Tec idol1b

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Tec idol1b

  1. 1. FEPPHA Fundação Estrada para o estudo e preservação do património histórico-arqueológico colecções de arte e arqueologia
  2. 2. Basta que formulemos a idéia de cânone, para que não possamos tomar o denominado naturalismo grego despojado da sua singular carga simbólica como mimetismo antropomórfico do transcendental, quer o tomemos como religião, crença ou filosofia. Nem mesmo ao pressuposto realismo do retrato romano poderíamos aplicar um tal critério. Na sua bonomia, na sua marciana virilidade, no auge do triunfo, ou mesmo no quotidiano trivial da vida campestre, tanto o patrício como o servo ficaram esconsos por detrás da máscara, nos atributos que o estatuto da representação lhes conferiu ou impôs. Ora, os atributos dos estatutos e das condições humanas foram exaustivamente codificados, mediante o mito, nos atributos das divindades ou das suas antíteses. Então poderemos propor que não há representação antropomórfica nas sociedades tradicionais e antigas que não seja idolográfica. O que dizemos é que, quando se fez representar, o próprio votante se entregou ao domínio da idolografia. È pela arguta percepção deste fenómeno, que a linguagem corrente atribuiu, por exemplo, às representações votivas de votantes da Idade do Ferro hispânica, geralmente em bronze, como os que aqui apresentamos, a denominação genérica de ídolos ibéricos ou celtibéricos. Para levar esta reflexão aos limites extremos do seu alcance, podemos ainda integrar no domínio da idolografia a representação dos mais triviais dos objectos votados, uma taça, um utensílio, uma insígnia. Um dos mais complexos temas da História da Arte é o que se prende com os critérios e a função da representação gráfica do Homem num dado contexto histórico, social e cultural. Para lá dos aspectos meramente morfológicos ou mesmo estéticos, que configuram o universo exclusivamente gráfico, em sentido restrito, que podemos associar a um contexto histórico e cultural e denominamos correntemente como estilo, estilo helenístico, estilo romano, naturalista, etc., situam-se aspectos universais e particulares semiológicos que congregam em si o complexo mundo do simbólico. Como símbolo gráfico ou como signo, o Homem, como objecto de representação, torna-se apto a abarcar um complexo universo de entidades graficamente irrepresentáveis, advindas do mundo dos conceitos, o bem, o mal, a ira, a benevolência, a regeneração, a luz, as trevas. É quando as entidades graficamente irrepresentáveis adquirem no mimetismo com as entidades tomadas à natureza o medium da sua representatividade que podemos falar em idolografia. E porque o símbolo não dispensa o suporte do discurso narrativo, entramos no mundo do mito.
  3. 3. Um dos pretextos que aglutinou a concepção desta secção foi a apresentação de um universo estruturadamente ilustrativo da tradição da representação idolográfica antropomórfica peninsular, durante um período particularmente expressivo, desde o Neolítico Final à Idade do Ferro. Foi aqui integrado um conjunto de lâminas de xisto recortadas e incisas, respeitantes predominantemente ao megalitismo alentejano, apto para ilustrar a sequência de evolução dos critérios gráficos da representação antropomórfica, desde as apresentações mais explícitas, com os braços recortados ou entalhados em relevo, às mais esquemáticas, em que mesmo os pormenores fisionómicos se encontram diluídos na representação intrusiva da ornamentação do vestuário ou dos adereços, num contexto de diluição do representado face à valorização da representação e da sua função como objecto integrante do culto ou do rito, ou mesmo como insígnia. Ao horizonte cultural do Calcolítico Estremenho do Vale do Tejo e da Península de Setúbal, pertencem os ídolos hemicónicos e cilíndricos em calcário e uma extensa gama de formas a que os arqueólogos atribuem antropomorfismo mais ou menos explícito, pesos de balança, alcachofras, esferas, ou ainda um precioso conjunto de pequenos objectos talhados em cristal de rocha, com ou sem pormenores de representação antropomórfica. Um variado conjunto de reproduções votivas de objectos pressupostamente triviais, taças, rastos de sandálias, enxós, ou de insígnias e adornos, um peitoral e uma lúnula, conjuntamente com dois esmerados exemplares de um objecto correntemente associado aos cultos funerários megalíticos, o báculo recortado e inciso em lâmina de xisto, ilustram o contexto em que o utensílio, o adorno ou a insígnia se intrometem no domínio da idolografia. Da tradição aglutinadora do Sudoeste peninsular, de paradigma almeriense, reuniu-se um diversificado conjunto de ídolos cilíndricos e cónicos, em osso, marfim e pedra, ou mesmo os que aproveitam o antropomorfismo esquemático de uma falange de equídeo para transposição dos pormenores anatómicos por incisão. O itinerário conclui-se com a apresentação do núcleo de exvotos ibéricos e celtibéricos, em bronze, cerâmica e pedra, quando o votante disputa já à divindade o estatuto do representado na complexidade do acto ritual. A par então da divindade, que, no seu antropomorfismo se confundia já com ele, surge, a habitar o templo ou o santuário, a representação do próprio sujeito do culto.

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