O Centro - n.º 68 – 24.04.2009

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Versão integral da edição n.º 68 do quinzenário “O Centro”, que se publica em Coimbra. Director: Jorge Castilho. 24.04.2009.

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O Centro - n.º 68 – 24.04.2009

  1. 1. DIRECTOR JORGE CASTILHO | Taxa Paga | Devesas – 4400 V. N. Gaia | Autorizado a circular em invólucro de plástico fechado (DE53742006MPC) Rua da Sofia, 95 - 3.º - 3000-390 COIMBRA Telef.: 309 801 277 ANO III N.º 68 (II série) 24 de Abril de 2009 1 euro (iva incluído) FOI O PRINCIPAL RESPONSÁVEL PELA REVOLUÇÃO DE 25 DE ABRIL DE 1974 Otelo favorável à Praça Salazar em Santa Comba Dão Otelo Saraiva de Carvalho surpreendeu ontem, em Coimbra, ao afirmar-se favorável à Praça Salazar em Santa Comba Dão. Este um dos aspectos das comemorações do 25 de Abril a que nos referimos nesta edição PÁG. 11 a 13 ATÉ 2 DE MAIO COMEÇA A 1 DE MAIO “FADADVOCAL” FOGOS FLORESTAIS Atractiva “Queima Cantores Portugal “Feira das Fitas” da Justiça está em ano do Livro” põe Coimbra lançam CD de grande em Coimbra a “escaldar” em Coimbra risco PÁG. 5 PÁG. 3 PÁG. 19 PÁG. 4
  2. 2. 2 EDITORIAL 24 DE ABRIL DE 2009 Aniversários... Jorge Castilho de 2009 para mim representa reside, nal: o semanário “Jornal de Coimbra”. quaisquer grupos ou interesses, a não jorge.castilho@gmail.com sobretudo, no facto de nele ter com- Tenho um enorme orgulho no papel ser o interesse público. E que, O “Centro” assinala, com esta edi- pletado (no dia 1 de Março que pas- que esse jornal desempenhou durante exactamente por isso, muitas ve- ção, o seu 3.º aniversário (na II Série). sou) exactamente quatro décadas os 17 anos em que foi publicado, quer zes é esquecido ou deliberadamen- Um aniversário em Abril, mês com como jornalista profissional (actual- enquanto órgão difusor de cultura, de te ignorado por alguns que não grande simbolismo, já que nele se ce- mente com a carteira n.º 99, num uni- informação isenta e de opinião plural, aceitam a independência, antes lebram os 40 anos da Crise Académi- verso que engloba hoje muitos milha- quer como escola de formação onde pretendem impor a subserviência. ca de 1969 e os 35 anos da “Revolu- res de jornalistas). se iniciaram alguns dos que hoje são O “Centro” quer continuar a pu- ção dos Cravos” – dois acontecimen- Ou seja, já lá vão mais de 40 anos dos mais reputados jornalistas portu- blicar-se, quer manter-se como um tos marcantes na luta pela Liberdade (porque já antes ia escrevinhando umas gueses (e também repórteres fotográfi- espaço de liberdade, uma tribuna e pela Democracia. coisas para jornais, em regime de ama- cos, paginadores e excelentes profissio- para o debate pluralista, um veícu- Ainda por cima dois acontecimen- dorismo) dedicados a esta profissão nais de outras áreas, que no “Jornal de lo difusor de boa informação e de tos que eu vivi intensamente, enquan- apaixonante, que me tem trazido mo- Coimbra” se iniciaram e fizeram a sua cultura, um defensor e promotor da to cidadão e enquanto jornalista. mentos de grande regozijo, mas tam- aprendizagem). Região Centro, cujo nome adoptou O aniversário do “Centro”impele- bém (como é apanágio das paixões...) Por razões que aqui me não apete- exactamente com esse propósito. -me a fazer algumas confidências pes- muitas horas de enorme sofrimento e ce hoje evocar, o “Jornal de Coimbra” Oxalá os responsáveis das ins- soais aos Leitores deste meu jornal, de amargas decepções. deixou de me pertencer e cessou a sua tituições desta Região entendam esperando que não as entendam como Têm sido 40 anos muito intensos, publicação... a importância de um jornal com um reprovável exercício de narcisismo, pois esta profissão só com intensida- Mas como sempre entendi que ti- estas características e tratem o mas antes como um desabafo que é de se pode assumir em plenitude. E nha obrigação de continuar a lutar “Centro” de forma semelhante à quase um balanço de vida, uma pres- extremamente diversificados: traba- pelos meus ideais, pelas boas práticas que concedem aos outros órgãos tação de contas a quem sinto que te- lhei em jornais diários e semanários, do jornalismo, pela minha cidade e de comunicação social. nho obrigação de o fazer. em matutinos e vespertinos; numa pela minha Região, há três anos reco- Não queremos privilégios. Ape- Porque este ano de 2009 tem para agência noticiosa nacional (a ANI, mecei do zero, relançando o “Centro”. nas reivindicamos o direito a que mim particular importância. hoje LUSA), noutra estrangeira (a Devo confessar que tem sido um reconheçam a nossa existência e Por um lado, será aquele em que Reuters); fui um dos fundadores e di- combate muito difícil, especialmente não nos impeçam de prosseguir o entrarei no clube dos sexagenários rector-geral da Rádio Jornal do Cen- nos últimos tempos, quando a crise nosso caminho. Um caminho nor- (em meados de Julho próximo, se lá tro (TSF/Coimbra); fui um dos funda- mundial começou a fazer-se sentir. teado pelos valores morais e pe- chegar...) – uma designação extrema- dores de uma produtora que, quando E tenho o dever de aqui manifestar los princípios éticos e deontológi- mente antipática, criada pelo estilo jor- apareceram os canais privados de te- o meu agradecimento, muito sincero, cos que trilhamos há mais de 40 nalístico de há umas décadas para de- levisão, para eles fazia a cobertura no- a tantos e tão excelentes Colabora- anos. Por respeito pelos Leitores, signar os velhos. Até aos 59 (que é o ticiosa da Região Centro; fui um dos dores que, de forma totalmente desin- por nós próprios e pela Profissão meu caso, no momento), o indivíduo fundadores do canal de televisão TV teressada, vêm dando o seu contribu- que abraçámos quando a sua prá- ainda tinha direito à menção da idade Saúde; tenho colaborado em estações to para valorizar os conteúdos deste tica era mais penosa e com maio- – não há referência a qualquer “cin- de rádio, jornais e revistas. jornal. Do mesmo modo que é minha res riscos, porque condicionada quentenário atropelado”... Mas mal se Comecei no diário da minha cidade obrigação referir o consolador apoio, pela Censura do regime derruba- cai nos 60, passa-se a sexagenário, (o “Diário de Coimbra”, de que meu Pai material e moral, de alguns Familiares, do em Abril de 1974. depois, se tudo correr bem, vem a foi Chefe de Redacção durante déca- que têm permitido manter este projecto. Coimbra e a Região Centro pre- “promoção” a septuagenário, com sor- das e até ter falecido, em Fevereiro de Contudo, este duríssimo combate só cisam, talvez mais do que nunca, te a octogenário, e já vão abundando 1969). Passei depois para o que já era poderá ser vencido com o apoio dos de vozes que contrariem o seu os (e as) nonagenários (para não fa- então o maior jornal diário do País (o Leitores, dos Assinantes e dos Anun- gradual apagamento e contribuam lar naqueles que ultrapassam a bar- “Jornal de Notícias”), onde trabalhei ciantes, tamanhas são as dificuldades para que se reforce a sua impor- reira dos 100, longevidade que ainda mais de 20 anos, e de onde saí, quando que a comunicação social enfrenta tância e o seu prestígio. dá direito a cobertura televisiva, mas ocupava uma estável posição de che- nesta época de crise. O “Centro” quer continuar a que tende a ser coisa banal). fia, para me lançar na arriscada aven- Dificuldades redobradas para um ser uma tribuna de Liberdade onde Porém, a importância que este ano tura de criar o meu próprio jornal regio- jornal pluralista e não alinhado com essas vozes se façam ouvir! Aos Assinantes do “Centro” Director: Jorge Castilho Como tem sido bem evidente nas notícias vindas a público, o sector da comunicação social (Carteira Profissional n.º 99) é um dos mais afectados pela crise que se abateu sobre toda a sociedade, sobretudo pelo brutal Editor/Propriedade: Audimprensa decréscimo nos investimentos publicitários. NIF: 501 863 109 Perante isto, até os grandes grupos de comunicação social estão a fazer despedimentos Sócios: Jorge Castilho e Irene Castilho em massa, para além de haver muitos jornais regionais que se viram já obrigados a suspender a publicação. ISSN: 1647-0540 Aqui no “Centro” estamos a fazer um enorme esforço para superar as dificuldades. Inscrito na DGCS sob o n.º 120 930 Mas esse esforço só será bem sucedido se conseguirmos receitas de publicidade e se os nossos Composição e montagem: Audimprensa Assinantes tiverem a gentileza de proceder ao pagamento da respectiva assinatura anual Rua da Sofia, 95, 2.º e 3.º - 3000-390 Coimbra - que se mantém em 20 euros desde o início do jornal. Se quer que esta tribuna livre possa manter-se, muito agradecemos que nos envie o pagamento Telefone: 309 801 277 - Fax: 309 819 913 da sua assinatura - uma verba que representa apenas o equivalente a cerca de 5 cêntimos por dia, e-mail: centro.jornal@gmail.com menos de 40 cêntimos por semana! Impressão: CORAZE Outra forma de ajudar este projecto independente é conseguir-nos novos Assinantes, Oliveira de Azeméis por exemplo entre os seus familiares e amigos (veja a página ao lado). Depósito legal n.º 250930/06 Tiragem média: 5.000 exemplares Contamos consigo!
  3. 3. 24 DE ABRIL DE 2009 COIMBRA 3 “Queima Lançamento do I Volume de “TELO DE MORAIS das Fitas” | COLECÇÃO” anima A Câmara Municipal de Coimbra, através do De- partamento de Cultura / Divisão de Museologia, apre- Coimbra senta hoje (sexta-feira, dia 24), às 18h00, o I Volume “Telo de Morais – Colecção”, de autoria de Leonor Oliveira, Raquel Henriques da Silva e Virgínia Gomes. A Queima das Fitas, considerada por A apresentação da obra/catálogo estará a cargo de alguns como “a maior e mais animada Raquel Henriques da Silva, uma das autoras do estudo festa de estudantes do Mundo”, volta a científico. animar a cidade entre os dias 1 e 8 de Desde a inauguração do primeiro pólo do Museu Maio próximos. Municipal – Colecção Telo de Morais – que está pre- Embora se mantenham as manifesta- visto a elaboração de um livro/catálogo de todo o acer- ções tradicionais, volta assim a existir uma vo da Colecção, com o objectivo de divulgar o tão va- mudança nos dias da semana que eram riado espólio e permitir uma melhor compreensão das habiruais a cada uma das realizações. obras expostas, integrando-as nos movimentos artísti- No que toca aos espectáculos, a res- cos correspondentes. pectiva Comissão considera que “o pro- A publicação está dividida em dois volumes: o pri- grama das noites de parque é o mais equi- meiro, a ser lançado hoje, destinado ao núcleo de Pin- librado dos últimos tempos, tendo os me- tura e Desenho; o segundo, com o restante acervo, lhores nomes a nível nacional, de que se repartido por diferentes núcleos: Cerâmica, Escultura, destacam os “Xutos & Pontapés”, “Quim Mobiliário, Prata, entre outros. Barreiros”,”Blasted Mechanism” e Bu- O lançamento do primeiro volume do Catálogo da raka Som Sistema”. A nível Internacional Colecção Telo de Morais assinala o arranque de uma vão actuar algumas das bandas mais em série de iniciativas que decorrerão no decurso de 2009/ foco do momento, como “Morcheeba”, 2010, no âmbito das Comemorações do Centenário do “Brandi Carlile”, “Patrice” e “Cansei de Edifício Chiado. Ser Sexy”. ORIGINAL PRESENTE POR APENAS 20 EUROS AUDIMPRENSA Jornal “Centro” Ofereça uma assinatura do “Centro” Rua da Sofia. 95 - 3.º 3000–390 COIMBRA e ganhe valiosa obra de arte Poderá também dirigir-nos o seu pe- dido de assinatura através de: telefone 309 801 277 Temos uma excelente sugestão ma tão original, está a desabrochar, sua casa (ou no local que nos indicar), fax 309 819 913 para uma oferta a um Amigo, a um simbolizando o crescente desenvolvi- o jornal “Centro”, que o manterá ou para o seguinte endereço Familiar ou mesmo para si próprio: mento desta Região Centro de Portu- sempre bem informado sobre o que de de e-mail: uma assinatura anual do jornal gal, tão rica de potencialidades, de His- mais importante vai acontecendo nes- centro.jornal@gmail.com “Centro” tória, de Cultura, de património arqui- ta Região, no País e no Mundo. Para além da obra de arte que des- Custa apenas 20 euros e ainda re- tectónico, de deslumbrantes paisagens Tudo isto, voltamos a sublinhá-lo, de já lhe oferecemos, estamos a pre- cebe de imediato, completamente (desde as praias magníficas até às ser- por APENAS 20 EUROS! parar muitas outras regalias para os grátis, uma valiosa obra de arte. ras imponentes) e, ainda, de gente hos- Não perca esta campanha promo- nossos assinantes, pelo que os 20 eu- Trata-se de um belíssimo trabalho pitaleira e trabalhadora. cional e ASSINE JÁ o “Centro”. ros da assinatura serão um excelente da autoria de Zé Penicheiro, expres- Não perca, pois, a oportunidade de Para tanto, basta cortar e preen- investimento. samente concebido para o jornal receber já, GRATUITAMENTE, cher o cupão que abaixo publicamos, O seu apoio é imprescindível para “Centro”, com o cunho bem carac- esta magnífica obra de arte (cujas di- e enviá-lo, acompanhado do valor de que o “Centro” cresça e se desen- terístico deste artista plástico – um mensões são 50 cm x 34 cm). 20 euros (de preferência em cheque volva, dando voz a esta Região. dos mais prestigiados pintores portu- Para além desta oferta, o beneficiá- passado em nome de AUDIMPREN- gueses, com reconhecimento mesmo rio passará a receber directamente em SA), para a seguinte morada: CONTAMOS CONSIGO! a nível internacional, estando repre- sentado em colecções espalhadas por vários pontos do Mundo. Neste trabalho, Zé Penicheiro, Desejo oferecer/subscrever uma assinatura anual do CENTRO com o seu traço peculiar e a incon- fundível utilização de uma invulgar paleta de cores, criou uma obra que alia grande qualidade artística a um profundo simbolismo. De facto, o artista, para represen- tar a Região Centro, concebeu uma flor, composta pelos seis distritos que integram esta zona do País: Aveiro, Castelo Branco, Coimbra, Guarda, Leiria e Viseu. Cada um destes distritos é repre- sentado por um elemento (remeten- do para o respectivo património his- tórico, arquitectónico ou natural). A flor, assim composta desta for-
  4. 4. 4 OPINIÃO 24 DE ABRIL DE 2009 Um ano de maior risco Vasco Paiva de fogos florestais mvcfp@hotmail.com co, a vegetação herbácea e arbustiva rificadas, estão a comprová-lo. te fustigada por fogos florestais. começa a secar, e ou se verifica uma Acresce que os dois, três, últimos Duas questões retive. Todos os anos, quando chega a Pri- inversão significativa no clima que te- anos foram mais frescos e com pou- Uma delas é que sendo um facto mavera, costumo reflectir sobre o Ve- mos nas próximas semanas, meses, ou ca intensidade de fogos. Não se to- comprovado que o lançamento de fo- rão que nos espera e o risco de fogos iremos ter pela frente muitos fogos flo- maram as medidas adequadas para a guetes nas festas e romarias tem pro- florestais que temos pela frente. Com vocado muitos fogos, apesar disso al- frequência tenho partilhado essa re- guns líderes (?) das aldeias teimavam flexão com os leitores. Feliz ou infe- em defender esse hábito, porque o lizmente essas reflexões, previsões, povo precisa de festas e… “limpem não têm andado longe da verdade. os matos e deixem o foguetório acon- E não têm andado longe do que re- tecer”. Cabe às autoridades licenci- almente vem a acontecer, não por ne- ar, ou não, esse tipo de festejos. Es- nhum acto de adivinhação ou qualquer peremos que esses licenciamentos tipo de ciência oculta. É fundamen- não ocorram e que o desejo de agra- talmente o clima que determina essas dar, de colher votos num ano com tan- ocorrências e a dimensão que pode- rão vir a alcançar. É necessário evitar No ano passado, afirmei nas pági- as ignições, nas deste jornal que teríamos um Ve- é necessário prevenir, rão fresco, que teríamos poucos fo- gos, de reduzida dimensão. E que isso controlar os matos, era sobretudo resultado das condições vigilância e detecção de clima e não de uma melhoria signi- eficazes, rapidez ficativa do esquema de prevenção e na actuação, meios combate, e muito menos do facto de de combate existirem mais ou menos incendiári- os. Foi o que aconteceu. quando já não puderem Este ano tudo se conjuga para ter- restais com os incontroláveis prejuí- limpeza de matos. Não houve finan- ser evitados os fogos mos um ano difícil. Tem chovido pou- zos. As primeiras ocorrências, já ve- ciamentos e apoios eficazes para o efeito. Acumulou-se carga combustí- tas eleições, não leve a que as autori- vel, matos mais extensos e de maio- dades civis e policiais facilitem. res dimensões. A outra foi o facto de que, perante a Em circunstâncias destas, são neces- proibição de queimadas e a ameaça de sárias medidas de emergência. É neces- multas, as pessoas no meio rural estão sário evitar as ignições, é necessário a fazê-las a coberto da noite e de uma prevenir, controlar os matos, vigilância forma descontrolada, fugindo do local e detecção eficazes, rapidez na actua- para não serem apanhadas pela GNR. ção, meios de combate quando já não Será bem melhor uma acção pedagó- puderem ser evitados os fogos. gica e ajudar, quem precisa, a fazer es- As questões fundamentais, enquan- sas queimadas com a presença dos to ainda estamos a tempo, residem na bombeiros e em segurança. limpeza de matos em locais estratégi- Esperemos que o bom senso pre- cos, criar faixas de contenção. Resi- valeça e que não venha por aí, peran- dem ainda no evitar de ignições que, te desgraças incontroladas, a esfar- descontroladas, podem provocar fogos rapada desculpa de que são mãos cri- de grandes dimensões. minosas e incendiários loucos. Há poucos dias assisti a uma sessão É uma desculpa habitual e fácil, mas de sensibilização numa freguesia rural não resolve problema nenhum e só ser- do Oeste, perto de uma zona fortemen- ve para esconder as responsabilidades. VENDE-SE Casa com 3 pisos grande quintal e anexos num dos melhores locais de Coimbra (Rua Pinheiro Chagas, junto à Avenida Afonso Henriques) Informa telemóvel 919 447 780
  5. 5. 24 DE ABRIL DE 2009 COIMBRA 5 REFERE ESTUDO APRESENTADO NA FEIRA DO LIVRO DE COIMBRA Quem mais lê melhor cuida da sua saúde Quem lê livros é mais capaz de adoptar Nesta amostra perto de 2 por cento dos literacia, afirmam os clínicos. estilos de vida saudável, de gerir as doenças utentes possuíam mestrado ou doutoramen- “A adopção de comportamentos desti- e de compreender a mensagem do médico, to, 26 por cento formação superior, e ape- nados a promover hábitos saudáveis, a par conclui um estudo sobre os hábitos de leitu- nas 17 por cento possuía o primeiro ciclo. da educação, resulta numa maior literacia ra realizado em centros de saúde. Dos leitores de livros 59 por cento tinha for- em saúde, numa acrescida capacidade de “Há uma relação positiva entre os níveis mação superior ou secundária. compreensão das mensagens de saúde e de literacia dos cidadãos e o nível de saúde Na investigação realizada por Rosa Costa numa maior capacidade em gerir doenças de uma população”, afirmam os médicos e Rui Macedo no âmbito do Plano Nacional crónicas”, concluem. Rosa Costa e Rui Macedo, num trabalho de Leitura “Ler+ dá Saúde”, conclui-se que apresentado ontem (quinta-feira) na Feira quando os profissionais de saúde se envol- FEIRA FUNCIONA do Livro de Coimbra, no âmbito das come- vem no aconselhamento da leitura em fa- ATÉ 2 DE MAIO morações do Dia Mundial do Livro. mília melhoram-se os níveis de literacia e os O trabalho, sobre hábitos de leitura e com- hábitos de leitura das crianças. Com um diversificado programa de pra de livros, jornais e revistas, foi realizado No entendimento de Rosa Costa, estes animação cultural, a Feira do Livro de através de questionário, entre 2 e 11 de dados reforçam a necessidade de criar “can- Coimbra tem, acima de tudo, o enorme Março último a utentes de dois centros de tinhos de leitura” nos centros de saúde, onde atractivo de proporcionar a aquisição de saúde de Coimbra onde estes médicos de- os utentes os possam manusear enquanto livros de todos os géneros (são muitos senvolvem a actividade clínica, o da Fernão aguardam a consulta. milhares de títulos de editoras nacionais de Magalhães, e o de S. Martinho do Bispo. “Quando os livros estão presentes, com e estrangeiras) a preços muito mais aces- Nessa amostra constituída por 342 uten- Quem lê, lê por gosto (94 por cento), e maior facilidade o médico abordará o tema síveis. tes (68 por cento mulheres) os melhores lei- em 76 por cento dos casos escolhe livros da leitura com o seu utente, e este revelará Mas outros aspectos há que bem jus- tores são... as leitoras, principalmente as mais que não são escolares nem técnicosescola- menor estranheza pelo assunto”, afirmou à tificam uma visita à tenda gigante insta- jovens e as mais escolarizadas. Não foram res. Os livros com maior presença nos lares agência Lusa. lada na Praça da República. considerados os cidadãos analfabetos e os são de literatura em geral, enciclopédias/di- Na sua perspectiva, “era importante que Entre eles uma exposição fotográfica jovens abaixo dos 15 anos. cionários e os escolares. nas consultas se falasse da leitura”, mesmo alusiva à Crise Académica de 1969, or- No estudo, 74 por cento dos inquiridos Cerca de 67 por cento costuma comprar nas de saúde infantil, antes mesmo de as ganizada pela Secção Fotográfica da dizem-se leitores de livros e 70 por cento de um a seis livros por ano e 4 por cento crianças aprenderem a ler. Associação Académica de Coimbra. lêem jornais/revistas. Setenta e dois por cen- mais de 21. Um pouco mais de 15 por cento O convívio com livros e a leitura em fa- Para além disso, todos os dias há ses- to dedicam aos livros três horas por semana dos inquiridos declarou não saber quando mília, entre adultos e crianças com menos sões de autógrafos com a presença de e 75 por cento dizem ocupar duas horas por adquiriu o último livro, ou não respondeu à de seis meses, são determinantes na apren- escritores, que ali dialogam com os seus semana com jornais e revistas. questão. dizagem da leitura e no desenvolvimento da leitores. PRAÇA DA Soneto REPÚBLICA de uma Carlos Carranca guitarra portuguesa a Jorge Gomes Sou de mil acordes o sustento Dos que sofrem e suspiram. Afagam-me nos ventres engelhados Escravos do meu corpo enlouquecido. Rasgam-me doem-me sonhando O som que os enleva e acompanha. Levitação; deuses pequeninos. A música a nascer-me das entranhas. Quem me tange me incendeia – dedos da vida solidários. O sonho os ilumina Seiva – chão de amor e terra. E o meu corpo – guerra De amor e mar que se franteia.
  6. 6. 6 NACIONAL 24 DE ABRIL DE 2009 Pequenos empresários pedem apoios Cerca de duas centenas de pequenos queixas e anseios. 17 por cento e a sua redução para 7 por “Ninguem sabe quantas micro e pe- empresários concentraram-se ontem (quin- “O assessor do primeiro ministro para os cento no sector da restauração. quenas empresas foram beneficiadas”, ta-feira) junto à residência oficial do primei- assuntos laborais recebeu-nos e garantiu- Ao nível da secretaria de Estado do Co- afirmou José Luis Silva acrescentando ro-ministro para pedir o desagramento fis- nos que as secretarias de Estado da tutela mércio, pretendem a garantia de que não que “os empréstimos bancários são uma cal e medidas efectivas de apoio às micro e iriam dar a devida atenção às nossas reinvi- sejam licenciadas novas grandes superfíci- fraude porque armadilham o que resta pequenas empresas que enfrentam o risco dicações, mas isso é de todo insatisfatório”, es comerciais e que estas encerrem ao do- da vida dos pequenos empresários, exi- de encerramento. disse o dirigente da CPPME depois de sair mingo para permitirem a sobrevivência do gindo-lhes como garantias as respecti- “Viemos aqui, com algum apoio, para da residência oficial de S.Bento. pequeno comércio. vas lojas e habitações”. mostrar ao primeiro-ministro a razão do nos- Quintino Aguiar afirmou, no entanto, que “Todas estas medidas e o acesso efecti- Muitos dos pequenos empresários que se so descontentamento pois os contactos que a estrutura a que preside irá esperar por vo a fundos do QREN são fundamentais concentraram em S.Bento eram fotógrafos, já tivemos com secretarias de Estado não novas reuniões com a secretaria de Estado para salvaguardar o que resta das micro e que fizeram questão de participar de má- contribuiram em nada para a resolução dos dos Assuntos Fiscais e com a secretaria de pequenas empresas”, disse à Lusa José Luis quina ao ombro e mascarinha preta, para nosso problemas”, disse à agência Lusa Estado do Comércio e depois, dependendo Silva, dirignete da CPPME e presidente da simbolizar a solidariedade para com os co- Quintino Aguiar, presidente da Confedera- dos resultados, decidirá o que fazer. Associação de micro e pequenas empresas legas que se têm retirados da profissão de- ção Portuguesa das Micro, Pequenas e Os pequenos empresários que vieram de de Setúbal e do Alentejo. vido a dificuldades de subsistência. Médias Empresas (CPPME). vários pontos do país queixam-se de que a Este pequeno empresário (taxista) con- Estes profissionais também entregaram Quintino Aguiar chefiou a delegação que Secretaria de Estado dos Assuntos Fiscais siderou que o Governo “está a cometer um um documento ao primeiro-ministro em que entregou no gabinete de José Socrates os não deu resposta aos seus pedidos de de- erro gravíssimo ao colocar nas mãos da pedem a regulamentação da profissão e a documentos reivindicativos em que os pe- gravamento fiscal, nomeadamente a elimi- banca a distribuição de fundos para as mi- actuação da Autoridade da Concorrência quenos empresários expuseram as suas nação do PEC, a redução do IVA para os cro e pequenas empresas”. para evitar a concorrência desleal. ponto . por . ponto Por Sertório Pinho Martins A crise culos que os empurrou para os cadeirões tarcas despudorados e demais in-circles do to-socorro às falências dos grandes grupos, Tudo de repente passou de moda e ficou do poder. Até os sem-abrigo perceberam poder, alargam os cós das calças com tanta compra de acções acima do preço de mer- sensaborão : a ‘crise’ é a estrela do mo- que algo mudou, porque a torneira das es- falta de cuidado na alimentação – e sabem cado,…), não vão durar senão o tempo bre- mento! Crise à bordalesa ou de fricassé, molas alimentares começou a jorrar mais bem que, com este ou com outro governo, ve das escolhas eleitorais : porque depois crise de trazer por casa ou de faz-de-conta, grosso. E até Deus parece que entrou em vão depender e respirar a generosidade da tudo volta ao mesmo fado da crise. E os crise de valores e de princípios, crise de pa- crise de bondade, e na sua surpresa divina gota-a-gota de quem detém a decisão final. reitores das universidades já o perceberam, ciência para ouvir falar de mais crise. Insta- só repete “perdoai-lhes, que não sabem o Quem se mete com o poder político – este a CGTP e a UGT também, os professores lou-se a diarreia mental e a soltura do verbo que fazem”. ou outro de antes ou depois – já sabe que nem se fala, os novos reformados já sabem só soletra ‘crise’. Só balbucia ‘crise’. A clas- que vão entrar para o rol dos pagadores de se média geme só de ouvir falar em crise, (...) a crise é filha de mãe solteira e de pai incógnito, promessas, – e se calhar o povo anónimo as pequenas e médias empresas asfixiam como convém: a criança tornou-se um impecilho não vai encarneirar muito mais tempo, por- na lama da crise, os pobretanas fazem um que tem filhos para alimentar, prestações a manguito à crise, a gatunagem chama um incómodo e foi entregue aos cuidados adoptivos cumprir num quadro de spreads galopante, figo à crise. A Justiça não tem mãos a medir da solidariedade social. Os banqueiros, habituados e com a esperança a diluir-se pelo esgoto com a crise, as benesses sociais navegam à velha confiança que a impunidade dá, compraram abaixo. na crista da onda da crise, a Educação jus- camarotes de luxo nos cruzeiros de negócios Os partido políticos, que deviam ser o tifica disparates a esmo com o fantasma da aos paraísos fiscais (...) espelho da boa-conduta, é o que se vê: a crise. Cavaco Silva está farto de ouvir falar crise serve-lhes às mil maravilhas para en- em crise e clama no deserto pelo fim da dita Portas adentro, a crise é filha de mãe mais tarde ou mais cedo “leva”! E as bar- cobrir incompetências, ganâncias, uniões cuja. O Governo, fixado no umbigo e des- solteira e de pai incógnito, como convém: a bas de molho ainda são uma mezinha eficaz de facto e arranjinhos de vão-de-escada, lumbrado com o espelho mágico das maio- criança tornou-se um impecilho incómodo e nos grandes momentos de aflição. vingançazinhas, limpeza de balneários, rias absolutas, caiu subitamente na real e foi entregue aos cuidados adoptivos da soli- E chegamos ao cerne do busílis: a pro- compadrios, subida de umas décimas nas anda numa sarabanda de medidas contra a dariedade social. Os banqueiros, habituados miscuidade entre o poder económico e o sondagens. E o povoléu que se amanhe, crise que até há pouco tempo jurava a pés à velha confiança que a impunidade dá, com- poder político, não deixa espaço suficiente com a ajuda de Deus e da solidariedade juntos ser pura invenção das oposições e praram camarotes de luxo nos cruzeiros de para gerir com mão firme uma crise que dos que ainda se vão condoendo da des- não passar de maleita circunscrita ao sub- negócios aos paraísos fiscais, e não abdi- ameaça levar-nos ao fundo. E se Cavaco graça alheia. prime americano. O TGV, a quarta traves- cam da minguada jorna mensal que lhes re- Silva não estiver para engolir sapos que lhe E para a história ficarão apenas as sia do Tejo e o novo aeroporto, andam nas tribui a dedicação às instituições que come- compliquem a digestão dos poderes presi- sombras e as memórias de que houve nuvens e não são definitivamente parte as- çaram por parasitar as poupanças do Zé- denciais, a coisa ainda vai fiar mais fino. Os uma crise de morrer e de matar, a pior e sumida desta crise. As exportações e as povinho e a seguir sugaram prazenteiramen- desfiles de rua não se comoverão com mais mais arrasadora (dizem) no pós-25 de importações nunca se viram num carrossel te os milhões caídos do céu e dos bolsos de promessas eleitorais, quando a barriga va- Abril. Pelo meu lado – e esta vai, do fun- tão empinado e de enjoo permanente como qualquer calmeirão da negociata escura. zia discute acaloradamente com a razão. Os do do coração, para o Jorge Castilho – o desta crise. Os ministros (à excepção de Com a crise, os contribuintes anónimos aper- remendos à esquerda (sigilo bancário, ca- gostaria que o CENTRO não fosse uma Vieira da Silva) não sabem para onde se tam o cinto, e os governantes, gestores de samento gay, aborto, e por aí fora) e os pis- das vítimas inocentes da matança cega virar, porque a crise não fez parte dos currí- grandes empresas (públicas e privadas), au- car-de-olhos à direita (IRC bancário, pron- da nossa esperança colectiva.
  7. 7. 24 DE ABRIL DE 2009 NACIONAL 7 Vila Franca de Xira também é uma Lição realismo português”, cujo catálogo, de ex- nhas são dez, uma delas repetida em for- beu do Estado Português. celente apresentação gráfica , 496 pági- mato gigante – talvez mais de 3 metros. As exposições, reveladoras da capa- nas com recheio excepcional, envolve o Estão igualmente abertas ao público cidade do Museu do Neo-Realismo, são Varela Pècurto que ao neo-realismo português diz respeito. mais duas exposições, uma de Miguel motivo justificado para uma visita, o que Agora o Museu volta a surpreender Palma, representado em numerosas co- aconselho vivamente. Nem por estar a escassa distância da com a apresentação de outra exposição, lecções nacionais e estrangeiras, públi- Tal como aconteceu na “Batalha pelo capital do País, Vila Franca de Xira se cuja organização mobilizou mais de uma cas e privadas; a outra mostra as obras Conteúdo”, também na “Batalha de Som- queda na indiferença, quando confron- vintena de especialistas, credores do nos- do escritor doutor Mário Braga, que vi- bras”, travadas em Vila Franca de Xira, tada com a importância de Lisboa. so elogio, todos, sem excepção. No en- veu nos arredores de Coimbra, expon- a Vitória foi indiscutível. Pelo contrário. Reage e prossegue o tanto, pela intervenção tão vincada na ex- do-se ainda documentos vários, cartas, Parabéns a quantos batalharam para seu desenvolvimento em todas as fren- posição, a começar pela pesquisa e pas- fotografias e a condecoração que rece- que fosse alcançada. tes, de que é exemplo a Cultura. sando pela organização documental, justo será citar a doutora Emília Tavares, do Museu Nacio- CIRCULA NA INTERNET nal de Arte Contemporânea – Museu Chiado, Lisboa, base da colecção de foto- Homenagem a Varela Pècurto grafias dos anos 50, dirigido A internet possibilita coisas extraordinárias! E aqui relatamos uma, que desde finais de 90 pelo dou- será uma boa surpresa para Varela Pècurto, por demonstrar que, mesmo tor Pedro Lapa que se es- longe, no tempo e no espaço, há quem continue a considerá-lo como um Mes- forçou na promoção desta tre e a exprimir-lhe gratidão. exposição e que foi o inicia- Eis um comentário que colhemos na net, assinado por Francisco Forjaz de dor da colecção de fotogra- Sampaio, um fotógrafo com reputação internacional, que assim se refere a fias que o Museu já possui. Varela Pècurto:. Emília Tavares, que na “A este homem extraordinario, que teve a paciência de me suportar horas exposição “Batalha pelo e horas na câmara escura da Hilda e mesmo no Fotoclub , devo todo o entu- Conteúdo” apresentou o que siasmo e a técnica que fez de mim mais tarde, na Alemanha, um bom fotógra- pode ser considerado o pri- fo. Recordo que citei num workshop do Willy Flekaus (mestre do preto e meiro estudo “sobre a rela- branco e um dos criadores da “Photokina”) esta afirmação do querido Varela: ção da disciplina de fotogra- ‘Não preciso de célula fotoeléctrica para tirar fotografias a preto e bran- fia com o neo-realismo, o co, nunca me engano’. cruzamento entre as práticas Um só desejo: que esteja vivo e de boa saúde (...) A minha gratidão”. salonistas e o novo «huma- nismo» desenvolvido pela cultura oposicionista”, ago- ra, na exposição “Batalha de “Viúva da Nazaré”: uma das fotografias de Varela Pècurto exposta no Museu do Neo-Realismo, Sombras” aborda a historio- em Vila Franca de Xira grafia da fotografia portu- guesa, escalpelizando-a ao E a prová-lo basta conhecer a activi- longo de mais de cinquenta páginas. dade que se tem verificado no Museu do Não tem lugar neste pequeno e mo- Neo-Realismo, entidade que muito hon- desto espaço comentar, melhor diria dis- ra o Município e a cidade. cutir, o conteúdo do seu texto, até por- Sedeado num belo edifício que muitas que, na generalidade, estou de acordo localidades desejariam, visitámo-lo há uns com ele. meses para assistir à inauguração da ex- Importa, sim, referir que, mais uma vez, posição “Batalha de Sombras” que será Vila Franca de Xira está de parabéns por complementada com dois encontros, em esta iniciativa e que Coimbra sai dignifi- 30 de Maio e 6 de Junho próximos. cada com a sua representação (até gra- Em finais de 2007, o Museu do Neo- ças ao extinto Grupo Câmara). Realismo, acabada a remodelação das Das 90 fotografias expostas, de diver- suas instalações, foi centro da grande ex- sas tendências, do doutor Franklim de Fi- posição “Batalha pelo Conteúdo no neo- gueiredo – já falecido – são duas e mi-
  8. 8. 8 INTERNACIONAL 24 DE ABRIL DE 2009 Parlamento Europeu aprova legislação sobre agências de ‘rating’ O Parlamento Europeu (PE) aprovou cedimento de registo das agências de ontem (quinta-feira) a primeira legisla- notação de crédito, de modo a que pos- ção sobre agências de notação de crédi- sam ser controladas as actividades das to, definindo regras e obrigações que vi- agências cujas notações são utilizadas sam trazer maior transparência a uma pelas instituições de crédito, sociedades actividade que esteve em foco, pela ne- de investimento, empresas de seguros e gativa, com o despertar da crise global. de resseguros, organismos de investimen- “Integridade, transparência, responsa- to colectivo e fundos de pensões da bilidade e boa governação são as pala- União Europeia. Actualmente, existe vras de ordem da primeira legislação apenas um código de conduta voluntá- europeia sobre as agências de notação rio. de crédito”, informou o PE. O registo das agências de notação pelo Estas agências passam a ter que res- Comité das Autoridades de Regulamen- peitar um conjunto de obrigações adicio- tação dos Mercados Europeus de Valo- nais em relação às notações de produtos res Mobiliários (CARMEVM), o refor- financeiros estruturados, medidas relativas ço da transparência, da informação e da aos conflitos de interesses, à qualidade das protecção dos investidores, o regime de notações, à transparência das agências e responsabilidade, um mecanismo de ro- à supervisão das suas actividades. tação dos analistas e a garantia de que A elaboração deste regulamento tor- actual crise financeira mundial”, reconhe- das condições do mercado, por um lado”, as notações não sejam afectadas por nou-se necessária devido às insuficiên- ce o relator da Comissão dos Assuntos e “não conseguiram ajustar atempada- eventuais conflitos de interesse são al- cias ou falhas constatadas aquando da Económicos e Monetários do PE, Jean- mente as suas notações de crédito na guns dos pontos sobre os quais o Parla- emissão ou seguimento das notações Paul Gauzès. sequência do agravamento da crise dos mento Europeu e o Conselho - que co- emitidas pelas agências de notação. Estas agências “não reflectiam nas mercados, por outro”, lê-se no documen- legislam nesta matéria - chegaram a “É claro que estas insuficiências ou suas notações de crédito, numa fase su- to hoje aprovado. acordo, aprovado em plenário por 569 falhas contribuíram, em parte, para a ficientemente precoce, a deterioração A legislação europeia introduz um pro- votos a favor, 47 contra e 4 abstenções. Mitos e realidades do “Grande Duo” se. O «abraço financeiro-económico» tem procurar novos métodos de garantir a lide- ses vêem nela uma espécie de armadilha, o mesmo efeito. Mas dele não emana auto- rança norte-americana no mundo depois do destinada a amarrar mais a China e torná-la maticamente o desejo de reforçar as rela- rotundo fracasso do ex-presidente George mais dependente dos EUA. Fiodor Lukyanov * ções existentes. Bem ao contrário. Assim, W. Bush de a impor à força. Por enquanto, Pelos vistos, a saída da actiual situação na China põe-se em dúvida o antigo modelo consistirá em tentar superar, embora com de crescimento económico, baseado quase todo o cuidado, o actual sistema das rela- Há uns dois anos e picos, o chefe do Ins- exclusivamente nas exportações, isto é, de- ções. E não se trata da sua consolidação. tituto de Economia Mundial em Washing- pendente inteiramente da conjuntura eco- Obrigar Pequim Contudo, existe uma questão mais geral. Ao ton, Fred Bergsten, começou a propagan- nómica externa. fim e ao cabo, a actual recessão global deve- dear a ideia de «dois grandes». No ano pas- Sabe-se que anunciar os planos de de- a mudar o seu rumo se ao surgimento da «Chimérica». sado, o mecanismo da «Chimérica» – um senvolvimento do mercado interno é muito (tanto político, A prontidão da China de adquirir e acu- conglomerado sino-americano de produto- mais fácil de que os pôr em prática. Mas é mular as obrigações e os dólares norte-ame- res-credores e consumidores-devedores – significatico o próprio desejo de semelhan- como monetário) ricanos, ganhos à custa das exportações para foi descrito pelo historiador económico Nial tes mudanças, tendo em conta que Pequim, a favor dos EUA os EUA, permitia manter o sistema de cré- Ferguson. O tema de «destino comum» da uma vez escolhida uma meta, sempre pro- é praticamente dito baratíssimo nos EUA, o que estimulou China e dos EUA no séc. XXI foi apanhado cura alcançá-la. Se a China pelo menos o consumo dos norte-americanos – com- e desenvolvido por Henry Kissinger e Zbig- percebe em que direcção deve avançar, impossível prar novas casas e novos produtos chine- new Bzezincki, tornando-se num lugar co- então a situação dos EUA torna-se mais ses. Em contrapartida, a China recebia a mum nos debates sobre a arquitectura do complicada. garantia para um mais elevado nível de vida mundo. No entanto, a dependência mútua Por um lado, para Washington é critica- a nova administração avança com muita di- da sua população sem nunca realizar as ne- sino-americana não parece uma parceria li- mente importante que a China continue a plomacia e habilidade, procurando ouvir a cessárias reformas internas. Como assina- vremente escolhida, apresentando-se mais comprar as obrigações norte-americanas. opinião dos parceiros externos. lou Thomas Friedman, esta parceria de 30 como a consciencialização da situação de Deste ponto de vista, a intenção do governo Obrigar Pequim a mudar o seu rumo anos de duração esgotou-se e dificilmente aniquilamento mútuo, surgida na era nucle- chinês de encaminhar os recursos para in- (tanto político, como monetário) a favor dos sobreviverá à actual crise económica. Pe- ar entre os EUA e a URSS. vestimentos internos não agrada aos EUA. EUA é praticamente impossível. Isto sig- los vistos, não vale a pena recuperar este Na verdade, um passo brusco de uma Por outro, nos EUA, como sempre acon- nifica que é preciso propor à China um modelo que serviu de base para o apareci- das partes com o intuito de abandonar o sta- tece em situações de crise, surgem políticas grande projecto para que, sob a capa des- meto da actual bolha gigante. Mas, sem este tus quo acarreta inevitavelmente um preju- proteccionistas, e o seu alvo principal, por te, tais acções favoráveis a Washington modelo nada ou pouco restará do «destino ízo mutuamente inaceitável. Há 30 anos, o razões óbvias, é exactamente a China. Os possam ser vistas não como cedências, comum» da China e dos EUA. instrumento para o fazer era a arma nucle- produtores norte-americanos querem que os mas sim como passos no sentido de edifi- Claro que na Rússia os debates sobre o ar. Hoje em dia é a vulnerabilidade dos mer- produtos chineses fiquem no mercado in- cação de uma ordem mundial conjunta. tema de «duopólio» de Washington e Pe- cados: do chinês face a uma queda da pro- terno chinês. Compreende-se que a ideia da liderança quim (dado o poderio económico dos EUA cura da sua mercadoria, e do americano face Como conciliar as duas aspirações con- norte-americana permanece intacta e nem e da China) têm um significado especial, pois a uma recusa de Pequim de financiar o dé- trárias, ainda não está inteiramente claro e se põe em dúvida. o seu aparecimento hipotético ameaça em- fice dos EUA. nos EUA multiplicam-se os debates sobre Em Pequim dão-se conta deste proble- purrar Moscovo para a periferia mundial. Durante a «guerra fria», o frente-a-fren- esta contradição dificilmente solúvel. ma e a ideia de condomínio sino-americano te nuclear obrigava as partes a conterem- A principal tarefa de Barack Obama – é tratada com muita cautela. Muitos chine- * in revista A Rússia na Política Global
  9. 9. 24 DE ABRIL DE 2009 OPINIÃO 9 BARACK OBAMA cuidado e do profeta Arons, tem piorado gremente do gabinete do dr. Alberto Cos- bastante, em tudo. Julgam que vão contro- ta para a mesa dos magistrados respon- Barack Obama tem vindo a mudar mui- lar toda a comunicação social. O resultado sáveis pelo processo, então, das duas to, em pouco tempo, quer a América quer, não pode ser mais catastrófico. (...) uma: ou o dr. Lopes da Mota se demite; psicologicamente, o resto do mundo, exce- ou o dr. Lopes da Mota é demitido. In- dendo as expectativas dos mais optimistas. Emídio Rangel dependentemente de se saber se foi Internamente, com um plano consequente Correio da Manhã (11/Abril/09) mandatado para o efeito ou se, como diz de ataque à crise que, sendo posto em ac- o procurador—geral da República, gos- ção, apesar dos cépticos e dos republicanos PAÍS FEIO ta apenas de “brincadeiras estúpidas” – mais cavernícolas, tem sido saudado por o que, diga-se de passagem, parece de- grandes economistas. Evitou a falência (...) Francamente, com lavagem de masiado estúpido. anunciada de grandes instituições financei- personagens não vamos a lado nenhum. ras, bancos e companhias seguradoras, mas Tem de terminar o tempo em que as tei- Constança Cunha e Sá não deixou de exigir rigor e moralidade aos as de influências políticas, económicas e Correio da Manhã (07/Abril/09) AS SOBRANCELHAS mediáticas permitem manter uma ima- gestores das empresas beneficiadas. DE DURÃO BARROSO A justiça americana também ajudou: gem de seriedade de quem o não é ou NACIONALIZAR OS BANCOS punindo exemplarmente e com enorme mesmo da sustentabilidade eterna de (...) Ainda no âmbito da visita de Ba- dúvidas, sejam elas de que sector forem O mal que corrói a finança está agora rapidez o grande escroque internacional rack Obama à Europa, uma última nota (económico, político, judicial). Este qua- a devorar a economia mundial, de que a Bernard Madoff. Está na cadeia, con- sobre o papel desempenhado por Durão dro de fundo da Sociedade Portuguesa finança extraiu a sua substância. Quan- denado praticamente à vida e a mulher Barroso, que foi nenhum. Devo confes- não permite que nos centremos no es- do um banco se desmorona, é comprado foi obrigada a restituir quadros e precio- sar, no entanto, que estou preocupado sencial. Estou a falar mesmo do essen- por outro banco, o qual garante assim que sidades, para indemnizar os lesados. com o estado de saúde de Durão Barro- cial, isto é, da nossa viabilidade social. o Estado deva salvá-lo, visto ele se tor- Outros se seguirão. so. Primeiro, porque Durão Barroso está A guerra ao Ministério Público não nar «too big to fail» («demasiado grande Tem estado a valer aos mais pobres, a ficar sem sobrancelhas. Não se trata terá nada a ver com o branqueamento para falir»). Um pouco por toda a parte, tentando incutir-lhes confiança e espe- de uma metáfora política, estou a ser li- que anda por aí? com precipitação e encurralados, os con- rança no futuro. São fundamentais. Está teral: neste momento, Barroso tem ape- tribuintes pagam biliões de dólares para a procurar reanimar os investimentos nas nas três ou quatro pêlos em cima de cada Paula Teixeira da Cruz socorrer as maiores instituições financei- áreas mais depressivas. É certo que a olho, o que é razoavelmente inquietante. Correio da Manhã (09/Abril/09) ras. Ora, ninguém sabe quantos «acti- actual crise é bem mais complexa do que Segundo, temo pelas costas do nosso vos tóxicos» continuam a estar nas en- no tempo do new deal. Mas Obama está antigo primeiro-ministro. Obama veio la- tranhas de tais instituições nem quanto atento. Tem dado sinais disso mesmo: em DEMASIADO ESTÚPIDO mentar a política internacional seguida vai ser ainda necessário pagar para ad- matéria de saúde, educação, segurança por Bush e prometeu um novo rumo. quirir a crescente rima dos seus créditos social, protecção aos mais pobres e aos (...) Se o presidente do Eurojust, o Barroso, que na cimeira dos Açores aju- deteriorados. Eis o balanço da desregu- discriminados. (...) homem que assegura a ligação entre a dou Bush a concretizar a política que lamentação financeira. (...) Mário Soares investigação portuguesa e a investigação Obama critica, disse agora estar mara- Visão inglesa, no caso Freeport, andou por aí, vilhado com a mudança prometida pelo Serge Halimi TRETAS em conversinhas dúbias, saltitando ale- Le Monde Diplomatique novo presidente. São pinotes que devem fazer mal à coluna. Há uns anos que o Governo acha por bem divulgar uma coisa a que pomposa- Ricardo Araújo Pereira mente chamam prioridades da política Visão criminal. Uma espécie de boletim mete- orológico do crime através do qual os AS GRANDES ILUSÕES ministros informam o povo das priorida- des que vão ter no combate ao crime (...) Qualquer cidadão sabe que, com durante o próximo ano. Uma tontice. Um excepção das vacinas, nenhuma substân- expediente para arranjar algum tempo de cia perigosa pode curar os males que cau- antena e, simultaneamente, induzir os in- sa. Ora, o que se decidiu em Londres foi crédulos de que aquela lista de priorida- garantir ao capital financeiro continuar a de é para levar a sério. Então, a lista agir como tem agido nos últimos 30 anos, deste ano é uma verdadeira ementa de depois de se ter libertado dos controlos um restaurante chinês. (...) estritos a que antes estava sujeito. Ou seja, acumular lucros fabulosos nas épocas de Francisco Moita Flores prosperidade e contar, nas épocas de cri- Correio da Manhã (12/Abril/09) se, com a generosidade dos contribuintes, desempregados, pensionistas roubados, OVOS DA PÁSCOA famílias sem casa, garantida pelo Estado do Seu Bem Estar. Aqui reside a euforia (...) O meu primeiro ovo de chocolate de Wall Street. Nada disto é surpreen- vai para o rato de sacristia que comanda dente se tivermos em mente que os ver- a ERC e para o senhor Silva, com cara dadeiros artífices das soluções - os con- de menino Tonecas, que trata da Assem- selheiros económicos de Obama, Timo- bleia da República, da comunicação so- thy Geithner e Larry Summers - são ho- cial e agora, nos tempos livres, faz algu- mens de Wall Street e que esta, ao longo mas horas nos bombeiros voluntários ao das últimas décadas, financiou a classe serviço do Governo. política norte—americana em troca da Aparece a falar de tudo, a responder substituição da regulamentação estatal por a todos e ainda debate com Morais Sar- auto-regulação. Há mesmo quem fale de mento na TVI 24. um golpe de Estado de Wall Street sobre Uns dizem que está a fazer tirocínio Washington, cuja verdadeira dimensão se para um dia substituir Sócrates, outros revela agora.(...) que a sua ânsia de protagonista não tem limites. Por enquanto, só consegue es- Boaventura de Sousa Santos palhar o ridículo com as suas actuações. Visão A comunicação social, que está ao seu
  10. 10. 10 CRÓNICA arte em café 24 DE ABRIL DE 2009 A OUTRA FACE DO ESPELHO José Henrique Dias* Que mil flores… jhrdias@gmail.com experiência de uma qualquer vida, talvez tantas vidas, vivi- das ou a viver. Este o milagre da criação. Ainda quando Como são os dias a que chamamos radiosos? Há sem- possa parecer percorrido por algum hermetismo. Mesmo pre, penso agora, porque tudo é pensável, um motivo que supostamente inverosímil. forte para além dos imperativos ou determinismos mete- A verdade, agora que uma nova Primavera se desenha orológicos. Os dias só são o que forem dentro de nós. e há raios tardios a mergulhar na lonjura marítima, quando Aquele podia ter sido, foi ao menos num pedaço de noi- rubros os cravos aprendem o esmaecer da esperança, es- te, radioso, iluminado, sei agora, pela luz baça do começo perança traída, lutos por resolver, quanto Abril não vindo de um adeus. Digo tudo isto com a insegurança que ulti- mas com o sabor imbatível da liberdade substantiva que mamente me assalta, depois que me notifiquei para par- alguns tentam roubar, a verdade, é óbvio e reconhecível, é tir para longe, cumprir obrigações de político profissio- que o narrador não está de partida que não seja para fora de nal. Desempenhar o cargo. Dar sinais de eficácia. Le- si mesmo, bem dentro do pensável, que imaginar é viver. vantar bandeiras para os votos futuros. Mara realmente não existiu assim. Mara nunca existiu. Ter de decidir sobre a vida das pessoas, com uma É pura invenção. Uma espécie de delírio. A materialização simples assinatura, mandar homens, e agora também mu- de um desejo. Ou apenas a transfiguração de uma realida- lheres, para lugares pouco seguros, num quadro de guer- traição. Sinto-me capaz de compreender todas as fragilida- de que se escapou como areia entre dedos abertos para ra semeado de armadilhas, não convencional, ideologi- des humanas, aceito como posso algumas misérias morais, uma interrogação. Uma mulher entra sempre bem nestas zada na dimensão religiosa, logo marcada pela violência mas o figurino da traição leva-me sempre ao desespero de histórias. Faz muita falta. Respiramos a mensagem fero- sem limites e a intolerância sem tréguas, não é um acto ser capaz de tudo, mesmo do impensável, para que aquele mónica das suas promessas de primavera. Talvez algum mecânico que uma caneta resolve. Um despacho. Que veneno se solte da possibilidade da mordedura, da angústia dia Mara tenha escrito, em momento de raiva ou no impas- se emoldure num qualquer dia do Diário oficial. Ter de de viajar o sangue. se do amor, não te amo nem nunca te amei. Com maiús- comandar é pedir a um homem, sossegado neste beira- Para mim, enquanto pudemos andar de mão dada na culas. Como um grito. Como quem foge. Como quem mor- tarde em que recordo todo o tempo de antes, é pedir a conspiração, Coimbra-noite, vigiada, escura, subitamente re. A verbalizar um interdito. Guardado ciosamente. Ao lon- um homem, estava a dizer, a entrar no ocaso da vida, liberta nas viagens clandestinas a Lisboa, preparação de go de anos. A verdade. Só é verdade o que imaginamos. A que se demarque de algumas das traves-mestras de que todas as confrontações e das jornadas que trouxeram para vida é ficção. Ou um palco, como diria Shakespeare. ou a partir das quais foi alimentando o Ser. primeiro plano das conversas a luta juvenil, como gerou A menina nascida não podia ouvir canções de embalar. Ia destravar-se-me a língua para imperativo ético, não tensões no ditador, Mara era o sopro de respiração onde o Não era de carne. Era de palavras. De palavras feitas car- fosse estar aqui preso no dedilhar da viola a que sempre futuro sonhado se desenhava no terno encantamento do ne. Como no Genesis. volto nos momentos de angústia. Tem braço-abraço e cor- primeiro beijo, mais tarde no desenrolar nocturno dos cor- Significante paralisado na espera do significado. Para po de mulher. E sabe responder ao suave toque dos dedos. pos adormecidos como se um, melodia sempre inacabada re-significar. Re-presentar. Tornar presente. Metáfora. Na E faz das carícias música. Libertação. Levei-a para a Gui- de plena dádiva e dia seguinte. procura do Tempo. Na ânsia da Duração. Da aventura da né na primeira comissão, à socapa trauteava na negrura Foi decidida a clandestinidade. Mudámos de nome. En- linguagem em movimento perpétuo. das noites de medo umas baladas do Zeca e havia sempre tregaram-nos os documentos das novas identidades. Parti- Deve estar algures escondida em anonimato de lomba- quem chorasse, não pelas palavras, pelos protestos que sol- mos em diferentes direcções. da. Numa qualquer biblioteca. Ou num arquivo morto. Tempo tavam, mas porque traziam a distância, amplificavam a sau- È a razão de ir agora para longe, cumprir uma missão breve de uma ilusão. Consta que era Abril. Não aparece dade, sopravam para longe o cheiro da morte, calavam por especial, responsável por umas dezenas de homens e algu- nas gavetas do catálogo. Nunca chegou. Se calhar nunca instantes o trepidar das armas e o terror das minas semea- mas mulheres, e penso em tudo o que ficou para trás nesta foi feita. Como por cumprir ficaram tantas promessas. De- das nos calcanhares de cada incauto passo, ao longo das espera em Figo Maduro, onde a aeronave já ronca a ânsia sapareceu na trepidação postal. Talvez roubada. Foi o que picadas, no bordejar dos rios. do voo e há lenços de adeus no lá mais para trás, como disse a bibliotecária. Quem? Quando mais tarde, afoito na experiência e exponenci- antigamente, no cais de Alcântara. Impossível saber dela. Ninguém conhece o título. Pare- almente revoltado com o impasse, rumei para Angola, em Abandonara o partido por causa dos acontecimentos de ce que nunca teve autor. E isso que importa? Se há poesia. cumprimento de castigo por querer ser livre e pensar li- Praga. Mara ficou e afastou-se absolutamente de mim, E fraternidade. E possibilidade de recordar. vremente, ainda hesitei, mas irresistivelmente lá foi comi- como se tivesse uma nova lepra, medievalização de novos Lembrei agora, com indizível saudade, o António Ber- go e animou sôfregos intervalos entre aerogramas e notí- determinismos que aprisionam a inteligência. nardino. O nosso Berna. cias de Mara. Ficou grávida e relatava-me com muitos Lembro agora como tudo então se passou. A notícia che- dias de atraso o que se passava dentro de si e no à volta, gou ao fim da manhã, via telégrafo. Ecoou nas copas dos entre impotências e raivas. Então já eu sonhava lonjuras imbondeiros, salpicou o vermelho do poente no planalto, Flores para Coimbra. outras e cantava a Canção de Embalar saltitou depois nas cordas da viola em ritmo de fado. Dorme meu menino que a estrela d’ alva… – Nasceu. É uma menina. Que mil flores desabrochem. Que mil flores Procurava o tom que servisse o abaixamento da voz, Não era a voz de Mara mas reproduzia o texto do tele- (outras nenhumas) onde amores fenecem porém atinava uma a uma com as posições no braço da grama. Corria a Primavera e eu nem sabia que dizer. Quem que mil flores floresçam onde só dores viola. A mão direita, sem hesitações, harpejava dolên- me dera em Abril, pensei, transpondo o poema de uma ba- florescem. cias que desatavam as fontes dos olhos daqueles ho- lada. Mas não sabia que outro Abril estava a despontar. mens endurecidos pela guerra, sobretudo os que havi- Acabou por florir. Em mil flores… Que mil flores desabrochem. Que mil espadas am deixado filhos e em outros a quem os filhos nasce- Só que tudo ficou longe e a memória dói agora como não (outras nenhumas não) ram já eles estavam no mato, estirados no chão, dedo a sei dizer. Tenho na boca este gosto de perda. Nem sei se é onde mil flores com espadas são cortadas pressionar a pulsão da morte. amargo. Eu sei que ninguém trai ninguém que não seja a si que mil espadas floresçam em cada mão. Eu deixara esperanças. Mara tinha sido o que eu costu- próprio. É um lugar-comum e qualquer aprendiz de adulto, mava chamar a grande descoberta da minha vida, num co- adulto a sério, é capaz de dizer. Mas é insuportável. Que mil flores floresçam meço de noite depois de uma reunião na Associação em A menina que nasceu, que era nosso envolvimento e onde só penas são. que decidíamos o que fazer no desencadear da crise. Tão partilha, moldada em palavras e deslumbramento, sabe-se Antes que amores feneçam inocentes quanto generosos. Tanto tempo já. Quão longe. lá bem porquê, em vez de nos unir, dir-se-ia que foi o fim do que mil flores desabrochem. E outras nenhumas não. Mara era desenvolta e livre. Vinte anos. Livre e de- sonho e o começo do corte silencioso com a vida. Encontrei senvolta como se podia ser naqueles tempos. Eu tinha isto mais ou menos assim num caderno de apontamentos. passado por uma primeira vinculação ao Partido, apren- Retalhos de passado. (Música de Joaquim Fernandes, que, dizem-me, dera algumas regras para todas as eventualidades, só O leitor certamente já percebeu que esta história está lecciona actualmente na Universidade Fernando Pessoa, poema de Manuel Alegre, com a guitarra de António Portugal). não podia contar com a traição. recheada de contradições. Claro que está. É construída assim O que sempre mais me custou na vida foi lidar com a para que possa ser possível como história e verdadeira como * Professor universitário
  11. 11. 24 DE ABRIL DE 2009 25 DE ABRIL 11 A INESPERADA OPINIÃO DO LÍDER DA REVOLUÇÃO DE ABRIL MANIFESTADA ONTEM EM COIMBRA Largo em memória de Salazar pode ser didáctico - considerou Otelo Saraiva de Carvalho a propósito da iniciativa em Santa Comba Dão O militar de Abril Otelo Saraiva de Carvalho encara com naturalidade a inauguração da requalificação do Lar- go Dr. Salazar, em Santa Comba Dão, amanhã (dia 25), por entender que iniciativas do género podem até ter um papel didáctico. “Acho que Santa Comba Dão tem orgulho de um ho- mem que ali nasceu e não vejo mal que isso aconteça, até porque pode servir didacticamente para dizer às pessoas ‘este homem viveu de tantos a tantos, morreu com 81 anos e foi um ditador que fez o que fez ao país’ e explicar porquê. Acho que é sempre didático”, considerou. Otelo Saraiva de Carvalho falava à Lusa no Instituto de Almalaguês, em Coimbra, onde participou num debate com alunos sobre os 35 anos do 25 de Abril. Questionado sobre o polémico Centro de Estudos e Museu do Estado Novo, projectado pela Câmara de Santa Comba Dão e encarado por alguns como uma homenagem a Sala- zar, o capitão de Abril afirma que “as pessoas têm direito a ter opinião e a não ter razão”. “Salazar é um homem que pertence à História, ape- sar de todo o ódio que muita gente do nosso país, feliz- mente a maior parte, terá a um ditador que colocou o país de rastos, apesar do muito bem que muitos possam dizer dele”, afirmou. Otelo Saraiva de Carvalho não se opõe à construção do referido museu, por entender que isso “não significa fazer incitamento, de forma inconstitucional, a formações nazis”. “São os saudosistas do Salazar, que acham que ele foi o maior português de sempre. Não ponho entraves a isso. Se isso fizesse recrudescer ou renascer o espírito nazi, a coisa devia ter sido mais bem pensada, mas julgo que não”, afirmou. RECUSA DE PROMOÇÃO Otelo Saraiva de Carvalho afirmou ontem sentir-se in- justiçado com a promoção a coronel ao abrigo da reconsti- tuição das carreiras e admitiu recusar o distinção e pôr o Estado em tribunal. “Para já, estou a pensar seriamente em recusar esta promoção e os 48 mil euros. Recuso, assim não, não que- ro”, declarou Otelo à Agência Lusa, em Almalaguês, à mar- gem do acima referido. Otelo Saraiva de Carvalho recusa o que classifica de “aparente benesse política” e frisa que o seu caso “não se aplica à reconstituição de carreiras”.

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