Besouro

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Besouro

  1. 1. UNIVE RS IDADE DO ES TADO DA BA HIA DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS HUMA NAS - CAMPUS IPROG RAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDO DE LINGUAGENS J ONALVA SANTIAGO DA S ILVA DO CORDEL À NA RRATIVA BIOGRÁF ICA : A IN VENÇÃO DE BESO URO, O HERÓI DE CORP O FEC HADO S ALVADOR – BA 2010
  2. 2. J ONALVA SANTIAGO DA S ILVA DO CORDEL À NARRATIV A BIOGRÁFICA:A INVENÇÃ O DE BESOURO, O HERÓI DE CORPO FECHA DO Dis sertação apresentada ao Programa de Pós-graduação em E stu do de Lingu age ns da Univer s idade do Estad o d a Ba hia, como requis ito p arcial para ob tenção do títu lo de Mestre, sob a orient ação da Profª Drª. Márcia Rio s da Silva S ALVADOR – BA 2010
  3. 3. Ilustração da capa: Desenho de Carybe.Extraído do livro O Jogo da capoeira. 24 desenhos de Carybé.K.Paulo Hebeisen.(org). Coleção Recôncavo. Salvador, Livraria Turista, 1951. S586 Silva , Jona lva Santiago da Do cordel à na rrativa b io g ráfic a: A Invenção de Be souro herói de corpo fech ado/ Jonalva Santiago da Silva- Salva dor, 2010. 126 f.:il Orientador Prof.ª Dr.ª M árcia Rios da Silva . Dissertação (Mestrado) – Universidade do Estado da Bahia DepartamentoCiê ncias Humanas - Campus I Programa de Pós Graduação em Estudo de Linguagens. 1. Besouro Mangangá - Capoeira na literatura brasileira 2.Capoeira – Bahia 3 .Capoeirista I. Titulo CDD B869.00
  4. 4. Dedico este trab alho, in me mo riam,aJônatas Co nce ição d a S ilva. Tal qualBesouro, lutou , resist iu e ho je tamb émbrilha no céu. Virou estrela.
  5. 5. AG RADECIMENTOSÀ minha especial orientadora, Profa. Dra. Márcia Rios da Silva, p elapaciênc ia e cumplicidade no acomp anhame nto e construção deste texto ;À Profa. Dra. Florent ina Souz a, desde o Exame de Qualificação, pela scontrib uições valiosas à e laboração desta pesquisa;Ao Prof. Dr. Sílvio Roberto de Oliveir a, d esde o Exame de Qu alificaç ão,também pelas suge stões enr iquecedoras a este trabalho;Ao s meus p ais, J osé e Marina lva r esponsá veis pelo meu exist ir e por sempreme ince nt ivarem a cont inu ar cresce ndo ;Ao s meus irmãos e em e sp ecia l às minhas d uas irm ãs, Lad ism ar e Adla po rtodo o ince nt ivo;A Vad o e Igo r, família que co nstruí e que me fa z sempre buscar novo s ideais;À Edna Viana pela ajud a na organização do texto final;À p ro fessora Be atr iz Ribeiro, pela a juda em algumas correções do texto;Às minhas gra nde s amiga s, irmãs do coração e anjos q ue enco ntre i, And réa eMargarete, pela co nvivê ncia intelectual, o que me fez ama durecer para a vidaacadêmica;À Hildete, bibliotecária do PP GEdu c, pelos textos int ere ss antes queconse guiu p ara qu e melhor fund amenta sse a minha pesquis a;À A ntonio Re inaldo , Mestre Lamp ião, inca ns áve l p esquisado r sobre Besouro,pelo acesso ao seu acer vo e disponibilidade;À Profa. Zilda Paim, p elos deta lhes so bre as histó ria s de Be so uro e paciênciapara contá-las;Ao s professores do PPGEL, p elos ens ina mentos, em especial, Luc iano Lim a eEdil Costa;Às secret aria s de educação do Estado da Ba hia e Mu nicipal de S anto Amaropela conce ss ão d e lice nça, para a rea lizaç ão d este estudo ;À m inha turma de mestrado, e ao meu grupo de estud o, Edna, Geraldo,Elizab ete, Raquel por todas as trocas d e exper iências;Ao s atenc ioso s secretár ios do PPGEL, Camila e Danilo;À todo s aq ueles que, d e algu ma forma, contribuíram para a rea lização dess etrabalho.
  6. 6. RESUMOEste e studo tem por objet ivo analisar as ima gens ou representações sobre ocapoeirista Besouro Mangangá, tornad o um mito, produzidas na lit eratura decordel, de autoria de Antô nio Vie ira e de Victo r Alvim G arcia, e na narrat ivade Marco Carvalho , como textos ficcio nais q ue se a lime nt am de u matextu alidade popular. Bu scando artic ular liter atura, mito e história,ente ndido s como discurso s, recorre-se a p esquisad o res que contribuem parauma co mpreensão da co nstrução do mit o Besouro, cap oeirista ba iano quenasce no co ntexto histórico da nova ordem republicana e pós -abolição, deforte repressão, por instânc ias jurídicas, ao jogo da capoeira. As narrat iva sana lisadas co ntrib uem para amp liar uma tradição da literatura brasileira,como textos ficc iona is que tensionam valo res das produções literária slegit imadas.Palavras-chave: Besouro Mangangá. Capo eira. Textua lidad e Popular.Literatura Bras ileira
  7. 7. RÉSUMÉCette étude a comme objectif analyser les images ou les répresentations sur le capoeiristaBesouro Mangangá, qui est devenu un mito, produites dans la littérature de cordel, écrit parAntônio Vieira et Victor Alvim Gárcia, et dans le récit de Marco Carvalho, comme des textesde fiction que se nourrissent d’une textualité populaire. En cherchant articuler la littérature,le mythe et lhistoire, compris comme des discours, il fait appel aux chercheurs quicontribuent à une compréhension de la construction du mythe Besouro, capoeirista de Bahiaqui est né dans le contexte historique du nouvel ordre républicain et d’après labolition, deforte répression, pour les cas juridiques, au jeu du capoeira. Les récits analysés contribuentpour agrandir une tradition de la littérature brésilienne, comme des textes de fiction quetensionnent les valeurs des productions littéraires légitimées.Mots-Clés: Besou ro M angangá – capoeira – textualité popu laire – littératurebrésilienne
  8. 8. SUMÁR IO1 INTRODUÇ ÃO 082 NO RECÔNCAVO DA BAHI A, NASC E UM HERÓI 173 OS “VOOS” DE BESOURO NA LITERATU RA DE CORDEL 464 MORTE E NAS CIMENTO DO HERÓI NEGRO EM FEIJ OADA 85 NO PARAÍSO5 CONSIDERAÇÕES FINAIS 118REFERÊNCIAS 120ANEXO 126
  9. 9. 81 INTRODUÇ ÃO O capoeir ist a Be so uro Manga ngá na sceu prova velm ente no a no de189 5, no municíp io de Santo Amaro , no Recô ncavo Baia no, vind o a fale cerem 1924. Filho de negros es cravizad os que atravess aram o Atlâ nt ico, ocapoeirista viveu u ma época em que muitos d eles viram -se obrigados a u sarseu co rpo como máquina na co lheit a e moagem da cana-de-açúcar, nas terra sdos senhores d e engenhos. Co ntudo , apesar dessa vio lênc ia, fizer am do seucorpo uma arte, no jogo da cap oeira – luta e dança –, síncop a que marca acadência, a firmando sua força, como resi stência, em p ro l d a abolição. Manu el Henriqu e Pereira, nome civil de Beso uro Manga ngá,conhec ido ainda como Besouro Preto ou Besouro Cordão d e Ouro, viveu numperíodo de fo rte repressão à capoeira gem – entre final d o sécu lo XIX ecomeço do século XX –, tempo em que muitos ne gros va gavam e vadiavampela s ruas de muitas c idad es da Ba hia, particularme nte a sua capit al e a s doRecô nca vo, sem emprego fixo , e xplorados como mão -de-obra temporária. A sruas passam a s er palco de um jo go encenado po r muitos negros qu elibertavam seu corpo inve nt ando modo s de viver e d e se relac ionar,protagoniza ndo mu itas histórias, que ia m sendo retid as na m emó ria de suacomunid ade. De ntre as muit as histórias t ecid as com os fios do real e daima ginação, as histórias produzidas p or e sobre Besouro estão preservada s po ruma trad ição oral, vindo a se const itu ir em uma te xtualid ade popular, quepassou a alimentar as páginas de a lgu ns gêneros lit erár ios, como o cordel, e,rece ntemente, invadiu a s telas do cinema, s inaliza ndo a permanênc ia de ummito, vind o a ser estudado por algu ns pesq uisadores, que constat am naqu elatextu alidade um processo de co nstrução da figura d e um herói p opular. A permanê nc ia des se mito gerou as inqu ietações dest e trabalho, deauto ria de uma estud iosa negra, tamb ém filha de Sa nto Amaro da Purificação.A minha vivência em um amb ient e soc ial imp re gnado da exp eriênc ia históricados negros, no q ual compartilho os muit os “cau sos” sobre esse capoeir ist a,levo u-me a indagar e a pesqu isar sobre a p ermanência do mito Be so ur o – tãofamo so, se guido s por ou tro s como Mestre Bimba e Mestre Pa st inha –, umherói a fro -baiano , qu e nasceu em um est ado cujas oligarqu ias subju garam os
  10. 10. 9mod os de vida e de luta de u m expressivo segmento de d esce ndentes deescravos. Pelo tempo exí guo em u m Curso de Mestrado para desenvolver umestudo qu e, como primeira et ap a, exigiria o le vantame nto das história scontadas sobre Besouro pelos moradores do Recôncavo Baia no, o ptei po rana lisar produções literár ias sobre esse capoeirista: os textos d e cordel deauto ria do santoamarense A ntô nio Vie ira, O encontro de Besouro co m ovalentão Doze Homen s (s/d) e A valentia justicei ra d e Besouro (2003), e dopoeta e capoeirista car ioca Victo r A lvim Itahim Gar c ia, Hi stórias e b ravurasde Besou ro o va lente capoeira (20 06) e narrat iva d e Marco Carvalho,Feijoada no para íso : a sa ga d e Besouro, o capo eira (2002). O objetivoprincip al deste estu do é ana lisar a s rep resentações sobre Be sou ro nes se stexto s ficcio nais, cons iderando o co ntexto histórico em que viveu e ss ecapoeirista, no intuito de ente nder a permanê ncia desse mito. Essas narrat iva s contam a história de um herói ne gro, que sesingulariza em relação aos heróis forjados pelas e lit es de u ma c ivilização, aexemp los dos heróis gr e gos, pátria s o u nações modernas. Ao cont rár io, oherói Besouro é protagonista de contranarrativas, de lu tas d e resistê ncia a umsist ema opressor, de u m Brasil colo nial, imperia l e republic ano, que semprese nt enciou, mu itas vezes de forma cruel, o apagamento dos ne gros eafrodescend ente s. Na primeira seção desta Diss ertaç ão, No Recônca vo da Bahia nasceum herói, realiza-se uma composição b iográfica d esse capoeir ista,articula ndo -a com o conte xto histórico, no intuito de pu xar os fio s da cu lturaafro-baia na para se pensar a co nst itu içã o d o herói B e sou ro . Para compor apais agem histó ric a d o Brasil e da Bahia, particularme nte a d o Recônca voBaiano, e ntre fins do século XIX e iníc io do sécu lo XX, período tensionadopor conflitos so ciais, mud anç as d e regim e político e p ós -aboliç ão, recorre-seaos estu d os de Walter Fra ga F ilho, Eu l Soo Pang e Antonio Ris ério, b emcomo aos d e Almir Areia s, Adriana Dias, J osivald o Olive ira e Mu niz So dré. Visando ent end er a co nstitu ição do heró i e sua m itificação, recorre -sea M ircea E liade e Josep h Campbell. Como o estudo proposto trata de umsu jeito da his tória “e sq uecido” p ela historiografia ofic ia l, buscam -se a scontrib uições de José G erald o Va sconc elos, Ecléa Bo si, para a qual a s
  11. 11. 10exp eriênc ias do passado são refe itas, reconstruídas, um trabalho d a memória,e Lo iva Otero Fé lix, com sua noção de “memórias subterrânea s”. P eloente ndim ento d e qu e uma pesquisa se alime nta d e font es diversas, a lgumas atédesau torizad as pela academ ia, não se p ôde d esprezar a contrib uição da Profa.Zilda Paim, conhecida como memoria lista, sobre o Recô nca vo Baia no. Na se gu nd a seção, Os vôo s de Beso uro Man gangá na literatura decordel, são analisadas e int erpretadas a s narrat iva s d o co rd el de A ntônioVie ira e Victor Alvim Garcia, nas q uais se biografa a histó ria de BesouroMangangá. P ara t a nto, reco rre-se às cont ribu ições de Márcia Abreu, AntônioAra ntes e Doralice Alco fo rado, em seus estudos so bre o cordel, gê neroprodu zido por escritores do chamado segmento popular, aqu i ente nd idos comosu jeitos q ue se viram privados, historic ame nt e, dos direitos bás icos decidadania, à cultura letrada, ma s, ainda que numa inclusão degradada, comoana lisada, e cr it icada, pelo sociólo go J osé d e Souza Martins 1, aprenderam aler e a escrever. Tal co nquist a possib ilit ou u ma escrit a que lhes permit iramregistrar histórias e so cializá- las, s ilenciadas pela História oficia l, e ntendidaaqu i, dentro do campo historio gráfico, como um d iscurso elabo rado p elaperspectiva d a cultura dominante. Na terce ira seção , Mo rte e nascimento de Besouro em Feijoa da noparaíso , é analisada a narrat iva Feijoada no paraíso , de Marco Carvalho,jornalist a e p ublicit ário , a qual tem como narrador e personagem centra l ocapoeirista Mangangá trazendo su a versão acerca d e mu itas histórias co ntada sso bre ele próprio: sua morte, seu ap elido, seu nas cime nto, o jo go da capoeira,relações d e amizade, bem como o enfrent amento à ordem republicana, comrelatos alinhavados por reflexões, digress ões ou comentário s. Em Feijoada no paraíso, o jo go da capoeir a ganha destaque, comouma prática cultur al e performát ica : a ginga d o corpo, seus golpes, ama ndinga, a p ro teção dos orixás são postos em rele vo. Em vista d is so , sãoimpo rtantes a s refle xões d e Stuart Ha ll so bre os rep ertórios culturais d osnegro s da diáspo ra, b em co mo a noção de performance, elabo rada por PaulZumthor, compreendida como co rporeidade e teatra lid ade.1 Cf. MARTINS, José de Souza. A exclusão social e a nova desigualdade. São Paulo: Paulus, 1997. ApudPEREGRINO, Mônica. www.anped.org.br/reunioes/25/monicaperegrinoferreirat06.rtf - Acesso em 21/05/2010.
  12. 12. 11 A narrat iva d e Marco Carva lho inspirou u m longa-metra gem docinema nac io nal, Besou ro, da capoeira nasce um herói , que estreo u em 2009,filme dir igido pelo renomado pub licit ário João Daniel Tikhom iroff. 2 Apelícula, bu scand o aproximação com a textualidad e popular tec ida sobreBesouro, co nta a história d e Mangangá, c om uma superp ro dução qu e realiza oes forço d e traduzir a visão heroicizada sobre o lendário capo eir ist a. Paratanto , as ce nas de luta, marc adas po r efe ito s especiais, foram coreo grafada spelo chinês Huen Chiu Ku, o mesmo que dirigiu Kill Bill e O tigre e odragão . Rodado na Chapada Diama nt ina , na Ba hia, a produção cuidou detrazer capoeirist as para atuarem, e Ailton Sa ntos, pr ofessor de capoeira, éprotagonista da história. 3 Destaq ue-se que em 1980 foi la nçado Besou roCapoeirista , do diretor Tato Tabo rd a, te ndo o ato r baia no Mário Gu smãoatuando como Besouro. Os d iferent es sites que divu lgaram o la nçame nto do film e de JoãoDa niel T ikhom iroff destac aram a re levâ ncia de Be sou ro Cordão d e Ouro nouniverso da cap oeiragem, re ss alta ndo se us fe itos extr ao rd inár ios, as fuga sespetaculares, a sua agilid ade, denominando -o de heró i, de mito, u marefer ência para a arte da c apo eira. Tais rep resenta ções têm longa d ata, comoima gens cint ila ntes na cultura afro -b aiana, particularmente no Recônca voBaiano e no universo da capoeira gem. O filme p rojeta Besouro nu m univer somais amplo, com a promessa d e torná -lo c onhecid o por um público ma ior, quevive distante de um tempo em que o jogo da capoeira era t ido como umaprática de “pretos”, “ vad ios” e “ ind ivíduos perigosos”, ou seja, d e ne gros queameaçavam a no va ordem republica na, até ser enquadrado como crime em189 0, dois anos após a abolição da escr avatura. Co mo este estudo tem a preo cup ação de articular literatura ehistória, os p esquisado res e estudiosos que se fazem presente s na primeir aseção desta dis serta ção são retomados nas d emais seções, para art icular suascontrib uições com os te xtos ficcio nais que dramatizam a his tória de BesouroMangangá.2 Disponível em http://www.interfilmes.com/filme_21174_Besouro-(Besouro).htlm. Acesso em 20/08/2009.3Cf.correio24horas.globo.com/noticias/noticia.asp2codigo=367048mdl=4http://www.cordaodeouromangalot.com.br/index.php?opt. Acesso em 07/10/2009.
  13. 13. 12 As narrat ivas de A ntônio Vie ira, Victor Alvim Garc ia e MarcoCar valho, insp iradas na textu alidad e p opular, trazem traços dess atextu alidade, filiad a a “uma c lasse de narrat ivas que se apresent am comofant ást ica s e qu e terminam co m uma aceitação do sobrenatural”, na visão deTzvetan Todorov, 4 sem uma exp licação ló gica cau sa l. Os feito s eacontec ime ntos envo lve ndo o personagem Besouro, e até mesmo sua vidacotid iana, são marcados pela presença do inusitado, do sobrenatural e demetamo rfoses. As sim, o personagem c apoeirista protago niza situaçõe sextraordinár ias: vira beso uro, um mangangá, vo a, tra nsforma-se em pla nta,morre e rena sce, t em o corpo refratár io aos metais, enfrent a lobisomem,convive com mundo sagrado dos orixás, retorna ao mundo dos vivos sem servisto e ainda se encar na no corpo d e outras pessoas. Muitas das situaçõe sextraordinár ias ou metamo rfoses ocorrem quando se torna neces sário driblaros adversár ios, es cap ar dos inim igos, defe nder -se ou proteger a lguminjust içad o. Ainda d e aco rdo com Todoro v, no plano da recep ção ocorre “ahes it ação e xperimentada p or um ser que só conhece as leis natura is, face a umacontec ime nto aparent eme nte sob renatu ral” – d aí qu e o público ou le itordessas histórias v ai co nviver com o extr aordinár io, o insólito, o estranho , oencantame nto e a ma gia e xperim enta ndo uma se nsação que o susp end e da vidacotid iana. As histórias cr iadas p or Antônio Vieira, Victor A lvim Garc ia eMarco Carvalho p odem ser lidas como b iografemas, se gu nd o Ro land Bart he s,traço acentuado em Feijoad a no paraíso , narrat iva em 1 ª. pessoa, em que opersona gem Besouro assume o lugar de narrador. São lendas inve nt adas,relatos biográ ficos ou ainda “inst antâ neos fotográficos”, que Barthes va idesignar d e b iogr afema s: “go sto de certos tra ços biográ ficos qu e, na vid a deum escr ito r, me enca ntam ta nto qu anto certas fotografias; chame i es se s traçosde ‘bio grafemas’” 5 Todas elas se filiam a uma te xtualid ade popular, tecida por u masu perpo sição de fa las, voze s, te xtos, hist órias, “causos”, enfim, ficções sobre4 TODOROV, Tzvetan. Introdução à literatura fantástica. Trad. Maria Clara Correa Castelo. São Paulo:Perspectiva, 2007. p. 58.5 Cf. Roland BARTHES. A câmara clara; nota sobre a fotografia. Júlio Castañon Guimarães. Rio de Janeiro:Nova Fronteira, 1984. p. 51.
  14. 14. 13uma lenda, também uma ficção, do Recônca vo Baia no, cuja história de vida,marcada pela r ebeldia, fertilizou a imagina ção de u ma comunidade,ampliand o -se continuamente. Tais fic ções devem ser ent e ndidas pe la noção defictí cio, apresentada p or Wolfgang Iser. Questio nando a visão corrente d e que os te xtos ficc iona is se opõ emaos te xtos factua is, Iser co ns idera q ue aqu eles não são “de todo is ento s derealidade”. O texto ficc io nal “co ntém e lementos do real, sem qu e se esgo te nadescrição d este real”. As sim, co mo “o seu co mpo nente fictício não tem ocaráter de uma fina lidad e em s i mesma ”, é, “enquanto fingida, a prep araçãode um ima ginário”. 6 Segu ndo Iser, um text o ficcional guard a mu ita realidade,de ordem socia l, sent iment a l e emo cio nal. Tais rea lidad es não são fic çõesnem se convert em nela s ao entr arem nos t exto s ficc io nais, pois não s erepetem por efeito d e si mesma s. A “repetiç ão é u m ato d e fingir, pelo qual aparecem fina lidad es quenão pertencem à rea lidad e repetida, daí que o ato d e fingir é uma transgre ss ãode limit es”. Por isso, Iser propõ e sub stit uir o p ar oposit ivo fic ção/realidadepela tríade “rea l, fictíc io e imaginár io”. Em relação ao imaginár io, “seucaráter d ifuso é transfer ido para uma co nfiguraç ão determinada, q ue se impõenum mund o dado como produto d e uma trans gres são de limit es”. Ou seja, noato de fingir, “o imaginário ga nha u ma determinação que não lhe é própria eadquire, deste modo, um pred icad o de realid ade : po is a determinação é u madefinição mínima do real”. Para Iser, “as ficçõe s não e xistem só como textos ficcio nais :desempenham papel importante tanto nas at ividades do conhec imento, daação, do compo rtamento, quanto no estabe lec imento d e instituições, deso cied ades e de visões de mund o ”. Entend end o o texto literár io como ummod o de temat iz ar o mundo, p ara Iser esse mod o não est á dado a priori.As s im, é preciso qu e seja implantado, para se impor, o que “não s ignificaimit ar as e struturas de organização previament e e nco ntrá ve is, mas simdecompor”. Nessa d eco mpo sição ocorrem as seguintes o perações: a s eleção ea comb inação .6 ISER, Wolfgang. O ato de fingir ou o que é fictício no texto ficcional. In: LIMA, Luiz Costa. Teoria daLiteratura e suas fontes. Vol. II. 2ª ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1983. p. 384-416.
  15. 15. 14 A sel eção , “nece ssár ia a cada texto ficcio nal, d os sistema scontextua is pré-existentes, sejam e les de natu reza sócio -cultural o u mesmolit erár ia”, “é uma tra nsgre ss ão d e limites na medid a em que os elemento sacolhidos pelo texto agora se d es vinculam d a estruturação semânt ica ousist emát ica dos sistemas de q ue foram tomados. Isso va le t anto para ossist emas co nte xtua is, qu anto p ara os texto s literár ios a qu e os novo s te xt os s erefer em”. Cont inu a: “O s elem ento s co ntextuais que o texto int egra não são emsi fictí cio s, ape na s a seleção é u m ato de fingir pelo q ual os sistemas, comocampos de referênc ia, são entr e s i d elimit ados, pois suas fro nte ira s sãotrans gred id as”. No ato d e seleção oco rre “uma perda d e articula ções preced ente s euma reint egração do s elementos es co lhidos em uma no va art icu lação”.“Su prim ir, complementar, valorizar” vêm a ser, de acordo com Iser, operaçõesbásica s da “produção de u m mundo”. A seleção , co mo ato de fingir, encontr asu a co rrespo ndência intratextu al na combinação – o utra operação etrans gres são de lim it es, d os e lem entos textu ais – , “que abrange t a nto acombina lidade do significado verbal, o mund o introduzido no texto, quanto osesquemas responsá veis pela organização de personage ns e ações”. Co mo ocorre quase sempre, se gundo Iser, no s t exto s narrativos sãoacentuados “os espaços sem ânt icos const ituído s a p artir de elemento sse lec ionad os das realidades extrat e xtuais , que se re velam p ela ap rese nt aç ãoesquemática das personage ns do romance (caractere s po sit ivos e ne gat ivos) ”.No s relac ionamentos intr ate xtua is, ocorre u m rompimento d e fronteiras, p oisa ficção a grega, em um ú nico esp aço, “uma var iedade d e lingu age ns, d e ní vei sde foco s, de pontos de vista, que ser iam co ntraditórios noutras e sp écie s dediscurso, organizadas quanto a u m fim empírico particu lar”. Co mpo ndo uma te xtualidade p opular, as história s sob re Besou ro –elaboradas a partir da se leção de ele mentos da realidad e extrate xtual,se guidas da comb inaç ão intert e xtual, e na ruptu ra d e fronteiras – sãocontra narrat ivas q ue põ em em xeque um modelo d e nação , um dese nhoident itár io homogene izador do Brasil, segu ndo Florentina Souza, tecido po rum gru po so cial, a saber, as elit es do país. Para a pe squisad ora, este de se nhoident itár io,
  16. 16. 15 in di vi dual o u col eti vo, consist e nu m pr ocesso d e co nst r uç ã o si mbó lica utiliza do como p onto de r ef er ê nci a e auto -afir maçã o d o g r up o ou i ndi ví du o. As fr at ur as, dú vi d as, deslizes, h et er og en ei da des so fr em um p r ocesso d e e s ma eci m ent o p ar a q ue seja gar a nti da a co nst ruçã o d e u m d es en ho u ni for me, u nitá ri o e t otaliza nt e, a ci ma d e q ualq u er susp eita q ua nt o à p r opri eda de o u plausib ili da de. L egiti mad o p ela imp osiçã o d e u m gr up o so cial, p el as r ep etiçõ es de fi g uras r etó ricas, o d es enho ser á ratifi cad o e reti fi ca do p ela tr adição e ar vora r -s e- á cap az de defi nir e si ngul ari zar indi ví du os e/ ou g r up o s so ci ais. 7 O capoeirist a Be so uro viveu uma ép oca em que esta va em curso oprojeto de consolidação do Estad o-naç ão brasile iro , traça ndo seu desenhoident itár io, e a literatura e a história, inst itucio nalizadas co mo disciplinas edomínio do conhecime nto, vão se ir manar em tal projeto. Enqu antoprodu ções, ambas vão co ntrib uir, em s ua maioria, na construção de umdiscurso ident itár io homoge neizador. A i denti d ad e, pa ra os i nt el ect uais dos “pri mó r di os” da naçã o, estava li ga da à necessi d ad e de co nstru çã o de um país, d e um a históri a, u ma cult ura, atra vés dos q uais t o dos s e r eco nh ecesse m si mu ltaneam ent e se mel ha nt es e di fer ent es da M et ró p ol e ( co ntr adiçõ es de col o ni zad o...). Ó r gãos sã o cria do s, u m p r oj et o liter ári o é delin ea do, escrit or es, est udi oso s, artistas e p olíti co s articula m-s e; t o das as ener gias i nt el ect uai s diri ge m-s e e co n cen tra m-s e no es forço de “i n ventar ” o Brasil. É pr ecis o i nvent ar o país, pr een cher os v ácuo s da m emóri a com aq uil o q u e nã o pr o pi ci e co nstra ngi ment os mai or es q ue o d e ser uma ex- colô ni a. Co mo con str uçã o si mbó lica q u e é, a i d entid ad e cu ltural b rasil ei ra vai gan ha r p er fis mais ou men os ot i mistas de a cor d o com as i déias, pri n cíp i os e val or es hege mô ni cos de ca d a ép o ca. 8 Para F lorentina S ouza, o s intelectuais brasile iro s têm à fre nt e umdesafio, cerca ndo -os de constrangime ntos : “Como forjar u ma id ent idade d ignase o imaginár io já t inha cr ista lizad o como verdadeira a ‘ind ignidade’ d e doisse gme ntos ét nicos [o índio e o negro ] da população ?” 9. Segund o a autora, o7 SOUZA, Florentina. Imagens e contra imagens do negro. In.: Congresso ABRALIC, Anais... Rio de Janeiro.1988.p. 243. Nesse trabalho, a autora analisa a série Cadernos Negros, um periódico criado por escritoresafrodescendentes, em fins de 1970. Segundo a autora, Cadernos Negros, “produzidos com intenção expressa deabalar a autoridade do discurso do saber e do poder, podem ser vistos como tentativa de constituir umasuplementariedade à cultura oficial brasileira; buscam inventar uma contra-imagem que desautorize aunanimidade proposta pela imagem instituída”. p. 245.8 Id., p. 243-244.9 Id., p. 244.
  17. 17. 16“processo de co nstrução simbólica nã o descarta as significações p ré -exist entes”. Desse modo, no processo de construção da identid ade nac io na lbrasileir a, pelas elites do paí s, de cunho ho mogene izant e, a trad ição ocident aldesempenhará um p apel fu ndame ntal, uma vez que tece “narrat ivas sob re oOu tro [o índio e o ne gro] de acord o co m o seu projeto de dominação”,incu lcando -as “ no imaginár io do próprio colonizad o d e modo qu e o m esmoche ga a acred itar na verac idade do texto.” 10 Ass im, o “p erfil d o Outroinve ntado pela tradição ocident al presc inde d e ser comprovado ou organizadologicame nte, a repetição garante a sua validade”. 11 Na contr amão d e um dese nho id ent itário ho mogene izad or, u matextu alidade popu lar emerge quest ionando -o , com histórias qu e têm Besourocomo herói, à reve lia da História oficia l. Tais narrat ivas são elaborad as porsu jeitos que enco ntram nes se c apo eirista a referência de uma luta eres istência ao processo de colo nização , que subju gou os ne gros, colocand o -osnum lugar inferio r, em diver sos ní veis, naquele desenho, a despeito de suainegáve l co ntr ibuição na construção do país. Assim, u m refrão ins ist e,“furando” tal des enho, em riste: “zum zum zum, zum zum zum, cap o eira mat aum”.10 Id., loc. cit.11 Id., p. 244.
  18. 18. Fonte: CARNEIRO, Edison - Caderno de Folclore 1 – Capoeira, 1977
  19. 19. 172 NO RECÔNCAVO DA BAHIA, NASCE UM HERÓ I Qu and o eu morr er Nã o qu er o gri t o e ne m mi st éri o Qu er o u m beri mbau Toc and o n a p ort a d o c e mi t éri o Com u ma fi t a a ma rel a Gra vad a c o m o n ome d el a Ai nd a d ep oi s d e mort o Bes our o é c o rd ã o d e our o Como é o n o me? Cord ão de Ou ro. 12Vida breve, longa histó ria Manu el Henr ique Pereira é o nome c ivil do mestre de capoeir aBesouro Manga ngá, ou Besou ro Cordão de Ouro. A d ata provável d e s eunascimento tem como referênc ia o processo movido em 1918 , pelo ExércitoBrasile iro, que resulto u na sua e xpulsão da corporação, no mesmo ano , po r“incapacidade moral”, conforme o fício do Ministér io d a Gu erra, 13 no qual seatest a que o acusado tinha 2 3 anos à época. Beso uro Mangangá nasce noquilombo Urup y, Olive ira d os Campinho s, distrito de Santo Amaro daPurificação, na região denominada Recô ncavo Ba iano, 14 filho d e J oão Martins12 Letra da canção Cordão de ouro, do mestre Traíra de Santo Amaro, o José Ramos do Nascimento. Capoeiristafamoso da Bahia, marcou época e ganhou notabilidade ímpar na arte das “rasteiras” e “cabeçadas”. No discofonográfico, produzido pela Editora Xauã, intitulado "Capoeira", hoje uma preciosidade para os estudiosos eadeptos dessa arte, tem presença marcante envolvendo os ouvintes. Sobre a beleza e periculosidade do seu jogo,assim se referiu Jorge Amado: "Traíra, um caboclo seco e de pouco falar, feito de músculos, grande mestre decapoeira. Vê-lo brincar é um verdadeiro prazer estético. Parece bailarino e só mesmo Pastinha pode competircom ele na beleza dos movimentos, na agilidade, na rigidez dos golpes. Quando Traíra não se encontra na Escolade Waldemar, está ali por perto, na Escola de Sete Molas, também na Liberdade". Mestre Traíra também teveimportante participação no filme "Vadiação", de Alexandre Robatto Filho, produzido em 1954, junto a outrosgrandes capoeiristas baianos, como Curió, Nagé, Bimba, Waldemar, Caiçara, Crispim Disponível em:http://sites.br.inter.net/capueirameialua. Acesso em 06/06/2009.13 Cf. VASCONCELOS, José Gerardo. Etnocenologia e história: percorrendo indícios da vida de ManoelHenrique Pereira, vulgo “Besouro” (1895-1924). p. 25. In: MATOS, Kelma Socorro L. de. VASCONCELOS,José Gerardo. (Orgs.). Registros de pesquisas na educação. Fortaleza: LC-UFC, 2002. p. 27. Na Seção Judiciáriado Arquivo Público Municipal de Santo Amaro (Data limite: 1920 – 1927: Subsérie: Tentativa de Homicídio:Cx. 4; Nº. 104: Vol. 18), tem-se o seguinte registro, de 04/02/1922, no auto de perguntas dirigidas à vítimaCaetano José Diogo: “um homem moderno de cor escura quase preto”.14 O Recôncavo abrange a região Bahia de Todos os Santos, com 23 municípios, incluso o de Salvador. Partindodo litoral, onde começam as dunas e praias do Litoral-Norte, a linha limite inflete para o Oeste, para o interior,passando ao Norte de São Sebastião do Passé, até alcançar o norte do município de Santo Amaro, e encontrarHumildes, onde seu traçado curva-se para o Sul, correndo paralela ao sentido do litoral, atravessando os leitosdos rios Jacuípe e Paraguaçu, envolvendo os municípios de São Gonçalo dos Campos, Cachoeira, Conceição daFeira e Cruz das Almas; deste, a fronteira retorna em direção à costa, passando por Santo Antônio de Jesus,apontando em linha reta para o mar, margeando as Matas do Sul, passando abaixo de Nazaré, Aratuípe eJaguaribe, até encontrar a praia, nas alturas da Ponta do Garcez, ao norte da Barra do Jequiriçá. Cf. COSTA,Pinto. Recôncavo: laboratório de uma experiência humana. In. BRANDÃO, Maria de Azevedo et al. Recôncavo
  20. 20. 18Pereira e Maria Auta Pereira 15. Zilda Paim, conhec ida como memo ria list asa ntoamare nse, traz a lgu ns dados biográ ficos desse capoeirista, fa lec ido em192 4: Nasceu em Sa nt o Amar o. Filh o de J oão Mat os P er eira e Mari a José. O mais la di n o e mali ci os o cap o ei rista da Ba hia. Mestr e d e cap oei ra no E xér cito, d e o nde s e desli gou dep ois da gu err a. Nã o conh ecia o medo, ven cia a p olí ci a da nd o p er na das e r ab o s d e arr aia, co m seus fa mo sos salt os acr ob áti cos. F oi fria e cov ar dement e g olp ea do em Mara ca ng al ha, n o l uga r d e nom e Qui mb eca. V eio pa ra Sa nt o Amar o em ca noa , fi ca nd o no Port o em fr ent e a L oja N ov a, até q ue foi t ra nsp o r tado para a Sa nt a Casa d a Misericór di a, o nde fal eceu a os 32 an os de i da de. 16 O capoeirista Be so uro M angangá d á continuidade a uma p rática, acapoeira, que chegou ao Brasil desde o início d a colo nização. Segu ndoCar ibé, os capoeirist as chegaram à Ba hia “ no bo jo de p au dos ant igos ve leirosdo século X VI. Eram negros da A ngola, talvez guerreiros jogadores dessa lutaem q ue pés e cabeç a têm m ais importância e qu e as mãos pass am a segu ndoda Bahia Sociedade e economia em transição. Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado; Academia de Letrasda Bahia; UFBA, 1998. p. 103-105.15 Não há informações precisas sobre a data de nascimento de Besouro. Segundo Vasconcelos, “só foi possíveldesvendar a sua origem mediante a certidão de óbito do seu irmão Caetano Cícero Pereira”. O autor ainda citarelato de João Pequeno, citando-o em seu livro: “Besouro morreu com vinte e tantos anos ou trinta. To ouvindofalar que ele morreu em 1924”. Cf. Etnocenologia e história: percorrendo indícios da vida de Manuel HenriquePereira, vulgo “Besouro” (1895-1924). p. 29-32. In: Matos, Kelma Socorro Lopes de. VASCONCELOS, JoséGerardo. Orgs. Registros de Pesquisas na Educação. Fortaleza: LCR – UFC, 2002. O autor transcreve na íntegraa certidão de óbito, expedida pela Santa Casa da Misericórdia de Santo Amaro, em 1925, a pedido do Dr. Joãode Cerqueira e Souza, promotor público da Comarca de Santo Amaro, para o arquivamento do processo movidocontra o capoeirista por Caetano José Diogo em 1922, em virtude do seu falecimento em 1924. C.f.; certidão deóbito em anexo. “A Santa Casa da Misericórdia de Santo Amaro, mantenedora do Hospital Nossa Senhora daNatividade, é uma entidade filantrópica sem fins lucrativos que presta serviços de saúde de urgência/emergência,há cerca de 235 anos, a toda a população santoamarense e de cidades circunvizinhas, tendo como finalidadeprincipais o atendimento aos mais carentes. “O objetivo maior da Santa Casa da Bahia, como de todas as SantasCasas, desde sua criação, era praticar a caridade cristã, observando o estatuto, “a lei escrita da Misericórdia”,chamado de Compromisso. A Santa Casa da Bahia seguia o Compromisso datado de 1516, que regia a SantaCasa de Lisboa. O Compromisso prescrevia as quatorze ações ou ‘obras de misericórdia’ que concretizavam aprática caritativa, sendo sete Espirituais  ensinar aos ignorantes; dar bom conselho; consolar os infelizes;perdoar as injúrias recebidas; suportar as deficiências do próximo; orar a Deus pelos vivos e pelos mortos  esete compromissos Corporais  resgatar os cativos e visitar prisioneiros; tratar os doentes; vestir os nus;alimentar os famintos; dar de beber aos sedentos; abrigar os viajantes e os pobres; sepultar os mortos”.SANTANA, A. C. S. de. Santa Casa de Misericórdia da Bahia e sua prática educativa, 1862-1934. 227f. Tese(doutorado em Educação) – Faculdade de Educação, UFBA, Salvador, 2008.p. 44.16 PAIM, Zilda. Relicário popular. Salvador: Secretaria de Cultura e Turismo: EGBA, 1999. p 53. Conhecidapela divulgação da cultura santoamaresense, a autora nasceu em 1919 e iniciou o magistério, em Santo Amaro,de 1937 até 1988. Foi vereadora pelo PDC e MDB nas legislaturas de 1959-1963 e 1997-1982, presidente doLegislativo de Santo Amaro entre 1980 e 1982. Seu grupo folclórico Maculelê de Santo Amaro atravessoufronteiras para ser aplaudido por cariocas, paulistas, mineiros e paraibanos. In: Isto é Santo Amaro. 3ª ed.Salvador Academia de Letras, 2005. Zilda Paim apóia-se na memória popular para referir-se ao nome da mãe deBesouro como Maria José, enquanto na certidão de seu irmão Caetano Cícero Pereira, consta Maria Auta Pereira.
  21. 21. 19plano”. 17 São d etentores d e uma cultura que co ntrib uiu para formar a culturaafro-brasileir a, fortalecendo o combate à opressão, uma arte que usa da“ginga” “para disfarçar a luta, d and o -lhe um caráter lúdico ino fe ns ivo ecadenciad o, de certa forma, à loco moção e preparação dos ataques edefesas”. 18 Nas história s sob re Besouro, que compõem uma textualidadepop ular, sobressa i-se a im agem do capoeirista como um indivíduo alt ivo,destem ido, rebelde, corajoso, va lente, audacio so, ju stice iro, representa nte d osse gme ntos oprimid os num p eríodo d e pó s-abolição e mudança de regimepolít ico . Beso uro torna-se uma le nda, mit o , acima do bem e do mal pelo poderde que se invest e e é investid o, para enfr entar a elite econô mica e polít ica daterra de Santo Amaro, no Recôncavo Baiano. Graças a u ma tradição oral, pode -se recont ar a su a história,praticame nte ausente das páginas da lit eratu ra canonizad a, e xc eção feit a aJo rge Amado, que o ap resenta em Ma r Morto , publicado em 1936, u m anodepois de Jubiabá, narrat iva qu e elege um ne gro o herói da trama. Em MarMorto, o escritor faz uma home nagem a Manga ngá, no capítulo int itu lado“Viscondes, condes, m arqueses e Besouro”. Na trama, Be sou ro Cordão deOu ro , um “ne gro valente”, é o save irista am igo de Guma, personagem dest anarrat iva: E ssa ci da de d e Sa nt o Ama r o, on de G uma es tá co m o sav eir o, foi p átri a de mu ito ba rão d o i mp éri o, visco ndes , con des, ma rq ueses, mas foi t a mb ém de gent e do cais, a p át ria d e Bes our o. P or ess e moti vo, so ment e p o r esse mo ti vo, não é p o r p r oduzi r a çú car, con des, viscond es, ba rõ es, marq ueses, ca cha ça, q u e Sa nt o Ama ro é u ma ci d ade ama da d os ho mens d o cais. Mas foi al i q ue nasceu Bes our o, co rr eu n aq u el as ru as, ali d err a mo u s an gue, esfaq ueou, atir o u, l ut ou cap oeir a, cant o u sa mb as. Foi ali p ert o em Mar acan galh a, q ue o cort ar a m to di n ho a facão, foi ali q ue s eu sa ng ue corr e u e ali b ril ha a s ua estrel a, cl ara e gra nd e [...] ele vir ou estr ela, qu e foi um negr o v al ent e [...]. Bes ou r o nun ca caso u, alé m de ma ríti mo el e er a jagu nç o, alé m d o r emo ti n ha u m ri fl e, além da fa ca d e ma ri n hei r o tinha uma n aval ha. [...] a estr el a de B es our o p isc a n o cé u. É cla ra e gra nd e. As mul h er es di z em q u e el e est á espia ndo os mal feit os dos ho mens (barõ es, co ndes, vis con des,17 Cf. CARIBÉ, op. cit., Zilda Paim em Relicário Popular, transcreve essas mesmas informações no corpo do seutexto, porém não cita a fonte pesquisada. op. cit.; p. 47.18 AREIAS, Almir, O que é capoeira. 3 ed. Brasiliense. (sd), p.24.
  22. 22. 20 ma rq ueses) de Sa nt o Ama r o. E stá vend o to das as i nj ustiça s q ue os maríti mos so frem. Um di a volt ar á para s e vi ngar. 19 Beso uro se metamorfoseia, torna -se u ma estrela, “clara e grand e” –depois de ter vivido como “marítimo” e “ jagu nço” –, atento às injust iças d ospod erosos do Recôncavo, como os barões, co ndes, visconde s e marqueses.As s im como o persona gem Macu naíma, de Mário de Andrade, que tamb ém“vira e strela”, Beso uro faz parte de uma const e lação, organizad a pelopensame nto mít ico, const itutivo dos homens, em difere ntes épocas ouso cied ades, vis and o d ar sent ido e reflet ir “so bre a exist ênc ia, os cosmos, assituaçõ es de ‘estar no mundo’ ou as relações soc iais”. 20 Ao se rememorar a vida de Besouro, de ve-s e cons iderar que “alembranç a é a sobrevivência d o passado. O passado, conser va ndo -se noespírito de cad a s er humano, aflora à co nsc iênc ia na forma de im age ns -lembranç a”. 21 Portanto, o ato de lembrar acontec ime ntos qu e se tra nsformamem história vivifica s ituações e p erpetua o seu aprendizado. Assim são ashistória s sobre Besouro Cordão de Ouro, idea lizadas em ima gens elaboradaspela m emória de quem as conta. S e gund o Ecléa Bosi, “o instrumentoso cializado r da memória é a lingua gem. Ela reduz, unific a e ap ro xima nomesmo espaço histó rico e cultu ral a imagem do sonho, a ima gem lembrada eas ima gens da vigí lia atual”. 22 As narrativas so bre Besouro Manga ngá são produzidas nummomento histórico e so cial e ta is aco ntecime ntos, num processo d e se leção ecombina ção, são memo rizado s, contado s e reco nt ado s, dispens ando -se ass imuma cobrança aos seu s narrad ores quanto a dado s históricos p recisos, p ois aimpo rtância da narrat iva está no p erso nagem vetor do acontec im ento narrad o. Co mo representa nt e de u m e xpress ivo segmento populac ionalafrodescend ente, a histó ria des se capoeirista, que Car ibé destaca, d entr evários nomes da capoeiragem, co mo “bom faquista angola, mas jogado r19 AMADO, Jorge. Mar Morto. 36ª ed. São Paulo, Martins, 1973. p. 123-127.20 ROCHA, Everardo. O que é mito. São Paulo, Brasiliense, 1991. 5ª. edição. P. 7. De acordo com o autor, omito, presente em todas as épocas, “não possui sólidos alicerces de definições. Não possui verdade eterna e écomo uma construção que não repousa no solo. O mito flutua. Seu registro é o do imaginário. Seu poder é asensação, a emoção, a dádiva. Sua possibilidade intelectual é o prazer da interpretação. E interpretação é jogo enão certeza. Id., p. 95.21 BOSI, Ecléa. Memória e sociedade. Lembrança de velhos. 9ª ed. São Paulo Companhia das Letras, 2001. p.53.22 Id.; p. 56.
  23. 23. 21escasso”, 23 foi, como a de ta ntos ou tro s, “esquecid a” pela História oficial,comprometida co m o projeto ident itár io das elit es d o p aís, na co nstrução deum Bras il europeizado. Por isso, a au sê ncia de documentos escr itos, d eve ndoo pesqu isador reco rrer à memória oral p ara elaborar uma histór ia da cap oeira,pela importância do s afr ica nos na co nstrução da memória do país. Aoconsiderar o traço livre e quase o nírico da memória, Bosi afirma o se guinte : [...] lemb rar nã o é r evi ver, mas r efa zer, reco nstr ui r, r ep ens ar, com i ma gens e i déias d e hoj e, as exp eriên cias do p assad o. A me mó ria nã o é s on ho, é tr abal ho. S e assi m é, deve -se duvi da r d a s ob r evi vên cia do p assado, “t al como foi ” e q ue se daria n o in co ns ci ent e de ca da suj eit o. A l emb ran ça é u ma i ma ge m con str uí da p el o s mat eri ais q u e est ã o a gor a à no ssa dis p osiçã o, n o co nj u nt o de rep r esenta çõ es q ue p ov oam noss a cons ciê nci a atual. 24 Transmit idas d e ger ação a geração, há quase um século, asnarrat ivas so bre Besouro são fios de uma “memória subterrânea ”, te ce ndooutros tranç ados, a fim de evit ar o seu esquecime nto. E stu dar memó ria é falar nã o ap enas de vi da e de p er p et u aç ã o d a vi da at ra vés d a histó ri a; é falar, ta mb ém, de s eu rever so, d o esq ueciment o, dos silênci os, d os n ão dit os e, ai nda, de um a fo r ma i nter medi ária, q ue é a p er man ênci a de m emó ria s su bterrân ea s ent re o esq ueci ment o e a memóri a s ocial. E n o ca mp o d as memó rias subt er râ neas, é falar tamb é m na s me mó rias do s ex cl uíd os, d aq u el es q u e a fr ont eir a do p o de r lanç ou à ma r gi nali da de d a históri a, a um o utr o tipo d e esq ueciment o ao l hes r eti ra r o es pa ço ofi c ial ou r egu lar da ma ni fest açã o d o di r eit o à fala e ao r econ he ci men t o d a p r es en ça social. 25 Por esse e ntendime nto, tais histórias são reco nstruídas,ressignificada s pelo traba lho da memória, que se efetu a p elas operações delembrar e esquecer. Toda vez qu e um acontecimento é narrado, ou trasperformances são colocadas e tra zidas do inconscie nte e, num misto de real eima ginár io, confluem para o mesmo ponto, ou seja, a recria ção das “façanhas ”ou feitos realizados por Besouro, nu m país que fez do negro o seu Outro, um23 CARIBÉ. Op.cit.;24 Ibid.; p. 55.25 FÉLIX, Loiva Otero. Política, memória e esquecimento. In: TEDESCO, João Carlos (org). Usos de memórias.(Política, Educação e Identidade). Universidade de Passo Fundo. RS – Brasil. 2002, p. 31.
  24. 24. 22estranho a quem se “podia” maltratar, ao ignorar que se trata de um serhumano . Segu ndo Vas concelos, ao tratar da impo rtâ ncia d a memória para aso lidific ação d a história, “ se o esquecimento nos protege das do res, nãoimpedirá que os ho mens s intam sau dade ou rememorem seus mitos, s ímbo lose ima ge ns”. 26 As sim, ao se prop or um estudo sobre o capoeirista Besou ro, nãose tem a intenção de esquecer as do res que certamente viveu . Ao contrário,busca-se e ntender as razõ es pelas qu ais esse p ro tagonista é rememorado co moum mito, um símbolo, rep rese ntant e de um segmento so cial mar gina lizad o. Para se ente nder o lugar que Besouro M angangá ocupa noima ginár io p opular, é neces sár io co ntextua lizar o período em q ue viveu,marcado por mudanças soc iais e p olít icas do Brasil do fina l do sé culo XIX einí cio do século XX. A abo lição da es cravatura, com a as sinatura d a Le iÁu rea em 13 de maio de 1888 , e a Primeira República, que começa a vigo rarcom a sua proclamação, em 15 de novembro de 1889, p elo Marecha l Deodoroda Fo nseca, at é 1930, criam a espera nça de trans formar o Bras il em um novopaís. Nesse perío do, o Recôncavo Ba iano é o princip al veto r das relaçõe seconômica s com o plant io e a colhe ita da ca na -d e-açúcar, e os engenhos s ãoos p rincipa is núc leos para o s co ntatos . A maioria do s engenhos e sta valoca lizada em Santo Amaro da Pu rificaçã o, terra de Besou ro Cordão de Ouro.Para Z ilda P aim, “o Recôncavo tornou -se em pouco tempo o mais imp ortant ece ntro agrícola da era colo nia l”. 27 Ainda p ara a autora, Santo Amaro “fo i, s emdúvid a, o município que mais e scra vos p ossuiu. Seu s prime iro s povoado res,os p ortu gueses, dado às ave nturas, ávido s de lucros, qu eriam t irar da terra omá ximo que ela pud esse dar”. Dest acam -s e a inda o s agru pamento s ne gros quevieram para Santo Amaro: [...] os ha ussás h ab itav am o Sudã o C entr al, a o nort e d os ri o s Nig er e Bi n ue. F or mav am a naçã o mais i mp orta nt e de t o das a s n eg ríti cas su dan es as. Os malês eram a frican os islami za dos, p oss ui do r es de med i ana cult ura e p ort a do r d e ofí ci os d e26 VASCONCELOS, José Gerardo. op. cit.; p. 24.27 PAIM, Zilda. Isto é Santo Amaro. 3 ed. Salvador. Academia de Letras, 2005, p.51.
  25. 25. 23 p edr ei r o e ca rpi nteir o, óti mos a gri cul tor es, exer cen d o in fl uê ncia s ob re es cravos d e di versas pr oced ênci as. 28 No p eríodo em que Besouro viveu , preva leciam “ra nço s” muitofortes do regime mo nárqu ico no país, e a ab olição era ainda uma s ituação aser ac eita por muitos ex-do nos de escravos. Segundo o historiad or baianoWalter Fra ga F ilho, “ nos últ imos anos do século XIX, o Recôncavo era aregião econo micame nt e mais imp ortante da pro vínc ia. Era também a maisdensame nt e povoad a e a que concentra va maior número de escravos”. 29 E paraAntô nio Risér io a sociedade que s e formou na “cid ade da Bahia” e s euRecô nca vo esteve marcada po r um processo contí nu o de mest iça gem, apesarde to das as desigu aldades entre os gru pos que a co nstitu íram. 30 Co m essa composição pop ulacio nal s ingularizando o RecôncavoBaiano e a cidade do Salvador no s primeiros a nos da Repú blica, as e lite sloca is vão fazer uso do s capo eirista s. De acordo com Ris ério, “a c lass edirigente baia na se opôs, até quando is so foi possível, à mu danç a de regimepolít ico ”, e a Ba hia foi a ú lt ima província do império a ad er ir à Repúb lica.Ris ério destaca que a elite b aiana, p or seu conservadorismo, de “fund as econtorcidas raízes”, via no no vo regime o sinô nimo da anarquia e, tanto aelite po lítica quanto o empresariad o agromerca nt il, cons idera vam que, com aalt eração do r egime, só ter iam a perder o poder adqu irido du rante anos dedomínio senhorial. 31 As sim, com a Prime ira Repúb lica, surge a figura d o coronel, que va iatuar co mo “escudo” das forças política s vigent es, cabe ndo -lhe, po r mu itasvezes, escolher o s líderes loca is ou formar novas parcerias, pois aso brevivê nc ia do sistem a político d ependia do contínuo e da manipu lação dopod er pela s o ligarquias trad iciona is. Para o histo riador coreano Eul Soo Pang, a Bahia, “devido ao seutamanho fí sico e demográfico e sua imp o rtâ ncia eco nômic a, era o ma ior e28 Id. Ibid., p. 45- 48.29 FILHO, Walter Fraga. Encruzilhadas da liberdade: histórias de escravos libertos na Bahia (1870-1910).Campinas/SP. UNICAMP, 2006. p. 34.30 RISÉRIO, Antonio. Uma história da cidade da Bahia. 2 ed. Versal, 2004. p. 103. Segundo, Josivaldo Pires deOliveira, Salvador, “capital da Bahia”, é, historicamente, conhecida como uma cidade de muitos nomes. “Cidadeda Bahia”, “São Salvador”, “Cidade do Salvador” ou “Bahia de Todos os Santos”, principalmente quando setrata da cidade da primeira metade do século XX.31 RISÉRIO, Antonio. op. cit., p. 404-405.
  26. 26. 24mais poderoso estado do Nordeste do Bras il e os seu s coronéis c hegaram aparticip ar d e campanhas m ilitares ao lado de determinados grupos polít icosestadu ais e nacio na is. 32 Ainda com Eul Soo Pang, o co ro nelismo tem comobase p atriarca l, soc ial e eco nô mica os e nge nhos de açúcar do século XVI, e asu a principal fu nção era a hábil u tiliz ação do pod er privado acumulado pelopatriarca de um clã ou uma famí lia ma is ext ens a. 33 J osivaldo Oliveira e ntendeo coronelismo como “fruto de situ ações históric as e specífica s em u maso cied ade, inclus ive em soc iedades urbanas, a exe mplo de Salvador naPrimeira República”. 34 Dest aque-se qu e o pod er senhor ia l d o int erior do Brasil a ind ama nteve a sua força até a s egunda met ade do século XX, como afirm amVilaça e Albu querqu e, “tendo, portanto, sobrevivido por mais de meio séculoa seus precursores, o s coronéis do açúcar”. 35 Nes se co ntexto, muitoscapoeiras, assim tamb ém conhec idos, ho mens fortes e destemidos, aptos atodo tipo d e ser viço, vão trabalhar co mo “capa nga s” ou homens de co nfiançados coronéis – uma espécie d e s eus protetores particulares e de suas terras – evão ter os coronéis como seus protetores. Segu ndo Muniz Sodré, “desde pouco antes da Abolição e durante aPrimeira República”, os cap o ei ristas p ass ar am a s er usad os, s ob r et u do no Rio d e Ja neiro co mo ca pa ngas (às vez es contr a os p róp rios n eg r os, o u con tra os rep ubli can os ) p o r p olíti cos e p ess oas d e i nfl uê nci a. Nã o s en do ess e o cas o, o cap oeirista er a fr eq ü ent em ent e32 PANG, Eul-Soo. Coronelismo e oligarquias. 1899-1934. A Bahia na Primeira República Brasileira. Trad.Vera Teixeira Soares. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p. 9. No período em que viveu BesouroMangangá, a divisão geopolítica do Brasil estava demarcada por duas regiões: Norte e Sul. O “termo nordeste éusado inicialmente para designar a área de atuação da Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas (IFOCS),criado em 1919. Neste discurso institucional, o Nordeste surge como a parte do Norte sujeita às estiagens e, poressa razão merecedora de especial atenção do poder público federal. [...] Em 1920, a separação Norte e Nordesteainda está se processando; só neste momento começa a surgir nos discursos a separação entre a área amazônica ea área ‘ocidental’ do norte, provocada principalmente pela preocupação com a migração de ‘nordestinos’ para aextração de borracha e o perigo que isto acarreta para o suprimento de trabalhadores para as lavouras tradicionaisdo Nordeste”. ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz de. A invenção do Nordeste e outras artes. 2 ed.Recife: FJN, Ed. Massangana; São Paulo: Cortez, 2001. p. 68-69.33 PANG, Eul-Soo. Coronelismo e oligarquias. 1899-1934. A Bahia na Primeira República Brasileira. Trad.Vera Teixeira Soares. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p. 9.34 OLIVEIRA, Josivaldo Pires. No tempo dos valentes: os capoeiras na cidade da Bahia. Salvador: Quarteto,2005. p. 90.35 VILAÇA, Marcos Vinicius; ALBURQUEQUE, Roberto Cavalcante de. Coronel, coronéis. Apogeu e declíniodo Coronelismo no Nordeste. 4. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003. p. 23.
  27. 27. 25 ap o nta do co mo a ut o r d e t r op eli as e des or den s, sus cit a ndo mai s u ma vez medi das l egislati vas esp ecí fi cas. 36 Aind a co m Sodré, “a crônica da cap oeira até qu ase o fim d o Impérioreve la d ispo sições permanente s de re sist ênc ia marc ia l aos dispositivosrepress ivos d e ordem escra vagist a”. As sim, no final do século XIX, o jogo dacapoeira começa a so frer forte repress ão socia l e polic ia l, tanto na capit al daRepúb lica, o Rio de Janeiro, qu anto na Bahia e seu Recô nca vo, decorrente dainsurgênc ia dos negro s ao sistema polític o vigente. Nos primei ros anos pós-monárquicos e d e Repúb lica Velha (1889 -1930), a capo eira vem a se rconsiderada crime, com o Código Pena l de 1890. De acordo com M anuel Querino, no Rio de J ane iro “o cap oeiraconst ituía u m elemento perigoso, torna ndo -se ne cess ário que o gover no , p elaportaria de 3 1 de outubro d e 1821, estabele ce ss e cast igo s corpo rais eprovidê nc ias ou tras, relat ivas ao caso” . 37 Os t ipos, então d escr itos nasnarrat ivas, podem bem representar caricaturas do siste ma soc ial daépo ca.Desse mo do, domina nt es e dominad os lideravam um conflito freqüente.Afirma Edil Co sta : P rati cada p el os a fr o-br asil eir os como um j ogo, u ma for ma d e di verti ment o q ue dis farç ava uma luta p eri g os a, a cap o ei r a p ar ece nã o t er d ei xa do de s er p rati cad a em mo men t o al g um d e su a história, ap esar da r ep r ess ão p oli ci al viol ent a q u e s ofr eu . Ao cont rári o, ga nh ou forç a enq u ant o sin al d e r esistência e d e d es cob ert a da negrit ud e. E m u m mo m en t o segu i nt e, fi r mou - s e como l uta e, mes mo p rati cad a ent re os negr os, nã o hav en d o comb at e dir et o entr e o opri mi do so cia l me nt e e o s eu op ressor, o comb at e simbó li co esta va estab el eci do : jo gar cap o ei r a sig ni fi ca va a fi r mar-s e co mo negr o, her deir o da tr a diç ã o a fri ca na e faz er fr en t e e r esistê ncia a os valor es so ciais d o b ran co. 38 A repressão ao jo go da capoeira não s e estendia à s e lites, quefaziam uso da fo rça e da valent ia dos cap oeirista s. Se gundo Almir das Areia s,o Código Pena l de 1890 confere à capoeir agem um tratamento esp ecífico:36 SODRÉ, Muniz. A verdade seduzida; por um conceito de cultura no Brasil. 3ª ed. DPA editora. Rio de Janeiro,2005. p. 155.37 QUERINO, Manuel. A Bahia de outrora. Salvador. Progresso, 1955. p. 80.38 COSTA, Edil Silva. Comunicação sem reservas. Ensaios de malandragem e preguiça. 2005 (236 p) Tese(Doutorado em Comunicação e Semiótica) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo 2005.p.88.
  28. 28. 26 – F az er nas r uas e p ra ças p ú bli cas exer cí ci os d e agili dad e e d estr eza cor p oral con heci d os p ela d eno mi nação cap oeira gem; s erá o autu ad o p uni d o com dois mes es d e p ris ã o. – É co nsi der ada ci rcun stâ nci a a gra vant e p ert encer o cap oei ra a algu ma ba nd a o u malt a. – Aos ch ef es e cab eças se i mp or á a p en a em d ob ro. – No cas o d e r ei n ci dê ncia s erá apli cad a ao cap oeir a, no gr a u má xi mo, a p ena do arti go 400 . – Se for estran geir o, s erá dep orta do d ep ois de cu mp rir p en a. – Se n ess es exercí cios de cap oeir a gem p erp etra r ho mi cí di o, p rati car al guma l es ão co rp oral, ultr aja r o p oder pú bli co e p arti cul ar, e p ert urba r a or d em, a tra nqü ilida de o u a segu ra nç a p úb li ca ou for enco ntr a do co m ar mas, incorr er á cumul ati va ment e nas p en as comi nadas p ara t ais cri mes. 39 Tal código é destituído em 1937, na Rep ública No va, com o entãopresidente Getúlio Var gas, e a capo eira t orna-se um esporte, inst itucionaliza -se, como um modo de contro lar a at uação dos cap oeirista s, atra vés daorganização de academ ias para o seu ens ino. 40 De acordo com Walde loirRego, a cap o ei ra foi i nv en tad a co m a fi nalida de de di verti ment o, ma s n a r eali dade funci onav a co mo faca de dois gu mes. Ao lado d o n or mal e do q uoti di an o, qu e era di vertir, er a lut a ta mbém n o mo ment o op o rtuno. N ão h avia Acad emi as d e Cap o eir a, ne m a mbi ent e fecha do, pr emedita da ment e p ara jog ar ca p o eir a. Anti gament e h avia cap o ei ra, ond e ha vi a uma quitan da o u um a v en da d e ca ch aça, com u m l ar go b em em fr ent e, p r opí ci o a o jo go. Aí, aos domi ng os, feri a dos e dias s ant os, ou ap ós o trabal ho s e r euni a m os cap oeiras mais famo sos a ta garelar em, b eb er em e j ogar em cap oei ra. 41 Co m a ass inatura d a Lei Áu rea, mu itos n e gros libertos cont inuarama trabalhar em tro ca de salários ou arrenda ndo terras dos seus ex-senhores,se gundo Walt er Fraga Filho : É p r eciso lembr ar q u e a pop ul açã o q u e emer gi u da es cr a vi dã o era b asta nt e di fer encia da i nt er na ment e. A p oss e d e al gun s b ens, o dir eit o d e acess o à t er ra, o do mí ni o de u ma pr ofissã o esp eci aliza da, a p osi ção de feit or d e ser vi ço, estab el ecera m39 AREIAS, Almir das. O que é capoeira. 3 ed. Rio de Janeiro: Brasiliense, 1983. p. 43. Em A verdade seduzida,Muniz Sodré, em nota de rodapé, afirma o seguinte: “O Código Penal de 1890 previa desterro e castigoscorporais para quem praticasse a capoeira. Exemplos célebres de desterro: Manduca da Praia, Juca Reis,mandados para a Ilha de Fernando de Noronha, durante o primeiro governo republicano; de castigos corporais:as chicotadas aplicadas pelo famoso Major Vidigal, chefe de polícia do Rio de Janeiro, no início do século XIXCf. SODRÉ, Muniz. Op. cit.; p. 155.40 OLIVEIRA, Josivaldo. op. cit., p. 31.41 RÊGO, Waldeloir. Capoeira Angola: ensaio sócio-etnográfico. Salvador: Itapoã, 1968, p. 35-36.
  29. 29. 27 algu ma s di fer en ças dentr o do conti n gent e escravo, d efi nir a m es col has e po der d e b ar ga nh a fr ent e aos ex -s enh or es. 42 Antes e scra vos, agora o s negros passam a const itu ir u m exp ress ivose gme nto de exc luídos, deixados à própria sorte. Como a grande maio ria nãoteve a ce sso à cultu ra letrada, restava - lhes fazer parte do gra nde cont inge nt ede-mão-de obra barata e desqualific ada que povo ava as c idad es do Recônc avoBaiano e do Brasil. Para a historiadora Adria na D ias, mu itos negros “eramtrabalhado res braçais, como carregadores, estivado res, engraxates, cap anga s,polic iais”, 43 e a rua era o p rincipa l ce nário de co nflito s constantes, p oismuito s trab alha vam esporad icam ente, e lu gar do jo go da capoeira. Ne ssecontexto, negros e “me st iços” são c las sificados de “vadios”, “ vale ntões,”“deso rd eiros” ou ainda pobres “vicio sos ”. 44 Aind a s egu ndo Adriana D ias, [...] n o fi nal do sécul o XIX, muit os vi vi am de o cup aç õ es esp or á di cas t end o um rit mo de vi da b asta nt e ir r eg ul ar, o q u e lh es pr op o r ci o nava fr eqü ent es p erí od os d e oci osi da d e ent r emead os p or mo m en tos d e div ersão q uas e s empr e a compan ha dos de mu itos ‘ gol es de cachaça’ e, lógi co, muit a s b rigas e pr o vocaçõ es. 45 As sim, como afirma Walt er Fraga, justamente por suas hab ilidadesou p ro fiss ão esp ecia lizad a, os negros do pós -abolição u sam seu poder debarga nha junto à s e lites, e os capoeiristas t amb ém vêm a ne goc iar sua shab ilidades, ao serem usado s como capangas p or “polít icos e pes so as deinfluência”, como também analisa Muniz Sodré. A capoeira, misto de arte e lu ta, compõe o repertório cultural donegro , u ma estraté gia cr iada em sua d efesa e est ab elec ime nto de poder entr eoutros negro s. No Rio d e J ane iro , após a abolição, um enorme cont ingent e deex-escra vos também va gueava p elas ru as, “resid indo nos morros e na s42 FILHO, Walter Fraga. Op. cit., p. 232.43 DIAS, Adriana Albert. Mandinga, manha & malícia; uma história sobre os capoeiras na capital da Bahia(1910-1925). Salvador: EDUFBA, 2006. p. 70.44 Ibid., p. 26.45 Ibid., p. 17
  30. 30. 28periferias, circu la ndo normalmente nos locais de ma ior movim ento d a cidade[...], mal co ns eguia m um trabalho qu e lhe s garant isse a sobrevivênc ia”. 46 Entregues à próp ria sorte, por co nta de um passado que nãoesco lheram, e nvolviam-s e em as sa ltos, cr imes e emboscadas. Por is so,vad iavam pe la cidade – “dividind o -se e o rganizando -se em grup os, os ne groscaminhavam cada vez mais para a mar ginalidade. Surgem as famo sa s ma lta sde capoeira”. 47 Em relação a es sas malta s, Edson Carneiro afirma o segu inte: As maltas d a Bahi a fo ra m d es or ganiza das po r ocasião da g uer ra do Par a guai: o g ov er no da p r ovín ci a r ecr ut ou à força o s cap oeir as, q u e fez segu ir pa ra o S ul co mo “v o l u nt ári os d a P átria”. Ma nu el Q ueri no co nt a q ue mu it os de les s e disti n guia m p or at os de br av ur a no ca mp o de bat al ha. 48 Ao reconst ituir um p ercurso histó rico da capoeira gem, Líb anoSoares destaca que, antes d e s er ‘ des cob ert a’ p el os hist ori ador es, há p oucas dé ca das, a cap oeir a já ti nha vi vi d o su as a vent uras nas p ági nas d a literat u ra, d os cr o nist as, dos me mo ri ali stas do p assa d o i mp erial d o Rio d e Jan eir o. E ant es mes mo d est es – e d e for m a mu it o mais fr eqü ent e -, nu m p assa do remot o, a cap o ei ra só er a test emun had a p el os es cri vã es d e P olí cia. 49 Aluís io d e Aze ved o, em O co rtiço , (1890) e M anoel A ntônio deAlm eida, em Memórias de um sargento d e milícias, (1854 ) registram na spáginas d esses ro mance s episódios envo lvend o p erso nagens capo eir ist as, osquais co ntr ibuem para ente nder a dinâmic a socia l do Rio de Janeiro, no séculoXIX, p eríodo qu e marca a passagem da o rd em imp erial para a o rd emrepub licana. Co nt inua Líbano Soares: [...] junt o co m ra mei ras, p r ostit utas, v agab u nd os, esti va dor es, mal andr os, b oêmi os, p oli ci ais, os cap o ei ras fa zia m p art e d a b uliç osa fau na das r uas da C ort e, q ue ass ustava as ca ma da s mé di as e tamb é m a elit e diri gent e. P ersegu idos p el o apa rat o46 Cf. AREIAS, op. cit., p. 2947 Id., p. 29.48 CARNEIRO, Edson. Capoeira. Rio de Janeiro: FUNARTE, 1977. 2 ed. Cadernos de Folclore. V. 1.49 SOARES, Carlos Eugênio Líbano. A capoeira escrava e outras tradições no Rio de Janeiro. (1808-1850). 2ed. Campinas, São Paulo: Unicamp, 2004. p. 35-36.
  31. 31. 29 p oli ci al os cap o ei ras fora m p res en ça fr eqü ente nas pá gi n as d o cri me do sécul o XIX. 50 Co nco mitante aos ep isódio s da Corte Imp erial no Rio de Janeiro,envolve ndo indivídu os desses s egmento s sociais, a Ba hia e s eu Recôncavotambém p ossuem os seu s “vadios”, “valentões”, “d esordeiros” ou ainda“pobres e vic iosos”. S egundo Jo siva ldo Olive ira, na cidade de Sal vad or dasprimeiras décadas repu blica nas a capo eiragem ass im era vista : Co nfi gu r ou-s e de forma apr oxi ma da a o Par á r ep ub li ca no. O s cap oeir as eram ass oci ad os à v agab und ag em e a outr os tip o s so ci ais do uni v ers o das ru as, a exe mp l o do cap an ga p olíti co e d o sol da do de p olí ci a, mas t a mb ém a o trab al ha do r na s p rincipais ocup aç õ es das camad as p op ula r es: p ed r ei r o, carr ega dor, car r oceiro, maríti mo, p ei xeir o, et c. 51 Para Muniz Sodré, a cap oeira imp licava, como toda estraté giacultu ral dos negro s no Bra sil, um jogo d e res istê ncia e acomodação . L ut a co m ap ar ên ci a d e dan ça, danç a qu e apa r ent a combat e, fa ntasi a d e l uta, va di açã o, ma ndi n ga, a capo eira s ob revi v eu p or ser u m jog o cu ltural. Um j ogo d e destr eza e ma lí cia e m q ue s e fi ng e l ut ar, e fi ng e-s e t ã o b em q u e o co n cei t o d e v er d ade da l uta se diss ol ve aos ol hos d o esp ect ad or e – ai del e – do ad vers ári o desa visa do. 52 Sodré traz uma descrição p rimorosa dessa arte : V adia çã o e brin cad eira sã o outr os n omes com q ue os n eg ro s d esi gnav am n a Ba hia o j og o d a cap oeir a. Capo eir a s e l uta, jo ga, bri nca, é al g o q ue s e faz en tre ami gos o u co mp an heiros. Co mo ? Pri m ei r o, for ma -se uma r oda co mp ost a p or um ou mai s to ca do res de b eri mba u (a rco r et esad o p or um fi o de aço, p er cuti do p o r uma vareta e a o q ual s e p r en de uma cabaç a cap az de fun ci o na r como cai xa de r ess onâ ncia), p an deir os, ca xi xis o u r eco -r eco s. E m segu ida, dois h omen s en tra m n o cí r cul o, abaix an do-s e n a fr ent e d os mú sicos, ao so m do s instru ment os e de ca nçõ es (c hu las) esp ecí fi cas. 5350 SOARES, Carlos Eugênio Líbano. A negregada instituição. Os capoeiras na Corte Imperial 1850-1890. Riode Janeiro: Access, 1999. p. 3. Segundo o autor, os feitos dos capoeiras no Rio de Janeiro – capital da República– Bahia e seu Recôncavo vinham desde o período monárquico, o que validava a sua coibição. Por conta disso, oCódigo Penal de 1890 passa a ser o principal recurso de punição para esse tipo de luta.51 OLIVEIRA, Josivaldo. op. cit.; p. 33.52 SODRÉ, Muniz. Capoeira, um jogo de corpo. op. cit.; p. 155. Grifos do autor.53 Id. p. 153. Grifos do autor.
  32. 32. 30 E nt ão, mo biliza m-s e t ot al men t e os corp os d os j o ga dor es. Mãos, p és, joel ho s, b ra ços, cal ca nhar es, cot ov el os, dedos, cab eç as combi na m-s e di na mi cament e em esq ui v as e g olp es, d e n omes va riad os: aú, rast eir a, meia -lua, m eia -lua de co mpass o, ma rt el o, r ab o- de- ar raia, b enç ão, chap a- de-p é, chib ata, t eso ur a e muit os outr os. 54 Em sua cartogra fia d a cap oeiragem baiana, J os ivaldo Oliveir amapeia os princ ipais loca is de conflitos dos capoeiristas, ruas, logradouros, ea mo radia de muitos dos indivíduo s ident ific ado s co mo capoeiras. 55 As e lite sso teropolita nas cons ider a vam esses locais espaços suscet íveis àcrimina lidad e. O “cotid ia no da ru a na Cidade d o Salva dor, inclu sive nas obscu rase embriagadas noit es, urgia atenção especial por parte das autoridades e osedito ria is dos principa is jorna is da época cob ravam das auto ridades polic iaismelhor seguranç a e ordenação pú blica ”. 56 Co ntudo, a despeito da forterepressão, os capo eir ist as ma nt iver am clandest inam ente o jogo, pratica ndo -onos quint a is, na s praias, nos terre iro s e nos arredores da cidad e, ao tempo emque transm it iam seus e ns inamento s à s ger açõ es fu turas. 57 A ginga e ma lícia d a capoeira estavam nas ruas, fert ilizando aima ginação de segm ento s so ciais e lit izad os, amedrontados com as possíveisagressões, endossa ndo a má xima de q ue o capoeir ista é “ ma la ndro”, umdetentor de artimanhas, aprimo radas a cada luta e, princ ipalm ente, na roda dacapoeira. Nesse cont exto histórico, co meça a sa ga d e Besouro Manga ngá, cujafama alcançada é ass im compreend id a po r Pedro Abib: No i ma gi n ári o d a cap oeira gem e d os cap oei ras nã o exi s t e fi g ura mais r ep r esent ati va d o q u e B es ou r o Ma nga ng á. [...] na me mó ria dos mais a nti gos morad or es do R ecô n ca vo, a fi g ur a d e B eso ur o, viv e e pr ot a goniza um s em- nú mer o de histó rias e “caus os” en vo lv en do su as p eripé cias e astú cias no enfr entam ent o co m a p ol í cia, s ua valentia ao bri ga r e b at er e m v ári os op on ent es a o mes mo t emp o [...]. 5854 Id. p. 153-154.55 Id. p. 41. O autor destaca a importância das crônicas e da literatura urbana para os estudos africanistas e aetnografia, vigorando até os anos 1930, por contribuírem com a reconstituição do cotidiano dos capoeirasbaianos que viveram em Salvador nas primeiras décadas do século XX. Cf. OLIVEIRA, Josivaldo. p. 39-40.56 Id. p. 45.57 Cf. AREIAS, p. 61.58 ABIB, Pedro. Capoeira Angola: cultura popular e o jogo dos saberes na roda. Campinas, SP. Unicamp/CMU; Salvador: EDUFBA, 2005. p. 160.
  33. 33. 31 Ao sair de ca sa com 13 anos de idade, Besouro vai para a sede dodistrito em qu e mo rava, S anto Amaro da Pu rificação, vindo a res idir no ba irrodo Trapiche d e Baixo , zona su burbana da cidade qu e passa a s er a sua escola.Ap rende a jo gar capoeira com o “tio Alí pio” e trab alha em diversos o fíc ios :vaq ueiro, amansador de burros, sa ve irista, num temp o de conflito entr e“maltas”, disputas a nava lha, capa ngas ele itorais e repres são do Estadorepub licano ao jogo da capoeira. É nesse período conturbado do país, em espec ial a Ba hia e o seuRecô nca vo, cu ja at ividade econômica, em seus mo dos e relação de produção,não abriu mão da fo rça de trabalho dos negros, m esmo com a aboliç ão daescravatura, q ue passam a comp or predominanteme nte os segmentos p opularesque Besouro ganha evidê ncia com seus feitos que d esafiam a ordem vigent e. Naquele universo da capoeiragem baia na, muitos cap oeirista s s etornaram notáveis. Contu do, Besouro Cord ão de Ouro lid era o período, commaestria, sí ncopa, qu alificad a por Muniz Sodré co mo um esp aço a serpreenchido com o corpo 59 e, nesse ca so, o corpo do negro : em mo vimentosrítmicos, envolvido pela música e a ginga da cap oeir a, qu ase um b ailado quehip no tiza o adversár io. Edson Car ne iro o destaca : o “ma is famoso d oscapoeiras na cionais era natura l de Santo Amaro, na zo na cana vieira, e tinha oapelido de Besouro Ve nenoso. Era inve ncí vel e inigualá vel. Ainda agora a schu las de capo eira cantam as suas proezas lendár ias”. 60 Beso uro Mangangá ens inou a outros o que aprendeu com o seuvelho mestre, a inda garoto . Nesse ap re ndizado começa a co nhecer o corpocomo eleme nto agre gad or para fortalecer a arte da então “capoeira escr ava”, 61um instrume nto para defes a e ataq ue, uma das e straté gias dos escravos para59 SODRÉ, Muniz, Samba, o dono do corpo. 2 ed. Rio de Janeiro: Mauad, 1998. p. 11. De acordo com WalniceNogueira Galvão, a síncopa é “uma espécie de padrão rítmico em que um som é articulado na parte fraca dotempo ou compasso, prolongando-se pela parte forte seguinte”. “Um corpo sincopado valoriza mais intensa eexpressivamente o tempo fraco da música. E isso se reflete de diversas maneiras. Porque rompendo com ahegemonia do tempo forte, esse corpo se fraseia de um outro jeito: é como se ele tomasse a liberdade de brincarse expressando. Conectado com o espírito da música esse corpo tanto ginga por dentro como por fora; saracoteia,deixa-se tomar por trejeitos, por negaças, remelexos, balanços, meneios, volteios, suíngues...”. A síncopa “setraduz no corpo e o corpo traduziria o ritmo caso ele fosse dessincompado. É como se no tempo fraco o corpopudesse exprimir certas sutilezas para as quais o tempo forte não dispõe de duração suficiente. Pois o tempo fortenos prende ao chão enquanto o fraco nos liberta dele: o tempo forte é peso, o tempo fraco é leveza”. Cf.GALVÃO, Walnice Nogueira. Grandeza e encanto de Naturalmente, de Antônio Nóbrega. Disponível emhttp://www.conectedance.com.br/matéria.php?id=960 CARNEIRO, Edson. op. cit., loc., cit.61 Denominação usada por Carlos Líbano Soares para a capoeira jogada no século XIX. In: A capoeira escrava eoutras tradições rebeldes no Rio de Janeiro (1808-1850). Campinas, SP: Ed. UNICAMP, 2004.
  34. 34. 32lidar com a brutalidad e do poder escra vista. Segund o Almir das Areias, “acapoeira surge no Brasil como arma, em função da necessidade d o escravo dese defender dos maltratos e cast igo s dos seu s opressores e, ao mesmo tempo,como folgu edo, p ara express ão e manife st ação dos seus se nt ime ntos”. 62 As sim, a cap oeira era u ma prática ne ce ss ária a um segm ento dapop ulação afro -b aiana, cada vez mais oprimid a e marginalizada. “À sesco ndidas, os capo eiras, nos qu int ais, nas pra ias, no s terreiros e no sarredores da c id ade, exerc ita va m a s ua prática e tra nsmit iam os seusens inamentos à s geraçõe s futuras”. 63 Nes sa p rática, tem-se u m jogo de corpoque marca um movimento d e res ist ência, o scila ndo entre a re volt a e o emb atedireto às forças da ordem.Besouro Cordão de Ouro, um heró i d a cultura afro -brasileira Onç a pr et a foi l á e m cas a/ t u m t u m t u m bat eu na port a/ M e ch a mou pr a con ver sar/ Te m u m n eg o q ue é u m t ou r o/ Vi aj an d o p ara cá/ Us a c ord ão d e ou r o/ Cal ça ch ap éu e ab adar/ U sa bri n c o e p at uá/ On ça pret a foi l á em cas a/ Zu m zu m zu m boat o c orr e/ É B es our o Man g an gá 64 Zu m, zu m, zu m, Besou ro M an gan g á Bat en d o n os s ol d ad os d a p ol í ci a mi l i t ar Zu m, zu m, zu m, Besou ro M an gan g á Que m n ão pode c o m mand i n ga n ã o carr e ga pat u á 65. Quem é o herói Beso uro? Que narrat iva protagoniz a? Em su atrajetória, não abraço u uma nob re mis são, como os heróis das ep opéia scláss icas: r epresentar grand iosame nte a s ua p átria ou nação ou a humanidade.Besouro va i compor a galer ia de ou tra tradição, a do heró i popu lar, erguid o nacontramão do s valo res de uma cultura hegemô nica. Por ess e ent e ndimento,são tidos co mo ant i- heróis, marginais ou pic aresco s. No Ocid ente, as narrat ivas so bre os feitos e xtraordinár ios d osheróis começam na Gré cia, a s q uais re gistram histórias d e personagens que62 AREIAS, Almir. O que é capoeira. 1 ed. Brasiliense, São Paulo: 1983, p. 2263 Id. p.60-61.64 Cantiga de capoeira identificada por Areias, de autoria de Dado. In. O que é capoeira. p. 55.65 Cantiga de domínio público.
  35. 35. 33enfrentaram s ituações d es afiado ras de sua condição humana. O herói des sa snarrat ivas é jovem, corajoso e destemido, que vive ncia incríveis façanha s.As s im os heró is são figuras imorta lizad as como sem ideuses, p ersona gens denarrat ivas mít icas p ovoando o ima giná rio do s ind ivíd uos em diferente scultu ras. De acordo com Massaud Mo isé s, até o século XVIII, [...] grosso mod o a épi ca cara ct eri zo u- se p or u m t o m maj est os o e mes mo r eli gi os o, e p or cont er as s ub li me s faça nh as du m h erói q ue si mb oli za va as gr a ndezas de sua p át ri a e mes mo d e t o da a Hu ma ni dad e: n um mu nd o estrati fi ca do, h avia l u gar cert o p ara o herói. C om o ad vent o d o R omantis m o e a cons eqü ent e d err ub ad a das car comi das e tra di ci onai s estrut ur as, des ap ar ece o h erói e nas ce o não - heró i o u o anti - h eró i, pois no mund o n ov o d ei x ou de haver esp aç o p ara a s con cepçõ es míti cas segu ndo o a nti g o fi gu ri n o. 66 O herói das narrat ivas ocide ntais é uma espéc ie de su per -homem,um semi-deus, daí a amb igüidade, o que mantém sua co nd ição hu mana. Na sepopéias gregas, o herói ap rese nta uma fac eta bélica, protagonizando u mahistória de conflitos, qu e tem o seguinte e nredo : “a prep aração (aprese ntaçãodo herói e descrição das armas); o comb ate (peripécias, espect ado res,proezas); o dese nlac e vito rio so (despojos, injúria aos cadáveres inimigos,jogos fúnebres)”. 67 Beso uro, herói de extr ação popular, é protagonista da epop éiadolorosa dos negros no Bras il, tornando -se um p erso nagem d a história que va ialime ntar, aind a hoje, mu itas narrativ as sobre suas aventuras. O capoeirist arasura a noção de herói como a elaborada por uma conceituação tradicio nal dogênero épico, vindo simbo lizar a rebeldia dos negros, como resposta aosist ema escra vocrat a no país. O e nfre nt amento dos negros es cra vizados ao s istema d omina nt esempre foi vigiad o, controlad o, objeto de punições se vera s, se ja atravé s decód igos criados pelos se nhores escravist as, seja atravé s de leis elaboradaspelo campo ju rídico, qu e inc lusive dá respaldo àqueles có digos. Em seuestudo acer ca do papel dos negros na desagre gação da ordem escravist a no66 MASSAUD, Moisés. A criação literária. 4 ed. São Paulo: Melhoramentos, 1971, p. 70.67 Cf. E-Dicionário de Termos Literários. http://www2.fcsh.unl.pt/edtl//verbetes/H/heroi.htm. Acesso em01/05/2010.
  36. 36. 34Brasil, a historiado ra Lane La ge Lima ana lisa a aliança entre a campanhaabo licio nist a e a rebeldia negra. 68 Para a auto ra, a insurreição “const itui a respo sta do escra vo àviolê ncia d o s istema de dominação imposto p elo branco. Vio lênc ia traduzidapor precárias co ndições d e subsistênc ia, aliadas à co mpulsão a um trab alhoexte nua nte e a lie nador, através de me ca nismos de coerção particularme nt eviole ntos e legitim ado s, legal e ideolo gica mente, na consc iênc ia do senhor”. 69 A autora co nstat a os limites d essa reb eldia, co mo suaspossib ilid ades. Limitad a, porque “não se abrem p ara o escr avo perspectiva sde atuação política dentro d o sistema, que condena o ne gro rebelde àmarginalidade e à vio lê ncia sem e xpressão so cial”, como se apresentam“dificuldad es mater iais de mobilizaçã o de uma classe co nst anteme nt evigiada” e, sobretudo, “imp ossib ilidade de o escravo at ingir u maconsc ient ização mais ampla de s i me smo e do sistem a qu e o oprime”. 70 P or ém, d ois fat or es vão p ossib ilitar a o negr o ultr ap ass ar o s li mit es d essa r eb el dia fech ad a em si m es ma. E m p ri meir o lu gar, a pr eser va çã o da r eli gi ão e cult ura a fr ica nas; n a med i da em q u e nã o só a gl utin am e or gani za m os n eg ros p el a r epr od uç ão d e hi er arq ui as tr a nspla nt a das da Á fri ca, mas, p rincipalm ent e, p er mit em-l hes a ut ocon ceb erem-se com o p ess oas, dotad as d e i ndi vi duali da de p róp ria , fora d o sist em a es cr a vista, q u e p assa a s er vist o, d e for ma glob aliza nt e, com o u m todo cu lt ur al q ue l he é h ostil. E , em s egun do l u gar, o apr ov eita ment o das co nt urb açõ e s so ci ais s ur gi das nos mom en t os d e crise do s istema, q uan do o s n eg r os ca naliza m s ua r ev olta p ara os mo vi ment o s r evol ucio ná ri os qu e agitam esses p erí odos, co mo for ma,68 LIMA, Lana Lage da Gama. Rebeldia negra & abolicionismo. Rio de Janeiro: s/d. A pesquisadora elenca osmovimentos de insurreição no país, principalmente os ocorridos no século XIX, momento em que o sistemaescravocrata apresenta sinais de crise, isto é, quando o trabalho escravo inviabiliza a expansão do capitalismo. Aautora destaca a rebeldia do negro em movimentos de cunho político, como a Conspiração dos Alfaiates, naBahia, em 1798, a Cabanagem, no Pará, a Balaiada, no Maranhão, a Guerra dos Farrapos, no Rio Grande do Sul,a Sabinada, na Bahia, no século XIX, e de cunho religioso, como as insurreições dos Malês, na Bahia, tambémno século XIX.69 Idem, p. 153.70 Id. p. 154. Segundo a autora, esses limites, “por sua vez, são determinados pela estrutura de produçãobrasileira, que, ao integrar a produção para mercado à de subsistência, alia num só núcleo o lar e a empresa,permeando com relações pessoais as relações de produção”. De acordo com Lana Lima, nas relações pessoais,senhor e escravo, de base patriarcal, no âmbito da esfera privada, o negro se percebe em sua condição humana,enquanto pelas relações econômicas, patrão e empregado, é colocado como instrumento de produção, portanto,coisificado, o que conduz o escravo a “auto-representar-se como não pessoa, destituído de vontade própria, postoque submetido ao arbítrio do senhor”. Isso limita “no escravo a capacidade de identificar o sentido real dasrelações de produção do sistema escravista, percebido apenas do ângulo particular, vivenciado no cotidiano dafazenda. Assim, a atuação divergente do negro restringe-se à revolta parcial e imediatista contra as situações deopressão que povoam o seu dia-a-dia”. Cf. LIMA, loc. cit.
  37. 37. 35 con sci ent e o u não, de ampli ar s uas p ossibili da des de exp r essã o so ci al. 71 A preservação da religião e cu ltu ra africanas p ossib ilita ao s ne gro suma integra ção entre s i. A p rática d a religião do cando mblé, trazido ao Brasilpelo s sacerdotes afr icanos e scra vizados, as se gura a permanênc ia do idioma eda cultura dos negro s. No cand omblé, são cultuad os o s d euses – orixás,vod uns, inqu ices –, preservados em ritu ais sagr ad os, com vestim enta spróprias, danças, cânt icos, o ferend as, home nagens, int egrando -se à vidacotid iana, a d espeito da proib ição est abele cida p ela Igreja Cató lic a ougover nant es. 72 Para La na Lima, é no s éculo X IX que a ampliação daspossib ilid ades d e expres são so cial d os negros alcança seu limite má ximo, como movimento abo lic io nis ta, que “absorve, fu ncio nand o como age nt ecatalizador, u ma rebeldia sempre manife sta”, com a promessa de um mu ndodifer ente da marginalidade em que viviam. Mas, ao alia r-s e à r eb el dia negra, utilizand o- a para pr essi on ar e d es gastar o sist ema [ es cr a vocr ata], o ab oli cionismo i mpõ e -l h e s eus p róp ri os li mit es, enq ua nt o i deol o gia nas cid a de i nt eresse s esp ecí fi cos, q u e dep ois da a b oliçã o o negr o p er ceb e nã o coi n ci dir e m exat ament e com os seus. Tr ans fo r ma das as rel aç õ es d e pr od uç ão, nã o se modi fi ca o l ug ar ocup a do p el o negr o n o p ro cesso pr odu tivo, e desfeitas as ali a nç as, seu co mp orta me nt o di verg en t e vai s er n ova men te r elega do a mer a qu estão p olici al. 73 Nasc ido no contexto de pó s-abolição, tempo de alianças desfe itas,portanto, o capoeir ist a Besou ro const itui-se, e nquanto su jeito, num ambie nt equilombola, d e negros reb eldes à d ominação, preserva ndo a religião doca ndomblé, q ue se expande com a abolição da escravatura, b em como acultu ra africana. A inda menino, conhec e o mestre Alíp io, que lhe transmit e,na prática, os ens inam ento s da capo eira, uma arte, um fazer que se aprimorainco rporand o a religios idad e – de “religare”, ou seja, ligar de no vo –, deint egração ao mundo d e seu s a nce strais . Para tanto, cre nça s e va lores da71 Id. p. 154-155.72 Informações disponíveis em:http://www.turismoreligioso.org.br/system=news&action=read&id=88.73 Id. p. 155.

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