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Trabalho Apresentado no IV Congresso de Construção com Terra em 2012

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Terra Brasil 2012 - Artigo - Michel Habib Ghattas

  1. 1. AVALIAÇÃO INICIAL DO COMPORTAMENTO DA ARGAMASSA DE SOLO, CAL, AREIA ARTIFICIAL E CINZAS DE BAMBU Ghattas, Michel Habib1; Almeida, Ademir2; Camarini, Gladis3 (1) Arquiteto e bioconstrutor, instrutor de cursos de construção com terra crua +55-11-9229-1555, mhabib@terra.com.br (2) Técnico de laboratório, Departamento de Arquitetura e Construção, Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo, Universidade Estadual de Campinas, Av. Albert Einstein, 951 - Caixa Postal: 6021 - CEP: 13083-852 - Campinas – SP, +55-19-35212367, aalmeida@fec.unicamp.br (3) Professora Associada, Departamento de Arquitetura e Construção, Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo, Universidade Estadual de Campinas, Av. Albert Einstein, 951 - Caixa Postal: 6021 - CEP: 13083-852 - Campinas – SP, +55-19-35212361, camarini@fec.unicamp.br Resumo As argamassas de revestimento desenvolvem uma função protetora de grande importância nas construções, absorvendo a deterioração superficial causada por intempéries e com isso aumentando consideravelmente a durabilidade das alvenarias. Este trabalho investiga o comportamento de uma argamassa composta de materiais de fácil obtenção e baixo custo (cal, solo, areia britada e cinzas de bambu), visando uma solução com menor impacto ambiental, em oposição aos atuais processos industrializados. Neste estudo foram realizados ensaios em laboratório com dois diferentes traços de argamassa, diferindo entre eles apenas na adição de cinzas de bambu. O objetivo foi observar o comportamento da mistura quando se adiciona a sílica proveniente da cinza de bambu. Os resultados encontrados indicaram que a cinza de bambu quando obtida de forma não controlada não resulta em melhoria do conjunto em relação ao desempenho mecânico. No entanto, aumenta a porção granulométrica de partículas finas, atuando positivamente na plasticidade e fluidez da argamassa. O comportamento mecânico foi inferior à referência (traço padrão). 1. INTRODUÇÃO E OBJETIVOS As civilizações antigas dispunham das mesmas matérias primas que utilizamos atualmente na construção, como argila, areia, pedra, calcário, gipsita, entre outros, com exceção dos materiais que hoje necessitam de alta tecnologia no seu processo produtivo. A civilização egípcia já utilizava uma argamassa composta por cal e outros materiais para revestimento do interior das pirâmides. Esse conhecimento foi passado aos romanos que aprimoraram a técnica adicionando argilas pozolânicas em suas misturas, aumentando as propriedades hidráulicas da argamassa. A utilização da cal em edificações e obras viárias foi registrada significativamente na estabilização do leito de base da via Ápia em 312 a.C. No Palácio de Knossos, na Grécia, foram encontrados afrescos pintados em camadas duplas de revestimento feito com uma argamassa de cal estabilizada com cabelos (Boynton, 1980, apud Guimarães, 2002) Observando as construções históricas, encontramos amostras de argamassas compostas de aglomerantes orgânicos ou minerais como gesso, cal, cimento, e agregados como argila, areia, cinzas, fibras, entre outros. Nas construções rudimentares a pedra e a terra crua, eram materiais que possibilitavam a edificação de alvenarias de fechamento ou autoportantes. A seleção e obtenção dos materiais de base eram feitas conforme a cultura, a disponibilidade, e as experiências locais. As alvenarias, dependendo da técnica adotada, apresentam seu material aparente, como exemplo da taipa de pilão, tijolos maciços, entre outros; ou são preparadas para serem revestidas com azulejos, porcelanatos, pedras, ou simplesmente rebocadas com argamassa resistente às intempéries. Com o aprimoramento da tecnologia e o estudo de patologias dos sistemas construtivos, é evidente a necessidade para a técnica mista (taipa de mão), a utilização de uma argamassa de revestimento que torne a superfície apta a receber acabamento final para a proteção e conservação da alvenaria como pintura de cal, resinas vegetais, entre outros.
  2. 2. IV CONGRESSO DE ARQUITETURA E CONSTRUÇÃO COM TERRA NO BRASIL TerraBrasil 2012 Este trabalho avaliou, em laboratório uma argamassa de revestimento composta por materiais naturais de fácil obtenção e materiais industrializados de baixo custo. Essa escolha baseou-se nos seguintes conceitos: biodegradação rápida quando descartado no meio ambiente, possível aplicação em áreas de preservação, criando também uma opção acessível para populações isoladas ou desprovidas do abastecimento de materiais de construção. Os ensaios caracterizaram os materiais individualmente e as propriedades mecânicas das misturas no estado endurecido. A argamassa foi composta pelo aglomerante mineral, cal hidratada, e por agregados como areia britada, solo e cinza proveniente da queima do bambu. Os resultados identificaram seu comportamento e método de produção como uma alternativa comercial em meios urbanos, ou em áreas isoladas que dependem da autoconstrução. 2. JUSTIFICATIVA Em muitos casos a degradação das alvenarias inicia-se pela ausência de uma proteção superficial, argamassas ou revestimentos. Isso facilita a deterioração do elemento base por infiltração de água, alojamento de insetos e outras patologias provenientes da exposição às intempéries, comprometendo a edificação e a saúde do usuário. Com o impacto ambiental causado pela construção civil e o atual déficit habitacional, é urgente a busca de produtos que utilizem materiais renováveis e de baixo impacto ambiental. Com o problema do aumento da quantidade de resíduos sólidos resultante da construção civil, esse estudo busca também colaborar com o incentivo ao uso de um material de menor impacto ambiental, desde o processo produtivo até o seu descarte como um material biodegradável. 3. DELIMITAÇÃO DO TEMA Este trabalho caracterizou o comportamento de duas argamassas. Uma argamassa de cal, areia artificial e terra e outra argamassa de cal com a mesma proporção da primeira mas adicionando cinza proveniente da queima do bambu como uma adição mineral rica em sílica. Esse trabalho busca uma relação ideal entre os componentes, avaliando a possibilidade de uso desse material como revestimento em camada única para áreas internas e externas. Os resultados obtidos não compreendem informações que relacionam o comportamento desta argamassa aplicada, mas sim em estudo de laboratório. 4. REVISÃO DA LITERATURA A cal é o produto obtido pela calcinação de rochas calcárias a temperaturas elevadas compreendidas entre 800 ºC e 1000 ºC. O material resultante da calcinação de rochas calcárias (CaCO3) é chamado de cal virgem (CaO). Além de rochas calcárias, outra matéria prima para a obtenção da cal são resíduos de conchas, com a vantagem de serem mais puras pois não apresentam óxido de magnésio em sua composição (Guedes, 2000). Segundo Cincotto et al. (2010), o fenômeno ocorrido na calcinação do calcário é: CaCO3 + calor (900 ºC) = CaO + CO2 ou Calcário + calor = cal virgem + gás carbônico Para obtenção da cal utilizada na construção, o óxido deve ser hidratado para virar hidróxido de cálcio Ca(OH)2 e adquirir propriedades aglomerantes Esse processo libera grande quantidade de calor (Cincotto et al, 2010): 2 CaO + H2O = Ca(OH)2 ou Cal virgem + água = Cal hidratada (ou extinta) + calor As argamassas de cal, inicialmente, têm consistência plástica, mas endurecem por recombinação do hidróxido com o gás carbônico, presente na atmosfera, voltando ao seu estado inicial de carbonato de cálcio. Ca(OH)2 + CO2 = CaCO3
  3. 3. IV CONGRESSO DE ARQUITETURA E CONSTRUÇÃO COM TERRA NO BRASIL TerraBrasil 2012 O solo apropriado para a construção com terra crua deve estar livre de matéria orgânica. Quando utilizado na construção, a escolha do solo deve seguir critérios de granulometria, plasticidade, retração, teor de umidade e grau de compactação. A granulometria determina e classifica o material como; pedregulho, areia, silte e argila, onde a areia pode ser subdividida como grossa, média e fina. (Neves et al, 2009). Após a caracterização do solo, muitas vezes é necessário um processo de estabilização para corrigir e melhorar as propriedades mecânicas do solo. Vários são os meios e recursos para se estabilizar a terra, entre eles encontra-se a cal hidratada. Na estabilização com cal hidratada, ocorrem três processos distintos, a carbonatação com a reação do hidróxido de cálcio com o gás carbônico atmosférico, a cristalização onde a cal ataca os íons Si++ que se encontram no interior das lamelas de argila e a floculação que ocorre quando a alcalinidade da cal modifica o pH da terra provocando a aglomeração de suas partículas em razão das reações de troca de cátions (Barbosa; Ghavami, 2010). Em estudos realizados com a queima de folhas de bambu e posteriormente aquecidas a 600º C por duas horas, resulta em um material amorfo e rico em sílica denominado “bamboo leaf ash - (BLA)”. (Tabela 1). (OLUGBENGA, O. A.; AKIMWOLE, A. A., 2010). A cinza resultante da queima controlada de folhas de bambu é um material pozolânico que reage com hidróxido de cálcio Ca(OH)2 formando o silicato de cálcio hidratado (C-S-H), material responsável pelas qualidades hidráulicas do cimento Portland. A atividade pozolânico de cinzas de folha de bambu aumenta com o aumento do tempo e da temperatura (DWIVEDI et al., 2006). A cinza quando utilizada deve ser selecionada observando que a tolerância na presença de carbono não deve ultrapassar 5%, o que prejudicaria a reação, retardando a ação pozolânica da mistura, a utilização de cinza volante na estabilização de misturas de solo cal deve seguir uma proporção correta, com resultados melhores do que o uso indiscriminado desse material (Guimarães, 2002). Para a obtenção da cinza amorfa, é necessário calcinar a matéria prima em temperaturas entre 500 ºC e 700 ºC por tempo controlado até a total dissociação do material orgânico. (Mehta; Monteiro, 1994). Quando o material é calcinado em temperaturas acima de 700 ºC ou por tempo prolongado, ocorre a organização e a expansão do cristal da sílica, diminuindo sua atividade pozolânica, atuando apenas como um agregado fino. (Rodrigues, 2008). Conforme NBR 13749, (1996), “quando superficial, a fissura pode ser preenchida com o material de acabamento do revestimento: massa corrida de preparo da superfície a ser pintada, cola do material de acabamento (papel de parede, forração), argamassa colante, ou preenchimento com a própria argamassa”. 5. MATERIAIS, ENSAIOS E MÉTODOS 5.1 Materiais e misturas experimentais O trabalho foi desenvolvido com um traço de cal, solo, areia artificial (de pedra britada) e água, na proporção 1:1:3:1 (traço misto). A esse traço foi adicionada 1/2 parte de cinza de bambu para uma comparação e análise do comportamento em seu estado endurecido pós cura. Os corpos de prova foram submetidos a ensaios mecânicos de compressão e tração à flexão e análise de fissuras. 3 Tabela 1 – Análise química da cinza de bambu (OLUGBENGA, O. A.; AKIMWOLE, A. A., 2010). Composition (Wt%) System SiO2 Al2O3 Fe2O3 CaO MgO K2O NaO TiO2 SO3 IR L0I BLA 75,9 0 4,13 1,22 7,47 1,85 5,62 0,21 0,20 1,06 - -
  4. 4. IV CONGRESSO DE ARQUITETURA E CONSTRUÇÃO COM TERRA NO BRASIL TerraBrasil 2012 5.2. Corpos-de-prova Para o preparo dos corpos de prova foram utilizadas: - 8 fôrmas de madeira (50 cm x 50 cm e espessura de 1,5 cm) para avaliar as fissuras. - 1 forma de madeira (4 cm x 4 cm x 40 cm) para análise de retração linear. - 8 fôrmas de aço (4 cm x 4 cm x16 cm) para moldagem dos corpos de prova prismáticos para ensaios de resistência à compressão e à tração na flexão. 5.3. Caracterização dos materiais Os materiais como a terra, areia artificial, cal hidratada comercial e cinza volante, foram caracterizados individualmente. 5.3.1. Solo Para esse estudo utilizou-se um solo proveniente do município de Atibaia, coletado em um canteiro de obras. O solo foi submetido a testes de granulometria, difração de raios-X (DRX), índice de plasticidade e retração linear. 5.3.1.1. Granulometria Com base nos percentuais apresentados pelo ensaio granulométrico (Figura 1) e resultados transcritos na Tabela 2, constata-se que o material é um solo areno-silto-argiloso com quantidade insignificante de pedregulhos. 4 Figura 1. Resultado do ensaio granulométrico do solo estudado
  5. 5. IV CONGRESSO DE ARQUITETURA E CONSTRUÇÃO COM TERRA NO BRASIL TerraBrasil 2012 5 Tabela 2. Percentual granulométrico do solo estudado Argila 23% Silte 26,5% Areia fina 13% Areia média 23% Areia grossa 12,5% 48,5% Pedregulho 2% 5.3.1.2. Índice de plasticidade O índice de plasticidade (IP) é obtido pela relação entre os valores de limite de liquidez (LL) e limite de plasticidade (LP), seguindo a fórmula IP = LP - LL. No ensaio de LP obtivemos um teor de umidade médio de 30,20%. Com 25 golpes foi possível determinar o LL de 38,80%, obtendo-se o IP de 8,60% (Figura 2). DETERMINAÇÃO DE LIMITES 10 4 6 ,8 7 18 4 1,19 2 3 3 9 ,3 5 2 8 3 7,75 3 3 3 6 ,73 50,0 47,0 44,0 41,0 38,0 35,0 10 15 20 25 30 35 NUMERO DE GOLPES TEOR DE UMIDADE CURVA DETERMINAÇÃO Figura 2 – Curva para determinação do limite de liquidez do solo Relacionando isoladamente o resultado obtido no ensaio de IP com os percentuais estabelecidos na Tabela 4, o solo classifica-se como um material silto-arenoso, porém com base no ensaio anterior (Tabela 2), a quantidade de areia é muito superior a de silte, confirmando um solo areno-silto-argiloso.
  6. 6. IV CONGRESSO DE ARQUITETURA E CONSTRUÇÃO COM TERRA NO BRASIL TerraBrasil 2012 Tabela 3 – Classificação dos solos em função dos índices de plasticidade (CRATerre, 1979) Tipo de solo IP (%) LL (%) Arenoso 0 a 10 0 a 30 Siltoso 5 a 25 20 a 50 Argiloso > 20 > 40 5.3.1.3. Difratograma de raios-X O DRX serve como ferramenta para identificação qualitativa dos compostos de um material, no caso do solo, seus argilominerais (Figura 3). A análise quantitativa desses compostos é apresentada na Tabela 4. Os comportamentos físico-químicos de uma argila são influenciados por seus argilominerais. Pelos resultados apresentados, os compostos desse material não apresentam comportamento expansivo ao secar, tornando este solo adequado para o trabalho. 6 Tabela 4 – percentuais apresentados no ensaio de DRX Caulinita (KA) 90 % a 95% Nomenclatura Ilita (IL) 5% a 10% Gibbsita (GIB) < 1% Goethita (GO) < 1% Hematita (HE) < 1% Solo mineralógicamente composto por quartzo, feldspato, mica e caulinita Figura 3 – difratograma de raios-X do solo selecionado para os ensaios 5.3.2. Cal A cal adotada para este trabalho foi a cal hidratada CH-III, fabricada pela Votorantim Cimentos S.A. O produto atende às exigências físico-químicas da norma, enquadrando-se como cal cálcica, com teor de óxido de cálcio entre 90% e 100% dos óxidos totais presentes conforme NBR 7175 (ABNT, 2003). Sua massa unitária é de 0,666 Kg/dm3. Demais informações foram fornecidas pelo fabricante (Tabela 5).
  7. 7. IV CONGRESSO DE ARQUITETURA E CONSTRUÇÃO COM TERRA NO BRASIL TerraBrasil 2012 7 Tabela 5 – Classificação físico-quimica da cal CH-III do fabricante Votorantim Cimentos S.A. 5.3.3. Areia artificial Os ensaios utilizaram areia artificial, resultante de britamento de rochas, proveniente da pedreira Jaguari da cidade de São Paulo, composta predominantemente de minerais de feldspato, quartzo e mica. Esse material surge como uma alternativa de proteção às jazidas de areia natural que são exploradas em larga escala com impactos ambientais significativos.
  8. 8. IV CONGRESSO DE ARQUITETURA E CONSTRUÇÃO COM TERRA NO BRASIL TerraBrasil 2012 Visualmente as partículas de areia natural tem uma forma mais arredondada quando comparada com a areia artificial. Por esse motivo, a areia natural com partículas subarredondadas produz um material final com menor absorção por capilaridade, porém de menor resistência à compressão e à tração na flexão que argamassas produzidas com areia britada de partículas angulosas (Silva; Buest; Campiteli, 2005). O material ensaiado apresentou um módulo de finura 2,66, considerado baixo para agregados, somado a um alto teor de material fino (Figura 4). Os finos em excesso atuam de forma negativa, deixando muitos espaços vazios e consomem maior quantidade de água. Quando há o equilíbrio entre as partículas, o preenchimento de todos os espaços por diversos tamanhos torna o material mais coeso e resistente em função do menor número de vazios em seu arranjo granulométrico. A massa unitária dessa areia artificial foi 1,518 kg/m3. 8 Figura 4 – Curva granulométrica do agregado miúdo – areia artificial 5.3.4. Cinzas de bambu Para a obtenção desse material, foram coletadas varas de bambu com galhos e folhas da espécie Dendrocalamus Giganteus e incinerados sem controle de temperatura. A cinza resultante dessa queima foi peneirada em peneira de abertura 2 mm e adicionada ao traço padrão na razão de 1/10 do volume total dos agregados, prevendo sua atuação como material pozolânico natural de origem vegetal. 5.4. Preparo dos materiais Para a produção da argamassa de cal padrão (AC), os agregados e o aglomerante foram peneirados em peneira de abertura 4 mm, misturados respeitando o traço adotado T1 (Tabela 6). Os materiais foram misturados a seco e homogeneizados, e posteriormente foram misturados com água conforme exigência da NBR 7200 (ABNT, 1998) para a correção de quaisquer oxido de cálcio (CaO) mal hidratado. Após a homogeneização e umedecimento inicial, o material ficou em repouso por 7 dias. Essa mistura foi novamente peneirada, misturada mecanicamente a seco com o auxílio de uma betoneira. A cinza de bambu na argamassa foi incorporada durante o processo de amassamento. Esse traço com cinza (ACC) foi denominado T2.
  9. 9. IV CONGRESSO DE ARQUITETURA E CONSTRUÇÃO COM TERRA NO BRASIL TerraBrasil 2012 9 Tabela 6 - Traços utilizados para o estudo das argamassas relacionados em volume Nome Traço Areia artificial Solo Cal Cinza AC *T1 3 1 1 0 ACC T2 3 1 1 0,5 * traço referência aplicado empiricamente com bons resultados em alvenarias de terra crua. Para T1, a mistura foi hidratada com 1/7 de água e misturada manualmente até atingir uma consistência plástica e homogênea. A mistura descansou por 20 minutos antes da moldagem das placas (4 unidades) e prismas (4 unidades). Para T2, foi incorporada a seco no traço uma décima parte de cinza de bambu para a moldagem de outras placas (4 unidades) e prismas (4 unidades). 5.5. Comportamento da argamassa no estado seco Após a moldagem das placas e prismas, o material descansou por 28 dias quando iniciaram as observações quanto a fissuração das placas e as determinações de suas propriedades mecânicas: resistência à compressão e resistência à tração na flexão. 5.5.1. Abertura de fissuras Nas oito placas produzidas (Figura 5) foi observada a abertura de fissuras semelhantes para os dois traços. Para cada traço, duas placas apresentaram fissuras significativas e duas não. Para essa análise de fissuras, foram medidas a extensão e sua abertura. Do produto desses valores foi retirada a média, obtendo-se um valor expresso em cm2. Para o traço T1, o valor médio da abertura de fissuras foi 4,67 cm². Para o traço T2, o valor médio da abertura de fissuras foi 6,94 cm². Com o resultado médio das fissuras, é possível observar que as placas com o traço T2, contendo as cinzas, foram as que apresentaram maior quantidade de fissuras. Esse comportamento ocorre com o aumento de partículas finas que em função da queima descontrolada da cinza, não formaram a sílica necessária para reagir positivamente com a cal, criando uma maior área de superfície de partículas inertes (carvão), resultando em uma maior água adsorvida, espaços vazios e maior porosidade ao secar. Argamassa de cal (AC) para T1 Argamassa de cal com cinza (ACC) para T2 Figura 5 – Caracterização das fissuras apresentadas pelos dois traços ensaiados
  10. 10. IV CONGRESSO DE ARQUITETURA E CONSTRUÇÃO COM TERRA NO BRASIL TerraBrasil 2012 5.5.2. Resistência mecânica Os ensaios de resistência à compressão e à tração na flexão foram obtidos em corpos de prova prismáticos 4 cm x 4 cm x 16 cm, quatro para T1 e quatro para T2, segundo a NBR13279 (ABNT, 2005). Os resultados estão apresentados na Tabela 7. O traço T1 foi superior em ambos os ensaios. 10 Tabela 7 – resultados de resistência à tração na flexão e compressão axial para T1 e T2 Índice médio Tração na flexão (MPa) Compressão axial (MPa) Traço padrão (T1) 0,654 2,522 Traço com cinza (T2) 0,630 1,591 Baseado nos estudos de Olugbenga e Akimwole (2010) e de Dwivedi et al. (2006) a cinza utilizada neste trabalho proveniente de uma queima descontrolada serviu somente como material inerte. Figura 6. – ensaio de resistência à compressão Figura 7. – Ensaio de resistência à tração na flexão 5.5.3. Retração linear Para assegurar de que o solo não interferiu negativamente em todos os resultados, foi feito um ensaio de retração linear com uma fração de argila passada na peneira #10 (1,68 mm) e outro para a argamassa padrão. Podemos afirmar que a retração espontânea do solo é pequena e dentro dos índices aceitáveis, com valor de 2,5% (Figura 8) estando totalmente dentro dos padrões aceitos pela construção com terra, onde o recomendado é um valor menor que 4% (Minke, 2001). Figura 8 – Comparativa entre os ensaios de retração linear da fração argilosa da terra.
  11. 11. IV CONGRESSO DE ARQUITETURA E CONSTRUÇÃO COM TERRA NO BRASIL TerraBrasil 2012 6. CONCLUSÕES Na analise dos resultados obtidos em laboratório ficou evidente em todos os ensaios, que o traço T1 (traço sem cinzas de bambu) teve um comportamento superior ao traço T2 (traço com cinzas de bambu). Isso indica que a quantidade e principalmente a qualidade da cinza utilizada atuou de forma negativa na mistura. O bambu incinerado sem controle resultou em um material inerte que desempenhou apenas o papel de agregado fino. A combinação da cinza com a areia artificial, que também apresenta excesso de finos, resultou em uma mistura menos resistente. Para se afirmar ao certo o papel desempenhado pela cinza de bambu utilizada, são necessárias mais investigações com outras técnicas de queima e de analise, tais como DRX e análise química, para maior conhecimento dos compostos encontrados no material utilizado. 7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Associação Brasileira de Normas Técnicas (1996). NBR 13749 - Revestimentos de paredes e tetos de argamassas inorgânicas - (Anexo B – Informativos – B.2 - Fissuras). Rio de Janeiro: ABNT Associação Brasileira de Normas Técnicas (1998). NBR 7200 - Execução de revestimento de paredes e tetos de argamassas inorgânicas - Procedimento. Rio de Janeiro: ABNT Associação Brasileira de Normas Técnicas (2001). NBR 13281 Argamassas para assentamento e revestimento. Rio de Janeiro: ABNT Associação Brasileira de Normas Técnicas (2003). NBR 7175 Cal hidratada para argamassas. Rio de Janeiro: ABNT Associação Brasileira de Normas Técnicas (2005). NBR 13279 Argamassa para assentamento – Resistência à compressão. Rio de Janeiro: ABNT Barbosa, N.P, Ghavami, K, (2010). Terra Crua para Edificações. Materiais de construção civil e princípios de ciência e engenharia de materiais, Cap. 48. São Paulo: ed. G.C. Isaia. 2.ed., IBRACON, 2v. Cincotto, M. A.; Quarcioni, V. A.; John, V. M. (2010). Cal na construção civil. Materiais de construção civil e princípios de ciência e engenharia de materiais. Cap. 22. São Paulo: ed. G.C. Isaia. 2.ed. IBRACON, 1v. CRATerre – Centre Internacional de la Construction en Terre. (1979). Construire en terre. Paris. Dwivedi, V.N. et al, (2006) A new pozzolanic material for cement industry: Bamboo leaf ash - International Journal of Physical Sciences Vol. 1 (3), pp. 106-111, November – India. Guedes, A. B. (2000). Fabricação e controle de qualidade de cal e cimento. Salvador: Universidade Federal da Bahia – Química Industrial I Guimarães, J. E. P. (2002). A cal – fundamentos e aplicações na engenharia civil. 2ª ed. São Paulo: Ed. PINI. Mehta, P. K.; Monteiro, P. J. M. (1994). Concreto: estrutura, propriedades e materiais. São Paulo: PINI. MINKE, G. (2001). Manual de construcción en tierra: la tierra como material de construcción y sus aplicaciones en la arquitectura actual. Montevidéu: Nordan-Comunidad. Neves, C. M. M.; Faria, O. B.; Rotondaro, R.; Cevallos, P. S.; Hoffmann, M. V. (2009). Seleção de solos e métodos de controle na construção com terra – práticas de campo. Rede Ibero-americana PROTERRA. 11
  12. 12. IV CONGRESSO DE ARQUITETURA E CONSTRUÇÃO COM TERRA NO BRASIL TerraBrasil 2012 Olugbenga, O. A.; Akimwole, A. A. (2010) - Characteristics of Bamboo Leaf Ash Stabilization on Lateritic Soil in Highway Construction - International Journal of Engineering and Technology Vol.2(4), pp. 212-219 – Nigéria. Rodrigues, M. S. (2008). Caracterização de cinza residual da queima de casca de arroz para a produção de argamassa. Dissertação (mestrado). Campinas: Universidade Estadual de Campinas, Faculdade de Engenharia Agrícola. Silva, N. G.; Buest, G.; Campiteli, V. C. (2005). Argamassas com areia britada: influência dos finos e da forma das partículas. VI Simpósio Brasileiro de Tecnologia de Argamassas / I International Symposium on Mortars Technology, Florianópolis. Souza, J. de (2008). Estudo da durabilidade de argamassas utilizando cinzas e casca de arroz. Campina Grande. AUTORES Michel Habib Ghattas, Arquiteto e urbanista graduado pela FAAP, bioconstrutor, instrutor de cursos de bioconstrução e colaborador instrucional no curso de Pós-graduação em Construções Sustentáveis da FAAP. +55-11-9229-1555, mhabib@terra.com.br. Ademir Almeida, Técnico de laboratório, Departamento de Arquitetura e Construção, Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo, Universidade Estadual de Campinas, Av. Albert Einstein, 951 - Caixa Postal: 6021 - CEP: 13083-852 - Campinas – SP, +55-19-35212367, aalmeida@fec.unicamp.br Gladis Camarini, Professora Associada, Departamento de Arquitetura e Construção, Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo, Universidade Estadual de Campinas, Av. Albert Einstein, 951 - Caixa Postal: 6021 - CEP: 13083-852 - Campinas – SP, +55-19-35212361, camarini@fec.unicamp.br 12

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