Folhetim "Um último Pulsar"

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Folhetim "Um último Pulsar"

  1. 1. Era noite na tribo Ariquém. Todos os indígenas repousavam em suas redes dentro de suas malocas,que,especialmente naquela noite,estavam frescas e bem arejadas.A Lua brilhava bem alto no céu,e as estrelas da meia-noite tremeluziam,pequenas,porém com uma luz intensa. Araras azuis soavam seus cantos doces pela copa das árvores.Os micos dormiam apoiados pelos rabos,e relaxavam recostados sobre o colo uns dos outros.Pirarucus e Tambaquis enormes repousavam bem ao fundo da grande lagoa de águas cristalinas ao lado da aldeia. Uma doce índia Ariquém saíra de sua maloca para tomar um pouco de ar fresco sob o orvalho que caía sobre as folhas de uma seringueira.Estava um clima muito agradável ,próprio para um passeio noturno pela aldeia. Essa índia chamava-se Jandira.Ela caminhou por entre as ocas,passou pela imensa oca do cacique,que dormia com suas duas esposas no centro da construção,e por fim chegou bem próximo ao rio,que ali formava um enorme lago. A doce índia atentou-se à uma linda e cheirosa orquídea que crescia em uma árvore próxima.Ela foi até mais perto da árvore para colher uma flor.Ao tocar as pétalas dessa flor,sentiu uma estranha sensação nos pés e se abaixou para verificar o que era.Instantaneamente,uma flecha zuniu sobre seus ouvidos. Jandira era uma índia guerreira,acostumada com batalhas e combates,por isso percebeu que aquilo não era um simples acidente.Esgueirou-se para a moita mais próxima,e tentou espiar o que a atacara.Porém,ela
  2. 2. somente conseguiu ver algo vermelho,uma espécie de glóbulos flutuantes,que emitiam uma luz bruxuleante e estavam repletos de raiva.Esses estranhos círculos foram focados mais atenciosamente por Jandira,que se espremia entre os ramos daquela planta. Ela percebeu que aqueles círculos fantasmagóricos eram na verdade olhos,que a focavam a todo momento.Os olhos estavam vidrados nela,e se aproximavam cada vez mais.A índia ficou abismada com aquela situação.Não havia escapatória.Possuída pelo medo e pelo estresse daquele momento,Jandira tentou alongar-se para a árvore ao lado,onde talvez teria uma chance.Tentou. Uma outra flecha zuniu no ar,porém desta vez a atingiu no braço direito,e imediatamente começou a sangrar.A lâmina super afiada transpassou sua carne e atingiu diretamente um nervo de seu braço,irrompendo uma moléstia insuportável em seu cerne.Doeu em sua alma.Conhecia aquele veneno,pois ela mesma o fabricara várias vezes para usá-lo em combate.Ela sempre colhia uma espécie de lírio púrpura que nascia em um local específico da floresta,e o tratava com todo o carinho para produzir um néctar negro e letal,em que ela embebia sua lança com esse mais mortífero veneno.Somente restava à Jandira um grito;que saiu de seus lábios mais fino do que o pio de um Bugio,porém com a força do mais firme PauBrasil. Adiantara em algo.Os índios acenderam suas tochas e saíram de suas malocas em busca do local do grito. Aquipati,o cacique da tribo,foi quem encontrou Jandira,caída abaixo de uma grande seringueira às margens do lago.Porém,esforçando-se muito,Jandira conseguiu sussurrar alguns resquícios de palavras,ouvidas
  3. 3. com atenção pelo cacique:"Cuidado com os olhos vermelhos vindos das matas de Jati". Então,a doce índia desfaleceu nos braços do cacique,soltou seu último pulsar,sua última lágrima caiu,e toda a sua alma abandonou aquele corpo.Taicanam,a deusa das estrelas,abraçava Jandira no céu,e a tornara mais uma de suas filhas.Iniciara-se naquele momento o período mais triste da história daquela tribo,onde muitos mistérios assolariam os Ariquéns por muitos tempos. Durante muitos dias,a tribo Ariquém chorou a morte de Jandira.Todos os índios reuniram-se ao redor de uma grande fogueira no centro da tribo,cantavam lindas e tristes canções ,oravam com todo o coração. Guanani,o pajé,decorou toda a mortalha da índia Jandira com ervas medicinais frescas que ele mesmo colheu ;acomodou levemente inúmeras flores,retiradas do interior das floresta.Orquídeas,lavandas,lírios selvagens,begônias e lindas margaridas esculpiam as curvas frágeis do corpo da índia;que fora colocado especialmente abaixo da grande seringueira,de onde acreditava-se ser solo sagrado.
  4. 4. Irrompia daquele lugar uma intensa magia,completada por todas as súplicas à Tambatajá,o deus de amor.Naquele dia,a Lua brilhava mais forte,e sua luz exibia um tom azulado que entristecia ainda mais o momento,mas nada traduzia o medo que se abatia sobre os indígenas. Acabados os ritos,poucos dias depois,vários ariquéns começaram a buscar pistas e rastros de quem poderia ser o assassino de Jandira.Dividiram-se em trios e adentraram fundo nas matas,esperando encontrar algo ou alguém útil. O próprio Aquipati,o cacique,resolveu ajudar.Junto com ele foram seus dois filhos: Manauana,sua filha mais velha,bonita como a onça pintada e feroz como a mesma,e melhor amiga de Jandira;e Cati,seu filho caçula,rápido como um jaguar e arisco como um sagui.O trio embrenhou-se pelas matas e poucas horas depois encontrou algo estranho em uma clareira. Haviam,escondidas no chão,algumas flores púrpuras,despedaçadas e secas.Estavam ali,aparentemente,a alguns dias.À sua volta,um pilão,uma cuia,e uma pasta negra,grudenta,que Aquipati julgou como um veneno e resolveu colher cuidadosamente um pouco para levar ao pajé. Pouco mais à frente,o trio viu algumas marcas de pés,que os indígenas não reconheceram como da tribo ariquém. Resolveram seguir as pegadas marcadas na lama e durante uma hora elas os levariam mata adentro em uma caminhada maçante seguindo o rastro.
  5. 5. Chegaram a uma caverna,escondida sob inúmeros ramos e cipós,com fungos enormes agarrados à rochedos imensos,que pareciam rachaduras na vegetação densa. O cacique e seus filhos resolveram entrar.Removeram alguns cipós verdes que impediam a passagem e passaram por um vão que daria na boca da caverna.Pularam um riacho que corria tranquilo e manso por ali.Diante das luzes do crepúsculo que se formavam,acharam melhor acender as tochas,friccionando dois gravetos que acharam por ali, com pedaços de peles embebidas com óleos naturais incinerantes que os próprios ariquéns produziam. O fogo iluminava o lugar,que,agora, aparecia claramente à sua frente.O trio ficou perplexo perante as minuciosidades que se encontravam ali:Reconheceram inúmeros insetos que se abrigavam no solo e se escondiam entre as rochas encharcadas e, temendo as chamas, fugiam de sua visão. Viram trilhas de formigas e cupins que se formavam em várias paredes,além de inúmeros morcegos barulhentos e aranhas penduradas em suas teias.Agradeceram a Tupã por tudo aquilo que viram. Foi Cati quem percebeu uma faca bem afiada caída no chão,rente às pegadas;e,avisando seu pai,recolheu-a e a guardou em uma bolsa que trazia consigo no peito.
  6. 6. Pingava sucessivamente uma água cristalina que,ao escorrer do teto,formava estranhas formações rochosas, as chamadas estalactites e estalagmites,que cresciam de cor vermelha e azul diante do pretume da caverna.Nas paredes,ao aproximar-se da rocha,viam-se inúmeros pontos dourados tremeluzindo cravados nas paredes.Eram pepitas de ouro.Por outro lado,diamantes e rubis também estavam nas paredes do local,e a sala estava toda decorada com eles.Observando mais de perto,Cati reparou que havia ali uma flor de beleza singular,ímpar,que parecia crescer sozinha em meio à todas aquelas rochas.Ele pretendia levála para Manauana,e se aproximou para colhê-la.Ao tocála,ouviu um barulho muito estranho vindo da outra sala,e resolveu se certificar que não havia acontecido nada. Em um movimento incrivelmente rápido,o índio acabou por desviar de um golpe desferido com uma faca,que viera da escuridão atrás de seu corpo.Aquelas lâminas lancinantes quase mataram Cati,e no mesmo instante ele percebeu que aquilo que havia acontecido com Jandira estava prestes a acontecer com ele.Esguio como um sagui,o índio conseguiu se esgueirar por entre duas formações rochosas e esconder-se, por alguns segundos, atrás delas. Cati já conseguia ver o outro lado da caverna,onde estavam seu pai e sua irmã,porém,ao cruzar com uma poça d'água no chão,o índio viu refletido pela água(agora iluminada pela luz de sua tocha) um rosto medonho,feminino,e com feições indígenas.Entretanto,aquele rosto não pertencia à um índio de sua tribo,e seus olhos...Oh!Estavam brilhando vermelhos como sangue!Aquela criatura estava sedenta por morte,via-se isso em seu rosto; desfigurado pela água,que se mexia com cada gota que caía.
  7. 7. O índio ariquém virou-se para ver melhor aquele rosto.Era a assassina de Jandira. Cati estarreceu-se de medo.Ficou estonteado,paralisado.Apesar de estar com sua vítima nas mãos,a assassina ficou imóvel,chocada por ter sido descoberta.Agora,os dois se olhavam,cara-a-cara,e não desviavam o olhar por nada.Queriam estar preparados para tudo. A goteira principal,bem próxima a Cati,parecia contar todo aquele tempo de combate visual em que permaneciam os dois.O índio esperava pela ajuda de seu pai,e a índia calculava qual seria seu próximo movimento,mas não esperou muito mais.Avançou com tudo para cima de Cati,sempre com os olhos brilhantes,cor de sangue. O guerreiro desviou-se agilmente dos primeiros golpes,mas a fúria de sua adversária desconcertou-o por várias vezes.Tudo o que mais queria era vingar a morte de Jandira,a mais bela das índias ariquéns.
  8. 8. Nada se comparava à técnica de Cati,porém nem todo o seu treinamento foi suficiente.Em um movimento preciso,a índia assassina acabou por derrubá-lo,que caiu com tudo em uma rocha. O barulho fenomenal chegou aos ouvidos do cacique,que foi correndo ver seu filho.Mas já era tarde.Chegando à outra sala da caverna,Aquipati deparou-se com uma cena de um combate:As poças d'água misturavam-se com algumas gotas de sangue de Cati,que não se encontrava mais ali. Manauana desabou em lágrimas.Alguém havia levado seu irmão,e provavelmente seria o assassino de Jandira.Estava tudo perdido.Agora,ela calculou que ele seria morto e devorado em um ritual antropofágico.Sua força seria absorvida junto com sua vida,e ela nunca o veria mais. Desolada,ela procurou consolo com seu pai,que a acolheu com um carinhoso abraço.Via-se o sofrimento em seu rosto.Os dois resolveram voltar para tribo em busca de alguma ajuda,pois o medo os impedia de continuar.Apesar de desacreditado,Aquipati acendeu uma centelha de esperança em seu coração. Mal sabia ele que Cati ainda vivia,e naquele exato momento era carregado para bem longe dali.O índio ariquém chegara em um local repleto de magia,onde luzes bruxuleantes alumbravam aquele pedaço de selva,carregado pela índia daqueles olhos cor de sangue.
  9. 9. Cati ficou dias desacordado. Enfim, abriu os olhos, e viu que um grupo de estranhas o olhava. Eram todas mulheres, indígenas, destacadas pelo brilho vermelho em seus olhos.Ao centro do grupo,estava a assassina de Jandira. O índio Ariquém lutou desesperado para sair dali, porém isso não adiantara em nada.Cati estava sobre um catre gélido de bambu,onde permanecia preso pelas mãos e pés com fortes amarras de couro.A assassina deu um passo na direção de Cati,que gritava muito por socorro e logo debruçou-se sobre o índio para alcançar seu olvido esquerdo.O índio debatia-se como uma lebre que fora capturada,porém a índia tratou logo de acalmá-lo: -Acalme-se. Agora você está seguro conosco. Mas quem seriam elas?O que queriam com ele?Cati, controlando um pouco sua ira, resolveu perguntar: -Qual é seu nome, assassina de Jandira?O que seu clã quer com o povo Ariquém?Por que matar Jandira? -Relaxe estrangeiro, já disse que não o machucaremos. Colabore conosco e sairá são e salvo dessa turbulência. -Disse uma das guerreiras indígenas. Então, uma voz aparentemente conhecida de Cati surgiu da escuridão junto com um corpo feminino bastante conhecido. Ela fraquejava e falhava em meio aos sussurros de sua dona, mas continuou: -Cati!Eu estou aqui!-Disse a índia, imersa em suas lágrimas-Não se preocupe. Agora tudo está bem! O guerreiro reconheceu a voz como de Jandira, mas não poderia ser ela. Estava morta!Ele a havia sepultado! -Antes de qualquer coisa, deixe-nos falar sobre nósUma das índias começou a explicar a situação - Somos
  10. 10. uma organização feminina autointitulada C.I. A, sigla para clã das indígenas anônimas. Cati estremeceu-se por completo. A índia prosseguiu: -Nós não matamos Jandira-No exato momento, a índia dita como morta saiu detrás de uma sombra daquele cômodo.Cati estremeceu-se novamente. -Mas como?Perguntou o índio A própria Jandira continuou: -Há alguém que, na verdade, deseja a minha morte. E esse alguém é da aldeia Ariquém. Seu nome, você conhece muito bem: Aquipati- A índia terminou seu pensamento com uma mágoa presa em sua garganta. Agora, Cati já havia sido solto pela chefe do grupo,que o aconchegara próximo à Jandira.Ao receber essa notícia arrasadora,o índio desabou sobre os braços de Jandira,que confortou-o com um amor fenomenal.Seu pai...Um assassino!Ele não poderia acreditar!Quanta maldade!Ele resolveu se certificar: -Não pode ser!Não!-Falou o guerreiro -Na verdade, aquele falso cacique nem seu pai é. Aquipati sumiu com seu verdadeiro pai, cujo nome era Iora (Guerreiro de Tupã).Ninguém percebeu o sumiço,pois Aquipati construiu toda uma falsa história acerca do sumiço de seu pai.Já a índia que era sua mãe,grávida de Iora,acabou se apaixonando pelo temível Aquipati.Você nasceu três meses depois de sua mãe se apaixonar. E Jandira continuou: -Após seu nascimento, Aquipati começou a demonstrar que queria assumir o comando da tribo. Porém, já havia alguém em tal posto.Espantosamente,no outro dia,o antigo cacique foi encontrado morto no leito do lago,e todos concluímos que ele morrera afogado enquanto pescava.Logo,foi feita uma competição para a escolha de um novo cacique.Como era de se
  11. 11. esperar,Aquipati ganhou a competição e tornou-se o mais novo chefe dos Ariquém. A chefe do clã completou: -Quando o pequeno Cati completara cinco anos nascera no mesmo mês a mais bela de todas as índias: Manauana. A linda indiazinha rendeu alguns longos meses de alegria,até que Jandira nascera em outra maloca,que Aquipati julgou como sendo mais bonita que sua própria filha,por isso deveria morrer.Por vários anos o cacique foi controlado pelo amor em Manauana,mas na semana em que Jandira completou dezoito anos,Aquipati atacou. -Porém, Jandira já sabia de toda essa história e, amparada por nossa corporação conseguiu mantê-la a salvo.Estamos infiltradas em mais de três tribos diferentes,e fazemos a defesa da paz nessas diversas etnias.Autodenominadas C.I.A.(Clã das índias anônimas),trabalhamos sempre à espreita,sem revelar nossa identidade.E é por isso que salvamos Jandira. -As vezes,o anonimato é essencial- Exclamou uma das índias. A própria chefe prosseguiu: -Conseguimos simular um assassinato misterioso de Jandira antes que o mesmo fosse executado por Aquipati. -Mas e o funeral de Jandira?Como vocês conseguiram fantasiar aquela mortalha, o corpo, e enganar todos nós?Tudo estava tão real!-Indagou Cati Jandira respondeu enérgica: -Precisávamos enganar Aquipati,pois só assim poderíamos tramar um golpe.Mas necessitávamos de sua ajuda,então armamos tudo para raptar-te sem que o cacique perceba.Agora que você está aqui,vamos ao que interessa.
  12. 12. As índias levaram Cati para uma sala um pouco maior e mais aconchegante, formando posteriormente, uma imensa roda para tramar um plano que derrubasse Aquipati de seu trono do mal.Começou-se uma centrada conversa para decidirem o futuro do plano.Uma das índias sugeriu: -Certamente, ele deve possuir capangas. -Então, devemos nos atentar para isso e bolar um jeito de capturá-los sem que os outros Ariquéns se machuquem. E permaneceram assim por toda a noite; até que, ao final da reunião, todos os detalhes estavam acertados. A proposta vencedora era a de dar um pequeno susto no cacique, e esperava-se que o mesmo fugisse para sempre da tribo.Porém,sabia-se que seria uma tarefa árdua,e decidiu-se também que as índias lutariam com unhas e dentes para defender o povo Ariquém e a C.I.A.;logo,poderiam utilizar de qualquer artifício para isso. Mas antes,precisava-se descobrir quem eram os anônimos capangas de Aquipati,de quem não se sabia nada até o momento,e Cati ofereceu-se para voltar à
  13. 13. aldeia com esse propósito único.O índio despediu-se das índias anônimas e de Jandira,roubando-lhe singelamente um gracioso e curto beijo.A pura índia corou instantaneamente,mas agradeceu-o com outro beijo,dessa vez um pouco mais meloso e apaixonado,retribuindo toda a sua coragem e destreza,declarando-se para Cati: -Espero encontrar-te novamente na próxima lua minguante,e Jaci há de nos abençoar- A índia parou,curvou-se um pouco para observar a lua, e esticou as mãos em súplica à deusa do amor. Algumas límpidas lágrimas caíram-lhe do rosto, e iluminadas pela luz do luar, apresentavam-se como diamantes. Jandira deu um suspiro profundo, e continuou: - Até breve, meu amor. Que Caapora acampe seus guardiões ao seu lado, pois tenha certeza que ficarei suplicando por ti. Adeus. Cati também buscou algumas palavras, mas foi censurado pelo indicador de Jandira, que, tocando seus lábios, selou toda aquela cena romântica. O índio também se emocionou profundamente, e novamente beijou-a com todo o coração. Naquele momento, emergiu do chão uma névoa gelatinosa, de aparência gasosa, que envolveu o casal que selava sua paixão. A fumaça prateada transformou-se em um escarlate intenso ao circundá-los na altura do coração, e transpassou a carne dos dois, findando-se com uma chuva de minúsculos pontos vermelhos, que retornaram à relva do solo úmido da floresta que se encerrava ali. A alma daquelas duas criaturas havia tornado-se apenas uma, por interseção de Tupã. O casal agora era fruto do amor do deus. Assim sendo, o índio foi embora cumprir sua missão na tribo Ariquém, sendo o único representante masculino da C.I.A., porém deixando parte de si naquele local com
  14. 14. Jandira.Agora, casal era mais um ideal para motivar as índias,que naquele momento estavam em festa. Logo que chegou aos arredores da tribo, Cati podia ouvir os cânticos indígenas e alguns outros sons da aldeia, que se misturavam com os da floresta. Ele tratou de sujar-se um pouco para simular que passara longos dias perdidos na floresta, e não desconfiarem de nada. Ao pisar no solo arenoso, já fora da floresta, na clareira que a tribo se instalara, o guerreiro foi recebido fervorosamente pelos índios de olhares curiosos e agradecidos. -“Tupã havia de ter cuidado desse nosso filho!”Pensou uma das matriarcas da tribo-“Ele nos devolveu-o são e salvo” Do rosto de Cati,caíram lágrimas e mais lágrimas,que traçavam um caminho pela pele barrenta do índio e tornavam a cena ainda mais sentimental.Não havia ninguém ali que não se emocionara com o reencontro do jovem índio com sua irmã Manauana. Mesmo sabendo que ela não era de seu sangue ,Cati retribuiu-lhe todos os carinhos e risadas,lembrando de toda a vida que viveram juntos,e agora sentia-se unido fortemente com ela.Não por sangue,mas por alma. Poucas horas depois, já estava quase ao meio-dia, o céu não guardava nenhuma nuvem, e os dois irmãos de
  15. 15. alma recolheram-se à sua maloca, para acertarem um assunto delicado a respeito de Jandira. Cati contou-a toda a história,desde o início,e confortou-a quando deu a triste notícia de que Aquipati,o pai de Manauana,era um assassino maléfico.A índia corou e deixou rolar mais uma boa quantidade de lágrimas até acalmar-se.Logo,ela já estava decidida a ajudar sua grande amiga,mesmo que isso custasse a vida de seu pai.Pelo menos era isso que ela aparentava naquele momento. Aquipati não estava na tribo há dias, segundo Manauana contou a Cati. Ele saíra para pescar e até aquele momento não voltara. A garota atualizara-se sobre o plano da C.I.A. e prometeu a Cati manter segredo. Posteriormente, os dois saíram em busca dos capangas de Aquipati, mesmo sem almoçar um beiju cozido e alguns Tambaquis assados na folha de banana, pois não queriam perder tempo na procura. Logo que adentraram na densa floresta, uma curiosa formação intrigou a dupla: Em meio às folhas úmidas e à terra da floresta, encontrava-se, além de larvas e alguns outros insetos, um rudimentar relógio de sol feito de bambu. Examinando-se bem, poder-se-ia notar que haviam inscritos ali as iniciais C-O-B-R-A, o que ticou a curiosidade de Cati, que ficou a traquinar certos significados para aquela inscrição, mas foi rapidamente interrompido por Manauana: -Não temos mais tempo, temos que prosseguir!-disse a índia, já arrastando Cati pelo braço. Àquela altura, o índio já conseguira desvendar o “C”de clã e o “A” final de Aquipati, e isso já era prova suficiente para encontrar o clã de seu inimigo; mas guardou essa valiosa informação para si.
  16. 16. Nas redondezas do lago, a dupla ouviu um murmúrio baixo vindo detrás de uma formação arbustiva e Cati foi logo se antecipando a investigar o que era. Cautelosamente, afastou alguns ramos e viu que ali se encontravam três índios, homens, despidos de qualquer adorno, que estavam preparando-se para o banho. Restava-lhes apenas o cocar, cuja aparência imponente lhes conferia o título de bons caçadores. Ao entrarem no leito do rio, retiraram os cocares e Oh!Havia marcado em cada uma de suas cabeças, sem exceção, um relógio de sol inscrito em um círculo que ostentava as iniciais C-O-B-R-A. Com os cocares, até desfarçavam-se as marcas, porém ao retirá-los era visível que suas cabeças nuas estavam ocupadas por estranhas inscrições. Felizmente, Cati carregava consigo quatro agulhas afiadas e embebidas com um sonífero, que com uma precisão felina o índio atirou nos braços dos capangas, que caíram adormecidos no lago.O guerreiro Ariquém aproximou-se e retirou as flechas dos rivais.Agora somente faltava o resto do clã. A mais nova dupla foi logo tratar de adormecer os outros componentes do grupo rival,sempre preocupandose em certificar que não era um índio comum.Cati especializara-se em derrubar os cocares,enquanto
  17. 17. Manauana aplicava nos índios a agulha com o veneno sonífero. Logo,pela tarde, os dois presumiram que já haviam adormecido todos do grupo,exceto o líder,que ainda não aparecera na aldeia desde que saira supostamente para pescar.Agora,faltava voltar à sede da CIA e convocar as índias. Buscando não deixar rastros, eles caminharam mais algumas horas e pelo pôr do sol já estavam debaixo da centenária sequoia onde se situava a organização. Conseguiram explicar sucintamente o que ocorrera e como liquidaram os rivais,capangas de Aquipati. Mas havia um empecilho: Onde estaria o chefe do grupo?Por que ele sumira por tanto tempo? Atentando-se a isso,as índias,Manauana e Cati prepararam-se para invadir a tribo e capturar Aquipati.Elas agruparam-se em grupos de dez,e pintaram os rostos com tinta de vagalumes púrpuros(Dando aos mesmos uma coloração vermelho vívida e superbrilhante no escuro).Logo,Cati descobrira o segredo dos olhos vermelhos. Jandira vestiu-se de alvo,para passar-se por um espírito enviado de Tupã e Cati armou-se com um arco de jequitibá preciso e várias flechas embebidas com veneno. A silenciosa floresta as guardaria,e em breve acabarse-ia o império de Aquipati.Já era hora da lua cheia quando os grupos de combatentes da CIA apontaram sobre os ramos da enorme seringueira sagrada próxima ao rio.Em posição de ataque,de cócoras e pouco curvadas como um cágado,pareciam centenas de minúsculos vagalumes dançantes em acasalamento,em um frenesi incessante que seria quase que uma valsa mórbida. Foi Jandira quem dera a ordem para avançarem, soltando um pio digno do mais belo rouxinol de toda a
  18. 18. floresta. As índias avançaram silenciosamente, sorrateiras e ariscas como um legítimo puma, e de início não encontraram resistência de ninguém da tribo. Era de se estranhar que o local parecia um cemitério de almas, pois além da fúnebre luz da lua que precariamente iluminava o local, não se escutava nenhum movimento, não havia ventos, e muito menos água flutuando vaporizada no céu, que estava límpido e um pouco violeta. A floresta parecia ter parado para acompanhá-las naquela missão. Prosseguiram por mais alguns metros,entretanto,ao passar pela maloca do cacique,um grupo composto de quatro ou cinco índias foi surpreendido pelo próprio Aquipati,que parecia ter emergido das trevas para atacálas,junto com mais três capangas,que acabaram por imobilizá-las e posteriormente degolá-las.O insólito barulho que foi produzido pelo rompimento dos ossos à altura do pescoço foi suficiente para alertar as outras combatentes da CIA,junto com os capangas de Aquipati,que saíram das ocas aos montes e bufando assim como búfalos. Curiosamente, nenhum deles era da tribo Ariquém, e exceto por Aquipati, Jandira, Cati e Manauana, mais ninguém era daquele local, provando assim a influência do maléfico cacique sobre as tribos da região. Aliás, Manauana também sumira naquele momento. Com unhas e dentes, Jandira e suas companheiras de clã lutaram para se defender, e apesar de não estarem em menor número, ao final de dez minutos de luta, a metade das mesmas já haviam padecido com flechas cravadas nas costas, algumas com costelas saindo pelo ventre, outras com ferimentos profundos no pescoço e cabeça, revelando assim tamanha brutalidade demoníaca por parte dos capangas de Aquipati.A batalha tornara-se uma total carnificina para os dois lados,contudo.Muitos combatentes inimigos também dormiam o sono eterno
  19. 19. pisoteados,mortos com flechadas no peito,no meio dos olhos,ou agonizavam com o veneno da Orquídea da morte aplicado com minúsculos espinhos pelas índias da CIA. Enquanto isso,um grupo pequeno(cujos integrantes eram somente Cati e mais três índias)avançava rapidamente por entre aquela batalha mortal.Finalmente,alcançaram a maloca de Aquipati,donde o mesmo controlava,assentado naquilo que chamou de trono,feliz com tudo aquilo que acontecia. Os olhos de Cati brilharam cada vez mais fortes e vermelhos,quase da cor do próprio sangue.Àquela altura,a tinta dos vagalumes já saíra com o suor que descia de seu cabelo.Ao chegar de encontro ao temível cacique,o guerreiro Ariquém já reunia uma força exorbitante,tanto que conseguira em um só golpe afastar dois capangas de Aquipati que o impediam.Enfim,estava cara-a-cara com o monstro. -Que lindo o salvador Ariquém, sua coragem me impressiona-disse Aquipati, sarcástico. Ao mesmo momento em que falava, o denominado rei Aquipati retirava de cima de uma mesilha ao seu lado um arco de cedro e mais um conjunto de flechas com as pontas púrpuras de veneno.Armou uma delas no arco e lançou-a,que o índio guerreiro tratou de se esquivar.Porém,imediatamente uma saraivada de dezenas de outras flechas flamejantes furaram o teto de palha da maloca e uma delas acabou por acertar Cati,que já mirava à esquerda do peito do rival.A seta do salvador também foi lançada e atingiu de raspão bem na orelha de Aquipati. Por outro lado,Cati não tivera a mesma sorte. Do outro lado da tribo,Jandira sentia um extremamente desconfortável aperto no coração,que batia cada vez mais rápido.Ela sentiu que algo de errado
  20. 20. sucedia-se com Cati e estava disposta a salvá-lo nem que fosse com a sua própria vida.Instaurava-se ali a mais desesperada luta pelo amor de todos os romances,que infelizmente ainda não tinha desfecho certo,e o mesmo ainda pendia para o lado ruim. Jandira correu o máximo que podia,ao mesmo tempo que um grito ensurdecedor foi ouvido na direção da maloca de Aquipati. -Cati!!!!!!!!!!-gritou Jandira,tropeçando em suas próprias lágrimas Agora era questão de vida ou morte. Curiosamente, Cati não foi atingido com gravidade por todo aquele mar de flechas. Mas instantaneamente zuniu cortando o ar como uma verdadeira bala uma única e solitária flecha, disparada por um arqueiro desconhecido, que fugira assim que soltara a corda de disparo. De tão rápida, quase à velocidade do som, a flecha não foi sentida por ninguém até que alcançasse o alvo: Cati. Em um momento, o índio encontrava-se são e salvo, um segundo depois, havia uma flecha envenenada cravada em seu peito. O jovem caiu com o impacto.
  21. 21. Jandira aumentou o volume de lágrimas a rolar de seus olhos assim que viu seu amado naquele estado. Aquipati olhava aquilo tudo com tamanho gosto e afeito que quase aplaudia o drama teatral que fora formado. O chão de Jandira estava prestes a desabar com a dor que Cati sofria, revelada pelos espasmos que ele sentia e pelo agonizante choro que os mesmos provocavam. Agora, menos de um minuto depois, chegariam mais índias ao local para tentar algum socorro ao índio, mas acreditava-se veemente que poucas chances lhe restavam. As lágrimas de Jandira misturavamse ao sangue que incessantemente jorrava da ferida aberta no peito do índio, o que agora se tornava uma solução lúgubre e mortificante, com um aroma pouco agradável. Mas isso pouco importava para Jandira perante a vida de seu amado, e de sua boca somente saiam sonoros “Eu te amo!”, saídos com clamor do fundo do coração da índia. Agora, ela já o beijava fervorosamente, mas não obtivera nenhuma resposta por parte do índio, que continuava a agonizar no chão. Somente lhe restara um último pulsar. E faleceu nos braços de sua amada. Ouviu-se então uma tensa gargalhada fúnebre que dirigia-se à Jandira,e posteriormente uma voz que ecoou: -Que pena amorzinho, tão bonito, forte e viril, jovem, e alguém tão cruel tira-lhe a vida!-pausou-se por um momento. Agora já se poderia ver uma simples e difusa silhueta feminina, que se aproximava e continuara a falar É interessante como choras por alguém que amas. Ah!Ò amor, como és inútil. Jandira agora ficara corada de raiva, e foi preciso segurá-la para a mesma não avançar contra o
  22. 22. vulto que emergia da escuridão. Mais lágrimas rolaram de seu rosto. Agora, a mulher oculta pelas sombras começava a aproximar-se rápida e ferozmente, com todo o ódio que despejara na flecha que atirara em Cati dobrado para liquidar com sua rival. “Se eu não posso tê-lo,que ninguém mais possa ser feliz por ele”,pensou a maligna mulher. A guerreira ariquém estava provocando Jandira a ponto de a mesma abandonar tudo o que estava acontecendo naquele momento para refurtar as palavras daquela assassina. Ela havia se esquecido de tudo. Seus amigos, família,da própria tribo,mas não conseguia parar de pensar em seu amor,que desfalecia no chão.Pensou em correr,escapar,mas parecia que o chão a prendia ali,par que ficasse e acabasse com o mal pela raiz. Aquipati assistia a tudo fervorosamente, quase aplaudindo a encenação. O resto da tribo esperava aflita o suceder dos fatos. Não queriam interferir naquela luta que se travara. As adversárias se encararam. A floresta parou para ouvi-las. Instaurou-se um silêncio mórbido no local. Parecia que o próprio Tupã despertara de seu sono somente para acompanhar tudo. Agora, formava-se um círculo de centro situado no copo de Cati. Elas pareciam competir pela alma do índio, que já jazia morto no chão. Foi Jandira que avançou primeiro. Ela necessitava saber quem era aquela mulher que se escondia nas sombras, e não podia esperar mais.Armou-se somente com os punhos e os dentes e foi ao combate,cravando logo uma dentada nos ombros da rival,que caiu no chão,surpreendida com o rompante de Jandira.Ao caírem atracadas no chão,as duas levantaram uma nuvem densa de poeira,que impossibilitava os
  23. 23. presentes de verem o rosto da assassina,idem a situação de Jandira. A oculta índia reagiu, mesmo com o ombro direito jorrando sangue, conseguiu desferir um soco no rosto de Jandira, desequilibrando-a e golpeando-a com a ponta de uma flecha. A guerreira desabou marcando o fim da batalha. A nuvem de poeira ainda não se dissipara. De relance, via-se que a dupla assassina comemorava seu feito com fervor, orgulhando-se do que havia feito. E estava feito. Jandira desabara bem ao lado de Cati,não morta,mas desacordada por hora. A nuvem de poeira persistia. A nuvem de poeira persistia. A nuvem de poeira persistia. Passados mais alguns segundos, ouviu-se a batida fervorosa de um coração incessante. UM não: DOIS! Algo agarrara a índia oculta pela poeira e a derrubara, fazendo-a cair e bater com a cabeça. A nuvem de poeira começava a se dissipar. Mais sangue agora coloria o chão de púrpura, misturando-se á poeira,que baixava cada vez mais.Da poeira,surgia uma cena nem um pouco agradável,quase catastrófica,a não ser por um fato inédito. Jandira jazia morta no chão, com a mão esquerda rigidamente agarrada ao tornozelo de Jandira e o rosto petrificado com uma expressão mista de dor, tristeza e paz. Dor por ter que sofrer tanto por Cati,tristeza por tudo ter que acabar assim e paz por estar ao lado de seu amor. Sua outra mão repousava sobre as mãos geladas de Cati,que também estava morto,porém com uma expressão menos aterrorizante que a de MANAUANA,que também encontrava-se dentre a lista dos mortos,com as mãos de Jandira presas em seu corpo,revelando assim que ela,a
  24. 24. irmãzinha de Cati o matara e depois Jandira,acabando de vez com os planos de Tupã para os dois.Seus lábios travaram-se em um “O” bem visível,que revelava estar surpresa segundos antes de morrer e seus olhos estavam visando um infinito estrelado que ela nunca mais chegaria a ver. Mas Aquipati ainda reinava nobremente em seu improvisado trono de madeira,mas por pouco tempo.Naquele instante,todas as atenções voltaram-se para a imponente maloca onde o falso cacique apreciava tudo,mas as mesmas foram atraídas por um grito de espanto proferido pelo próprio Aquipati: -Mas como? E de trás de seu trono, emergiu Iora, o verdadeiro pai de Cati; velho, mas com toda a vitalidade de um jovem, para desferir um golpe certeiro que acabara por acertar Aquipati bem no coração, fazendo-o cair morto no chão. Agora haviam mais quatro mortos acrescentados ao saldo final. Contabilizava-se as vidas perdidas para tentar salvar a aldeia Ariquém do maléfico Aquipati,incluindo Cati e Jandira,o casal que seria lembrando para sempre como os salvadores do povo das florestas.Tupã os acolheria em seus braços e todos os dias eles estariam lá no céu,juntos,brilhando e intercedendo por nós,pedindo-nos proteção,nos guiando.Junto deles,todos os outros da aldeia Ariquém,formando uma linda constelação denominada Anhum,em homenagem a todos que morreram pela vida da tribo. Certamente que muitos e muitos anos mais se passariam na vida daquela tribo:Iora morrera de causas naturais.Aquipati fora substituído por outro cacique,que regia sabiamente a tribo.Guanani deixara o posto de pajé para seu primogênito,que sabia como ninguém as artes da cura e do amor.
  25. 25. Aliás,foi o amor que uniu os dois principais personagens dessa história,e é ele quem rege o universo,pregando às vezes peças que nem ao menos imaginávamos.Quando olhares para o céu e veres que uma estrela brilhas ao seu olhar,saiba que Cati e Jandira estarão lá intercedendo por você,até que seja dado seu ÚLTIMO PULSAR de vida.

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