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histórica em nosso país, desde sua constituição como disciplina escolar na primeirametade do século XIX.       Dessa forma...
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   O estudo do cotidiano dos escravos na sociedade colonial e a superação de          uma visão bipolarizada na interpret...
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MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO, disponível em: <portal.mec.gov.br/index>.FUNDAÇÃO              CULTURAL                PALMARES,  ...
ReferênciasBRASIL. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de Histór...
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Capítulo3_Maria Telvira

  1. 1. AFRICANIDADES E ESCOLARIZAÇÃO DO CONHECIMENTO HISTÓRICO: UM OLHAR SOBRE OS MATERIAIS DIDÁTICOS DE HISTÓRIA Maria Telvira da ConceiçãoIntrodução O texto apresenta um breve panorama das questões relativas à História e CulturaAfricana e Afrobrasileira nos materiais didáticos de História. A discussão estáfundamentada nas exigências legais, na historiografia sobre o negro e no ensino deHistória no Brasil. Com esse objetivo, tratamos dos seguintes assuntos: o ensino deHistória no contexto das exigências da Lei 10.639/2003; a revisão historiográfica dasafricanidades no Brasil como pressuposto para repensar a literatura didática de Históriae seu uso no ensino básico e, por fim, como se apresentam essas questões nos livrosdidáticos de História.O ensino de História no contexto das exigências das Diretrizes Étnico-raciais e Lein. 10.639/2003 A preocupação com as africanidades na educação se deu de forma mais enfáticacom a aprovação da Lei n. 10.649/2003 e das Diretrizes Curriculares Nacionais para aEducação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana em vigor a partir de 2004. 1 Para o ensino de História no nívelbásico, a emergência dessa legislação representou um momento indiscutivelmentepropício de problematização desse campo de ensino em relação às questões étnico-raciais. E por qual razão? Porque trata de uma área de conhecimento com enormecomplexidade em relação à formação da consciência étnica e da educação da memória1 A expressão africanidades brasileiras é atualmente utilizada por teóricos e pesquisadores do assuntopara referir-se às raízes da cultura brasileira que têm origem africana. Ou seja, ao modo de ser, de viver ede organizar suas lutas próprio dos negros brasileiros e, de outro lado, às marcas da cultura africana que,independentemente da origem étnica de cada brasileiro, fazem parte do seu dia-a-dia. 1
  2. 2. histórica em nosso país, desde sua constituição como disciplina escolar na primeirametade do século XIX. Dessa forma, problematizar questões como, por exemplo, a exclusão ou asimplificação da história e da cultura dos afrobrasileiros no ensino de História e naliteratura didática, o desconhecimento da história e da cultura africanas, a reprodução devisões e representações estereotipadas, dentre outras, são práticas que encontramvinculação profunda com a produção historiográfica e com o processo de escolarizaçãodo conhecimento histórico efetivado em sala de aula ao longo de todo esse tempo. Masquais foram as principais consequências decorrentes dessa vinculação, em se tratando daabordagem da história do negro no ensino de História? Uma versão da história e dacultura do negro no Brasil, que foi marcada por um enfoque eurocêntrico e etnocêntrico;uma seleção cultural de conteúdos alheios às africanidades de uma forma geral;programas curriculares que ausentaram esse conhecimento na formulação de suaspropostas; livros didáticos que simplificaram, estereotiparam e excluíram o assunto e,dessa forma, as possibilidades de sua reflexão no ensino de História, entre outras. Todasessas questões guardaram estreita relação com a escrita da História do século XIX euma parte significativa do século XX. Não obstante o questionamento às práticas de ensino, aos programas curricularese à formação do professor que norteou a revisão do ensino de História no Brasil a partirdo final dos anos de 1970, a aprovação da Lei n. 10.639/2003 e das DiretrizesÉtnicoraciais colocou um conjunto de desafios para a educação e o ensino de Históriaem especial. Como construir novos parâmetros de concepção, abordagem e práticassobre as africanidades em nossas salas de aulas? Uma leitura atenta da referida legislação nos ajuda a compreender que são maisnumerosos os desafios que temos a enfrentar. Vejamos:  A negação da existência de problemas racistas nas práticas educativas no processo formal de ensino, amparado no discurso do tratamento igualitário e universalista da educação;  A prática educativa a serviço da diversidade, o que significa transcender o cânone da mestiçagem para o da diversidade cultural;  A inclusão da temática nos currículos do ensino básico e superior;  Inclusão de objetivos de combate ao racismo em todos os documentos da escola;  Incentivo a pesquisas escolares sobre história e cultura africana e afrobrasileira; 2
  3. 3.  A formação de atitudes, posturas e valores que ajudem os cidadãos a valorizar seu “pertencimento étnico”, num ambiente de diálogo e democrático (DCN, 2004, p. 5-8). Além desses desafios, que a lei denomina de enfrentamentos, é importanteressaltar os princípios que justificam as exigências da legislação, a saber: consciênciapolítica e histórica da diversidade; fortalecimento de identidades e de direitos; e açõeseducativas de combate ao racismo e a discriminações (DCN, 2004, p. 9-10). Essesprincípios também colocaram para o ensino de História a necessidade de repensar nãosomente a inclusão das africanidades, mas, sobretudo, a sua abordagem. E o que istoimplica em relação aos materiais didáticos de história? Qual a importância e o papeldesses materiais para a efetivação, por exemplo, dos princípios norteadores da inclusãodas africanidades no ensino de História? A edição de livros e materiais didáticos tratando do tema da história e da culturaafrobrasileira e africana foi considerada, no texto das Diretrizes Étnico-raciais, uma dasestratégias essenciais de sua efetivação (DCN, 2004, p.15), ou seja, uma estratégia paraconcretizar a re-educação das relações étnico-raciais na escola. Entretanto, no que serefere à edição de materiais didáticos de História, além do imperativo da legislação, éimprescindível incorporar a revisão historiográfica como pressuposto fundamental doseu papel estratégico, conforme atribuído na atual legislação. Mas, quais são os aspectosfundamentais dessa revisão da história social do negro?A revisão historiográfica das africanidades no Brasil: uma ponte necessária pararepensar a literatura didática de História e seu uso no ensino básico A releitura da historiografia iniciada nos anos 1970 é, sem dúvida, um aspectofundamental para problematizar a questão das africanidades na literatura didática deHistória, sobretudo no tocante aos equívocos e simplificações verificadas nessesmateriais acerca dessa temática. E, por quê? Na esteira da retomada da historiografia sob o paradigma da escola dos Annales,particularmente da 3ª geração, ocorreu uma importante revisão da história social donegro no Brasil, com foco na escravidão. Vejamos, de forma geral, como se concretizouesse percurso no Brasil: 3
  4. 4. Gráfico 1 – Evolução da história social do negro no Brasil Como podemos identificar no gráfico 1, as discussões que antecederam arenovação historiográfica da década de 1970 se iniciaram pela superação do modeloexplicativo do século XIX acerca da história do negro, com a releitura da historiografiaabolicionista. Esta produção, bastante influenciada por Joaquim Nabuco, teve comofoco principal de discussão as questões relacionadas à sobrevivência dos escravos, àterra e à liberdade (BRITO, MALANDRINO, 2007). Imagem 1 – Joaquim Nabuco, político abolicionista do século XIX 4
  5. 5. No século XX, principalmente nas décadas de 1930 e 1960, essa discussãoestava posta na obra do sociólogo Gilberto Freire que defendeu a tese da “cordialidade”nas relações sociais entre senhores e escravos. As questões em torno dessa historiografiaforam bastante discutidas pelos trabalhos de autores como Nina Rodrigues, ArturRamos, Roger Bastide, Edison Carneiro e Clovis Moura. Na década de 1960, a revisão da história do negro foi marcada pela EscolaPaulista, respaldada em autores como Florestan Fernandes, Fernando Henrique Cardosoe Octavio Ianni. O esforço de revisão dos referidos autores pôs em discussão a chamada“visão endêmica das relações escravistas e a coisificação do escravo”. Entretanto,conforme chamaram a atenção vários críticos, a revisão empreendida pela EscolaPaulista não levou em conta a dimensão da resistência negra à escravidão, por exemplo. Imagem 2 – Cativos vendedores de leite A partir dos anos 1970, no contexto da revisão historiográfica brasileira, ahistória social do negro ganhou um conjunto significativo de pesquisas e pesquisadores,firmando para a temática da história e da cultura afrobrasileira contribuições relevantes,seja do ponto de vista das questões revisadas, seja das perspectivas analíticas quenortearam esses trabalhos. Quais os aspectos tratados por essa produção, que secaracteriza como inovadora em relação aos estudos anteriores? Essas pesquisas levaram em conta: 5
  6. 6.  O estudo do cotidiano dos escravos na sociedade colonial e a superação de uma visão bipolarizada na interpretação da experiência dos africanos e afrobrasileiros nesse período histórico;  Uma crítica à história social da escravidão;  A problematização do etnocentrismo e eurocentrismo no enfoque da História do Brasil do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro/IHGB, sobretudo no que respeita as percepções sobre a formação étnica e a problemática da identidade nacional;  O questionamento aos esterótipos legado por uma boa parte da historiografia clássica que simbolizou e descreveu o negro e sua experiência histórica (MOURA, 1990);  O enfrentamento teórico da questão da cultura e da identidade nacional, e  A problematização da idéia de um Brasil mestiço. Imagem 3 – Mães escravas levando seus filhos para serem batizados A partir da década de 1980 em diante, verifica-se uma ampliação das questõesrevisadas nos anos 1970, com base em estudos de historiadores como, por exemplo,Luiz Felipe Alencastro, Leila Mezan, Hebe Maria Mattos, Sidney Chalhoub, KátiaMattoso, Lilia Moritz Schwarcz. Considerando o negro como um agente ativo na 6
  7. 7. sociedade escravista e pondo em questão a rigidez da ordem escravista e a vitimizaçãode um escravo passivo, entre outros aspectos, que marcaram a análise historiográficaanterior, esses estudos trouxeram importantes contribuições para uma nova abordagemsobre o tema da escravidão e da abolição no Brasil. Vejamos: um estudo minucioso docotidiano dos escravos, a superação de questões como, por exemplo, a negação daconstituição familiar dos escravos; a tese da marginalização e do isolamento dosquilombos; uma explicação do tráfico sem a perspectiva da reprodução estrutural dessaexperiência nos dois continentes, ou seja, um tráfico afrobrasileiro e não apenasatlântico; o uso da lei pelos escravos para exigir seus direitos no contexto da sociedadeescravista e a negação do papel político dos escravos nessa sociedade. Essas foramalgumas das questões que marcaram a revisão da história social do negro no Brasil noâmbito das pesquisas desenvolvidas no campo da História. Saindo do âmbito da historiografia brasileira, é importante assinalar que essapreocupação com a revisão da história eurocêntrica e etnocêntrica também foi tema deestudos e debates entre os historiadores africanos. Assim, a partir dos anos 1960, oshistoriadores africanos, conforme explica Leila Hernandez (2005), iniciaram umimportante processo de revisão que teve como conseqüências, dentre outras: oquestionamento aos postulados ocidentais e, sobretudo europeus, que construíram umainterpretação estereotipada sobre a história africana; a desconstrução de mitos racistascomo, por exemplo: o isolamento da África; a afirmação que a natureza do continente ébruta e virgem, o que forneceu, na opinião da historiadora, mais uma justificativa para ainvasão europeia ao continente; o desconhecimento do papel da oralidade na África; aideologia da tribalização africana; e a falsa idéia de que a África constitui uma unidade,ignorando sua diversidade. Todos esses elementos precisam e devem nortear a revisão necessária daliteratura didática de História para o ensino básico. Tal releitura deve tomar como baseas questões relativas à interpretação, à incorporação e à atualização da historiografiasobre essa temática, mediada por um diálogo convergente entre a historiografia e oensino de História, em particular com a escrita didática. Mas como se configura essaproblemática nos livros didáticos de História? Quais as questões sobre a História e acultura africana e abrobrasileira que devem ser atualizadas nesses materiais, com vistasa um ensino de História que dialogue com uma história social do negro pensada soboutros parâmetros de análise? 7
  8. 8. A problemática das africanidades nos livros didáticos de História: elementos equestionamentos para rever nossas práticas em sala de aula A preocupação com o combate ao racismo nos materiais didáticos esteve semprepresente nas discussões, reivindicações e atuação do movimento negro brasileiro. Noatual contexto, ela foi retomada pela legislação que orienta a inclusão das africanidadesno ensino nacional. O tema, portanto, constitui uma das primeiras questões analisadasna produção didática. Na década de 1950 surgiram os primeiros trabalhos do gênero,como o estudo pioneiro de Dante Moreira Leite, em 1950, intitulado, Preconceito raciale patriotismo em seis livros didáticos primários brasileiros. A partir daí, seguiramoutros trabalhos como, por exemplo, o de Bazzanell e Holanda. Na década de 1980 e1990 outros estudos também trataram do tema. Mas o que esses estudos apontaramsobre o racismo nos livros didáticos? Vejamos esse ponto de acordo com o estudo deNegrão (1988), citado por Fulvia Rosemberg (2003): Foram detectados nesses materiais vários tipos de racismos e estereótipos nosconteúdos, nas imagens e na abordagem. Por exemplo: a supervalorização narepresentação de personagens brancos, em detrimento de uma quase ausência depersonagens afrobrasileiros. Eles apareciam em posições sempre subalternas e,desvinculados de laços familiares. Também observaram esses estudos que os livrosraramente traziam representações positivas sobre as crianças negras. Havia umaausência do negro como sujeito na narrativa da história. Além desses aspectos,verificaram ainda os referidos estudos outros indicativos da representação estereotipadasobre o negro, quais sejam: exclusão de conteúdos sobre a cultura afrobrasileira eafricana; predominância de uma perspectiva eurocêntrica da História; transcrições decrônicas nos livros que colaboravam com introjeção de preconceitos nos própriosnegros; ênfase na representação do negro sempre como escravo. Na década de 2000, novos estudos sobre as africanidades e os materiais didáticosde história apontaram para conclusões comuns aos estudos anteriores, destacando apermanência da desvalorização do negro e a valorização do branco, (veja-se OLIVA,2003, 2007; BUOLOS JUNIOR, 2004; CASTELO BRANCO, 2005; PINA, 2009).Verifica-se, contudo, uma diversificação das questões problematizadas e dos focos deabordagem. 8
  9. 9. Com base na produção recente sobre a temática, em particular nos trabalhosacima mencionados, como se apresenta a problemática da história e da culturaafrobrasileira e africana nos materiais no livro didático de História? Quais os equívocosdecorrentes de uma determinada interpretação historiográfica ainda presente nosconteúdos de História e nos materiais didáticos utilizados em nossas salas de aula? Com relação à história e à cultura afrobrasileiras, o primeiro aspectoproblemático diz respeito à interpretação sobre a escravidão, que tem sido tratadacomo decorrente dos interesses mercantis ou como um fato necessário e não comoresultado do processo de articulação da economia colonial com o comérciointernacional. Essa abordagem reducionista sustenta, portanto, o argumento dainabilidade do índio para o trabalho escravo e a vinda do africano para prover a falta demão de obra indígena. Outro aspecto bastante problemático diz respeito à narrativa da abolição pormeio do ritmo das leis abolicionistas do século XIX e da ação dos abolicionistas, sem oprotagonismo dos escravos e sem a crítica ao processo de integração social dosafrobrasileiros no pós-abolição. A história oficial do abolicionismo abordada nos livrosdidáticos de História, portanto, ignora o protagonismo negro e, dessa forma, o direito àhistória e à memória relativos a essa experiência histórica. A interpretação da cultura de origem africana no Brasil constituí mais um dosproblemas a serem revisados nos livros didáticos de História, sobretudo porque suaabordagem costuma ser trabalhada unicamente como contribuição e não comoresistência desses povos na longa experiência brasileira, resultado de um processo dereposição, de reinterpretação (SODRÉ, 1983). Os cortes cronológicos da história do negro. Tais cortes são invariavelmenterestritos a fatos específicos do século XIX e quase sem referência ao século XX. Osilêncio ou a inexpressividade sobre os movimentos de organização social dosafrodescendentes no século XX é um dos exemplos de cortes cronológicos naabordagem da história do negro nos livros didáticos de História. As lutas empreendidaspela afirmação da identidade por parte do movimento negro e construídas ao longo doséculo XIX, a exemplo das irmandades e dos quilombos e das organizações do séculoXX, ficam completamente desconsideradas na abordagem da história do negro noBrasil. Além da história e da cultura afrobrasileiras, os livros didáticos de Históriaapresentam um conjunto de questões em relação à seleção e à abordagem da História da 9
  10. 10. África, conforme mostram estudos como o de Anderson Ribeiro Oliva (2003, 2007),Alfredo Buolos (2005) etc. Mas como se configura tal problemática nos livros didáticosde História? De uma forma panorâmica, o que esses estudos apontam como questões aserem revisadas na literatura didática de História? Vejamos:  Uma interpretação simplificada que associa o africano ao escravo, inclusive mediada por uma relação imagética (OLIVA, 2003); anacronismos nas referências explicativas sobre o contexto histórico da escravidão africana. Este aspecto, segundo Oliva (2003), levou à efetivação de uma série de imprecisões e equívocos sobre a História da África nos livros didáticos. Além deste aspecto, a eleição de padrões europeus como critérios para justificar o estudo da África na proposta didática tem sido recorrente nos livros didáticos de História;  A imprecisão no uso de conceitos como nação e civilização para se referir às etnias africanas, sem a devida contextualização, constitui mais uma questão presente nos livros didáticos de História, assim como os equívocos quanto à abordagem das cosmologias africanas e suas bases constituintes quando esses livros tratam do pensamento tradicional africano. Em consequência, o tema das práticas religiosas de matriz africana no Brasil, quando objeto de conteúdo nesses materiais, tem sido tratado de forma simplificada ou mesmo estereotipada.  A singularidade do recorte historiográfico sobre a África. Verifica-se uma seleção de conteúdos que explicam a História da África associada a um passado mítico e remoto, desconsiderando a sua história contemporânea. Além disso, estudos constataram uma exaustiva predominância de imagens de viajantes europeus do século XIX, que não atendem a uma contextualização coerente para ser compreendida pelos alunos do século XXI. Dessa forma, há uma predominância de imagens pitorescas que reforçam uma visão negativa do africano. Como na História, a abordagem dos aspectos culturais sem atenção àsespecificidades culturais dos africanos é mais uma questão que caracteriza a abordagemda temática nos materiais didáticos de História. Como observa Elio Flores (2007): [A] África surgiu na estrutura curricular da história ensinada num recorte historiográfico nada singular: os portugueses circunavegam o continente etíope em busca do Oriente. Mas os africanos vendem escravos e os portugueses viajam para comprá-los. O mundo atlântico 10
  11. 11. faz o resto: capitalismo, escravidão, tráfico de gente (FLORES, 2007, p. 68). Além das questões assinaladas, esses estudos ainda verificaram como problemasnos materiais de História: a África tratada como uma unidade e não como umadiversidade, com foco na força de trabalho para caracterizar a sociedade colonial. Aabordagem da sua história começa apenas a partir do início do tráfico atlântico; asimplificação na identificação dos grupos étnicos, cujo resultado leva ao que Oliva(2003) denomina de “silêncio, imprecisões e representações eurocêntricas nos materiaisdidáticos” de história que fazemos uso em nossas salas de aula. Por essas razões,entendemos que tão importante quanto a história e a cultura afrobrasileiras é a históriaafricana como objeto de revisão nos livros didáticos de História. E, nesse sentido,concordamos com o historiador Elio Flores (2003), que sem a historicidade da África edos afrobrasileiros, as temporalidades do Brasil ficam incompletas e inteligíveis.Considerações finais Como vimos no breve panorama apresentado nesse texto, as questões sobre ahistória e a cultura africana e afrobrasileira nos materiais didáticos constitui uma dastemáticas mais importantes como objeto de revisão no ensino de História, no contextodos desafios postos pela Lei n. 10.639/2003 e pela revisão historiográfica da históriasocial do negro no Brasil. E, nessa tarefa, cabe aos professores de História papelfundamental, tanto na discussão quanto na efetivação dessa revisão. É o professor oprincipal agente e, portanto, o principal sujeito na busca de novos parâmetros paraproblematizar e redimensionar as concepções e os usos dos materiais didáticos emrelação à abordagem das africanidades no ensino de História atual.Sugestões de leituraSítios da internetDOMÍNIO PÚBLICO, disponível em: <www.dominiopublico.gov.br>.FUTURA, disponível em: <www.futura.org.br>. 11
  12. 12. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO, disponível em: <portal.mec.gov.br/index>.FUNDAÇÃO CULTURAL PALMARES, disponível em:<http://www.palmares.gov.br>;SCIENTIFIC ELECTRONIC LIBRARY ONLINE (SCIELO), disponível em:<http://www.scielo.br>.ObrasBOULOS JUNIOR, Alfredo. Imagens da África, dos africanos e seus descendentes emcoleções de didáticos de história aprovados no PNLD de 2004. 2008. Tese (Doutoradoem Educação) – Programa de Pós Graduação em Educação, Pontifícia UniversidadeCatólica de São Paulo, São Paulo, 2008. Disponível em:<www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=114609>. Acesso em: 18 jul. 2010.MATOS, Hebe. O herói negro no ensino de história do Brasil: representações e usos dasfiguras de Zumbi e Henrique Dias nos compêndios didáticos brasileiros. In: ABREU,Martha Abreu; SOIHER Rachel; TEIXEIRA, Rebeca (Org.). Cultura Política,historiografia e ensino de História. Rio de Janeiro: José Olympio, 2010.OLIVA, Anderson Ribeiro. A História da África nos bancos escolares. Representações eimprecisões na literatura didática. In: Estudos afro-asiático, v.25, n.3, p.421-461, 2003.Disponível em: <www.scielo.br/pdf/eaa/v25n3/a03v25n3.pdf>. Acesso em: 23 jul.2010.PINA, Maria Cristina Dantas. A escravidão no livro didático de história: três autoresexemplares (1890-1930). 2009. Tese (Doutorado em Educação) – Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2009.Disponível em: <libdigi.unicamp.br/document/?code=000447099>. Acesso em: 12 jul.2010.ROSEMBERG, Fúlvia; BAZILLI, Chirley; SILVA, Paulo Vinícius Baptista da.Racismo em livros didáticos brasileiros e seu combate: uma revisão da literatura. In:Revista Educação e Pesquisa, São Paulo, v.29, n.1, p. 125-146, jan./jun. 2003.Disponível em: <www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S151797022003000100010&lng=en&nrm=isso>. Acesso em: 15 jul. 2010. 12
  13. 13. ReferênciasBRASIL. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana. ParecerCNE/CP 003/2004.BRITO, Ênio José da Costa; MALANDRINO, Brígida Carla. História e Escravidão:Cultura e Religiosidade Negras no Brasil – Um Levantamento Bibliográfico. In: Revistade Estudos da Religião, Ano 7, p. 112-178, dez. 2007.CASTELO BRANCO, Raynette. O negro no livro didático de história do ensinofundamental II, da rede pública estadual de ensino, no Recife. 2005. Dissertação(Mestrado em Educação) – Programa de Pós-Graduação em Educação, UniversidadeFederal do Pernambuco, Recife, 2005.FLORES, Elio Chaves. Etnicidade e ensino de História: a matriz cultural africana. In:Revista Tempo, v.11, n. 21, 2007.HERNANDEZ. Leila Leite A África na sala de aula: visita à História Contemporânea.São Paulo: Selo Negro, 2005.MOURA, Clovis. As injustiças de Clio: o negro na historiografia brasileira. BeloHorizonte: Nossa Terra, 1990.OLIVA, Anderson Ribeiro. A História da África nos bancos escolares. Representações eimprecisões na literatura didática. In: Estudos Afro-asiáticos, v. 25, n. 3, p.421-461,2003.OLIVA, Anderson Ribeiro. A Invenção da África no Brasil: Os africanos diante dosimaginários e discursos brasileiros dos séculos XIX e XX. In: Revista África eAfricanidades, Ano I, n. 4, 2009.SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questãoracial no Brasil (1870-1930). São Paulo: Companhia das Letras, 1993.SODRE, Muniz. A verdade seduzida: por um conceito de cultura no Brasil. Rio deJaneiro, 1983. 13

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