo                          depois para dentro de um forno e finalmente de...
SARAMAGO 90 ANOSDeus desde a dos jeovistas, voto pela de Sarama-          do Livro de Jó, que anda de um lado para o ou-go...
SARAMAGO 90 ANOSenviaste a ele, Em rigor, nem uma coisa nem                dizer, às minhas mentiras vejo-as como o que sã...
SARAMAGO 90 ANOSdesceu uma voz que disse, Talvezeste Deus e o que há de vir não sejammais do que heterónimos, De quem,de q...
SARAMAGO 90 ANOS                                                              A glória douma vez que sou o Diabo, e o Diab...
SARAMAGO 90 ANOSversão de Jesus na literatura do século que ora            importante. O Jesus de Saramago é um ironista,a...
SARAMAGO 90 ANOSSaramago pelo homicídio de Jesus e pelas con-              livro, tal como se concedem anacronismos semseq...
SARAMAGO 90 ANOSpode ser encontrada a sabedoria? A sabedoria                  génio narrativo tão audacioso inspira audáci...
SARAMAGO 90 ANOS                           A Coragem                       de José Saramago                               ...
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SARAMAGO 90 ANOS«Quero que os                                                  do capital mundial. E concluiu: «Por isso é...
SARAMAGO 90 ANOS           Linguagem e História          segundo José Saramago                                         Man...
SARAMAGO 90 ANOSpode significar coisas diversas e, no limite, inver-        história em Saramago. Talvez possamos dizersas;...
SARAMAGO 90 ANOSnão têm registo na escritura – termo notarial e           temos como mundo real; podemos encontrar otermo ...
SARAMAGO 90 ANOSturo. Tais desejos e receios manifestam-se mais              «Aqui, onde o mar se acabou e a terra espera....
SARAMAGO 90 ANOS       A morte tira umas férias                                             James Wood                    ...
SARAMAGO 90 ANOScaminhos que deveriam conduzir ao seu reino, a              ses de Saramago, nas quais um narrador ou gru-...
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SARAMAGO 90 ANOSno ato de ser um lugar-comum e se retrata: «Um             restabelecimento, fica agradada: «As preces ha-...
SARAMAGO 90 ANOSlher e o filho recém-nascido, mas esquece-se deavisar o resto da aldeia. Pelo seu pecado, anuncia         ...
SARAMAGO 90 ANOS    Ele representa-nos a Morte como uma ausên-            no novo romance, o funcionário seleciona umacia ...
SARAMAGO 90 ANOS      Um estilo como ideologia                                  Luciana Stegagno Picchio                  ...
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  1. 1. N.º 6 NOVEMBRO 2012 FUNDAÇÃO JOSÉ SARAMAGO
  2. 2. Contar pelos d encont mão ch 2
  3. 3. os diasdedos e trar aheia... 3
  4. 4. leitu ras do mêsA grande fusão editorial O boom latino-americanono Brasil meio século depois Durante alguns dias, a imprensa especializada O livro que permitiu discursos, ensaios, de-e os sites e blogs dedicados à edição e ao mercado bates e polémicas sobre o boom literário latino-livreiro não falaram de outra coisa: empresa edi- -americano não foi um romance, uma novela, umtorial alemã Bertelsmann, proprietária da Ran- poemário. Foi um livro de entrevistas feitas pordom House, e a editora britânica Pearson, que Luis Harss, um académico da área da literatura,detém a mítica Penguin, passaram a ser uma só e publicado em 1966, que inaugurou o boom queentidade. Aparentemente, a notícia não seria re- deu ao futuro as premissas de um cânone quelevante para a edição em língua portuguesa, mas continua sólido e coerente e que garantiu matériacom a globalização do mercado do livro e com as para reflexão sobre um momento e uma geografiarelações entre grandes empresas multinacionais e que se tornaram um marco na literatura do séculopequenas editoras locais cada vez mais estreitas, XX. No El País, Amelia Castilla assina um textoa criação da Penguin Random House é uma novi- sobre esse livro de Luis Harss, Los Nuestros, reedi-dade que pode alterar tudo. No blog A Biblioteca tado pela Alfaguara quase cinquenta anos depoisde Raquel, associado ao jornal Folha de S. Paulo, da sua primeira publicação, e conta com declara-a jornalista Raquel Cozer regista algumas notas ções do autor sobre o seu trabalho, uma espécie desobre esta fusão, procurando analisar os cenários balanço sobre o impacto que o livro teve no pano-possíveis para a edição brasileira na sequência do rama literário e universitário da época e sobre asurgimento do novo grupo editorial: “A Penguin já herança que permanece desse cânone que reuniamarca presença aqui desde a aquisição de 45% da Jorge Luis Borges, Alejo Carpentier, Juan Rulfo,Companhia das Letras, no ano passado. Tempos Miguel Ángel Asturias, Juan Carlos Onetti, Júlioatrás, o grupo Bertelsmann inaugurou um escri- Cortázar, Carlos Fuentes, Mario Vargas Llosa,tório em São Paulo, e representantes da Random Gabriel García Márquez e João Guimarães Rosa.House andaram conversando com editores brasi-leiros para avaliar opções de compra. Não saberia http://cultura.elpais.com/cultu-dizer se a fusão com a Penguin interromperia es- ra/2012/10/31/actualidad/1351696675_845653.sas conversas, considerando que a nova empresa htmljá detém parte de uma editora no Brasil, ou se ou-tras negociações continuam. Editores brasileiroscom quem conversei creem que, após a situaçãose regularizar, a Penguin Random continuarácom outras conversas.”http://abibliotecaderaquel.blogfolha.uol.com.br/2012/10/29/random-penguin-companhia/ 4
  5. 5. Manuel RivasAs Voces BaixasEdicións Xerais Autor prolífico e com registos que andampelos territórios da literatura e do jornalismo,Manuel Rivas tem construído o seu trabalho fic-cional numa sólida ligação com a geografia ga-lega, fazendo do mapa um território emocionala que não são alheias as memórias, o patrimó-nio ou os lugares de encontro. As Voces Baixas,romance publicado recentemente na Galiza,confirma essa ligação umbilical entre geografiae narrativa, um diálogo contínuo que suspendefronteiras entre factos e ficção para melhor al-cançar o espaço de uma certa herança comum.De certo modo, era o que acontecia já nos con-tos que compunham o livro Un Millón de Vacas,mas agora essa herança é abordada de um modomais consistente. Fragmentário e estruturado como se de umacompilação de pequenas crónicas se tratasse, otexto ganha unidade à medida que se avança naleitura, percebendo-se os episódios da infância da morte, pequenas paragens que são a matériado narrador como um mosaico de lembranças de uma vida e que são igualmente a única he-dispersas que, unidas pele exercício da memó- rança possível, a hipótese, mesmo que remota,ria enquanto modo de dar sentido ao presente, de aquilo que fica não ser apenas um nome nosdão à narrativa o fôlego romanesco anuncia- documentosdo. Das pequenas descobertas dentro de casaaos primeiros tesouros conquistados à terradura do monte do Faro, na Coruña, ao lado doscompanheiros de aventura, a voz que narra AsVoces Baixas percorre os locais da sua infân-cia enquanto com eles constrói um mapa, nãoum mapa saudosista e voltado para uma ideiaparadisíaca de meninez, mas uma topografiaidentitária onde os elementos, os lugares e asaprendizagens quotidianas são linhas que mar-cam um caminho. Esse caminho andará peloslugares da coragem e do medo, da respiração e 5
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  8. 8. SARAMAGO 90 ANOS O das barbas é Deus, o outro é o Diabo Harold Bloom Tradução de Myriam ZaluarJ Ilustrações de André Car r ilho e Cr istina Sampaio osé Saramago publi- de reconciliação de Pastor e que não manifesta cou O Evangelho Segun- amor nem compaixão por Jesus ou por qualquer do Jesus Cristo em 1991, ao outro ser humano. aproximar-se do seu septua- Isto deve fazer o livro parecer sublimemente gésimo aniversário. Como ultrajante, mas não é o caso, e penso que só um admirador crítico e feroz de sectário ou um tonto julgariam blasfemo o Evan- Saramago, tenho alguma gelho de Saramago. O Deus de Saramago tan- relutância em escolher este to pode ser astuto como doce e é dotado de um em detrimento dos seus ou- sentido de humor selvagem. Ninguém vai amar tros romances, mas trata-se este deus, mas ele também não pede nem espera de um trabalho espantoso, amor. Adoração e obediência são os seus requi- imaginativamente superior sitos e a violência sagrada é o seu recurso infini- a qualquer outra versão da to. Baruch Spinoza insistia que devíamos amar vida de Jesus, incluindo os Deus sem nunca esperar que Deus nos amassequatro evangelhos canónicos. de volta. Ninguém poderia amar o Deus de Sa- Alguns dos laivos de ironia perdem-se na ex- ramago, a não ser que o amante estivesse tãocelente tradução de Giovanni Pontiero mas mais profundamente envolvido em sado-masoquismodo que os suficientes sobrevivem ainda para sa- que se visse sem defesa perante a sua conduta.tisfazer o leitor consciente. Deus diz-nos no Evangelho que está insatisfei- A audácia de Saramago é triunfante no seu to com a pouca consistência que lhe é dada peloEvangelho (diminutivo do título que usarei daqui seu povo eleito, os Judeus:para a frente). Deus, no Evangelho de Saramago,tem algumas afinidades com o Yahweh de J Wri- Desde há quatro mil e quatro anos que venho sendoters e também com o Nobodaddy de Blake, mas deus dos judeus, gente de seu natural conflituosaé importante notar que Saramago resiste a dar- e complicada, mas com quem, feito um balanço-nos o Ialdaboth gnóstico. No seu Post-Scriptum das nossas relações, não me tenho dado mal, umaFinal Não-Científico, Kierkegaard observa ironi- vez que me tomam a sério e assim se irão mantercamente que “dar ao pensamento supremacia so- até tão longe quanto a minha visão do futuro podebre tudo o resto é gnosticismo”. Contudo o Deus alcançar, Estás, portanto, satisfeito, disse Jesus,de Saramago escandaliza-nos de formas que Estou e não estou, ou melhor, estaria não fossetranscendem o intelecto, já que um Deus que é si- este inquieto coração meu que todos os dias me dizmultaneamente verdade e tempo é a pior notícia Sim senhor, bonito destino arranjaste, depois depossível. O diabo de Saramago, deliciosamente quatro mil anos de trabalho e preocupações, quechamado Pastor, é a suavidade em pessoa com- os sacrifícios nos altares, por muito abundantes eparado com o seu Deus, que recusa a tentativa variados que sejam, jamais pagarão, continuas a 8
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  10. 10. SARAMAGO 90 ANOSser o deus de um povo pequeníssimo depois para dentro de um forno e finalmente de-que vive numa parte diminuta do mundo que capitado. O gusto do Deus de Saramago recorda ocriaste com tudo o que tem em cima, diz-me tu, de Edward Gibbon no Capítulo XVI da Históriameu filho, se eu posso viver satisfeito tendo esta, do Declínio e Queda do Império Romano, excetuan-por assim dizer, vexatória evidência todos os do que Gibbon, mantendo o decoro, evita deta-dias diante dos olhos, Não criei nenhum mundo, lhar as numerosas variedades de martírio pelanão posso avaliar, disse Jesus, Pois é, não podes tortura. Mas Gibbon antecipa de novo Saramagoavaliar, mas ajudar, podes, Ajudar a quê, A observando que os Cristãos “infligiram cruelda-alargar a minha influência, a ser deus de muito des bem maiores uns aos outros do que as quemais gente, Não percebo, Se cumprires bem o teu tinham experimentado do zelo dos infiéis”. Opapel, isto é, o papel que te reservei no meu plano, Deus de Saramago, com a sua voz algo cansa-estou certíssimo de que em pouco mais de meia da, fala da Inquisição como um mal necessário,dúzia de séculos, embora tendo de lutar, eu e tu, e defende a queima de milhares porque a causacom muitas contrariedades, passarei de deus dos de Jesus assim o exige. Uma olhadela à sobrecapahebreus a deus dos que chamaremos católicos, da edição americana do Evangelho de Saramagoà grega, E qual foi o papel que me destinaste assegura-nos que desafiar a autoridade de Deusno teu plano, O de mártir, meu filho, o de vítima, o Pai “continua a não ser a sua renegação”.que é o que de melhor há para fazer espalhar uma Embora seja necessariamente um persona-crença e afervorar uma fé. As duas palavras, gem secundário quando comparado com o Jesusmártir, vítima, saíram da boca de Deus como se de Saramago, Deus pede para ser escrutinadoa língua que dentro tinha fosse de leite e mel, mas para além dos seus aspetos ameaçadoramenteum súbito gelo arrepiou os membros de Jesus, tal cómicos. Em primeiro lugar, o Deus do Evange-qual se o nevoeiro se tivesse fechado sobre ele, lho é tempo, e não verdade, o outro atributo queao mesmo tempo que o Diabo o olhava com uma afirma. Saramago, um marxista (excêntrico) eexpressão enigmática, misto de interesse científico não um cristão, subverte Santo Agostinho nae involuntária piedade. teodiceia do tempo. Se o tempo é Deus, então a Deus nada pode ser perdoado, e, seja como for, Deus está impaciente e não quer ser desmo- quem haveria de querer perdoar-lhe? Mas então,ralizado; estes são os seus motivos para vitimar o Deus do Evangelho não está minimamente in-Jesus, e, consequentemente, para torturar até à teressado em perdão: ele não perdoa ninguém,morte os milhões que morrerão como sacrifícios nem mesmo Jesus, e recusa perdoar Pastor,por Jesus, quer afirmem ou reneguem este últi- quando o diabo faz uma proposta honesta demo. Este Deus é o maior dos comediantes, como obediência. O poder é o único interesse de Deus,ficamos a saber a partir do seu canto dos márti- e o sacrifício de Jesus usa a perspetiva do perdãores: uma “ladainha, por ordem alfabética para dos nossos pecados apenas como aviso. Deus dei-evitar melindres de precedências”. A ladainha é xa claro que somos todos culpados e que prefereabsolutamente maravilhosa, desde Adalberto de manter as coisas assim. Jesus não é expiação: aPraga, executado com um espontão de sete pon- sua crucificação é apenas um mecanismo atravéstas, a Wilgeforte, ou Liberata, ou Eutrópia, vir- do qual Deus deixa de ser judeu e passa a ser ca-gem, barbuda, crucificada”. Ao longo de quatro tólico, um convertido em vez de um marrano.páginas de comprimento, o catálogo da violência Isto é de uma ironia soberba, e Saramago fazsagrada tem delícias como Blandina de Lião, per- dela uma forma de arte superior, embora reduzi-furada por um touro bravo, e o desafortunado -la criticamente a tal seja um convite a um ataqueJanuário de Nápoles, primeiro atirado às feras, católico. De todas as representações fictícias de 10
  11. 11. SARAMAGO 90 ANOSDeus desde a dos jeovistas, voto pela de Sarama- do Livro de Jó, que anda de um lado para o ou-go. Ela é ao mesmo tempo a mais engraçada e a tro, e para cima e para baixo na Terra. E contu-mais empolgante, no género dos heróis-vilões de do o Satanás de Jó era um acusador; Pastor não.Shakespeare: Ricardo III, Iago, Edmundo no Rei Por que permanece Jesus quatro dias com Pas-Lear. tor, como aprendiz? O anjo, que chega atrasado para dizer a Maria que Jesus é filho de Deus diz- Pastor, ou o diabo, tem o seu próprio charme, -nos que “o Diabo é o espírito que se nega”, o queao encarnar uma representação muito original é extravagantemente ambíguo, e poderia quererde Satanás. Um homem gigante, com uma ca- dizer que o Pastor resiste a desempenhar o papelbeça enorme, Pastor permite a Jesus tornar-se o que Deus lhe atribuiu. O anjo de Maria, depoisseu assistente pastor para um grande rebanho de nos dizer que o Pastor foi seu colega de escola,de ovelhas e cabras. Em resposta à piedosa ex- diz que Pastor prospera porque “Assim o exigeclamação de Jesus – “Só o Senhor é Deus – o não a boa ordem do Mundo”. Há então uma relaçãojudeu Pastor responde com grande pungência: secreta entre Pastor e Deus, que alarma os discí- pulos de Jesus. Quando Deus, vestido como umSim, se existe Deus terá de ser um único Senhor, judeu rico, aparece a Jesus no barco, Saramagomas era melhor que fossem dois, assim haveria um imagina uma magnífica reentrada para Pastor:deus para o lobo e um deus para a ovelha, um parao que morre e outro para o que mata, um deus para A barca oscilou com o impulso, a cabeça ascendeuo condenado, um deus para o carrasco da água, o tronco veio atrás escorrendo qual catarata, as pernas depois, era o leviatã surgindo Este sensato dualismo não é exatamente satâ- das últimas profundidades, era, como se viu,nico, e Pastor mantém-se mais amável que Deus passados todos estes anos, o pastor, que dizia Cáao longo do romance. Nos diálogos entre o diabo estou eu também, enquanto se ia instalando nae o jovem Jesus, o papel do diabo prevalece cla- borda do barco, exatamente a meia distância entreramente, embora honradamente, à diferença do Jesus e Deus, porém, caso singular, a embarcaçãodomínio de Deus sobre Jesus da primeira vez que desta vez não se inclinou para o seu lado, comopai e filho se encontram no deserto. Deus exige se Pastor tivesse decidido aliviar-se do seucomo sacrifício uma ovelha querida para Jesus próprio peso ou levitasse parecendo estar sentado.e este acede relutantemente. Pastor, ao saber do Cá estou, repetiu, espero ter chegado ainda afacto, abandona Jesus: “Não aprendeste nada, tempo de assistir à conversa, Já íamos bastantevai”. E Pastor, até aqui, está certo: a aprendiza- avançados nela, mas não tínhamos entrado nogem de Jesus sobre a natureza de Deus só será essencial, disse Deus, e, dirigindo-se a Jesus,completada na cruz. Este é o Diabo, de quem falávamos há pouco. Que devemos então fazer de Pastor? O diabo Jesus olhou para um, olhou para outro, e viu que,de Saramago é humano, no entanto é apenas um tirando as barbas de Deus, eram como gémeos,cético: ele sabe demasiado sobre Deus. Se o Deus é certo que o Diabo parecia mais novo, menosde Saramago é um convertido português, então o enrugado, mas seria uma ilusão dos olhos ou umdiabo de Saramago nunca foi judeu, e, parece es- engano por ele induzido. Disse Jesus, Sei quemtranhamente desconexo tanto com Deus quanto é, vivi quatro anos na sua companhia, quandocom Jesus Cristo. Por que está Pastor no livro? se chamava Pastor, e Deus respondeu, TinhasEvidentemente, apenas como testemunha, é o de viver com alguém, comigo não era possível,que penso que se deve concluir. Saramago parece com a tua família não querias, só restava oquerer levar-nos de volta ao Satanás não-caído Diabo, Foi ele que me foi buscar, ou tu que me 11
  12. 12. SARAMAGO 90 ANOSenviaste a ele, Em rigor, nem uma coisa nem dizer, às minhas mentiras vejo-as como o que são,outra, digamos que estivemos de acordo em que verdades de mim, porém nunca sei até que pontoessa era a melhor solução para o teu caso, Por são as verdades dos outros mentiras deles.isso ele sabia o que dizia quando, pela boca dopossesso gadareno, me chamou teu filho, Tal Saramago chama secamente a isto uma “ti-qual, Quer dizer, fui enganado por ambos, Como rada labiríntica”, mas ele quer dizer que ela acu-sempre sucede aos homens, Tinhas dito que não sa claramente Deus, cujas verdades são efeti-sou um homem, E confirmo-o, poderemos é dizer vamente as suas mentiras. A causa do Deus daque, qual é a palavra técnica, podemos dizer que Igreja Católica que será fundada sobre Jesus sóencarnaste, E agora, que quereis de mim, Quem é verdadeira na medida em que é historicamentequer sou eu, não ele, Estais aqui os dois, bem vi horrível, e o entusiasmo que Deus manifesta aoque o aparecimento dele não foi surpresa para ti, enumerar os mártires e ao resumir a Inquisiçãoportanto esperava-lo, Não precisamente, embora, tem inconfundíveis laivos de sadismo. De umapor princípio, se deva contar sempre com o Diabo, forma alarmante, Deus (um bom agostinhano,Mas se a questão que temos que tratar, tu e eu, antes de Agostinho) desaprova todas as alegriasapenas nos diz respeito a nós, por que veio ele cá, humanas como sendo falsas, uma vez que todaspor que não o mandas embora, Pode‑se despedir elas emanam do pecado original:a arraia-miúda que o Diabo tem ao seu serviço, “a luxúria e o medo, são as armas com que ono caso de ela começar a tornar-se inconveniente Demónio atormenta as pobres vidas dos homens”por atos ou palavras, mas o Diabo, propriamentedito, não, Portanto, veio porque esta conversa é Quando Jesus pergunta a Pastor se isto é ver-também com ele, Meu filho, não esqueças o que te dade, a resposta do diabo é eloquentemente es-vou dizer, tudo quanto interessa a Deus, interessa clarecedora:ao Diabo Mais ou menos, respondeu ele, limitei-me a tomar Como Deus e o Diabo são gémeos (já o tínha- para mim aquilo que Deus não quis, a carne, com amos suspeitado), é uma delícia dizerem-nos que sua alegria e a sua tristeza, a juventude e a velhice,não podemos viver com Deus, e que portanto te- a frescura e a podridão, mas não é verdade que omos de escolher entre a nossa família e o diabo. medo seja uma arma minha, não me lembro de terDeus fala do seu desejo de ser Deus dos Católi- sido eu quem inventou o pecado e o seu castigo, e ocos, mas esta sua ambição já se vislumbrou, e o medo que neles há sempreque quero aqui perguntar é: por que está Pastorno barco? A sua expressão é um misto de “de in- Tendemos a acreditar nisto quando Deusteresse científico e involuntária piedade”, mas exclama em resposta: “Cala-te, …, o pecado e oele está ali porque, como Jesus argutamente su- Diabo são os dois nomes duma mesma coisa”. Épõe, ampliar o domínio de Deus é também am- preciso Deus dizer isto? O Cardeal-arcebispo depliar o do diabo. E no entanto o pobre Pastor tem Lisboa não diria o mesmo? A resposta de Sara-as suas perplexidades: mago é misteriosa. Deus descreve as Cruzadas por travar contra o não-nomeado Alá, que PastorFico, disse Pastor, era a sua primeira palavra repudia criar:desde que se tinha anunciado, Fico, repetiu, edepois, Posso, eu próprio, ver algumas coisas do Mas então, perguntou Pastor, quem vai criar ofuturo, mas o que nem sempre consigo é distinguir Deus inimigo. Jesus não sabia responder, Deus,se é verdade ou mentira o que julgo ver, quer se calado estava, calado ficou, porém do nevoeiro 12
  13. 13. SARAMAGO 90 ANOSdesceu uma voz que disse, Talvezeste Deus e o que há de vir não sejammais do que heterónimos, De quem,de quê, perguntou, curiosa,outra voz, De Pessoa, foi o quese percebeu, mas também podiater sido, Da Pessoa. Jesus, Deus eo Diabo começaram por fazer de contaque não tinham ouvido, mas logo a seguirentreolharam-se com susto, o medo comum éassim, une facilmente as diferenças. Só aqui, no Evangelho de Saramago, ouvi-mos uma voz para além da de Deus. De quem é?Quem poderia proclamar o que Deus não desejadizer, isto é que ele e Alá são um só? Como umDeus tão manhoso e pouco amável como o de Sa-ramago, tanto nós quanto Saramago ansiamospor um Deus para além de Deus, talvez o Alienou o Deus Estranho dos Gnósticos. Mas, quemquer que seja este Deus, ele não voltará a falarneste romance. Muito habilmente, Saramagoacabou de nos dizer explicitamente aquilo quevinha dizendo implicitamente ao longo da obra:Deus e Jesus pragmaticamente são inimigos, ain-da que Pastor seja involuntariamente inimigo deambos. Porém, em que consiste tal inimizade?Em reação à descrição que Deus faz da Inquisi-ção, Pastor comenta:É preciso ser-se Deus para gostar tanto de sangue O grande momento de Pastor – e é uma deentre a mão-cheia de passagens-chave no livro– chega com a sua vã tentativa de reconciliaçãocom Deus:Pastor fez um silêncio, como se procurasse asmelhores palavras, e explicou, Ouvi com grandeatenção tudo quanto foi dito nesta barca, e emborajá tivesse, por minha conta, entrevisto uns clarões eumas sombras no futuro, não cuidei que os clarõesfossem de fogueiras e as sombras de tanta gentemorta, E isso incomoda-te, Não devia incomodar-me, 13
  14. 14. SARAMAGO 90 ANOS A glória douma vez que sou o Diabo, e o Diabo sempre algumacoisa aproveita da morte, e mesmo mais do quetu, pois não precisa de demonstração que o infernosempre será mais povoado do que o céu, Então de quete queixas, Não me queixo, proponho, Propõe lá, mas Evangelho dedepressa, que não posso ficar aqui eternamente, Tusabes, ninguém melhor do que tu o sabe, que o Diabo Saramago é o Jesustambém tem coração, Sim, mas fazes mau uso dele,Quero hoje fazer bom uso do coração que tenho, aceito de Saramago, quee quero que o teu poder se alargue a todos os extremosda terra, sem que tenha de morrer tanta gente, e pois me parece humanaque de tudo aquilo que te desobedece e nega, dizes tuque é fruto do Mal que eu sou e ando a governar no e esteticamentemundo, a minha proposta é que tornes a receber-meno teu céu, perdoado dos males passados pelos que no mais admirável dofuturo não terei de cometer, que aceites e guardes aminha obediência, como nos tempos felizes em que fui que qualquer outra versão de Jesus naum dos teus anjos prediletos, Lúcifer me chamavas, oque a luz levava, antes que uma ambição de ser iguala ti me devorasse a alma e me fizesse rebelar contraa tua autoridade, E por que haveria eu de receber-te e perdoar-te, não me dirás, Porque se o fizeres, se literatura do séculousares comigo, agora, daquele mesmo perdão queno futuro prometerás tão facilmente à esquerda e à que ora acaba.direita, então acaba-se aqui hoje o Mal, teu filho nãoprecisará morrer, o teu reino será, não apenas esta Não é suficiente louvar a originalidade de Sa-terra de hebreus, mas o mundo inteiro, conhecido ramago em pintar o seu diabo de forma totalmentee por conhecer, e mais do que o mundo, o universo, não-diabólica. Temos de ir mais longe. O enigmá-por toda a parte o Bem governará, e eu cantarei, na tico Pastor é o único diabo que poderia ser esté-última e humilde fila dos anjos que te permaneceram tica e intelectualmente apropriado na conclusãofiéis, mais fiel então do que todos, porque do Segundo Milénio. Excetuando o facto de nãoarrependido, eu cantarei os teus louvores, tudo poder ser crucificado, este anjo caído tem de lon-terminará como se não tivesse sido, tudo começará a ge mais em comum com o Jesus de Saramago doser como se dessa maneira devesse ser sempre que com o Deus de Saramago. São ambos vítimas de Deus, sofrendo da tirania do tempo, que Deus A ironia do humano Pastor e do desumano chama verdade. Pastor é resignado, e menos re-Deus não poderia ser mais bem justaposta. Deus belde que Jesus, mas é porque Pastor sabe tudo odeixa claro que preferiria um diabo ainda pior, que há para saber. Como leitores, permanecemosse tal fosse possível, e que sem o diabo, Deus não mais próximos do estranho diabo de Saramago dopode ser Deus. Pastor, que foi persuasivamente que ao seu malévolo e irónico Deus.sincero, encolhe os ombros e vai-se embora, apósrecuperar de Jesus a velha tigela negra de Nazaré A glória do Evangelho de Saramago é o Jesuspara dentro da qual o sangue de Jesus escorrerá de Saramago, que me parece humana e esteti-nas palavras finais do romance. camente mais admirável do que qualquer outra 14
  15. 15. SARAMAGO 90 ANOSversão de Jesus na literatura do século que ora importante. O Jesus de Saramago é um ironista,acaba. Talvez o de O Homem que Morreu, de D.H. um espantosamente suave ironista, se conside-Lawrence, seja um concorrente à altura, mas o rarmos a sua vitimação por Deus. Antes de en-Jesus de Lawrence é um grande vitalista lawren- contrar João Baptista, é dito a Jesus que João éciano, mais do que um ser humano possível. O mais alto, mais pesado, mais barbudo, andrajosoJesus de Saramago é paradoxalmente o mais ca- e que sobrevive de gafanhotos e de mel selvagem.loroso e memorável personagem de todos os seuslivros. W. H. Auden, crítico de poesia cristão, en- “Parece bem mais o Messias do que eu”, disse Jesus,controu estranhamente no Falstaff de Shakespe- e levantou-se da rodaare um tipo de Cristo. Cito um parágrafo de Au-den para enfatizar o quão distantes tanto o Deus O romance de Saramago começa e terminaquanto o Jesus de Saramago se encontram até com a Crucificação, apresentada no princípiode um generoso e não-dogmático ponto de vista com uma ironia considerável, mas no final comcristão: um pathos terrível:O Deus cristão não é um ser autossuficiente como Jesus morre, morre, e já o vai deixando a vida,o da Primeira Causa de Aristóteles, mas um Deus quando de súbito o céu por cima da sua cabeça seque cria um mundo que continua a amar ainda abre de par em par e Deus aparece, vestido comoque este se recuse a amá-lo de volta. Aparece neste estivera na barca, e a sua voz ressoa por toda amundo, não como Apolo ou Afrodite poderiam terra, dizendo, Tu és o meu Filho muito amado,aparecer, disfarçado de homem para que nenhum em ti pus toda a minha complacência. Então Jesushumano possa reconhecer-lhe a divindade, mas compreendeu que viera trazido ao engano como secomo um verdadeiro homem que abertamente leva o cordeiro ao sacrifício, que a sua vida foraproclama ser Deus. E a consequência é inevitável. traçada para morrer assim desde o princípio dosAs mais altas autoridades religiosas e temporais princípios, e, subindo-lhe à lembrança o rio de sanguecondenam-No como um blasfemo e um Senhor do e de sofrimento que do seu lado irá nascer e alagarDesgoverno, como um mau Companheiro para toda a terra, clamou para o céu aberto onde Deusa humanidade. Inevitável porque, como disse sorria, Homens, perdoai-lhe, porque ele não sabe oRichelieu “A salvação do Estado está neste mundo” que fez. Depois, foi morrendo no meio de um sonho,e a História ainda não nos forneceu qualquer estava em Nazaré e ouvia o pai dizer-lhe, encolhendoprova de que o Príncipe deste mundo tenha os ombros e sorrindo também, Nem eu posso fazer-temudado de carácter todas as perguntas, nem tu podes dar-me todas as respostas. Ainda havia nele um resto de vida quando O Deus de Saramago, como referi, não ama o sentiu que uma esponja embebida em água e vinagremundo nem espera que o mundo o ame de vol- lhe roçava os lábios, e então, olhando para baixo, deuta. Ele deseja poder, tão extenso quanto possível. por um homem que se afastava com um balde e umaE o Jesus de Saramago não passa da aparência cana ao ombro. Já não chegou a ver, posta no chão, ade um Deus “disfarçado de homem”, embora o tigela negra para onde o seu sangue gotejava.seu Jesus tenha sido sequestrado por Deus, paraservir os propósitos de poder de Deus. Quanto a “Homens, perdoai-lhe, porque ele não sabeSatanás, “o Príncipe deste mundo”, sabemos que o que fez” testemunha tanto da doçura de JesusSaramago mudou o seu carácter. quanto da fúria esteticamente controlada de Sa- O título do romance é O Evangelho Segundo Je- ramago. Nem um leitor desinteressado, livre desus Cristo, sendo que “segundo” é o termo mais ideologias e de credos, irá perdoar o Deus de 15
  16. 16. SARAMAGO 90 ANOSSaramago pelo homicídio de Jesus e pelas con- livro, tal como se concedem anacronismos semsequentes torrentes de sangue humano que dele fim a Shakespeare. Porém, a culpa não é umaresultarão. Stephen de Joyce fala do “Deus car- preocupação do Jesus apenas tradicional querasco”, como alguns italianos ainda o chamam, me move, o Jesus do Evangelho de Tomás. Em-e este é precisamente o Deus de Saramago. Isto bora eu seja um Gnóstico Judeu a explicar umpor si só seria suficientemente aterrador mas é belo livro escrito por um português que não éainda ampliado pelo longo e amoroso retrato que um católico, não mais do que Fernando Pessoa oSaramago faz de Jesus. era. Neste preciso ponto da narrativa, Saramago A história deste Jesus principia e termina junta Jesus e Pastor, e aquela curiosa estadia quecom uma tigela de cerâmica, que começa por ser examinei previamente.oferecida a Maria, a mãe de Jesus, por um pedin- E contudo a principal ligação de Jesus na suate, um anjo aparente. A tigela transborda de terra vida, como Saramago a vê e conta, não é nem comluminosa, presumivelmente por cair; no final ela os seus pais, nem com o diabo, nem com Maria arecolhe o sangue de Jesus moribundo. O pedinte sua mãe, mas com a prostituta Maria Madalena.é Deus, e não Pastor, e aparece de novo a Maria De todos os esplendores do Evangelho de Sara-num sonho-visão que é também um encontro mago, o amor entre Jesus e a Madalena é o maisamoroso. Quando Jesus nasce, Deus manifesta- grandioso, e o seu encontro e união é para mim o-se de novo como o terceiro dos pastores que pas- auge da obra de Saramago, até à data. Ecoando osam, trazendo pão de um tipo oculto. Supõe-se Cântico dos Cânticos, Saramago é um grande ar-que se trata de uma analogia subtil à semente de tista quando entrelaça uma réplica a Pastor comDeus que resulta na carne de Jesus, mas Sarama- o despertar de Jesus para a vida sexual:go é de tal forma matizado que a suposição tempor vezes de ser evitada, neste livro misterioso. Jesus respirava precipitadamente, mas houve um Aos treze anos de idade, Jesus sai de casa por- momento em que pareceu sufocar, e isso foi quandoque os Romanos crucificaram o seu pai José, uma as mãos dela, a esquerda colocada sobre a testa, ainvenção totalmente da autoria de Saramago, tal direita sobre os tornozelos, principiaram uma lentacomo a cumplicidade parcial de José no massa- carícia, na direção uma da outra, ambas atraídascre dos inocentes por Herodes é também uma ao mesmo ponto central, onde, quando chegadas,sugestão bastante surpreendente de Saramago, e não se detiveram mais do que um instante, paraé também outro tormento para Jesus que o leva regressarem com a mesma lentidão ao ponto demais adiante no seu caminho. partida, donde recomeçaram o movimento. Não Mas por que altera tanto a história Saramago? aprendeste nada, vai-te, dissera Pastor, e quiçáTalvez esta seja de todas a versão mais humana quisesse dizer que ele não aprendera a defender ade um Jesus que tem de sofrer a escuridão de dois vida. Agora Maria de Magdala ensinara-lhepais, o amoroso, desafortunado e culpado José, e osem-amor, afortunado e ainda mais culpado Deus. Podemos anular o “quiçá” e Maria de Mag- Quando o menino Jesus se disputa com os dala é a melhor professora de Jesus, eclipsandodoutores da Lei no Templo, lembro-me outra vez José, Deus, Pastor e Maria a mãe. No momentode como o agostiniano Saramago fez Deus e a Lei. que deve ser o mais irónico do livro ela ensina-Ninguém discute com este anacronismo, porque -lhe a liberdade, que Deus não permite a nenhumo Deus de Saramago está ele próprio ansioso por homem, e particularmente não permite ao únicoabandonar o judaísmo (por assim dizer) pelo ca- filho de Deus.tolicismo. E além disso, podemos conceder a Sa- Eu próprio acabei de fazer setenta anos eramago os seus anacronismos neste maravilhoso pergunto com mais urgência que antes: onde 16
  17. 17. SARAMAGO 90 ANOSpode ser encontrada a sabedoria? A sabedoria génio narrativo tão audacioso inspira audácia aodo Evangelho de Saramago é muito dura: só per- seu crítico. Ninguém será crucificado nos mas-doando Deus podemos emular Jesus, mas não tros da Ilha Desconhecida, e os pesadelos desteacreditamos, com Jesus, que Deus não sabe o que Jesus não se realizarão. O conto feliz de Sarama-Deus fez. go é um antídoto momentâneo à mais trágica das Encontro o epílogo para o Evangelho, não na suas obras. Cuidado com um Deus que é ao mes-Cegueira, uma parábola tão obscura como qual- mo tempo verdade e tempo, avisa-nos Saramago,quer outra, mas no encantador Conto da Ilha Des- e abandone-se um tal Deus para navegar em bus-conhecida, uma breve fábula composta em 1998, ca de si mesmo.o ano do prémio Nobel, e traduzida um ano maistarde por Margaret Jull Costa. Na maravilhosaveia cómica de O Cerco de Lisboa, o conto de Sa- Obras citadasramago começa com um homem pedindo a um Auden, W.H. “The Prince’s Dog.” The Dyer’srei um barco para navegar em busca da ilha des- Hand and Other Essays. New York: Randomconhecida. Conseguido o barco, o homem deixa House, 1962. 182–208.o porto, seguido pela mulher da limpeza do rei, Gibbon, Edward. The History of the Declineque irá constituir o resto da tripulação. and fall of the Roman Empire. Vol. 1. New York A mulher da limpeza, com um soberbo de- Heritage Press, 1946.sassombro, faz o voto que ela e o homem sejam Kierkegaard, Søren. Concluding Unscientificsuficientes para levar a caravela até à ilha desco- Postscript to Philosophical Fragments. Vol. l. Ed.nhecida, animando assim o homem, cuja vonta- and trans. Howard V. Hong and Edna H. Hong.de não se equipara à dela. Deitam-se em beliches Princeton: Princeton UP, 1992.separados, bombordo e estibordo, mas ele tem Saramago, José. The Gospel According to Jesuspesadelos, até que encontra a sombra dela ao Christ, Trans. Giovanni Pontiero. New York:lado da sombra dele: Harcourt Brace, 1994. ———. The Tale of the Unknown Island. Trans.Acordou abraçado à mulher da limpeza, e ela a ele, Margaret Jull Costa. New York: Harcourt Brace,confundidos os corpos, confundidos os beliches, que 1999.não se sabe se este é o de bombordo ou o de estibordo. NdT: a passagem a negrito não consta do texto em inglês.Depois, mal o sol acabou de nascer, o homem e a Suponho que o tradutor do Evangelho não tenha conseguidomulher foram pintar na proa do barco, de um lado passar para o inglês o jogo de palavras sobre Pessoa e os hete-e do outro, em letras brancas, o nome que ainda rónimos, tendo optado por saltar a referência e por traduzir “não sejam mais do que heterónimos” por “sejam o mesmofaltava dar à caravela. Pela hora do meio-dia, com Deus”.a maré, A Ilha Desconhecida fez-se enfim ao mar, àprocura de si mesma. Saramago não nomeia ninguém: sou critica-mente ultrajante o suficiente para me aventurarcom algumas nomeações experimentais, comoantítese ao Evangelho de Saramago. Chamemosao homem Jesus Cristo, experimentemos a mu-lher da limpeza como Maria Madalena e o rei,que existe para receber favores, será Deus. Semdúvida, Saramago abanaria a cabeça, mas um 17
  18. 18. SARAMAGO 90 ANOS A Coragem de José Saramago Mario Benedetti 16 de outubrode 1988A Ilustração de João Fazenda ou torga ç ã o do mais adequados para a literatura. À parte O Ano Nobel a José Saramago, da Morte de Ricardo Reis, essa obra-prima que lhe para alegria dos seus deu fama, os seus dois últimos romances, Ensaio fiéis leitores e raiva do sobre a Cegueira e Todos os Nomes, perscrutam, não Vaticano, honra, é cla- nas aparências mas sim nas essências do ser hu- ro, o escritor português mano. Estas obras fora de série são duas grandes mas, e sobretudo, pres- metáforas, duas insólitas ficções, mas uma vez tigia a Academia Sue- instalado nelas, o autor guia-as com a naturali- ca e revela a sua atual dade com que conduziria relatos de costumes. O independência, já que leitor descobre que o extravagante se torna quo- premiar neste globaliza- tidiano, que o paradoxal se torna corrente, e isso do fim de século um es- é o que mais perturba porque, entre outras coi- critor confessadamente sas, o leitor torna-se cego com todos os cegos ecomunista não me parece que a benquiste com recupera a visão ao mesmo tempo que eles.os turiferários do poder. Poucos dias depois de o No entanto, o verdadeiro complemento destaPapa ter beatificado uma personagem croata que obra esplêndida é José Saramago como pessoa.colaborou abertamente com o fascismo, a hipó- Confesso que admiro essa pessoa tanto como ad-crita indignação do Vaticano face ao último Nobel miro a sua obra. Tive a sorte de conhecê-lo emmereceu esta resposta de Saramago: «O Vaticano 1987. Tínhamos assistido a um Encontro de Es-escandaliza-se facilmente pelos outros e não pelos seus critores em Berlim e estivemos cinco horas nopróprios escândalos. Gostaria que o Vaticano me ex- aeroporto de Roma, à espera da ligação com umplicasse o que é isso de ser um comunista recalcitrante. voo que nos trouxesse a Madrid. Ele estava com aTalvez queiram dizer coerente. Eu só digo ao Vaticano sua mulher, Pilar del Río, uma simpática andalu-que continue com as suas orações e deixe os outros em za, que com o passar dos anos se converteu tam-paz. Tenho um profundo respeito pelos crentes, mas bém na sua melhor tradutora. Cinco horas sãonão pela instituição da Igreja. O cristianismo ensi- suficientes para falar de todos os temas do Uni-nou-nos a amar-nos uns aos outros. Eu não tenho a verso e arredores. Não nos tínhamos lido um aointenção de amar toda a gente, mas sim a de respeitar outro, pelo que, a pedido de Pilar, começámos atoda a gente». «contar» os nossos livros. O melhor foi que des-A verdade é que o comunismo militante de Sa- se encontro nasceu uma boa e sólida amizade,ramago nunca o assimilou ao chamado realismo que teve um belo auge quando, no dia seguintesocialista. Os seus romances são de um nível e ao do anúncio do Nobel, Saramago me telefonoude um rigor literários verdadeiramente exce- do avião que o levava de Frankfurt a Madrid (eucionais. Saramago não só é um narrador origi- estava ainda a convalescer de uma operação) enal, como também tem a coragem de se atrever pude assim dar-lhe o meu forte abraço aéreo.a escrever sobre temas que não parecem ser os Uma coisa que muito admiro em Saramago é a sua 18
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  20. 20. SARAMAGO 90 ANOS«Quero que os do capital mundial. E concluiu: «Por isso é que este mundo é uma merda.» Aplaudiram-no.jovens saibam que Que na globalização da hipocrisia em que vivemos, quando a relação de Monika Lewinsky ocupa maisnós, os velhos, títulos de imprensa do que a crise israelo-palesti- niana, a queda da bolsa nipónica ou a extensão da SIDA, quando a globalização da frivolidade não sóestamos aqui para engloba consumidores e consumidos mas também políticos e intelectuais; que logo agora surja um es-trabalhar». E ele critor que não tem medo do compromisso e diz com toda a claridade e simplicidade o seu decálogo detrabalha. Romance verdades, parece-me um acontecimento extraordi- nário. Para muitos intelectuais que passeiam com oapós romance. seu pedestal às costas e transportam o seu silêncio culpado para não se zangarem com o Big Brother, a atitude normal e sem rebuços de Saramago vai direita à consciência. Nunca o vimos fazer conces-forte coerência e o seu valor para a manter. Recor- sões para obter prémios ou privilégios, e quandodo que, em 1992, em plena Exposição de Sevilha, no seu país deu de caras com a censura, preferiuele disse coisas como esta: «Existe a irresistível ten- exilar-se com Pilar em Lanzarote, onde vivemtação de nos perguntarmos se os gigantescos impérios tranquilos com o seu cão Camões e onde os novosindustriais e financeiros de hoje não estão, como pode- livros têm vindo a surgir. A partir dessa ilha singu-res supranacionais que são, a reduzir a probabilidade lar, viaja e ouve com ouvido faulkneriano o som e ademocrática, que se encontra conservada na sua for- fúria do mundo. Com a sua melhor solidariedade,ma mas, se não me engano, demasiado pervertida na submerge-se em Chiapas. Tenta (para mal-estar dasua essência.» Igreja) humanizar o próprio Jesus. Recorda aos jo-Vários anos depois, quando se apresentou em vens que se tivesse morrido aos 60 anos, não teriaMadrid a versão espanhola de Ensaio sobre a Ce- escrito nada, e aos 75 anos adiciona: «Quero que osgueira, Saramago expressou a sua polémica opi- jovens saibam que nós, os velhos, estamos aqui paranião sobre a democracia, e que era mais ou me- trabalhar». E ele trabalha. Romance após romance.nos assim (não guardei a citação textual): É certo Compromisso após compromisso. «Toda a minhaque, em democracia, os povos elegem os seus obra é uma meditação sobre o erro», disse em 1990.deputados, por vezes o seu presidente, mas esses Talvez por isso atravesse a história, a cegueira, agovernantes democraticamente eleitos são ime- rotina, a fé, como um esforço para desfazer agravosdiatamente pressionados, dirigidos, adminis- e também para a si mesmo se emendar os defeitos.trados, manipulados e virtualmente suplanta- Com Nobel ou sem Nobel, José Saramago édos pelos grandes decisores supranacionais, tal um dos criadores mais notáveis que nos deu estecomo o Fundo Monetário Internacional, o Banco século que agora nos deixa, e não só da desaten-Mundial ou a Trilateral. «E a estes», perguntou dida língua portuguesa, mas também da univer-Saramago, «quem os elege?» sal língua do homem.Há poucas horas, na concorridíssima conferên-cia de imprensa que deu em Madrid após a ob-tenção do Nobel, recordou que um grupo socialfrancamente minoritário é o dono da maior parte 20
  21. 21. SARAMAGO 90 ANOS Linguagem e História segundo José Saramago Manuel GusmãoN a circunstância – pode então comportar o confronto de pontos de a da atribuição do Nobel vista. Este modo de frasear produz efeitos rítmicos –, vale a pena procurar e prosódicos, percecionados por uma espécie de na leitura da obra roma- ouvido mental, e coopera com a construção de uma nesca de José Saramago imagem ou de um efeito do narrador oral, partici- alguns dos traços da sua pante ativo naquilo que conta. Entretanto, pela sua singularidade. Sabendo dimensão plurivocal, e sobretudo quando a liga- que qualquer singulari- mos a outros traços do universo romanesco que ela dade se tece numa rede ajuda a construir, esta forma de frase produz um de relações e numa parti- outro efeito particularmente importante; ela mos- cular constelação de pro- tra a radical socialidade da linguagem, de qualquer cedimentos, proponho- língua, e de qualquer ato de fala. Mostra aquilo que -vos algumas notas em em alguma teoria da linguagem se tematiza, quan-torno de dois tópicos: o dos modos da escrita, e o do se diz que nunca ninguém diz sozinho uma fra-das configurações da historicidade. se – há sempre o outro que a ouve, o outro da com- preensão, da resposta, ou da dissensão. Mesmo naLinguagem... câmara íntima de cada um, a frase que só dizemos A obra romanesca de José Saramago é marcada mentalmente é dita a um desdobramento do eu.por dois gestos verbais para cuja conexão gostaria Por outro lado, falamos sempre com «as palavrasde chamar a atenção. Por um lado, trata-se de uma dos outros», deformando-as um pouco, é certo; eforma de frase e, designadamente, de uma pontu- por aí passa a possibilidade da individuação e daação que aparece como característica, e, por outro, singularidade. É nesse sentido, também, que o di-daquilo que se pode descrever como uma apropria- álogo é a forma básica da fala, e que numa só fraseção ativa da herança literária, cruzada com a inven- se podem ouvir várias vozes. A plurivocalidade éção e a imitação de formas da coloquialidade mais também polifonia.comum. A sua frase parece por vezes conter, entre Esta assunção da socialidade da linguagem,dois pontos finais, várias frases, ditas no mínimo inserida como um dispositivo da narração, podepor duas personagens e, frequentemente, por três ainda ligar-se ao modo como insistentemente,(sendo que uma dessas personagens pode ser a do em alguns dos seus romances, se joga com essenarrador). Essas frases, contidas numa, são sepa- tipo particular de frases do idioma que são osradas por vírgulas que podem estar a substituir provérbios, frases supostamente indeformáveispontos de interrogação», são dados apenas pela que conteriam, congelado, um sentido único,maiúscula inicial de uma palavra que vem depois uma sabedoria monológica.de uma vírgula. Estamos perante uma frase pluri- Saramago chega aqui de duas maneiras: porvocal: é como se fossem vários a dizer uma frase, um lado, pode usar o «mesmo» provérbio eme essa frase, que é um acontecimento do diálogo, contextos diferentes, de modo a mostrar que ele 21
  22. 22. SARAMAGO 90 ANOSpode significar coisas diversas e, no limite, inver- história em Saramago. Talvez possamos dizersas; por outro lado, deforma e inventa provér- que o processamento ficcional dos seus roman-bios. Este modo de usar e construir provérbios ces constitui uma forma singular de ficciona-constitui uma marca do jogo verbal (o homo lo- lização de matéria histórica. Antes de avançar,quens é também um homo ludens) e um processo gostaria de lembrar, até porque também nissodo ironização (de «carnavalização») do saber, ou joga Saramago, que usamos a palavra «história»do «dialogismo» (vale a pena ler, a propósito, o em pelo menos três sentidos; (a) a história que éensaio de José Mattoso sobre os provérbios por- a existência dos humanos no tempo, a históriatugueses). que em dadas condições fazemos e vivemos; (b) Esta ostensão do uso das «palavras dos ou- a história enquanto nome de uma disciplina, ostros», de que acima falei, é o que podemos en- escritos historiográficos; (c) e a atividade de con-contrar num outro plano textual no regime ci- tar «estórias» (histórias de vida, contos vários,tacional de certos romances de Saramago (por relatos, lendas, mitos, etc.). O que fazemos emexemplo, em O Ano da Morte de Ricardo Reis) e, (b) e (c) tem parte, ou é parte, tendencialmentemais amplamente, no modo como ele se apropria conflitual, do que fazemos em (a). Quando conta-de registos discursivos e estilísticos da tradição mos ou escrevemos história, não nos limitamos aliterária. Por aqui passa, agora, a dimensão tex- conhecer ou imaginar um passado, inscrevemostual (escrita) da narração, que «corrige» a ima- o nosso presente e estamos de alguma forma àgem do narrador oral. A citação (assinalada ou escuta do que aí vem (chamamos-lhe o futuro).não), glosa e deformação de versos de Pessoa- Em José Saramago, a lição de matéria históri--Ricardo Reis, a transformação de uma fórmula ca (passada, atual, ou de um futuro inventado),de Camões na primeira e na última frases desse mesmo quando produz mundos possíveis, nolivro «sobre» Reis, as revisitações do barroco, a limite alternativos ao mundo empírico tal comoimitação de ritmos sintáticos e construções re- é socialmente construído pelo senso comum, re-tóricas do padre António Vieira (que abrem, por conhecido pela historiografia, ou reconstituídoexemplo, a Viagem a Portugal), os ecos de Garrett pelas ciências da natureza, é uma ficção históricaou de Camilo, constituem mais do que um gesto nos seus gestos, uma ficção que historiciza o vi-de integração no cânone, mais do que homena- ver. Giuseppe Tavani assinalou já como a últimagens aos antepassados. Cruzam-se com os gestos frase do 1.° capítulo de Levantado do Chão indi-de imitação da oralidade e das vozes populares cia eficazmente aquilo que podemos tomar comoe são uma forma de apropriação autoconstituti- uma persistente e variante estratégia narrativa.va, um operador de historicização transtempo- «Levou séculos para chegar a isto, quem duvi-ral. Por aí, a possibilidade de dissolução de uma dara de que assim vai ficar até à consumação dosidentidade cultural nacional (e nisso reside um séculos? E esta outra gente quem é, solta e miúda,dos papéis propiciadores de Viagem a Portugal, que veio com a terra, embora não registada na es-observados por Maria Alzira Seixo), o romance critura, almas mortas, ou ainda vivas? A sabedoriaresponde, não pela rigidificação de uma suposta de Deus, amados filhos, é infinita: aí está a terra eidentidade monológica, mas antes pela constru- quem a há de trabalhar, crescei e multiplicai-me dizção de uma identidade dialógica, social e histori- o latifúndio. Mas tudo isto pode ser contado de ou-camente heterogénea. tra maneira.» Contar isto (a história da terra e do latifúndio)…e história de outra maneira significa voltar a contar algo Os leitores e a receção crítica têm insistente que já foi contado. Trata-se de um outro modo dee diversamente encontrado uma relação com a contar e de outra matéria contável: aqueles que 22
  23. 23. SARAMAGO 90 ANOSnão têm registo na escritura – termo notarial e temos como mundo real; podemos encontrar otermo que designa uma escrita oficial ou canó- nome de Saramago disseminado em textos seus,nica, sancionada por uma lei, a dos senhores. ou mesmo encontrar representações oblíquasMas vai tratar-se também de, neste outro con- do autor; o Julião Mau-Tempo do Memorial é,tar, ensaiar respostas à pergunta do parágrafo necessariamente, na lógica da ficção, um ante-anterior, que podia ser lida como uma «pergun- passado dos Mau-Tempo do Levantado do Chão;ta retórica», implicando uma resposta negativa. um romance de Saramago pode citar ou aludirO romance virá, entre outras coisas, a mudar a a um outro romance seu. No processo de preen-resposta a essa pergunta; virá dizer – que sim, chimento da lacuna, da «correção» ou «emenda»há quem tenha dúvidas quanto a qualquer ante- do texto prévio, encontramos outros procedi-cipação da consumação dos tempos, ou do «fim mentos reiterados, na configuração do espaçoda história»; que não, talvez as coisas não fiquem e tempo e das populações do mundo narrativo.assim. Encontramos, por exemplo, acontecimentos fan- Vários dos romances posteriores de Sarama- tásticos ou maravilhosos (os poderes de Blimun-go procederão assim; supõem um texto ou textos da, o voo da passarola, as conversas de Reis comprévios, nos quais descobrem ou inventam uma o espectro de Pessoa; a separação e a navegaçãolacuna, textos que corrigem, ou que vão voltar da Península lbérica); anacronismos e alucina-uns contra os outros. Assim, em Memorial do ções que sobrepõem, na simultaneidade, tem-Convento – a historiografia oficial; em O Ano da pos cronológica e historicamente afastados (porMorte de Ricardo Reis – a ficção heteronímica de exemplo, na História do Cerco de Lisboa); a mistu-Pessoa; em A Jangada de Pedra – o texto político ra de personagens ficcionais (Baltasar e Blimun-dominante sobre a integração europeia; em His- da), com personagens que a ficção constrói sobretória do Cerco de Lisboa – por um lado crónicas e indivíduos historicamente atestados (D. João V,historiografia, mas também a ficção de um texto Bartolomeu Lourenço e Domenico Scarlatti, ouhistoriográfico a que o protagonista impõe um Pessoa), e com reficcionalizações de personagens«não», o que o levará a passar de revisor a autor; que já existiam como ficções (Ricardo Reis, porem O Evangelho segundo Jesus Cristo – os evange- exemplo).lhos canónicos e apócrifos. O tipo de texto suposto e os modos da sua Uma narrativa ético-políticapresença – explícita ou implícita – na narrativa, Vários destes procedimentos encontramo-os procedimentos ficcionais de subversão desse -los num tipo de ficção histórica que é emblemá-texto, e as suas consequências na construção dos tico da pós-modernidade; mas a singularidademundos narrativos variam de romance para ro- de José Saramago está também no modo comomance, mas mantém nessa variação a dimensão a sua ficção oferece resistência a uma certa vul-de ficcionalização irónica, rapsódica e polémica gata pós-modernista enquanto aceitação de umda história já escrita. Esta ficcionalização tende suposto fim da História e das ideologias. Noa mostrar sempre, na enunciação narrativa, o modo como o moderno, mais do que se esgotarpresente histórico em que se escreve, criando a na pós-modernidade a integra como uma «fase»unidade de uma contradição, pela qual o narra- de uma modernidade longa. Talvez esteja justa-dor se simula contemporâneo da ação passada mente aqui uma das razões textuais da ampli-que conta e, ao mesmo tempo, alude à contempo- tude heterogénea dos seus leitores – no modoraneidade do autor empírico. Vários traços coo- como Saramago une desejo de ficção e desejo deperam na produção de um efeito de obra, como história, como sintoma de crise e gesto de crítica,réplica ou simulacro do mundo de mundos que como receio da barbárie e desejo de um outro fu- 23
  24. 24. SARAMAGO 90 ANOSturo. Tais desejos e receios manifestam-se mais «Aqui, onde o mar se acabou e a terra espera.»nitidamente nos últimos romances, Ensaio sobre E é, também, um princípio de relativização ea Cegueira e Todos os Nomes, onde adquire evidên- deformação da perspetiva, que permite inscre-cia uma forma de romance como alegoria (que ver um partis pris pelas gentes que não vêm naentretanto já está latente, pelo menos, em Janga- escritura, e pela humanidade (ofendida) dos hu-da de Pedra e em Evangelho segundo Jesus Cristo). manos:Esta alegoria, que começa por ser a narrativiza- «Toda a gente se admirava com o tamanho des-ção de uma metáfora, não se fecha entretanto na medido da pedra, Tão grande. Mas Baltasar mur-irreversibilidade de um duplo sentido nem no murou, olhando a basílica, Tão pequena.»gesto de uma apologética. Nela, um ceticismo eum pessimismo ativos não desistem entretantoda compaixão, da ténue sombra de uma esperan-ça. A de podermos ser outros. No Memorial, porexemplo: «se Blimunda tivesse vindo à despedida sem tercomido o seu pão, que vontade veria em cada um, ade ser outra coisa» Os traços dessa insistência do moderno estãojustamente na persistência de um ethos, que vemde trás e é longa e variantemente sustentado.Esse ethos é uma marca ético-política e inscre-ve-se na articulação entre os gestos verbais e asconfigurações da historicidade; desde a macro--estrutura textual até ao nível da frase. Mostra--se: no escrever a voz dos que não têm lugar naescritura; nas apresentações dos construtoresdo convento, na oratória e na ciência de Barto-lomeu, e na arte de Scarlatti; nas listas de nomes«próprios» de mortos anónimos e/ou históricosque em vários romances aparecem; na compai-xão irónica pelo aristocrata indiferente RicardoReis, e na presença intermitente dos navios darevolta dos marinheiros; na passagem do revi-sor a autor, na reversibilidade entre quem cercae quem é cercado, e na homenagem ao rei-poeta,D. Dinis; no «humano, demasiado humano» deCristo; na catástrofe da cegueira, na mulher domédico e na fraternidade que sobrevive e faz so-breviver. Esse ethos inscreve-se no gesto verbal da ci-tação deformada, na entoação enunciativa, nasignificação posicional e no sentido histórico etranstemporal da última frase de O Ano da Mortede Ricardo Reis: 24
  25. 25. SARAMAGO 90 ANOS A morte tira umas férias James Wood 27 de outubro de 2008 Tradução de Ana Beatriz MansoO I lustração de Javier Olivares filósofo Bernard Tendo vivido, até estes dias de confusão, naquilo Williams escreveu em que haviam imaginado ser o melhor de todos os mun- tempos um ensaio inti- dos possíveis e prováveis, descobriam, deliciados, que tulado «O Caso Makro- o melhor, realmente o melhor, era agora que estava a pulos», no qual defendia acontecer, que já o tinham ali mesmo, à porta de casa, que a vida eterna deve- uma vida única, maravilhosa, sem o medo quotidia- ria ser tão entediante no da rangente tesoura da parca, a imortalidade na que ninguém a suporta- pátria que nos deu o ser, a salvo de incomodidades ria. Segundo Williams, metafísicas e grátis para toda a gente, sem uma carta a constância que define de prego para abrir à hora da morte, tu para o para- um eu eterno implicaria íso, tu para o purgatório, tu para o inferno, nesta en- um infinito deserto de cruzilhada se separavam em outros tempos, queridos experiências repetitivas, companheiros deste vale de lágrimas chamado terra,para que o eu não fosse alterado a ponto de ser es- os nossos destinos no outro mundo.vaziado de qualquer definição. É por esse motivo ^ Mas as «incomodidades» – metafísicas, polí-que, na peça de Karel Capek a que Williams vai ticas, pragmáticas – não tardam a fazer a sua re-buscar o seu título, a personagem Elina Makro- entrada. A Igreja Católica é a primeira instituiçãopulos, com trezentos e quarenta e dois anos, tendo a pressentir o perigo. O Cardeal telefona ao pri-ingerido o elixir da vida eterna desde os quarenta meiro-ministro para realçar que «se se acabassee dois anos de idade, decide descontinuar o regi- a morte não poderia haver ressurreição, e que seme e morre. A vida precisa da morte para cons- não houvesse ressurreição, então não teria sentidotituir o seu significado; a morte é o período negro haver igreja». Para o Cardeal, a vida sem a morteque comanda a sintaxe da vida. é equivalente a Deus decidir o Seu próprio fim. A Em As Intermitências da Morte, José Saramago, vida sem a morte abole a alma. Numa assembleiaum autor cujas frases longas e ininterruptas são onde está reunido um grupo de filósofos e cléri-relativamente estranhas ao período, escreveu um gos, ambos os lados concordam que a religião pre-romance que funciona como uma experiência de ^ cisa tanto da morte «como do pão para a boca». Apensamento no campo Capek/Williams. (O seu vida sem a morte é como a vida sem Deus, diz umromance não faz qualquer alusão explícita a ne- dos sacerdotes, porque «se os seres humanos nãonhum dos dois.) À meia-noite de uma véspera de morressem tudo passaria a ser permitido». (Esta éAno Novo, num país sem nome do interior com uma versão do medo dostoiesvskiano de que, semcerca de dez milhões de habitantes, a Morte decla- Deus, tudo é permitido.) Um dos filósofos, numra tréguas à Humanidade, uma interrupção vo- tom semelhante ao do astuciosamente secularluntária, de modo a dar às pessoas a ideia de como Saramago, sugere que, uma vez que a morte eraseria viver para sempre. De início, as pessoas fi- «notoriamente, o único instrumento de lavouracam evidentemente eufóricas: de que deus parecia dispor na terra para lavrar os 25
  26. 26. SARAMAGO 90 ANOScaminhos que deveriam conduzir ao seu reino, a ses de Saramago, nas quais um narrador ou gru-conclusão óbvia e irrebatível é de que toda a histó- po de narradores tem sempre uma forte presença,ria santa termina inevitavelmente num beco sem constituem uma espécie de comunidade própria:saída.» são altamente povoadas. Um país onde ninguém morre transforma-se Alguma da escrita mais significativa dos úl-inevitavelmente num zoológico malthusiano. Os timos trinta anos tem-se deliciado com as frasesvelhos que estavam à beira da morte na véspera longas e sem regras – pensemos em Thomas Ber-de Ano Novo mantêm-se simplesmente à beira, nhard, Bohumil Hrabal, W. G. Sebald, Robertoinertes na sua dessuetude. Os cangalheiros, os Bolaño – mas ninguém apresenta propriamentevendedores de seguros de vida e os diretores de o mesmo tom de Saramago. Ele possui uma ca-hospitais e lares de idosos veem-se, por diversas pacidade de parecer sábio e ignorante ao mesmorazões, ameaçados pelo desemprego ou pela hipe- tempo, como se não estivesse realmente a narrarratividade. Não tardará a que o estado deixe de ser as histórias que narra. Muitas vezes, usa aqui-capaz de pagar a manutenção dos seus cidadãos. lo que se poderia chamar de estilo livre indiretoE, embora esta súbita utopia possa ser agora o não identificado – as suas ficções dão a sensaçãomelhor de todos os mundos possíveis, podemos de não estarem a ser contadas por um autor, massempre confiar nos humanos para destruírem sim por, digamos assim, um grupo de idosos sá-utopias. As famílias com membros envelhecidos e bios e algo gárrulos, sentados no cais em Lisboa,enfermos apercebem-se de que precisam da mor- a fumar um cigarro, sendo um deles o própriote para os salvar de uma eternidade de cuidados escritor. Esta comunidade aprecia truísmos, pro-à cabeceira da cama. Uma vez que a morte não vérbios, lugares-comuns. «Está escrito que não sefoi suspensa nos países vizinhos, a solução óbvia pode ter tudo na vida», diz-nos o narrador de Asé transportar o Avôzinho adoentado para lá da Intermitências da Morte, e acrescenta: «É assim afronteira, onde a morte fará o seu trabalho. Uma vida, vai dando com uma mão até que chega o diaorganização semelhante à Máfia assume o contro- em que tira tudo com a outra.» O narrador de umlo destas fugas para a morte, uma operação com a romance anterior anuncia: «A fama, ai de nós, ésecreta conivência do governo, visto que nenhum uma aragem que tanto vai como vem, é um cata-estado tem dinheiro para pagar uma expansão in- -vento que tanto vira a norte como a sul.» E numfinita. Tal como o primeiro-ministro alerta o Rei, outro: «Diz-se, desde os tempos clássicos, que a«se não voltarmos a morrer não temos futuro». fortuna protege os audaciosos.» Estas trivialida- As Intermitências da Morte é uma pequena e des nunca são propriamente validadas nem refu-mordaz adição à obra de um grande romancista. tadas; são ironizadas pela óbvia lacuna que existeCom eficácia, coloca em movimento o seu hipoté- entre o conhecedor escritor pós-moderno laurea-tico caso de teste e gera rapidamente um conjunto do com um Nobel enquanto produz as suas ficçõesde pertinentes questões teológicas e metafísicas e a pessoa ou pessoas que aparentemente narramrelativas à desejabilidade da utopia, à possibilida- essas ficções.de do Paraíso e aos verdadeiros alicerces da reli- O estilo contínuo é uma parte importante des-gião. O trabalho recente de Saramago inclinou-se sa ironia: a falta de fôlego empresta uma sensa-mais para o vagamente metafórico, com atores ção de desregramento loquaz, como se diferentesanónimos e universais no lugar de personagens pessoas interviessem para dar a sua opinião. Umaindividuais. Estes livros seriam assumidamente única frase longa parece muitas vezes ter sido es-ensaísticos se não fossem as extraordinárias fra- crita por diferentes vozes, e o tumulto sem pon-ses de Saramago e a subtileza das suas narrativas. tuação permite astutas voltas e reviravoltas, comoNa ausência de pessoas ficcionais vívidas, as fra- quando um lugar-comum se apanha a si próprio 26
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  28. 28. SARAMAGO 90 ANOSno ato de ser um lugar-comum e se retrata: «Um restabelecimento, fica agradada: «As preces ha-homem desses, salvo pouquíssimas excepções viam demorado quase oito meses a chegar ao céu,sem lugar nesta história, nunca passará de um mas há que pensar que só para atingir o planetapobre diabo, é curioso que se diga sempre pobre marte precisamos de seis, e o céu, como é fácil dediabo e nunca se diga pobre deus.» Na frase acer- imaginar, deverá estar muito mais para lá, treze milca da euforia inicial das pessoas quando a morte é milhões de anos-luz de distância da terra, númerossuspensa, repare-se que uma imagem poética do redondos.» Essa voz incitadora, com a sua parciali-Ceifeiro («rangente tesoura da parca») dá lugar a dade antiteológica, tem reminiscências não apenasuma imagem mais comum («carta de prego para de Luciano mas também do luciânico Leon Battistaabrir à hora da morte ») e depois a um total lugar- Alberti, cuja sátira quatrocentista Momus imagina-comum já gasto («este vale de lágrimas chamado o caos que poderia instalar-se no Céu caso todosterra»), e que esta progressão permite a presença pedissem ao mesmo tempo a Deus que atendessesimultânea do escritor, que tem as suas imagens, a uma prece.e das pessoas sobre as quais está a escrever, que O curto romance de Saramago dá azo a ques-têm as delas. E aí ocorre um intercâmbio mágico: tões semelhantes. Se a vida eterna não poderia dequando chegamos ao final dessa frase acerca da modo nenhum funcionar na Terra, porque será amorte, a elegante imagem mítica parece de algu- eternidade etérea tão ardentemente desejada? Tal-ma maneira muito menos poderosa do que a ima- vez seja pela nossa esperança desesperada de quegem mais banal. o Céu seja o mesmo que a Terra mas também mui- Deste modo, a prosa de Saramago dá-nos uma to diferente, uma vez que o Homem arruína Para-sensação simultaneamente moderna e antiga. O es- ísos. Para Saramago, como para Bernard Willia-critor está a trabalhar de modo consciente, atrain- ms, o problema não é apenas o facto de os homensdo constantemente a atenção para a narração, mas serem assassinos natos de utopias; é o de que aa narração parece mergulhar facilmente num pro- própria eternidade – a vida para sempre ininter-blema da mochila universal, fazer florescer as suas rupta – parece insustentável. E, neste romance,verdades franzinas e sábias. É esta abordagem Saramago faz mais do que provocar Dostoiévski.astuciosamente modesta que permite a Saramago Pois, se o desaparecimento de Deus significa queescrever as suas ficções especulativas e fantásti- «tudo é permitido», e o desaparecimento da mortecas como se se tratassem dos acontecimentos mais significa que tudo é permitido, então, pelo tácitoprováveis e dar-lhes uma sólida literalidade – um catecismo do romancista, Deus deve ser a mortepaís sem nome atacado por uma epidemia de ce- e a morte deve ser Deus. Não é de admirar que agueira, a Península Ibérica separada do continente religião precise da morte: a morte é o único Deuseuropeu e transformada numa enorme ilha flutu- em que podemos acreditar.ante, um homem que caminha pelas ruas de Lisboa Saramago é atraído para estas inversões gnós-e que é ao mesmo tempo inegavelmente real e um ticas. Naquele que é possivelmente o seu melhorfantasma literário. Em certos aspetos, a sua obra livro, O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991), o ro-está mais próxima da de um satirista como Lucia- mancista conta de forma distintiva a história dano, cujos esquissos imaginam pessoas a viajar para vida e morte de Jesus sem alterar nenhum dos fac-a Lua ou para o Hades, ou os deuses a altercarem tos famosos, ao mesmo tempo que vira do avessoentre eles, do que da de qualquer romancista con- a teologia dos Evangelhos. Certo dia, José, o pai detemporâneo. Quando, no novo romance de Sara- Jesus, ouve acidentalmente alguns soldados a co-mago, a Morte decide finalmente pôr fim à sua «in- mentarem as ordens de Herodes para que sejamterrupção» e deixar a mortalidade seguir de novo mortas todas as crianças com menos de três anoso seu caminho, a Igreja, que andara a rezar por tal de idade. Corre para casa para esconder a sua mu- 28
  29. 29. SARAMAGO 90 ANOSlher e o filho recém-nascido, mas esquece-se deavisar o resto da aldeia. Pelo seu pecado, anuncia As Intermitênciasmais tarde um anjo a Maria, José irá sofrer. E omeu filho?, pergunta ela ao anjo. «Disse o anjo, So- da Morte gera rapidamentebre a cabeça dos filhos há-de sempre cair a culpados pais, a sombra da culpa de José já escurece afronte do teu filho», escreve Saramago. A seu tem-po, José é capturado por soldados romanos queabafam uma rebelião e é crucificado juntamente um conjuntocom outros trinta e nove judeus. Por seu turno, Je-sus torna-se obcecado por uma sensação de culpa de pertinentesherdada e pela ideia de que, tal como ele diz, «Omeu pai matou os meninos de Belém». Na força questões teológicasde um relâmpago pelo dedo do blasfemo contadorda história, Saramago transforma um dilema teo- e metafísicaslógico que lhe é familiar – o Deus «bom» que trazJesus ao mundo é também o Deus «mau» que per- relativas àmite o massacre de bebés inocentes – num pro-fundo imbróglio. De repente, Jesus é amaldiçoado desejabilidadepor uma forma de pecado original, e o seu sacrifí-cio na Cruz torna-se não uma expiação do pecado da utopia, à possibilidadedo Homem mas sim um legado do mesmo: segueas pegadas do pai, amaldiçoado pela linhagem pa-ternal. «Deus não perdoa os pecados que mandacometer», assim coloca a questão o narrador. NaCruz, ouvindo o seu Pai celestial a declamar a par- do Paraíso etir das nuvens «Tu és o meu Filho muito amado,em ti pus toda a minha complacência», Jesus bra- aos verdadeirosda: «Homens, perdoai-lhe, porque ele não sabe oque fez.» É a derradeira e mais perversa inversão alicerces dado romance. O Evangelho Segundo Jesus Cristo causou enor- religião.me controvérsia no Portugal católico (Jesus dor-me e vive com Maria Madalena), mas este é o maispio dos livros blasfemos. Por detrás das suas fe- nós através dos seus óculos de armação escurarozes ironias, Saramago parece não fazer mais do e do tamanho de uma televisão. De certa manei-que encarar a Encarnação com a maior seriedade ra, ele é o menos fanático dos romancistas, porpossível: se Jesus nasceu homem, parece ele di- insistir de modo tão implacável nas suas hipóte-zer, então herdará tudo aquilo a que um homem ses ficcionais, seguindo-as através de grandes eestá sujeito, incluindo o pecado, que, seja como humanas conclusões. O seu novo romance vai-for, provém de Deus. A fasquia está muito alta, -se tornando gradualmente menos conceptualmas o temperamento autoral é ameno, inquiridor, e crescentemente tocante, sem nunca se tornaramadurecido. E se Deus fosse o Diabo?, parece realista em nenhum sentido convencional, nemperguntar o autor, espreitando docilmente para sequer plausível. 29
  30. 30. SARAMAGO 90 ANOS Ele representa-nos a Morte como uma ausên- no novo romance, o funcionário seleciona umacia feminina encarnada, um esqueleto num lençol cidadã das fileiras dos mortos e vivos e, de formaque vive numa sala subterrânea gélida, apenas gradual, sem nunca a nomear (também o violon-acompanhada pela sua muito utilizada gadanha. celista permanece sem nome), dota-a de uma par-(Ele também lhe nega um «M» maiúsculo.) Pas- ticularidade metafísica.sados os seus sete meses de interrupção voluntá- É também isto que faz o romancista: pega numria, esta deusa sombria envia uma carta para uma nome, numa personagem, numa pessoa, e salva-aestação de televisão a anunciar que vai pôr fim à do esquecimento silencioso através da irradiaçãosua experiência porque os humanos agiram de de palavras. Mas também pode matá-la sempremodo tão «deplorável». As pessoas morrerão de que assim o deseje: todos os romances são «inter-novo ao ritmo antigo, que é de cerca de trezentas rompidos» simplesmente porque chegam ao fim.por dia. De acordo com as novas regras, aos ci- Falamos de poder autoral omnisciente porque osdadãos cujo tempo terminou será dado um aviso escritores têm o poder de decidir a vida e a mortecom uma semana de antecedência: cada um deles dos seus «nomes». O auxiliar de escrita de Todosreceberá uma carta de cor violeta, um aviso de os Nomes, que é conhecido simplesmente comotérmino vindo da própria Morte. Esta concessão Sr. José, partilha o mesmo nome próprio com oaparentemente humana – o nomeado passa a ter romancista. No seu novo romance, Saramago tor-tempo para pedir a sua licença, pôr a sua proprie- na a pedir-nos que reflitamos acerca dos poderesdade em ordem, e por aí em diante – é insuporta- divinos do contador de histórias. Quando a cartavelmente cruel, claro está, uma vez que a maioria da Morte é publicada nos jornais, consulta-se umdas pessoas preferiria ser surpreendida pela mor- gramático, que toma nota da sua «sintaxe caótica,te do que condenada a ela. Um desses nomeados, da ausência de pontos finais, do não uso de parên-um violoncelista de cinquenta anos, desnorteia a tesis absolutamente necessários, da eliminaçãodeusa. A Morte escolheu-o para o término, mas a obsessiva dos parágrafos, da virgulação aos salti-carta de cor violeta é repetidamente devolvida ao nhos (…)». A Morte escreve como José Saramago.remetente; o violoncelista parece recusar as suas Enquanto a Morte observa o violoncelista a be-ordens. Numa série de cenas inesperadamente ber, Saramago escreve que ela olhou para a águabelas, a Morte, bastante perplexa, insinua-se no e «fez um esforço para imaginar o que seria terapartamento do violoncelista e senta-se em silên- sede, mas não o conseguiu». O leitor indaga-se:cio a observá-lo enquanto ele dorme; vê o modo se a Morte não consegue imaginar a sede, conse-como se levanta de noite para beber um copo de guirá porventura imaginar a morte? E o roman-água e deixar o cão ir à rua, vê uma suite de Bach cista? Uma resposta que Saramago oferece – é a(a n.º 6) na sua cadeira, e por aí em diante. Está ampla verdade antiga e universal na direção dana hora de o violoncelista morrer – extinguiu-se qual a sua ficção complexa tem vindo a viajar – é«o tempo que lhe havia sido prescrito ao nascer» – a de que, se não nos escudarmos da morte nemmas a Morte parece não ter nenhum poder sobre ansiarmos religiosamente por vencê-la, mas, peloeste «homem qualquer, nem feio nem bonito». contrário, aceitarmos a antiga realidade de que Em Todos os Nomes, um romance anterior com no seio da vida estamos na morte, então a morteo qual este novo faz uma óbvia parceria, um mo- rodeia-nos como a vida, e imaginar a morte é, nadesto auxiliar de escrita torna-se obcecado por verdade, imaginar a vida.uma cidadã perfeitamente comum, uma mulhercujo nome na certidão de nascimento o apanhade surpresa certa tarde no seu local de trabalho,a Conservatória Geral do Registo Civil. Tal como 30
  31. 31. SARAMAGO 90 ANOS Um estilo como ideologia Luciana Stegagno Picchio Ilustração Luis GraneñaC om Jorge Amado e É claro que quem isto escreve, por formação e pouquíssimos mais, Sara- ideologia, não pode falar senão dos modos, isto é, mago é um dos raros lu- das formas. Os fins são arcanos e parecem trans- sofalantes que conseguiu cender-se uns aos outros. Deixo-os, pois, para a sair do círculo linguístico análise de um filósofo, quiçá um existencialista, português, que já escrito- enquanto entro no terreno em que se desenvolve res como Machado de Assis a minha atividade. consideravam uma prisão, Ocupar-me-ei, portanto, apenas daquela orali- e impor-se como escritor dade que parece ter-se convertido na característi- supranacional, primeiro ca que singulariza a escrita de Saramago, a partir ibérico e depois, simples- de um romance como Levantado do Chão, que em mente, escritor pertencente 1980 marcou uma «passagem» criativa do nosso ao mundo. autor. Uma passagem de toda a sua escrita, tanto A profunda relação com a realidade e a atua- no sentido temporal como estilístico e de género,lidade que a obra literária de José Saramago es- mas também de êxito.tabelece (seja a narrativa, seja a poesia, a crónica Com efeito, o estilo oral, se queremos definir des-ou o teatro), a sua componente de denúncia de te modo o estilo narrativo mais recente de Saramago,uma história cujas estruturas aparentes são des- parece ter nascido nesta obra poética, juntamentemontadas e remontadas, seguindo de cada vez com tantas outras coisas, depois daquele 25 de abrilum desenho diferente, em busca de significados de 1974, que, para a geração de Saramago e a minha,sempre novos, fez com que, mesmo nestes dias dividiu em dois, não só a História de Portugal (umatão ricos em invenções interpretativas, as formas História com H grande) mas também a própria his-tenham levado a pior ao enfrentar os conteúdos. tória individual e política (aqui com minúscula) deNo entanto, penso que não é possível separar as cada um dos seus membros. É então quando, depoisduas coisas e continuo a utilizar categorias como da chamada Revolução dos Cravos, o escritor por-as propostas por Hjelmslev: forma do conteúdo tuguês José Saramago, que em todos esses anos dee forma da expressão. Continuo a acreditar num espera, mais além também do mito populista do selfestruturalismo que se obstina e decai; continuo a made man, não tinha feito mais do que escrever, flo-afirmar que numa obra tudo significa e que for- resce, como por milagre, revelando-se como escritormas e conteúdos participam juntos na criação de de primeiro plano não só na sua pátria mas também,um sentido, do sentido concebido ao mesmo tem- e sobretudo, no exterior. E floresce como portadorpo como sentido atribuído pelo narrador e sentido não apenas de uma nova forma de sentir e contar apercebido pelo recetor, nessa obra determinada e história, mas também como inventor de uma nova enessa determinada circunstância. Eis aqui a razão muito peculiar escrita literária.que justifica o título destas linhas: Um estilo como A oralidade de Saramago é muito diferente,ideologia. por exemplo, da dos escritores iberoamericanos 31

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