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O psicólogo eduardo sá defende uma política para a família

  1. 1. -28956043180O psicólogo Eduardo Sá defende uma política para a família, a liberdade com regras no acesso à Internet e televisão e o bom senso e igualdade na relação entre pais e filhos. <br />" Há uma discrepância absurda entre a educação infantil e o ensino obrigatório, como se a educação infantil não pudesse ser ensino obrigatório" , critica Eduardo Sá.<br />Creches e jardins-de-infância<br />As crianças passam mais de 8 ou 9 horas, ou mesmo 10 horas por dia, nas creches e jardins-de-infância, segundo o nosso inquérito. Preocupa-o?Sim. Concordo que em Portugal o ensino obrigatório passe a 12 anos, em 2013, mas não percebo porque não inclui a educação infantil. A baixa taxa de natalidade em Portugal deve-se aos custos absolutamente exorbitantes. Há uma discrepância absurda entre a educação infantil e o ensino obrigatório, como se a educação infantil não pudesse ser ensino obrigatório. Se o fosse, tinha de ser tendencialmente gratuito e para todos.<br />Deveria estar integrado na rede pública?Em absoluto. É inacreditável que em Portugal um jardim-de-infância custe mais que uma universidade privada. Acho engraçadíssimo que se fale na taxa de natalidade e que se convertam as crianças numa espécie de conta poupança-reforma. Só começam a ficar preocupados com as crianças quando percebem que as reformas vão acabar. Um casal da classe média que queira ter duas ou três crianças entre os 0 e os 6 anos, não tem como fazer face a despesas absolutamente sumptuosas. As crianças deviam sair o mais tarde possível de casa, aos 2 ou 3 anos. Tanto faz que seja a mãe, o pai, uma funcionária ou a avó ou o avô, com complementos de reforma ou com trabalhos a meio tempo, como acontece noutros países. <br />O Governo agora parece estar preocupado em construir creches. No início deste ano, anunciou mais 400 creches nos próximos anos. Preocupa-me o nível gritante de demagogia, da esquerda à direita, quando se fala de crianças, de família e de educação. Nunca vi um partido político, um líder político, querer ver obrigações inquestionáveis a esse nível. Querer definir, antes de mais, uma ideia. Que sentido é que tem construir seja o que for, sem que me preocupe com o terreno, os alicerces onde vou levantar todo o edifício? É importante ter uma ideia de política. Política é ter uma ideia do Mundo e saber o que queremos. Não definimos isto. Queremos que as pessoas tenham mais escola, óptimo. A escola introduz um misto de pluralidade, mundividência e clarividência, que é precioso. Mais escola não me choca nada. Agora, enquanto não se definir uma ideia de Mundo… 400 creches são muito importantes, mas para quê, para as crianças lá passarem muitas horas? Qual é a contrapartida ao nível de direitos de trabalho? É importante saber se os pais podem ter oscilações e se as empresas são obrigadas a ter creches.<br />Devia haver obrigatoriamente um tempo de qualidade?Sim. Preocupa-me muito que as crianças saiam precocemente de casa. Por mais que as creches tenham espaço e até funcionários adequados, há crianças a entrar nalgumas creches às 7 da manhã. São 12 horas. E em Portugal há uma particularidade: as educadoras de infância não vêem o seu tempo de trabalho reconhecido como tempo efectivo de reforma. As crianças estão entregues a elas próprias, horas e horas a olhar para o boneco, que é assim uma espécie de móbil, que dá voltas e voltas diante dos olhos delas. É bom que possamos, com todo o rigor, e sem demagogia, mas com frontalidade, dizer que, desta maneira, as creches fazem mal às crianças. Isto significa que quando as crianças passam tempo demais na escola, no jardim-de-infância e na creche, não faz bem às crianças. Acho muito inquietante que nos preocupemos com a instrução e muito pouco com as condições emocionais. <br />Que mal faz às crianças passar esse tempo na escola, pode concretizar? Quais são os sinais?Sentem-se abandonadas, deprimidas. De um momento para o outro, passam de príncipes e princesas com cuidados personalizados e adequados aos seus ritmos, para cuidados massificados repartidos por um conjunto de crianças da mesma idade. Passam de um extremo ao outro e isso agita-as, inevitavelmente, e deprime-as.<br />" Com blocos de 90 minutos, recreios de 10 minutos, quem não tem défice de atenção?" , questiona o psicólogo.<br />Família<br />Qual seria o tempo ideal por dia numa creche? O ideal era que passassem o menos tempo possível, não mais do que 4 ou 5 horas. Preferia que as creches e os jardins-de-infância fossem integrados nas autarquias, que fossem uma espécie de centros de dia abertos. Tudo isto deve ser uma rede de serviços pensada em função da família. O Estado põe em primeiro lugar o trabalho, as vantagens economicistas, e ainda não percebeu o óbvio. A grande transformação dos países escandinavos no pós-guerra é consequência de uma política da família e da criança, que fez com que tudo mudasse. Em Portugal continua a achar-se que a política da família é algo de centro-direita, que é de uma ignorância atroz. Acho inacreditável que se discutam coisas tantas vezes supérfluas. O que é que nós queremos para as crianças? Muitas vezes, uma criança começa a trabalhar às 8 da manhã e termina às 8 da noite. Nós formámos um sindicato das crianças para lutarmos por uma semana de 40 horas para as crianças. Porque as crianças trabalham demais. E depois dizem: " Ah, eles têm défice de atenção..." . Como não? Como não podem? Com blocos de 90 minutos, recreios de 10 minutos, quem não tem um défice de atenção? Primeiro cria-se uma ideia do que queremos para as crianças: queremos que tenham ensino obrigatório desde que entram na creche, fantástico, com educadores e professores muito bem pagos, e com o tempo de trabalho devidamente creditado, óptimo. Queremos que elas não estejam muito tempo na escola, óptimo.<br />A actividade física das crianças é reduzida.Muito pouca. As casas são cada vez mais pequenas, as pessoas convencionam que não se pode brincar na rua, as crianças ficam confinadas a espaços mais apertados, vêem televisão, televisão, televisão, e não deviam ver. Mas não se faz nada para ser de outra maneira. E depois, as aulas. Em Portugal, as crianças estão a ficar inquietantemente obesas. Um amigo meu ficou tolo quando duas crianças de 5 anos estavam a brincar no recreio e chocaram de frente! Chocaram de frente porque era por mais evidente que elas não tinham coordenação motora para anteciparem isso. Ora, se as crianças não brincam com o corpo, não pensam, não têm motricidade. É urgente transformar tudo na escola. Há 200 anos, servia para instruir, foi um bem precioso. Mas a escola hoje tem de ser diferente. As crianças hoje são diferentes, as famílias são muito melhores, mas não é por termos mais escola que temos melhor escola.<br />Porque diz que as famílias hoje são muito melhores?As famílias de hoje são de longe as melhores famílias que a Humanidade já conheceu. Dão mais tempo às crianças do que nós alguma vez já tivemos. Vão mais vezes à escola num ano lectivo que provavelmente os nossos pais em todo o nosso período educativo. Dão mais atenção, ao fim-de-semana, aos programas sociais das crianças.<br />Televisão<br />Outra conclusão do nosso estudo revela que cerca de 73% das crianças vê televisão na creche. É uma parvoíce, não consigo ser mais claro. Acho que devia ser proibido ver televisão na creche. Em absoluto. De vez em quando, chamo a atenção dos pais para algumas coisas. Por exemplo: acho que não faz sentido nenhum haver uma televisão no quarto das crianças. A televisão é um espaço comum, as pessoas que lutem pela posse do comando, e depois aprendam a conviver e a negociar umas com as outras. É um espaço comum. Os jantares não devem ser acompanhados pelo José Rodrigues dos Santos. Um jantar pode durar meia hora, mas em meia hora as pessoas falam de tudo e de nada, mas é indispensável. É proibido ver televisão à refeição, ponto! Qual é a mais-valia de uma televisão nos infantários e nas creches? Trata-se unicamente de " embebedar" crianças. É evidente que as creches servem para as crianças brincarem. Prefiro que estejam a brincar no recreio do que sentadinhas a ver, pela enésima vez, uma série qualquer. É como se estivéssemos a educar as crianças para verem televisão, mas ao mesmo tempo dizemos que lhes faz mal, como se fossemos agentes mais ou menos acidentais, no meio de tudo isto. Nos jardins-de-infância e creches, a utilidade da televisão é ligá-la e as crianças põem-se muito sossegadinhas a olhar, porque é uma forma de os funcionários estarem ligeiramente mais folgados. Não quer dizer que muitas vezes não possa haver mais funcionários ou não tenha de haver, admito. Mas não é razoável, considerando a saúde das crianças.<br />Se as crianças estão muito tempo na escola, não adianta de nada estarem quietinhas e a ver televisão, queremos que elas possam ter actividade física. <br />Quais são os sinais de alerta? Como é que os pais podem identificar?Há outras variáveis preponderantes.<br />Relacionam-se com o tempo de qualidade que passam com os pais?E tem a ver com três regras incontornáveis para a saúde das crianças. Se tiverem o mais possível de colo, autonomia e quanto baste de autoridade são crianças saudáveis. Aquilo que me preocupa invariavelmente é que as crianças têm pouca autonomia e pouco exercício de autoridade dos pais. Por vezes, se conciliarmos os grandes défices dos pais com o tempo todo que passam nas escolas, e com alguns maus exemplos que lá presenciam, temos um caldo muito complicado. Crianças confinadas a espaços muitos espartilhados, onde têm de ficar sossegadas e quietas durante muito tempo, ao chegarem a casa, ficam muito mais agitadas. Quanto mais educamos as pessoas para a contenção, mais acarinhamos os impulsos. Era bom que as pessoas percebessem isso. Muito precocemente, as crianças divorciam-se da escola. A escola pode ser um sítio absolutamente fantástico, onde as crianças podem mudar o mundo! E perceber que o conhecimento pode ser divertido! E as pessoas castigam as crianças com a escola, como se estivéssemos a fazer uma linha de montagem de jovens tecnocratas de fralda, no primeiro momento, e de jovens tecnocratas de mochila, no segundo, e não estivéssemos a educar. Estamos a instruir e esquecemos que o mais importante de tudo é educar. Estamos a criar crianças mais agitadas, mais deprimidas. Estamos a criar uma publicidade enganosa: a vida acaba aos 18 anos com a entrada na universidade. De repente, todo o jovem que não entra pelo menos com média de 15, é uma espécie de débil mais ou menos adestrado. Andamos a educar crianças para os 110 metros barreiras, e ninguém lhes explica que a vida é uma maratona. Elas são imuno-deprimidas, já têm mais doenças alérgicas porque é tudo liofilizado, não se pode tocar em nada, não se pode comer fruta tirada das árvores, não se pode beber água das mangueiras, mas elas são imuno-deprimidas em termos emocionais, porque não estão habituadas a tolerar pequenos insucessos, pequenos fracassos que são muito mais importantes que todos os 5 valores que elas possam ter na vida.<br />" Devia ser proibido as crianças começarem a aprender a ler e a escrever no infantário. O infantário serve para dar educação física, educação visual, educação musical e brincar" , defende Eduardo Sá.<br />Escola<br />Pensa que a escola as protege muito do insucesso, até determinada altura? Sim. Pegar nas competências das crianças é também diferenciá-las. Podem ter imenso sucesso nalgumas coisas e não é pecado ter insucesso noutras. De repente, cria-se uma atmosfera estranha. Os pais ficam à beira de um ataque de nervos quando o filho tem um 3. Quando uma criança recebe uma negativa, não quer dizer que seja burra. Quer dizer várias coisas: que tem questões em casa que lhe dão imensas dores de cabeça, que às vezes os professores não se conseguem fazer entender, que às vezes lhe exigem tanto sucesso que ela tem tento medo de falhar, que passa a vida num sufoco. O sistema acaba por penalizar sempre as crianças, como se houvesse meia dúzia delas incompetentes, como se tivessem um defeito de fabrico, que não é verdade. Meia dúzia delas têm muito boas notas, mas não sabem interpretar os mais simples sinais à volta delas em termos sociais, políticos, de passado e futuro. Não sabem. E são educadas para o presente. Mas depois são estes alunos que, quando querem falar de projectos de vida, dizem: eu gostava. Passam a vida a conquistar o futuro através dos pretéritos.<br />Não vejo mal nenhum nos compromissos cívicos, mas temos de definir o que queremos para a educação. O que se passa neste momento é uma coisa absurda. Muitos pais querem que as crianças tenham educação pré-escolar no infantário. Há infantários em Lisboa que ousam dizer aos pais que as crianças podem ficar reprovadas, eu acho que isso é uma coisa absolutamente notável. Devia ser proibido as crianças começarem a aprender a ler e a escrever no infantário. O infantário serve para dar educação física, educação visual, educação musical e brincar. Do meu ponto de vista, a educação do ensino básico (1.º ciclo) serve para isto, mais Português e Matemática. Com estas seis coisas, temos os alicerces para um pensamento absolutamente fulgurante.<br />Quando falou de crianças agitadas, isso está ligado aos problemas de indisciplina?Há uma diferença entre a autoridade e autoritarismo. Muitas pessoas confundem-nas. É assim no sistema judicial, na escola, na política, etc. A autoridade faz bem à saúde, e a autoridade é legitimada pela sabedoria e pelo sentido de justiça. Preocupa-me que, muitas vezes, os adultos carreguem no autoritarismo e falem na disciplina, e se esqueçam que a autoridade se conquista com bons exemplos, nunca com bons conselhos. Tenho sempre a ideia de que quem dá muitos conselhos é porque está farto de dar maus exemplos e, portanto, à cautela, empanturra as pessoas com conselhos. Preocupa-me que os tempos de escola não sejam pensados como deve ser. Em dez minutos de recreio sobram três para brincar, entre ir à casa de banho e ao bar. Três minutos para brincar é algo absolutamente faraónico. Quanto mais tempo de recreio, mais sucesso escolar. Muitas vezes, o modo de ensino não se adequa minimamente àquilo que as crianças são. Quando chegam à escola, já sabem muitas coisas. A escola vai tentar formatar tudo isso, mas, muitas vezes, o ensino prático e criativo não o é. O exercício da autoridade, as direcções das escolas, os professores face às crianças, está todo enviesado. Os problemas de indisciplina são o cruzamento destas variáveis. A escola é um bem precioso. Quem não a respeita, está a delapidar uma necessidade básica. Os professores deviam ser acarinhadíssimos. Os educadores e os professores do ensino básico deveriam ser tão bem pagos como os magistrados.<br />Trabalho, política e empresa<br />Um dos resultados do nosso inquérito é que 20% das mães tiveram problemas no trabalho. Muitas delas regressaram mais cedo, outras não cumpriram as 2 horas de amamentação.Nalguns países escandinavos, a mãe ou o pai passam 1 ano em casa, a receber a totalidade do ordenado. Se quiserem passar mais 1 ano, recebem 90% do ordenado. Há mecanismos de trabalho em casa. É vantajoso para as crianças? É precioso. Os níveis de desenvolvimento intelectual, escolar, etc. são absolutamente inacreditáveis. O ganho não é imediato, mas a médio prazo o efeito é contínuo e multiplicativo. É inacreditável que haja pessoas que falam, por exemplo, das férias de parto, porque as pessoas não têm bem a noção do que é ter um filho, e do que isso representa de esgotante para uma mulher. Há estudos internacionais a indicar que, de facto, os países onde as mulheres têm menos garantias desta natureza, onde a maternidade é menos garantida, as mulheres produzem mais em termos de carreira. Objectivamente, não se discutem as famílias. Um Estado tem que ser implacável. Requer que haja finalmente políticos que sejam capazes de interpretar o que os cidadãos pensam. Ao contrário do que os políticos imaginam, os cidadãos são seres muito inteligentes e muito sensíveis. Têm uma clarividência absolutamente fantástica. Se os políticos percebessem que podem construir políticas adequadas, que essas políticas lhes dão pontos, e que, ainda assim, dão credibilidade, os políticos eram muito mais acarinhados e respeitados. <br />Políticos, mas também gestores de empresas?Claro. Por isso é que eu ando sempre com a ideia de que um político tem uma obrigação cívica. Muitas empresas ainda não perceberam que estão a lidar com pessoas. Funcionam ainda muito no registo da Revolução Industrial. Ainda não perceberam que a empresa é, no essencial, a gestão dos recursos humanos. As pessoas têm as hierarquias muito trocadas: em primeiro lugar põem o trabalho, em segundo, os filhos, em terceiro, a família e, às vezes, em quarto lugar, a relação amorosa. Isto está tudo ao contrário. Primeiro, tem que estar a relação dos pais, em segundo, a relação com os filhos, em terceiro, a família, e depois, em quarto ou em quinto lugar, o trabalho. As pessoas não são menos sérias por causa disso, pelo contrário.<br />Internet<br />Que relação as crianças devem ter com a Internet, em geral, e, concretamente, com as redes sociais, como o messenger, por exemplo?Quando o telefone foi inventado, além de haver cursos de formação para utilizar o telefone, a Igreja fez uma cruzada contra a utilização do telefone pela mulher, porque tinha a ideia que seria o princípio do fim. A Internet é um bem fantástico. Acho uma delícia que um instrumento de guerra tenha passado a ser um sítio onde até, ainda por cima, se escrevem cartas de amor. É a enciclopédia mais fantástica do mundo e acho grave que as pessoas a diabolizem. Evidentemente que, da mesma maneira que não faz sentido que haja uma televisão por assoalhada em casa, deve haver apenas um computador ligado à Internet. Todas as pessoas têm legitimidade de saber onde é que navega toda a gente. Vale para os filhos, vale para os pais, não me choca que as regras sejam iguais para todos. Os pais não se devem divorciar de definir regras, é muito importante. Preocupa-me que se esteja mais do que duas horas por dia ligado à Internet. Porque significa que os pais se demitem completamente de definir regras, e depois se põem numa atitude vitimizada do género: " eu não concordo, mas já não posso fazer nada" . É óptimo que as pessoas tenham redes sociais, é uma forma de estarem menos sozinhas. Os adolescentes sabem que uma coisa é comunicar nas redes sociais, outra é cheirar e sentir as pessoas.<br />Não substitui, mas não há esse risco? Há, claro. São crianças tão desconfiadas que nunca socializam no meio escolar e na família, e refugiam-se na Internet. São como um náufrago em relação a uma bóia, a única forma de não morrerem de solidão. São crianças muito doentes. Que sempre existiram, vão continuar a existir, e eu não cruzo os braços diante disto, mas é absurdo tomar os adolescentes como se fossem todos um exemplo dessas crianças doentes.<br />Há uma geração atrás, as pessoas eram, muitas vezes, iniciadas sexualmente no contexto das famílias. Hoje, somos muito mais cuidadosos, na generalidade, em relação aos nossos filhos. Não podemos estar em todo o lado ao mesmo tempo. Não podemos proteger os nossos filhos demais. Hoje, dadas as circunstâncias, protegemos demais, e protegê-los demais não é protegê-los. Porque não lhes estabelece a capacidade que efectivamente têm de destrinçar o bem e o mal. Tão simples como isto. Corremos sempre riscos, mas o maior deles é crescermos, ou imaginarmos que podemos crescer, sem riscos. Os pais vivem numa vertigem e não é por causa dos riscos dos filhos. É porque percebem todos os riscos que correram durante o seu crescimento e a maneira como os pais deles, que eram excelentes pessoas, se baldaram muito mais que alguma vez imaginaram. Querem proteger os filhos dos riscos que eles correram.<br />Temos a ideia que somos o máximo e esquecemo-nos de que os nossos pais são motivo de muito maior admiração que os adolescentes de hoje. Tiveram muito mais dificuldade, o mundo era muito mais duro e desigual. Era urgente explicar aos adolescentes de hoje que eles são óptimos, são excelentes pessoas, têm oportunidades educativas como nunca houve, mas falta-lhes muito para eles merecerem o respeito que os nossos avós mereceram. <br />E eles vão perceber?Vão. Sabe porquê? Porque só quando temos a noção da História, percebemos como somos pequeninos. Com 18 anos, percebemos que podemos ter um ideal para crescer. Muitas vezes, falta aos adolescentes um ideal.<br />Os pais servem para definir regras, mas as regras são tão simples quanto isto: os pais só têm legitimidade para exigir aquilo que eles também fazem. Se os pais insultam, estão a legitimar as crianças para o insulto. Se o pai trata mal a mãe, ou se não liga à mãe, está a legitimar os filhos para tratar mal os outros ou para a indiferença. Quando os pais cumprem tudo isto, têm toda a legitimidade para exigir. Quando a lei é igual para todos, quando os pais dão exemplo, não precisam de se preocupar.<br />Não há o argumento de " eu sou adulto, posso fazer, tu és criança" …Nunca me canso de dizer que as relações entre os pais e os filhos também morrem. Aliás, as relações mais importantes são sempre as mais frágeis. Estamos sempre à espera que as pessoas que nos amam saibam sempre mais de nós do que nós próprios. Quando os pais não sabem mais dos filhos do que eles próprios, deixam de ser pais em suaves prestações. Começam por morrer devagarinho dentro deles. Esta história de legitimarmos a nossa tolice por uma espécie de hierarquia não tem pés nem cabeça. A sabedoria legitima-se com o bom senso. Quando as crianças percebem que há sabedoria e sentido de justiça, os pais podem-lhes exigir tudo. Obviamente, os miúdos podem protestar, fazem o papel deles, mas respeitam.<br />Dar o mais possível de colo, de autonomia, que lhes dá um GPS absolutamente infalível, e quanto baste de autoridade, que lhes dá a caixa de velocidade. Com estas três coisas, as crianças crescem bem. Dar-lhes motor e caixa de velocidades sem pôr um GPS, faz com que as crianças fiquem perdidas.<br />

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