Da manjedoura a emaus

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Da manjedoura a emaus

  1. 1. Wesley Caldeira DA MANJEDOURA A Emaús
  2. 2. Sumário Apresentação ................................................................................... 7 Introdução ...................................................................................... 9 Capítulo 1 – Em Nazaré .................................................................. 15 Capítulo 2 – Séforis ......................................................................... 21 Capítulo 3 – Galileia das nações ...................................................... 27 Capítulo 4 – Gens davídica ............................................................. 33 Capítulo 5 – Ancestrais ................................................................... 39 Capítulo 6 – Belém ......................................................................... 45 Capítulo 7 – Serva do Senhor .......................................................... 53 Capítulo 8 – Irmãos de Jesus ........................................................... 63 Capítulo 9 – Estrela no Oriente ...................................................... 69 Capítulo 10 – Em torno da manjedoura .......................................... 75 Capítulo 11 – Perseguição e exílio ................................................... 81 Capítulo 12 – Entre os doutores ...................................................... 91 Capítulo 13 – João Batista ............................................................... 99 Capítulo 14 – Os apóstolos ............................................................. 115
  3. 3. Capítulo 15 – As discípulas ............................................................. 125 Capítulo 16 – Cenário intelectual da época ..................................... 137 Capítulo 17 – Organização religiosa de Israel .................................. 149 Capítulo 18 – O amor em movimento ............................................ 159 Capítulo 19 – Viagens ..................................................................... 171 Capítulo 20 – Última semana.......................................................... 179 Capítulo 21 – No Jardim das Oliveiras ............................................ 187 Capítulo 22 – Com um beijo .......................................................... 191 Capítulo 23 – Perante Anás e Caifás ................................................ 201 Capítulo 24 – Negações de Pedro .................................................... 211 Capítulo 25 – Ecce homo*1 ............................................................... 219 Capítulo 26 – Até o Gólgota ........................................................... 233 Capítulo 27 – Últimos momentos no Calvário ................................ 239 Capítulo 28 – Sepultamento ........................................................... 253 Capítulo 29 – Ressurrecto**2 ........................................................... 261 Capítulo 30 – Aparições .................................................................. 269 Posfácio ........................................................................................... 277 Referências ...................................................................................... 283 Índice Geral .................................................................................... 289 * N.E.: Eis aqui o homem, frase proferida por Pilatos, ao apresentar Jesus Cristo com a cabeça coroada de espinhos. ** N.E.: Que ou quem ressurgiu ou ressuscitou.
  4. 4. Capítulo 1 EM NAZARÉ Tendo recebido um aviso em sonho, partiu para a região da Galileia e foi morar numa cidade chamada Nazaré, para que se cum-prisse o que foi dito pelos profetas: Ele será chamado Nazareu. 15 (Mateus, 2:22 e 23.) A lua nova marca o início de um novo mês. É o começo de março, ano 761 da fundação de Roma (7 d.C.). Em Nazaré, passam-se os meses e apenas se modificam os ritmos da natureza. Após longa procissão de chuvas desde outubro, o inverno chega ao fim. É sexta-feira. A madrugada se embalsama dos perfumes silvestres. A estrela da manhã já empalidece. O menino acorda e sai. No futuro, registrarão seu hábito peculiar: “De madrugada, estan-do ainda escuro, Ele se levantou e retirou-se para um lugar deserto, e ali orava”.1 (Marcos, 1:35.) Pouco além dos limites da aldeia, uma rocha se projeta do monte e abaixo surge um vale. 1 Nota do autor: As transcrições da Bíblia não identificadas quanto ao tradutor foram extraídas da Bíblia de Jerusalém. (São Paulo: Paulus, 1996.)
  5. 5. WESLEY CALDEIRA | DA MANJEDOURA AEmaús As manhãs costumam encontrá-lo ali, absorto. O menino conta 12 anos. Daí a pouco, rumores nas casas próximas recordam-no de que é tempo 16 de voltar às obrigações cotidianas. Nazaré — que significa aquela que guarda, um lugar de sentinela — formou-se nas encostas da colina, entre as muitas e salientes pedras de seu solo, a despeito da terra fértil. As ruas começam a ser ocupadas, sobretudo por mulheres indo à fonte com seus potes. A manivela ajuda os braços femininos a puxarem os vasos com água, e, durante a tarefa, as mulheres conversam. O poço é um local de aproximação social. O menino encontra sua mãe tirando leite da cabra. Em instantes, o leite estará balançando numa bolsa de pele, para coagular e produzir coalhada; ou fazer queijo, depois de drenado o soro por um pano de linho. Sua casa é típica do lugar — três cômodos, de tijolos de barro, pedra e cal, com um terraço feito de ramos entrelaçados, apoiados em madeira e cobertos de argila. Quase tudo está no chão. Peças de cerâmica, de utilida-des variadas, estão por perto. Num tear rústico, lã e linho são tecidos. O moinho manual produz a farinha para o alimento básico: o pão. Lá fora, um forno portátil de barro serve para cozinhar. As crianças auxiliam suas mães nas atividades domésticas, do amanhe-cer ao pôr do sol. Contudo, há momentos para brincar. Bonecas, animais de estimação... e bolas de couro. A ideia é manter uma bola (ou duas) em movimento, jogando um para o outro, com as mãos, até cair e se definir, assim, o vencido. Há, ainda, os brinquedos de madeira. Nazaré é o povoado dos carpinteiros. Para Israel, o trabalho manual é sagrado. Os rabinos ensinam que o artesão dedicado a sua obra não precisa se levantar diante do mais impor-tante dos doutores. Os carpinteiros, em particular, fruem de elevada consideração e oca-sionalmente são chamados à condição de árbitros em questões judiciais, talvez pelo hábito de operarem em seu ofício com medidas exatas. Jesus atravessa uma fase de novas responsabilidades familiares e sociais. Em algumas semanas, irá à Jerusalém para a peregrinação anual da Páscoa.
  6. 6. 17 CAPÍTULO 1 | EM NAZARÉ Aos 13 anos, será um homem. Diminuem suas tarefas domésticas e agora passa mais tempo na oficina do pai. Vai-se iniciando no ofício da broca e do martelo, do formão e do serrote, conforme a tradição familiar. Ele aprende os rudimentos da preparação de portas, móveis, carroças, rodas e ferramentas agrícolas, trabalhando com tal disposição o pequeno carpin-teiro de Nazaré, que enche a casa de ânimo com sua alegria. Quando o sol vai alto, uma parcela dos quase 500 habitantes já ocupa as ruas de chão batido de Nazaré. Esteiras e tendas se estendem pelas mar-gens, seja para as ofertas de serviço seja para as de comércio, em especial, de frutos e legumes. É uma aldeia agrícola. Mas há, também, os utensílios da olaria: panelas, bacias, tigelas, potes, lamparinas; como ainda o artesa-nato de cestas trançadas de junco ou dos filamentos que crescem entre as tâmaras. O linho é outra especialidade — a Galileia é rica em campos de linho e hábeis tecelãs. A permuta é o método frequente das transações, e restrita é a circula-ção do dinheiro. Sob uma tenda, um escriba formaliza negócios, casamentos, redige cartas. À chegada da tarde, porém, as pessoas se apressam um pouco. Logo, ao poente, iniciará o Shabat (descanso), que durará até o poente do dia seguinte. Enquanto Maria prepara as três refeições do repouso sagrado, Jesus arruma a oficina de seu pai, garante uma provisão suficiente de água para a casa e limpa seus cômodos modestos. Trombetas soam três vezes. Suspende-se o trabalho. Com o crepúsculo, Maria acende duas lamparinas, cujas chamas dança-rinas deverão arder até o amanhecer, quando a família se apresentará à sina-goga. Das lamparinas, fumaça e cheiro característicos se espalham pela casa. Maria desdobra as roupas festivas e coloca dois pães sobre a mesa. José está na sinagoga, recitando orações e lendo textos sagrados. De-pois de um tempo, ele volta para casa, onde lhe espera a família e os con-vidados para a refeição ritual. Na mesa, ele declama o kiddush (uma oração de santificação) sobre uma taça de vinho, evocando o repouso de Deus após a criação e a santificação do sétimo dia, e conclui: Bendito sejas tu, ó
  7. 7. WESLEY CALDEIRA | DA MANJEDOURA AEmaús Eterno, que santificas o Shabat. O pão é partido entre todos, untando-se as porções com sal. Salmos e versículos do Antigo Testamento são entoados. E Jesus tudo observa. O Shabat é um rico caminho para o crescimento interior. O ser huma-no medita em Deus, contempla sua Criação, relaciona-se fraternalmente com parentes e amigos, descobrindo que não só de pão vive o homem. A partir dos 5 ou 6 anos, os meninos podem frequentar a escola, ini-ciando a alfabetização. Um professor, de estilete à mão, usa uma pequena tábua coberta de cera para escrever as letras, nomeando-as até que sejam dominadas. O próximo passo será conhecer os cinco livros da Torah, mas o programa abrangerá leitura, geografia, história, cálculo, regras sociais e re-ligiosas. De versículo em versículo, lido, explicado, recitado várias vezes, as Escrituras são praticamente memorizadas. À medida que os estudantes cres-cem, outros textos são acrescentados, inserindo-os no universo dos profetas e dos livros de sabedoria. Na adolescência, penetrarão nas questões orais de interpretação das escrituras, aprendendo a aplicar a Torah na vida diária. A sinagoga é o centro da vida social e religiosa. Não é só o templo para o qual o judeu piedoso deve voltar-se em oração três vezes ao dia. Abriga a escola, é o espaço de reunião da comunidade, um local de estudo das escrituras e um lugar de esperanças. Nazaré estava fundada havia mais de dois mil anos. O franciscano Bellarmino Bagatti (CROSSAN, 1994, p. 50) realizou escavações no centro da aldeia, entre 1955 e 1960. Encontrou tumbas de meados da Idade do Bronze (2000–1500 a.C.), cerâmicas da Idade do Ferro (900–539 a.C.), cerâmicas e construções do período helenístico (332–63 a.C.). Em relação ao período de Jesus, encontrou uma fonte, cis-ternas para água, prensas de azeitonas, tonéis de óleo e silos para grãos nos subterrâneos das moradias, onde as colheitas eram guardadas. Flávio Josefo, historiador judeu, citou 45 cidades da Galileia. O Talmud mencionou 63 delas. O Antigo Testamento relacionou inume-ráveis cidades dessa província. Nenhuma dessas fontes, curiosamente, registrou Nazaré. A aldeia foi ignorada, de tão pequenina. A primeira referência a ela, fora dos documentos cristãos, foi descoberta em 1962, nas escavações de Cesareia: um pedaço de mármore com a inscrição de 18
  8. 8. 19 CAPÍTULO 1 | EM NAZARÉ seu nome. Mas sua aparição na história ocorreu no dia em que o Espírito Gabriel foi enviado a ela, à procura de “uma virgem desposada com um varão chamado José, da casa de Davi”. (Lucas, 1:27.) Nazaré foi construída no topo do monte mais ao sul da Baixa Galileia. De lá se vê o Monte Carmelo, a oeste; o vale do Jordão, a leste; a planície do Esdrelon, ao sul; defrontando-se, a nordeste, com o lago de Genesaré. Vê-se, também, o Monte Tabor, e quase se pressentem, por trás das mon-tanhas da Samaria, as muitas colinas ressequidas da Judeia. Ernest Renan (2003, p. 124) escreveu, com inspiração: Aquelas montanhas, aquele mar, aquele céu de anil, aqueles planaltos no horizonte foram, para ele (Jesus), não a visão melancólica de uma alma que interroga a natureza sobre seu destino, mas o símbolo certo, a sombra transparente de um mundo visível e de um novo céu. A aldeia de Jesus se distanciava cerca de 150 quilômetros de Jerusalém. Mas Séforis estava a apenas uma hora de caminhada de Nazaré.

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