Drawback: um novo cenário para a cadeia café

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Artigo publicado no Café Point em 23 de junho de 2006.

Publicada em: Negócios, Tecnologia
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Drawback: um novo cenário para a cadeia café

  1. 1. » O ponto de encontro da cadeia produtiva de café Page 1 of 2 Caso tenha algum problema na impressão deste artigo tecle Ctrl+P. [23/06/2006] Drawback: um novo cenário para a cadeia do café Vários são os pontos de vista quando se trata de política cafeeira Mara Luiza Gonçalves Freitas brasileira. São interesses ora convergentes, ora divergentes, mas Especialista em cafeicultura empresarial e que, ao longo do tempo, têm delineado a face da cafeicultura mestre em administração/UFLA Professora da nacional. Atualmente, além das discussões sobre investimentos Fundação Universidade de Gurupi/TO nas áreas de ciência e tecnologia e marketing do café, o mercado cafeeiro depara-se com uma importante discussão: a implementação da prática de drawback no contexto do agronegócio café brasileiro. Os eventos que precedem essa adoção demandam uma breve retrospectiva histórica do agronegócio, uma vez que, pode-se dizer que o advento da vinda da Starbucks para o Brasil, em 2006, está para o setor de cafeterias brasileiras, assim como o da vinda da Melitta, ocorrida nos anos 1970, está para a indústria de café. O primeiro, pode ser considerado um indicador de franca internacionalização dos negócios do café, inclusive industriais, e mudança do perfil do mercado consumidor, em relação à qualidade e políticas de promoção; enquanto o segundo, um indicador de quebra de paradigmas num contexto de baixo nível tecnológico e carência de profissionalização. A entrada da Melitta no Brasil, nos anos 1970, ocorreu em função do fim da política econômica brasileira de substituição das importações, trazendo para o país uma nova configuração em termos de tecnologia de industrialização de cafés. Pela primeira vez, o Brasil teve acesso à chamada embalagem a vácuo (ou tijolo), que permite maior durabilidade do café torrado em grão e ou moído, na prateleira do supermercado. Após a chegada dessa multinacional alemã, o setor industrial do café ainda registrou a entrada da americana Sara Lee (dona da marca Pilão), da israelense Strauss-Elite (dona da marca Três Corações e que atualmente é sócia de uma joint-venture formada com o grupo brasileiro Santa Clara - café Santa Clara), das italianas Segafredo Zanetti, Illy e Lavazza (as duas últimas apenas atuam no segmento de cafeterias, por meio da importação de café torrado já embalado, principalmente em sachês). Há ainda, a presença da portuguesa Delta, atuando também no segmento de cafeterias, com a comercialização de sachês. O acesso dessas multinacionais, além de ter forçado a elevação do padrão tecnológico das principais indústrias de café de capital brasileiro, sem dúvida contribuiu para o processo de redução do número total de indústrias de café existentes no país, saindo de um total de mais de 3.000 torrefações nos anos 90 para as atuais 1.100 companhias torrefadoras de café. A previsão é que até 2010, este número chegue a não mais que 100 empresas, em função do alto grau de competitividade no setor e a ativação do uso do drawback. Drawback, grosso modo, é uma prática de importação de matérias-primas realizada por determinada companhia do país, visando agregação de valor a produtos nacionais e sua posterior exportação. Pode ser utilizado também no processo de ampliação do leque de fornecedores de insumos, via a realização de cotações internacionais, onde se buscam os menores preços, dentro de padrão de qualidade predeterminado. É visível que a adoção do drawback não resolverá apenas o problema dos exportadores de café solúvel e torrado em grão e ou moído, que buscam a elevação do seu nível de competitividade, em função do preço e capacidade de atendimento a qualquer tipo de pedido. Resolve também a questão da chegada da Starbucks ao país. Ainda que o discurso adotado pela rede de cafeterias americana seja o da "abrasileirização" do cardápio de cafés servidos, trata-se de uma multinacional com perfil bem específico, ou melhor, dizendo, cosmopolita, filosofia nítida por meio de sua carta de cafés que oferece um passeio gastronômico pelos principais países produtores de café. A adequação do portfólio de produtos e serviços ao perfil local, normalmente só acontece em casos dehttp://www.cafepoint.com.br/pop/noticia.asp?noticiaID=143&areaID=26&secaoID=46 17/9/2007
  2. 2. » O ponto de encontro da cadeia produtiva de café Page 2 of 2 mercados muito mais arraigados a cultura e religião do que o nosso, como no caso dos indianos em relação à carne de bovinos (para a religião hindu, a vaca é um animal sagrado), como fez o Mc Donalds. O brasileiro tem, em função de sua própria formação multicultural, a dádiva de receber bem novidades e incorpora-las como hábitos cotidianos. O drawback, aplicado ao contexto do agronegócio café, ampliará a atratividade de investimento de multinacionais no país em função dos seguintes aspectos: 1)Pela proximidade do suprimento (o Brasil é o maior produtor de café do mundo) e isso impacta diretamente na redução do custo do quilo do café industrializado nacional. O preço do quilo de nosso café especial torrado configura-se como um dos principais fatores de sucesso da ação internacional brasileira do setor de torrefação. 2)Pelo custo da mão de obra brasileira, menor do que dos países de origem das multinacionais de café. 3)Pelo aumento da competitividade dos elos industriais do país, com a possibilidade de busca de fornecedores internacionais, reduzindo custos. 4)Em função de o Brasil ter elasticidade em relação à demanda de consumo: temos a tradição do cafezinho arraigada na cultura nacional e um mercado consumidor de perfil jovem e em fase de expansão. É evidente que, para que o país assuma o primeiro lugar no ranking mundial do consumo per capita (21 milhões de sacas até 2010), por meio de um discurso e prática calcados na qualidade e certificação, e amplie sua participação no mercado internacional de cafés industrializados, alguns sacrifícios serão necessários. Naturalmente, isso impactará em processo de exclusão de produtores também, deixando a cafeicultura familiar numa situação mais complicada do que a atual. Principalmente agora, quando o quarto comprador do café nacional, o Japão, define barreiras técnicas tão acirradas em relação à presença de agrotóxicos e cerca mais de outras 750 substâncias. A questão que fica é se a cafeicultura brasileira está disposta a "cortar na própria carne", em prol da sua completa inserção no contexto internacional, como plataforma de exportação não apenas de grãos verdes, mas também de café solúvel e torrado e moído. Qual o preço a ser pago pelo agronegócio para que essa transição aconteça plenamente, uma vez que, os tempos dos subsídios, ao que parece, já ficaram para trás? Coisas para os donos das canetas pensarem. Texto reproduzido do site CaféPoint [www.cafepoint.com.br]http://www.cafepoint.com.br/pop/noticia.asp?noticiaID=143&areaID=26&secaoID=46 17/9/2007

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