Iracema

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Apresentação cedida pelo Prof. Edvaldo Rofatto e modificada por mim, Aline. Foi utilizada na aula-livro do dia 28/09/2008 no cursinho Praxis Limeira.

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Iracema

  1. 1. “ IRACEMA”, de José de Alencar Prof.ª Aline Bicudo [email_address] www.literaline.blogspot.com (Contribuição do Prof. Edvaldo Rofatto)
  2. 2. O AUTOR Principal prosador do Romantismo nacional Bases criativas: o predomínio da ação sobre os caracteres, o nacionalismo ufanista e a visão idealizada da existência Obras principais (= perfil de regiões, história, costumes e mitos) : - romances urbanos: Cinco minutos (1856); A viuvinha (1857); Lucíola (1862); Diva (1864); A pata da gazela (1870); Senhora (1875) etc. - romances regionalistas ou sertanistas: O gaúcho (1870); O tronco do ipê (1871); Til (1872); O sertanejo (1875); - romances históricos: As minas de prata (1862); Alfarrábios (1873); A guerra dos mascates (1873) - romances indianistas: O guarani (1857); Iracema (1865); Ubirajara (1874)
  3. 3. CARACTERÍSTICAS GERAIS DO AUTOR Projeto estético-ideológico : temas nacionais e luta por uma linguagem brasileira (= processo de emancipação definitiva da literatura portuguesa) Produção literária: um painel da diversidade físico-geográfica, dos aspectos sócio-culturais, das origens históricas gloriosas e dos mitos dos heróis fundadores da nacionalidade Intenção nacionalista: revelar o Brasil em seu espaço físico-geográfico (romances urbanos e regionalistas) , em seu passado histórico (romances históricos) e em sua dimensão lendária/mítica (romances indianistas) .   Linguagem com adjetivação farta, de grande teor metafórico, tendente ao poético.   Aspectos pré-realistas nos romances “ Lucíola” e “ Senhora” (análise psicológica mais complexa, ênfase no peso da sociedade sobre o indivíduo e temas relativamente proibidos: o casamento por interesse e as complicações resultantes do amor entre dois grupos sociais distintos).   Vitória final da moral conservadora
  4. 4. SINOPSE: “Iracema” narra a história de amor entre Martim, que se perdeu na mata, e a índia tabajara Iracema, a virgem dos lábios de mel. O guerreiro branco é acolhido pela tribo de Iracema. Apaixonada pelo rapaz, no entanto, por ser filha do pajé e guardar o segredo da jurema ela não poderia se entregar a nenhum homem. Enquanto ela toma conta do seu hóspede, os índios tabajaras se preparam para a guerra contra os pitiguaras. Assim, Poti, índio que se unira aos portugueses e amigo de Martim, aparece para levá-lo e evitar uma luta entre as tribos rivais. Eles combinam que Martim sairá na mudança da lua, ocasião em que os tabajaras estariam em festa e ficaria mais fácil evitar o encontro com o guerreiro Irapuã, que é apaixonado por Iracema. Enquanto esperava o momento de partir, Martim provou o licor da jurema e, durante o sono, chamou pela índia que lhe atendeu o pedido. Quando Martim acordou, achou que tudo fora um sonho... Chega o dia de ele partir. Iracema o acompanha até os limites de sua tribo. Quando ele manda que ela fique, a índia diz que não pode ficar, pois já é sua esposa. Os tabajaras os perseguiram e houve o confronto entre as duas tribos. Iracema chorou pela morte de seus irmãos, mas passou a viver feliz com Martim. Depois de tempos felizes, Martim deixa Iracema para ajudar os pitiguaras na luta contra a tribo dela. Grávida, Iracema é deixada e vai se consumindo de tristeza e saudade de seu marido. Após um longo período de lutas, Martim e Poti planejam outro ataque: escondem os guerreiros e atacam de surpresa, vencendo o inimigo. Nesse tempo, Iracema dá à luz o seu filho, a quem chama Moacir. Deprimida, ela perde o apetite e as forças. Quando volta do combate, Martim a encontra fraca, à beira da morte. Ela apenas apresenta o filho ao marido e morre, sendo enterrada aos pés do coqueiro de que ela tanto gostava. Após enterrá-la, Martim pega o filho e parte para a Europa.
  5. 5. “ Iracema ”, de José de Alencar “ Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba; Verdes mares, que brilhais como líquida esmeralda aos raios do sol nascente, perlongando as alvas praias ensombradas de coqueiros; Serenai, verdes mares, e alisai docemente a vaga impetuosa, para que o barco aventureiro manso resvale à flor das águas. Onde vai a afouta jangada, que deixa rápida a costa cearense, aberta ao fresco terral a grande vela? Onde vai como branca alcíone buscando o rochedo pátrio nas solidões do oceano? (...) A lufada intermitente traz da praia um eco vibrante, que ressoa entre o marulho das vagas: – Iracema!”
  6. 6. “ Iracema ”, de José de Alencar “ Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema. Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira. O favo da jati não era doce como o seu sorriso;nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado. Mais rápida que a ema selvagem, a morena virgem corria o sertão e as matas do Ipu, onde campeava a sua guerreira tribo da grande nação tabajara. O pé gracioso e nu, mal roçando, alisava apenas a verde pelúcia que se vestia a terra com as primeiras águas. Um dia, ao pino do sol, ela repousava em um claro da floresta. Banhava-lhe o corpo a sombra da oiticica, mais fresca do que o orvalho da noite. Os ramos da acácia silvestre esparziam flores sobre os úmidos cabelos. Escondidos na folhagem os pássaros ameigavam o canto. (...)”
  7. 7. “ Iracema ”, de José de Alencar Rumor suspeito quebra a doce harmonia da sesta. Ergue a virgem os olhos, que o sol não deslumbra; sua vista perturba-se. Diante dela e de todo contemplá-la, está um guerreiro estranho, se é um guerreiro e não um mau espírito da floresta. Tem nas faces o branco das areias que bordam o mar; nos olhos o azul triste das águas profundas. Ignotas armas e tecidos ignotos cobrem-lhe o corpo. Foi rápido, como o olhar, o gesto de Iracema. A flecha embebida no arco partiu. Gotas de sangue borbulham na face do desconhecido. De primeiro ímpeto, a mão lesta caiu sobre a cruz da espada, mas logo sorriu. O moço guerreiro aprendeu na religião de sua mãe, onde a mulher é símbolo de ternura e amor. Sofreu mais d'alma que da ferida. O sentimento que ele pos nos olhos e no rosto, não o sei eu. Porém a virgem lançou de si o arco e a uiraçaba, e correu para o guerreiro, sentida da mágoa que causara.
  8. 8. “ Iracema ”, de José de Alencar A mão que rápida ferira, estancou mais rápida e compassiva o sangue que gotejava. Depois Iracema quebrou a flecha homicida: deu a haste ao desconhecido, guardando consigo a ponta farpada. O guerreiro falou: — Quebras comigo a flecha da paz? — Quem te ensinou, guerreiro branco, a linguagem de meus irmãos? Donde vieste a estas matas, que nunca viram outro guerreiro como tu? — Venho de bem longe, filha das florestas. Venho das terras que teus irmãos já possuíram, e hoje têm os meus. — Bem-vindo seja o estrangeiro aos campos dos tabajaras, senhores das aldeias, e à cabana de Araquém, pai de Iracema.
  9. 9. <ul><li>Publicação: 1865 </li></ul><ul><li>Argumento histórico: a colonização do Ceará, em 1606 (séc. XVII). </li></ul><ul><li>Registro histórico: presença de Martim Soares Moreno e Poti, o Antonio Filipe </li></ul><ul><li>Camarão. </li></ul><ul><li>Foco narrativo: 3ª pessoa – narrador onisciente e participante da história: </li></ul><ul><li>&quot;Uma história que me contaram nas lindas vargens onde nasci&quot;. </li></ul><ul><li>Fato desencadeador </li></ul><ul><li>     -  Assunto: o encontro de Iracema e Martim.    - Tema: o encontro do colonizador com o colonizado, ou seja, a </li></ul><ul><li>relação português e a Coroa X nativos e a colônia. </li></ul><ul><li>Elementos da trama - os elementos geradores do conflito     Martim oscila entre a fidelidade a seu amigo pitigura (Poti) e seu amor por </li></ul><ul><li>Iracema (tabajara).     Iracema não poderia ser desvirginada, pois era uma espécie de sacerdotisa.     Irapuã, cacique da tribo, desejava Iracema e funciona como obstáculo à </li></ul><ul><li>realização de Martim. </li></ul><ul><li>  Desfecho: ambigüidade – primitivismo nacionalista X transplantação cultural. </li></ul><ul><li>Visão preconceituosa do narrador - capítulo final - referência a Deus. Comparar </li></ul><ul><li>batismo indígena de Martim (capítulo XXIV) ao batismo católico de Poti </li></ul><ul><li>(cap.XXXIII). </li></ul>“ Iracema”
  10. 10. Elementos épicos de “Iracema” Texto épico = relação fatos-autor-narrador no cap. I; narração dos feitos heróicos dos portugueses (= Martim) e da grandeza do índio (= Iracema), com a presença do &quot;maravilhoso“ (= o vinho de Tupã que permite a posse de Iracema e a presença dos deuses indígenas representando as forças da natureza). Elementos líricos de “Iracema” O amor de Iracema por Martim = é a heroína típica do Romantismo: sofre as saudades do amante, que partiu, e da pátria que deixou ( = representante de uma corrente luso-brasileira cujo início data das cantigas medievais). Martim Soares Moreno e Filipe Camarão = vultos da história do Brasil, lutaram contra a invasão holandesa. O 1º é considerado, realmente, o fundador do Ceará, e o 2º recebeu a comenda de Cristo e o cargo de capitão-mor dos índios pelos seus méritos . Estrutura em &quot;flash back“ ( rever 1º e 32º cap.): o texto se abre pelo fim. Iracema, no 1o. capítulo, já está morta, e Martim, Moacir e o cachorrinho Japi vão embora na jangada. O 32º cap. narra a morte de Iracema, e o 33º conta o retorno de Martim para fundar o Ceará.
  11. 11. Valores simbólicos Iracema: objeto proibido do desejo: posse do objeto = transgressão. ( o licor de Jurema +   postura de Martim + postura de Iracema ) Há proibição de se tocar o corpo de Iracema. O gesto transgressor seria punido com a morte. Martim só procura Iracema sob os efeitos da droga:ele não tem o corpo dela em seus braços, tem apenas a sua imagem – sonho . A virgindade de Iracema é justificada pela sua situação dentro da taba: é sacerdotisa de Tupã. Qualquer atitude dela para unir-se a Martim transgride os valores tabajaras. Mas o amor se revela mais forte e a postura de Iracema é, desde o início, de desobediência. O licor de Jurema é a droga que servirá como intermediário, isto é, que servirá para derrubar as barreiras entre os dois, remetendo a relação para o nível do inconsciente. Moacir: duas vezes filho da dor de Iracema: dela nascido e, também, dela nutrido. Tal mescla de vida e morte, de dor e de alegria, acha-se tematizada pelo leite branco, ainda rubro do sangue de que se formou: &quot;Nisto seu filho chorou. Iracema correu à cabana. A jovem mãe suspendeu o filho à teta... mas a boca infantil não emudeceu. O leite escasso não apojava o peito. Então ela dissolveu a alva carimã e preparou ao fogo o mingau para nutrir o filho. A jovem mãe sabe que, se nada fizer, seu filho morrerá de fome. Então, levando ao colo a criança adormecida , vai ao bosque em busca dos filhos da irara. Pega-os e faz com que chupem seus avaros seios até que intumesçam e esguichem o leite escorrido. Ele é agora duas vezes filho de sua dor, nascido dela e também nutrido.&quot; (Cap. XXXI) “ Iracema”
  12. 12. <ul><li>Melhor romance indianista brasileiro </li></ul><ul><li>Prosa lírica = musicalidade = poema em prosa </li></ul><ul><li>Busca uma sintaxe nacional </li></ul><ul><li>Uso do falar nativo = distância do padrão luso </li></ul><ul><li>Cor local = elogio à natureza americana </li></ul><ul><li>Forma e conteúdo = expressão nacionalista </li></ul>“ Iracema ”, de José de Alencar
  13. 13. <ul><li>Iracema = América (representativa da natureza) </li></ul><ul><li>Reflexo do mito do “bom selvagem”, de Rousseau </li></ul><ul><li>Comportamento romântico </li></ul><ul><li>apaixona-se no primeiro contato </li></ul><ul><li>ele, inimigo da tribo; ela, sacerdotisa </li></ul><ul><li>vassalagem: nada exige, tudo oferece </li></ul><ul><li>troca o povo, as tradições pelo amante </li></ul><ul><li>abandonada, nem a maternidade a faz feliz </li></ul><ul><li>na solidão, definha até a morte </li></ul>“ Iracema ”, de José de Alencar
  14. 14. Realidade histórica metaforizada <ul><li>Martim : “guerreiro branco”, lutou contra invasores franceses e </li></ul><ul><li>holandeses </li></ul><ul><li>Poti : símbolo da amizade, cristianizado, tornou-se Antônio Filipe </li></ul><ul><li>Camarão </li></ul><ul><li>Jacaúna : irmão de Poti, chefe dos pitiguaras </li></ul><ul><li>Irapuã : “Mel-Redondo”, chefe dos tabajaras, símbolo do ciúme </li></ul><ul><li>e dos valores bélicos - alia-se aos invasores </li></ul><ul><li>Araquém : sabedoria e pendência da velhice </li></ul><ul><li>Caubi : afeto familiar fraterno </li></ul>“ Iracema ”, de José de Alencar
  15. 15. Romance = alegoria da colonização brasileira <ul><li>Contraste : nativo ( puro ) X europeu ( corruptor ) </li></ul><ul><li>Fundamentação histórica e lendária: </li></ul><ul><li>Martim X Iracema Moacir </li></ul><ul><li>( Europa ) ( América ) 1º brasileiro </li></ul><ul><li>sofisticação natureza emancipação, </li></ul><ul><li>cultural tropical descaracterização </li></ul>“ Iracema ”, de José de Alencar
  16. 16. “ Dizer que a língua falada no Brasil é somente “português” implica um esquecimento sério e perigoso: o esquecimento de que tem muita coisa nesta língua que é caracteristicamente nossa, de que esta língua é parte integrante da nossa identidade nacional, construída a duras penas, com o extermínio de centenas de nações indígenas, com o monstruoso massacre físico e espiritual de milhões de negros africanos trazidos para cá como escravos, e com todas as lutas que o povo brasileiro enfrentou e continua enfrentando para se constituir como nação.” Marcos Bagno
  17. 17. XXVI   Caminhando, caminhando, chegaram os guerreiros à margem de um lago, que havia nos tabuleiros. O cristão parou de repente e voltou o rosto para as bandas do mar: a tristeza saiu de seu coração e subiu à fronte. — Meu irmão, disse o chefe, teu pé criou raiz na terra do amor; fica. Poti voltará breve. — Teu irmão te acompanha; ele disse, e sua palavra é como a seta de teu arco: quando soa, é chegada. — Queres tu que Iracema te acompanhe às margens do Acaracu? — Nós vamos combater seus irmãos. A taba dos pitiguaras não terá para ela mais que tristeza e dor. A filha dos tabajaras deve ficar. — Que esperas então? — Teu irmão se aflige porque a filha dos tabajaras pode ficar triste e abandonar a cabana, sem esperar por sua volta. Antes de partir ele queria sossegar o espírito da esposa. Poti refletiu: — As lágrimas da mulher amolecem o coração do guerreiro, como o orvalho da manhã amolece a terra. — Meu irmão é um grande sabedor. O esposo deve partir sem ver Iracema. O cristão avançou, Poti mandou-lhe que esperasse: da aliava de setas que Iracema emplumara de penas vermelhas e pretas e suspendera aos ombros do esposo, tirou uma. O chefe pitiguara vibrou o arco; a seta rápida atravessou um goiamum que discorria pelas margens do lago; só parou onde a pluma não a deixou mais entrar. Fincou o guerreiro no chão a flecha, com a presa atravessada, e tornou para Coatiabo: — Podes partir. Iracema seguirá teu rasto; chegando aqui, verá tua seta, e obedecerá à tua vontade. Martim sorriu; e quebrando um ramo do maracujá, a flor da lembrança, o entrelaçou na haste da seta, e partiu enfim seguido por Poti. Breve desapareceram os dois guerreiros entre as árvores. O calor do sol já tinha secado seus passos na beira do lago. Iracema inquieta veio pela várzea, seguindo o rasto do esposo até o tabuleiro. As sombras doces vestiam os campos quando ela chegou à beira do lago.
  18. 18. Seus olhos viram a seta do esposo fincada no chão, o goiamum trespassado, o ramo partido, e encheram-se de pranto. — Ele manda que Iracema ande para trás, como o goiamum, e guarde sua lembrança, como o maracujá guarda sua flor todo o tempo até morrer. A filha dos tabajaras retraiu os passos lentamente, sem volver o corpo, nem tirar os olhos da seta de seu esposo; depois tornou à cabana. Aí sentada à soleira, com a fronte nos joelhos esperou, até que o sono acalentou a dor em seu peito. Apenas alvorou o dia, ela moveu o passo rápido para a lagoa, e chegou à margem. A flecha lá estava como na véspera: o esposo não tinha voltado. Desde então à hora do banho, em vez de buscar a lagoa da beleza, onde outrora tanto gostara de nadar, caminhava para aquela, que vira seu esposo abandoná-la. Sentava-se junto à flecha, até que descia a noite; então recolhia à cabana. Tão rápida partia de manhã, como lenta voltava à tarde. Os mesmos guerreiros que a tinham visto alegre nas águas da Porangaba, agora encontrando-a triste e só, como a garça viúva, na margem do rio, chamavam aquele sítio da Mecejana, que significa a abandonada. Uma vez que a formosa filha de Araquém se lamentava à beira da lagoa da Mecejana, uma voz estridente gritou seu nome do alto da carnaúba: — Iracema! Iracema!... Ergueu ela os olhos e viu entre as folhas da palmeira sua linda jandaia, que batia as asas, e arrufava as penas com o prazer de vê-la.   A lembrança da pátria, apagada pelo amor, ressurgiu em seu pensamento. Viu os formosos campos do Ipu, as encostas da serra onde nascera, a cabana de Araquém, e teve saudades; mas naquele instante, ainda não se arrependeu de os ter abandonado. (...) A jandaia abrindo as asas, esvoaçou-Ihe em torno e pousou no ombro. Alongando fagueira o colo, com o negro bico alisou-lhe os cabelos e beliscou a boca mimosa e vermelha como a pitanga. (...) A linda ave não deixou mais sua senhora; ou porque depois da longa ausência não se fartasse de a ver, ou porque adivinhasse que ela tinha necessidade de quem a acompanhasse em sua triste solidão.
  19. 19. Aculturação romântica: Índios = dóceis e hospitaleiros, não há confrontos entre colonizador e colonizados, a não ser os que resultaram na quebra de confiança de Martim ao fugir com Iracema, mas apenas o domínio do índio pelo branco como se a colonização fosse um ato de heroísmo. Alencar quis que a colonização fosse lembrada como parte desse Brasil e o indígena como um povo dócil e amoroso, e não, como uma raça que foi retirada e dizimada de suas terras. Lembrar que a cerimônia do batismo de Martim é episódica e superficial, não havendo nenhuma transformação básica em Martim, o que não ocorre com Poti. &quot;Bem-vindo sejas. O estrangeiro é o senhor na cabana de Araquém. Os tabajaras têm mil guerreiros para defendê-lo, e mulheres sem conta para servi-lo.&quot; &quot;Iracema acendeu o fogo da hospitalidade , trouxe o que havia de provisões para satisfazer a fome e a sede.&quot; (Cap. III)
  20. 20. &quot;Podes partir, Iracema seguirá o teu rastro, chegando aqui verá tua seta e obedecerá a tua vontade.&quot; (Cap. XXVI) A mulher já era criada para obedecer o marido pois era ele que possuía o poder, e, na citação acima verifica-se que a mulher consegue até reconhecer o rastro do homem, configurando assim uma relação quase de patrão e serviçal. &quot;O moço guerreiro aprendeu na religião de sua mãe, onde a mulher é símbolo de ternura e amor. Sofreu mais d'alma que da ferida. A mão que rápida ferira, estancou mais rápida e compassiva e sangue que gotejava.&quot; (Cap. II) Para Martim, o conceito de mulher é uma visão romantizada e européia da época, ela é idealizada, em sua beleza e na sua alma pura, sem lhe incutir as malícias do mundo, apenas uma mulher transparente e natural como o meio em que ela vive.
  21. 21. &quot;... um jovem estrangeiro, de estranha raça e longes terras.&quot; “ – Sou dos guerreiros brancos, que levantavam as tabas nas margens do Jaguaribe, perto do mar, onde habitavam os pitiguaras, inimigos de tua Nação. Meu nome é Martim,que na tua língua quer dizer filho de guerreiro. Meu sangue, o do grande povo que primeiro viu as terras da tua pátria.&quot; (Cap. III) “... tem nas faces o branco das areias que bordam o mar; nos olhos o azul triste das águas profundas, ignotas armas e tecidos ignotos cobrem-lhe o corpo.&quot; (Cap. II) Martim é o colonizador e guerreiro branco e é caracterizado por Alencar de forma tão romântica quanto a protagonista Iracema, pois ele é belo e sensível, ou seja, tem todos os atributos de um herói do Romantismo. Ele é um herói , mas, ao mesmo tempo que se encanta com Iracema num repente de paixão, não consegue esquecer da moça que o espera em Portugal. É a valorização do eu pessoal. Há momentos no livro em que Martim não sabe decidir se ama ou não Iracema, ele parece estar fugindo da realidade, uma característica do Romantismo. &quot;Teu corpo está aqui, mas a tua alma voa à terra de teus pais e busca a virgem branca, que te espera.&quot; (Cap. XXVIII) &quot;Geminou a palavra de Deus verdadeiro na terra selvagem, e o bronze sagrado ressoou nos vales onde rugia o maracá.&quot; (Cap.XXXIII)
  22. 22. <ul><li>&quot;Muitos guerreiros de sua raça acompanharam o chefe branco, para fundar com ele a mairi dos cristãos. Veio também um sacerdote de sua religião, de negras vestes, para plantar a cruz na terra selvagem.&quot; (Cap. XXXIII) </li></ul><ul><li>Terra selvagem = índios eram civilizados em suas tradições, tratando bem as crianças e velhos, repartindo tarefas entre homens e mulheres. </li></ul><ul><li>&quot;Soube quanto o varão forte é, pela sua mesma fortaleza, mas cativo das grandes paixões. – A sombra de Iracema não esconderá sempre o estrangeiro à vingança de Irapuã. Vil é o guerreiro que se deixa proteger por uma mulher.&quot; (Cap. VII) </li></ul><ul><li>“ – Os guerreiros de meu sangue trazem a morte consigo. Não a temem nem para si, não a poupam para o inimigo.&quot; (Cap. VIII) </li></ul><ul><li>Homem = o grande e forte guerreiro, o senhor das terras e das mulheres e de tudo. </li></ul>
  23. 23. “ – A felicidade do mancebo é a esposa e o amigo; a primeira dá alegria o segundo dá força. Amado de Tupã é o guerreiro que tem uma esposa, um amigo e muitos filhos.&quot; (Cap. XXIII) Para o índio, felicidade = formar uma família e ter amigos fiéis. O índio pensa em sua velhice com seus filhos. &quot;O cristão amou a filha do sertão como nos primeiros dias. Mas breves sóis bastaram para murchar aquelas flores de uma alma exilada da pátria. A amizade e o amor acompanharam e fortaleceram o coração do guerreiro branco durante algum tempo, mas agora, longe de sua casa e de seus irmãos, sentia-se no ermo. O amigo e a esposa não bastavam mais à sua existência, cheia de grandes desejos e nobres ambições.&quot; (Cap. XXVII) Para o colonizador, na visão de Alencar, a família havia ficado em sua pátria, mesmo amando Iracema, não lhe bastava esta condição, ele sonhava com os entes que ficaram na sua terra natal. O índio era mais convicto em suas tradições, dando mais valor às opções que temos que fazer durante a vida, ao passo que o colonizador não se apegava a esta terra com raça e vontade, visando apenas seus interesses materiais.
  24. 24. Indianismo de Alencar X Indianismo de Oswald de Andrade   I. Relações colonizador X nativo Para Alencar, esta relação que se processou por permissão do índio, provocou o surgimento do povo brasileiro. Para Oswald de Andrade, a relação foi de antropofagia e aculturação: o português aproveitou-se da fragilidade do índio para a dominação. II. Valor simbólico do índio: nacionalismo X primitivismo O índio, para Alencar, era a possibilidade de despertar, no povo brasileiro recém-independente, o amor pela pátria (nacionalismo ufanista). Para Oswald de Andrade, é a forma de criticar o absurdo da dominação portuguesa, a aculturação e a destruição de um povo (nacionalismo crítico).
  25. 25. Visão crítica de Machado de Assis: &quot;O espírito de Alencar percorreu as diversas partes de nossa terra, o Norte e o Sul, a cidade e o sertão, a mata e o pampa, fixando-as em suas páginas, compondo assim com as diferenças da vida, das zonas e dos tempos a unidade nacional da sua obra.“ Visão crítica de Raquel de Queirós: &quot;Peri, Ceci, Iracema, são parentes, são amigos, são figuras vivas. Com toda a falsidade do seu indianismo romântico, o fato é que o povo não as acha falsas, ama-as e as aceita como perfeitas. Aparecem nas toadas sertanejas, nas canções de carnaval, nas anedotas, na coreografia, estão definitivamente incorporadas ao folclore, são fantasmas permanentes nos sítios onde passaram a suposta vida. Mormente Iracema. Porangaba ainda é hoje a 'lagoa onde Iracema se banhava'; e a praia onde a tabajara penou e morreu é a 'praia de Iracema'. Ninguém fala nas praias do Ceará sem citar os 'verdes mares bravios'....'Rápida como a ema selvagem'... 'cabelo negro como a asa da graúna'... Não, não há que negar a imortalidade dos tipos que Alencar inventou.&quot; Visão crítica de Ronald de Carvalho: &quot;...seus índios não se exprimem como doutores de Coimbra, falam qual a natureza os ensinou, amam, vivem e morrem como as plantas e os animais inferiores da terra. Suas paixões têm a espontaneidade e a violência dos temporais, são incêndios rápidos que lavram um instante, brilham, refulgem e desaparecem.“
  26. 26.  ” O cajueiro floresceu quatro vezes depois que Martim partiu das praias do Ceará, levando no frágil barco o filho e o cão fiel. A jandaia não quis deixar a terra onde repousava sua amiga e senhora. O primeiro cearense, ainda no berço, emigrava da terra da pátria. Havia aí a predestinação de uma raça? Poti levantava a taba de seus guerreiros na margem do rio e esperava o irmão que lhe prometera voltar. Todas as manhãs subia ao morro das areias e volvia os olhos ao mar, para ver se branqueava ao longe a vela amiga. Afinal volta Martim de novo às terras, que foram de sua felicidade, e são agora de amarga saudade. Quando seu pé sentiu o calor das brancas areias, em seu coração derramou-se um fogo que o requeimou: era o fogo das recordações que ardiam como a centelha sob as cinzas. Só aplacou essa chama quando ele tocou a terra, onde dormia sua esposa; porque nesse instante seu coração transudou, como o tronco do jataí nos ardentes calores, e orvalhou sua tristeza de lágrimas abundantes. Muitos guerreiros de sua raça acompanharam o chefe branco, para fundar com ele a mairi dos cristãos. Veio também um sacerdote de sua religião, de negras vestes, para plantar a cruz na terra selvagem. Poti foi o primeiro que ajoelhou aos pés do sagrado lenho; não sofria ele que nada mais o separasse de seu irmão branco. Deviam ter ambos um só deus, como tinham um só coração. Ele recebeu com o batismo o nome do santo, cujo era o dia; e o do rei, a quem ia servir, e sobre os dous o seu, na língua dos novos irmãos. Sua fama cresceu e ainda hoje é o orgulho da terra, onde ele primeiro viu a luz. A mairi que Martim erguera à-margem do rio, nas praias do Ceará, medrou. Germinou a palavra do Deus verdadeiro na terra selvagem; e o bronze sagrado ressoou nos vales onde rugia o maracá. Jacaúna veio habitar nos campos da Porangaba para estar perto de seu amigo branco; Camarão erguera a taba de seus guerreiros nas margens da Mecejana. (...) Era sempre com emoção que o esposo de Iracema revia as plagas onde fora tão feliz, e as verdes folhas a cuja sombra dormia a formosa tabajara. Muitas vezes ia sentar-se naquelas doces areias, para cismar e acalentar no peito a agra saudade. A jandaia cantava ainda no olho do coqueiro; mas não repetia já o mavioso nome de Iracema. Tudo passa sobre a terra.” (último capítulo de “Iracema”)
  27. 27. Fim

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