Pequena coletânea de poetas afro-brasileiros

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Pequena coletânea de poetas afro-brasileiros

  1. 1. Lino Guedes. Poeta paulista, nascido em Socorro em 1906. Morreu em 1951. Autor de Canto do Cisne Negro, Ressurreição Negra, Urucungo, Negro Preto Cor da Noite, Sorrisos do Cativeiro, etc. A PRIMEIRA PALAVRA Mas que revolução vai, por todo esse povo bravo! o negrinho envés de pai ou mesmo mãe, disse - "ai" como qualquer outro escravo. NOVO RUMO! Negro preto cor da noite, Nunca te esqueças do açoite Que cruciou tua raça. Em nome dela somente Faz com que nossa gente Um dia gente se faça! Negro preto, negro preto, Sê tu um homem direito Como um cordel posto a prumo! É só do teu proceder Que, por certo, há de nascer A estrela do novo rumo! (Negro preto cor da noite, 1936)
  2. 2. DITINHA Penso que talvez ignores, Singela e meiga Ditinha, Que desta localidade És a mais bela pretinha: Se não fosse profanar-te, Chamar-te-ia... francesinha! Então, quando vais à reza Com teu vestido de cassa, Não há mesmo quem não fale, Orgulho da minha raça: – Olha que preta bonita E que andar cheio de graça!... Se às vezes sorrio, a esmo, Não me tomes por caduco. Com teu vulto nos meus olhos, Ando como aquele turco Que, doloroso destino, Ao te ver, ficou maluco... Ah! Se souberas, Ditinha, Que por sob essa aparente Frieza, (quem tal diria!...) Eu peço constantemente, A Deus que um dia nos ponha Numa casinha sem gente... (Ditinha, 1938)
  3. 3. Adão Ventura Mineiro do Serro, nascido em 1946. Advogado. Viagens pelos Estados Unidos e África. Autor de vários livros de poemas, entre eles A Cor da Pele EU PÁSSARO PRETO eu, pássaro-preto, cicatrizo queimaduras de ferro em brasa, fecho corpo de escravo fugido e monto guarda na porta dos quilombos. PRETO DE ALMA BRANCA ALGUMAS CONCEITUAÇÕES o preto de alma branca e o seu saco de capacho o preto de alma branca e os seus culhões de cachorro o preto de alma branca e a sua cor de camaleão o preto de alma branca e o seu sujar na entrada o preto de alma branca e o seu cagar na saída o preto de alma branca e o seu sangue de barata cada vez mais distante do corpo da Grande Mãe-África
  4. 4. FAÇA SOL OU FAÇA TEMPESTADE faca sol ou faça tempestade, meu corpo é fechado por esta pele negra. faça sol ou faça tempestade meu corpo é cercado por estes muros altos, - currais onde ainda se coagula o sangue dos escravos. faça sol ou faça tempestade, meu corpo é fechado por esta pele negra SolanoTrindade Poeta pernambucano, filho de um sapateiro, nascido em 1908. Emigrou para São Paulo. Foi operário e colaborou na imprensa. Trabalhou no cinema e manteve um grupo teatral folclórico por vários anos. Escreveu Poemas de uma Vida Simples e Cantares do Meu Povo O CANTO DA LIBERDADE Ouço um novo canto, Que sai da boca, de todas as raças, Com infinidade de ritmos... Canto que faz dançar, Todos os corpos,
  5. 5. De formas, E coloridos diferentes... Canto que faz vibrar, Todas as almas, De crenças, E idealismos desiguais... Š o canto da liberdade, Que está penetrando, Em todos os ouvidos... ZUMBI Zumbi morreu na guerra Eterno ele será Rei justo e companheiro Morreu pra libertar Zumbi morreu na guerra Eterno ele será Se negro está lutando Zumbi presente está Herói cheio de glórias Eterno ele será À sombra da gameleira A mais frondosa que há Seus olhos hoje são lua, Sol, estrelas a brilhar Seus braços são troncos de árvores Sua fala é vento é chuva É trovão, é rio, é m
  6. 6. EU GOSTO DE LER GOSTANDO Eu gosto de ler gostando, gozando a poesia, como se ela fosse uma boa camarada, dessas que beijam a gente gostando de ser beijada. Eu gosto de ler gostando gozando assim o poema, como se ele fosse boca de mulher pura simples boa libertada boca de mulher que pensa... dessas que a gente gosta gostando de ser gostada. Abelardo Rodrigues Paulista. Nasceu em Monte Azul Paulista em 1952. Operário de fábrica, bancário, jornalista. Vive a maior parte de sua vida entre sua cidade natal, São José dos Campos e São Paulo. Autor de Memória da Noite, São José dos Campos (SP), 1978. ESPERANÇAS Respiro esta fumaça de novas idéias com meus pés meus dentes de desejos minhas garras de sonhos Quero transpassar as barreiras alvacentas
  7. 7. de velhas datas enovelar-me entre espirais de um novo amanhecer buscando jazidas de esperanças em jazigos libertos uma cunha nos contra-fortes dos homens já saudosos de velhos tempos A dor reumática do poeta: ferir ossos com palavras revolver monturos mesquinhos de sangue enrijecendo as juntas vencer tormentas aquosas no vazio da realidade canto-angústia maior de sua mente. Estevão Maya Maya Maranhense, nascido em 1943, em Pano Grosso-Viana. Cantor, compositor, musicólogo e autor teatral. Publicou, junto com Vilmar Alves Ribeiro, Cantiga Pra Gente de Casa, Chegada em Cima da Hora. ANGI AMI (IRMÃ) Ê Satu Maya, P canta mais uma cantiga que eu quero aprender. Moro em terras de brancos e quero cantar numa língua que eles não possam entender. Canta uma toada antiga ou mesmo um vissungo. Se andas um pouco esquecido
  8. 8. pergunta pro meu pai como é aquela toada bonita que fala do sereno da madrugada... Tu eras bom Cantadô! Agora, sei que estás melhor ainda... tu mesmo sempre dizias: coco velho é que dá bom azeite. Eu aqui na cidade não sou Cantadô: sou cantor... O dia em que eu chegar à casa vamos cantar boi, tambô e bambaÍ. Eu também sou Cantadô de primeira É o que eu vou te mostrar. Ângela Lopes Galvão CERCAS essa linha ilusória que separa, delimita altruísmo do egoísmo amor da desesperança medo da confiança fraqueza da segurança me afasta, obscurece e sobretudo questiona a desconhecida que sou de mim mesma
  9. 9. DESENCONTRO Procuro no espelho desses rostos negros nesse pele marcada nesse ombro curvado, ainda que forte nessas mãos atadas ainda que vazias o desejo de luta que... sucumbo ante a espera e encontro o medo e sob ele ainda perceptível o grito quase inaudível sufocado pelo próprio riso que retesa o pranto contido guardado o coração pulsando como que cronometrando os segundos que restam para a inevitável explosão RETRATAÇÂO Bela desejável atraente mulher mulher negra negra mulher oprimida
  10. 10. tangenciada traída e enxovalhada, usada. manipulada mulher submissão negra, inferiorização o peito latente clama a boca tapada geme o coração magoado anseia e luta e sonha e espera Ele Semog Vive em São Paulo. Autor, com José Carlos Limeira, de O Arco-Îris Negro, 1978. ESTÓRIAS SOBRE NEGROS III Sois da mesma Sorte Que os outros. Tendes as mesmas Mãos calejadas De tanto polir A terra, E a angústia, velha Saudade do seio
  11. 11. Distante Sim NEGRO Sois a ferida Incurável Da América. São Paulo, 1975 NOTÍCIAS Tem negros passando Nas ruas E samba no fundo Do quintal Ave livre no ar Tem casas com portas abertas Lençol branco no varal Crianças empinando pipa E moças passando a ferro Velhas acendendo velas E cheiro de defumador. Tem céu estrelado todas as noites E lavoura bem dividida Tem escola e capoeira Tem tantos sonhos na vida Daquela gente primeira. Tem negros contando histórias Que o tempo não pode perder Tem flores por todo lado Portas e janelas abertas Tem rei e tem guerreiros Unidos na vila inteira Tem casas com portas abertas. Palmares veia viva Palmares que tanto sonho
  12. 12. Palmares, Palmares, meu amor De portas e janelas abertas. De O Arco-Íris Negro, São Paulo, 1978 ESTÓRIAS SOBRE NEGROS III Sois da mesma Sorte Que os outros. Tendes as mesmas Mãos calejadas De tanto polir A terra, E a angústia, velha Saudade do seio Distante Sim NEGRO Sois a ferida Incurável Da América. Oswaldo de Camargo Poeta paulista. Nasceu em Bragança Paulista em 1936, filho de apanhadores de café. Na adolescência foi seminarista. Também músico, jornalista e romancista. Autor de extensa obra, entre poesia, prosa de ficção, antologias, artigos. Alguns títulos: Um Homem Tenta Ser Anjo, 1959; 15 Poemas Negros, 1961; O Carro do xito, 1964. O SAUDOSO GUARDADOR DAS RESES Bem sei que o moço corpo nesta sala É parte de objetos: mesa, vaso, cadeiras e a estante de verniz... E a cidade cerca o véo fundo
  13. 13. do pensamento livre destes ciscos... Às vezes largo a pressa e o olho baço percorre a extensão da pele enxuta, e julgo ali rever o amado sítio hoje pousado sobre relembranças... Nas tardes, se vou só, prossigo a luta para o retorno àquele tempo, idade inusitada em terras desse nunca- mais. Contudo em minha pele tento criar, há muito tempo, um boi... Bem sei que o moço corpo nesta sala É parte de objetos: mesa, vaso, cadeiras e a estante de verniz... Porém, vos digo: o gado me persegue até agora e eu cheiro o seu estrume, só o detém aqui os edifícios, que os homens erguem contra o bucolismo... À noite, durmo um nada, suportando berros de cabras no palheiro d'alma.. Vilmar Alves Ribeiro Maranhense, nascido em 1954. Jornalista e poeta. Viveu em Pernambuco vários anos. Autor de Quem Dá Murro em Ponta de Faca, Entre Quatro Paredes, Cantiga Pra Gente de Casa, Chegada em Cima da Hora (junto com Estêvão Maya-Maya), etc. JÚLIA(eh eh... ) Vim pra te dizer adeus, apesar da saudade que irei sentir, da solidão que é claro, ficará comigo e contigo. Não ouvirás mais o ranger da porta do elevador, nem o toc, toc, toc, toc, da madeira sob meus saltos de sapatos na escadaria... vim te dar boa noite, te dizer adeus e sumir sob o silêncio da noite, emaranhada no vaivém do portão que ficará atônito às minhas costas. Não chores! os teus anos poucos, ainda te farão feliz, e essa noite se perder• por terra com tuas lágrimas. Antes de ir-me, quero lembrar-lhe: não esqueças o Praticante; alimente-o sempre É um cachorro valoroso...
  14. 14. A propósito, não paguei a luz, nem o condomínio, não me restou nada... deixo tudo sobre a penteadeira. Consertei a pia da cozinha e a torneira do banheiro, lavei os pratos e os deixo no secadouro. Seu Arnaldo falou-me da conta da mercearia; paguei-lhe os duzentos cruzeiros!... Ah! dona Teresinha, sua mãe, telefonou - ela queria a receita do pão... não sei, não sei como se faz! Então disse-lhe que você a levaria amanhã. - Ainda não sei, é possível que me vá pro norte, ou pra Cuba ou pra Rússia; quem sabe Angola, Moçambique, sinceramente ainda não sei aonde irei. Ora! guarde essas lembranças, são boas, são más, elas valem como nós em nós... dias, horas e horas... não te esqueças, viu! do Praticante. Coma bem... e quando fores ver a Severina, dá um beijo nos meninos por mim. - Ainda não sei, num já disse? Que teimosia! Talvez Londres, Paris... É, dizem que lá é bom... ou a Tchecoslováquia, ainda não sei... Só vim te dizer adeus, não chores!... São Paulo, 25/12/79 José Carlos Limeira José Carlos LIMEIRA Marinho Santos, nasceu em Salvador –BA em 01 de maio de 1951. Engenheiro Mecânico, atualmente é Assessor Técnico da Reitoria da Universidade do Estado da Bahia. Escreve poemas, contos, crônicas e artigos publicando desde 1971. Entre seus livros, Zumbi... dos, Lembranças, O Arco Íris Negro (parceria com Éle Semog), Atabaques (parceria com Éle Semog). Participou de vários números dos Cadernos Negros e das Antologias Schwarze Poesie (Ed. Diá-Alemanha), Schwarze ... TREZE Cansado de ser servido, em prantos regados de cor e som para comensais risonhos, que dilaceram nossos valores, com os dentes afiados. Quero agora, no momento lúcido gritar o necessário fato, de que os treze ou treze não nos diz nada além
  15. 15. do que vocês, caros convivas, querem mostrar, encobrir, ostentar. Criaram fotos coloridas, comemorações festivas, toques de tambores e atabaques, para mostrar que somos livres, felizes, e aceitos. Tolas mentiras! somos sim: lascas de suor, cortes de chicotes, cheiro de fogão entradas de serviço. Precisamos fazer algo sim para que ao invés do paternalismo brutal da gentil princesinha haja a liberdade de podermos realmente abrir a porta desta senzala para fazer a festa da cor real do som dos atabaques de danças e corpos que rasgarão a noite, os tempos no verdadeiro canto da ABOLIÇÃO que ainda não houve.
  16. 16. PPeeqquueennaa ccoolleettâânneeaa ddee ppooeettaass aaffrroo--bbrraassiilleeiirroo

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