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Editorial

Publicação 2011.
                                                                          Marcel Ayres, Renata Cerqueira e Tarcízio Silva
Título:
Mídias Sociais e Eleições 2010                                   A PaperCliQ é uma agência focada em comunicação e
                                                                 estratégia, cujo principal objetivo é posicionar diferentes
Autores:                                                         organizações no universo digital. Entre os seus principais
Adriana Cristina Omena Dos Santos   Mariana Oliveira             serviços, estão: Planejamento Estratégico Digital,
Ana Brambilla                       Martha Gabriel               Monitoramento e Mensuração Online, Produção de
Ana Maria Bicca                                                  Conteúdo e Relacionamento em Mídias Sociais, Coolhunting
                                    Murillo de Aragão
                                                                 etc. Para saber mais, acesse www.papercliq.com.br | www.
Andreia Martins                     Natália de Oliveira Santos      slideshare.net/papercliq | www.twitter.com/papercliq.
Anna Paula Castro Alves             Nina Santos
Carlos Manhanelli                   Patrícia Rossini
Carolina Tomaz Batista              Renata Cerqueira
Claudiana Silva                     Ruan Brito                                  Nina Santos
Danila Dourado                      Samantha Shiraishi           Nina Santos é assessora de comunicação política e
Eliane Fronza                       Sueli Bacelar                pesquisadora do Centro de Estudos Avançados em
Fernanda Fabian                     Tarcízio Silva               Democracia Digital e Governo Eletrônico (CEADD-
Gabriela da Fonseca                                              UFBA). Atua especialmente com estratégias políticas online,
Gil Castillo                        Direção de arte:             gerenciamento de perfis online, assessoria de comunicação
Larissa Oliveira                    Caio Sá Telles                              online e campanhas online.
Leandro Mazzini                     Danila Dourado
Luiz Marcos Ferreira Júnior         Rodrigo Lessa
Marcel Ayres                                                                      Ruan Brito
                                                                 Ruan Carlos Brito é publicitário (UFPA), mestre em
                                                                 Comunicação e Cultura Contemporâneas (UFBA),
                                                                 especializando em Comunicação e Política (UFBA). Atua
                                                                 nas áreas de Marketing Eleitoral, Assessoria de Comunicação
                                                                 Política, Gerenciamento e Monitoramento de Mídias Sociais.
Apresentação




Em um momento em que qualquer pessoa          Expectativas e comparações com as elei-          tores convidados ou selecionados por Cha-
com acesso a determinadas tecnologias e       ções americanas de 2008 foram inevitáveis,       mada de Trabalho, apresentam neste ma-
habilidades técnicas tem a possibilidade de   mas, entre os extremos do otimismo e do          terial suas formulações, entendimentos ou
registrar e compartilhar suas impressões de   pessimismo, profissionais e cidadãos bra-        estudos de casos que relacionam as tecno-
mundo, opiniões, gostos, desejos e satisfa-   sileiros fizeram sua própria história. Este      logias online às eleições brasileiras.
ções, também surge outra possibilidade de     ebook, organizado e escrito por pesquisa-
se construir a história. De forma colabo-     dores teóricos e práticos de comunicação         Reunimos aqui variadas e ricas abordagens
rativa, cada usuário de internet realiza, em  política e/ou comunicação digital, é uma         sobre esta temática tão fascinante e desafia-
menor ou maior grau, um grande registro       iniciativa para registros referentes às elei-    dora para qualquer pessoa que se proponha
dos acontecimentos de seu tempo.              ções de 2010, servindo de insumo às diver-       a compreender as características de nossa
                                              sas classes de atores sociais envolvidos no      sociedade e de nossa época. Esperamos que
Em 2010, foi a vez de uma grande massa de processo: assessores, marketeiros, consul-           este e-book funcione como um apanhado
cidadãos, individualizados em seus usos da tores, jornalistas, políticos e cidadãos.           teórico e prático, diversificado e amplo, que
internet, observar, criticar e interferir nas                                                  contribua com o debate acerca das mídias
eleições brasileiras. Com as possibilidades e A proposta deste e-book é reunir diferentes      sociais e dos processos políticos no Brasil.
as restrições de uma legislação eleitoral que olhares daqueles interessados em examinar
não podia mais ignorar os avanços na des- e refletir sobre o papel que as mídias sociais
centralização da comunicação, novos desa- podem exercer nos processos eleitorais.
fios e oportunidades se apresentaram para Com isso, pessoas com diversas formações
os brasileiros.                               e trajetórias, profissionais e estudantes, au-
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Mídias Sociais e Eleições 2010
Convidados
06. Redes sociais e eleições em 2010
08. De @Candidato para @Eleitor. Enter!
11. Mídias Sociais e as Eleições Brasileiras de 2010
14. A influência da campanha Obama nas eleições brasileiras de 2010
21. Comunidades do Orkut sobre Presidenciáveis nas Eleições Brasileiras de 2010
29. O papel da militância através das redes sociais durante as eleições
38. Democracia, eleições e redes sociais online: uma possibilidade de pluralização do diálogo
45. Branded Content nas Eleições 2010
57. Interface entre Jogos Sociais e Política: Oportunidades e Estratégias de Diferenciação
66. Monitoramento de Conversações sobre Políticos: prática, limites e possibilidades
71. Blog do Terra sobre Mídias Sociais e Eleições
76. A cobertura da primeira campanha on line na redação de A TARDE
81. Controle e Espetáculo - Privacidade & Transparência na Política e Eleições


Selecionados
89. A interação e a mobilização nas redes sociais dos três princiais presidenciáveis
97. Candidatos Virtuais: O oficial e o oficioso no ciberespaço
104. O papel do blogueiro e o engajamento espontâneo nas eleições
111. O Twitter e as Campanhas Políticas: Uma Análise da Conversação dos Presidenciáveis
117. O Uso do Twitter pelos Presidenciáveis
126. Participação política na Era Digital: um estudo de caso das #Eleições2010
135. Midias sociais e a aproximação do eleitor com o candidato
142. A campanha virtual pode ser igual para todos os candidatos?
148. Política? “E eu com isso?”
151. A relação entre redes sociais na internet e o certame eleitoral no Brasil
F
                                                                                                           inalmente, a internet e as redes
Redes sociais e eleições                                                                                   sociais tiveram um papel mais re-
                                                                                                           levante nas eleições brasileiras. Po-

em 2010                                                                                                    rém, como bem disse Pedro Doria
                                                                                                           em artigo no Estadão (31/10/10),
coluna                                                                                             ninguém venceu na rede. O empate entre
                                                                                                   os candidatos nesse meio de comunicação
                                                                                                   revela que, no limite, as redes sociais não
Por Murillo de Aragão                                                                              favoreceram ninguém nem foram decisivas
                                                                                                   para o resultado final.

                                                                                                   O Brasil de 2010 ainda é um país em que
                                                                                                   a penetração da internet é baixa, apesar da
                Advogado, jornalista, cientista político e presidente da Arko Advice Pesquisas     vocação do brasileiro para a rede e do seu
                e sócio da Aragão-Osório Advogados Associados. É Formado em Direito pela           potencial de crescimento explosivo. Sen-
                Faculdade de Direito do Distrito Federal, é mestre em Ciência Política pela
                Universidade de Brasília e doutor em Sociologia (estudos latino-americanos) pelo
                                                                                                   do assim, não houve qualquer episódio
                Ceppac – Universidade de Brasília. Em 2007, foi nomeado pelo Presidente da         nas redes que modificasse de modo claro
                República para o CDES – Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. É          e decisivo as tendências do processo elei-
                ainda articulista em vários veículos de imprensa, por exemplo: jornal O Tempo
                (Belo Horizonte), jornal O Liberal (Belém), Blog do Noblat, revista Conjuntura     toral. No futuro, no entanto, não deverá
                Econômica (FGV), entre outros.                                                     ser assim.
                www.arkoadvice.com.br
                www.blogdomurillodearagao.com.br                                                   Alguém diria, de pronto, que a campanha de
                www.twitter.com/murillodearagao                                                    desinformação em torno de Dilma Rousse-
                                                                                                   ff e o tema do aborto podem ter-lhe rou-
                                                                                                   bado votos na reta final do primeiro turno.
                                                                                                   Mas o estrago causado pela ação na web
                                                                                                   foi bem menor, por exemplo, que a maciça
                                                                                                   cobertura da mídia eletrônica em torno do
                                                                                                   caso Erenice Guerra.
Mídias Sociais e Eleições 2010


A situação seria diferente se tivéssemos um     mato na internet é um grave problema que trução de tendências e, claro, para a defini-
empate técnico, no qual “detalhes” como         termina por minar a própria credibilidade ção de resultados eleitorais.
as redes sociais poderiam pender em favor       do meio. No futuro, vejo a credibilidade
de um ou de outro candidato. Ao pontu-          das redes sociais sendo avaliadas por seu
ar tais aspectos volto a dizer que a internet   grau de transparência.
e as redes sociais foram importantes, mas
não decisivas.                                  Na prática, o Código Penal não vale na in-
                                                ternet e, de forma esperta, alguns grandes
A campanha teve aspectos interessan-            sites e redes se escudam nas legislações mais
tes ligados à internet e às redes sociais e     complacentes do mundo para não atuar de
que merecem destaque. O fato que mais           forma enérgica contra a prática de crimes
me chamou a atenção foi o uso do twit-          que envolvem a honra.
ter na mobilização da militância partidá-                                                                                                7
ria e de simpatizantes dos candidatos. No       Aos românticos, o anonimato tem um doce
caso brasileiro, é o que importa: mobilizar     sabor libertário. Quando se está a favor,
enormes contingentes eleitorais em favor        tudo é lindo e maravilhoso. Porém, quando
de uma candidatura. O twitter também            se é vítima de difamação e calúnias é como
serviu para informar eventos e antecipar        sofrer de bullying sem saber a identidade de
direções. Em especial, para repercutir as       seus agressores e sem ter a quem reclamar.
prévias das pesquisas, abundantemente
comentadas na rede.                             Como há complacência nas redes, podere-
                                                mos ter, como efeito colateral, ações restri-
Um segundo fato é que o uso da internet na      tivas no âmbito regulatório. Não devemos
disseminação da informação teve no ano-         esquecer que vai haver uma discussão sobre
nimato o seu pior e mais perverso aspecto.      o marco regulatório da internet no Brasil.
Nesse sentido, alinho-me a Arthur Scho-         Eleitoralmente falando, a questão é impor-
penhauer, que dizia que o anonimato serve       tante, já que no futuro as redes sociais e a
para tirar a responsabilidade daquele que       disseminação de informações por outras
não pode defender o que afirma. O anoni-        mídias terão peso ainda maior para a cons-
H
                                                                                                             á duas verdades incontestáveis
De @candidato para @eleitor
                          .                                                                                  sobre a relação entre internet
                                                                                                             e política depois das eleições

Enter!                                                                                                       de 2010. Ela veio para ficar e
                                                                                                             vai ganhar mais importância;
coluna                                                                                             e, da forma como foi usada, atrapalhou
                                                                                                   mais que ajudou.

Por Leandro Mazzini                                                                                É fato que as mídias sociais ganham es-
                                                                                                   paço a cada dia, a cada momento, a cada
                                                                                                   minuto em que você atualiza uma página
                                                                                                   do Orkut, Facebook, YouTube, Twitter e
                                                                                                   afins. Há poucos anos, era inimaginável
                Dez anos de experiência no jornalismo on-line e impresso, em coberturas            um político trocar o seu famoso “santi-
                políticas no Rio de Janeiro (2000 a 2006) e Brasília (2007 até hoje). Desde        nho” por uma boa foto sorridente em
                2007, assina o Informe JB, hoje no Jornal do Brasil Digital – coluna distribuída
                para diários do Paraná, Sergipe, Pará, e blogs de todo país. Comentarista da
                                                                                                   uma página pessoal criada especialmen-
                Rádio Digital News e da REDEVIDA de Televisão, no Jornal da Vida, em               te para a campanha. Aconteceu, como
                rede nacional, com boletins direto do Congresso ou do Palácio do Planalto.         num clique. Primeiro, porque a minirre-
                Apresentador do programa de debates semanal Tribuna Independente, ao vivo
                e em rede, na mesma emissora. Autor do livro “Corra que a Política Vem Aí”         forma eleitoral realizada em 2007 mu-
                (2010).                                                                            dou muito as campanhas, limpou as ruas
                www.leandromazzini.com.br
                                                                                                   de faixas e folders e outros materiais pu-
                www.jblog.com.br/informejb.php                                                     blicitários. Segundo, porque a inclusão
                www.twitter.com/leandromazzini                                                     digital cresceu incrivelmente – e ainda
                                                                                                   ocorre, neste momento – com a deman-
                                                                                                   da por computadores, os investimentos
                                                                                                   das telefônicas em internet e transmis-
                                                                                                   são de dados, e o projeto do próprio go-
                                                                                                   verno federal em implantar banda larga
                                                                                                   (para valer).
Mídias Sociais e Eleições 2010


Todos esses fatores colaboraram, então,         sobre presidenciáveis, candidatos a gover-     ve o contrário, o sujeito perde uma eleição.
para que nas últimas três eleições (e isso      nadores e deputados. Tudo em nome do di-       É a nova guerra política, a virtual.
conta os pleitos municipais) os candidatos      nheiro, a mentira pelo poder. Gasta-se com
trocassem o papel pela tela, o comício pelo     esse método – marqueteiros renderam-se a       Dentre todos os websites, inegável apon-
spam, o discurso pela mensagem online, e        este mecanismo –, há invasão de privacida-     tar o Twitter como o mais avassalador nes-
até o corpo a corpo por trocas de emails,       de – seu endereço eletrônico é distribuído     te cenário político. Em todos os sentidos.
comentários no blog, além de postagens no       ilegalmente não se sabe como –, e quem         Para o bem ou para o mal. O Twitter virou
Twitter. É o novo modus operandi das cam-       perde é toda a sociedade. Além dos pró-        um meio de comunicação social, em que
panhas eleitorais, um irreversível avanço na    prios candidatos, que, em vez de focarem       encontramos comunicados oficiais de go-
comunicação e no elo entre o político e o       o discurso propositivo, perderam valiosos      vernos e políticos antes mesmo que estes
eleitor – embora a internet possa, por outro    minutos em programas de rádio, TV, nas         anunciem nos meios tradicionais. Vê-se o
lado, iniciar um processo de distanciamen-      ruas e na própria internet para desmentir      exemplo deste poder do canal nos números
to entre o candidato e o cidadão. Acredito      cenários e citações falsas que se renovavam    de seguidores – na primeira quinzena de         9
que isso vá acontecer, e poderá tomar ru-       a todo dia. Perdeu o eleitor, por acreditar    dezembro de 2010, eram 1,3 milhão de se-
mos ainda misteriosos se a sociedade não        nelas e espalhá-las para seus contatos.        guidores para os três principais presidenci-
cobrar a aproximação, ou seja, o aperto de                                                     áveis que disputaram o pleito. Obviamente,
mão e os olhos nos olhos.                       Esse é o lado ruim da internet no país. Pa-    um número pequeno, 1% dos eleitores, mas
                                                ga-se um preço por isso: não há uma lei que    significantemente forte, por se tratarem de
A internet é um mundo virtual maravilho-        regulamente o uso da rede no Brasil. É um      multiplicadores de opinião na rede social e
so que também tem suas armadilhas. Ob-          assunto delicado, os parlamentares sabem.      na internet como um todo. Se, antes, um
viamente, em muitos casos ela nos priva da      Qualquer citação disso numa tribuna de ple-    “santinho” passava por poucas mãos, ago-
realidade. Mora aqui, logo, o fato de, em       nário e vira-se alvo de ataques que remetem    ra uma mensagem virtual chega a centenas,
2010, a rede eletrônica ter sido usada de tal   a uma palavra perigosa numa democracia:        talvez milhares de eleitores, em apenas um
forma maléfica – por maledicentes ocultos,      censura. Por ora, vê-se o que vê na internet   clique e em poucos minutos.
publicitários e inclusive políticos mal in-     porque não houve um debate sério, dedi-
tencionados – para prejudicar adversários.      cado e minucioso sobre as redes sociais. E,    A urna eletrônica e sua apuração acelerada
Não foram poucas as mensagens de falso          pelo que se viu na campanha, não interes-      foram um avanço. Mas já é pouco diante do
conteúdo disparadas por e-mail para mi-         sa a ninguém por ora. Cria-se um fato para     crescimento da internet e suas redes sociais,
lhões de eleitores, disseminando inverdades     prejudicar um adversário e, até que se pro-    com sua conectividade acelerada e a essen-
cial interatividade. Chegará um dia, e será
     breve, em que o cidadão poderá votar numa
     eleição seguramente pela internet, ou pelo
     celular – via torpedo ou voz. Como existem
     vantagens e desvantagens, o perigo desse
     mundo novo que engole as campanhas é
     que a relação entre o candidato, o eleitor e
     a democracia se torne tão virtual quanto a
     tecnologia que já domina a política.




10
I
                                                                                                        maginavam que no Brasil o sucesso das
Mídias Sociais e as Eleições                                                                            mídias sociais seria proporcional ao que
                                                                                                        ocorreu nos Estados Unidos. Pensavam

Brasileiras de 2010                                                                                     que o povo iria correr para seus celulares
                                                                                                        interativos, computadores e notebooks
                                                                                                    atrás de informações sobre seu candidato
                                                                                                    preferido, como se este fosse um ídolo do
                                                                                                    futebol, ator famoso ou um rockstar.
Por Carlos Manhanelli
                                                                                                    Acharam que a dona Maria e o tio Zé –
                                                                                                    que assistem novelas, o jornal por embalo
                                                                                                    e desligam a TV quando a conhecida tela
                                                                                                    azul com letras em branco anuncia que a
                 Jornalista, Publicitário, Radialista, Administrador de empresas. Especialista em   lei número 9.504/97 entra em ação com
                 Propaganda e Marketing pela ESPM, em Ciências Políticas pela FESP, MBA
                 em Marketing pela USP e Mestre em Comunicação Social pela Universidade
                                                                                                    seu horário eleitoral gratuito – se dariam ao
                 Metodista de São Paulo. Professor titular na cadeira de Comunicação Política       trabalho de buscar motivos para acreditar e
                 e Marketing Eleitoral no curso de pós graduação (Maicop) da Universidade           votar em um candidato na internet.
                 Pontifícia de Salamanca na Espanha. Presidente da ABCOP - Associação
                 Brasileira dos Consultores Políticos e Assessores Eleitorais. Autor de livros
                 como Estratégias Eleitorais e Marketing Político (1988), A Propaganda Política     Aliás, dentro desse contexto, no de acreditar,
                 no Brasil Contemporâneo (2009) e Marketing Eleitoral o Passo a Passo do
                 Nascimento de um Candidato (2010).
                                                                                                    foi um dos motivos pelo qual deu tão certo
                                                                                                    a campanha virtual de Obama: a esperan-
                 Palavras-chave: Marketing, Campanhas, Candidatos, Mídias Sociais                   ça. Foi o que alimentou e, principalmente,
                 www.manhanelli.com.br                                                              moveu as pessoas naquele país a trabalhar
                 www.marketingpolitico-manhanelli.blogspot.com                                      em prol do candidato democrata e acessar
                 www.twitter.com/manhanelli
                                                                                                    a internet e até colaborar financeiramente
                                                                                                    com débitos em cartões de crédito.

                                                                                                    Sendo a primeira vez que se usaram, na
                                                                                                    sua plenitude, as ferramentas da internet
em uma campanha eleitoral aqui no Brasil,       ções. Estamos vivenciando um grande la-      Em outra mão, outro aspirante a um car-
     nada se tem de muito concreto sobre como        boratório virtual nas campanhas eleitorais   go na Assembléia Legislativa de São Paulo,
     funcionam – se funcionam – as mídias so-        no nosso país.                               um senhor, na casa dos 70 anos idade, que
     ciais por aqui no âmbito político ou eleito-                                                 não tinha boa penetração entre o eleitora-
     ral. Houve partido que fez desembarcar por      No Amapá, foi minguada a implantação         do jovem, decidiu entrar nesse campo. Foi
     essas terras o norte-americano Ben Self, só-    da campanha virtual para o cargo de go-      criado um perfil no Orkut na tentativa de
     cio da Blue State Digital, responsável pela     vernador. Isso ocorreu, pois, entre outras   aproximá-lo desse público. Resultado: em
     movimentação na rede de computadores            coisas, nesse Estado não há conexão por      dois meses dois perfis do candidato ficaram
     da campanha de Barack, acreditando na-          Banda Larga, o que torna pouco atrativo      cheios, lotam de acessos e geram interativi-
     quela antiga máxima “O que é bom para os        passar o dia brigando com a lentidão do      dade com o deputado. Surpresas de campa-
     E.U.A é bom para o Brasil”. Ledo engano.        velho modem discado.                         nha eleitoral.

     Só faltou levar em conta que eram realida-      Outro motivo foi que a maioria das pes-      Há, inclusive, campanhas e candidatos que
     des distintas, e avisar essa turma que nem      soas que tinham acesso à internet era con-   se tornam um dos assuntos mais comenta-
     tudo que serve lá serve aqui também. En-        trária as candidaturas que se apresenta-     dos na rede. Isso se passou com um candi-
12   tretanto, uma experiência pioneira que se       vam, apesar da penetração dos candidatos     dato a deputado federal por São Paulo (Ti-
     mostrou muito acertada foi o debate online      serem muito forte entre os jovens. Por re-   ririca), que se tornou, pelo menos durante
     entre presidenciáveis na internet brasileira    ceio de entrar com mais intensidade nes-     uma semana, o nome mais comentado no
     que ocorreu dia 18 de agosto de 2.010 no        se meio, não se aplicou muito empenho        Twitter. No Youtube, os vídeos desse mes-
     teatro da PUC-SP, em uma parceria entre o       e dinheiro às mídias sociais durante essa    mo candidato com seus pedidos de voto no
     portal UOL e o jornal Folha de São Paulo.       campanha.                                    horário eleitoral gratuito são campeões de
                                                                                                  audiência na categoria.
     Foi algo que realmente movimentou as re-        O mesmo temor houve em uma campa-
     des sociais e quem se interessava por polí-     nha para deputado estadual no interior       Outros apelaram para o SPAM causando
     tica, o que converteu a contenda em algo        do Estado de São Paulo. Por preferir não     indignação entre os eleitores pelo núme-
     de alto nível. Algo de grande interatividade    se arriscar nesse plano, direcionou-se a     ro recebidos, de todos os lados, vindos de
     e dinâmica. Este é ainda um ano de expe-        verba para outras esferas da campanha e      amigos, parentes, colegas de trabalho em
     riências para o Brasil no campo das mídias      simplesmente ignorou-se a “moda” das         uma militância mal-direcionada, dos pró-
     sociais e suas aplicações na política e elei-   mídias sociais.                              prios candidatos comprando maillings e
Mídias Sociais e Eleições 2010


disparando a torto e a direito sua “propa-      maioria dos casos aquele simples email só
ganda virtual”. Na rede social Twitter, por     vai causar incomodo.
exemplo, há uma profusão de protestos
nesse sentido. Algumas pessoas reclamam         Sabemos que as pessoas enviam esse tipo
de receber até 50 emails por dia com esse       de mensagem, com a melhor das inten-
teor. É caso clássico para analisarmos por      ções, mas, de bem intencionado a detenção
que envio de email não solicitado, também       está lotada, esta mensagem continua sendo
chamado de SPAM, simplesmente não               spam. O conceito de Spam é: todo email
funciona.                                       não solicitado e enviado em massa. Curto
                                                e grosso. Você pode presumir que todos
Utilizando o email marketing político da        na sua lista compartilham das suas idéias,
maneira certa, ele até pode ser vantajoso,      mas é bastante provável que isso não seja
pois estreita e deixa mais intimo o conta-      verdade, principalmente em se tratando de                                     13
to entre candidato e eleitor e serve como       assuntos eleitorais.
fonte de notícias e avisos sobre datas de
comícios, debates, pesquisas, etc. principal-   Só vamos obter o verdadeiro resultado do
mente aos militantes. Em outras palavras, é     uso dessas ferramentas durante as campa-
útil para quem se interessa. Por outro lado,    nhas, e fazer com que elas se tornem votos
quando emails não solicitados com teor          ou doações para campanhas, quando todas
político chegam às caixas de entrada quase      as ferramentas forem testadas aqui no Bra-
sempre são mal-recebidos.                       sil. Como tudo ainda é muito novo, e mais
                                                da metade da população brasileira não tem
A não ser que você concorde plenamente          acesso à internet, qualquer conclusão será
com o conteúdo daquela mensagem elei-           apressada, provavelmente incerta e prova-
toral e, detalhe importante, não se importe     velmente incorreta. Ainda estamos no la-
nem um pouco de receber spam, você não          boratório. O remédio pode matar se apli-
vai mudar seu voto baseado no conteúdo          cado, sem os devidos testes, em campanhas
de um email. Isso quer dizer que na grande      eleitorais.
É
                                                                                                               quase impossível falar sobre a
A influência da campanha                                                                                       influência das mídias sociais nas
                                                                                                               eleições sem que a palavra “Oba-

Obama nas eleições brasileiras                                                                                 ma” venha à cabeça. A estratégia
                                                                                                               digital da campanha realizada pela
                                                                                                     equipe de Barack Obama em 2008, nas
de 2010                                                                                              eleições norte-americanas, se tornou parâ-
                                                                                                     metro de sucesso para qualquer campanha
                                                                                                     política que a sucedesse. Palestras, livros,
                                                                                                     documentários, entrevistas, posts em blo-
                                                                                                     gs, artigos acadêmicos: a campanha digital
Por Mariana Oliveira                                                                                 norte-americana foi retratada, discutida e
                                                                                                     analisada em inúmeras instâncias, sendo
                                                                                                     considerada por especialistas como uma
                                                                                                     das grandes responsáveis pela vitória do
                                                                                                     candidato democrata nos EUA. As estraté-
                 Mariana Oliveira é Analista de Pesquisa e Métricas na Talk Interactive e formanda
                 em Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul                       gias adotadas foram minuciosamente estu-
                 Atuou na campanha presidencial de 2010 como parte da equipe digital do              dadas por profissionais do mundo inteiro,
                 candidato José Serra, na área de Monitoramento e Métricas em Mídias Sociais.
                                                                                                     como modelo a ser exportado.
                 Palavras chave: campanha política, mídias sociais, monitoramento, democracia
                 digital                                                                             E é aí que entra o Brasil na história, a dispu-
                 marianarrpp@gmail.com                                                               ta presidencial de 2010 e as mídias sociais.
                 twitter.com/marianarrpp                                                             Como se daria essa relação? A expectativa
                 marianarrpp.wordpress.com
                 google.com/profiles/marianarrpp
                                                                                                     era grande – bem como as responsabilida-
                                                                                                     des, também. E antes de qualquer definição
                                                                                                     oficial sobre candidaturas ou coligações, já
                                                                                                     circulavam questionamentos de analistas do
                                                                                                     cenário político e principalmente dos es-
                                                                                                     pecialistas de comunicação: como o Brasil,
Mídias Sociais e Eleições 2010


com seus milhões de usuários de Internet,        perfis oficiais nas principais mídias sociais     televisivas gratuitas, por exemplo, inexistem
vai utilizar esse potencial de audiência, com-   (e uma dedicação especial para a conta ofi-       na campanha norte-americana, o que exigiu
partilhamento e relacionamento nas estraté-      cial do candidato no Twitter, o que chamou        maior atenção aos investimentos em estraté-
gias das campanhas? Repetirá o sucesso da        a atenção de muitos descrentes no poder da        gias para o mídia digital).
campanha de Barack Obama? Os eleitores           ferramenta) até a criação de uma rede social
terão acesso a mais informações sobre seus       online própria - a MyBarackObama.com -            A lista de diferenças fundamentais entre o
candidatos, ajudando no processo transpa-        que possibilitava a interação entre seus par-     processo político no Brasil e nos Estados
rente de escolha do voto? Estes eleitores        ticipantes, a estratégia digital da campanha      Unidos é extensa e, por si só, já seria jus-
poderão se auto-organizar em movimentos          de Obama é a maior referência de sucesso          tificativa para que a campanha digital de
políticos através da web? Os candidatos vão      de ferramentas de mídias sociais em uma           Barack Obama não servisse de parâmetro
usufruir do potencial de troca e conversa-       campanha política.                                para a campanha digital dos candidatos a
ção da web que, além da quebra de barreiras                                                        cargos públicos no Brasil. Mas outros fa-
geográficas, possibilita uma aproximação         O problema de adotar esse modelo cegamen-         tores também devem ser destacados nessa                         15
maior do político com sua base eleitoral?        te é que desconsideraríamos as diferenças es-     análise comparativa: não bastam as diferen-
Todas estas questões circundavam não só          truturais entre o processo político do Brasil e   ças entre os processos políticos nos países,
a cabeça do estrategista de campanha polí-       o dos EUA, ignorando questões fundamen-           ainda devemos considerar o enorme abis-
tica, mas também a do eleitor conectado e        tais, como: a não-obrigatoriedade do voto         mo digital entre Brasil e Estados Unidos.
interessado em saber como a internet con-        nos Estados Unidos e a consciência política       Os norte-americanos somam mais de 2401
tribuiria para a consciência política do país,   da população; a estrutura político-partidária     milhões de usuários conectados à internet,
ambos se deparando com um ambiente               dos países (que é completamente diferente,        enquanto no Brasil somos 67,52 milhões de
novo de construção de relacionamentos e          principalmente pela dicotomia presente nas        usuários, menos de um terço. Outro exem-
conversação com eleitores.                       eleições norte-americanas) e o processo de        plo é a velocidade média da banda larga:
                                                 escolha dos candidatos dos partidos, já que       nos EUA é de 4,6 Mbps, enquanto no Bra-
É possível comparar as                           no Brasil estes são decididos apenas pelos        sil a média3 é de 1,36 Mbps. E, muito além
campanhas?                                       membros políticos das coligações e, nos Es-       dos números, destacam-se também as faci-
Como dito anteriormente, a estratégia digital    tados Unidos, são eleitos nas prévias com         lidades de acesso à web, o investimento em
da campanha Obama já foi revista e debati-       voto popular dos filiados aos partidos; o sis-
da muitas vezes, em diferentes de formatos.      tema de financiamento das campanhas e os          1 Internet World Stats - www.internetworldstats.com/am/us.htm
Desde a simples criação e alimentação de         recursos para propaganda eleitoral (as cotas      2 Internet World Stats - www.internetworldstats.com/sa/br.htm
                                                                                                   3 Akamai, 2010. http://www.akamai.com/stateoftheinternet/
tecnologia na educação, os hábitos culturais Para exemplificar, podemos identificar ma-    dois principais candidatos e, consequente-
     da população em relação ao uso da web, croestratégias da campanha de Barack Oba-           mente, os mais atingidos.
     dentre tantas outras questões.                ma que foram adotadas e readaptadas pelas
                                                   campanhas dos três principais candidatos à   O site oficial de José Serra também conta-
     Como esperar que as estratégias de campa- presidência do Brasil: Dilma Rousseff, José      va com uma área de Perguntas Frequentes,
     nha adotadas pela equipe de Barack Obama Serra e Marina Silva.                             que respondia dúvidas de eleitores como
     sejam compatíveis com a realidade brasilei-                                                políticas para concursos públicos, privati-
     ra? Como exigir a mesma importância da Centrais de boatos                                  zações, meio-ambiente, entre outros. Além
     internet no pleito eleitoral, sendo que os Centralizar possíveis inverdades em uma         disso, uma seção mais específica, chamada
     Estados Unidos contam com 3/4 da po- página do site oficial, com todas as infor-           Combata a Mentira, trazia textos que escla-
     pulação com acesso à internet, enquanto mações para desmentir o ocorrido, foi uma          reciam histórias mais elaboradas, como o
     essa proporção é de 1/3 no Brasil? Como das principais estratégias da campanha de          suposto aborto de sua esposa Mônica Serra,
     trabalhar de maneira semelhante com pú- Barack Obama, já que o candidato era               desmentido em nota oficial no site. A cen-
     blicos tão heterogêneos (culturalmente e relativamente desconhecido pela grande            tral de boatos se tornou uma das áreas mais
     politicamente) como a audiência brasileira maioria da população norte-americana e          visitadas e compartilhadas do site oficial do
16   e a norte-americana?                          atraiu uma série de histórias consideradas   candidato. Já a campanha de Dilma Rous-
                                                   caluniosas sobre seu passado. No Brasil, a   seff criou uma força-tarefa semelhante para
     Partindo destas considerações, percebemos influência foi clara: os três candidatos ado-    combater boatos a respeito da candidata: o
     o quanto perderemos tempo ao comparar taram postura semelhante em seus sites               Espalhe a Verdade. Além dos desmentidos,
     apressadamente as estratégias digitais das oficiais de campanha. Marina Silva, candi-      a página também contava com orientações
     campanhas políticas destes países, ao invés data pelo PV, possuía uma área reservada       a militantes sobre como disseminar a infor-
     de tentar identificar quais foram as influên- (porém tímida) no site para as Perguntas     mação verdadeira para suas redes sociais. O
     cias que foram adaptadas à realidade elei- Frequentes, em que respondia questões           Espalhe a Verdade também contava com
     toral brasileira com sucesso, sem o peso de polêmicas como sua posição sobre aborto,       uma central telefônica para receber as de-
     que tenham os mesmos resultados. É pre- religião, casamento homossexual, dentre            núncias, com números específicos para
     ciso olhar o processo de forma mais ampla, outros alvos de boataria. Dilma Rousseff,       cada capital do país. Na campanha de Oba-
     não se limitando a observar ações e ferra- candidata do PT, e José Serra, candidato        ma, o uso de centrais telefônicas foi intenso
     mentas, mas sim os pilares estratégicos da do PSDB, dedicaram espaços e esforços           e, como se pode ver, também influenciou a
     campanha digital.                             maiores para o assunto – já que eram os      campanha brasileira.
Mídias Sociais e Eleições 2010


Estas páginas focadas em esclarecer boatos     sistema de doações com destaque no site        Militância digital e cobertura
foram de suma importância para o proces-       oficial – um pouco mais complexo que o de      colaborativa
so eleitoral brasileiro, principalmente para   Marina, já que exigia mais passos e cliques.   Uma das iniciativas de maior sucesso da
dois tipos de eleitores: o indeciso (ajudan-   O site de José Serra não disponibilizou o      campanha digital norte-americana foi a
do a conhecer melhor os candidatos) e o        recurso de doação via web.                     criação da rede social MyBarackObama.
militante (fornecendo argumentos que o                                                        com, que centralizava conteúdo, orien-
ajudavam a convencer outros eleitores).        Primeiramente, devemos considerar as           tações e ferramentas para eleitores que
Em ambos os casos, a existência de páginas     questões de financiamento de campanha          apoiavam o candidato, os “militantes”
centralizando desmentidos em caráter ofi-      eleitoral: culturalmente falando, o brasi-     da campanha. A rede oferecia possibi-
cial é uma das influências diretas da campa-   leiro não tem o hábito de contribuir para      lidades como a criação de seu próprio
nha norte-americana que também alcançou        campanhas políticas como pessoa física.        blog de apoio (com o domínio “your-
o sucesso em terras brasileiras.               E, ainda falando sobre hábitos: é injusto      name.barackobama.com”), e incentivos
                                               comparar a quantidade de pessoas que           aos militantes para que participassem
                                                                                                                                          17
Doações pela internet                          fazem transações financeiras na internet       da cobertura de eventos em tempo real
Osite oficial de Barack Obama foi um dos       (compras, pagamentos, doações) no Brasil       enviando seus vídeos e fotos para o
grandes responsáveis pelas arrecadações        e nos EUA. Ainda que a cada ano essa es-       site. Além de estimular o compartilha-
de donativos para a campanha. A chamada        tatística cresça e cada vez mais brasileiros   mento de conteúdo pró-candidato nas
para doação ocupava posição de destaque        passem a “confiar” no sistema de paga-         redes sociais, esta rede também se tor-
na página inicial – e o processo para doar     mentos online, esse número ainda é baixo.      nou ponto de encontro de militantes e
era facilitado em poucos cliques. No Brasil,   Ao somar estes fatores (pessoas que não        discussão de estratégias para ajudar na
infelizmente não repetimos este sucesso. A     fazem transações financeiras na internet e     campanha, uma incubadora de idéias e
candidata Marina Silva, que dispunha de um     que não doam para campanhas políticas),        sugestões vindas diretamente dos eleito-
orçamento menor de campanha, foi a que         temos um cenário em que a arrecadação          res. Este reconhecimento dos cidadãos
mais investiu neste sistema de doações pela    online de doações não obteve o mesmo           como parte do processo eleitoral faz
internet. A chamada também ocupava po-         sucesso que a campanha de Obama. Ainda         parte da estratégia de relacionamento
sição de destaque na página inicial do site,   assim, é possível que estes primeiros pas-     com o público, valorizando o conteúdo
e o processo para doação se realizava em       sos de incentivo à doação online ajudem        e participação do usuário e possibilitan-
pouco mais de alguns cliques. A campanha       a tornar o hábito cada vez mais comum          do a transformação dos eleitores em, de
da candidata Dilma também possuía um           entre os cidadãos brasileiros.                 fato, militantes da causa.
No Brasil, esta estratégia foi adotada com     não só entre os políticos. A integração com     candidata também direcionava mensagens
     sucesso pelos principais candidatos à Pre-     outras redes sociais também fez do Twitter      a outros usuários, mas com menor freqü-
     sidência: as áreas reservadas para a “mili-    um dos principais agregadores de notícias       ência do que os outros candidatos. Ainda
     tância digital” ocupavam posições de desta-    sobre a campanha: nos posts do microblog,       assim, o conteúdo postado no perfil oficial
     que nos sites oficiais, oferecendo diversos    eram referenciadas as fotos do Flickr, os       era intensamente distribuído pelas redes de
     recursos para os eleitores que desejassem      vídeos do Youtube, a página oficial no Fa-      apoio à candidata, como os perfis @dilma-
     participar ativamente da campanha: espa-       cebook, fazendo que os outros canais tam-       narede e @dilmanaweb. Já o perfil de José
     ços de participação e colaboração (em que      bém se fortalecessem. Entretanto, pouco         Serra, criado em maio de 2009 (cerca de 1
     os eleitores poderiam discutir os planos de    depois da vitória nas eleições, Obama de-       ano e meio antes do pleito eleitoral), teve
     governo), fóruns e postagens de comentá-       clarou que nunca usou o Twitter de fato: as     destaque pela quantidade de seguidores
     rios, tutoriais de como usar determinadas      postagens eram coordenadas por uma as-          (mais de 470 mil em 03/10, quase o dobro
     ferramentas (transmitir eventos, participar    sessoria responsável. E até isso influenciou    das outras candidatas), e também pela pe-
     de movimentos no Twitter), e ambientes         o posicionamento dos perfis no Twitter dos      culiar forma de atualização do perfil: geral-
     de interação entre os próprios eleitores. As   candidatos à Presidência.                       mente nas madrugadas adentro, rendendo
     chamadas “coberturas colaborativas” tam-                                                       o apelido de “indormível”. O perfil tratava
18   bém tiveram grande importância para as         O perfil oficial de Marina Silva no Twitter,    de assuntos como agenda, plano de gover-
     estratégias digitais das campanhas brasilei-   criado em janeiro de 2010, contava com          no, opiniões, respostas a eleitores e, não se
     ras, pois forneciam conteúdo exclusivo em      mais de 270 mil seguidores no dia da eleição.   limitando a assuntos políticos, comentários
     tempo real dos eventos – que, além de ser      Através dele, a candidata informava agen-       sobre música, filmes, livros. O presidenci-
     disseminado nas redes sociais, reforçavam      da, plano de governo, opiniões, concedia        ável fez questão de mostrar a pessoa além
     o relacionamento com estes ativadores que      respostas a questionamentos de eleitores,       do candidato, ainda que nos últimos dias de
     enviavam o material.                           entre outros. As postagens eram realizadas      campanha o perfil tenha adotado uma pos-
                                                    pela própria candidata e por sua assesso-       tura mais eleitoreira.
     Twitter oficial                                ria. O perfil de Dilma Rousseff, criado em
     Um dos maiores destaques na estratégia de      abril de 2010, contava com mais de 240 mil      Neste quesito, a comparação dos perfis dos
     campanha norte-americana, Barack Oba-          seguidores no dia 3 de outubro. Os tweets       candidatos à presidência do Brasil com o
     ma - o político com o maior número de se-      tratavam basicamente sobre a agenda da          perfil do candidato à presidência dos Esta-
     guidores do mundo - se tornou referência       candidata, além de posições sobre aconteci-     dos Unidos também incorre em um erro:
     de boas práticas no uso da ferramenta – e      mentos do dia e agradecimentos públicos. A      o Twitter teve um peso maior na estratégia
Mídias Sociais e Eleições 2010


digital das eleições brasileiras do que nas   que evidentemente não seguem a política contatos, valorizando seu candidato ou de-
norte-americanas, e acabou muitas vezes       de envios da campanha oficial.               negrindo a imagem do adversário - e esse
por pautar a mídia chamada “tradicional”.                                                  e-mail pode ser repassado muitas vezes,
Declarações dos candidatos em seus per-       Em uma associação precipitada, os eleito- atingindo milhares de pessoas.
fis acabavam ultrapassando os limites da      res acabaram por confundir e declarar que
internet: apareceram como tópicos em          “a campanha do candidato X está pratican- Assim, a linha que separa a campanha “ofi-
entrevistas televisivas e ganharam páginas    do spam” – ainda que por muitas vezes os cial” da campanha “não-oficial” é muito
em jornais e revistas. Comparativamen-        estrategistas nem tivessem conhecimento tênue: além dos eleitores, muitos analistas
te falando, no sentido de conversar com       sobre esta ou aquela corrente de e-mails. É e pesquisadores também não fizeram essa
o eleitor, os candidatos brasileiros deram    apenas um exemplo, mas existem dezenas diferenciação, o que acaba limitando a aná-
um passo além da estratégia Obama, que        de situações em que as campanhas oficiais lise da estratégia de campanha digital em si
raramente respondia eleitores e se limita-    são facilmente confundidas pelas campa- mesma, e seus resultados diretos. Em al-
va a distribuir informação em formato de      nhas “naturais”, feitas pelos próprios elei- guns casos, a campanha oficial absorve este      19
broadcasting.                                 tores. É um reflexo da democratização das conteúdo gratuito e adota como parte da
                                              ferramentas de produção de conteúdo, estratégia; em outros, o material não pode
Conteúdo oficial da campanha                  como câmeras digitais, webcams e programas ser utilizado por conteúdo vetado pela le-
x conteúdo do eleitor                         de edição de áudio e vídeo, da populariza- gislação eleitoral. Mesmo assim, a esta as-
Para enriquecer a discussão, uma das prin-    ção do uso de e-mail e redes sociais onli- sociação entre as campanhas existe e tem
cipais diferenciações que devem ser feitas    ne e da possibilidade de compartilhamento suas conseqüências positivas (como vídeos
é a de que a estratégia de campanha oficial   em tempo real na web. Não é novidade que de apoio e sugestões) e negativas (caso o
dos candidatos, principalmente a digital,     cada vez mais as pessoas produzem conteú- conteúdo não-oficial ofenda o outro can-
não responde pela campanha como um            do (textos, fotos, vídeos, áudios), publicam didato).
todo. Por exemplo: a campanha do can-         em seus perfis e enviam para seus amigos.
didato X adota uma política responsável       No processo eleitoral não foi diferente: Considerações finais
em relação a envios de e email-marketing.     eleitores queriam participar ativamente da O que se pode perceber ao analisar a influ-
Entretanto, não há como se ter controle       campanha de seu candidato, seja enviando ência da campanha de Barack Obama nas
sobre as correntes de e-mails e spams que     material próprio, seja distribuindo informa- eleições brasileiras é que, apesar de realida-
são enviados pelos próprios eleitores, mi-    ção. Qualquer pessoa pode fazer um e-mail des distintas, algumas ações enriqueceram o
litantes ou simpatizantes do candidato –      com um vídeo amador e enviar para seus processo político como um todo, trazendo
mais informação e conteúdo para o eleitor       tanta disparidade cultural e intelectual, re-
     conectado e abrindo espaço para que este        cursos financeiros menores e uma situação
     se expressasse e participasse ativamente da     política desgastada como a nossa, as cam-
     campanha do candidato. No que concerne          panhas digitais do país avançaram impor-
     às ações pontuais (como jogos, aplicativos      tantes passos em direção a um pleito em
     para iPhone e outros artefatos técnicos), as    que o eleitor é convidado a se informar,
     diferenças são evidentes e refletem o “in-      debater e realmente participar do processo
     sucesso” das estratégias digitais brasileiras   eleitoral brasileiro. Os próximos passos irão
     perante à campanha Obama. Mas, consi-           refletir essas primeiras iniciativas de aproxi-
     derando as macroestratégias da campanha         mar candidatos, eleitores e política através
     Obama que foram adotadas e readaptadas,         da web, tornando a decisão pelo voto cada
     obtivemos resultados expressivos para a re-     vez mais bem informada, participativa e
     alidade política brasileira.                    transparente.

     A intenção aqui não é afirmar que a cam-
20   panha digital brasileira foi melhor ou pior
     do que a norte-americana, e sim apontar as
     diferenças básicas que devem ser conside-
     radas neste ato de comparação. De fato, a
     influência da campanha Obama proporcio-
     nou uma série de benefícios e aprendizados
     para o processo político brasileiro, mas os
     principais resultados vieram de tentativas
     e experimentações aliadas à realidade do
     Brasil, o que com certeza irá influenciar as
     próximas eleições, quem sabe até de outros
     países. Dizer que o Brasil não agregou bons
     resultados em mídias sociais nas eleições de
     2010 é injusto e precipitado: mesmo com
Uma Análise das Comunidades
                                                                                                Uma Abordagem sobre a Vida
                                                                                                Coletiva Contemporânea




                                                                                                N
do Orkut Voltadas para                                                                                        a Contemporaneidade, a vida
                                                                                                              coletiva pode ser compreen-

Presidenciáveis nas Eleições
                                                                                                              dida a partir de características
                                                                                                              bastante específicas, e que se
                                                                                                              contrapõem de maneira mar-
Brasileiras de 2010                                                                             cante ao que foi predominante na época
                                                                                                moderna. A partir das últimas décadas do
                                                                                                século XX, uma série de estudos e formu-
                                                                                                lações teóricas relevantes aponta para mu-
                                                                                                danças profundas em processos sociais e
Por Ruan Brito                                                                                  culturais.

                                                                                                De maneira geral, vivemos uma época
                                                                                                marcada pela instabilidade institucional e
                                                                                                pela reconfiguração de conceitos centrais
                 Graduado em Comunicação Social – Publicidade pela Universidade Federal do
                 Pará; mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade
                                                                                                segundo o paradigma da Modernidade. O
                 Federal da Bahia (na linha de Cibercultura); especializando em Comunicação e   processo de globalização das últimas déca-
                 Política pela Universidade Federal da Bahia; pesquisador do GITS – Grupo de    das provoca um conjunto de permanentes
                 Pesquisa em Interação, Tecnologias Digitais e Sociedade.
                                                                                                fluxos – de natureza comercial, financeira,
                 Palavras-chave: Comunidade, Orkut, Eleições, Presidenciáveis.                  informacional e humana – os quais deses-
                 www.crapula-mor.blogspot.com
                                                                                                tabilizam noções tradicionais e demandam
                 www.twitter.com/CrapulaMor                                                     a revisão de figuras clássicas, em torno das
                                                                                                quais a sociedade organizou-se por muitos
                                                                                                séculos. Instituições que funcionaram como
                                                                                                referências centralizadoras – Família, Esco-
                                                                                                la, Igreja, Estado etc. – entram em crise, e
a sociedade revela-se heterogênea e frag-        uma persona contemporânea, eminentemen-               modernidade, e sim como uma réplica à
                                                                                                            insuficiência do seu modelo individualís-
     mentada. Para Stuart Hall (1999), trata-se       te relacional, de tendência comunitária, e
                                                                                                            tico-universalista: é a mesma sociedade
     de uma mudança estrutural que fragmenta          que só pode ser compreendida em relação               dos indivíduos, já destruidora da antiga
     elementos culturais de classe, gênero, etnia,    ao outro (MAFFESOLI, 1996).                           comunidade orgânica, que agora gera
     raça, nacionalidade, que no passado cir-                                                               novas formas comunitárias como reação
                                                                                                            póstuma à própria entropia interna” (ES-
     cunscreviam nossas individualidades e nos-       Este novo cenário favorece agregações so-             POSITO, 2007, p. 16).
     sas identidades pessoais.                        ciais caracterizadas pela afetividade, em-
                                                      patia e espontaneidade. Podemos mesmo            O sujeito da contemporaneidade pode ser
     É possível dizer que, enquanto a proposta        falar em uma espécie de sinergia coletiva,       considerado como componente, a parte
     da Modernidade contempla relações sociais        uma atração social que se dissemina pela         que precisa encontrar seus pares para for-
     estáveis, finalistas, contratuais, e um sujei-   vida contemporânea. Mesmo as situações           mar o todo, numa permanente busca pela
     to racionalizado e individualista; o estilo de   mais cotidianas ou banais podem conter           alteridade. Aqui, a ênfase está na troca,
     vida contemporâneo, por sua vez, é mar-          este vitalismo criativo. Trata-se de um mo-      na partilha, na simbiose entre os diversos
     cado por interações mais efêmeras, afetivas      vimento coletivo que compele as pessoas a        integrantes dos grupos sociais, ainda que
     e voltadas para o presente, o sujeito pós-       se reunirem nas mais diversas ocasiões, para     de modo informal e sem maiores enga-
22   moderno demonstra-se plural e afeito as          compartilhar seus pensamentos e emoções.         jamentos em projetos ou ideologias mais
     diversas formas de agregações sociais.           As experiências, as sensações e os prazeres      sólidas. Este traço sociológico é definido
                                                      passam a adquirir maior sentido quando           por Maffesoli (1996) como um novo tipo
     Neste cenário, temos que o sujeito atual de-     compartilhados com o grupo. Assim, ga-           de interação: a socialidade. Enquanto a so-
     fine-se menos por uma identidade – defini-       nham destaque as práticas denominadas            ciabilidade, moderna, vinculou-se a uma
     da, unidimensional e já acabada, e mais por      comunitárias.                                    concepção de mundo produtivista e objeti-
     identificações – múltiplas, diversificadas                                                        va; a socialidade diz respeito às práticas mais
     e não necessariamente coerentes entre si,             “É a comunidade, ou melhor, as comuni-
                                                           dades particulares, onde se despedaça o     frívolas e efêmeras. Com esta noção, o au-
     uma vez que tal sujeito circula por uma di-           arquétipo tönnesiano, que sucede à socie-   tor refere-se a micro-ligações cotidianas,
     versidade de grupos, estilos, experiências e          dade moderna, em uma fase marcada pela      atividades triviais de socialização, espécies
     formas de expressão. A figura do indivíduo            crise do paradigma estatal e pela difusão
                                                                                                       de ‘neotribos’, despretensiosas, freqüen-
     isolado e ego-centrado, central nas formu-            do conflito multicultural. Nesse caso, a
                                                           comunidade não é mais entendida como        temente recreativas e aparentemente sem
     lações sociológicas, históricas, psicológicas         um fenômeno residual no que diz respei-     importância, mas que moldam nossa época
     e políticas da Modernidade, cede espaço a             to às formas socioculturais adotadas pela   e nossa cultura.
Mídias Sociais e Eleições 2010


Com isto, várias esferas da vida em socie-       traços sociológicos atuais, em que se veri- mais complexos e heterogêneos, provocam
dade passam a ser influenciadas por esta ló-     fica uma atração social descomprometida e a falência da própria ação política, e muitas
gica da tribalização. Desde reuniões de mo-      afetuosa.                                      vezes conseguem encontrar saídas que dri-
radores de uma localidade, de estudantes,                                                       blam as instâncias decisórias. Os mecanis-
trabalhadores, simpatizantes de uma causa,       A política, em específico, ilustra um con- mos políticos e burocráticos permanecem
manifestantes, praticantes de uma ativida-       junto de mudanças típicas desta conjuntu- em inúmeras esferas da vida cotidiana, mas
de ou de um esporte, admiradores de uma          ra atual. Conceitos clássicos como os de exercem uma função cada vez mais proto-
arte ou celebridade, até as festas, concertos,   Estado, República, Democracia, campos colar e apontam para um esvaziamento de
shows, raves, exposições etc., por mais pas-     ideológicos bem definidos, como direita e sentido social. Para Maffesoli, “a sabedoria
sageiras que sejam, e ainda não produzam         esquerda, parecem não se adequar mais a mortífera de nossos dinossauros modernos
um resultado formal, todas refletem esta         este novo cenário sócio-cultural mais flui- deixa de estar em sintonia com aqueles que
tendência socializante típica da Contempo-       do e disperso. O contrato social, proposto dizem sim à vida; sim, apesar de tudo, à vida!
raneidade, que reúne aqueles com um pen-         pela lógica política moderna, calcado em Pois é disso que se trata: da extraordinária        23
samento, um sentimento comum ou algo a           uma conotação racionalista e produtivista, defasagem das elites intelectuais e políticas
compartilhar.                                    já não dá conta das demandas, dos confli- em relação às coisas da vida” (2009, p. 18).
                                                 tos e dos fenômenos da sociedade de hoje.
Na música, no entretenimento, na religião,       A própria idéia de uma identidade nacional É partir desta concepção que Maffesoli
nos meios profissionais, na política, enfim,     ou de um “Estado-nação” em que tudo é (1997) propõe o que denomina de “transfi-
em diversos ambientes, surgem reuniões           regulado por um seleto grupo precisa ser guração do político”, ou seja, uma mutação
temporárias, agrupamentos espontâneos,           rediscutida.                                   de ordem social e cultural, em que a imagem
ou ainda, Comunidades nos moldes con-                                                           tradicional da política apóia-se sobre uma
temporâneos. Nesta perspectiva, as carac-        A crise da política racionalizada provoca figura existente para tornar-se outra coisa.
terísticas comunitárias não refletem mais os     um grave descompasso entre os discursos Segundo esta visão, a política, nos termos
valores clássicos de profundo comprometi-        oficiais, institucionalizados e a vida coleti- contemporâneos, apresenta elementos for-
mento, compartilhamento de experiências          va popular. Aqueles que concentram poder temente comunitários. Os grandes projetos
marcantes, laços humanos significativos          (político, econômico ou simbólico) e ocu- e ideários são progressivamente suprimidos
e duradouros, projeções de longo prazo,          pam os espaços de tomada de decisão ca- por uma predisposição à associação, a um
dentre outros. Esta definição tradicional        recem de legitimidade social. As demandas conexionismo, à formação de Comunida-
de Comunidade não é compatível com os            populares, elaboradas de modos cada vez des pós-modernas.
O Papel das Comunidades                          se destas ferramentas, ou seja, que haja um      GOLD, 1993, online). Nesta abordagem,
     Virtuais em Nossa Época                          ambiente social que torne pertinente o uso       uma Comunidade Virtual implica discus-
     Nesta cadeia de mudanças do tipo mais            das ferramentas técnicas. No caso, a inter-      sões públicas entre pessoas, permeadas por
     profundo que vivenciamos, verifica-se que        net configura-se como uma tecnologia alta-       suficiente sentimento humano e relações
     a Comunidade adquire relevância e precisa        mente adequada para nossa época, uma vez         de cunho pessoal. Porém, observa-se que
     ser compreendida em novos termos. E, na-         que promove processos de colaboração,            os grupamentos online apresentam varia-
     quilo que se refere à tendência gregária da      criação e conexão entre as pessoas. Assim,       dos formatos e graus de envolvimentos en-
     Contemporaneidade, é necessário ressaltar        estes autores enfatizam o papel socializante     tre os membros, traços que não podem ser
     o papel das tecnologias digitais. Na ambi-       do ciberespaço, a possibilidade vinculada        antecipados ou generalizados.
     ência online, temos mais uma maneira de          às tecnologias digitais de satisfazer o desejo
     proporcionarmos encontros e associações,         coletivo pelos agrupamentos, pela livre ex-      Mais recentemente, nos últimos anos da dé-
     as mais diversas, de acordo com preferên-        pressão e circulação das idéias, pela comu-      cada de 90 e principalmente nos anos 2000,
     cias, afiliações, hábitos, identificações etc.   nicação recíproca, ainda que mediada pelo        ganhou força outra forma de socialização
     sem a necessidade de co-presença física.         computador. Para Lévy, “uma das idéias, ou       na web: os Sites de Redes Sociais (SRSs). As
     André Lemos (2004) reporta-se à noção de         talvez, devêssemos dizer, uma das pulsões        pesquisas científicas voltadas a estas plata-
24   cibersocialidade para referir-se ao tipo de      mais fortes na origem do ciberespaço é a         formas online adotam atitude diferente da-
     interação descrita por Maffesoli, mas que se     da interconexão. Para a cibercultura, a co-      quela com a qual as primeiras Comunidades
     dá por meio das tecnologias do ciberespaço.      nexão é sempre preferível ao isolamento. A       Virtuais foram tratadas. As formulações
     Para este autor, o vitalismo social de nossa     conexão é um bem em si” (1999, p. 127).          teóricas e os estudos acadêmicos sobre os
     época pode ser potencializado pelas tecno-                                                        SRSs têm mais foco sobre o indivíduo, seu
     logias digitais, as quais favorecem as situa-    Após participar da Comunidade WELL –             perfil e sua navegação nas redes de cone-
     ções lúdicas e os processos comunitários.        Whole Earth ‘Lectronic Link (http://www.         xões, do que sobre práticas comunitárias.
                                                      well.com/), Howard Rheingold relatou             Segundo Boyd e Ellisson, e possível definir
     Por sua vez, Pierre Lévy (1999) compreende       uma experiência com forte envolvimento           um Site de Redes Sociais como: um serviço
     que não é possível compreender o técnico         emocional. O autor afirma: “Eu me impor-         baseado na Internet que permite aos indi-
     e o social como pólos desassociados. Para        to com estas pessoas que eu conheci por          víduos (1) construir um perfil público ou
     que determinada ferramenta tecnológica           meio do meu computador, e eu me impor-           semi-público dentro de um sistema conec-
     torne-se disseminada e profícua na socieda-      to profundamente com o futuro do meio            tado, (2) articular uma lista de outros usuá-
     de, é necessário que os sujeitos apropriem-      que permite a nossa reunião” (RHEIN-             rios com os quais compartilham uma cone-
Mídias Sociais e Eleições 2010


xão, e (3) visualizar e mover-se por sua lista   mais diferentes motivações e finalidade.               Silva – PV”2 e “José Serra Presidente”3.
de conexões e pelas dos outros usuários,         Ainda que o foco deste tipo de site esteja             No caso das Comunidades dedicadas à
no mesmo sistema (BOYD e ELLISSON,               sobre o perfil dos usuários e suas listas de           Dilma e à Marina, tratam-se das maiores
2007).                                           contatos, o Orkut proporciona também a                 páginas sobre as presidenciáveis existentes
                                                 possibilidade da reunião de pessoas com                no Orkut, à época da pesquisa. Por este
Notadamente, o conjunto destes sites apre-       algo a compartilhar. Obviamente, os usu-               motivo, foram selecionadas para compor
senta variadas propostas e segmentações –        ários do site de relacionamentos poderão               o artigo. No caso de José Serra, há outra
muitos se voltaram para grupos específicos       apenas vincular seus perfis à Comunidade,              Comunidade com maior número de parti-
(asiáticos, negros, religiosos, fãs de anime,    tornando-se um dos membros, ou ainda de-               cipantes, a “José Serra – Presidente”4. No
simpatizantes de determinado candidato           senvolver forte envolvimento com outros                entanto, esta Comunidade foi criada origi-
etc.), outros priorizaram determinados usos      participantes, aproximando-se do processo              nalmente para vídeos do site Youtube. Por
(profissional, amoroso, musical etc.); alguns    relatado por Rheingold. A este respeito, é             isso, ela não faz parte deste estudo. Consi-
deram certo e tornaram-se bastante popu-         preciso examinar cada caso, respeitando                derou-se mais conveniente comparar três                 25
lares, enquanto outros tiveram de encerrar       as dinâmicas e os princípios específicos de            páginas que estavam, originalmente, volta-
suas atividades. De todo modo, guardadas         cada agrupamento online.                               das à temática eleitoral.
as características particulares, as Redes So-
ciais atraem um contingente expressivo de        Para os propósitos deste artigo, interessamO período designado para a análise, de 15
usuários do mundo inteiro, e configuram-se       especificamente Comunidades Virtuais       a 30 de agosto de 2010, foi definido a par-
como uma forma relevante de socialização         voltadas aos candidatos à presidência da re-
                                                                                            tir de marcos importantes na disputa elei-
na atualidade.                                   pública nas eleições brasileiras de 2010, as
                                                                                            toral: neste mês houve a primeira rodada
                                                 quais serão abordadas no próximo item.     de entrevistas com os principais candidatos
Em nível global, o Facebook (http://www.face-                                               no Jornal Nacional, da Rede Globo – nos
book.com/) atrai o maior número de usuários,     As Comunidades do Orkut e as               dias 9 (Dilma), 10 (Serra) e 11 (Marina);
com mais de 500 milhões de perfis ativos.        Eleições Presidenciais                     além disso, no dia 17 teve início o horário
Já no Brasil é o Orkut (http://www.orkut.com.    Para este trabalho, foram observadas três eleitoral gratuito. Tais eventos ajudaram a
br/) que faz maior sucesso de público, com       Comunidades do Orkut sobre os principais agendar o tema eleitoral perante a popula-
dezenas de milhões de participantes. Nes-        presidenciáveis nas eleições de 2010: “Vo-
te último, as Comunidades são ferramen-          tamos Dilma Presidente – PT”1, “Marina 2 http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=11934095
tas importantes, reunindo pessoas com as                                                                3 http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=22482901
                                                 1 http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=1583686   4 http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=355236
cano, que enfrentava queda nas pesquisas,
                                                                                                foi a que apresentou menor crescimento.

                                                                                                É interessante verificar que, embora as
                                                                                                candidaturas de Dilma e Serra tenham sido
                                                                                                maiores em estrutura eleitoral e intenção
                                                                                                de votos, ao longo de toda a campanha,
                                                                                                foi a Comunidade voltada à Marina que
                                                                                                sustentou o maior número de participan-
                                                                                                tes, de 15 a 30 de agosto. Isto mostra que
                                                                                                a lógica mais geral das eleições não neces-
                                                                                                sariamente é reproduzida em determina-
                                                                                                da mídia social. No caso, a candidatura de
                                                                                                Marina não esteve em patamar inferior às
                                                                                                outras duas, no que diz respeito à concen-
26                                                                                              tração de participantes em Comunidades
                                                                                                do site Orkut.
     ção, agregando maior visibilidade às cam-    torno de 24% em quantidade de membros;
     panhas, o que tendia a favorecer a procura   a Comunidade da candidata Marina, 16%; e      Com relação aos tópicos criados no perío-
     por Comunidades dos presidenciáveis no       a de Serra, 9%. De fato, com o decorrer da    do, temos que, na Comunidade “Votamos
     Orkut. No gráfico abaixo, temos as evolu-    disputa, mais pessoas ingressaram nas Co-     Dilma Presidente – PT”, dentre os mais
     ções das quantidades de membros nas três     munidades dos presidenciáveis analisadas.     comentados estiveram: “Dilma”, criado
     Comunidades.                                 O crescimento foi permanente e estável ao     pelo usuário Brasil; “cai fora ‘Brasil’ de
                                                  longo dos 15 dias, nos três agrupamentos.     araque”, criado pela usuária Fabiane; “Dil-
     Como podemos constatar pelo gráfico, as      A página da candidata petista, que já assu-   ma Presidente? Leia esse topico com aten-
     três Comunidades apresentaram cresci-        mia a dianteira nas pesquisas de intenção     çao”, da usuária Letícia; “Dilma abre 17
     mento uniforme nas suas quantidades de       de votos naquele mês, foi a que apresentou    pontos sobre Serra e venceria no 1º”, do
     membros, no período observado. A Co-         maior incremento na quantidade de mem-        usuário Soldado; e “DEFINAM SERRA
     munidade da candidata Dilma cresceu em       bros. Já a página voltada ao candidato tu-    EM UMA PALAVRA?”, de Werley.
Mídias Sociais e Eleições 2010


Na Comunidade “Marina Silva – PV”,            denominado “cai fora “Brasil” de araque”.      compreensão da Comunidade nos termos
os tópicos mais comentados, no período        O usuário que não era partidário de Dil-       contemporâneos prevê que tais associações
analisado, foram: “Aquecimento Global         ma foi visto pelos outros membros como         sejam efêmeras, informais e sem maiores
não existe”, criado pelo usuário Emerson      um estranho, um intruso. De modo similar,      engajamentos.
Avelar; “QUARTA-FEIRA TEM DEBA-               tópicos como “Aquecimento Global não
TE NO UOL / FOLHA”, do participan-            existe” ou “Lula no programa de Serra”         As Comunidades Virtuais voltadas a presi-
te Fernaиdo; “MARINA APÓIA DILMA              questionavam bandeiras ou estratégias das      denciáveis analisadas neste artigo funciona-
NO 2° TURNO”, de Uzias; “DEBATE               respectivas campanhas.                         ram, durante as eleições de 2010, principal-
DOS PRESIDENCIÁVEIS – AGORA!”,                                                               mente como fóruns abertos e espaços de
criado por DU {             } e “ADESIVE
                            };                Porém, a maior parte dos tópicos e das inte-   encontro entre partidários dos respectivos
SUA FOTO COM O NOME DA MARI-                  rações existentes nas Comunidades consis-      candidatos. Os conteúdos oficiais das cam-
NA 43”, de Marina Silva.                      tia em convergência entre os participantes.    panhas eram apropriados pelos participan-
Já na “José Serra Presidente”, os tópicos     As páginas colaboravam para a sedimenta-       tes, adquirindo novos contornos e novos        27
com maior número de mensagens foram:          ção social das candidaturas homenageadas       olhares, eventualmente críticos. As inte-
“Novo Ibope”, criado pelo usuário Dio-        e desqualificação dos adversários, ainda que   rações nas páginas do Orkut estavam em
nísio, “1º debate online entre presidenciá-   em certos momentos assumissem tom crí-         função do apoio aos candidatos, com pre-
veis hoje”, da participante MARGARIDA;        tico. Os participantes estavam majoritaria-    domínio da convergência de pensamentos
“Lula no programa de Serra”, de João;         mente preocupados em trocar percepções         e emoções.
“Datafolha : Dilma 17 pontos na frente”,      e debater os encaminhamentos das campa-
de Rodrigo Guedes; e “Quem foi expulso        nhas, os eventos eleitorais e as informações
injustamente?”, de Holger.                    gerais da disputa.

Percebemos que alguns dos tópicos causa-      Considerações Finais
vam divergência nos grupos, como o tópico     A despeito da intensidade do envolvimen-
“Dilma”, em que o usuário Brasil criticava    to pessoal entre os membros, Comunida-
a candidata petista em sua própria Comuni-    des Virtuais como as formadas no Orkut
dade. Este tópico recebeu forte hostilidade   podem refletir um padrão de interação tí-
dos outros membros, com a postagem de         pico de nossa época. Segundo um conjun-
mensagens e com a criação de outro tópico     to de autores referenciados neste artigo, a
Referências Bibliográficas

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     Computer-Mediated Communication, 13(1), Re-
     trieved December 10, 2007.                      RHEINGOLD, H. The Virtual Community:
                                                     Homesteading on the Electronic Frontier. Rea-
     ESPOSITO, R. Niilismo e Comunidade. In: ding. Massachusetts: Addison-Wesley, 1993.
     PAIVA, R. (Org.). O Retorno da Comunidade: os
     novos caminhos do social. Rio de Janeiro: Mauad
     X, 2007.

     HALL, S. A Identidade Cultural na Pós-Mo-
     dernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 1999.
28
     LEMOS, A. Cibercultura: Tecnologia e Vida So-
     cial na Cultura Contemporânea. 2º Ed. Porto Ale-
     gre: Sulina, 2004.

     LÉVY, P. Cibercultura. São Paulo: Editora 34,
     1999.

     MAFFESOLI, M. A República dos Bons Senti-
     mentos. São Paulo: Iluminuras, 2009.

     ______________ A Transfiguração do Político
     - A Tribalização do Mundo. Porto. Alegre: Sulina,
     1997.
N
                                                                                                                 o final de julho de 2010, uma
O papel da militância através                                                                                    simpática avó de Minessota,
                                                                                                                 nos Estados Unidos, dirige-se

das redes sociais durante as                                                                                     à unidade de uma rede de hi-
                                                                                                                 permercados e usa seu poder
                                                                                                   de compra como forma de protestar contra
eleições                                                                                           a empresa. Logo em seguida, um ator britâ-
                                                                                                   nico envia uma mensagem sobre o assunto
                                                                                                   pelo Twitter.

                                                                                                   Tempos depois, no início de setembro,
Por Gil Castillo                                                                                   em Moçambique, África, cidadãos saem às
                                                                                                   ruas, em protesto contra o aumento do pre-
                                                                                                   ço do pão.

                                                                                                   Entre uma coisa e outra, no Brasil, em ple-
                   Publicitária e consultora política, desde de 1992 atua no marketing político
                   nas áreas de planejamento estratégico e criativo. Ao longo de sua carreira,
                                                                                                   na campanha eleitoral, humoristas fazem
                   vem trabalhando em diversas campanhas eleitorais e projetos de comunicação,     passeata, em Copacabana, contra a censura
                   tanto na área pública, quanto na área privada, no Brasil, América Latina e      ao humor nas eleições.
                   África. Especialista em Propaganda Política, rádio, TV e novas tecnologias de
                   comunicação, é Diretora de Relações Públicas da ABCOP-Associação Brasileira
                   de Consultores Político, membro da ALACOP - Associação Latino-Americana de      A avó, o ator, o povo moçambicano, os hu-
                   Consultores Políticos e editora do blog MarketingPolitico.com
                                                                                                   moristas.
                   Palavras-chave: Marketing Político, Eleições, Internet, Cidadania, Política
                                                                                                   O que todos têm em comum? São consu-
                   www.marketingpolitico.com.br
                   gil@marketingpolitico.com.br                                                    midores e cidadãos, com uma causa na ca-
                   www.twitter.com/gilcastillo                                                     beça e a tecnologia nas mãos.
                   www.twitter.com/MktPol
30
     A Avó e o ator
     Eden Prairie, indignada com a informa-
     ção de que a rede Target havia doado US$
     150,000 para a campanha de Tom Emmer,
     candidato ao Governo do Estado de Mi-
     nessota (EUA), entra em uma loja da rede,
     faz tranquilamente uma compra de US$
     226. Em seguida, procura pela gerência,
     devolve a compra, explica seus motivos e
     destroi o cartão de crédito da empresa. Mo-
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ebook -- Mídias Sociais e Eleições

  • 1.
  • 2. Editorial Publicação 2011. Marcel Ayres, Renata Cerqueira e Tarcízio Silva Título: Mídias Sociais e Eleições 2010 A PaperCliQ é uma agência focada em comunicação e estratégia, cujo principal objetivo é posicionar diferentes Autores: organizações no universo digital. Entre os seus principais Adriana Cristina Omena Dos Santos Mariana Oliveira serviços, estão: Planejamento Estratégico Digital, Ana Brambilla Martha Gabriel Monitoramento e Mensuração Online, Produção de Ana Maria Bicca Conteúdo e Relacionamento em Mídias Sociais, Coolhunting Murillo de Aragão etc. Para saber mais, acesse www.papercliq.com.br | www. Andreia Martins Natália de Oliveira Santos slideshare.net/papercliq | www.twitter.com/papercliq. Anna Paula Castro Alves Nina Santos Carlos Manhanelli Patrícia Rossini Carolina Tomaz Batista Renata Cerqueira Claudiana Silva Ruan Brito Nina Santos Danila Dourado Samantha Shiraishi Nina Santos é assessora de comunicação política e Eliane Fronza Sueli Bacelar pesquisadora do Centro de Estudos Avançados em Fernanda Fabian Tarcízio Silva Democracia Digital e Governo Eletrônico (CEADD- Gabriela da Fonseca UFBA). Atua especialmente com estratégias políticas online, Gil Castillo Direção de arte: gerenciamento de perfis online, assessoria de comunicação Larissa Oliveira Caio Sá Telles online e campanhas online. Leandro Mazzini Danila Dourado Luiz Marcos Ferreira Júnior Rodrigo Lessa Marcel Ayres Ruan Brito Ruan Carlos Brito é publicitário (UFPA), mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas (UFBA), especializando em Comunicação e Política (UFBA). Atua nas áreas de Marketing Eleitoral, Assessoria de Comunicação Política, Gerenciamento e Monitoramento de Mídias Sociais.
  • 3. Apresentação Em um momento em que qualquer pessoa Expectativas e comparações com as elei- tores convidados ou selecionados por Cha- com acesso a determinadas tecnologias e ções americanas de 2008 foram inevitáveis, mada de Trabalho, apresentam neste ma- habilidades técnicas tem a possibilidade de mas, entre os extremos do otimismo e do terial suas formulações, entendimentos ou registrar e compartilhar suas impressões de pessimismo, profissionais e cidadãos bra- estudos de casos que relacionam as tecno- mundo, opiniões, gostos, desejos e satisfa- sileiros fizeram sua própria história. Este logias online às eleições brasileiras. ções, também surge outra possibilidade de ebook, organizado e escrito por pesquisa- se construir a história. De forma colabo- dores teóricos e práticos de comunicação Reunimos aqui variadas e ricas abordagens rativa, cada usuário de internet realiza, em política e/ou comunicação digital, é uma sobre esta temática tão fascinante e desafia- menor ou maior grau, um grande registro iniciativa para registros referentes às elei- dora para qualquer pessoa que se proponha dos acontecimentos de seu tempo. ções de 2010, servindo de insumo às diver- a compreender as características de nossa sas classes de atores sociais envolvidos no sociedade e de nossa época. Esperamos que Em 2010, foi a vez de uma grande massa de processo: assessores, marketeiros, consul- este e-book funcione como um apanhado cidadãos, individualizados em seus usos da tores, jornalistas, políticos e cidadãos. teórico e prático, diversificado e amplo, que internet, observar, criticar e interferir nas contribua com o debate acerca das mídias eleições brasileiras. Com as possibilidades e A proposta deste e-book é reunir diferentes sociais e dos processos políticos no Brasil. as restrições de uma legislação eleitoral que olhares daqueles interessados em examinar não podia mais ignorar os avanços na des- e refletir sobre o papel que as mídias sociais centralização da comunicação, novos desa- podem exercer nos processos eleitorais. fios e oportunidades se apresentaram para Com isso, pessoas com diversas formações os brasileiros. e trajetórias, profissionais e estudantes, au-
  • 4. // ESTA OBRA É LICENCIADA POR UMA LICENÇA CREATIVE COMMONS Atribuição – Uso não-comercial – Compartilhamento pela mesma licença 2.0 Você pode: > copiar, distribuir, exibir e executar a obra; > criar obras derivadas. Sob as seguintes condições: > Atribuição. Você deve dar crédito ao autor original. > Uso não-comercial. Você não pode utilizar esta obra com finalidades comerciais. > Compartilhamento pela mesma licença. Se você alterar, transformar ou criar outra obra com base nesta, somente poderá distribuir a obra resultante sob uma licença idêntica a esta. > Para cada novo uso ou distribuição, você deve deixar claro para outros os termos da licença desta obra. > Qualquer uma destas condições pode ser renunciada, desde que você obtenha permissão do autor. Qualquer direito de uso legítimo (ou fair use) concedido por lei ou qualquer outro direito protegido pela legislação local não são em hipótese alguma afetados pelo disposto acima.
  • 5. Mídias Sociais e Eleições 2010 Convidados 06. Redes sociais e eleições em 2010 08. De @Candidato para @Eleitor. Enter! 11. Mídias Sociais e as Eleições Brasileiras de 2010 14. A influência da campanha Obama nas eleições brasileiras de 2010 21. Comunidades do Orkut sobre Presidenciáveis nas Eleições Brasileiras de 2010 29. O papel da militância através das redes sociais durante as eleições 38. Democracia, eleições e redes sociais online: uma possibilidade de pluralização do diálogo 45. Branded Content nas Eleições 2010 57. Interface entre Jogos Sociais e Política: Oportunidades e Estratégias de Diferenciação 66. Monitoramento de Conversações sobre Políticos: prática, limites e possibilidades 71. Blog do Terra sobre Mídias Sociais e Eleições 76. A cobertura da primeira campanha on line na redação de A TARDE 81. Controle e Espetáculo - Privacidade & Transparência na Política e Eleições Selecionados 89. A interação e a mobilização nas redes sociais dos três princiais presidenciáveis 97. Candidatos Virtuais: O oficial e o oficioso no ciberespaço 104. O papel do blogueiro e o engajamento espontâneo nas eleições 111. O Twitter e as Campanhas Políticas: Uma Análise da Conversação dos Presidenciáveis 117. O Uso do Twitter pelos Presidenciáveis 126. Participação política na Era Digital: um estudo de caso das #Eleições2010 135. Midias sociais e a aproximação do eleitor com o candidato 142. A campanha virtual pode ser igual para todos os candidatos? 148. Política? “E eu com isso?” 151. A relação entre redes sociais na internet e o certame eleitoral no Brasil
  • 6. F inalmente, a internet e as redes Redes sociais e eleições sociais tiveram um papel mais re- levante nas eleições brasileiras. Po- em 2010 rém, como bem disse Pedro Doria em artigo no Estadão (31/10/10), coluna ninguém venceu na rede. O empate entre os candidatos nesse meio de comunicação revela que, no limite, as redes sociais não Por Murillo de Aragão favoreceram ninguém nem foram decisivas para o resultado final. O Brasil de 2010 ainda é um país em que a penetração da internet é baixa, apesar da Advogado, jornalista, cientista político e presidente da Arko Advice Pesquisas vocação do brasileiro para a rede e do seu e sócio da Aragão-Osório Advogados Associados. É Formado em Direito pela potencial de crescimento explosivo. Sen- Faculdade de Direito do Distrito Federal, é mestre em Ciência Política pela Universidade de Brasília e doutor em Sociologia (estudos latino-americanos) pelo do assim, não houve qualquer episódio Ceppac – Universidade de Brasília. Em 2007, foi nomeado pelo Presidente da nas redes que modificasse de modo claro República para o CDES – Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. É e decisivo as tendências do processo elei- ainda articulista em vários veículos de imprensa, por exemplo: jornal O Tempo (Belo Horizonte), jornal O Liberal (Belém), Blog do Noblat, revista Conjuntura toral. No futuro, no entanto, não deverá Econômica (FGV), entre outros. ser assim. www.arkoadvice.com.br www.blogdomurillodearagao.com.br Alguém diria, de pronto, que a campanha de www.twitter.com/murillodearagao desinformação em torno de Dilma Rousse- ff e o tema do aborto podem ter-lhe rou- bado votos na reta final do primeiro turno. Mas o estrago causado pela ação na web foi bem menor, por exemplo, que a maciça cobertura da mídia eletrônica em torno do caso Erenice Guerra.
  • 7. Mídias Sociais e Eleições 2010 A situação seria diferente se tivéssemos um mato na internet é um grave problema que trução de tendências e, claro, para a defini- empate técnico, no qual “detalhes” como termina por minar a própria credibilidade ção de resultados eleitorais. as redes sociais poderiam pender em favor do meio. No futuro, vejo a credibilidade de um ou de outro candidato. Ao pontu- das redes sociais sendo avaliadas por seu ar tais aspectos volto a dizer que a internet grau de transparência. e as redes sociais foram importantes, mas não decisivas. Na prática, o Código Penal não vale na in- ternet e, de forma esperta, alguns grandes A campanha teve aspectos interessan- sites e redes se escudam nas legislações mais tes ligados à internet e às redes sociais e complacentes do mundo para não atuar de que merecem destaque. O fato que mais forma enérgica contra a prática de crimes me chamou a atenção foi o uso do twit- que envolvem a honra. ter na mobilização da militância partidá- 7 ria e de simpatizantes dos candidatos. No Aos românticos, o anonimato tem um doce caso brasileiro, é o que importa: mobilizar sabor libertário. Quando se está a favor, enormes contingentes eleitorais em favor tudo é lindo e maravilhoso. Porém, quando de uma candidatura. O twitter também se é vítima de difamação e calúnias é como serviu para informar eventos e antecipar sofrer de bullying sem saber a identidade de direções. Em especial, para repercutir as seus agressores e sem ter a quem reclamar. prévias das pesquisas, abundantemente comentadas na rede. Como há complacência nas redes, podere- mos ter, como efeito colateral, ações restri- Um segundo fato é que o uso da internet na tivas no âmbito regulatório. Não devemos disseminação da informação teve no ano- esquecer que vai haver uma discussão sobre nimato o seu pior e mais perverso aspecto. o marco regulatório da internet no Brasil. Nesse sentido, alinho-me a Arthur Scho- Eleitoralmente falando, a questão é impor- penhauer, que dizia que o anonimato serve tante, já que no futuro as redes sociais e a para tirar a responsabilidade daquele que disseminação de informações por outras não pode defender o que afirma. O anoni- mídias terão peso ainda maior para a cons-
  • 8. H á duas verdades incontestáveis De @candidato para @eleitor . sobre a relação entre internet e política depois das eleições Enter! de 2010. Ela veio para ficar e vai ganhar mais importância; coluna e, da forma como foi usada, atrapalhou mais que ajudou. Por Leandro Mazzini É fato que as mídias sociais ganham es- paço a cada dia, a cada momento, a cada minuto em que você atualiza uma página do Orkut, Facebook, YouTube, Twitter e afins. Há poucos anos, era inimaginável Dez anos de experiência no jornalismo on-line e impresso, em coberturas um político trocar o seu famoso “santi- políticas no Rio de Janeiro (2000 a 2006) e Brasília (2007 até hoje). Desde nho” por uma boa foto sorridente em 2007, assina o Informe JB, hoje no Jornal do Brasil Digital – coluna distribuída para diários do Paraná, Sergipe, Pará, e blogs de todo país. Comentarista da uma página pessoal criada especialmen- Rádio Digital News e da REDEVIDA de Televisão, no Jornal da Vida, em te para a campanha. Aconteceu, como rede nacional, com boletins direto do Congresso ou do Palácio do Planalto. num clique. Primeiro, porque a minirre- Apresentador do programa de debates semanal Tribuna Independente, ao vivo e em rede, na mesma emissora. Autor do livro “Corra que a Política Vem Aí” forma eleitoral realizada em 2007 mu- (2010). dou muito as campanhas, limpou as ruas www.leandromazzini.com.br de faixas e folders e outros materiais pu- www.jblog.com.br/informejb.php blicitários. Segundo, porque a inclusão www.twitter.com/leandromazzini digital cresceu incrivelmente – e ainda ocorre, neste momento – com a deman- da por computadores, os investimentos das telefônicas em internet e transmis- são de dados, e o projeto do próprio go- verno federal em implantar banda larga (para valer).
  • 9. Mídias Sociais e Eleições 2010 Todos esses fatores colaboraram, então, sobre presidenciáveis, candidatos a gover- ve o contrário, o sujeito perde uma eleição. para que nas últimas três eleições (e isso nadores e deputados. Tudo em nome do di- É a nova guerra política, a virtual. conta os pleitos municipais) os candidatos nheiro, a mentira pelo poder. Gasta-se com trocassem o papel pela tela, o comício pelo esse método – marqueteiros renderam-se a Dentre todos os websites, inegável apon- spam, o discurso pela mensagem online, e este mecanismo –, há invasão de privacida- tar o Twitter como o mais avassalador nes- até o corpo a corpo por trocas de emails, de – seu endereço eletrônico é distribuído te cenário político. Em todos os sentidos. comentários no blog, além de postagens no ilegalmente não se sabe como –, e quem Para o bem ou para o mal. O Twitter virou Twitter. É o novo modus operandi das cam- perde é toda a sociedade. Além dos pró- um meio de comunicação social, em que panhas eleitorais, um irreversível avanço na prios candidatos, que, em vez de focarem encontramos comunicados oficiais de go- comunicação e no elo entre o político e o o discurso propositivo, perderam valiosos vernos e políticos antes mesmo que estes eleitor – embora a internet possa, por outro minutos em programas de rádio, TV, nas anunciem nos meios tradicionais. Vê-se o lado, iniciar um processo de distanciamen- ruas e na própria internet para desmentir exemplo deste poder do canal nos números to entre o candidato e o cidadão. Acredito cenários e citações falsas que se renovavam de seguidores – na primeira quinzena de 9 que isso vá acontecer, e poderá tomar ru- a todo dia. Perdeu o eleitor, por acreditar dezembro de 2010, eram 1,3 milhão de se- mos ainda misteriosos se a sociedade não nelas e espalhá-las para seus contatos. guidores para os três principais presidenci- cobrar a aproximação, ou seja, o aperto de áveis que disputaram o pleito. Obviamente, mão e os olhos nos olhos. Esse é o lado ruim da internet no país. Pa- um número pequeno, 1% dos eleitores, mas ga-se um preço por isso: não há uma lei que significantemente forte, por se tratarem de A internet é um mundo virtual maravilho- regulamente o uso da rede no Brasil. É um multiplicadores de opinião na rede social e so que também tem suas armadilhas. Ob- assunto delicado, os parlamentares sabem. na internet como um todo. Se, antes, um viamente, em muitos casos ela nos priva da Qualquer citação disso numa tribuna de ple- “santinho” passava por poucas mãos, ago- realidade. Mora aqui, logo, o fato de, em nário e vira-se alvo de ataques que remetem ra uma mensagem virtual chega a centenas, 2010, a rede eletrônica ter sido usada de tal a uma palavra perigosa numa democracia: talvez milhares de eleitores, em apenas um forma maléfica – por maledicentes ocultos, censura. Por ora, vê-se o que vê na internet clique e em poucos minutos. publicitários e inclusive políticos mal in- porque não houve um debate sério, dedi- tencionados – para prejudicar adversários. cado e minucioso sobre as redes sociais. E, A urna eletrônica e sua apuração acelerada Não foram poucas as mensagens de falso pelo que se viu na campanha, não interes- foram um avanço. Mas já é pouco diante do conteúdo disparadas por e-mail para mi- sa a ninguém por ora. Cria-se um fato para crescimento da internet e suas redes sociais, lhões de eleitores, disseminando inverdades prejudicar um adversário e, até que se pro- com sua conectividade acelerada e a essen-
  • 10. cial interatividade. Chegará um dia, e será breve, em que o cidadão poderá votar numa eleição seguramente pela internet, ou pelo celular – via torpedo ou voz. Como existem vantagens e desvantagens, o perigo desse mundo novo que engole as campanhas é que a relação entre o candidato, o eleitor e a democracia se torne tão virtual quanto a tecnologia que já domina a política. 10
  • 11. I maginavam que no Brasil o sucesso das Mídias Sociais e as Eleições mídias sociais seria proporcional ao que ocorreu nos Estados Unidos. Pensavam Brasileiras de 2010 que o povo iria correr para seus celulares interativos, computadores e notebooks atrás de informações sobre seu candidato preferido, como se este fosse um ídolo do futebol, ator famoso ou um rockstar. Por Carlos Manhanelli Acharam que a dona Maria e o tio Zé – que assistem novelas, o jornal por embalo e desligam a TV quando a conhecida tela azul com letras em branco anuncia que a Jornalista, Publicitário, Radialista, Administrador de empresas. Especialista em lei número 9.504/97 entra em ação com Propaganda e Marketing pela ESPM, em Ciências Políticas pela FESP, MBA em Marketing pela USP e Mestre em Comunicação Social pela Universidade seu horário eleitoral gratuito – se dariam ao Metodista de São Paulo. Professor titular na cadeira de Comunicação Política trabalho de buscar motivos para acreditar e e Marketing Eleitoral no curso de pós graduação (Maicop) da Universidade votar em um candidato na internet. Pontifícia de Salamanca na Espanha. Presidente da ABCOP - Associação Brasileira dos Consultores Políticos e Assessores Eleitorais. Autor de livros como Estratégias Eleitorais e Marketing Político (1988), A Propaganda Política Aliás, dentro desse contexto, no de acreditar, no Brasil Contemporâneo (2009) e Marketing Eleitoral o Passo a Passo do Nascimento de um Candidato (2010). foi um dos motivos pelo qual deu tão certo a campanha virtual de Obama: a esperan- Palavras-chave: Marketing, Campanhas, Candidatos, Mídias Sociais ça. Foi o que alimentou e, principalmente, www.manhanelli.com.br moveu as pessoas naquele país a trabalhar www.marketingpolitico-manhanelli.blogspot.com em prol do candidato democrata e acessar www.twitter.com/manhanelli a internet e até colaborar financeiramente com débitos em cartões de crédito. Sendo a primeira vez que se usaram, na sua plenitude, as ferramentas da internet
  • 12. em uma campanha eleitoral aqui no Brasil, ções. Estamos vivenciando um grande la- Em outra mão, outro aspirante a um car- nada se tem de muito concreto sobre como boratório virtual nas campanhas eleitorais go na Assembléia Legislativa de São Paulo, funcionam – se funcionam – as mídias so- no nosso país. um senhor, na casa dos 70 anos idade, que ciais por aqui no âmbito político ou eleito- não tinha boa penetração entre o eleitora- ral. Houve partido que fez desembarcar por No Amapá, foi minguada a implantação do jovem, decidiu entrar nesse campo. Foi essas terras o norte-americano Ben Self, só- da campanha virtual para o cargo de go- criado um perfil no Orkut na tentativa de cio da Blue State Digital, responsável pela vernador. Isso ocorreu, pois, entre outras aproximá-lo desse público. Resultado: em movimentação na rede de computadores coisas, nesse Estado não há conexão por dois meses dois perfis do candidato ficaram da campanha de Barack, acreditando na- Banda Larga, o que torna pouco atrativo cheios, lotam de acessos e geram interativi- quela antiga máxima “O que é bom para os passar o dia brigando com a lentidão do dade com o deputado. Surpresas de campa- E.U.A é bom para o Brasil”. Ledo engano. velho modem discado. nha eleitoral. Só faltou levar em conta que eram realida- Outro motivo foi que a maioria das pes- Há, inclusive, campanhas e candidatos que des distintas, e avisar essa turma que nem soas que tinham acesso à internet era con- se tornam um dos assuntos mais comenta- tudo que serve lá serve aqui também. En- trária as candidaturas que se apresenta- dos na rede. Isso se passou com um candi- 12 tretanto, uma experiência pioneira que se vam, apesar da penetração dos candidatos dato a deputado federal por São Paulo (Ti- mostrou muito acertada foi o debate online serem muito forte entre os jovens. Por re- ririca), que se tornou, pelo menos durante entre presidenciáveis na internet brasileira ceio de entrar com mais intensidade nes- uma semana, o nome mais comentado no que ocorreu dia 18 de agosto de 2.010 no se meio, não se aplicou muito empenho Twitter. No Youtube, os vídeos desse mes- teatro da PUC-SP, em uma parceria entre o e dinheiro às mídias sociais durante essa mo candidato com seus pedidos de voto no portal UOL e o jornal Folha de São Paulo. campanha. horário eleitoral gratuito são campeões de audiência na categoria. Foi algo que realmente movimentou as re- O mesmo temor houve em uma campa- des sociais e quem se interessava por polí- nha para deputado estadual no interior Outros apelaram para o SPAM causando tica, o que converteu a contenda em algo do Estado de São Paulo. Por preferir não indignação entre os eleitores pelo núme- de alto nível. Algo de grande interatividade se arriscar nesse plano, direcionou-se a ro recebidos, de todos os lados, vindos de e dinâmica. Este é ainda um ano de expe- verba para outras esferas da campanha e amigos, parentes, colegas de trabalho em riências para o Brasil no campo das mídias simplesmente ignorou-se a “moda” das uma militância mal-direcionada, dos pró- sociais e suas aplicações na política e elei- mídias sociais. prios candidatos comprando maillings e
  • 13. Mídias Sociais e Eleições 2010 disparando a torto e a direito sua “propa- maioria dos casos aquele simples email só ganda virtual”. Na rede social Twitter, por vai causar incomodo. exemplo, há uma profusão de protestos nesse sentido. Algumas pessoas reclamam Sabemos que as pessoas enviam esse tipo de receber até 50 emails por dia com esse de mensagem, com a melhor das inten- teor. É caso clássico para analisarmos por ções, mas, de bem intencionado a detenção que envio de email não solicitado, também está lotada, esta mensagem continua sendo chamado de SPAM, simplesmente não spam. O conceito de Spam é: todo email funciona. não solicitado e enviado em massa. Curto e grosso. Você pode presumir que todos Utilizando o email marketing político da na sua lista compartilham das suas idéias, maneira certa, ele até pode ser vantajoso, mas é bastante provável que isso não seja pois estreita e deixa mais intimo o conta- verdade, principalmente em se tratando de 13 to entre candidato e eleitor e serve como assuntos eleitorais. fonte de notícias e avisos sobre datas de comícios, debates, pesquisas, etc. principal- Só vamos obter o verdadeiro resultado do mente aos militantes. Em outras palavras, é uso dessas ferramentas durante as campa- útil para quem se interessa. Por outro lado, nhas, e fazer com que elas se tornem votos quando emails não solicitados com teor ou doações para campanhas, quando todas político chegam às caixas de entrada quase as ferramentas forem testadas aqui no Bra- sempre são mal-recebidos. sil. Como tudo ainda é muito novo, e mais da metade da população brasileira não tem A não ser que você concorde plenamente acesso à internet, qualquer conclusão será com o conteúdo daquela mensagem elei- apressada, provavelmente incerta e prova- toral e, detalhe importante, não se importe velmente incorreta. Ainda estamos no la- nem um pouco de receber spam, você não boratório. O remédio pode matar se apli- vai mudar seu voto baseado no conteúdo cado, sem os devidos testes, em campanhas de um email. Isso quer dizer que na grande eleitorais.
  • 14. É quase impossível falar sobre a A influência da campanha influência das mídias sociais nas eleições sem que a palavra “Oba- Obama nas eleições brasileiras ma” venha à cabeça. A estratégia digital da campanha realizada pela equipe de Barack Obama em 2008, nas de 2010 eleições norte-americanas, se tornou parâ- metro de sucesso para qualquer campanha política que a sucedesse. Palestras, livros, documentários, entrevistas, posts em blo- gs, artigos acadêmicos: a campanha digital Por Mariana Oliveira norte-americana foi retratada, discutida e analisada em inúmeras instâncias, sendo considerada por especialistas como uma das grandes responsáveis pela vitória do candidato democrata nos EUA. As estraté- Mariana Oliveira é Analista de Pesquisa e Métricas na Talk Interactive e formanda em Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul gias adotadas foram minuciosamente estu- Atuou na campanha presidencial de 2010 como parte da equipe digital do dadas por profissionais do mundo inteiro, candidato José Serra, na área de Monitoramento e Métricas em Mídias Sociais. como modelo a ser exportado. Palavras chave: campanha política, mídias sociais, monitoramento, democracia digital E é aí que entra o Brasil na história, a dispu- marianarrpp@gmail.com ta presidencial de 2010 e as mídias sociais. twitter.com/marianarrpp Como se daria essa relação? A expectativa marianarrpp.wordpress.com google.com/profiles/marianarrpp era grande – bem como as responsabilida- des, também. E antes de qualquer definição oficial sobre candidaturas ou coligações, já circulavam questionamentos de analistas do cenário político e principalmente dos es- pecialistas de comunicação: como o Brasil,
  • 15. Mídias Sociais e Eleições 2010 com seus milhões de usuários de Internet, perfis oficiais nas principais mídias sociais televisivas gratuitas, por exemplo, inexistem vai utilizar esse potencial de audiência, com- (e uma dedicação especial para a conta ofi- na campanha norte-americana, o que exigiu partilhamento e relacionamento nas estraté- cial do candidato no Twitter, o que chamou maior atenção aos investimentos em estraté- gias das campanhas? Repetirá o sucesso da a atenção de muitos descrentes no poder da gias para o mídia digital). campanha de Barack Obama? Os eleitores ferramenta) até a criação de uma rede social terão acesso a mais informações sobre seus online própria - a MyBarackObama.com - A lista de diferenças fundamentais entre o candidatos, ajudando no processo transpa- que possibilitava a interação entre seus par- processo político no Brasil e nos Estados rente de escolha do voto? Estes eleitores ticipantes, a estratégia digital da campanha Unidos é extensa e, por si só, já seria jus- poderão se auto-organizar em movimentos de Obama é a maior referência de sucesso tificativa para que a campanha digital de políticos através da web? Os candidatos vão de ferramentas de mídias sociais em uma Barack Obama não servisse de parâmetro usufruir do potencial de troca e conversa- campanha política. para a campanha digital dos candidatos a ção da web que, além da quebra de barreiras cargos públicos no Brasil. Mas outros fa- geográficas, possibilita uma aproximação O problema de adotar esse modelo cegamen- tores também devem ser destacados nessa 15 maior do político com sua base eleitoral? te é que desconsideraríamos as diferenças es- análise comparativa: não bastam as diferen- Todas estas questões circundavam não só truturais entre o processo político do Brasil e ças entre os processos políticos nos países, a cabeça do estrategista de campanha polí- o dos EUA, ignorando questões fundamen- ainda devemos considerar o enorme abis- tica, mas também a do eleitor conectado e tais, como: a não-obrigatoriedade do voto mo digital entre Brasil e Estados Unidos. interessado em saber como a internet con- nos Estados Unidos e a consciência política Os norte-americanos somam mais de 2401 tribuiria para a consciência política do país, da população; a estrutura político-partidária milhões de usuários conectados à internet, ambos se deparando com um ambiente dos países (que é completamente diferente, enquanto no Brasil somos 67,52 milhões de novo de construção de relacionamentos e principalmente pela dicotomia presente nas usuários, menos de um terço. Outro exem- conversação com eleitores. eleições norte-americanas) e o processo de plo é a velocidade média da banda larga: escolha dos candidatos dos partidos, já que nos EUA é de 4,6 Mbps, enquanto no Bra- É possível comparar as no Brasil estes são decididos apenas pelos sil a média3 é de 1,36 Mbps. E, muito além campanhas? membros políticos das coligações e, nos Es- dos números, destacam-se também as faci- Como dito anteriormente, a estratégia digital tados Unidos, são eleitos nas prévias com lidades de acesso à web, o investimento em da campanha Obama já foi revista e debati- voto popular dos filiados aos partidos; o sis- da muitas vezes, em diferentes de formatos. tema de financiamento das campanhas e os 1 Internet World Stats - www.internetworldstats.com/am/us.htm Desde a simples criação e alimentação de recursos para propaganda eleitoral (as cotas 2 Internet World Stats - www.internetworldstats.com/sa/br.htm 3 Akamai, 2010. http://www.akamai.com/stateoftheinternet/
  • 16. tecnologia na educação, os hábitos culturais Para exemplificar, podemos identificar ma- dois principais candidatos e, consequente- da população em relação ao uso da web, croestratégias da campanha de Barack Oba- mente, os mais atingidos. dentre tantas outras questões. ma que foram adotadas e readaptadas pelas campanhas dos três principais candidatos à O site oficial de José Serra também conta- Como esperar que as estratégias de campa- presidência do Brasil: Dilma Rousseff, José va com uma área de Perguntas Frequentes, nha adotadas pela equipe de Barack Obama Serra e Marina Silva. que respondia dúvidas de eleitores como sejam compatíveis com a realidade brasilei- políticas para concursos públicos, privati- ra? Como exigir a mesma importância da Centrais de boatos zações, meio-ambiente, entre outros. Além internet no pleito eleitoral, sendo que os Centralizar possíveis inverdades em uma disso, uma seção mais específica, chamada Estados Unidos contam com 3/4 da po- página do site oficial, com todas as infor- Combata a Mentira, trazia textos que escla- pulação com acesso à internet, enquanto mações para desmentir o ocorrido, foi uma reciam histórias mais elaboradas, como o essa proporção é de 1/3 no Brasil? Como das principais estratégias da campanha de suposto aborto de sua esposa Mônica Serra, trabalhar de maneira semelhante com pú- Barack Obama, já que o candidato era desmentido em nota oficial no site. A cen- blicos tão heterogêneos (culturalmente e relativamente desconhecido pela grande tral de boatos se tornou uma das áreas mais politicamente) como a audiência brasileira maioria da população norte-americana e visitadas e compartilhadas do site oficial do 16 e a norte-americana? atraiu uma série de histórias consideradas candidato. Já a campanha de Dilma Rous- caluniosas sobre seu passado. No Brasil, a seff criou uma força-tarefa semelhante para Partindo destas considerações, percebemos influência foi clara: os três candidatos ado- combater boatos a respeito da candidata: o o quanto perderemos tempo ao comparar taram postura semelhante em seus sites Espalhe a Verdade. Além dos desmentidos, apressadamente as estratégias digitais das oficiais de campanha. Marina Silva, candi- a página também contava com orientações campanhas políticas destes países, ao invés data pelo PV, possuía uma área reservada a militantes sobre como disseminar a infor- de tentar identificar quais foram as influên- (porém tímida) no site para as Perguntas mação verdadeira para suas redes sociais. O cias que foram adaptadas à realidade elei- Frequentes, em que respondia questões Espalhe a Verdade também contava com toral brasileira com sucesso, sem o peso de polêmicas como sua posição sobre aborto, uma central telefônica para receber as de- que tenham os mesmos resultados. É pre- religião, casamento homossexual, dentre núncias, com números específicos para ciso olhar o processo de forma mais ampla, outros alvos de boataria. Dilma Rousseff, cada capital do país. Na campanha de Oba- não se limitando a observar ações e ferra- candidata do PT, e José Serra, candidato ma, o uso de centrais telefônicas foi intenso mentas, mas sim os pilares estratégicos da do PSDB, dedicaram espaços e esforços e, como se pode ver, também influenciou a campanha digital. maiores para o assunto – já que eram os campanha brasileira.
  • 17. Mídias Sociais e Eleições 2010 Estas páginas focadas em esclarecer boatos sistema de doações com destaque no site Militância digital e cobertura foram de suma importância para o proces- oficial – um pouco mais complexo que o de colaborativa so eleitoral brasileiro, principalmente para Marina, já que exigia mais passos e cliques. Uma das iniciativas de maior sucesso da dois tipos de eleitores: o indeciso (ajudan- O site de José Serra não disponibilizou o campanha digital norte-americana foi a do a conhecer melhor os candidatos) e o recurso de doação via web. criação da rede social MyBarackObama. militante (fornecendo argumentos que o com, que centralizava conteúdo, orien- ajudavam a convencer outros eleitores). Primeiramente, devemos considerar as tações e ferramentas para eleitores que Em ambos os casos, a existência de páginas questões de financiamento de campanha apoiavam o candidato, os “militantes” centralizando desmentidos em caráter ofi- eleitoral: culturalmente falando, o brasi- da campanha. A rede oferecia possibi- cial é uma das influências diretas da campa- leiro não tem o hábito de contribuir para lidades como a criação de seu próprio nha norte-americana que também alcançou campanhas políticas como pessoa física. blog de apoio (com o domínio “your- o sucesso em terras brasileiras. E, ainda falando sobre hábitos: é injusto name.barackobama.com”), e incentivos comparar a quantidade de pessoas que aos militantes para que participassem 17 Doações pela internet fazem transações financeiras na internet da cobertura de eventos em tempo real Osite oficial de Barack Obama foi um dos (compras, pagamentos, doações) no Brasil enviando seus vídeos e fotos para o grandes responsáveis pelas arrecadações e nos EUA. Ainda que a cada ano essa es- site. Além de estimular o compartilha- de donativos para a campanha. A chamada tatística cresça e cada vez mais brasileiros mento de conteúdo pró-candidato nas para doação ocupava posição de destaque passem a “confiar” no sistema de paga- redes sociais, esta rede também se tor- na página inicial – e o processo para doar mentos online, esse número ainda é baixo. nou ponto de encontro de militantes e era facilitado em poucos cliques. No Brasil, Ao somar estes fatores (pessoas que não discussão de estratégias para ajudar na infelizmente não repetimos este sucesso. A fazem transações financeiras na internet e campanha, uma incubadora de idéias e candidata Marina Silva, que dispunha de um que não doam para campanhas políticas), sugestões vindas diretamente dos eleito- orçamento menor de campanha, foi a que temos um cenário em que a arrecadação res. Este reconhecimento dos cidadãos mais investiu neste sistema de doações pela online de doações não obteve o mesmo como parte do processo eleitoral faz internet. A chamada também ocupava po- sucesso que a campanha de Obama. Ainda parte da estratégia de relacionamento sição de destaque na página inicial do site, assim, é possível que estes primeiros pas- com o público, valorizando o conteúdo e o processo para doação se realizava em sos de incentivo à doação online ajudem e participação do usuário e possibilitan- pouco mais de alguns cliques. A campanha a tornar o hábito cada vez mais comum do a transformação dos eleitores em, de da candidata Dilma também possuía um entre os cidadãos brasileiros. fato, militantes da causa.
  • 18. No Brasil, esta estratégia foi adotada com não só entre os políticos. A integração com candidata também direcionava mensagens sucesso pelos principais candidatos à Pre- outras redes sociais também fez do Twitter a outros usuários, mas com menor freqü- sidência: as áreas reservadas para a “mili- um dos principais agregadores de notícias ência do que os outros candidatos. Ainda tância digital” ocupavam posições de desta- sobre a campanha: nos posts do microblog, assim, o conteúdo postado no perfil oficial que nos sites oficiais, oferecendo diversos eram referenciadas as fotos do Flickr, os era intensamente distribuído pelas redes de recursos para os eleitores que desejassem vídeos do Youtube, a página oficial no Fa- apoio à candidata, como os perfis @dilma- participar ativamente da campanha: espa- cebook, fazendo que os outros canais tam- narede e @dilmanaweb. Já o perfil de José ços de participação e colaboração (em que bém se fortalecessem. Entretanto, pouco Serra, criado em maio de 2009 (cerca de 1 os eleitores poderiam discutir os planos de depois da vitória nas eleições, Obama de- ano e meio antes do pleito eleitoral), teve governo), fóruns e postagens de comentá- clarou que nunca usou o Twitter de fato: as destaque pela quantidade de seguidores rios, tutoriais de como usar determinadas postagens eram coordenadas por uma as- (mais de 470 mil em 03/10, quase o dobro ferramentas (transmitir eventos, participar sessoria responsável. E até isso influenciou das outras candidatas), e também pela pe- de movimentos no Twitter), e ambientes o posicionamento dos perfis no Twitter dos culiar forma de atualização do perfil: geral- de interação entre os próprios eleitores. As candidatos à Presidência. mente nas madrugadas adentro, rendendo chamadas “coberturas colaborativas” tam- o apelido de “indormível”. O perfil tratava 18 bém tiveram grande importância para as O perfil oficial de Marina Silva no Twitter, de assuntos como agenda, plano de gover- estratégias digitais das campanhas brasilei- criado em janeiro de 2010, contava com no, opiniões, respostas a eleitores e, não se ras, pois forneciam conteúdo exclusivo em mais de 270 mil seguidores no dia da eleição. limitando a assuntos políticos, comentários tempo real dos eventos – que, além de ser Através dele, a candidata informava agen- sobre música, filmes, livros. O presidenci- disseminado nas redes sociais, reforçavam da, plano de governo, opiniões, concedia ável fez questão de mostrar a pessoa além o relacionamento com estes ativadores que respostas a questionamentos de eleitores, do candidato, ainda que nos últimos dias de enviavam o material. entre outros. As postagens eram realizadas campanha o perfil tenha adotado uma pos- pela própria candidata e por sua assesso- tura mais eleitoreira. Twitter oficial ria. O perfil de Dilma Rousseff, criado em Um dos maiores destaques na estratégia de abril de 2010, contava com mais de 240 mil Neste quesito, a comparação dos perfis dos campanha norte-americana, Barack Oba- seguidores no dia 3 de outubro. Os tweets candidatos à presidência do Brasil com o ma - o político com o maior número de se- tratavam basicamente sobre a agenda da perfil do candidato à presidência dos Esta- guidores do mundo - se tornou referência candidata, além de posições sobre aconteci- dos Unidos também incorre em um erro: de boas práticas no uso da ferramenta – e mentos do dia e agradecimentos públicos. A o Twitter teve um peso maior na estratégia
  • 19. Mídias Sociais e Eleições 2010 digital das eleições brasileiras do que nas que evidentemente não seguem a política contatos, valorizando seu candidato ou de- norte-americanas, e acabou muitas vezes de envios da campanha oficial. negrindo a imagem do adversário - e esse por pautar a mídia chamada “tradicional”. e-mail pode ser repassado muitas vezes, Declarações dos candidatos em seus per- Em uma associação precipitada, os eleito- atingindo milhares de pessoas. fis acabavam ultrapassando os limites da res acabaram por confundir e declarar que internet: apareceram como tópicos em “a campanha do candidato X está pratican- Assim, a linha que separa a campanha “ofi- entrevistas televisivas e ganharam páginas do spam” – ainda que por muitas vezes os cial” da campanha “não-oficial” é muito em jornais e revistas. Comparativamen- estrategistas nem tivessem conhecimento tênue: além dos eleitores, muitos analistas te falando, no sentido de conversar com sobre esta ou aquela corrente de e-mails. É e pesquisadores também não fizeram essa o eleitor, os candidatos brasileiros deram apenas um exemplo, mas existem dezenas diferenciação, o que acaba limitando a aná- um passo além da estratégia Obama, que de situações em que as campanhas oficiais lise da estratégia de campanha digital em si raramente respondia eleitores e se limita- são facilmente confundidas pelas campa- mesma, e seus resultados diretos. Em al- va a distribuir informação em formato de nhas “naturais”, feitas pelos próprios elei- guns casos, a campanha oficial absorve este 19 broadcasting. tores. É um reflexo da democratização das conteúdo gratuito e adota como parte da ferramentas de produção de conteúdo, estratégia; em outros, o material não pode Conteúdo oficial da campanha como câmeras digitais, webcams e programas ser utilizado por conteúdo vetado pela le- x conteúdo do eleitor de edição de áudio e vídeo, da populariza- gislação eleitoral. Mesmo assim, a esta as- Para enriquecer a discussão, uma das prin- ção do uso de e-mail e redes sociais onli- sociação entre as campanhas existe e tem cipais diferenciações que devem ser feitas ne e da possibilidade de compartilhamento suas conseqüências positivas (como vídeos é a de que a estratégia de campanha oficial em tempo real na web. Não é novidade que de apoio e sugestões) e negativas (caso o dos candidatos, principalmente a digital, cada vez mais as pessoas produzem conteú- conteúdo não-oficial ofenda o outro can- não responde pela campanha como um do (textos, fotos, vídeos, áudios), publicam didato). todo. Por exemplo: a campanha do can- em seus perfis e enviam para seus amigos. didato X adota uma política responsável No processo eleitoral não foi diferente: Considerações finais em relação a envios de e email-marketing. eleitores queriam participar ativamente da O que se pode perceber ao analisar a influ- Entretanto, não há como se ter controle campanha de seu candidato, seja enviando ência da campanha de Barack Obama nas sobre as correntes de e-mails e spams que material próprio, seja distribuindo informa- eleições brasileiras é que, apesar de realida- são enviados pelos próprios eleitores, mi- ção. Qualquer pessoa pode fazer um e-mail des distintas, algumas ações enriqueceram o litantes ou simpatizantes do candidato – com um vídeo amador e enviar para seus processo político como um todo, trazendo
  • 20. mais informação e conteúdo para o eleitor tanta disparidade cultural e intelectual, re- conectado e abrindo espaço para que este cursos financeiros menores e uma situação se expressasse e participasse ativamente da política desgastada como a nossa, as cam- campanha do candidato. No que concerne panhas digitais do país avançaram impor- às ações pontuais (como jogos, aplicativos tantes passos em direção a um pleito em para iPhone e outros artefatos técnicos), as que o eleitor é convidado a se informar, diferenças são evidentes e refletem o “in- debater e realmente participar do processo sucesso” das estratégias digitais brasileiras eleitoral brasileiro. Os próximos passos irão perante à campanha Obama. Mas, consi- refletir essas primeiras iniciativas de aproxi- derando as macroestratégias da campanha mar candidatos, eleitores e política através Obama que foram adotadas e readaptadas, da web, tornando a decisão pelo voto cada obtivemos resultados expressivos para a re- vez mais bem informada, participativa e alidade política brasileira. transparente. A intenção aqui não é afirmar que a cam- 20 panha digital brasileira foi melhor ou pior do que a norte-americana, e sim apontar as diferenças básicas que devem ser conside- radas neste ato de comparação. De fato, a influência da campanha Obama proporcio- nou uma série de benefícios e aprendizados para o processo político brasileiro, mas os principais resultados vieram de tentativas e experimentações aliadas à realidade do Brasil, o que com certeza irá influenciar as próximas eleições, quem sabe até de outros países. Dizer que o Brasil não agregou bons resultados em mídias sociais nas eleições de 2010 é injusto e precipitado: mesmo com
  • 21. Uma Análise das Comunidades Uma Abordagem sobre a Vida Coletiva Contemporânea N do Orkut Voltadas para a Contemporaneidade, a vida coletiva pode ser compreen- Presidenciáveis nas Eleições dida a partir de características bastante específicas, e que se contrapõem de maneira mar- Brasileiras de 2010 cante ao que foi predominante na época moderna. A partir das últimas décadas do século XX, uma série de estudos e formu- lações teóricas relevantes aponta para mu- danças profundas em processos sociais e Por Ruan Brito culturais. De maneira geral, vivemos uma época marcada pela instabilidade institucional e pela reconfiguração de conceitos centrais Graduado em Comunicação Social – Publicidade pela Universidade Federal do Pará; mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade segundo o paradigma da Modernidade. O Federal da Bahia (na linha de Cibercultura); especializando em Comunicação e processo de globalização das últimas déca- Política pela Universidade Federal da Bahia; pesquisador do GITS – Grupo de das provoca um conjunto de permanentes Pesquisa em Interação, Tecnologias Digitais e Sociedade. fluxos – de natureza comercial, financeira, Palavras-chave: Comunidade, Orkut, Eleições, Presidenciáveis. informacional e humana – os quais deses- www.crapula-mor.blogspot.com tabilizam noções tradicionais e demandam www.twitter.com/CrapulaMor a revisão de figuras clássicas, em torno das quais a sociedade organizou-se por muitos séculos. Instituições que funcionaram como referências centralizadoras – Família, Esco- la, Igreja, Estado etc. – entram em crise, e
  • 22. a sociedade revela-se heterogênea e frag- uma persona contemporânea, eminentemen- modernidade, e sim como uma réplica à insuficiência do seu modelo individualís- mentada. Para Stuart Hall (1999), trata-se te relacional, de tendência comunitária, e tico-universalista: é a mesma sociedade de uma mudança estrutural que fragmenta que só pode ser compreendida em relação dos indivíduos, já destruidora da antiga elementos culturais de classe, gênero, etnia, ao outro (MAFFESOLI, 1996). comunidade orgânica, que agora gera raça, nacionalidade, que no passado cir- novas formas comunitárias como reação póstuma à própria entropia interna” (ES- cunscreviam nossas individualidades e nos- Este novo cenário favorece agregações so- POSITO, 2007, p. 16). sas identidades pessoais. ciais caracterizadas pela afetividade, em- patia e espontaneidade. Podemos mesmo O sujeito da contemporaneidade pode ser É possível dizer que, enquanto a proposta falar em uma espécie de sinergia coletiva, considerado como componente, a parte da Modernidade contempla relações sociais uma atração social que se dissemina pela que precisa encontrar seus pares para for- estáveis, finalistas, contratuais, e um sujei- vida contemporânea. Mesmo as situações mar o todo, numa permanente busca pela to racionalizado e individualista; o estilo de mais cotidianas ou banais podem conter alteridade. Aqui, a ênfase está na troca, vida contemporâneo, por sua vez, é mar- este vitalismo criativo. Trata-se de um mo- na partilha, na simbiose entre os diversos cado por interações mais efêmeras, afetivas vimento coletivo que compele as pessoas a integrantes dos grupos sociais, ainda que e voltadas para o presente, o sujeito pós- se reunirem nas mais diversas ocasiões, para de modo informal e sem maiores enga- 22 moderno demonstra-se plural e afeito as compartilhar seus pensamentos e emoções. jamentos em projetos ou ideologias mais diversas formas de agregações sociais. As experiências, as sensações e os prazeres sólidas. Este traço sociológico é definido passam a adquirir maior sentido quando por Maffesoli (1996) como um novo tipo Neste cenário, temos que o sujeito atual de- compartilhados com o grupo. Assim, ga- de interação: a socialidade. Enquanto a so- fine-se menos por uma identidade – defini- nham destaque as práticas denominadas ciabilidade, moderna, vinculou-se a uma da, unidimensional e já acabada, e mais por comunitárias. concepção de mundo produtivista e objeti- identificações – múltiplas, diversificadas va; a socialidade diz respeito às práticas mais e não necessariamente coerentes entre si, “É a comunidade, ou melhor, as comuni- dades particulares, onde se despedaça o frívolas e efêmeras. Com esta noção, o au- uma vez que tal sujeito circula por uma di- arquétipo tönnesiano, que sucede à socie- tor refere-se a micro-ligações cotidianas, versidade de grupos, estilos, experiências e dade moderna, em uma fase marcada pela atividades triviais de socialização, espécies formas de expressão. A figura do indivíduo crise do paradigma estatal e pela difusão de ‘neotribos’, despretensiosas, freqüen- isolado e ego-centrado, central nas formu- do conflito multicultural. Nesse caso, a comunidade não é mais entendida como temente recreativas e aparentemente sem lações sociológicas, históricas, psicológicas um fenômeno residual no que diz respei- importância, mas que moldam nossa época e políticas da Modernidade, cede espaço a to às formas socioculturais adotadas pela e nossa cultura.
  • 23. Mídias Sociais e Eleições 2010 Com isto, várias esferas da vida em socie- traços sociológicos atuais, em que se veri- mais complexos e heterogêneos, provocam dade passam a ser influenciadas por esta ló- fica uma atração social descomprometida e a falência da própria ação política, e muitas gica da tribalização. Desde reuniões de mo- afetuosa. vezes conseguem encontrar saídas que dri- radores de uma localidade, de estudantes, blam as instâncias decisórias. Os mecanis- trabalhadores, simpatizantes de uma causa, A política, em específico, ilustra um con- mos políticos e burocráticos permanecem manifestantes, praticantes de uma ativida- junto de mudanças típicas desta conjuntu- em inúmeras esferas da vida cotidiana, mas de ou de um esporte, admiradores de uma ra atual. Conceitos clássicos como os de exercem uma função cada vez mais proto- arte ou celebridade, até as festas, concertos, Estado, República, Democracia, campos colar e apontam para um esvaziamento de shows, raves, exposições etc., por mais pas- ideológicos bem definidos, como direita e sentido social. Para Maffesoli, “a sabedoria sageiras que sejam, e ainda não produzam esquerda, parecem não se adequar mais a mortífera de nossos dinossauros modernos um resultado formal, todas refletem esta este novo cenário sócio-cultural mais flui- deixa de estar em sintonia com aqueles que tendência socializante típica da Contempo- do e disperso. O contrato social, proposto dizem sim à vida; sim, apesar de tudo, à vida! raneidade, que reúne aqueles com um pen- pela lógica política moderna, calcado em Pois é disso que se trata: da extraordinária 23 samento, um sentimento comum ou algo a uma conotação racionalista e produtivista, defasagem das elites intelectuais e políticas compartilhar. já não dá conta das demandas, dos confli- em relação às coisas da vida” (2009, p. 18). tos e dos fenômenos da sociedade de hoje. Na música, no entretenimento, na religião, A própria idéia de uma identidade nacional É partir desta concepção que Maffesoli nos meios profissionais, na política, enfim, ou de um “Estado-nação” em que tudo é (1997) propõe o que denomina de “transfi- em diversos ambientes, surgem reuniões regulado por um seleto grupo precisa ser guração do político”, ou seja, uma mutação temporárias, agrupamentos espontâneos, rediscutida. de ordem social e cultural, em que a imagem ou ainda, Comunidades nos moldes con- tradicional da política apóia-se sobre uma temporâneos. Nesta perspectiva, as carac- A crise da política racionalizada provoca figura existente para tornar-se outra coisa. terísticas comunitárias não refletem mais os um grave descompasso entre os discursos Segundo esta visão, a política, nos termos valores clássicos de profundo comprometi- oficiais, institucionalizados e a vida coleti- contemporâneos, apresenta elementos for- mento, compartilhamento de experiências va popular. Aqueles que concentram poder temente comunitários. Os grandes projetos marcantes, laços humanos significativos (político, econômico ou simbólico) e ocu- e ideários são progressivamente suprimidos e duradouros, projeções de longo prazo, pam os espaços de tomada de decisão ca- por uma predisposição à associação, a um dentre outros. Esta definição tradicional recem de legitimidade social. As demandas conexionismo, à formação de Comunida- de Comunidade não é compatível com os populares, elaboradas de modos cada vez des pós-modernas.
  • 24. O Papel das Comunidades se destas ferramentas, ou seja, que haja um GOLD, 1993, online). Nesta abordagem, Virtuais em Nossa Época ambiente social que torne pertinente o uso uma Comunidade Virtual implica discus- Nesta cadeia de mudanças do tipo mais das ferramentas técnicas. No caso, a inter- sões públicas entre pessoas, permeadas por profundo que vivenciamos, verifica-se que net configura-se como uma tecnologia alta- suficiente sentimento humano e relações a Comunidade adquire relevância e precisa mente adequada para nossa época, uma vez de cunho pessoal. Porém, observa-se que ser compreendida em novos termos. E, na- que promove processos de colaboração, os grupamentos online apresentam varia- quilo que se refere à tendência gregária da criação e conexão entre as pessoas. Assim, dos formatos e graus de envolvimentos en- Contemporaneidade, é necessário ressaltar estes autores enfatizam o papel socializante tre os membros, traços que não podem ser o papel das tecnologias digitais. Na ambi- do ciberespaço, a possibilidade vinculada antecipados ou generalizados. ência online, temos mais uma maneira de às tecnologias digitais de satisfazer o desejo proporcionarmos encontros e associações, coletivo pelos agrupamentos, pela livre ex- Mais recentemente, nos últimos anos da dé- as mais diversas, de acordo com preferên- pressão e circulação das idéias, pela comu- cada de 90 e principalmente nos anos 2000, cias, afiliações, hábitos, identificações etc. nicação recíproca, ainda que mediada pelo ganhou força outra forma de socialização sem a necessidade de co-presença física. computador. Para Lévy, “uma das idéias, ou na web: os Sites de Redes Sociais (SRSs). As André Lemos (2004) reporta-se à noção de talvez, devêssemos dizer, uma das pulsões pesquisas científicas voltadas a estas plata- 24 cibersocialidade para referir-se ao tipo de mais fortes na origem do ciberespaço é a formas online adotam atitude diferente da- interação descrita por Maffesoli, mas que se da interconexão. Para a cibercultura, a co- quela com a qual as primeiras Comunidades dá por meio das tecnologias do ciberespaço. nexão é sempre preferível ao isolamento. A Virtuais foram tratadas. As formulações Para este autor, o vitalismo social de nossa conexão é um bem em si” (1999, p. 127). teóricas e os estudos acadêmicos sobre os época pode ser potencializado pelas tecno- SRSs têm mais foco sobre o indivíduo, seu logias digitais, as quais favorecem as situa- Após participar da Comunidade WELL – perfil e sua navegação nas redes de cone- ções lúdicas e os processos comunitários. Whole Earth ‘Lectronic Link (http://www. xões, do que sobre práticas comunitárias. well.com/), Howard Rheingold relatou Segundo Boyd e Ellisson, e possível definir Por sua vez, Pierre Lévy (1999) compreende uma experiência com forte envolvimento um Site de Redes Sociais como: um serviço que não é possível compreender o técnico emocional. O autor afirma: “Eu me impor- baseado na Internet que permite aos indi- e o social como pólos desassociados. Para to com estas pessoas que eu conheci por víduos (1) construir um perfil público ou que determinada ferramenta tecnológica meio do meu computador, e eu me impor- semi-público dentro de um sistema conec- torne-se disseminada e profícua na socieda- to profundamente com o futuro do meio tado, (2) articular uma lista de outros usuá- de, é necessário que os sujeitos apropriem- que permite a nossa reunião” (RHEIN- rios com os quais compartilham uma cone-
  • 25. Mídias Sociais e Eleições 2010 xão, e (3) visualizar e mover-se por sua lista mais diferentes motivações e finalidade. Silva – PV”2 e “José Serra Presidente”3. de conexões e pelas dos outros usuários, Ainda que o foco deste tipo de site esteja No caso das Comunidades dedicadas à no mesmo sistema (BOYD e ELLISSON, sobre o perfil dos usuários e suas listas de Dilma e à Marina, tratam-se das maiores 2007). contatos, o Orkut proporciona também a páginas sobre as presidenciáveis existentes possibilidade da reunião de pessoas com no Orkut, à época da pesquisa. Por este Notadamente, o conjunto destes sites apre- algo a compartilhar. Obviamente, os usu- motivo, foram selecionadas para compor senta variadas propostas e segmentações – ários do site de relacionamentos poderão o artigo. No caso de José Serra, há outra muitos se voltaram para grupos específicos apenas vincular seus perfis à Comunidade, Comunidade com maior número de parti- (asiáticos, negros, religiosos, fãs de anime, tornando-se um dos membros, ou ainda de- cipantes, a “José Serra – Presidente”4. No simpatizantes de determinado candidato senvolver forte envolvimento com outros entanto, esta Comunidade foi criada origi- etc.), outros priorizaram determinados usos participantes, aproximando-se do processo nalmente para vídeos do site Youtube. Por (profissional, amoroso, musical etc.); alguns relatado por Rheingold. A este respeito, é isso, ela não faz parte deste estudo. Consi- deram certo e tornaram-se bastante popu- preciso examinar cada caso, respeitando derou-se mais conveniente comparar três 25 lares, enquanto outros tiveram de encerrar as dinâmicas e os princípios específicos de páginas que estavam, originalmente, volta- suas atividades. De todo modo, guardadas cada agrupamento online. das à temática eleitoral. as características particulares, as Redes So- ciais atraem um contingente expressivo de Para os propósitos deste artigo, interessamO período designado para a análise, de 15 usuários do mundo inteiro, e configuram-se especificamente Comunidades Virtuais a 30 de agosto de 2010, foi definido a par- como uma forma relevante de socialização voltadas aos candidatos à presidência da re- tir de marcos importantes na disputa elei- na atualidade. pública nas eleições brasileiras de 2010, as toral: neste mês houve a primeira rodada quais serão abordadas no próximo item. de entrevistas com os principais candidatos Em nível global, o Facebook (http://www.face- no Jornal Nacional, da Rede Globo – nos book.com/) atrai o maior número de usuários, As Comunidades do Orkut e as dias 9 (Dilma), 10 (Serra) e 11 (Marina); com mais de 500 milhões de perfis ativos. Eleições Presidenciais além disso, no dia 17 teve início o horário Já no Brasil é o Orkut (http://www.orkut.com. Para este trabalho, foram observadas três eleitoral gratuito. Tais eventos ajudaram a br/) que faz maior sucesso de público, com Comunidades do Orkut sobre os principais agendar o tema eleitoral perante a popula- dezenas de milhões de participantes. Nes- presidenciáveis nas eleições de 2010: “Vo- te último, as Comunidades são ferramen- tamos Dilma Presidente – PT”1, “Marina 2 http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=11934095 tas importantes, reunindo pessoas com as 3 http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=22482901 1 http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=1583686 4 http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=355236
  • 26. cano, que enfrentava queda nas pesquisas, foi a que apresentou menor crescimento. É interessante verificar que, embora as candidaturas de Dilma e Serra tenham sido maiores em estrutura eleitoral e intenção de votos, ao longo de toda a campanha, foi a Comunidade voltada à Marina que sustentou o maior número de participan- tes, de 15 a 30 de agosto. Isto mostra que a lógica mais geral das eleições não neces- sariamente é reproduzida em determina- da mídia social. No caso, a candidatura de Marina não esteve em patamar inferior às outras duas, no que diz respeito à concen- 26 tração de participantes em Comunidades do site Orkut. ção, agregando maior visibilidade às cam- torno de 24% em quantidade de membros; panhas, o que tendia a favorecer a procura a Comunidade da candidata Marina, 16%; e Com relação aos tópicos criados no perío- por Comunidades dos presidenciáveis no a de Serra, 9%. De fato, com o decorrer da do, temos que, na Comunidade “Votamos Orkut. No gráfico abaixo, temos as evolu- disputa, mais pessoas ingressaram nas Co- Dilma Presidente – PT”, dentre os mais ções das quantidades de membros nas três munidades dos presidenciáveis analisadas. comentados estiveram: “Dilma”, criado Comunidades. O crescimento foi permanente e estável ao pelo usuário Brasil; “cai fora ‘Brasil’ de longo dos 15 dias, nos três agrupamentos. araque”, criado pela usuária Fabiane; “Dil- Como podemos constatar pelo gráfico, as A página da candidata petista, que já assu- ma Presidente? Leia esse topico com aten- três Comunidades apresentaram cresci- mia a dianteira nas pesquisas de intenção çao”, da usuária Letícia; “Dilma abre 17 mento uniforme nas suas quantidades de de votos naquele mês, foi a que apresentou pontos sobre Serra e venceria no 1º”, do membros, no período observado. A Co- maior incremento na quantidade de mem- usuário Soldado; e “DEFINAM SERRA munidade da candidata Dilma cresceu em bros. Já a página voltada ao candidato tu- EM UMA PALAVRA?”, de Werley.
  • 27. Mídias Sociais e Eleições 2010 Na Comunidade “Marina Silva – PV”, denominado “cai fora “Brasil” de araque”. compreensão da Comunidade nos termos os tópicos mais comentados, no período O usuário que não era partidário de Dil- contemporâneos prevê que tais associações analisado, foram: “Aquecimento Global ma foi visto pelos outros membros como sejam efêmeras, informais e sem maiores não existe”, criado pelo usuário Emerson um estranho, um intruso. De modo similar, engajamentos. Avelar; “QUARTA-FEIRA TEM DEBA- tópicos como “Aquecimento Global não TE NO UOL / FOLHA”, do participan- existe” ou “Lula no programa de Serra” As Comunidades Virtuais voltadas a presi- te Fernaиdo; “MARINA APÓIA DILMA questionavam bandeiras ou estratégias das denciáveis analisadas neste artigo funciona- NO 2° TURNO”, de Uzias; “DEBATE respectivas campanhas. ram, durante as eleições de 2010, principal- DOS PRESIDENCIÁVEIS – AGORA!”, mente como fóruns abertos e espaços de criado por DU { } e “ADESIVE }; Porém, a maior parte dos tópicos e das inte- encontro entre partidários dos respectivos SUA FOTO COM O NOME DA MARI- rações existentes nas Comunidades consis- candidatos. Os conteúdos oficiais das cam- NA 43”, de Marina Silva. tia em convergência entre os participantes. panhas eram apropriados pelos participan- Já na “José Serra Presidente”, os tópicos As páginas colaboravam para a sedimenta- tes, adquirindo novos contornos e novos 27 com maior número de mensagens foram: ção social das candidaturas homenageadas olhares, eventualmente críticos. As inte- “Novo Ibope”, criado pelo usuário Dio- e desqualificação dos adversários, ainda que rações nas páginas do Orkut estavam em nísio, “1º debate online entre presidenciá- em certos momentos assumissem tom crí- função do apoio aos candidatos, com pre- veis hoje”, da participante MARGARIDA; tico. Os participantes estavam majoritaria- domínio da convergência de pensamentos “Lula no programa de Serra”, de João; mente preocupados em trocar percepções e emoções. “Datafolha : Dilma 17 pontos na frente”, e debater os encaminhamentos das campa- de Rodrigo Guedes; e “Quem foi expulso nhas, os eventos eleitorais e as informações injustamente?”, de Holger. gerais da disputa. Percebemos que alguns dos tópicos causa- Considerações Finais vam divergência nos grupos, como o tópico A despeito da intensidade do envolvimen- “Dilma”, em que o usuário Brasil criticava to pessoal entre os membros, Comunida- a candidata petista em sua própria Comuni- des Virtuais como as formadas no Orkut dade. Este tópico recebeu forte hostilidade podem refletir um padrão de interação tí- dos outros membros, com a postagem de pico de nossa época. Segundo um conjun- mensagens e com a criação de outro tópico to de autores referenciados neste artigo, a
  • 28. Referências Bibliográficas BOYD, D.; ELLISON, N. Social Network Sites: ______________ No Fundo das Aparências. Definition, history, and scholarship. Journal of Petrópolis: Vozes, 1996. Computer-Mediated Communication, 13(1), Re- trieved December 10, 2007. RHEINGOLD, H. The Virtual Community: Homesteading on the Electronic Frontier. Rea- ESPOSITO, R. Niilismo e Comunidade. In: ding. Massachusetts: Addison-Wesley, 1993. PAIVA, R. (Org.). O Retorno da Comunidade: os novos caminhos do social. Rio de Janeiro: Mauad X, 2007. HALL, S. A Identidade Cultural na Pós-Mo- dernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 1999. 28 LEMOS, A. Cibercultura: Tecnologia e Vida So- cial na Cultura Contemporânea. 2º Ed. Porto Ale- gre: Sulina, 2004. LÉVY, P. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1999. MAFFESOLI, M. A República dos Bons Senti- mentos. São Paulo: Iluminuras, 2009. ______________ A Transfiguração do Político - A Tribalização do Mundo. Porto. Alegre: Sulina, 1997.
  • 29. N o final de julho de 2010, uma O papel da militância através simpática avó de Minessota, nos Estados Unidos, dirige-se das redes sociais durante as à unidade de uma rede de hi- permercados e usa seu poder de compra como forma de protestar contra eleições a empresa. Logo em seguida, um ator britâ- nico envia uma mensagem sobre o assunto pelo Twitter. Tempos depois, no início de setembro, Por Gil Castillo em Moçambique, África, cidadãos saem às ruas, em protesto contra o aumento do pre- ço do pão. Entre uma coisa e outra, no Brasil, em ple- Publicitária e consultora política, desde de 1992 atua no marketing político nas áreas de planejamento estratégico e criativo. Ao longo de sua carreira, na campanha eleitoral, humoristas fazem vem trabalhando em diversas campanhas eleitorais e projetos de comunicação, passeata, em Copacabana, contra a censura tanto na área pública, quanto na área privada, no Brasil, América Latina e ao humor nas eleições. África. Especialista em Propaganda Política, rádio, TV e novas tecnologias de comunicação, é Diretora de Relações Públicas da ABCOP-Associação Brasileira de Consultores Político, membro da ALACOP - Associação Latino-Americana de A avó, o ator, o povo moçambicano, os hu- Consultores Políticos e editora do blog MarketingPolitico.com moristas. Palavras-chave: Marketing Político, Eleições, Internet, Cidadania, Política O que todos têm em comum? São consu- www.marketingpolitico.com.br gil@marketingpolitico.com.br midores e cidadãos, com uma causa na ca- www.twitter.com/gilcastillo beça e a tecnologia nas mãos. www.twitter.com/MktPol
  • 30. 30 A Avó e o ator Eden Prairie, indignada com a informa- ção de que a rede Target havia doado US$ 150,000 para a campanha de Tom Emmer, candidato ao Governo do Estado de Mi- nessota (EUA), entra em uma loja da rede, faz tranquilamente uma compra de US$ 226. Em seguida, procura pela gerência, devolve a compra, explica seus motivos e destroi o cartão de crédito da empresa. Mo- tivo: o candidato do Partido Republicano era declaradamente anti-gay e Eden estava agindo em defesa de seu neto, gay. Esse protesto poderia ter caído no esquecimen-