A Escolha, Apesar Da Dificuldade (Ana Costa)

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"A Escolha, Apesar da Dificuldade", Ana Costa, 26 de Março de 2009, Ciclo de Conferências "Das Sociedades Humanas às Sociedades Artificiais" (edição 200), Instituto de Sistemas e Robótica, Instituto Superior Técnico, Lisboa

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A Escolha, Apesar Da Dificuldade (Ana Costa)

  1. 1. Ana Costa (DINÂMIA/ISCTE) Das Sociedades Humanas às Sociedades Artificiais Instituto de Sistemas e Robótica (IST) 26 de Março de 2009 A Escolha, Apesar da Dificuldade
  2. 2. A Dificuldade da Escolha Noção <ul><li>As escolhas, ao nível individual, são frequentemente difíceis. </li></ul><ul><li>A dificuldade da escolha decorre da acção humana ser afectada por tendências diversas e contraditórias, de “uma relativa fluidez e diversidade dos elementos constituintes da personalidade. (...) atitudes complexas, instáveis, opostas, hábitos, impulsos” (Dewey, 1922, p. 138). A acção humana corresponde a um exercício criativo da inteligência. </li></ul>
  3. 3. A Dificuldade da Escolha Noção e Condições <ul><li>A dificuldade da escolha refere-se ao esforço envolvido no processo de deliberação sempre que o agente é confrontado com um conjunto de alternativas cujas consequências são avaliadas num espaço multidimensional de valores incomensuráveis e conflituantes . </li></ul><ul><li>O reconhecimento da dificuldade abre espaço para um outro tipo de relação entre alternativas – a incomparabilidade . </li></ul>
  4. 4. A Escolha Racional Teoria Económica Neoclássica <ul><li>Para a teoria neoclássica, a escolha corresponde à simples resolução de um problema de optimização sujeito a restrições . </li></ul><ul><li>Nesta teoria, o facto da escolha é tomado como evidência da possibilidade e da facilidade de compensar perdas numa dimensão de valor por ganhos noutra(s) ao longo de uma curva de indiferença. A racionalidade da escolha requer a comensurabilidade das várias dimensões de valor numa medida única de valor. </li></ul>
  5. 5. <ul><li>Porém: </li></ul><ul><li>“ tornar dois fins comensuráveis quando existem boas razões para pensar que eles são distintos em qualidade é em si mesmo um exemplo de irracionalidade.” (Nussbaum, 1997, p. 1202) </li></ul><ul><li>O pressuposto da comensurabilidade de valor traduz-se na impossibilidade de reconhecer a existência de conflito entre as diferentes dimensões de valor. </li></ul><ul><li>Os indivíduos escolhem efectivamente, mas escolhem muitas vezes com dificuldade . </li></ul>
  6. 6. A Dificuldade da Escolha Tipos de Dificuldade <ul><li>Dificuldade computacional : limitações computacionais do sujeito da escolha (Simon, 1955). </li></ul><ul><li>Dificuldade moral : dissonância e tensão emocional que resulta da contemplação de certas transacções entre valores. </li></ul>
  7. 7. <ul><li>Articular uma perspectiva da escolha que reconheça a incomensurabilidade de valor e os dilemas morais frequentemente envolvidos na deliberação; </li></ul><ul><li>Explorar uma noção de deliberação e de racionalidade que não se restrinja à selecção dos melhores meios para atingir fins dados, mas que envolva a definição dos fins da acção. </li></ul><ul><li>-> Reconhecimento da capacidade de reflexão dos seres humanos e da sua autonomia. </li></ul>Objectivos
  8. 8. A Escolha, Apesar da Dificuldade A tradição pragmatista-institucionalista <ul><li>O conflito entre hábitos na base da deliberação </li></ul><ul><li>“ Face ao conflito de hábitos (...) há uma busca consciente”; a “deliberação é um trabalho de descoberta” (Dewey, 1922, p. 180). </li></ul><ul><li>Mas o que é o hábito na concepção pragmatista? </li></ul><ul><li>O hábito é visto como uma predisposição (inata ou adquirida) para “certas vias ou modos de resposta (…); uma sensibilidade ou acessibilidade especial a certas classes de estímulo, predilecções e aversões (…)” e, ao mesmo tempo, como um propulsor, como vontade (Dewey, 1922, p. 42). </li></ul>
  9. 9. A Escolha, Apesar da Dificuldade A tradição pragmatista-institucionalista <ul><li>Hábito e rotina não são idênticos, nem existe oposição entre razão e hábito: </li></ul><ul><li>A verdadeira oposição “não é entre razão e hábito mas entre rotina, hábito não inteligente, e hábito inteligente, ou arte” (Dewey, 1922, p. 76) </li></ul><ul><li>A noção de hábito envolve a capacidade de reconhecer os próprios hábitos e de os julgar. </li></ul><ul><li>A capacidade de reconhecer e julgar os próprios hábitos não é um atributo de uma consciência desligada do corpo e da experiência; a força causal reside no impulso . </li></ul>
  10. 10. A Escolha, Apesar da Dificuldade A tradição pragmatista-institucionalista <ul><li>O lugar da inteligência na conduta humana está estabelecido: reconstruir os hábitos de forma a integrar impulso e hábitos num todo harmonioso. </li></ul><ul><li>O conflito entre hábitos não é algo que se possa estabelecer a priori , mas que apenas pode ser considerado no próprio contexto da acção. </li></ul><ul><li>A deliberação (ou a escolha) não é um momento que precede a actividade, nem muito menos uma causa dessa actividade. Ela decorre antes de uma perturbação da actividade. </li></ul>
  11. 11. A Escolha, Apesar da Dificuldade A tradição pragmatista-institucionalista <ul><li>A deliberação é um processo de descoberta, uma experiência que tem lugar em imaginação. </li></ul><ul><li>“ um ensaio dramático (imaginativo) de várias linhas de acção concorrenciais”. (Dewey, 1922, p. 190) </li></ul><ul><li>E a escolha? </li></ul><ul><li>“ simplesmente acertar imaginativamente num objecto que fornece um estímulo adequado para a acção. A escolha ocorre assim que algum hábito, ou alguma combinação de elementos de hábitos e impulsos, encontra um caminho completamente aberto. Nesse momento a energia é libertada. A decisão tomada, a mente recomposta, unificada” (Dewey, 1922, p. 192). </li></ul>
  12. 12. A Escolha, Apesar da Dificuldade A tradição pragmatista-institucionalista <ul><li>A deliberação e a relação meios-fins </li></ul><ul><li>A deliberação envolve a pesquisa de meios e de fins susceptíveis de articular os vários valores em confronto, proporcionando a superação do conflito entre valores e restabelecendo o equilíbrio entre organismo e ambiente. A deliberação é um processo criativo. </li></ul><ul><li>Certos fins podem ser reguladores de outros. </li></ul>
  13. 13. A Escolha, Apesar da Dificuldade A tradição pragmatista-institucionalista <ul><li>A deliberação é um processo simultaneamente criativo e transformativo </li></ul><ul><li>A deliberação envolve a reflexão acerca de questões como: “em que tipo de pessoa é que nos vamos tornar, que espécie de eu está em construção, que tipo de mundo é criado” (Dewey, 1922, p. 217). </li></ul><ul><li>No curso da acção tanto o agente, como o ambiente se transformam num processo não finalizado. A acção altera os hábitos e forma novas preferências, tanto quanto transforma o mundo. </li></ul>
  14. 14. A Escolha, Apesar da Dificuldade A tradição pragmatista-institucionalista <ul><li>A acção como processo </li></ul><ul><li>Toda a acção tem sempre um carácter experimental.O equilíbrio que se obtém entre sujeito e contexto com a escolha e a acção é sempre precário. </li></ul><ul><li>“ mesmo a deliberação mais abrangente, conduzindo à escolha mais importante, apenas fixa uma disposição que tem de ser continuamente aplicada em condições novas e desconhecidas, readaptada por deliberações futuras. Os nossos velhos hábitos e disposições conduzem‑nos sempre para novos campos. Temos que estar sempre a aprender e a reaprender o significado das nossas tendências activas.” (Dewey, 1922, p. 208) </li></ul>
  15. 15. A Escolha, Apesar da Dificuldade A tradição pragmatista-institucionalista <ul><li>A deliberação actual é condicionada pelas escolhas e acções decorrentes de deliberações anteriores e os hábitos e as disposições que formam o carácter dos indivíduos têm uma tendência para se reforçarem. </li></ul><ul><li>A deliberação e a acção actuais ligam‑se a futuras deliberações por intermédio dos cenários futuros, construídos em imaginação, que se procuram efectivar, sendo simultaneamente condicionadas pelos resultados de deliberações anteriores. </li></ul>
  16. 16. A Escolha, Apesar da Dificuldade A tradição pragmatista-institucionalista <ul><li>A escolha é racional quando é o resultado de um processo em que se procura articular as várias razões justificativas da escolha . A racionalidade depende da forma como o processo de deliberação foi conduzido. A “razoabilidade é na verdade a qualidade de um efectivo relacionamento entre desejos (...). Significa a ordem, a perspectiva, a proporção que é obtida durante a deliberação a partir da diversidade de preferências anteriormente incompatíveis.” (Dewey, 1922, p. 194) </li></ul><ul><li>A razão não se opõe ao impulso e à emoção. </li></ul>
  17. 17. <ul><li>Descoberta de uma nova alternativa capaz de superar o conflito ao dominar as restantes; </li></ul><ul><li>Reconfiguração dos valores de forma que uma das alternativas se destaque isolada no conjunto das não dominadas: </li></ul><ul><ul><li>Estabelecimento de níveis de aspiração para os valores e existência de relações de regulação entre eles; </li></ul></ul><ul><ul><li>Reespecificação dos valores, que embora represente um desvio relativamente ao fim-em-vista, não o compromete. </li></ul></ul>A Escolha, Apesar da Dificuldade Heurísticas de redução da dificuldade moral
  18. 18. A Escolha, Apesar da Dificuldade Heurísticas de redução da dificuldade moral <ul><li>Exemplo: </li></ul><ul><li>A Ana tem de decidir se inscreve o seu filho, o Afonso, numa escola pública ou privada. A Ana considera que o ensino público de acesso universal é uma instituição a manter e acarinhar, o que passa pelo não esvaziamento das escolas públicas. Ela dispõe de uma boa razão para escolher um estabelecimento público. Para a Ana há outros aspectos a tomar em consideração – a qualidade de ensino e a segurança. Face à informação que dispõe a Ana constata que quer a qualidade de ensino, quer a segurança são pior garantidas nos estabelecimentos públicos da sua zona residencial. </li></ul>
  19. 19. A Escolha, Apesar da Dificuldade Expansão do conjunto de alternativas iniciais <ul><li>A Ana opta pela escola pública ao mesmo tempo que procura para o Afonso actividades complementares extra-horário escolar, que garantam um complemento de formação e evitem a ocupação dos tempos livres em actividades recreativas numa vizinhança que considera problemática. </li></ul>
  20. 20. A Escolha, Apesar da Dificuldade Pesquisa no espaço de valores e reconfiguração <ul><li>Estabelecimento de níveis de aspiração para os valores – assimetria nas relações entre valores. </li></ul>Natureza do Estabelecimento (Pública/Privada) Qualidade Segurança A 1 0(3) 1(4) B 1 1(5) 1(3) C 0 1(6) 1(5)
  21. 21. A Escolha, Apesar da Dificuldade Pesquisa no espaço de valores e reconfiguração <ul><li>Reespecificação dos valores, que embora represente um desvio relativamente ao fim-em-vista, não o compromete de forma irreversível. </li></ul><ul><li>Para a Ana, as consequências da escolha da escola pública nas dimensões qualidade e segurança são inaceitáveis. </li></ul><ul><li>Suspensão temporária e não irreversível do valor ‘natureza do estabelecimento’ – ‘ensino público a partir dos primeiros níveis de escolaridade’. </li></ul>
  22. 22. Deliberação Pessoal e Deliberação Colectiva <ul><li>A deliberação pessoal não está contida ao nível do próprio indivíduo. Os indivíduos participam em processos comunicacionais com outros e agem com outros na concretização de determinados fins. </li></ul><ul><li>A deliberação colectiva parte de uma pluralidade de pontos de vista, de ‘visões do mundo’, podendo culminar na emergência de um cenário convergente e na formação de uma razão suficiente para agir. </li></ul><ul><li>Isso fornece ao indivíduo uma perspectiva a partir da qual novos fins podem ser reconfigurados. </li></ul>

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