Hipocondria

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Seminário apresentado no curso de graduação em Medicina da UFPB em 2014.

Publicada em: Saúde e medicina
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Hipocondria

  1. 1. Aline Cristina Oliveira Anna Karoline Gouveia Aysla Albuquerque Elaine Guedes Geraldo Neto Neres Iasmin Machado Jéssica Lima José Cássio Falcão José Wagner Lima Mariana Deininger Thiago Sipriano Universidade Federal da Paraíba Centro de Ciências Médicas Departamento de Medicina Interna MHB5 – Relação Médico-Paciente I Docente: Jacicarlos Alencar
  2. 2. Dib M, Valença AM, Nardi AE. Transtorno de pânico e hipocondria. J Bras Psiquiatr. 2006; 55(1); 82-84.
  3. 3. F., 29 anos, branca, casada, católica, balconista, residente no Rio de Janeiro; Queixa principal: arritmia e falta de ar; A paciente apresentou um quadro de dispneia, taquicardia e sudorese de extremidades; A suspeita inicial de infarto agudo do miocárdio (IAM) foi descartada.
  4. 4. F. passou a frequentar diversos serviços de saúde em busca de um diagnóstico para o que chamava de problema cardíaco, afirmando que seu pai e seu avô paterno morreram de IAM; Sempre era internada com suspeita de IAM quando sentia os seguintes sintomas: taquicardia, dispneia, tremor e sudorese de extremidades e aperto no peito; Passados dois anos, após a realização de exames com resultados normais, um cardiologista encaminhou-a ao atendimento psiquiátrico.
  5. 5. Compareceu ao instituto de psiquiatria da UFRJ, acompanhada do marido, pois temia andar sozinha na rua e passar mal. Já fazia uso de 5mg diários de diazepam; Durante a anamnese aventou diversas vezes a hipótese de sofrer de arritmia cardíaca; Prescrição inicial: paroxetina, 10mg/dia e diazepam 10mg/dia; A sintomatologia se reduziu em intensidade e frequência no primeiro ano de tratamento.
  6. 6. F. entrou em contato diversas vezes para discutir os efeitos colaterais da paroxetina e o uso crônico de antidepressivos; Parou o tratamento duas vezes de forma súbita; Foi sugerido o tratamento psicoterápico e F. reagiu de forma hostil; Passou a fazer uso de 40mg/dia de paroxetina e 10mg/dia de diazepam; F. já consegue ir sozinha ao trabalho e refere que o tratamento psiquiátrico ajuda a tratar seu nervosismo, mas não descarta a hipótese de um problema cardíaco ainda não diagnosticado.
  7. 7. Pensamentos intensos e desconfortáveis com ideias de doença que invadem a mente e se intrometem no raciocínio normal, sem que exista qualquer doença real ao nível do órgão ou sistema em questão; Origem da palavra: Refere-se à região logo abaixo das costelas, onde fica a vesícula, baço e rins - órgãos que na antiga Grécia eram relacionados a produção de bile. De acordo com a teoria dos humores, de Hipócrates, a hipocondria estava associada à melancolia, que por sua vez se devia à bile negra. Hipo: Vem do grego hypo, significa “abaixo”. Condria: Vem de kondrós, significa “cartilagem do tórax”.
  8. 8. A pessoa se imagina doente, percebe sinais que não existem, se identifica com sintomas descritos por outras pessoas e passa a considerar que também tem esta doença; Por sofrer com ansiedade, sobrevaloriza num sentido negativo cada sensação corporal normal a ponto de considerar que algo não vai bem. Ex.: ao subir uma escada qualquer ser humano normal perde um pouco o fôlego, mas o hipocondríaco fará deste momento uma “prova” de que tem problemas cardíacos;
  9. 9. Desvia a sua atenção do meio ambiente para si próprio, é extremamente autocentrado, mantém a observação em si mesmo, está constantemente avaliando suas próprias sensações corporais e diagnosticando doenças inexistentes; Possui atenção seletiva. Ex.: ao assistir um programa da TV sobre dengue, passará a perceber cada mosquito que passa ao redor, verá listras brancas em absolutamente todo mosquito, e qualquer sinal vermelho em sua pele, provocado por sua própria unha sem perceber, será identificado como picada do mosquito da dengue.
  10. 10. Contato com doenças físicas durante a infância, em si ou familiares próximos; Aparecimento de informação alarmante sobre doenças através dos meios de comunicação; Mães ocupadas demais com muitos afazeres que passam uma imagem errada às crianças, fazendo-as pensar que só receberão amor e acolhimento quando estiverem doentes. O resultado seria a busca de amor e carinho através de cuidados médicos.
  11. 11. Associados ao perfil psicológico dos hipocondríacos; Pessoas extremamente centradas em si mesmas, narcisistas, neuróticas, autocríticas e introvertidas têm maior probabilidade de sofrer deste transtorno; Ansiedade: a hipocondria e ansiedade andam de mãos dadas. Todo hipocondríaco é ansioso, mas nem todo ansioso será hipocondríaco.
  12. 12. Os piores companheiros do hipocondríaco são os livros e sites que descrevem doenças, pois estas informação nutrem seu arsenal de argumentos para convencer a quem quer que seja de que realmente possui tal doença; Um grande prejuízo que o hipocondríaco causa a si mesmo é confundir os médicos e não ser diagnosticado corretamente quando de fato estiver doente, pois há uma grande quantidade de visitas ao médico e realizações de exames desnecessários;
  13. 13. Automedicação: o hipocondríaco se considera bastante instruído a respeito de doenças pelo fato de ler e pesquisar muito a respeito; Submeter-se desnecessariamente a procedi- mentos delicados para investigar suas queixas; Viver em função da doença, deixando de fazer as atividades do dia a dia normalmente, como ter prazer ao lado da família e amigos, trabalhar ou viajar.
  14. 14. Farmacoterapia •Antidepressivos e ansiolíticos Psicoterapia •Terapia cognitivo- comportamental
  15. 15. Tratará principalmente da ansiedade, identificará sua fonte e fornecerá formas mais eficientes de lidar com ela; O primeiro passo será conscientizar esta pessoa sobre seu real problema e motivá-la a deixar sua preocupação desproporcional com doenças; O psicoterapeuta também ajudará a pessoa a entender sua própria história de vida e usar essa compreensão para seu crescimento pessoal; É a oportunidade para aprender a reinterpretar os sintomas e substituir os pensamentos disfuncionais por outros mais adaptados.
  16. 16. Qualquer doença poderá ser alvo da angústia do paciente; Algumas vezes concentram suas queixas sobre um determinado órgão ou sistema corporal, principalmente o coração e aparelho digestivo; Outras vezes variam alternativamente suas preocupações, podendo atingir vários órgãos e sistemas; As queixas do hipocondríaco obedecem mais à anatomia e fisiologia populares do que aos conhecimentos científicos.
  17. 17. Os sintomas são imaginários, mas as sensações são percebidas como realidade. Isso não significa que o causador destes sintomas seja doença, e nem que estes sintomas realmente existem, pois o que existe é a sensação do sintoma; Ironicamente, os hipocondríacos tendem também a apresentar mais sintomas físicos e disfunções de órgãos, desta vez reais, do que a população geral.
  18. 18. A hipocondria está mais relacionada a outros transtornos de ansiedade; Síndrome de pânico: caracteriza-se por sintomas orgânicos fortes e reais, que fazem a pessoa pensar que tem algum problema orgânico muito forte, mas ao ser examinada percebe-se que não tem nada físico, mas a sua mente está fazendo-a acreditar que sim. Sendo assim, a hipocondria pode aparecer em alguns quadros de pânico; Muitas vezes a hipocondria coexiste e é mascarada pela depressão. Neste caso, quando melhora do quadro depressivo, deixa de acreditar que possuía alguma outra doença.
  19. 19. O hipocondríaco é um paciente é detalhista, sofredor e repetitivo em suas queixas; A relação com o médico fica comprometida pela falta de confiança do paciente em função de: Prejuízo da crítica; Dificuldade de delegar o controle ao médico; Vigilância sobre as manifestações somáticas e os efeitos colaterais dos medicamentos; Inabilidade do médico em lidar com pessoas com sinais e sintomas somáticos funcionais diversos.
  20. 20. Como o paciente não se convence do que o médico fala, é comum ele se consultar com diversos profissionais; Quando a relação com o médico entra em uma fase de desconforto, com o paciente sempre duvidando de sua palavra, não raro os profissionais vão ficando cada vez mais inseguros em não encontrar o que ele relata e acabam solicitando exames cada vez mais invasivos e até mesmo cirurgias sem necessidade;
  21. 21. Além disso, o paciente logo encontra argumentos, falsos diga-se de passagem, de que talvez sua doença não tenha sido acusada nos exames, como por exemplo: Pela doença estar no início; Devido a um equipamento do laboratório que ele “tem certeza” que está desatualizado; Por considerar que o médico é novo demais e não tem experiência suficiente; Por considerar que o médico é idoso demais e está desatualizado.
  22. 22. Sintomatologia física frequente e prolongada, que sugere a presença de um substrato orgânico, mas que não é totalmente explicada por nenhuma patologia orgânica ou pelos efeitos decorrentes da utilização de uma substância (drogas, álcool), nem por um outro transtorno mental; É marcante a dificuldade no estabelecimento de um vínculo médico-paciente positivo, em decorrência de um questionamento constante por parte do paciente, principalmente em relação à inexistência de substrato orgânico detectável.
  23. 23. Freud constatou que a queixa hipocondríaca se estrutura a partir da referência à dimensão corporal marcada pela fantasia; Assim, pode produzir manifestações corporais que independem da existência de uma lesão real na parte afetada do corpo; Ele percebeu que as queixas hipocondríacas estavam mais vinculadas ao fenômeno de angústia do que ao “medo de adoecer”, presente no senso comum.
  24. 24. Com a teorização, a hipocondria é classificada como uma "neurose narcísica", fruto da retração da libido objetal. Hipocondria Neurose de angústia Narcisismo Retração da libido Sonho
  25. 25. Em um primeiro momento, Freud considera a hipocondria como uma neurose atual; É um quadro independente do conflito ou mesmo do jogo representacional, presentes na psicose;
  26. 26. Caracteriza-se pela presença de angústias difusas, que são geridas através de uma sintomatologia funcional; Esses sintomas não possuem um sentido simbólico, e tampouco uma relação com o infantil; Em 1893, Freud destaca como uma das principais formas de expressão da neurose de angústia; Suas principais manifestações são: expectativa ansiosa, irritabilidade, parestesias, sudorese, tremores, diarreia, constipação, distúrbio de funções corporais e da atividade cardíaca;
  27. 27. Mais tarde, a perspectiva freudiana identificou que a hipocondria não se constitui como uma entidade nosográfica autônoma; Assim, pode manifestar-se livremente em todos os quadros psicopatológicos, fazendo parte também de muitas de nossas experiências cotidianas; A hipocondria grave tem muitos aspectos formais das psicoses (“confusão alucinatória”).
  28. 28. O hipocondríaco vive num estado de exagero patológico da escuta do seu corpo, desviando sua atenção do meio ambiente para si próprio; Ele toma o corpo como um objeto singular de investimento libidinal, numa atitude autoerótica e narcisista; Com o desenvolvimento do conceito de narcisismo em 1914, a hipocondria passou a ser considerada parte das neuroses narcísicas.
  29. 29. O hipocondríaco olha de modo alarmista e amplifica os seus sintomas corporais mínimos, interpretando erroneamente cada sensação nova no seu corpo como sinônimo de doença; Assim, também vivencia o seu corpo como doente, demonstrando aspectos autoagressivos; A hipocondria já foi descrita como a “paranoia das vísceras” - Freud afirma que se o paranoico sente-se perseguido por inimigos localizados no mundo externo, o hipocondríaco está perseguido por seus órgãos.
  30. 30. O investimento que o hipocondríaco opera no seu próprio corpo permitiu a Freud utilizá-lo como um modelo do retorno da libido sobre o ego; Assim, a hipocondria provém de uma espécie de regressão da libido, que se retira dos objetos; Freud defende em 1914 que a erogeneidade é uma propriedade de todos os órgãos; Ele explicará a hipocondria como a modificação da erogeneidade de certos órgãos, que corresponde a uma modificação dos investimentos da libido no ego;
  31. 31. Com a retirada do amor objetal, há um bloqueio das satisfações libidinais, levando a uma impossibilidade de descarga das excitações do presente; Os sintomas funcionais (vertigem, taquicardia, cefaleia) seriam uma consequência imediata da estase libidinal e teriam a função de gerir essas excitações; Neste caso, pode parecer um autoerotismo negativo porque o prazer é travestido pela dor; Entretanto, permanece a presença de um investimento libidinal.
  32. 32. Existe um estado de regressão libidinal própria do sono; Depende da retirada de todos os investimentos psíquicos do mundo externo para o ego; Freud observa que é nesse estado que o corpo pode ser informado, pelo seu erotismo interno, de modificações corporais incipientes que, na vida de vigília, permaneceriam inobservadas; Assim, ele afirma que todas as sensações costumeiras do corpo assumem proporções gigantescas e essa amplificação das sensações é de natureza hipocondríaca.
  33. 33. “O hipocondríaco não é um doente imaginário, mas alguém que apresenta uma verdadeira doença crônica, uma perturbação perceptiva, cognitiva e psicológica que origina sofrimento real, disfunções psicofisiológicas, deterioração familiar e social e possibilidades de automedicação”
  34. 34. Fernandes MH. A hipocondria do sonho e o silêncio dos órgãos: o corpo na clínica psicanalítica Volich RM. Hipocondria: impasses da alma, desafios do corpo. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2002. ABC.MED.BR, 2011. Hipocondria. O que é?. www.abc.med.br/p/psicologia..47.psiquiatria/232395/hipocondria+o+que+e.htm (acesso em 24/01/14) www.einstein.br/einstein-saude/em-dia-com-a- saude/Paginas/hipocondria-pode-comecar-em-casa.aspx (acesso em 24/01/14) www.unifesp.br/dpsiq/polbr/ppm/atu2_01.htm (acesso em 24/01/14) http://www.marisapsicologa.com.br/hipocondria-a-mania-de- pensar-que-tem-doencas.html (acesso em 24/01/14) www.seleccoes.pt/hipocondria_uma_doen%C3%A7a_cr%C3%B3nica (acesso em 24/01/14)

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