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I.M.T.
Instituto de Medicina Tradicional



     Medicina Ayurvédica


      Docente Michele Pó




  Os Gunas e a Mente




        Nádia Furtado
             3ºA
Índice
Introdução ..........................................................................................................................................4
História do Ayurveda ..........................................................................................................................8
Os Doshas .........................................................................................................................................11
Os Gunas ..........................................................................................................................................13
Os Gunas e a Mente .........................................................................................................................23
Métodos de Tratamento ..................................................................................................................26
Conclusão .........................................................................................................................................35
Bibliografia .......................................................................................................................................38
Introdução

     A terapia Ayurvédica é uma medicina complexa e completa que
engloba processos terapêuticos, como a massagem ayurvédica, óleos
medicinais, dieta, rotina diária de hábitos saudáveis, oleação e sudação,
fitoterapia, terapias purificadoras (panchakarma), medicamentos com
metais, minerais e pedras preciosas (rasa shastra), recomendação de
actividade física, prática de yoga e meditação. São utilizados diversos
métodos (massagens, óleos, ervas,
entre outros), com o propósito de
estimular o corpo, evocando uma
sensação de bem-estar e visando o
retorno à homeostasia corporal,
auxiliando na cura, aliviando dores e
prevenindo doenças. Não deve ser
vista apenas como uma Medicina,
mas também como uma Ciência que
ensina a viver em Harmonia.
     O termo sânscrito Ayurveda é
uma combinação de duas palavras:
ayu (vida) e veda (conhecimento). A tradução literal de Ayurveda é
“conhecimento da vida”, a parte de todo um conhecimento sagrado que
prima pela consciência, sendo os seus princípios aplicáveis
universalmente. É um sistema holístico de medicina que surgiu na Índia,
cujo conhecimento evoluiu a partir da “iluminação” prática, filosófica e
religiosa dos Rishis (seres antigos realizados, ou videntes da verdade),
que através da intensa meditação alcançaram o conhecimento do nível
subtil e manifestaram esse conhecimento na sua vida diária. Preconiza
que a responsabilidade perante o estado de saúde geral do indivíduo
pertence ao próprio, sendo ele o agente restaurador do seu bem-estar,
pela introdução de hábitos alimentares equilibrados e cuidados com o
corpo, a mente e o espírito. Através do equilíbrio apropriado de todas as
energias do corpo, os processos de deterioração física e doença podem
ser reduzidos, promovendo-se a capacidade de auto-cura individual.
      A essência da compreensão do sistema ayurvédico está na
compreensão do prana (pra = antes; ana = sopro força vital, Qi). Nasce
↔ do substrato da consciência pura com inteligência (agni) e amor
(soma); juntos criam a consciência individualizada. No corpo humano
existem cinco pranas principais:
      Prana
      Apana
      Samana
      Udana
      Vyana
      Nascem do prana cósmico e do Guna rajas (qualidade, atributo da
inteligência).
Prana é também um dos principais pranas do corpo, também chamado
de sopro exteriorizante, que reside na cabeça e no coração. Não existe
nada mais subtil no corpo humano do que o prana. Dá força e poder à
mente e ao corpo e está intimamente ligado à alma.
      Na Ayurvédica manifesta-se sob a forma dos três humores (forças
que equilibram os cinco elementos no corpo): vata (vento), pitta (fogo)
e kapha (água).
      As terapias em Ayurvédica podem ser classificadas em dois
grupos: Brimhana (terapias de fortalecimento) e Langhana (terapias de
redução). As terapias de fortalecimento têm como propósito aumentar
as forças do paciente, sendo por isso bastante simples. No que diz
respeito às técnicas de redução, já são um pouco mais complexas, e
normalmente são aplicas antes das técnicas de fortalecimento de modo
a preparar o organismo para a regeneração.
O conhecimento Ayurvédico baseia-se nas escrituras mais antigas
do mundo, as escrituras védicas, que remontam a 3000 a.C. Nos anos
700 a.C. o Maharishi Caraka, que viveu na região de Punjab, escreveu a
primeira escritura sobre a Ayurveda, o Caraka Samhita e nos anos 600
a.C. o Sushrut escreveu Sushrut Samhita. De acordo com os Vedas, a
vida é vista como uma evolução do princípio criativo, Prakriti.
     Segundo a escola Ayurvédica Charaka, Ayur é composto por
quatro partes essenciais: é uma combinação da mente, corpo, sentidos
e alma. A mente e o corpo actuam em conjunto, de maneira a que o
sistema fisiológico se mantenha em equilíbrio.
     Os principais textos autorizados são os compêndios clássicos
conhecidos como “Brihat Trayi” ou o grande trio: Caraka Samhita (é o
texto mais antigo da literatura médica indiana, escrito por Caraka, que
revela os ensinamentos de Atreya para o seu pupilo Agnivesa), Susruta
Samhita (compilação dos ensinamentos do sábio Dhanvantaria e foi
escrito pelo seu discípulo, o médico Susruta. É, na sua essência, um
tratado de cirurgia) e Astanga Hridayam (coração dos 8 ramos do
Ayurveda de Vagbhata; contém a essência e a filosofia do Ayurveda).
Os Vedas são compostos por quatro textos:
      Rig Veda
      Yajur Veda
      Sama Veda
      Atharva Veda
     Rig Veda é o mais antigo dos Vedas e consiste em mais de 1000
hinos, sendo que todos os outros Vedas se baseiam nele.
Sama Veda consiste na transformação de vários hinos do Rig Veda em
cânticos. Representam o êxtase e a bênção da auto-realização. Por
exemplo, se Rig Veda é o passo, Sama Veda é a dança; se Rig Veda for
a palavra, Sama Veda é a compreensão.
Yajur Veda relaciona-se com diversos rituais e sacrifícios do yoga no
sentido da purificação da mente e do acordar da consciência.
Atharva Veda é o último dos Vedas, sendo por isso considerado o mais
recente dos quatro Vedas. Contém cânticos e encantamentos para
apaziguar os deuses e mantras para afastar o mal, o azar, os inimigos e
a doença.
     Cada um dos quatro Vedas é dividido em duas partes distintas: o
mantra, oração e louvor, e o brahmana, que contém as directrizes para
as cerimónias, nas quais os mantras são utilizados.
Existem ainda as divisões de especialidades do Ayurveda, que surgem
ainda nos Vedas:
      Kayachikitsa - Medicina Interna
      Salakya Tantra - Ouvidos, nariz, garganta, olhos, boca e dentes
      Agada Tantra – Toxicologia
      Kaumara bhritya ou Bala Tantra – Pediatria, embriologia e obstetrícia
      Salya Tantra – Cirurgia
      Bhuta Vidya – Psiquiatria
      Vajikarana Tantra - Afrodisíacos e medicina reprodutiva
      Rasayan Tantra - Longevidade e revitalização terapêutica
História do Ayurveda


      A civilização mais antiga de que se tem notícia é a de Harappa,
que surgiu por volta de 3000 anos a.C. e a sua cultura dominou o Vale
Hindu durante, aproximadamente, 1500 anos. O povo de Harappa
construiu grandes cidades - como Mohenjo-daro - com ruas
pavimentadas, aquedutos, casas de banho públicas e enormes sistemas
de drenagem. O sistema de saneamento era tratado com uma atenção
especial, o que levou à conclusão que existia também um sistema
médico, apesar de não haver evidências, à excepção do facto daquele
povo recorrer a substâncias que classicamente são utilizadas no
Ayurveda.
      A civilização de Harappa desapareceu há cerca de 1500 anos a.C.
provavelmente devido a desastres naturais, mas também pelas invasões
frequentes dos nómadas da Ásia Central. Trouxeram consigo os Vedas,
os seus antigos livros que continham toda a sabedoria e rituais de
sacrifício. Do mais recente dos Vedas, o Atharva Veda, desenvolveu-se o
Ayurveda, donde se originaram 6 grandes tratados médicos, entre eles o
Charaka Samhita (tratado de medicina interna) e o Sushruta Samhita
(tratado de cirurgia), escritos inicialmente com o intuito de treinar
médicos para tratarem de reis e princesas. O Ayurveda já estava
                                     bastante desenvolvido no tempo de
                                     Buda 563-483 a.C.), mas a
                                     medicina ayurvédica viveu uma fase
                                     grandiosa pois o próprio Buda era
                                     um grande incentivador da sua
                                     prática e do seu estudo. O grande
                                     desenvolvimento desta ciência
médica decorreu também de interesses
políticos, uma vez que nesta época a saúde do rei reflectia a saúde do
Estado, assim os serviços do médico real eram essenciais para a
manutenção da estabilidade política.
      No século III a.C., Ashoka, imperador sanguinário do norte da
Índia, converteu-se ao Budismo e, incentivado pelos ensinamentos de
Buda, construiu hospitais de caridade, com sectores de cirurgia,
obstetrícia e problemas mentais, por todo o seu reino, não somente
para seres humanos, como também para animais. Além disso, enviou
missionários para países vizinhos, o que ajudou muito a difundir ainda
mais o Budismo e o Ayurveda.
      Durante os dois reinados posteriores, houve grande incentivo à
medicina, na medida em que o governo construía hospitais e
maternidades e punia charlatães que tentavam praticar medicina sem
permissão imperial.
      Toda essa Era foi intelectualmente fértil. Os budistas apoiavam
todas as formas de aprendizagem: construíram verdadeiras
universidades onde eram ensinados, além do Budismo e da ciência
védica, muitas outras áreas, como a história, gramática e literatura
sânscrita.
      A Era de Ouro acabou entre os séculos X e XII, quando o norte da
Índia sofreu repetidas e violentas invasões dos muçulmanos,
assassinando monges budistas, destruindo universidades e queimando
bibliotecas. Aqueles que conseguiram escapar fugiram para o Nepal e
para o Tibete levando poucos textos ayurvédicos sendo alguns destes
preservados hoje apenas na tradução tibetana. Os conquistadores
muçulmanos trouxeram para a Índia o seu próprio sistema médico, mas
o Ayurveda mesmo assim permaneceu. No século XVI, Akbar, o maior
imperador mongol, ordenou que todo o conhecimento médico indiano
fosse compilado, contribuindo ainda mais para a preservação do
Ayurveda.
      Durante os séculos XVI e XVII, quando foram abertas as rotas
para o Oriente, os europeus, além de levarem novas doenças para a
Índia, como a sífilis, desferiram golpes que foram quase fatais para o
Ayurveda, difamando a sabedoria tradicional, fazendo o povo acreditar
que ela seria causa de atraso no desenvolvimento da Índia. O resultado
foi que, após 1835, somente a medicina ocidental tinha reconhecimento
legítimo nas possessões inglesas. A cultura e a medicina indianas foram
activamente desencorajadas entre o próprio povo indiano.
      No início do século XX, com a ascensão do nacionalismo indiano, a
arte e a ciência indianas ressurgiram e o Ayurveda voltou a renascer.
Actualmente é um dos seis sistemas médicos reconhecidos na Índia.
      De acordo com o Ayurveda, os seres humanos são compostos por
três corpos ou aspectos físicos: físico, subtil e causal, ou seja, corpo,
mente e espírito. O sistema de saúde ayurvédico afirma que a saúde
consiste no funcionamento harmonioso das três partes desta trindade.


      Segundo Charaka Samhita, um indivíduo saudável é aquele que
preenche as seguintes condições:
            Equilíbrio perfeito dos tridoshas
            Funcionamento correcto dos tecidos, dhatus, do corpo
            Quando os malas (urina, fezes e transpiração) são
            produzidos e excretados em quantidades normais
            Quando os canais, srotas, do nosso corpo fluem
            regularmente
            Quando o agni (fogo digestivo) se encontra estimulado e o
            apetite é normal
            Quando há um perfeito funcionamento dos cinco elementos
            Quando o corpo, a mente e a consciência estão em
            harmonia e o indivíduo reflecte plena felicidade
Os Doshas


     Segundo Chandogya Upnishada, “a essência de todos os seres é a
terra, a essência da terra é a água, a essência da água é a planta e a
essência da planta é o ser humano”. Como na semente existe a árvore,
no ser humano existe a inteligência cósmica. Por exemplo, uma semente
podre nunca pode se tornar uma árvore, logo um corpo doente também
não pode atingir a harmonia com natureza e, sem isto, não se pode unir
com a supra consciência. Um corpo que aparentemente pareça são,
psiquicamente pode estar doente e no futuro esta doença com certeza
vai aparecer no plano físico. Ayurveda não só trata o corpo holístico ou
psicofísico mas, vai muito além disto para desvendar os segredos mais
íntimos da natureza, a fim de preparar o ser humano para unir-se com a
supra consciência. Ensina que estar com a saúde é normal e natural
mas, estar doente é anormal.
     A Medicina Ayurvédica afirma que tudo no universo é formado
pelos cinco elementos básicos da natureza, são designados de
panchamaha-bhutas,: éter, ar, fogo, água e terra. Eles manifestam-se
no corpo humano como três forças, forças essas que são designadas
como forças invisíveis cujos efeitos são observáveis. O objectivo desta
ciência é estudar as influências destes elementos na natureza e no ser
humano. Os elementos unem-se dois a dois para formar os chamados
humores biológicos, os doshas, que actuam na nossa fisiologia assim
como na formação dos desequilíbrios psicofísicos.
     Os doshas são vata (vento), Pitta (bílis) e kapha (fleuma) e
actuam como componentes básicos e barreiras de protecção para o
corpo na sua condição fisiológica normal, sendo que quando existe um
desequilíbrio, eles contribuem para o processo de desenvolvimento da
doença.
Segundo os gregos, os quatro humores biológicos (doshas)
determinavam as qualidades físicas e mentais da pessoa, e as variadas
características do homem eram explicadas pelos temperamentos
provocados pela mistura de elementos presentes nele.
      “O equilíbrio harmonioso dos três humores é essencial para a
manutenção do bem-estar físico e mental. Enquanto os três estiverem
em equilíbrio, o organismo digere de modo adequado, a respiração
ocorre devagar e tranquilamente, o trabalho fluí com facilidade, e
o crescimento e desenvolvimento seguem o seu curso natural e
benéfico. Mas havendo um distúrbio em qualquer um desses humores, o
organismo desequilibra-se. A dor e a doença são um resultado
inevitável.” “Dhanwantari”, Harish Johari
      Os três humores biológicos espiritual e mental da existência,
expressam-se por meio do corpo físico. vata é responsável pelo
movimento que ocorre no corpo e na mente. Pitta controla as
transformações no organismo, tais como assimilação dos alimentos, da
luz e de dados sensoriais. E kapha é quem estabiliza o ser vivo.
      Vata é comunicação, criatividade,
medo e instabilidade. É frio, leve, seco,
móvel e rápido, e actua principalmente
nas funções excretória e nervosa. vata
desequilibrado ou patológico gera um
quadro clínico relacionado com o aumento
de espaço e ar (movimento) no nosso
corpo físico: secura, perda de peso,
inquietação, gases, prisão de ventre,
ansiedade, depressão e insónia.
Fibromialgia, artrose, dores em geral,
problemas de coluna e cefaleias são
doenças relacionadas com o dosha vata.
      Pitta é inteligência, vitalidade e eficiência. É quente, oleoso e
actua principalmente na função metabólica e digestiva. O desequilíbrio
de Pitta gera um quadro clínico relacionado com o aumento de fogo e
água, ou seja, calor e humidade, traduzindo-se em azia, calores
abdominais, aumento de sudorese, pele sensível e
irritabilidade/agressividade. Algumas doenças relacionadas com o
desequilíbrio de Pitta são: gastrite, úlcera digestiva, diarreia e acne,
entre outros.
      Kapha é estrutura, segurança e letargia. É pesado, frio e lento e
actua na função estrutural e na lubrificação dos tecidos. Em
desequilíbrio gera um aumento de água e terra no nosso corpo físico, ou
seja, aumento de peso, lentidão, preguiça. Obesidade, diabetes mellitus,
aumento de colesterol, bronquite e alergias respiratórias são algumas
doenças que estão associadas ao desequilíbrio de kapha.
      As proporções dos doshas na constituição humana produz as
diferenciações orgânicas de indivíduo para indivíduo. Cada um nasce
com um ou outro dosha de forma mais predominante e que geralmente
permanece assim durante toda a vida, sendo que os desequilíbrios de
uma condição normal são manifestados por doenças.




Os Gunas


      Todo o Universo é uma manifestação da Inteligência Suprema, em
que elementos subtis se tornam, gradualmente, mais densos e materiais
para explorar diferentes possibilidades de acção e experiências. Tudo o
que existe faz parte de um jogo de energias, onde cada elemento que
existe está ligado a outros, influenciando-se mutuamente, e sendo
influenciado, também, por forças que regem o Universo.
     Tudo o que existe, não existe de uma forma independente e
individual. Há sempre elos que fazem a ligação directa entre cada
objecto, tais como o ser humano não conseguir viver sem o ar e o ar
existir devido à formação de um manto de gases proporcionado pelos
processos envolventes da Terra.
     Dentro de cada ser existe o Purusha, o Observador, aquele que
tudo vê. Ele é o estado de verdadeira consciência, a consciência pura.
Paralelamente, existe Prakriti, o primeiro poder de acção, a natureza
primordial, a essência não manifesta que guarda o potencial de tudo o
que possa vir a existir. Tudo o que pode ser observado é Prakriti, pois é
a manifestação do poder criativo de Purusha.
     Prakriti é a fonte primordial dos seres que pode ser comparada a
uma árvore invertida, cujas raízes estão para cima e o tronco e ramos
para baixo. A parte da árvore que está oculta da percepção sensorial
humana é a parte da raiz, mool-prakriti, e é dessa raiz que nasce toda a
criação. Mool-prakriti é o estado de completo equilíbrio. Prakriti não tem
género, identificação ou forma, ou seja nele a natureza é indiferenciada,
está além de todas as percepções sensoriais humanas.
     É através de Prakriti e das suas manifestações que vivenciamos o
mundo material e trabalhamos para desenvolver a nossa consciência e
atingir o entendimento da nossa verdadeira natureza, que está
intimamente ligada à Consciência Suprema. Consoante evoluímos nessa
aprendizagem, caminhamos de modo inverso ao da materialização,
cessando a identificação com o que é observável, ou seja, as
manifestações de Prakriti: o nosso corpo, mente, estados emocionais,
entre outros. Assim, ao nos identificarmos com a Consciência Pura,
Purusha, nós nos conseguimos libertar das perturbações inerentes à
natureza material. Retornamos então à nossa verdadeira natureza.
Os Gunas são o potencial de diversificação de Prakriti. Os Três
modos ou três Gunas, podem ser traduzidos como “algo que junta”,
“laço”, e são eles sattva, rajas e tamas. A Prakriti é composta por essas
três qualidades. Os Gunas coexistem e dependem uns dos outros,
tentando dominar-se mutuamente, apesar de terem qualidades opostas.
Eles são as qualidades primárias e omnipresentes de todas as
substâncias existentes no Universo. Tudo o que existe no mundo
material não são mais do que combinações diferentes destes três
estágios, o que faz com que estas forças medeiem toda a criação
material.
      No primeiro estágio de Prakriti, no estágio de unidade
indiferenciada, a existência apenas assume as frequências mais puras e
elevadas. Tudo nesse estágio é sattva, essência.
      Quando se inicia a vibração da Consciência Suprema se inicia, origina-se
espaço, éter. É a partir do espaço que a criação do mundo material tem início.
Começa então o movimento de espaço e Prakriti sai do seu equilíbrio, tendo
então início a acção dos Gunas. O movimento gera um impulso
                               descendente, do subtil para o denso, dando-
                               se a criação do mundo material. À medida
                               que as correntes de espaço são geradas, um
                               bloqueio no seu fluxo é desenvolvido à
                               medida que uma corrente se gera sobre si
                               mesmo. Esta obstrução de fluxo do espaço é
                               designada por tamas.
                                      tamas é a causa primordial da criação,
pois não havendo qualquer impedimento, as frequências sattvicas nunca
começariam a descida do subtil ao denso.
A presença de tamas quebra a uniformidade do fluxo de espaço,
formando um circuito independente. Este circuito fechado formado a
partir das frequências de mool-prakriti denomina-se de “ovo dourado” -
hiranya garbha.
     Enquanto prakriti se encontra inerte, não existe nada para além
de sattva puro. Mas a geração de espaço cria o movimento, e uma vez
activado, a energia flui de cima para baixo, do subtil para o denso,
criando correntes de energia.
     Por si só, os Gunas estão além da percepção, sendo apenas
notáveis os efeitos das suas acções. É análogo à observação de uma
pessoa. Quando olhamos para uma pessoa apenas vemos o seu corpo,
corpo esse que ao longo dos tempos vai sofrendo diversas modificações,
amadurecendo e decaindo. Porém, há um permanente senso do “eu”
que nunca muda, que perdura além da natureza mutável da forma. É
esse “eu” que constitui a essência de uma pessoa – esse “eu” nunca é
visto. O mesmo acontece quando tentamos ouvir uma pessoa. O que
ouvimos é apenas um conjunto de vibrações produzidas por moléculas
de ar, pois o som interno da pessoa, o seu próprio ciclo rítmico existe
além das mudanças dos sons externos produzidos pelas mesmas e que
não pode ser ouvido.
     Também não conseguimos sentir o cheiro característico de outra
pessoa. Apenas sentimos o cheiro das substâncias químicas,
provenientes da alimentação e de outros compostos, que estão a ser
exaladas pelo seu corpo.
O que experimentamos das outras pessoas é o efeito, a manifestação
densa dos seus seres. Tudo o que extraímos dessa pessoa é o efeito
exterior de um processo causal interior que está a acontecer naquele
determinado momento.
     Assim, também a forma real dos Gunas não pode ser conhecida
por meio dos sentidos, apenas pelo efeito das suas inter-relações – a
sua maya.
Gelo, líquido e vapor constituem três manifestações de uma
substância essencial, a água. No estado líquido, a essência da água
consegue fluir livremente de acordo com o sítio onde se encontra. No
estado sólido, essa essência perde todo o seu movimento, ficando
confinado a uma determinada forma e posição. Já no estado de vapor, a
essência está mais próxima da sua verdadeira natureza, uma vez que
preenche qualquer ambiente em que se encontre e percorre caminho em
todas as direcções.
       A água, na sua forma líquida, é o modo rajasico da essência, o
estágio de transição entre gelo e vapor, e vapor e gelo. Para ambos se
tornarem um no outro têm que primeiro se tornar em água. Portanto, o
gelo é a forma tamasica da essência, a forma mais delimitada pelo
espaço e pelo tempo, e a forma na qual o movimento das partículas
individuais praticamente cessou. Por último, o vapor é a forma sattvica
da essência, pois ele escapa dos limites da gravidade e da forma, e se
dispersa no espaço.
       A ignorância é o caminho da evolução. A evolução flui nas trevas
da ignorância e, nessa ignorância, o ilimitado torna-se limitado,
pensando ser ele próprio um corpo limitado. Essa é a estrutura da
árvore de prakriti. Das raízes invisíveis surge o sentimento de
individualidade, o ego. O ego, por sua vez, cria os cinco elementos
sensoriais com os quais criará o mundo das formas e dos nomes. Depois
surge a mente e, com ela, os cinco órgãos sensoriais e os cinco órgãos
motores. Por fim, o próprio corpo físico. O fruto da árvore de prakriti é o
nascimento, a maturação e o desfrute; o sabor do fruto é o prazer e a
dor.
       De sattva puro, a consciência se tornou activa (rajas) e encontrou-
se impelida para baixo até à limitação (tamas) da forma individual. A
consciência tornou-se delimitada pela forma, obedecendo às leis e
princípios que governam o reino dos nomes e das formas. Os três Gunas
e os cinco elementos (éter, ar, água, fogo e terra) constituem o
ashtadha prakriti, a natureza óctupla da realidade manifesta. Tudo o
que existe no mundo dos sentidos não passa de um jogo de elementos,
dirigido pela sempre mutável interacção dos Gunas e vivido pela
Consciência Una – o si mesmo.
     Os Gunas podem ser vistos como três cordas coloridas que
formam uma trança. Às vezes uma cor é aparentemente mais
dominante, mas observando o conjunto todo vemos que essa
dominância é apenas uma ilusão – todas as cores estão presentes, só
que às vezes uma oculta a outra da nossa visão. Elas não são três
entidades distintas, mas sim três formas de uma mesma existência. Um
ajuda o outro a evoluir e agem juntos, em coerência mútua, e estão
presentes em todas as coisas, mas em proporções variadas.
     sattva é capaz de produzir luz, rajas tem o poder de dar energia e
tamas é a fonte de resistência, dos obstáculos e obstruções.
     Os Gunas tentam dominar-se uns aos outros sucessivamente.
Quando sattva predomina todos os sentimentos de inspiração para a
realização de alguma acção, bem como o apego desaparecem.
Desaparece toda a inspiração para o trabalho e toda a ignorância. Não
há qualquer vontade. Tudo o que permanece é luz e tranquilidade.
Quando rajas domina há um grande ímpeto de energia e um grande
desejo de realizar projectos. A acção é o modo dominante. Quando
tamas domina, a pessoa sente preguiça e apego, apenas existe a
vontade de permanecer quieto, no mesmo sítio.
     “sattva, sozinho seria apenas uma ideia não concretizada, rajás
sem sattva seria uma mera energia não direccionada; rajas sem tamas
seria como uma alavanca sem fulcro; e tamas sozinho seria a inércia”
Swami Prabhavananda
Todos os três Gunas dependem uns dos outros e se ajudam
mutuamente no processo de evolução e no processo de auto-
desenvolvimento, à medida que o denso retorna ao subtil. No processo
de se revelarem reciprocamente, um Guna serve de degrau para o
outro.
     Os Gunas nunca se separam um do outro; eles existem como
uma unidade e um par. Quando um Guna domina, os outros dois
formam um par que permanece latente. Eles são omnipresentes. sattva
forma um par com rajas e tamas com rajas. Somente sattva não pode
unir-se directamente a tamas porque rajas é necessário para converter
sattva em tamas e tamas em sattva. tamas não tem como se aproximar
de sattva sem rajas e sattva não tem como se aproximar de tamas sem
a ajuda de rajas. Assim rajas é o moderador, pois sem a sua ajuda nem
sattva nem tamas conseguem agir – rajás é a actividade. Os Gunas são
inseparáveis e interconversíveis.
     As três qualidades misturam-se, combinam e fazem parte de cada
pedaço e de cada membro da nossa psicologia – a sua combinação e
equilíbrio constroem o carácter mental, a razão, a nossa vontade, a
nossa moral, estética, emocional, dinâmica e sensorial.
     Sattva é luz – luz em peso, radiância e brilho. rajas é a actividade
e o seu papel é a manifestação. Quando rajas domina o corpo, a pessoa
experimenta grande entusiasmo, excitabilidade e energia pelo trabalho.
É rajas, por sua natureza mercurial, que excita sattva a dar luz.
É tamas que mantém a ignorância, o medo e a superstição. tamas
obscurece a verdade por detrás da ilusão e faz a pessoa ter medo de
conhecer essa verdade. Enquanto sattva é propósito e rajas energia,
tamas é inércia, falta de incentivo, a força que puxa para baixo. Em
sattva e tamas a pessoa abandona o mundo dos sentidos. Em sattva ela
se une à luz e em tamas à escuridão.
Essas são as três forças cósmicas, os Gunas. Sabemos como
interagem e embora sattva e tamas sejam opostos exactos (luz e
escuridão) eles não trabalham um contra o outro. Eles ajudam-se
mutuamente no processo de evolução do denso para o subtil. Eles
trazem as energias das frequências mais baixas e convertem-nas nas
mais altas. Trata-se então dum intercâmbio incessante dos Gunas.
     sattva é leve, tamas é pesado. tamas dá estabilidade e forma a
pedra fundamental. rajas cria actividade e proporciona inspiração. O
jogo da criação ocorre entre os Gunas e os Cinco Elementos, interagindo
de forma a criar todo o Universo dos nomes e das formas.
     Neste planeta, tudo promove uma sensação: prazer, dor e apego.
A pessoa dominada por sattva recebe prazer, por rajas dor e por tamas
apego. Tudo o que existe contém dentro de si mesmo algo com o qual
podemos identificar sentimentos de dor, prazer e apego.
     O fluxo natural da evolução caminha do subtil para o denso.
Inicialmente, o Universo existiu apenas com um átomo cósmico (“ovo
dourado”). As ideias existem, primeiramente, na mente da pessoa. De
seguida tornam-se activas, o que dá início ao fluxo descendente do
movimento. Dá-se início à execução da ideia (explosão do “ovo
dourado”) e o fluxo descendente da energia contínua até que a mesma
seja aprisionada na forma densa, sendo depois transformada em
material.
     A Humanidade é uma “evolução” do
Universo, consciência trazida para baixo e ligada
à forma material. Contudo esse processo de
evolução não é irreversível. Cada pessoa
contém dentro de si uma consciência que
intuitivamente recorda a natureza mesma da
consciência. Cada pessoa tem cinco órgãos
sensoriais para perceber o mundo e cinco órgãos motores com os quais
agir. De sattva para rajas e para tamas é o curso natural de evolução;
com os cinco órgãos sensoriais e os cinco órgãos motores, a pessoa
pode escolher entre fluir com a gravidade, descendo ainda mais em
tamas, ou criar actividade para subir em direcção à luz.
     Sattva é luz, clareza e compreensão. rajas é inspiração, actividade
e dor. tamas é dúvida, escuridão e apego.
O indivíduo pode escolher entre gerar mais sattva em sua vida ou unir-
se ao fluxo descendente de energia até tamas. Aumentar sattva significa
mais dor, mas a dor dá lugar ao prazer, à luz e à clara compreensão da
nossa natureza e do nosso papel no Universo.
     A pessoa que compreende os três Gunas e a sua natureza é capaz
de reconhecer a presença e acção deles dentro de si mesma, e, a partir
desse conhecimento, assumir a responsabilidade pelo desenvolvimento
do seu próprio organismo. Ele descobrirá que os Gunas estão presentes
em tudo, como por exemplo, nos alimentos. Aprenderá que os seus
próprios sentimentos são o melhor e o mais claro guia para o
funcionamento dos Gunas dentro de si mesmo.
     As actividades e acontecimentos que produzem iluminação,
clareza e discernimento são de natureza sattvica; as que produzem
inspiração, actividade e dor são rajasicas; e ainda aquelas que
produzem apego, dúvida, ignorância e sono são tamasicas.
     Usando rajas para aumentar sattva, a pessoa consegue mover-se
contra o impulso gravitacional natural e unir a sua consciência à
Consciência Una que lhe deu origem. O prémio para quem faz esse
esforço designa-se sat-chit-ananda – verdade, ser e bem-aventurança.
     Segundo várias filosofias, Brahma, Vishnu e Shiva são
considerados os senhores dos Gunas, conhecidos como Guna-Avataras, os
controladores dos modos da natureza material. Os Guna-Avataras não
pertencem ao mundo material mas sim ao espiritual, não estando
sujeitos aos modos da natureza, portanto embora rejam os Gunas não
estão de modo algum adstritos a eles.
     Vishnu mantém o universo e controla o modo da bondade Sattva-
Guna. sattva representa o movimento para dentro e para cima e
proporciona o despertar e desenvolvimento da espiritualidade. Causa
estabilidade e harmonia. É o equilíbrio máximo dentro do mundo
material.
     Brahma é o criador do universo material e controla o modo da
paixão Raja-Guna. Afigura movimento para fora e gera agitação e
desintegração. Provoca dor e sofrimento, pois no mundo material não
existe a plena satisfação dos objectivos movidos por rajas, logo a
frustração é garantida.
     Shiva, que destrói o universo na época da aniquilação, controla o
modo da ignorância, Tama-Guna. É o movimento para baixo, pesado e
com capacidade de obstrução. Promove desilusão e degeneração. É o
princípio da materialidade.


     Segundo a Medicina Ayurvédica, quando nos encontramos em
harmonia, os três Gunas permitem-nos evoluir espiritualmente, saindo
do estado de doença. Se formos influenciados pela ignorância e/ou
medo (tamas) ou turbulência (rajas), afastamo-nos da nossa verdadeira
essência, e a doença encontra uma maneira de se instalar num campo
seguro.
     Para nos aproximarmos do equilíbrio, devemos seguir uma ordem
progressiva, isto é, se estamos em tamas precisamos desenvolver rajas
para progredir; se estamos em rajas aumentamos sattva para evolução
em nossa mente. Ao longo deste processo de desenvolvimento, vão-se
proporcionando sentimentos de harmonia que fazem com que fiquemos
mais próximos da nossa verdadeira natureza.
Quando os Gunas se encontram em perfeito equilíbrio, a acção da
Natureza cessa e a alma repousa na sua quietude. A nível espiritual
acontece:
     tamas torna-se em calma divina – um controlo de submeter à lei
     da calma mesmo a maior actividade.
     rajas torna-se numa pura auto-realização de iniciação de vontade
     do espírito – shakti – capaz de infinita acção
     sattva torna-se a auto-existente luz do ser divino e ilumina a
     divina quietude e a divina vontade de acção
Quando esta libertação da natureza vem, existe também uma libertação
de todo o sentido espiritual das dualidades da Natureza




Os Gunas e a Mente


     Os modos da natureza actuam como qualidades da nossa mente,
influenciando todas as actividades, acções, comportamentos e
relacionamentos de todo o ser vivo.
     Quando nos encontramos perante uma mente dominada por
tamas (tamobhuyishta), realizamos que há uma tendência a ser hipo-
enérgico, existem mais estados de dúvida e medo, situações de
depressão, frustração e tendência a vícios e desequilíbrios com a
alimentação, vida sexual e sono.
     No que diz respeito à dominação por rajás (rajobhuyishta) haverá
situações de turbulência, agressividade, momentos de raiva e ciúme,
pouco autocontrolo, com excessos variados.
     Relativamente a sattva (sattvabhuyishta), denota-se uma clareza
da percepção, um autocontrolo equilibrado, um pensamento maduro
com acções construtivas, desprendida de apegos, medos e ira.
Enquanto cada função da mente apresenta as suas qualidades
naturais, os Gunas, a mente pode ser alterada pelo acréscimo de outros
Gunas. Compreender os Gunas da mente e alterá-los de tamas em
sattva é a “chave” para a saúde mental e para o desenvolvimento
espiritual. O conjunto do desenvolvimento espiritual e da cura
psicológica consiste em passar da existência tamasica para a vida
sattvica.
Todos atravessamos diversas fases gúnicas em nossa actividade diária.
Por exemplo, quando nos encontramos a dormir, estamos num modo
tamasico, quando estamos acordados e atentos, achamo-nos num modo
sattvico e em actividade ou distraídos, estamos num modo rajasico.


      Em Yoga, a mente é dividida em quatro partes, tendo cada uma
delas funções específicas:
      Manas
      Ahamkara
      Buddhi
      Chitta


      Manas pode ser considerada como a mente inferior. Ela interage
   com o mundo exterior, captando impressões sensoriais e
   informações. Está conectada com os sentidos, coordenando todas as
   nossas actividades motoras e sensitivas, sendo dominada pelas
   nossas emoções e opiniões. Expressa-se na nossa capacidade de
   pensar, considerar, imaginar, nas nossas emoções e reacções
   primárias às impressões sensoriais. De modo a conseguir coordenar
   Manas, devemos vigiar os nossos pensamentos e sentidos sem lhes
   atribuirmos uma auto-culpa.
Ahamkara (Ego) é o senso de individualidade, do Eu. É uma força
necessária de diferenciação inerente à natureza, um estágio de
evolução, apesar de não representar a verdade profunda. Identifica-
nos com as nossas funcionalidades, porém traz-nos também a
sensação de separação, sofrimento e alienação. Ele é a noção do “eu”
por detrás dos outros pensamentos da mente. Devemos estar ciente
de que cada pensamento está acompanhado do sentimento de
gosto/desgosto, de modo a podermos perceber o seu funcionamento.
  Buddhi é a mente superior, o aspecto mais elevado da mente. É a
nossa capacidade de discernimento, a que nos permite distinguir
entre o verdadeiro e o falso. Com o uso do discernimento,
fundamentamos a percepção, aumentando a probabilidade da nossa
escolha ser a mais acertada. Permite-nos estabelecer valores e
princípios nas nossas vidas, os quais são a base da nossa vida.
  Chitta é a consciência. Funciona independentemente dos sentidos.
É o “banco” de todas as memórias, onde as impressões captadas
pelos sentidos são armazenadas. Ela existe nos três corpos e
funciona mesmo quando nos encontramos a dormir. Representa todo
o nosso campo mental, compilando todas as emoções, hábitos,
impressões e apegos que se encontram fixados em nós. Devemos
estar atentos ao funcionamento de Chitta, tendo apenas atenção aos
pensamentos que nos surgem sem uma razão óbvia, de modo a ser
mais claro o controlo e coordenação de Chitta com as outras funções
da mente.
Métodos de Tratamento


     Segundo o Ayurveda, a falta de fé e a falta de sentimentos são
uma das principais causas de doença. Ao desenvolvermos princípios
sattvicos nas nossas vidas, progressivamente vamo-nos afastando desse
estado de instabilidade ou desespero, que provoca o desequilíbrio e, por
consequente, a doença.
     Esta medicina tem por base de tratamento um compêndio de
processos, que no seu conjunto contribuem para assegurar a saúde de
cada indivíduo. O tratamento é próprio de cada ser, envolvendo
alimentação, sais minerais, pedras preciosas, massagens, entre outros.


A dieta (Ahara)
     O princípio da alimentação é proporcionar
alimentos que diminuam o dosha em excesso e
fomentem o dosha em deficiência. Todos os
alimentos possuem proporções das energias
vata, pitta e kapha. Uma dieta com uma boa
base implica a correcta combinação dos
alimentos que promovam o bem-estar,
proporcionando as funções de estrutura
adequadas, assegurando a vitalidade geral e a nutrição da mente. A boa
nutrição depende da capacidade de digestão e uso apropriado dos
alimentos. Factores como doença, qualidade de sono e estado mental
afectam a capacidade de digestão dos alimentos.
Acção dos sabores sobre os doshas, de acordo com os cinco elementos
(mahabhutas):



          Rasa – sabor                          Bhutas – elementos
             Doce                                  Terra e água
            Salgado                                 Água e fogo
             Ácido                                  Terra e fogo
          Adstringente                               Terra e ar
            Picante                                  Ar e fogo
            Amargo                                   Ar e éter


Os sabores e a energia que contêm (Virya):

                        Rasa                Energia (Virya)
                        Doce                    Muito frio
                    Salgado                    Muito quente
                        Ácido                    Quente
                  Adstringente                     Frio
                    Picante                    Pouco quente
                    Amargo                      Pouco frio




Os sabores associados aos Gunas

                                    Guna          Guna
                Rasa
                                (Húmido/seco) (Leve/pesado)

                Doce             Pouco húmido      Pouco pesado

             Salgado               Húmido                 Pesado

                Ácido            Muito húmido        Muito leve

          Adstringente            Muito seco        Muito pesado
Picante          Pouco seco          Leve

              Amargo             Seco            Muito leve




Efeito pós digestivo (Vipak)


               Rasa                     Efeito pós digestivo (Vipak)
               Doce                                 Doce

              Salgado                              Doce

               Ácido                               Ácido

           Adstringente                           Picante

              Picante                             Picante

              Amargo                              Picante


Um aspecto importante também a ter em conta relativamente aos
alimentos e ervas medicinais é o seu Prabhava, isto é, a sua
propriedade especial, que reflecte sobretudo a composição química do
alimento, o modo como é preparado e a energia com que é preparado.

      É por este motivo que os nossos alimentos devem ser
confeccionados num estado mental de elevação espiritual, como se
fosse uma oferenda divina, para que nele sejam conferidas apenas
energias salutares. Segundo Sri Krishna, todo o alimento não oferecido
à Divindade é tamasico, isto é, gerador de doenças e obscuridade.

      De acordo com as composições dos alimentos relativamente aos
cinco elementos e às suas outras propriedades constatamos que há
alimentos que promovem ou reduzem vata, pitta e kapha, e cabe-nos a
nós usufruir desse conhecimento para alcançar a harmonia e claro, a
saúde.
Propriedades terapêuticas dos sabores:

     Doce: aumenta a vitalidade de todos os tecidos. Harmoniza a
mente e promove o contentamento. Suaviza as membranas mucosas, é
expectorante e laxante suave.
     Salgado: suavizante, laxativo e sedativo. Em pequena quantidade
estimula a digestão. Em quantidade média torna-se purgativo e, em
grande quantidade, provoca vómito. É calmante nervoso e diminui a
ansiedade.
     Ácido: estimulante, carminativo, nutritivo e reduz a sede.
Desperta a mente e os sentidos, promove a circulação e fortalece o
coração, nutre os tecidos, à excepção do sistema reprodutivo.
     Picante: estimulante, carminativo e diaforético . Estimula o
metabolismo e promove as funções orgânicas. Promove também o calor
e a digestão. Estimula a circulação e abre a mente e os sentidos,
limpando os canais energéticos, reduzindo as dores nervosas e a tensão
muscular.
     Amargo: purifica o sangue, limpando-o e desintoxicando. Reduz
todos os tecidos e aumenta a leveza da mente. É antibiótico e anti-
séptico e também purifica a mente e as emoções. Em pequena
quantidade é estimulante da digestão. Auxilia a digerir os açúcares e
gorduras.
     Adstringente: reduz sangramentos e outras eliminações
excessivas, como o suor e a diarreia. Promove a saúde da pele e
membranas mucosas.


     Vata dá preferência ao doce, ácido e salgado. Pitta prefere doce,
amargo e adstringente. Relativamente a kapha dá prioridade ao picante,
amargo e adstringente.
Os alimentos tamasicos produzem preguiça e indolência. Os
alimentos sattvicos contribuem para a serenidade, vida, força, saúde,
felicidade e a satisfação. Mantêm o organismo doce e limpo, são
alimentos puros. Os alimentos rajasicos contribuem para o dinamismo e
acção, mas podem causar dor, pesar e doença

        Quando há um excesso de ingestão de alimentos que contêm cada
um dos sabores, ocorre um desequilíbrio físico e mental, que se vai
reflectir em problemas de saúde. A quantidade de cada sabor varia
consoante o dosha dominante na pessoa, sendo que cada sabor tem
uma potencialização diferente quanto à capacidade de agravar os
doshas. O sabor amargo é o que tem maior potência de agravar os
doshas, seguindo-se o salgado, o ácido, o picante, o adstringente e o
doce. A nossa alimentação diária deve ter em conta as potências desses
sabores, tentando criar um regime que tenha proporções adequadas.




Efeitos físicos e mentais dos excessos dos sabores

    Rasa            Efeito físico do excesso       Efeito mental do
                                                        excesso
Doce            Doenças por excesso de gordura: kapha: letargia
                obesidade, diabetes, indigestão,
                tumores                          vata: ansiedade
Ácido           Flacidez, fraqueza, febre, sede, Vertigem, raiva,
                palidez, herpes                  impaciência,
                                                 temperamento
                                                 “quente”
Salgado         Hipertensão, calvície, cabelos   Raiva, impaciência,
                brancos, doenças de pele, rugas, letargia
                herpes, perda de força, abcessos
Picante         Sede, desmaios, tremores, dores Raiva, impaciência
                lombares
Amargo          Depleção dos tecidos, doenças    Ansiedade, medo,
vata                               insónia
Adstringente Alimentos mal digeridos, dor no    Ansiedade,
             peito, sede, emagrecimento,        preocupação, medo,
             redução da libido, obstipação,     insónia
             bloqueio dos canais




Técnicas de desintoxicação do organismo – Panchakarma


     Com o passar do tempo, o nosso organismo acumula toxinas
adquiridas através da nossa alimentação, respiração e pensamento. Os
alimentos contêm químicos e metais, o ar que respiramos encontra-se
poluído e os nossos pensamentos muitas vezes transmitem sensações
de medo, raiva, ansiedade e angustia, ou seja, pensamentos repletos de
emoções negativas. Quando os doshas se encontram em desequilíbrio, o
nosso metabolismo encontra-se desregulado, tendo como consequência
uma má transformação dos alimentos em nutrientes e energia. Há uma
manifestação de cansaço e desnutrição, e os restos alimentares são
enviados para o intestino onde vão sofrer um processo de fermentação
devido à presença das bactérias. Desse processo resultam substâncias
químicas potencialmente tóxicas, sendo então absorvidas pelo intestino
e circulando pelo organismo, causando modificações nos diversos
sistemas.

     Esse acúmulo de toxinas, ama, encontra-se associado ao
desequilíbrio dos doshas, sendo a causa primária da doença. É por isso
que Panchakarma representa um papel importante na maioria dos
tratamentos da Medicina Ayurvédica. Engloba cinco processos:


       Vamana: a desintoxicação do estômago.
       Virechana: desintoxicação do fígado-intestino delgado.
Basti: desintoxicação do intestino grosso.
        Nasya: desintoxicação de cabeça e face
        Raktamokshana: desintoxicação do sangue.

      Previamente, ocorre um processo denominado de purva karma,
que visa mobilizar as toxinas e direccioná-las antes que elas possam ser
eliminadas pelo panchakarma. Inclui o processo de oleação interna,
“snehana”, processo de oleção externa “abhyanga, shirodhara” e o
processo de vapor aquecido medicado “swedana”.

Yoga e Meditação


      O Yoga é considerado como a grande ciência
da auto-realização, e é um dos métodos
terapêutico físico, energético, psicológico e
espiritual utilizado em Ayurveda.

      Relativamente à meditação, é considerada,
isoladamente, o principal elemento do tratamento
ayurvédico pelos seguintes motivos:

            Leva o cérebro a um estado de harmonia da actividade
    eléctrica dos diferentes lobos e dos dois hemisférios, o que
    promove um relaxamento profundo e a secreção de variadas
    endorfinas com um potencial curativo.
            Promove um maior conhecimento da nossa essência, devido
    ao aprofundamento dos estados de consciência obtido durante a
    meditação.
Massagem Ayurvédica

     O toque das mãos é uma forma de comunicação, e todas as
formas de toque das mãos comunicam uma mensagem. Através da
massagem, toque com a mãos, que se pretende transmitir uma
mensagem terapêutica. A massagem é extremamente importante nos
tratamentos de estilo de vida e na preparação para o Panchakarma.
     A massagem Ayurvédica tem o seu fundamento na Abhianga, que
consiste na massagem quotidiana. Mais importante do que a técnica, é o
terapeuta esteja dentro dos princípios desta medicina e os aplique da
forma mais honesta possível.
     São usados três tipos de toques, correspondentes aos três Gunas:
sattva, rajas e tamas. Constituem estratégias terapêuticas que podem
ser adequadas aos diversos indivíduos e às suas necessidades.
     Os três diferentes tipos de toque dirigem-se aos três tipos
constitucionais – Prakruti – e também aos três tipos de desequilíbrio –
Vakruti.


Tipos de toque


           Sattvico: é um toque amoroso, gentil e suave, sensível e
    intuitivo. Promove o aumento do Guna sattva e tem efeito
    relaxante, equilibrante e rejuvenescente para as emoções. Afecta a
    mente, as emoções, nutre os nervos, os nadis e os pranas. É dos
    três toques aquele que mais pacifica e harmoniza os cinco pranas e,
    por meio deles, o corpo. É adequado a pessoas de constituição
    vata. É recomendado para acalmar as pessoas rajasicas e torná-las
    receptivas a um trabalho mais profundo.
    O óleo é um elemento neste tipo de toque. Com o efeito lubrificante
    facilita a acção suave de sattva. Funciona como um veículo físico de
transmissão do prana do terapeuta ao paciente. São característicos
de sattva, os óleos de origem vegetal, e os mais indicados são
sésamo, amêndoa, rícino e mostarda.
      O toque sattvico é indicado para todas as perturbações
 mentais ou emocionais, independentemente da prakruti do
 paciente. Não é indicado para pessoas tamasicas ou rajasicas.
      Rajasico: é um toque intermediário entre o sattvico (leve) e
                            o tamasico (profundo). É firme e forte,
                            mas indolor e não brusco. É um toque
                            que procura movimento, estimulação. É
                            moderado e cuidadoso e é indicado
                            para pessoas de constituição pitta. É
                            este tipo de toque que mais estimula os
                            marmas. Neste tipo de toque deve ser
                            usada uma pequena quantidade de
                            óleo, de preferência de oliva, coco ou
                            girassol, e deve-se ter cuidado para
                            não se aquecer de mais, pois as
                            pessoas do tipo pitta já são quentes. É
                            um toque aplicado com firmeza e com
um ritmo constante, que promove calor e mudança. É aconselhado
em casos de tensões musculares, dores crónicas, problemas de
circulação sanguínea.
      Tamasico: é um toque que abre e liberta. É forte, profundo e
penetrante. A função deste tipo de toque é a quebra da barreira
entre a mente e o corpo. Este toque é feito com pouco óleo e
quando não é usado o óleo são usados pós de ervas secas. É
adequado para pessoas kapha. Recomendado para programas de
controlo de peso e para estimular o metabolismo.
Conclusão


         A medicina Ayurvédica visa a promoção de um equilíbrio
   mente-corpo, através do compêndio de diversas terapias, ou seja,
   tem uma visão holística. A harmonia é atingida quando os três
   Gunas estão em equilíbrio.
(“...”) De Prakriti os gunas surgiram,
Sattva, rajas, tamas:
Estes são os vínculos que atam
O imortal morador
Aprisionado no corpo.
Sattva, o brilhante,
Pode mostrar o Atman
Por sua pura luz:
Contudo, sattwa o amarrará
Na busca da felicidade,
Ansiando por conhecimento.
Rajas, o apaixonado,
Fá-lo-á sedento
Por prazer e possessão:
Rajas o amarrará
à fome da acção.
Tamas, o ignorante,
Atordoa todos os homens:
Tamas o amarrará
Com os laços da ilusão, (“...”)

(“...”) Quando o entendimento
Brilha através dos sentidos,
A porta do corpo
Sabe que sattwa está presente.
Na ganância, no calor da ação,
No ansioso empreendimento,
Na intranquilidade, em todo desejo,
Sabe que rajas governa.
Quando a mente está obscurecida
Atordoada, indolente,
E perdida na ilusão,
Sabe que tamas prevalece. (“...”)

(“...”) Fruto da correcta acção
É sattwa, a mais pura alegria;
Quanto aos feitos de rajas,
A dor é seu fruto;
Verdadeiramente, ignorância é todo
O fruto de tamas.
De sattwa, o conhecimento nasce;
De rajas, a ganância;
Tamas produz o atordoamento,
Ilusão, escuridão. (“...”)
(“...”) Que o homem sábio conheça
Estes gunas apenas como executores
De cada acção;
Que ele aprenda a conhecer Aquilo
Que está além deles, também;
Assim alcançará Minha unidade.
Quando o habitante no corpo
Tiver vencido os gunas
Que causam este corpo,
Então ele se libertará
Do nascimento e da morte,
Da dor e da decadência:
Ele se tornará imortal.”

Sri Krishna
Bibliografia


    “Dhanwantari: Um guia completo para uma vida saudável segundo
    a tradição Ayurvédica”, Harish Johari
    http://presentesinigualaveis.blogspot.com/2009_06_06_archive.ht
    ml
    Manual de Massagem Ayurvédica – Técnicas Indianas Tradicionais
    para o Equilíbrio do Corpo e da Mente – Harish Johari – Editora
    Ground, 2007
    http://yogavaidika.blogspot.com/2009/06/os-kleshas-fernando-
    liguori.html
    http://www.casasriaurobindo.com.br/biblioteca/leituras/Libertacao
    EspiritoNatureza.pdf
    2ªAula de Medicina Ayurvédica – Docente Michele Pó
    http://yogashala.org.br/index.php?option=com_content&view=art
    icle&id=13:as-quatro-funcoes-
    damente&catid=5:artigos&Itemid=3
    http://espacocardamomo.wordpress.com/2009/07/21/o-doshas-e-
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Os Gunas e a Mente Ayurvédica

  • 1. I.M.T. Instituto de Medicina Tradicional Medicina Ayurvédica Docente Michele Pó Os Gunas e a Mente Nádia Furtado 3ºA
  • 2.
  • 3. Índice Introdução ..........................................................................................................................................4 História do Ayurveda ..........................................................................................................................8 Os Doshas .........................................................................................................................................11 Os Gunas ..........................................................................................................................................13 Os Gunas e a Mente .........................................................................................................................23 Métodos de Tratamento ..................................................................................................................26 Conclusão .........................................................................................................................................35 Bibliografia .......................................................................................................................................38
  • 4. Introdução A terapia Ayurvédica é uma medicina complexa e completa que engloba processos terapêuticos, como a massagem ayurvédica, óleos medicinais, dieta, rotina diária de hábitos saudáveis, oleação e sudação, fitoterapia, terapias purificadoras (panchakarma), medicamentos com metais, minerais e pedras preciosas (rasa shastra), recomendação de actividade física, prática de yoga e meditação. São utilizados diversos métodos (massagens, óleos, ervas, entre outros), com o propósito de estimular o corpo, evocando uma sensação de bem-estar e visando o retorno à homeostasia corporal, auxiliando na cura, aliviando dores e prevenindo doenças. Não deve ser vista apenas como uma Medicina, mas também como uma Ciência que ensina a viver em Harmonia. O termo sânscrito Ayurveda é uma combinação de duas palavras: ayu (vida) e veda (conhecimento). A tradução literal de Ayurveda é “conhecimento da vida”, a parte de todo um conhecimento sagrado que prima pela consciência, sendo os seus princípios aplicáveis universalmente. É um sistema holístico de medicina que surgiu na Índia, cujo conhecimento evoluiu a partir da “iluminação” prática, filosófica e religiosa dos Rishis (seres antigos realizados, ou videntes da verdade), que através da intensa meditação alcançaram o conhecimento do nível subtil e manifestaram esse conhecimento na sua vida diária. Preconiza que a responsabilidade perante o estado de saúde geral do indivíduo pertence ao próprio, sendo ele o agente restaurador do seu bem-estar,
  • 5. pela introdução de hábitos alimentares equilibrados e cuidados com o corpo, a mente e o espírito. Através do equilíbrio apropriado de todas as energias do corpo, os processos de deterioração física e doença podem ser reduzidos, promovendo-se a capacidade de auto-cura individual. A essência da compreensão do sistema ayurvédico está na compreensão do prana (pra = antes; ana = sopro força vital, Qi). Nasce ↔ do substrato da consciência pura com inteligência (agni) e amor (soma); juntos criam a consciência individualizada. No corpo humano existem cinco pranas principais: Prana Apana Samana Udana Vyana Nascem do prana cósmico e do Guna rajas (qualidade, atributo da inteligência). Prana é também um dos principais pranas do corpo, também chamado de sopro exteriorizante, que reside na cabeça e no coração. Não existe nada mais subtil no corpo humano do que o prana. Dá força e poder à mente e ao corpo e está intimamente ligado à alma. Na Ayurvédica manifesta-se sob a forma dos três humores (forças que equilibram os cinco elementos no corpo): vata (vento), pitta (fogo) e kapha (água). As terapias em Ayurvédica podem ser classificadas em dois grupos: Brimhana (terapias de fortalecimento) e Langhana (terapias de redução). As terapias de fortalecimento têm como propósito aumentar as forças do paciente, sendo por isso bastante simples. No que diz respeito às técnicas de redução, já são um pouco mais complexas, e normalmente são aplicas antes das técnicas de fortalecimento de modo a preparar o organismo para a regeneração.
  • 6. O conhecimento Ayurvédico baseia-se nas escrituras mais antigas do mundo, as escrituras védicas, que remontam a 3000 a.C. Nos anos 700 a.C. o Maharishi Caraka, que viveu na região de Punjab, escreveu a primeira escritura sobre a Ayurveda, o Caraka Samhita e nos anos 600 a.C. o Sushrut escreveu Sushrut Samhita. De acordo com os Vedas, a vida é vista como uma evolução do princípio criativo, Prakriti. Segundo a escola Ayurvédica Charaka, Ayur é composto por quatro partes essenciais: é uma combinação da mente, corpo, sentidos e alma. A mente e o corpo actuam em conjunto, de maneira a que o sistema fisiológico se mantenha em equilíbrio. Os principais textos autorizados são os compêndios clássicos conhecidos como “Brihat Trayi” ou o grande trio: Caraka Samhita (é o texto mais antigo da literatura médica indiana, escrito por Caraka, que revela os ensinamentos de Atreya para o seu pupilo Agnivesa), Susruta Samhita (compilação dos ensinamentos do sábio Dhanvantaria e foi escrito pelo seu discípulo, o médico Susruta. É, na sua essência, um tratado de cirurgia) e Astanga Hridayam (coração dos 8 ramos do Ayurveda de Vagbhata; contém a essência e a filosofia do Ayurveda). Os Vedas são compostos por quatro textos: Rig Veda Yajur Veda Sama Veda Atharva Veda Rig Veda é o mais antigo dos Vedas e consiste em mais de 1000 hinos, sendo que todos os outros Vedas se baseiam nele. Sama Veda consiste na transformação de vários hinos do Rig Veda em cânticos. Representam o êxtase e a bênção da auto-realização. Por exemplo, se Rig Veda é o passo, Sama Veda é a dança; se Rig Veda for a palavra, Sama Veda é a compreensão.
  • 7. Yajur Veda relaciona-se com diversos rituais e sacrifícios do yoga no sentido da purificação da mente e do acordar da consciência. Atharva Veda é o último dos Vedas, sendo por isso considerado o mais recente dos quatro Vedas. Contém cânticos e encantamentos para apaziguar os deuses e mantras para afastar o mal, o azar, os inimigos e a doença. Cada um dos quatro Vedas é dividido em duas partes distintas: o mantra, oração e louvor, e o brahmana, que contém as directrizes para as cerimónias, nas quais os mantras são utilizados. Existem ainda as divisões de especialidades do Ayurveda, que surgem ainda nos Vedas: Kayachikitsa - Medicina Interna Salakya Tantra - Ouvidos, nariz, garganta, olhos, boca e dentes Agada Tantra – Toxicologia Kaumara bhritya ou Bala Tantra – Pediatria, embriologia e obstetrícia Salya Tantra – Cirurgia Bhuta Vidya – Psiquiatria Vajikarana Tantra - Afrodisíacos e medicina reprodutiva Rasayan Tantra - Longevidade e revitalização terapêutica
  • 8. História do Ayurveda A civilização mais antiga de que se tem notícia é a de Harappa, que surgiu por volta de 3000 anos a.C. e a sua cultura dominou o Vale Hindu durante, aproximadamente, 1500 anos. O povo de Harappa construiu grandes cidades - como Mohenjo-daro - com ruas pavimentadas, aquedutos, casas de banho públicas e enormes sistemas de drenagem. O sistema de saneamento era tratado com uma atenção especial, o que levou à conclusão que existia também um sistema médico, apesar de não haver evidências, à excepção do facto daquele povo recorrer a substâncias que classicamente são utilizadas no Ayurveda. A civilização de Harappa desapareceu há cerca de 1500 anos a.C. provavelmente devido a desastres naturais, mas também pelas invasões frequentes dos nómadas da Ásia Central. Trouxeram consigo os Vedas, os seus antigos livros que continham toda a sabedoria e rituais de sacrifício. Do mais recente dos Vedas, o Atharva Veda, desenvolveu-se o Ayurveda, donde se originaram 6 grandes tratados médicos, entre eles o Charaka Samhita (tratado de medicina interna) e o Sushruta Samhita (tratado de cirurgia), escritos inicialmente com o intuito de treinar médicos para tratarem de reis e princesas. O Ayurveda já estava bastante desenvolvido no tempo de Buda 563-483 a.C.), mas a medicina ayurvédica viveu uma fase grandiosa pois o próprio Buda era um grande incentivador da sua prática e do seu estudo. O grande desenvolvimento desta ciência
  • 9. médica decorreu também de interesses políticos, uma vez que nesta época a saúde do rei reflectia a saúde do Estado, assim os serviços do médico real eram essenciais para a manutenção da estabilidade política. No século III a.C., Ashoka, imperador sanguinário do norte da Índia, converteu-se ao Budismo e, incentivado pelos ensinamentos de Buda, construiu hospitais de caridade, com sectores de cirurgia, obstetrícia e problemas mentais, por todo o seu reino, não somente para seres humanos, como também para animais. Além disso, enviou missionários para países vizinhos, o que ajudou muito a difundir ainda mais o Budismo e o Ayurveda. Durante os dois reinados posteriores, houve grande incentivo à medicina, na medida em que o governo construía hospitais e maternidades e punia charlatães que tentavam praticar medicina sem permissão imperial. Toda essa Era foi intelectualmente fértil. Os budistas apoiavam todas as formas de aprendizagem: construíram verdadeiras universidades onde eram ensinados, além do Budismo e da ciência védica, muitas outras áreas, como a história, gramática e literatura sânscrita. A Era de Ouro acabou entre os séculos X e XII, quando o norte da Índia sofreu repetidas e violentas invasões dos muçulmanos, assassinando monges budistas, destruindo universidades e queimando bibliotecas. Aqueles que conseguiram escapar fugiram para o Nepal e para o Tibete levando poucos textos ayurvédicos sendo alguns destes preservados hoje apenas na tradução tibetana. Os conquistadores muçulmanos trouxeram para a Índia o seu próprio sistema médico, mas o Ayurveda mesmo assim permaneceu. No século XVI, Akbar, o maior imperador mongol, ordenou que todo o conhecimento médico indiano fosse compilado, contribuindo ainda mais para a preservação do
  • 10. Ayurveda. Durante os séculos XVI e XVII, quando foram abertas as rotas para o Oriente, os europeus, além de levarem novas doenças para a Índia, como a sífilis, desferiram golpes que foram quase fatais para o Ayurveda, difamando a sabedoria tradicional, fazendo o povo acreditar que ela seria causa de atraso no desenvolvimento da Índia. O resultado foi que, após 1835, somente a medicina ocidental tinha reconhecimento legítimo nas possessões inglesas. A cultura e a medicina indianas foram activamente desencorajadas entre o próprio povo indiano. No início do século XX, com a ascensão do nacionalismo indiano, a arte e a ciência indianas ressurgiram e o Ayurveda voltou a renascer. Actualmente é um dos seis sistemas médicos reconhecidos na Índia. De acordo com o Ayurveda, os seres humanos são compostos por três corpos ou aspectos físicos: físico, subtil e causal, ou seja, corpo, mente e espírito. O sistema de saúde ayurvédico afirma que a saúde consiste no funcionamento harmonioso das três partes desta trindade. Segundo Charaka Samhita, um indivíduo saudável é aquele que preenche as seguintes condições: Equilíbrio perfeito dos tridoshas Funcionamento correcto dos tecidos, dhatus, do corpo Quando os malas (urina, fezes e transpiração) são produzidos e excretados em quantidades normais Quando os canais, srotas, do nosso corpo fluem regularmente Quando o agni (fogo digestivo) se encontra estimulado e o apetite é normal Quando há um perfeito funcionamento dos cinco elementos Quando o corpo, a mente e a consciência estão em harmonia e o indivíduo reflecte plena felicidade
  • 11. Os Doshas Segundo Chandogya Upnishada, “a essência de todos os seres é a terra, a essência da terra é a água, a essência da água é a planta e a essência da planta é o ser humano”. Como na semente existe a árvore, no ser humano existe a inteligência cósmica. Por exemplo, uma semente podre nunca pode se tornar uma árvore, logo um corpo doente também não pode atingir a harmonia com natureza e, sem isto, não se pode unir com a supra consciência. Um corpo que aparentemente pareça são, psiquicamente pode estar doente e no futuro esta doença com certeza vai aparecer no plano físico. Ayurveda não só trata o corpo holístico ou psicofísico mas, vai muito além disto para desvendar os segredos mais íntimos da natureza, a fim de preparar o ser humano para unir-se com a supra consciência. Ensina que estar com a saúde é normal e natural mas, estar doente é anormal. A Medicina Ayurvédica afirma que tudo no universo é formado pelos cinco elementos básicos da natureza, são designados de panchamaha-bhutas,: éter, ar, fogo, água e terra. Eles manifestam-se no corpo humano como três forças, forças essas que são designadas como forças invisíveis cujos efeitos são observáveis. O objectivo desta ciência é estudar as influências destes elementos na natureza e no ser humano. Os elementos unem-se dois a dois para formar os chamados humores biológicos, os doshas, que actuam na nossa fisiologia assim como na formação dos desequilíbrios psicofísicos. Os doshas são vata (vento), Pitta (bílis) e kapha (fleuma) e actuam como componentes básicos e barreiras de protecção para o corpo na sua condição fisiológica normal, sendo que quando existe um desequilíbrio, eles contribuem para o processo de desenvolvimento da doença.
  • 12. Segundo os gregos, os quatro humores biológicos (doshas) determinavam as qualidades físicas e mentais da pessoa, e as variadas características do homem eram explicadas pelos temperamentos provocados pela mistura de elementos presentes nele. “O equilíbrio harmonioso dos três humores é essencial para a manutenção do bem-estar físico e mental. Enquanto os três estiverem em equilíbrio, o organismo digere de modo adequado, a respiração ocorre devagar e tranquilamente, o trabalho fluí com facilidade, e o crescimento e desenvolvimento seguem o seu curso natural e benéfico. Mas havendo um distúrbio em qualquer um desses humores, o organismo desequilibra-se. A dor e a doença são um resultado inevitável.” “Dhanwantari”, Harish Johari Os três humores biológicos espiritual e mental da existência, expressam-se por meio do corpo físico. vata é responsável pelo movimento que ocorre no corpo e na mente. Pitta controla as transformações no organismo, tais como assimilação dos alimentos, da luz e de dados sensoriais. E kapha é quem estabiliza o ser vivo. Vata é comunicação, criatividade, medo e instabilidade. É frio, leve, seco, móvel e rápido, e actua principalmente nas funções excretória e nervosa. vata desequilibrado ou patológico gera um quadro clínico relacionado com o aumento de espaço e ar (movimento) no nosso corpo físico: secura, perda de peso, inquietação, gases, prisão de ventre, ansiedade, depressão e insónia. Fibromialgia, artrose, dores em geral, problemas de coluna e cefaleias são
  • 13. doenças relacionadas com o dosha vata. Pitta é inteligência, vitalidade e eficiência. É quente, oleoso e actua principalmente na função metabólica e digestiva. O desequilíbrio de Pitta gera um quadro clínico relacionado com o aumento de fogo e água, ou seja, calor e humidade, traduzindo-se em azia, calores abdominais, aumento de sudorese, pele sensível e irritabilidade/agressividade. Algumas doenças relacionadas com o desequilíbrio de Pitta são: gastrite, úlcera digestiva, diarreia e acne, entre outros. Kapha é estrutura, segurança e letargia. É pesado, frio e lento e actua na função estrutural e na lubrificação dos tecidos. Em desequilíbrio gera um aumento de água e terra no nosso corpo físico, ou seja, aumento de peso, lentidão, preguiça. Obesidade, diabetes mellitus, aumento de colesterol, bronquite e alergias respiratórias são algumas doenças que estão associadas ao desequilíbrio de kapha. As proporções dos doshas na constituição humana produz as diferenciações orgânicas de indivíduo para indivíduo. Cada um nasce com um ou outro dosha de forma mais predominante e que geralmente permanece assim durante toda a vida, sendo que os desequilíbrios de uma condição normal são manifestados por doenças. Os Gunas Todo o Universo é uma manifestação da Inteligência Suprema, em que elementos subtis se tornam, gradualmente, mais densos e materiais para explorar diferentes possibilidades de acção e experiências. Tudo o que existe faz parte de um jogo de energias, onde cada elemento que
  • 14. existe está ligado a outros, influenciando-se mutuamente, e sendo influenciado, também, por forças que regem o Universo. Tudo o que existe, não existe de uma forma independente e individual. Há sempre elos que fazem a ligação directa entre cada objecto, tais como o ser humano não conseguir viver sem o ar e o ar existir devido à formação de um manto de gases proporcionado pelos processos envolventes da Terra. Dentro de cada ser existe o Purusha, o Observador, aquele que tudo vê. Ele é o estado de verdadeira consciência, a consciência pura. Paralelamente, existe Prakriti, o primeiro poder de acção, a natureza primordial, a essência não manifesta que guarda o potencial de tudo o que possa vir a existir. Tudo o que pode ser observado é Prakriti, pois é a manifestação do poder criativo de Purusha. Prakriti é a fonte primordial dos seres que pode ser comparada a uma árvore invertida, cujas raízes estão para cima e o tronco e ramos para baixo. A parte da árvore que está oculta da percepção sensorial humana é a parte da raiz, mool-prakriti, e é dessa raiz que nasce toda a criação. Mool-prakriti é o estado de completo equilíbrio. Prakriti não tem género, identificação ou forma, ou seja nele a natureza é indiferenciada, está além de todas as percepções sensoriais humanas. É através de Prakriti e das suas manifestações que vivenciamos o mundo material e trabalhamos para desenvolver a nossa consciência e atingir o entendimento da nossa verdadeira natureza, que está intimamente ligada à Consciência Suprema. Consoante evoluímos nessa aprendizagem, caminhamos de modo inverso ao da materialização, cessando a identificação com o que é observável, ou seja, as manifestações de Prakriti: o nosso corpo, mente, estados emocionais, entre outros. Assim, ao nos identificarmos com a Consciência Pura, Purusha, nós nos conseguimos libertar das perturbações inerentes à natureza material. Retornamos então à nossa verdadeira natureza.
  • 15. Os Gunas são o potencial de diversificação de Prakriti. Os Três modos ou três Gunas, podem ser traduzidos como “algo que junta”, “laço”, e são eles sattva, rajas e tamas. A Prakriti é composta por essas três qualidades. Os Gunas coexistem e dependem uns dos outros, tentando dominar-se mutuamente, apesar de terem qualidades opostas. Eles são as qualidades primárias e omnipresentes de todas as substâncias existentes no Universo. Tudo o que existe no mundo material não são mais do que combinações diferentes destes três estágios, o que faz com que estas forças medeiem toda a criação material. No primeiro estágio de Prakriti, no estágio de unidade indiferenciada, a existência apenas assume as frequências mais puras e elevadas. Tudo nesse estágio é sattva, essência. Quando se inicia a vibração da Consciência Suprema se inicia, origina-se espaço, éter. É a partir do espaço que a criação do mundo material tem início. Começa então o movimento de espaço e Prakriti sai do seu equilíbrio, tendo então início a acção dos Gunas. O movimento gera um impulso descendente, do subtil para o denso, dando- se a criação do mundo material. À medida que as correntes de espaço são geradas, um bloqueio no seu fluxo é desenvolvido à medida que uma corrente se gera sobre si mesmo. Esta obstrução de fluxo do espaço é designada por tamas. tamas é a causa primordial da criação, pois não havendo qualquer impedimento, as frequências sattvicas nunca começariam a descida do subtil ao denso. A presença de tamas quebra a uniformidade do fluxo de espaço,
  • 16. formando um circuito independente. Este circuito fechado formado a partir das frequências de mool-prakriti denomina-se de “ovo dourado” - hiranya garbha. Enquanto prakriti se encontra inerte, não existe nada para além de sattva puro. Mas a geração de espaço cria o movimento, e uma vez activado, a energia flui de cima para baixo, do subtil para o denso, criando correntes de energia. Por si só, os Gunas estão além da percepção, sendo apenas notáveis os efeitos das suas acções. É análogo à observação de uma pessoa. Quando olhamos para uma pessoa apenas vemos o seu corpo, corpo esse que ao longo dos tempos vai sofrendo diversas modificações, amadurecendo e decaindo. Porém, há um permanente senso do “eu” que nunca muda, que perdura além da natureza mutável da forma. É esse “eu” que constitui a essência de uma pessoa – esse “eu” nunca é visto. O mesmo acontece quando tentamos ouvir uma pessoa. O que ouvimos é apenas um conjunto de vibrações produzidas por moléculas de ar, pois o som interno da pessoa, o seu próprio ciclo rítmico existe além das mudanças dos sons externos produzidos pelas mesmas e que não pode ser ouvido. Também não conseguimos sentir o cheiro característico de outra pessoa. Apenas sentimos o cheiro das substâncias químicas, provenientes da alimentação e de outros compostos, que estão a ser exaladas pelo seu corpo. O que experimentamos das outras pessoas é o efeito, a manifestação densa dos seus seres. Tudo o que extraímos dessa pessoa é o efeito exterior de um processo causal interior que está a acontecer naquele determinado momento. Assim, também a forma real dos Gunas não pode ser conhecida por meio dos sentidos, apenas pelo efeito das suas inter-relações – a sua maya.
  • 17. Gelo, líquido e vapor constituem três manifestações de uma substância essencial, a água. No estado líquido, a essência da água consegue fluir livremente de acordo com o sítio onde se encontra. No estado sólido, essa essência perde todo o seu movimento, ficando confinado a uma determinada forma e posição. Já no estado de vapor, a essência está mais próxima da sua verdadeira natureza, uma vez que preenche qualquer ambiente em que se encontre e percorre caminho em todas as direcções. A água, na sua forma líquida, é o modo rajasico da essência, o estágio de transição entre gelo e vapor, e vapor e gelo. Para ambos se tornarem um no outro têm que primeiro se tornar em água. Portanto, o gelo é a forma tamasica da essência, a forma mais delimitada pelo espaço e pelo tempo, e a forma na qual o movimento das partículas individuais praticamente cessou. Por último, o vapor é a forma sattvica da essência, pois ele escapa dos limites da gravidade e da forma, e se dispersa no espaço. A ignorância é o caminho da evolução. A evolução flui nas trevas da ignorância e, nessa ignorância, o ilimitado torna-se limitado, pensando ser ele próprio um corpo limitado. Essa é a estrutura da árvore de prakriti. Das raízes invisíveis surge o sentimento de individualidade, o ego. O ego, por sua vez, cria os cinco elementos sensoriais com os quais criará o mundo das formas e dos nomes. Depois surge a mente e, com ela, os cinco órgãos sensoriais e os cinco órgãos motores. Por fim, o próprio corpo físico. O fruto da árvore de prakriti é o nascimento, a maturação e o desfrute; o sabor do fruto é o prazer e a dor. De sattva puro, a consciência se tornou activa (rajas) e encontrou- se impelida para baixo até à limitação (tamas) da forma individual. A consciência tornou-se delimitada pela forma, obedecendo às leis e
  • 18. princípios que governam o reino dos nomes e das formas. Os três Gunas e os cinco elementos (éter, ar, água, fogo e terra) constituem o ashtadha prakriti, a natureza óctupla da realidade manifesta. Tudo o que existe no mundo dos sentidos não passa de um jogo de elementos, dirigido pela sempre mutável interacção dos Gunas e vivido pela Consciência Una – o si mesmo. Os Gunas podem ser vistos como três cordas coloridas que formam uma trança. Às vezes uma cor é aparentemente mais dominante, mas observando o conjunto todo vemos que essa dominância é apenas uma ilusão – todas as cores estão presentes, só que às vezes uma oculta a outra da nossa visão. Elas não são três entidades distintas, mas sim três formas de uma mesma existência. Um ajuda o outro a evoluir e agem juntos, em coerência mútua, e estão presentes em todas as coisas, mas em proporções variadas. sattva é capaz de produzir luz, rajas tem o poder de dar energia e tamas é a fonte de resistência, dos obstáculos e obstruções. Os Gunas tentam dominar-se uns aos outros sucessivamente. Quando sattva predomina todos os sentimentos de inspiração para a realização de alguma acção, bem como o apego desaparecem. Desaparece toda a inspiração para o trabalho e toda a ignorância. Não há qualquer vontade. Tudo o que permanece é luz e tranquilidade. Quando rajas domina há um grande ímpeto de energia e um grande desejo de realizar projectos. A acção é o modo dominante. Quando tamas domina, a pessoa sente preguiça e apego, apenas existe a vontade de permanecer quieto, no mesmo sítio. “sattva, sozinho seria apenas uma ideia não concretizada, rajás sem sattva seria uma mera energia não direccionada; rajas sem tamas seria como uma alavanca sem fulcro; e tamas sozinho seria a inércia” Swami Prabhavananda
  • 19. Todos os três Gunas dependem uns dos outros e se ajudam mutuamente no processo de evolução e no processo de auto- desenvolvimento, à medida que o denso retorna ao subtil. No processo de se revelarem reciprocamente, um Guna serve de degrau para o outro. Os Gunas nunca se separam um do outro; eles existem como uma unidade e um par. Quando um Guna domina, os outros dois formam um par que permanece latente. Eles são omnipresentes. sattva forma um par com rajas e tamas com rajas. Somente sattva não pode unir-se directamente a tamas porque rajas é necessário para converter sattva em tamas e tamas em sattva. tamas não tem como se aproximar de sattva sem rajas e sattva não tem como se aproximar de tamas sem a ajuda de rajas. Assim rajas é o moderador, pois sem a sua ajuda nem sattva nem tamas conseguem agir – rajás é a actividade. Os Gunas são inseparáveis e interconversíveis. As três qualidades misturam-se, combinam e fazem parte de cada pedaço e de cada membro da nossa psicologia – a sua combinação e equilíbrio constroem o carácter mental, a razão, a nossa vontade, a nossa moral, estética, emocional, dinâmica e sensorial. Sattva é luz – luz em peso, radiância e brilho. rajas é a actividade e o seu papel é a manifestação. Quando rajas domina o corpo, a pessoa experimenta grande entusiasmo, excitabilidade e energia pelo trabalho. É rajas, por sua natureza mercurial, que excita sattva a dar luz. É tamas que mantém a ignorância, o medo e a superstição. tamas obscurece a verdade por detrás da ilusão e faz a pessoa ter medo de conhecer essa verdade. Enquanto sattva é propósito e rajas energia, tamas é inércia, falta de incentivo, a força que puxa para baixo. Em sattva e tamas a pessoa abandona o mundo dos sentidos. Em sattva ela se une à luz e em tamas à escuridão.
  • 20. Essas são as três forças cósmicas, os Gunas. Sabemos como interagem e embora sattva e tamas sejam opostos exactos (luz e escuridão) eles não trabalham um contra o outro. Eles ajudam-se mutuamente no processo de evolução do denso para o subtil. Eles trazem as energias das frequências mais baixas e convertem-nas nas mais altas. Trata-se então dum intercâmbio incessante dos Gunas. sattva é leve, tamas é pesado. tamas dá estabilidade e forma a pedra fundamental. rajas cria actividade e proporciona inspiração. O jogo da criação ocorre entre os Gunas e os Cinco Elementos, interagindo de forma a criar todo o Universo dos nomes e das formas. Neste planeta, tudo promove uma sensação: prazer, dor e apego. A pessoa dominada por sattva recebe prazer, por rajas dor e por tamas apego. Tudo o que existe contém dentro de si mesmo algo com o qual podemos identificar sentimentos de dor, prazer e apego. O fluxo natural da evolução caminha do subtil para o denso. Inicialmente, o Universo existiu apenas com um átomo cósmico (“ovo dourado”). As ideias existem, primeiramente, na mente da pessoa. De seguida tornam-se activas, o que dá início ao fluxo descendente do movimento. Dá-se início à execução da ideia (explosão do “ovo dourado”) e o fluxo descendente da energia contínua até que a mesma seja aprisionada na forma densa, sendo depois transformada em material. A Humanidade é uma “evolução” do Universo, consciência trazida para baixo e ligada à forma material. Contudo esse processo de evolução não é irreversível. Cada pessoa contém dentro de si uma consciência que intuitivamente recorda a natureza mesma da consciência. Cada pessoa tem cinco órgãos
  • 21. sensoriais para perceber o mundo e cinco órgãos motores com os quais agir. De sattva para rajas e para tamas é o curso natural de evolução; com os cinco órgãos sensoriais e os cinco órgãos motores, a pessoa pode escolher entre fluir com a gravidade, descendo ainda mais em tamas, ou criar actividade para subir em direcção à luz. Sattva é luz, clareza e compreensão. rajas é inspiração, actividade e dor. tamas é dúvida, escuridão e apego. O indivíduo pode escolher entre gerar mais sattva em sua vida ou unir- se ao fluxo descendente de energia até tamas. Aumentar sattva significa mais dor, mas a dor dá lugar ao prazer, à luz e à clara compreensão da nossa natureza e do nosso papel no Universo. A pessoa que compreende os três Gunas e a sua natureza é capaz de reconhecer a presença e acção deles dentro de si mesma, e, a partir desse conhecimento, assumir a responsabilidade pelo desenvolvimento do seu próprio organismo. Ele descobrirá que os Gunas estão presentes em tudo, como por exemplo, nos alimentos. Aprenderá que os seus próprios sentimentos são o melhor e o mais claro guia para o funcionamento dos Gunas dentro de si mesmo. As actividades e acontecimentos que produzem iluminação, clareza e discernimento são de natureza sattvica; as que produzem inspiração, actividade e dor são rajasicas; e ainda aquelas que produzem apego, dúvida, ignorância e sono são tamasicas. Usando rajas para aumentar sattva, a pessoa consegue mover-se contra o impulso gravitacional natural e unir a sua consciência à Consciência Una que lhe deu origem. O prémio para quem faz esse esforço designa-se sat-chit-ananda – verdade, ser e bem-aventurança. Segundo várias filosofias, Brahma, Vishnu e Shiva são considerados os senhores dos Gunas, conhecidos como Guna-Avataras, os controladores dos modos da natureza material. Os Guna-Avataras não pertencem ao mundo material mas sim ao espiritual, não estando
  • 22. sujeitos aos modos da natureza, portanto embora rejam os Gunas não estão de modo algum adstritos a eles. Vishnu mantém o universo e controla o modo da bondade Sattva- Guna. sattva representa o movimento para dentro e para cima e proporciona o despertar e desenvolvimento da espiritualidade. Causa estabilidade e harmonia. É o equilíbrio máximo dentro do mundo material. Brahma é o criador do universo material e controla o modo da paixão Raja-Guna. Afigura movimento para fora e gera agitação e desintegração. Provoca dor e sofrimento, pois no mundo material não existe a plena satisfação dos objectivos movidos por rajas, logo a frustração é garantida. Shiva, que destrói o universo na época da aniquilação, controla o modo da ignorância, Tama-Guna. É o movimento para baixo, pesado e com capacidade de obstrução. Promove desilusão e degeneração. É o princípio da materialidade. Segundo a Medicina Ayurvédica, quando nos encontramos em harmonia, os três Gunas permitem-nos evoluir espiritualmente, saindo do estado de doença. Se formos influenciados pela ignorância e/ou medo (tamas) ou turbulência (rajas), afastamo-nos da nossa verdadeira essência, e a doença encontra uma maneira de se instalar num campo seguro. Para nos aproximarmos do equilíbrio, devemos seguir uma ordem progressiva, isto é, se estamos em tamas precisamos desenvolver rajas para progredir; se estamos em rajas aumentamos sattva para evolução em nossa mente. Ao longo deste processo de desenvolvimento, vão-se proporcionando sentimentos de harmonia que fazem com que fiquemos mais próximos da nossa verdadeira natureza.
  • 23. Quando os Gunas se encontram em perfeito equilíbrio, a acção da Natureza cessa e a alma repousa na sua quietude. A nível espiritual acontece: tamas torna-se em calma divina – um controlo de submeter à lei da calma mesmo a maior actividade. rajas torna-se numa pura auto-realização de iniciação de vontade do espírito – shakti – capaz de infinita acção sattva torna-se a auto-existente luz do ser divino e ilumina a divina quietude e a divina vontade de acção Quando esta libertação da natureza vem, existe também uma libertação de todo o sentido espiritual das dualidades da Natureza Os Gunas e a Mente Os modos da natureza actuam como qualidades da nossa mente, influenciando todas as actividades, acções, comportamentos e relacionamentos de todo o ser vivo. Quando nos encontramos perante uma mente dominada por tamas (tamobhuyishta), realizamos que há uma tendência a ser hipo- enérgico, existem mais estados de dúvida e medo, situações de depressão, frustração e tendência a vícios e desequilíbrios com a alimentação, vida sexual e sono. No que diz respeito à dominação por rajás (rajobhuyishta) haverá situações de turbulência, agressividade, momentos de raiva e ciúme, pouco autocontrolo, com excessos variados. Relativamente a sattva (sattvabhuyishta), denota-se uma clareza da percepção, um autocontrolo equilibrado, um pensamento maduro com acções construtivas, desprendida de apegos, medos e ira.
  • 24. Enquanto cada função da mente apresenta as suas qualidades naturais, os Gunas, a mente pode ser alterada pelo acréscimo de outros Gunas. Compreender os Gunas da mente e alterá-los de tamas em sattva é a “chave” para a saúde mental e para o desenvolvimento espiritual. O conjunto do desenvolvimento espiritual e da cura psicológica consiste em passar da existência tamasica para a vida sattvica. Todos atravessamos diversas fases gúnicas em nossa actividade diária. Por exemplo, quando nos encontramos a dormir, estamos num modo tamasico, quando estamos acordados e atentos, achamo-nos num modo sattvico e em actividade ou distraídos, estamos num modo rajasico. Em Yoga, a mente é dividida em quatro partes, tendo cada uma delas funções específicas: Manas Ahamkara Buddhi Chitta Manas pode ser considerada como a mente inferior. Ela interage com o mundo exterior, captando impressões sensoriais e informações. Está conectada com os sentidos, coordenando todas as nossas actividades motoras e sensitivas, sendo dominada pelas nossas emoções e opiniões. Expressa-se na nossa capacidade de pensar, considerar, imaginar, nas nossas emoções e reacções primárias às impressões sensoriais. De modo a conseguir coordenar Manas, devemos vigiar os nossos pensamentos e sentidos sem lhes atribuirmos uma auto-culpa.
  • 25. Ahamkara (Ego) é o senso de individualidade, do Eu. É uma força necessária de diferenciação inerente à natureza, um estágio de evolução, apesar de não representar a verdade profunda. Identifica- nos com as nossas funcionalidades, porém traz-nos também a sensação de separação, sofrimento e alienação. Ele é a noção do “eu” por detrás dos outros pensamentos da mente. Devemos estar ciente de que cada pensamento está acompanhado do sentimento de gosto/desgosto, de modo a podermos perceber o seu funcionamento. Buddhi é a mente superior, o aspecto mais elevado da mente. É a nossa capacidade de discernimento, a que nos permite distinguir entre o verdadeiro e o falso. Com o uso do discernimento, fundamentamos a percepção, aumentando a probabilidade da nossa escolha ser a mais acertada. Permite-nos estabelecer valores e princípios nas nossas vidas, os quais são a base da nossa vida. Chitta é a consciência. Funciona independentemente dos sentidos. É o “banco” de todas as memórias, onde as impressões captadas pelos sentidos são armazenadas. Ela existe nos três corpos e funciona mesmo quando nos encontramos a dormir. Representa todo o nosso campo mental, compilando todas as emoções, hábitos, impressões e apegos que se encontram fixados em nós. Devemos estar atentos ao funcionamento de Chitta, tendo apenas atenção aos pensamentos que nos surgem sem uma razão óbvia, de modo a ser mais claro o controlo e coordenação de Chitta com as outras funções da mente.
  • 26. Métodos de Tratamento Segundo o Ayurveda, a falta de fé e a falta de sentimentos são uma das principais causas de doença. Ao desenvolvermos princípios sattvicos nas nossas vidas, progressivamente vamo-nos afastando desse estado de instabilidade ou desespero, que provoca o desequilíbrio e, por consequente, a doença. Esta medicina tem por base de tratamento um compêndio de processos, que no seu conjunto contribuem para assegurar a saúde de cada indivíduo. O tratamento é próprio de cada ser, envolvendo alimentação, sais minerais, pedras preciosas, massagens, entre outros. A dieta (Ahara) O princípio da alimentação é proporcionar alimentos que diminuam o dosha em excesso e fomentem o dosha em deficiência. Todos os alimentos possuem proporções das energias vata, pitta e kapha. Uma dieta com uma boa base implica a correcta combinação dos alimentos que promovam o bem-estar, proporcionando as funções de estrutura adequadas, assegurando a vitalidade geral e a nutrição da mente. A boa nutrição depende da capacidade de digestão e uso apropriado dos alimentos. Factores como doença, qualidade de sono e estado mental afectam a capacidade de digestão dos alimentos.
  • 27. Acção dos sabores sobre os doshas, de acordo com os cinco elementos (mahabhutas): Rasa – sabor Bhutas – elementos Doce Terra e água Salgado Água e fogo Ácido Terra e fogo Adstringente Terra e ar Picante Ar e fogo Amargo Ar e éter Os sabores e a energia que contêm (Virya): Rasa Energia (Virya) Doce Muito frio Salgado Muito quente Ácido Quente Adstringente Frio Picante Pouco quente Amargo Pouco frio Os sabores associados aos Gunas Guna Guna Rasa (Húmido/seco) (Leve/pesado) Doce Pouco húmido Pouco pesado Salgado Húmido Pesado Ácido Muito húmido Muito leve Adstringente Muito seco Muito pesado
  • 28. Picante Pouco seco Leve Amargo Seco Muito leve Efeito pós digestivo (Vipak) Rasa Efeito pós digestivo (Vipak) Doce Doce Salgado Doce Ácido Ácido Adstringente Picante Picante Picante Amargo Picante Um aspecto importante também a ter em conta relativamente aos alimentos e ervas medicinais é o seu Prabhava, isto é, a sua propriedade especial, que reflecte sobretudo a composição química do alimento, o modo como é preparado e a energia com que é preparado. É por este motivo que os nossos alimentos devem ser confeccionados num estado mental de elevação espiritual, como se fosse uma oferenda divina, para que nele sejam conferidas apenas energias salutares. Segundo Sri Krishna, todo o alimento não oferecido à Divindade é tamasico, isto é, gerador de doenças e obscuridade. De acordo com as composições dos alimentos relativamente aos cinco elementos e às suas outras propriedades constatamos que há alimentos que promovem ou reduzem vata, pitta e kapha, e cabe-nos a nós usufruir desse conhecimento para alcançar a harmonia e claro, a saúde.
  • 29. Propriedades terapêuticas dos sabores: Doce: aumenta a vitalidade de todos os tecidos. Harmoniza a mente e promove o contentamento. Suaviza as membranas mucosas, é expectorante e laxante suave. Salgado: suavizante, laxativo e sedativo. Em pequena quantidade estimula a digestão. Em quantidade média torna-se purgativo e, em grande quantidade, provoca vómito. É calmante nervoso e diminui a ansiedade. Ácido: estimulante, carminativo, nutritivo e reduz a sede. Desperta a mente e os sentidos, promove a circulação e fortalece o coração, nutre os tecidos, à excepção do sistema reprodutivo. Picante: estimulante, carminativo e diaforético . Estimula o metabolismo e promove as funções orgânicas. Promove também o calor e a digestão. Estimula a circulação e abre a mente e os sentidos, limpando os canais energéticos, reduzindo as dores nervosas e a tensão muscular. Amargo: purifica o sangue, limpando-o e desintoxicando. Reduz todos os tecidos e aumenta a leveza da mente. É antibiótico e anti- séptico e também purifica a mente e as emoções. Em pequena quantidade é estimulante da digestão. Auxilia a digerir os açúcares e gorduras. Adstringente: reduz sangramentos e outras eliminações excessivas, como o suor e a diarreia. Promove a saúde da pele e membranas mucosas. Vata dá preferência ao doce, ácido e salgado. Pitta prefere doce, amargo e adstringente. Relativamente a kapha dá prioridade ao picante, amargo e adstringente.
  • 30. Os alimentos tamasicos produzem preguiça e indolência. Os alimentos sattvicos contribuem para a serenidade, vida, força, saúde, felicidade e a satisfação. Mantêm o organismo doce e limpo, são alimentos puros. Os alimentos rajasicos contribuem para o dinamismo e acção, mas podem causar dor, pesar e doença Quando há um excesso de ingestão de alimentos que contêm cada um dos sabores, ocorre um desequilíbrio físico e mental, que se vai reflectir em problemas de saúde. A quantidade de cada sabor varia consoante o dosha dominante na pessoa, sendo que cada sabor tem uma potencialização diferente quanto à capacidade de agravar os doshas. O sabor amargo é o que tem maior potência de agravar os doshas, seguindo-se o salgado, o ácido, o picante, o adstringente e o doce. A nossa alimentação diária deve ter em conta as potências desses sabores, tentando criar um regime que tenha proporções adequadas. Efeitos físicos e mentais dos excessos dos sabores Rasa Efeito físico do excesso Efeito mental do excesso Doce Doenças por excesso de gordura: kapha: letargia obesidade, diabetes, indigestão, tumores vata: ansiedade Ácido Flacidez, fraqueza, febre, sede, Vertigem, raiva, palidez, herpes impaciência, temperamento “quente” Salgado Hipertensão, calvície, cabelos Raiva, impaciência, brancos, doenças de pele, rugas, letargia herpes, perda de força, abcessos Picante Sede, desmaios, tremores, dores Raiva, impaciência lombares Amargo Depleção dos tecidos, doenças Ansiedade, medo,
  • 31. vata insónia Adstringente Alimentos mal digeridos, dor no Ansiedade, peito, sede, emagrecimento, preocupação, medo, redução da libido, obstipação, insónia bloqueio dos canais Técnicas de desintoxicação do organismo – Panchakarma Com o passar do tempo, o nosso organismo acumula toxinas adquiridas através da nossa alimentação, respiração e pensamento. Os alimentos contêm químicos e metais, o ar que respiramos encontra-se poluído e os nossos pensamentos muitas vezes transmitem sensações de medo, raiva, ansiedade e angustia, ou seja, pensamentos repletos de emoções negativas. Quando os doshas se encontram em desequilíbrio, o nosso metabolismo encontra-se desregulado, tendo como consequência uma má transformação dos alimentos em nutrientes e energia. Há uma manifestação de cansaço e desnutrição, e os restos alimentares são enviados para o intestino onde vão sofrer um processo de fermentação devido à presença das bactérias. Desse processo resultam substâncias químicas potencialmente tóxicas, sendo então absorvidas pelo intestino e circulando pelo organismo, causando modificações nos diversos sistemas. Esse acúmulo de toxinas, ama, encontra-se associado ao desequilíbrio dos doshas, sendo a causa primária da doença. É por isso que Panchakarma representa um papel importante na maioria dos tratamentos da Medicina Ayurvédica. Engloba cinco processos: Vamana: a desintoxicação do estômago. Virechana: desintoxicação do fígado-intestino delgado.
  • 32. Basti: desintoxicação do intestino grosso. Nasya: desintoxicação de cabeça e face Raktamokshana: desintoxicação do sangue. Previamente, ocorre um processo denominado de purva karma, que visa mobilizar as toxinas e direccioná-las antes que elas possam ser eliminadas pelo panchakarma. Inclui o processo de oleação interna, “snehana”, processo de oleção externa “abhyanga, shirodhara” e o processo de vapor aquecido medicado “swedana”. Yoga e Meditação O Yoga é considerado como a grande ciência da auto-realização, e é um dos métodos terapêutico físico, energético, psicológico e espiritual utilizado em Ayurveda. Relativamente à meditação, é considerada, isoladamente, o principal elemento do tratamento ayurvédico pelos seguintes motivos: Leva o cérebro a um estado de harmonia da actividade eléctrica dos diferentes lobos e dos dois hemisférios, o que promove um relaxamento profundo e a secreção de variadas endorfinas com um potencial curativo. Promove um maior conhecimento da nossa essência, devido ao aprofundamento dos estados de consciência obtido durante a meditação.
  • 33. Massagem Ayurvédica O toque das mãos é uma forma de comunicação, e todas as formas de toque das mãos comunicam uma mensagem. Através da massagem, toque com a mãos, que se pretende transmitir uma mensagem terapêutica. A massagem é extremamente importante nos tratamentos de estilo de vida e na preparação para o Panchakarma. A massagem Ayurvédica tem o seu fundamento na Abhianga, que consiste na massagem quotidiana. Mais importante do que a técnica, é o terapeuta esteja dentro dos princípios desta medicina e os aplique da forma mais honesta possível. São usados três tipos de toques, correspondentes aos três Gunas: sattva, rajas e tamas. Constituem estratégias terapêuticas que podem ser adequadas aos diversos indivíduos e às suas necessidades. Os três diferentes tipos de toque dirigem-se aos três tipos constitucionais – Prakruti – e também aos três tipos de desequilíbrio – Vakruti. Tipos de toque Sattvico: é um toque amoroso, gentil e suave, sensível e intuitivo. Promove o aumento do Guna sattva e tem efeito relaxante, equilibrante e rejuvenescente para as emoções. Afecta a mente, as emoções, nutre os nervos, os nadis e os pranas. É dos três toques aquele que mais pacifica e harmoniza os cinco pranas e, por meio deles, o corpo. É adequado a pessoas de constituição vata. É recomendado para acalmar as pessoas rajasicas e torná-las receptivas a um trabalho mais profundo. O óleo é um elemento neste tipo de toque. Com o efeito lubrificante facilita a acção suave de sattva. Funciona como um veículo físico de
  • 34. transmissão do prana do terapeuta ao paciente. São característicos de sattva, os óleos de origem vegetal, e os mais indicados são sésamo, amêndoa, rícino e mostarda. O toque sattvico é indicado para todas as perturbações mentais ou emocionais, independentemente da prakruti do paciente. Não é indicado para pessoas tamasicas ou rajasicas. Rajasico: é um toque intermediário entre o sattvico (leve) e o tamasico (profundo). É firme e forte, mas indolor e não brusco. É um toque que procura movimento, estimulação. É moderado e cuidadoso e é indicado para pessoas de constituição pitta. É este tipo de toque que mais estimula os marmas. Neste tipo de toque deve ser usada uma pequena quantidade de óleo, de preferência de oliva, coco ou girassol, e deve-se ter cuidado para não se aquecer de mais, pois as pessoas do tipo pitta já são quentes. É um toque aplicado com firmeza e com um ritmo constante, que promove calor e mudança. É aconselhado em casos de tensões musculares, dores crónicas, problemas de circulação sanguínea. Tamasico: é um toque que abre e liberta. É forte, profundo e penetrante. A função deste tipo de toque é a quebra da barreira entre a mente e o corpo. Este toque é feito com pouco óleo e quando não é usado o óleo são usados pós de ervas secas. É adequado para pessoas kapha. Recomendado para programas de controlo de peso e para estimular o metabolismo.
  • 35. Conclusão A medicina Ayurvédica visa a promoção de um equilíbrio mente-corpo, através do compêndio de diversas terapias, ou seja, tem uma visão holística. A harmonia é atingida quando os três Gunas estão em equilíbrio.
  • 36. (“...”) De Prakriti os gunas surgiram, Sattva, rajas, tamas: Estes são os vínculos que atam O imortal morador Aprisionado no corpo. Sattva, o brilhante, Pode mostrar o Atman Por sua pura luz: Contudo, sattwa o amarrará Na busca da felicidade, Ansiando por conhecimento. Rajas, o apaixonado, Fá-lo-á sedento Por prazer e possessão: Rajas o amarrará à fome da acção. Tamas, o ignorante, Atordoa todos os homens: Tamas o amarrará Com os laços da ilusão, (“...”) (“...”) Quando o entendimento Brilha através dos sentidos, A porta do corpo Sabe que sattwa está presente. Na ganância, no calor da ação, No ansioso empreendimento, Na intranquilidade, em todo desejo, Sabe que rajas governa. Quando a mente está obscurecida Atordoada, indolente, E perdida na ilusão, Sabe que tamas prevalece. (“...”) (“...”) Fruto da correcta acção É sattwa, a mais pura alegria; Quanto aos feitos de rajas, A dor é seu fruto; Verdadeiramente, ignorância é todo O fruto de tamas. De sattwa, o conhecimento nasce; De rajas, a ganância; Tamas produz o atordoamento, Ilusão, escuridão. (“...”)
  • 37. (“...”) Que o homem sábio conheça Estes gunas apenas como executores De cada acção; Que ele aprenda a conhecer Aquilo Que está além deles, também; Assim alcançará Minha unidade. Quando o habitante no corpo Tiver vencido os gunas Que causam este corpo, Então ele se libertará Do nascimento e da morte, Da dor e da decadência: Ele se tornará imortal.” Sri Krishna
  • 38. Bibliografia “Dhanwantari: Um guia completo para uma vida saudável segundo a tradição Ayurvédica”, Harish Johari http://presentesinigualaveis.blogspot.com/2009_06_06_archive.ht ml Manual de Massagem Ayurvédica – Técnicas Indianas Tradicionais para o Equilíbrio do Corpo e da Mente – Harish Johari – Editora Ground, 2007 http://yogavaidika.blogspot.com/2009/06/os-kleshas-fernando- liguori.html http://www.casasriaurobindo.com.br/biblioteca/leituras/Libertacao EspiritoNatureza.pdf 2ªAula de Medicina Ayurvédica – Docente Michele Pó http://yogashala.org.br/index.php?option=com_content&view=art icle&id=13:as-quatro-funcoes- damente&catid=5:artigos&Itemid=3 http://espacocardamomo.wordpress.com/2009/07/21/o-doshas-e- os-gunas/ http://www.suddha.net/ayurveda/artigo_ayurveda_rugue_sextose ntido_alimen01.htm