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RELENDO MACAHÉ                              Glossário:1. RELENDO MACAHÉ2. Contexto Histórico3. Literatura de Informação4. ...
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RELENDO MACAHÉ               2. Contexto Histórico        A Europa do século XVI convivia com aceleradas mudanças de cunho...
As invasões e a reação de Portugal para retomar o controle de sua posseprovocaram importantes mudanças na vida econômica e...
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Os estudos humanísticos e as grandes conquistas artísticas da épocaforam fomentadas e apoiadas economicamente por grandes ...
RELENDO MACAHÉ                  3. Literatura de Informação        Diversos viajantes europeus que estiveram no país duran...
Mas não se esgota aí a riqueza desses textos, em que também se podemencontrar valores estéticos, que os aproximam de texto...
cuidado com o estilo também está presente na já citada "História da Província deSanta Cruz", de Pero de Magalhães Gândavo,...
RELENDO MACAHÉ                         4. O Autor        Jean de Léry nasceu em Côte-dOr, França, no ano de 1536, falecend...
A França Antártica foi conquistada pelos portugueses em 1567. Em seulugar criaram a cidade de São Sebastião do Rio de Jane...
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RELENDO MACAHÉ                     6. Macaé no livro       As referências a Macaé surgem no capítulo V, páginas 63, 64, 65...
RELENDO MACAHÉ                                     CAPITULO V DO DESCOBRIMENTO E PRIMEIRA VISTA QUE TIVEMOS DA ÍNDIAOCIDEN...
RELENDO MACAHÉquer efetuar a troca. Em concordando, o convidado exibe por sua vez plumas,pedras verdes que coloca nos lábi...
RELENDO MACAHÉ       Também existem três pequenas ilhas chamadas ilhas de Macaé[15]junto das quais fundeamos e dormimos um...
RELENDO MACAHÉ7. Sugestões para o Ensino Fundamental         As referências a Macaé e ao Norte Fluminense na obra de Jean ...
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RELENDO MACAHÉfacilitam examinar a diversidade dos povos. Peça que cada aluno escreva porque registrou as informações, com...
RELENDO MACAHÉ                                 8. Descritores     Em Língua Portuguesa:a) Localizar informações explícitas...
RELENDO MACAHÉ9. BibliografiaLERY, Jean. Viagem à Terra do Brasil. São Paulo: Cia. Das Letras, 1999.SOUZA, Laura de Melo. ...
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Relendo Macahé em Viagem à Terra do Brasil 1

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Primeira parte do projeto Relendo Macahé da Coordenação de História da Secretaria Municipal de Educação de Macaé.
Análise da obra de Jean de Léry, que no século XVI descreveu sua passagem pelo litoral macaense.

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Relendo Macahé em Viagem à Terra do Brasil 1

  1. 1. RELENDO MACAHÉ Macaé na obraVIAGEM À TERRA DO BRASIL de Jean de Léry (1578) Coordenadoria de Ensino Coordenação de História Secretaria Municipal de Educação Prefeitura Municipal de Macaé 2011
  2. 2. RELENDO MACAHÉ Glossário:1. RELENDO MACAHÉ2. Contexto Histórico3. Literatura de Informação4. O Autor5. O Livro6. Macaé no livro7. Sugestões de Projetos para o Ensino Fundamental8. Descritores9. Bibliografia Capa do Livro Viagem à Terra do Brasil – Edição Francesa de 1778. O Livro sempre foi um grande sucesso, com centenas de edições em inúmeras línguas.
  3. 3. RELENDO MACAHÉ 1. RELENDO MACAHÉ Prestes a completar 200 anos de emancipação política e administrativa,o município de Macaé destaca-se como um dos mais promissores póloseconômicos do país, com taxas de crescimento populacional acima da médianacional. Por um lado trata-se de uma boa notícia, afinal de contas demonstraque o progresso oriundo da exploração petrolífera é uma realidade. Por outroesconde alguns dados alarmantes, como por exemplo a perda da identidadecultural, fato conseqüente da migração de milhares de brasileiros eestrangeiros e da falta de programas de valorização da Cultura e História deMacaé. Relendo Macahé foi idealizado pela Coordenadoria de Ensino daSecretaria Municipal de Educação, com o objetivo primordial de contribuir paraa divulgação e a valorização da História local. Trata-se da releitura de livros, almanaques e periódicos que ao longo de400 anos fizeram referências ao município de Macaé. Releitura acompanhadade uma análise das obras como um todo, da contextualização, do perfil dosautores, sempre buscando referências transdisciplinares e interdisciplinares,bem como sua inserção nos conteúdos abordados pelo Caderno de OrientaçãoCurricular. Como se percebe é um projeto voltado aos educadores da redemunicipal, mas, disponível e aberto a todos que se propõe a conhecer maisMacaé e divulgar sua História. Nossa primeira atividade é realmente a ‘primeira’, pois analisaremos aobra do primeiro autor que fez referências a Macaé, o francês Jean de Léry,pastor huguenote (protestante calvinista), que viveu uma temporada na FrançaAntártica no século XVI. Ao analisarmos o relato do calvinista Jean de Léry de sua viagem aoBrasil, não queremos discutir a veracidade dos fatos apresentados por ele. Nãotemos mais os fatos. Resta-nos apenas rastros. Ora, rastros são marcasdeixadas por alguém ou algo que já passou e não está mais lá. O que temos éinterpretação a partir da qual reconstruímos o mundo vivido. Objetivamosinserir o relato de Léry nesta discussão historiográfica sobre Macaé. Esperamos que apreciem esta e as demais etapas e que nos ajudem aperpetuar aquilo que Macaé tem de mais rico: sua História.
  4. 4. RELENDO MACAHÉ 2. Contexto Histórico A Europa do século XVI convivia com aceleradas mudanças de cunhopolítico, social, econômico e cultural. Eram os tempos da Expansão Marítima,que haviam revelado um “Novo Mundo” aos europeus. Eram os tempos dopensamento humanista, manifestado pelo Renascimento Cultural. Era a épocadas Monarquias Nacionais, do Absolutismo, da ascensão burguesa. Eram ostempos da contestação à autoridade da Igreja Católica, da Reforma Protestantee de seu oposto, a Contrarreforma Católica. Eram tempos de novidades, de se buscar e experimentar o “novo”,acreditar num Mundo diferente, inclusive quanto às mentalidades. O livro Viagem à Terra do Brasil de Jean de Léry exibe marcas dessasmudanças, ao apresentar o ponto de vista de um francês, protestante,narrando suas desventuras numa colônia portuguesa, situada nas Américas,habitada por índios e alvo não só das disputas territoriais, como religiosas,contrapondo missionários huguenotes e missionários jesuítas. 2.1 Reforma e Contrarreforma A unidade do cristianismo foi quebrada no século XVI quando razõesreligiosas, econômicas e políticas, provocaram o surgimento de diversasreligiões, como o Luteranismo, o Anglicanismo e o Calvinismo, denominadosgenericamente de Protestantes. Razões de cunho religioso, como a venda de relíquias sagradas, cargosreligiosos e indulgências, somadas às razões políticas, como as necessidadesadvindas da formação dos Estados Nacionais e a concentração do poder real,atreladas à questões econômicas, como a cobiça em relação as possessões eriquezas da Igreja Católica, foram as causas básicas. Esse processo de ruptura ou cisma religioso não foi pacífico, pelocontrário, foi assinalado por vários conflitos, que de forma geral contrapunhamCatólicos e Protestantes, como no caso da França. Outra conseqüência foi a Contrarreforma ou Reforma Católica,movimento de reação ao protestantismo e outras heresias, organizado peloConcílio de Trento. 2.2 A França Antártica Entre 1555 e 1624, o Brasil foi alvo de invasões estrangeiras promovidaspor franceses e holandeses que tentaram, em várias ocasiões, se estabelecerem partes do território colonial brasileiro.
  5. 5. As invasões e a reação de Portugal para retomar o controle de sua posseprovocaram importantes mudanças na vida econômica e na organizaçãopolítica e territorial do Brasil colonial. Mas é importante enfatizar que francesese holandeses tiveram diferentes motivações para organizar expediçõesmarítimas e aportar no território brasileiro. O litoral do Brasil já era conhecido há muito tempo pelos navegadoresfranceses, contrabandistas, piratas e corsários que há anos traficavam pau-brasil para a Europa. Em 1555, entretanto, a situação interna da França eraconturbada, marcada por uma guerra civil entre católicos e huguenotes, estesúltimos um crescente grupo de calvinistas. Liderados por Nicolau Durand Villegaignon e com o apoio do AlmiranteGaspar Coligny, os huguenotes buscaram refúgio no Brasil. Em 1555, osfranceses planejaram, então, se fixar permanentemente na Baía da Guanabara,um ponto do litoral brasileiro que os portugueses ainda não tinham povoado.Os franceses se instalaram nas ilhas de Serigipe (hoje Villegaignon) e Paranapuã(hoje ilha do Governador), Uruçu-mirim (hoje Flamengo) e em Laje, edenominaram toda essa região de França Antártica. 2.3 Confrontos entre franceses e portugueses Quando os franceses invadiram o Brasil, os portugueses já tinhaminiciado o processo de colonização. Desde de 1549 o Brasil possuía um governo-geral. Assim, Portugal reagiu, determinando ao governador-geral, Duarte daCosta que organizasse uma campanha para pôr um fim à França Antártica.Duarte da Costa, no entanto, não obteve êxito em nenhuma de suas tentativas.Em 1558, foi substituído no cargo por Mem de Sá. Este, em 1560, deu início aoutra campanha para expulsar os franceses. Mem de Sá seguiu de Salvador para a vila de São Vicente, onde obteve oapoio dos colonos e dos jesuítas, reunindo esforços para lutar contra osfranceses. Os portugueses, então, obtiveram uma vitória parcial contra osfranceses ao atacar o forte Coligny, na ilha de Serigipe, e conseguiram fazê-losfugir. A região foi, entretanto, abandonada, pois as avarias nas embarcações,provocadas pelos combates, não permitiram seu imediato uso. Com a retirada dos portugueses, os franceses retornaram e ocuparamnovamente o forte Coligny, tomando ainda posições em Uruçu-mirim eParanapuã. Com o objetivo de resistir e defender a França Antártica, osfranceses conquistaram o apoio dos índios que habitavam a região. Desde quese estabeleceram em terras brasileiras, haviam firmado boas relações com osíndios, fazendo-os seus aliados contra os próprios colonizadores portugueses,considerados por ambos - franceses e índios - como o "inimigo comum". 2.4 A Confederação dos Tamoios Incentivados pelos franceses, os índios das tribos tamoios conseguiramse unir a outras tribos e criaram a Confederação dos Tamoios, com objetivo deguerrear contra os portugueses. Embora ficasse iminente, a guerra entre os
  6. 6. portugueses e os índios não chegou a ocorrer. Antes disso, os jesuítas Manoelda Nóbrega e José de Anchieta realizaram um valioso trabalho de negociaçãocom os tamoios, firmando o chamado Armistício de Iperoig. Na prática, issoresultou no fim da aliança dos índios com os franceses. Ainda assim, os invasores permaneciam na Guanabara. Por esse motivo,Mem de Sá solicitou reforços a Portugal. D. Catarina, regente do tronoportuguês, enviou, em 1563, de uma frota comandada por Estácio de Sá,sobrinho de Mem de Sá. Além dos reforços, Mem de Sá obteve o importanteapoio de Araribóia, chefe dos temiminós. Com a reunião dessas forças, os portugueses iniciaram uma novacampanha. Após travarem vários combates, conseguiram expulsar os invasoresacabar com a França Antártica. Estácio de Sá, porém, morreu em decorrênciados combates. De qualquer modo, de sua expedição resultou na fundação dacidade do Rio de Janeiro. O índio Araribóia foi recompensado por Mem de Sácom uma sesmaria próxima à Baía da Guanabara, que futuramente dariaorigem à cidade de Niterói. 2.4 O Renascimento Renascimento, período da história européia caracterizado por umrenovado interesse pelo passado greco-romano clássico, especialmente pelasua arte. O Renascimento começou na Itália, no século XIV, e difundiu-se portoda a Europa, durante os séculos XV e XVI. A fragmentada sociedade feudal da Idade Média transformou-se emuma sociedade dominada, progressivamente, por instituições políticascentralizadas, com uma economia urbana e mercantil, em que floresceu omecenato da educação, das artes e da música. O termo “Renascimento” foi empregado pela primeira vez em 1855,pelo históriador francês Jules Michelet, para referir-se ao “descobrimento doMundo e do homem” no século XVI. O historiador suíço Jakob Burckhardtampliou este conceito em sua obra A civilização do renascimento italiano(1860), definindo essa época como o renascimento da humanidade e daconsciência moderna, após um longo período de decadência. O Renascimento italiano foi, sobretudo, um fenômeno urbano, produtodas cidades que floresceram no centro e no norte da Itália, como Florença,Ferrara, Milão e Veneza, resultado de um período de grande expansãoeconômica e demográfica dos séculos XII e XIII. Uma das mais significativas rupturas renascentistas com as tradiçõesmedievais verifica-se no campo da história. A visão renascentista da históriapossuía três partes: a Antigüidade, a Idade Média e a Idade de Ouro ouRenascimento, que estava começando. A idéia renascentista do humanismo pressupunha uma outra rupturacultural com a tradição medieval. Redescobriram-se os Diálogos de Platão, ostextos históricos de Heródoto e Tucídides e as obras dos dramaturgos e poetasgregos. O estudo da literatura antiga, da história e da filosofia moral tinha porobjetivo criar seres humanos livres e civilizados, pessoas de requinte ejulgamento, cidadãos, mais que apenas sacerdotes e monges.
  7. 7. Os estudos humanísticos e as grandes conquistas artísticas da épocaforam fomentadas e apoiadas economicamente por grandes famílias como osMedici, em Florença; os Este, em Ferrara; os Sforza, em Milão; os Gonzaga, emMântua; os duques de Urbino; os Dogos, em Veneza; e o Papado, em Roma. No campo das belas-artes, a ruptura definitiva com a tradição medievalteve lugar em Florença, por volta de 1420, quando a arte renascentistaalcançou o conceito científico da perspectiva linear, que possibilitou arepresentação tridimensional do espaço, de forma convincente, numasuperfície plana. Os ideais renascentistas de harmonia e proporção conheceram oapogeu nas obras de Rafael, Leonardo da Vinci e Michelangelo, durante oséculo XVI. Houve também progressos na medicina e anatomia, especialmente apósa tradução, nos séculos XV e XVI, de inúmeros trabalhos de Hipócrates eGaleno. Entre os avanços realizados, destacam-se a inovadora astronomia deNicolau Copérnico, Tycho Brahe e Johannes Kepler. A geografia se transformougraças aos conhecimentos empíricos adquiridos através das explorações e dosdescobrimentos de novos continentes e pelas primeiras traduções das obras dePtolomeu e Estrabão. No campo da tecnologia, a invenção da imprensa, no século XV,revolucionou a difusão dos conhecimentos e o uso da pólvora transformou astáticas militares, entre os anos de 1450 e 1550. No campo do direito, procurou-se substituir o abstrato método dialéticodos juristas medievais por uma interpretação filológica e histórica das fontes dodireito romano. Os renascentistas afirmaram que a missão central dogovernante era manter a segurança e a paz. Maquiavel sustentava que a virtú(a força criativa) do governante era a chave para a manutenção da sua posiçãoe o bem-estar dos súditos. O clero renascentista ajustou seu comportamento à ética e aoscostumes de uma sociedade laica. As atividades dos papas, cardeais e bispossomente se diferenciavam das usuais entre os mercadores e políticos da época.Ao mesmo tempo, a cristandade manteve-se como um elemento vital eessencial da cultura renascentista. A aproximação humanista com a teologia eas Escrituras é observada tanto no poeta italiano Petrarca como no holandêsErasmo de Rotterdam, fato que gerou um poderoso impacto entre os católicose protestantes. Edição do ano 2000.
  8. 8. RELENDO MACAHÉ 3. Literatura de Informação Diversos viajantes europeus que estiveram no país durante a colonização doBrasil, no século 16, registraram suas observações sobre a terra. Fizeram-no porobrigação profissional ou motivos pessoais. Os textos são depoimentos e relatos deviagem, apresentando aos compatriotas um panorama do Novo Mundo.Sob a forma de cartas, diários, tratados ou crônicas esses textos informativoscompõem o chamado Período de Informação, Literatura de Informação, ou LiteraturaColonial. O primeiro texto da época é a célebre "Carta de achamento do Brasil", de PeroVaz de Caminha ao rei de Portugal, D. Manuel I, escrita entre abril e maio de 1500,quando a frota de Cabral se preparava para deixar o Brasil, seguindo em direção áÍndia. Nela, o escrivão da armada dá conta do descobrimento da terra, descrevendoseus aspectos físicos e os contatos com os nativos. Da autoria dos portugueses, uma série de outras obras segue-se à carta deCaminha. Entre elas, podem-se destacar o "Diário da Navegação da Armada que foi àterra do Brasil", de Pero Lopes de Sousa, que narra minuciosamente a expedição deMartim Afonso de Sousa, em 1532, ou o "Tratado descritivo do Brasil em 1587", dosenhor de engenho Gabriel Soares de Sousa, que procura traçar um amplo panoramada Colônia, em seus aspectos históricos, geográficos e econômicos. 3.1 Índios, franceses e jesuítas Europeus de outras nacionalidades que aqui estiveram também deixaramdocumentos importantes sobre o Brasil de então. É o caso de "Duas Viagens ao Brasil"(1557), do alemão Hans Staden, que descreve pormenorizadamente o modo de vidados tupinambás, dos quais o autor foi prisioneiro em 1554. Também se destacam "Viagem à Terra do Brasil", de Jean de Léry e "AsSingularidades da França Antártica", de André Thevet, que documentam a tentativa decolonização francesa na baía da Guanabara comandada por Villegaignon. Missionários jesuítas também estiveram no Brasil, a partir do primeiro Governo-geral. Seu objetivo principal era catequizar os índios, convertendo-os ao cristianismo,mas seu trabalho acabou ultrapassando os limites religiosos e interferiu em diversosaspectos da vida colonial, particularmente com a criação de escolas e vilas. Os jesuítas também nos legaram obras sobre o período, como as "Cartas", deManuel da Nóbrega e José de Anchieta, os fundadores da cidade de São Paulo. Esse conjunto de textos produzidos no Brasil ou apresentando a Colônia comotema nos permitiu o conhecimento de diversos fatos históricos da época. Em suatotalidade, as obras documentam os vários aspectos da implantação do processocolonial em território brasileiro. Nesse sentido, sua importância histórica é indiscutível:trata-se do relato dos acontecimentos pela perspectiva privilegiada de participantes outestemunhas oculares.
  9. 9. Mas não se esgota aí a riqueza desses textos, em que também se podemencontrar valores estéticos, que os aproximam de textos literários. Gravura de um ataque indígena a uma aldeia rival. 3.2 Caráter Literário Dada sua finalidade principalmente informativa, a linguagem dos textos doséculo 16, em geral, não admite metáforas nem outros artifícios estéticos. Entretanto,o caráter narrativo da maioria das obras e a capacidade imaginativa dos autorescontribuem para fazê-los superar o caráter utilitário dos relatórios burocráticos oucientíficos. Nas obras, a anedota, a aventura e a fantasia se misturam com as informaçõessobre a terra e os acontecimentos históricos, gerando narrativas com as quais o leitornão consegue deixar de se envolver, como num bom livro de ficção. O exemplo maisevidente é a obra de Hans Staden, repleta de peripécias e de episódios emocionantes,em que a vida do protagonista corre perigo. Até numa carta de Anchieta podem-se encontrar, lado a lado, a expulsãodos franceses da Guanabara e as aventuras do padre para salvar índios cristianizadosque caíram prisioneiros de uma tribo antropófaga. Sem falar em obras como a"História da Província de Santa Cruz", de Pero de Magalhães Gândavo, onde oaparecimento de um leão-marinho é narrado como se um terrível monstro marítimoviesse à terra para atacar a vila de São Vicente. 3.3 Estilo e Deslumbramento No que se refere à linguagem, podem-se encontrar nos textos do século 16preocupações estilísticas semelhantes às dos prosadores portugueses do mesmoperíodo. Um exemplo é a carta de Caminha. Homem erudito, ao dirigir-se ao rei oescrivão de Cabral estava atento aos padrões de elegância linguística da época. O
  10. 10. cuidado com o estilo também está presente na já citada "História da Província deSanta Cruz", de Pero de Magalhães Gândavo, que foi estudioso da gramáticaportuguesa, tendo sido um dos primeiros a estabelecer suas normas num tratado. Assim, as qualidades estilísticas se unem à criatividade e às manifestações deemoção dos autores, modificando o caráter informativo/utilitário dos textos do século16 e neles revelando valores artísticos e literários. Esses valores são reforçados namedida em que os textos apresentam particularmente o deslumbramento e oentusiasmo do europeu diante da natureza exuberante dos Trópicos. 3.4 Sentimento Nativista Essas sensações são a base de um sentimento de afeto pelo território que veioa se desenvolver em seus habitantes. Manifestou-se gradualmente ao longo do século16, até se transformar num modo de pensar, o Nativismo, que valorizava a Colônia,chegando mesmo a considerá-la como o futuro do Reino de Portugal. O Nativismorepresentou o estabelecimento dos conflitos de visão de mundo que permitiramdiferenciar a mentalidade dos habitantes e nativos do Brasil, do pensamento dosreinóis, isto é, dos naturais do reino lusitano. Nesse sentido, foi um dos primeirospassos do povo do Brasil em direção à Independência e à construção da nacionalidade. Apresentando-se deforma embrionária nos textos do século 16, o Nativismotornou-se uma característica essencial das obras do Barroco e do Arcadismo, nossasprimeiras escolas literárias, que se manifestaram respectivamente nos século 17 e 18,Vistos por essa ótica, a compreensão do desenvolvimento histórico da literaturabrasileira no período colonial tem como pré-requisito o conhecimento dos textosinformativos produzidos entre 1500 e 1600. Para completar o quadro da literatura brasileira no século 16, porém, não sepode deixar de olhar com mais atenção para a obra do padre José de Anchieta que,paralelamente ao trabalho religioso, desenvolveu uma constante atividade literária. Escreveu numerosos autos teatrais com finalidade de catequese, e uma grandequantidade de poemas, em português, espanhol, tupi e latim, cujos méritos artísticossão reconhecidos pela crítica literária. Além disso, publicou um estudo linguísticointitulado "Arte da Gramática da Língua Mais Usada na Costa do Brasil" (1595). Gravura de uma edição francesa do século XVI.
  11. 11. RELENDO MACAHÉ 4. O Autor Jean de Léry nasceu em Côte-dOr, França, no ano de 1536, falecendo naSuíça em 1613. Era sapateiro, pastor, missionário, membro da igreja reformadade Genebra durante a fase inicial da Reforma Calvinista. Léry era um jovem seminarista quando, em 1556, tomou a decisão deacompanhar um grupo de ministros e artesãos protestantes em uma viagem àFrança Antártica, colônia francesa estabelecida na baía de Guanabara, atualcidade do Rio de Janeiro. Conforme visto no “Contexto Histórico”, a França Antártica havia sidoestabelecida por Nicolas Durand de Villegagnon, com ajuda financeira e apoiode Gaspard de Coligny, almirante da marinha francesa convertido aocalvinismo. Villegagnon embora inicialmente aceitasse os protestantes,passados oito meses da chegada destes, expulsou-os acusando-os de heresia.Léry e os demais passaram mais dois meses na região da Baía de Guanabara,acolhidos pelos índios Tupinambás. Alguns dos missionários retornaram para acolônia e foram mortos por Villegagnon. Léry e parte dos missionáriosretornaram à França em um navio bastante avariado. A viagem foi arriscada,demorou mais do que o usual, e quase levou os passageiros e tripulantes amorrerem de fome. Ao final do percurso, Léry e os demais estavam comendocouro, papagaios, ratos e até mesmo mastigando o Pau Brasil que traziamconsigo. Já se preparavam para tirar sortes para decidir qual deles morreriapara servir de alimento aos outros quando chegaram à Europa. Sem saberem,Léry e seus amigos traziam na bagagem uma carta escrita por Villegagnonordenando a prisão e execução dos missionários. A ordem não foi cumprida. Osmissionários foram acolhidos na França por autoridades protestantes, queignoraram a ordem. Léry recebeu a notícia das mortes de três de seus amigosno Brasil e as narrou no capítulo "Perseguição dos Fiéis nas Terras da América"do livro "História dos Mártires", publicado por Jean Crespin, advogadoprotestante refugiado em Genebra. De volta a Genebra, Léry tornou-se pastor e casou-se. Em 24 de Agostode 1572, na chamada "Noite de São Bartolomeu", os católicos assassinaraminúmeros protestantes na França, dando início a uma guerra civil que dividiu opaís. A experiência de carestia no Brasil, e especialmente na viagem de volta àFrança, foi útil a Léry nesse conflito. Com outros protestantes, ele resistiu a umcerco de tropas católicas contra a cidade de Sancerre. Léry ensinou aos demaisa dormir em redes e sobreviver comendo quase nada. Os católicos terminarampor desistir do cerco sem prejudicar tanto os protestantes. A história dessecerco está narrada no primeiro livro de Léry, "História Memorável da Cidade deSancerre". Nesse livro Léry acusa os franceses de serem mais bárbaros do queos índios canibais que conheceu no Brasil.
  12. 12. A França Antártica foi conquistada pelos portugueses em 1567. Em seulugar criaram a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. André Thévet, umfrade franciscano, acusou os protestantes pelo fracasso da colônia em seu livro"Cosmografia Universal". Em resposta a essa acusação e atendendo a pedidosde amigos Léry permitiu que seu diário de viagem fosse publicado com o título"Histoire dun voyage faict en la terre du Brésil". Isso, porém só pôde ser feitoem 1578, após o manuscrito original ser perdido e outros contratemposreferentes às Guerras Religiosas ocorrerem. O livro de Thévet mistura realidadee fantasia. Fala de índios que carregavam canhões nos ombros, com os quaisatiravam contra os portugueses. Contém inúmeras incongruências. Léry partedesses elementos para contar o verdadeiro relato do que ocorreu no ForteColigny. Após a publicação de sua obra Léry permaneceu trabalhando comopastor até o fim de sua vida.
  13. 13. RELENDO MACAHÉ 5. O Livro Viagem à Terra do Brasil é uma obra única, não só em relação a Históriadesse país, como também em relação a História do continente americano. Trata-se de um relato pouco comum, pois mostra a visão das Américaspartindo de um homem do século XVI, protestante, Calvinista, que denota emsua prática literária algumas características do período, como a transição entreo pensamento Medieval e o pensamento humanista, renascentista, Moderno. Esse modo de pensar conflituoso contrapôs uma visão da natureza, doíndio enfim, do Novo Mundo, que está cheia d elementos mitológicos, fruto doimaginário popular daqueles tempos sobre o novo continente. O trabalho de DeLéry, além do lado mitológico, tipicamente Medieval, ainda nos brinda comelementos dissertativos de uma visão Moderna, tratando a natureza, inclusiveos índios, a partir de um conceito Mercantilista, fruto da Expansão Marítima eda Revolução Comercial daqueles tempos. Como escritor de um século pontuado por inúmeras mudanças, Jean deLéry, trata o índio de forma dualista, ao mesmo tempo que admira o exotismodos nativos, critica alguns de seus costumes, não eximindo-se do preconceitode compará-los e inferiorizá-los em relação aos costumes europeus em algunspontos e de valorizá-los excessivamente em outros. A obra Viagem à Terra do Brasil do Suíço Jean de Lery editada pelaprimeira vez em 1578 na Europa é uma importante fonte de informaçõesacerca da parte inicial do período colonial do Brasil, dos primeiros contatos dospovos Europeus com os povos Ameríndios e do contato da Europa pós-medieval no século das Grandes Navegações. Pelas surpresas que a vida proporciona, Lery perdeu a obra original naperturbada Europa do século 16 e viu-se obrigado a relembrar os eventos daviagem ao Brasil e demorou quase duas décadas para republicá-la, devido aalguns fatores como a concorrência de obras menos complexas (e mais fáceisde ler) que antes não afetavam o sucesso que a obra de Lery fez. Filho de pais protestantes, modesto sapateiro, estudante de teologia ediscípulo do mestre Calvino, Lery viu-se obrigado a abandonar o Velho Mundodevido às disputas religiosas entre católicos e protestantes e pelas novaspossibilidades da França Antártica, na época uma colônia francesa na Baia deGuanabara, atual estado do Rio de Janeiro. Lery chamava a nova terra deAmérica e Terra do Brasil (p. 53). Apesar da visão religiosa e européia da época (Lery se admitia umescravo de Deus) o viajante suíço traz uma minuciosa visão do Novo Mundo ede seus habitantes. É destacada a vida em alto-mar. Em meio à população do navioencontram-se mulheres e crianças, levados com propósitos bem definidos aAmérica. Dificuldades como o apodrecimento da comida e água, doenças e
  14. 14. mortes eram comuns nessas viagens, que também vivenciou encontros comoutros navios em alto-mar, como naus Espanholas e Inglesas. Tormentas ecalmarias dificultavam a navegação. Após alcançar o Brasil, chamado por eletambém de França Antártida e quarta parte, (referência ao quarto continenteconhecido na época) Lery e sua tripulação aportam no território do Rio deJaneiro atual. Sua visão dos habitantes da América é muito próxima de outrosviajantes europeus como Cristóvão Colombo e Américo Vespúcio (citados porele). A visão do autor acerca dos habitantes e seus costumes tende emalguns relatos para a ideia que os índios viviam na escuridão (p. 209) e emoutros relatos os considerava puros em relação aos habitantes do Velho MundoEuropeu. Adjetivos como ‘selvagem’, ‘ignorantes’, ‘cães’, ‘vingativos’ e ‘iletrados’são comuns em sua obra. Formas de organização dos índios, principalmentedos Tupinambás e Margaia que Lery conviveu integralmente foramminuciosamente exploradas; tinham grande diversidade de idiomas, eramrobustos, bebiam da fonte de juventude (p. 112), pintam-se de barro,banhavam-se muitas vezes por dia, excelentes usuários de armas de guerra,praticavam o canto e tratavam muito bem seus amigos, ao contrário dosinimigos. Quando em guerra com tribos adversárias, Lery informa da grandeviolência e selvageria que presenciou com as inúmeras flechas (p. 189) que astribos lançavam uma sobre a outra e da crueldade que sofriam os guerreirosquando se efetivavam os encontros entre eles. Merecem destaque os comentários do historiador Suíço acerca doantropofagismo; nos índios do Brasil fica claro a diferença entre o canibalismo eantropofagismo, sendo que nos índios o ato de comer o inimigo não estavaligado a ideia única de alimentação e sim de absorver a coragem e boasqualidades dos mais nobres guerreiros. No passar do ano que Lery ficou noBrasil, presenciou que o ato antropofágico era muito comum entre as tribos,nos rituais em que os prisioneiros eram preparados para serem devoradosnormalmente era por vingança por parentes ou amigos devoradosanteriormente, sendo que o próprio Lery por momentos ficou aflito com ele sera vítima desses rituais dos povos da América. Por parte dos povos indígenas,era evitado se alimentarem dos miolos e características que por eles não erambem vistas, como se alimentar de animais que fossem considerados lentos, comreceio de assim também ficarem. Outros aspectos são detalhados; a poligamia masculina, casas quecomportam até 600 índios, o conceito de machismo inerente a eles,lamentações com altas cantorias aos mortos, curiosidade indígena nos rituaiscristãos, divisão dos afazeres masculinos e femininos e as crenças indígenascomo o espírito de Anhagá. No retorno a Europa, Lery disserta sobre o gelo visto nas Américas e asinúmeras dificuldades em seu retorno, merecendo destaque o fim dosalimentos e água que entrava nas frágeis embarcações; a situação esteve tãoprecária que Lery relata que se alimentaram do Pau-Brasil dentro do navio,ratos e ratazanas e rodelas de couro, havendo horas em que os própriostripulantes viviam a ameaça de devorar os esqueléticos corpos uns dos outros
  15. 15. como o próprio autor temia acontecer, situações tais que arruinaram a saúdeda tripulação. Isso na visão de Lery que o mundo é uma máquina redonda deágua e terra miraculosamente suspensa no espaço. Em suma, adicionando o glossário dos idiomas Português-Tupi, a obrade Jean de Lery é um importante manual de informações históricas, geográficase antropológicas dos habitantes do território Sul da América no século 16 emesmo sendo uma visão fortemente influenciada pela religião cristã, permiteao leitor descobrir importantes informações com a minuciosidade edetalhamento nem sempre disponível de outras experiências. Edições dedicadas ao público juvenil e infantil: edições de 1998 e 2002.
  16. 16. RELENDO MACAHÉ 6. Macaé no livro As referências a Macaé surgem no capítulo V, páginas 63, 64, 65 e 66.Tratam-se de referências ao litoral fluminense em sua porção norte, do Cabo deSão Tomé até a foz do rio Macaé. Citaremo-na por completo, poiscompreendemos que as visões da natureza, da geografia, dos índios colhidaspor Léry desde o Cabo de São Tomé até as Ilhas de Santana e a foz do Macaéfazem parte de um conjunto integrado, que nos ajuda a compreender essaregião como um todo. Mapa do litoral brasileiro. Destaque para o Cabo Frio. Edição do século XVI.
  17. 17. RELENDO MACAHÉ CAPITULO V DO DESCOBRIMENTO E PRIMEIRA VISTA QUE TIVEMOS DA ÍNDIAOCIDENTAL OU TERRA DO BRASIL, BEM COMO DE SEUS HABITANTES SELVAGENS E DO MAIS QUE NOS ACONTECEU ATÉ O TRÓPICO DE CAPRICÓRNIO A primeiro de março alcançamos uma região de pequenos baixios, isto é, escolhos e restingas salpicadas de pequenos rochedos que entram pelo mar e que os navegantes evitam passando ao largo. Desse lugar avistamos uma terra plana na extensão de 15 léguas [1] e que é ocupada pelos Uetacá[2], índios tão ferozes[3] que não podem viver em paz com os outros e se acham sempre em guerra aberta não só contra os vizinhos, mas ainda contra todos os estrangeiros. Quando apertados e perseguidos por seus inimigos, os quais, entretanto, nunca os puderam vencer ou ornar, correm tão rápidos [4] a pé que não só escapam da morte como apanham na carreira certos animais silvestres, veados e orças. Andam nus como todos os brasileiros [5] e usam cabelos compridos e pendentes até as nádegas, o que não parece comum entre os homens desse país, pois, como já disse, costumam tonsurar o cabelo na frente e apará-lo na nuca. Em suma esses diabólicos Uetacá, invencíveis nessa região, comedores de carne humana[6], como cães e lobos, e donos de uma linguagem que seus vizinhos não entendem[7], devem ser tidos entre os mais cruéis e terríveis que se encontram em toda a índia Ocidental. Como não têm nem querem ter comércio com os franceses, espanhóis e portugueses, nem com outros povos transatlânticos, ignoram em que consistem as nossas mercadorias. Entretanto, conforme vim a saber de um intérprete normando, quando seus vizinhos os procuram e eles concordam em atendê-los, assim procedem: o margaiá, o caraiá ou o tupinambá (assim se chamam as nações vizinhas), sem se fiar no uetacá mostra-lhe de longe o que tem a mostrar-lhe, foice, faca, pente, espelho ou qualquer outra bugiganga e pergunta-lhe por sinais se _____________________________ Notas_______________________________ [1] Uma légua corresponde a 6 Km. [2] Uetacá, goitacá, goitacás, muitas são as denominações para os índios da região. [3] A fama de índios perigosos, guerreiros começou com Jean de Léry, sendo confirmado por diversos autores posteriormente. [4] Para alguns autores uetacá ou goitacá significa índio corredor ou índio nadador. [5] Na concepção da palavra brasileiro é o habitante do Brasil, naquela época, índios. [6] A fama de antropófagos foi descrita por quase todos os autores. [7] Os índios do Rio de Janeiro eram do ramo lingüístico Tupi. Segundo Darci Ribeiro, os goitacás era, do ramo lingüístico Gê.
  18. 18. RELENDO MACAHÉquer efetuar a troca. Em concordando, o convidado exibe por sua vez plumas,pedras verdes que coloca nos lábios, ou outros produtos de seu território[8]. Combinam então o lugar da troca, a 300 ou 400 pés de distância; aí oofertante deposita o objeto da permuta em cima de uma pedra ou pedaço depau e afasta-se. O uetacá vai buscar o objeto e deixa no mesmo lugar a coisaque mostrara, arredando-se igualmente, a fim de que o margaiá ou quemquer que seja venha procurá-la. Enquanto isso se passa são mantidos oscompromissos assumidos. Feita, porém a troca, rompe-se a trégua [9] eapenas ultrapassados os limites do lugar fixado para a permuta procura cadaqual alcançar o outro a fim de arrebatar-lhe a mercadoria. E parece-me inútildizer quem leva a melhor o mais das vezes, sendo os uetacá como se sabeexcelentes corredores. Não devem, portanto meter-se em negócios com essesselvagens, os coxos, os gotosos, os mal empernados de qualquer espécie quetenham amor aos seus bens. Entretanto, como afirmam que os biscainhostêm muita lábia e são, como sabemos, facetos e ágeis, reputando-se osmelhores lacaios do mundo, creio que podem ser comparados aos uetacá ecapazes de com eles disputar um jogo de barras. Também poderíamos pôr emparalelo com esses selvagens certos habitantes da Flórida, perto do rio dasPalmas, tão fortes e ágeis que correm um dia inteiro sem parar e pegamveados na carreira; ou ainda os grandes gigantes[10] que vivem no rio daPrata e são igualmente tão fortes e ágeis que agarram com as mãos oscabritos na corrida. Mas deixemos esses corcéis e cães corredores de dois pés corrercéleres como o vento, com furibundas cambalhotas, ou cair como chuva emdiversos lugares da América e da Europa muito distantes uns dos outros, epassemos novamente à nossa viagem. Depois de costearmos a terra dessesuetacá, avistamos outra região próxima chamada de Macaé[11] e habitadapor outros selvagens[12] que, como é de imaginar pelo que ficou dito acima,não podem se comprazer na vizinhança de índios tão brutais e ferozes. Nessas terras vê-se à beira-mar um grande rochedo em forma de torre,tão reluzente ao sol que pensam muitos tratar-se uma espécie de esmeralda;e com efeito, os franceses e portugueses que por aí velejam o denominam"Esmeralda de Macaé"[13]. Dizem que ela é rodeada por uma infinidade derochedos à flor [14] água que avançam mar afora cerca de duas léguas ecomo tampouco a ela se tem acesso por terra, é completamente impraticável._________________________Notas_____________________________[8] Esse sistema de comèrcio baseado nas trocas era chamado de escambo. [9] De Lérybaseou-se nas informações de um intérprete, que não falava ou tinha contato com os goitacás,mas com seus vizinhos e inimigos. [10] Fernão de Magalhães os chamou de patagões, grandespatas, dando origem ao termo Patagônia.[11] Percebe-se a antiguidade do termo Macaé. [12]Seriam os tamoios? [13]Trata-se do Pico do Frade. [14] Descreve as montanhas vizinhas aoFrade.
  19. 19. RELENDO MACAHÉ Também existem três pequenas ilhas chamadas ilhas de Macaé[15]junto das quais fundeamos e dormimos uma noite. Pensávamos chegar no diaseguinte ao Cabo Frio, mas tivemos tanto vento contrário que foi precisovoltar para o ponto de onde partíramos pela manhã e aí permanecermosancorados até quinta-feira à tarde, pouco tendo faltado como vereis para alificarmos definitivamente. Com efeito, na quarta-feira, 2 de março, primeirodia da Quaresma, depois da festa habitual dos marinheiros, sucedeudesencadear-se, ali pelas onze horas da noite, quando começávamos arepousar, tão rude temporal que as amarras não resistiram ao ímpeto dasvagas furiosas. Nosso navio combalido e sacudido pelas ondas foi impelidopara o lado da praia, chegando a ficar apenas em duas braças e meia de água(o mínimo que podia ter para flutuar descarregado) e pouco faltou para quebatesse na areia e naufragasse. O mestre e o piloto que procediam àsondagem, em vez de se mostrarem os mais imperturbáveis e animarem oscompanheiros, vendo o perigo clamaram duas ou três vezes: "estamosperdidos". Mas os nossos marujos diligentemente lançaram outra âncora quegraças a Deus ficou segura, o que impediu fôssemos levados contra osrochedos de uma dessas ilhas de Macaé, os quais sem dúvida alguma teriamdespedaçado o nosso navio em vista da violência do mar. Esse angustiosotranse durou quase três horas durante as quais de nada servira gritar: Abombordo! A estibordo! Segura o leme! Mete de ló! Ergue a bolinai Larga aescota! O que só se faz em mar alto onde as tormentas são menos temidas doque perto da terra. Como já disse estava a nossa aguada corrompida, por issopela manhã, ao cessar a tormenta, alguns marujos foram procurar águapotável nessas ilhas desabitadas e verificaram que todo o terreno se achavacoberto de ovos de aves de diversas espécies, aliás, diferentes das nossas. Etão mansas, por nunca terem visto gente, que se deixavam pegar com a mãoou matar a pauladas; assim nossos homem puderam encher o escaler,trazendo para o navio grande quantidade delas [16] e apesar de ser dia deCinzas nossos marinheiros vencidos pelo apetite, agravado com o trabalho danoite precedente, não hesitaram em comê-las, embora fossem verdadeiroscatólicos romanos. Certamente quem contra a doutrina proibiu aos cristãos o uso dacarne em determinados dias e épocas não tinha penetrado neste país onde aprática dessa supersticiosa abstinência é ignorada.__________________________________________Notas______________________________ [15] Arquipélago de Santana – Ilha de Santana; Ilha do Francês e Ilha dos Papagaios. [16]Até hoje as ilhas são usadas por inúmeras aves como área de repouso e ninhal.
  20. 20. RELENDO MACAHÉ7. Sugestões para o Ensino Fundamental As referências a Macaé e ao Norte Fluminense na obra de Jean de Léry nos possibilitam inúmeras possibilidades de trabalhos em aulas de História, Artes, Português, Literatura Brasileira, Geografia e Ciências, principalmente. A começar pelo contexto histórico especialmente dinâmico, envolvendo navegações marítimas, reforma religiosa, conflitos religiosos, tentativas de colonização do Brasil, além, principalmente da História nacional e local, focadas sobretudo na questão indígena; estendendo-se à visão literária e sua forma de expressão, a observação dos aspectos naturais e suas transformações até os dias de hoje. Alguns pontos devem ser destacados no trabalho com alunos: O indígena. O observador europeu no Novo Mundo. Forma de ver o Novo Mundo e o “outro”. Descrição da paisagem natural. As opiniões e os princípios de uma época e de uma região. Gravura de uma cerimônia indígena. Edição francesa do século XVI.
  21. 21. RELENDO MACAHÉ 7.1 Sugestões de Planos de Aula7.1.1 Leitura de Documentos.→ Conteúdos:Sociedades Indígenas do Brasil; Expansão Marítima; Brasil Colônia; ReformaReligiosa; França Antártica; Literatura de Informação; História de Macaé.→ Objetivos:- Pesquisar a História do município de Macaé.- Desenvolver a capacidade de ler e interpretar documentos históricos (livros,mapas, fotografias e documentário).- Perceber que a História de Macaé não está desvinculada de outros contextoshistóricos.→ Anos 6º e 7º.→ Tempo estimado: 6 aulas.→ Material necessário:Papel pardo, pincel atômico, descrição feita por Léry sobre Macaé e região,texto e /ou imagens sobre índios, colonização do Brasil, França Antártica eMacaé.→ Desenvolvimento:1ª etapa: Inicie a seqüência apresentando a proposta de investigar a Históriado município onde a escola está localizada. Faça um levantamento coletivosobre como é o município hoje e convide a turma a imaginar como ele era nopassado: como as pessoas viviam? Onde trabalhavam? Por que elas decidiramse mudar para lá? Havia luz elétrica ou água encanada? Onde estudavam?Havia violência e pobreza? O número de árvores nas ruas era maior ou menor?Registre as hipóteses num cartaz e oriente os alunos a copiar as anotações nocaderno. Em seguida, peça que leiam o(s) texto(s) selecionado(s) e observe(m)a(s) imagem(ns). Para que elas sejam produtivas, é preciso combinar uma pautade perguntas semelhantes às citadas anteriormente. Também é importante quea entrevista seja transcrita e as respostas às perguntas e outras informaçõeshistóricas que a turma descobrir sejam destacadas por algum procedimentoescrito de apoio à leitura, como sublinhados e anotações. Pode-se dividir aturma em grupos, conforme a quantidade de material disponível2ª etapa Apresente os documentos históricos, no caso o texto de Léry, que
  22. 22. RELENDO MACAHÉpoderá ser dividido pelo número de alunos. Explique aos estudantes que, assimcomo um historiador, eles também deverão pesquisar em diversas fontes osprincipais fatos da História do município, do Brasil, para comprovar oudescartar as hipóteses levantadas. Dividindo a classe em grupos, proponha umaprimeira análise do material: quem é o autor? Há data de publicação? Qual otítulo escolhido? Com base no título, o que se quer explicar ou debater? Peloformato, é possível identificar o gênero (prosa, verso, texto jornalístico)? Nocaso de imagens, vale indagar, além do autor e da data, que elementos épossível observar e qual a relação entre o que se vê e os textos escritos (nocaso de haver legenda ou a foto acompanhar uma reportagem, por exemplo).Peça que cada grupo anote as informações no caderno.3ª etapa Solicite uma leitura mais detalhada do material orientada pelaseguinte pergunta: que informações históricas sobre nosso município podemoscolher do texto e/ou da imagem analisada? Pedindo que anotem asdescobertas em frases curtas na forma de uma lista, circule pela classe,auxiliando cada grupo a encontrar marcadores de tempo e referências àsituação social, política ou econômica que ajudem a circunscrever a época e ocontexto dos dados obtidos. Se um bairro violento possuir um recente livrocomemorativo produzido, digamos, pela administração regional, que não façamenção a esse tipo de ocorrência, vale discutir o porquê dessa omissão eanotar a hipótese na lista.4ª etapa Convide a turma a organizar os acontecimentos e relatos destacadosem uma grande linha do tempo feita na forma de cartazes. Ao redor das datasprincipais, encaminhe uma colagem de fotos e anotações feitas pelos alunosque justifiquem a data destacada. Peça, ainda, que elaborem um título para ocartaz e uma legenda explicativa para cada ponto da linha do tempo, que podeser apresentada pelos alunos para pais e funcionários da escola.→ Avaliação:Verifique se a linha do tempo inclui os elementos mais importantes da Históriado Brasil, Mundo e município, se enfatizam as principais transformações e se ascontribuições foram adequadamente contextualizadas – avalie, por exemplo, seconsideram a intenção dos autores dos documentos históricos. Para discutir sefaltou algum dado ou ponto de vista importante, peça que pais e funcionáriosse manifestem após a apresentação, debatendo com a turma possíveis fontespara cobrir as lacunas.
  23. 23. RELENDO MACAHÉ7.1.2 Os Primeiros Tempos de Macaé.→ Bloco de Conteúdo: História das relações sociais, da cultura e do trabalho.→ Conteúdo:História das relações sociais, da cultura e do trabalho→ Objetivos:- Conhecer sociedades que viviam aqui antes de 1500.- Entender as relações sociais e políticas de comunidades que habitavam o Brasil,Macaé e os sambaquis litorâneos.- Valorizar as tecnologias e os modos de vida desses povos.→ Conteúdos específicos:- Sociedades pré-históricas do Brasil, Rio de Janeiro e Macaé.- Relações sociais e políticas.- Tecnologias e modos de vida.→ Anos: 6º e 7º.→ Tempo estimado: três aulas.→ Material necessário: Mapa do Brasil, sites (Arqueologia Brasileira) e livros (Arqueologia da Amazônia e Brasil Rupestre) com texto e imagens sobre sociedades antigas. Texto do Léry sobre Macaé.→ Desenvolvimento: 1ª etapa Leia com a classe textos sobre Arqueologia e sociedades pré- históricas do Brasil. Mostre imagens de objetos de pedra, ossos e cerâmica utilizados por elas e pergunte como eram feitos e usados. Diga que o arqueólogo encontra peças como essas e define seu tempo de existência. Pergunte sobre a provável idade do material mostrado e peça um relato sobre o que foi aprendido. Em seguida faça a leitura do texto do Léry. 2ª etapa Divida a turma em grupos de seis e peça que cada um pesquise sobre um dos povos propostos e os artefatos que produzia. A idade da sociedade, onde ficava e como se extinguiu devem ser mencionados. Monte um quadro com os seguintes itens: região geográfica, alimentação, moradia, objetos, rituais, hierarquia. Os grupos devem preencher os tópicos com informações da sociedade estudada e comparar o levantamento feito na aula anterior com a pesquisa. Oriente os grupos e peça que preparem uma apresentação com cartazes. 3ª etapa Na hora do seminário, pendure um mapa do Brasil no quadro para os grupos localizarem a região habitada pela civilização a ser descrita. Cada aluno do grupo deve abordar um item do relatório feito. Durante as falas, pergunte se terrenos, matas, rios e praias eram como agora, o que pode ter mudado e por quê. Fale sobre a diversidade das populações atuais e que influências receberam das antigas. Proponha que todos anotem as informações sobre os povos apresentados pelos colegas num quadro igual ao já trabalhado. Elas
  24. 24. RELENDO MACAHÉfacilitam examinar a diversidade dos povos. Peça que cada aluno escreva porque registrou as informações, como imaginava os antigos povos e o quedescobriu. Como lição de casa, eles devem comparar sua pesquisa com a deoutra sociedade e fazer um relatório.→ Avaliação :Avalie os textos dos grupos e observe que categorias de comparação foramutilizadas, assim como semelhanças e diferenças elencadas.
  25. 25. RELENDO MACAHÉ 8. Descritores Em Língua Portuguesa:a) Localizar informações explícitas em um texto.b) Inferir o sentido de uma palavra ou expressão.c) Inferir uma informação implícita no texto.d) Interpretar texto com auxílio de material gráfico diverso (propagandas, quadrinhos, fotos, entre outros).e) Identificar o tema de um texto.f) Identificar a finalidade de textos de diferentes gêneros. Em Língua Matemática:a) Identificar a localização/movimentação de objeto em mapas, croquis e outras representações gráficas.b) Estabelecer relações entre unidades de medida de tempo.c) Calcular o resultado de uma adição ou subtração de números naturais.d) Calcular o resultado de uma multiplicação ou divisão de números naturais.e) Gravuras das Edições Francesas do século XVI. Mostram (da esquerda para direita): um funeral; divisão de tarefas e um combate.
  26. 26. RELENDO MACAHÉ9. BibliografiaLERY, Jean. Viagem à Terra do Brasil. São Paulo: Cia. Das Letras, 1999.SOUZA, Laura de Melo. O Diabo e a terra de Santa Cruz. São Paulo: Cia. Das Letras,1986.THEVET, André. As singularidades da França Antártica. Trad. Eugenio Amado. SãoPaulo: EDUSP, 1978.TODOROV, Tzvetan. A conquista da América. Trad. Beatriz Perrone Moisés. São Paulo:Martins Fontes, 1982.VAINFAS, Ronaldo. Trópico dos pecados. Rio de Janeiro: Campus, 1989. X-------------------------------------------------------------- -------------------------------------------------------------

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