DIRECTOR    JORGE CASTILHO




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Autorizado a circular em invólucro
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24 DE SETEMBRO A 7 DE OUTUBRO DE 2008                                                                                     ...
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24 DE SETEMBRO A 7 DE OUTUBRO DE 2008                                                                          MUNDO ANIMA...
6       INTERNACIONAL                                                                                     24 DE SETEMBRO A...
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8 OPINIÃO                                                                                               24 DE SETEMBRO A 7...
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10         CRÓNICA                                                                   arte em café
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12    FOTOGRAPHARTE                            24 DE SETEMBRO A 7 DE OUTUBRO DE 2008




REGATA DOS GRANDES VELEIROS - POR...
O Centro - n.º 58 – 24.09.2008
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Versão integral da edição n.º 4 do quinzenário “O Centro”, que se publica em Coimbra. Director: Jorge Castilho. 24.09.2008.

Site do Instituto Superior Miguel Torga: www.ismt.pt

Visite outros sítios de Dinis Manuel Alves em www.mediatico.com.pt , www.slideshare.net/dmpa,
www.youtube.com/mediapolisxxi, www.youtube.com/fotographarte, www.youtube.com/tiremmedestefilme, www.youtube.com/discover747 ,
http://www.youtube.com/camarafixa, , http://videos.sapo.pt/lapisazul/playview/2 e em www.mogulus.com/otalcanal
Ainda: http://www.mediatico.com.pt/diasdecoimbra/ , http://www.mediatico.com.pt/redor/ ,
http://www.mediatico.com.pt/fe/ , http://www.mediatico.com.pt/fitas/ , http://www.mediatico.com.pt/redor2/, http://www.mediatico.com.pt/foto/yr2.htm ,
http://www.mediatico.com.pt/manchete/index.htm ,
http://www.mediatico.com.pt/foto/index.htm , http://www.mediatico.com.pt/luanda/ ,
http://www.biblioteca2.fcpages.com/nimas/intro.html

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O Centro - n.º 58 – 24.09.2008

  1. 1. DIRECTOR JORGE CASTILHO | Taxa Paga | Devesas – 4400 V. N. Gaia | Autorizado a circular em invólucro de plástico fechado (DE53742006MPC) Rua da Sofia, 95 - 3.º - 3000-390 COIMBRA Telef.: 239 854 150 ANO III N.º 58 (II série) 24 de Setembro a 7 de Outubro de 2008 1 euro (iva incluído) DEFENDEU GOMES CANOTILHO NO ROTARY CLUB DE COIMBRA / OLIVAIS Para que haja melhor cidadania cidadãos têm de ser mais exigentes PÁG. 2 JORNADAS DO PATRIMÓNIO Porca insuflável é originalidade em Alcobaça... PÁG. 22 SAÚDE MUNDO ANIMAL TURISMO EM CONÍMBRIGA Correia Muitos Dia Mundial Encontro de Campos argumentos celebra-se internacional lança livro contra no próximo sobre em Coimbra as touradas sábado os idosos PÁG. 3 PÁG. 4 PÁG. 13 PÁG. 17
  2. 2. 2 COIMBRA 24 DE SETEMBRO A 7 DE OUTUBRO DE 2008 DEFENDEU GOMES CANOTILHO NO ROTARY CLUB DE COIMBRA / OLIVAIS Para que haja melhor cidadania cidadãos têm de ser mais exigentes “Cidadania e cidadãos difíceis” foi ticipativo. o tema escolhido por Joaquim Gomes Numa sessão muito concorrida, o Canotilho para a comunicação que convidado respondeu depois a diver- apresentou anteontem à noite (segun- sas questões colocadas por elemen- da-feira), durante um jantar promovi- tos da assistência, entre os quais o seu do pelo Rotary Clube de Coimbra / colega de curso na Faculdade de Di- Olivais. reito de Coimbra, o juiz conselheiro Saudado pela Presidente do Clube, Álvaro Laborinho Lúcio, que teve pa- Helena Goulão (Professora da Facul- lavras muito elogiosas para o pales- dade de Medicina de Coimbra), o ca- trante. tedrático de Direito foi apresentado pelo Vice-Presidente do Clube, Antó- nio Santos Cabral (juiz conselheiro do CONGRESSO Supremo Tribual de Justiça). INTERNACIONAL Gomes Canotilho começou por re- SOBRE PLUTARCO velar que está a ultimar um livro inti- tulado “As normas jurídicas não são Começou ontem e decorre até declarações de amor”, para justificar, sábado, em Coimbra (Faculdade de logo de seguida, a designação que dera Letras e Instituto Justiça e Paz) à sua intervenção. o 8º congresso da International De acordo com o mestre de Direi- O juiz conselheiro Santos Cabral, Joaquim Gomes Canotilho e Helena Plutarch Society, sobre o tema Goulão, Presidente do Rotary Club de Coimbra / Olivais “Symposion e philanthropia em to, a cidadania e a política são difí- ceis, porque os cidadãos também são Plutarco”. difíceis. dadãos. que quase ninguém conhece, muito O evento reúne quase 70 con- Sustentando as suas afirmações em O professor de Direito defendeu embora sejam determinantes para a ferencistas, provenientes de 14 análises filosóficas sobre o Mundo e que os cidadãos têm de ser mais par- concretização das políticas e o desen- países. sobre os problemas que o afectam, Go- ticipativos e mais exigentes com os po- volvimento da sociedade. Durante o encontro, serão lan- mes Canotilho aludiu a “formas de de- líticos. Sustentou que para alterar este es- çados três volumes relacionados mocracia parlante e dançante”, dizen- Citou, como exemplo, o que sucede tado de coisas o cidadão tem de ser com a temática do banquete no do que se fala muito mas pouco se dis- com os Orçamentos de Estado, que muito mais difícil, no sentido de ser Mundo Antigo. cutem os problemas concretos dos ci- são elaborados sem ouvir nunguém e mais exigente, mais vigilante, mais par- INFORMAÇÃO COMERCIAL Lexus abriu espaço em Coimbra A Lexus, prestigiada marca de auto- fim-de-semana, dando a conhecer um móveis de luxo, já chegou a Coimbra. O espaço que prima pelo requinte e confor- evento de abertura decorreu no passado to, seguindo a mais recente expressão da marca em identidade corporativa. O novo espaço proporciona um con- tacto directo com o universo Lexus, con- tando para isso com a gama completa Director: Jorge Castilho para exposição e para realização de “test (Carteira Profissional n.º 99) drive”, incluindo a novidade mais recen- te da marca, o superdesportivo IS-F do- Propriedade: Audimprensa Nif: 501 863 109 tado do motor V8 com 423 cavalos; e o topo de gama LS600h, que incorpora tec- Sócios: Jorge Castilho e Irene Castilho nologia híbrida, Lexus Hybrid Drive, que ISSN: 1647-0540 permite combinações únicas de desem- penho, economia e ecologia, sendo a A frente do superdesportivo IS-F dotado do motor V8 com 423 cavalos Inscrito na DGCS sob o n.º 120 930 mesma tecnologia que equipa também os Composição e montagem: Audimprensa modelos RX 400h e GS 450h. “A Lexus destaca-se também pela na satisfação de clientes aliada à ele- Rua da Sofia, 95, 2.º e 3.º - 3000-390 Coimbra Este é já o 3.º Centro Lexus no País sua liderança nos principais estudos vada qualidade de construção e mais Telefone: 309 801 277 - Fax: 309 819 913 e, de acordo com os seus responsáveis, de Satisfação de Clientes. O estudo avançada tecnologia colocam a mar- “insere-se na estratégia de crescimento ‘J.D. Power and Associates’ decla- ca Lexus numa referência entre as e-mail: centro.jornal@gmail.com qualitativo e sustentável da marca aliada rou, pela oitava vez consecutiva, a marcas Premium, cuja assinatura – Impressão: CIC - CORAZE ao compromisso de continuamente dis- Lexus como líder de satisfação de cli- Busca da Perfeição – é assumida, Oliveira de Azeméis ponibilizar os melhores serviços de Ven- entes no Reino Unido em 2008. Tra- também, como um compromisso inter- Depósito legal n.º 250930/06 da e Após Venda aos seus clientes”. ta-se de um feito jamais igualado por no de toda a equipa que constitui o Tiragem: 10.000 exemplares E acrescentaram: qualquer outra marca. Esta liderança novo Centro Lexus Coimbra”.
  3. 3. 24 DE SETEMBRO A 7 DE OUTUBRO DE 2008 NACIONAL 3 HOJE EM COIMBRA, LANÇAMENTO DE LIVRO DO EX-MINISTRO DA SAÚDE Correia de Campos e Vital Moreira debatem “Reformas da Saúde” O ex-ministro da saúde, António Correia tema”, revela António Correia de Cam- do nocturno, em troca da abertura de novas de Campos, apresenta hoje (quarta-feira, dia pos, nas páginas do livro, sobre uma das Unidades de Saúde Familiar (USF) não foi 24), pelas 18h30, na livraria Almedina Está- suas decisões mais criticadas. tarefa fácil”, sublinha Correia de Campos, dio, em Coimbra, o seu novo livro intitulado Publicada pelas Edições Almedina, na defendendo que optou por “reformas neces- “Reformas da Saúde – O Fio Condutor”, colecção “Olhares Sobre a Saúde”, “Re- sárias para que as políticas correspondam em que faz o balanço das várias políticas do formas da Saúde – O Fio Condutor” assu- às aspirações da maioria dos portugueses”. sector adoptadas durante os três anos do me-se claramente como uma obra política, “Escolher implica risco, sacrifício e im- seu mandato.Na sessão de lançamento, o uma vez que corresponde a escolhas dife- popularidade temporária e localizada; impli- autor e o constitucionalista Vital Moreira renciadas e por vezes “a opostas vias de ca coragem em seguir um rumo, em lançar conversam sobre as diferentes medidas po- acção”, mas que, segundo o seu autor, res- o fio condutor que una as reformas”, escre- lémicas e controvérsias que levaram à saí- pondem sempre a “uma escolha que deve ve Correia de Campos no seu livro, em jeito da antecipada de Correia de Campos do Go- ser ditada pelo interesse público”. de conclusão. A análise e as conclusões do verno, em Janeiro de 2008. Da contratação de médicos como tare- ex-ministro da saúde, oito meses após a sua “A razão mais importante para o alar- feiros à hora, da empresarialização dos hos- demissão, contribuem para o debate de gran- gamento das taxas moderadoras ao inter- pitais públicos, da sustentabilidade financei- de actualidade que envolve o funcionamen- namento e à cirurgia do ambulatório não ra do actual modelo de Serviço Nacional to do sistema nacional de saúde pública. foi nem o objectivo moderador, nem o ob- de Saúde (SNS), ao encerramento dos blo- Licenciado em Direito pela Universida- jectivo financiador, mas sim uma prepa- cos de parto e das urgências e à criação de de Coimbra, António Correia de Cam- ração da opinião pública para a eventuali- em 2006 de novas taxas moderadoras para pos fez da Economia da Saúde, da Política dade de todo o sistema de financiamento o internamento e o ambulatório, o anteces- de Saúde e da equidade, da Segurança So- ter de ser alterado, caso as medidas de sor da actual ministra Ana Jorge esclarece “Concentrar maternidades, requalificar cial e da Administração Pública, a sua espe- boa gestão que tínhamos adoptado no SNS ao longo de 310 páginas as “decisões difí- serviços de urgência em locais previamen- cialidade, sendo, nestas áreas, autor de cin- não se revelassem suficientes para ga- ceis, impopulares, mas necessárias” que te seleccionados e encerrar Serviços de co livros e de cerca de cem artigos científi- rantir a sustentabilidade financeira do sis- teve de tomar. Atendimento Permanente (SAP) no perío- cos em revistas nacionais e estrangeiras. ORIGINAL PRESENTE POR APENAS 20 EUROS AUDIMPRENSA Jornal “Centro” Ofereça uma assinatura do “Centro” Rua da Sofia. 95 - 3.º 3000–390 COIMBRA e ganhe valiosa obra de arte Poderá também dirigir-nos o seu pe- dido de assinatura através de: telefone 239 854 150 Temos uma excelente sugestão ma tão original, está a desabrochar, sua casa (ou no local que nos indicar), fax 239 854 154 para uma oferta a um Amigo, a um simbolizando o crescente desenvolvi- o jornal “Centro”, que o manterá ou para o seguinte endereço Familiar ou mesmo para si próprio: mento desta Região Centro de Portu- sempre bem informado sobre o que de de e-mail: uma assinatura anual do jornal gal, tão rica de potencialidades, de His- mais importante vai acontecendo nes- centro.jornal@gmail.com “Centro” tória, de Cultura, de património arqui- ta Região, no País e no Mundo. Para além da obra de arte que des- Custa apenas 20 euros e ainda re- tectónico, de deslumbrantes paisagens Tudo isto, voltamos a sublinhá-lo, de já lhe oferecemos, estamos a pre- cebe de imediato, completamente (desde as praias magníficas até às ser- por APENAS 20 EUROS! parar muitas outras regalias para os grátis, uma valiosa obra de arte. ras imponentes) e, ainda, de gente hos- Não perca esta campanha promo- nossos assinantes, pelo que os 20 eu- Trata-se de um belíssimo trabalho pitaleira e trabalhadora. cional e ASSINE JÁ o “Centro”. ros da assinatura serão um excelente da autoria de Zé Penicheiro, expres- Não perca, pois, a oportunidade de Para tanto, basta cortar e preen- investimento. samente concebido para o jornal receber já, GRATUITAMENTE, cher o cupão que abaixo publicamos, O seu apoio é imprescindível para “Centro”, com o cunho bem carac- esta magnífica obra de arte (cujas di- e enviá-lo, acompanhado do valor de que o “Centro” cresça e se desen- terístico deste artista plástico – um mensões são 50 cm x 34 cm). 20 euros (de preferência em cheque volva, dando voz a esta Região. dos mais prestigiados pintores portu- Para além desta oferta, o beneficiá- passado em nome de AUDIMPREN- gueses, com reconhecimento mesmo rio passará a receber directamente em SA), para a seguinte morada: CONTAMOS CONSIGO! a nível internacional, estando repre- sentado em colecções espalhadas por vários pontos do Mundo. Neste trabalho, Zé Penicheiro, Desejo oferecer/subscrever uma assinatura anual do CENTRO com o seu traço peculiar e a incon- fundível utilização de uma invulgar paleta de cores, criou uma obra que alia grande qualidade artística a um profundo simbolismo. De facto, o artista, para represen- tar a Região Centro, concebeu uma flor, composta pelos seis distritos que integram esta zona do País: Aveiro, Castelo Branco, Coimbra, Guarda, Leiria e Viseu. Cada um destes distritos é repre- sentado por um elemento (remeten- do para o respectivo património his- tórico, arquitectónico ou natural). A flor, assim composta desta for-
  4. 4. 4 MUNDO ANIMAL 24 DE SETEMBRO A 7 DE OUTUBRO DE 2008 As touradas do nosso Salvador St.Aubyn Mascarenhas Médico Veterinário salvadorvet@gmail.com descontentamento A imagem da esquerda é, naturalmente, uma encenação, que pretende alertar para a realidade chocantemente documentada na fotografia da direita. E essa, sim, é bem elucidativa do bárbaro sofrimento a que os animais são submetidos nas touradas É óbvio que os touros sofrem quer Uma televisão em Portugal exibiu há raias do surrealismo. para divertimento do homem e que as antes, quer durante, quer após as toura- tempos um documentário sobre o que se É o que faz um médico veterinário, exibições de animais e os espectáculos das. A deslocação do animal do seu ha- passa na retaguarda das touradas. Quan- aficcionado, num artigo publicado no que utilizem animais são incompatíveis bitat, a sua introdução num caixote mi- do chegou à fase final do arranque das Boletim da Ordem dos Advogados ao com a dignidade do animal. núsculo em que ele se não pode mover e farpas o funcionário da praça não permi- afirmar que “só se pode pronunciar so- A Tourada ocorre mundialmente em onde fica 24 horas ou mais, o corte dos tiu a filmagem por a considerar demasia- bre os aspectos éticos da tourada quem apenas 9 países. Um número considerá- chifres e as agressões de que é vitima do impressionante. Mas ouviam-se os conhece o espectáculo”. Conclusão que, vel de países já baniu a tourada por lei, para o enfurecer; ao que se segue a per- horrendos uivos de dor que o animal emi- salvo o devido respeito, é completamen- como, por exemplo,. Argentina, Canadá, furação do seu corpo pelas bandarilhas tia dos seu caixote exíguo e que eram de te absurda, certo como é que os aspec- Cuba, Dinamarca, Alemanha, Itália, Ho- que são arpões que lhe dilaceram as en- fazer gelar o sangue dos telespectadores. tos cruéis acima referidos são óbvios landa, Nova Zelândia e Reino Unido. Em tranhas e lhe provocam profundas e do- E tudo isto para gáudio de uma multi- para quem quer que os presencie, não países onde se realizam touradas exis- lorosas hemorragias; e finalmente, na dão que a cada novo ferro cravado e a sendo necessário estudar tauromaquia tem inclusivamente certas regiões que as tourada à portuguesa, o arranque brutal cada nova e mais profunda perfuração para chegar à conclusão de que o touro aboliram, como por exemplo as Ilhas dos ferros; e tudo isto, já sem se referir da vara, vibra com um gozo em que a é objecto de grande sofrimento ao ser Canárias e a cidade de Barcelona, em a tortura das varas e do estoque na tou- componente sádica é óbvia. farpeado e estoqueado. Espanha e grande parte da França. rada à espanhola – representa, sem Perante a evidência de que o touro Durante muito tempo afirmou-se que os As touradas mantêm-se em Portugal quaisquer dúvidas, sofrimento intenso e sofre – e sofre intensamente – ao ser touros não sofriam nas arenas, porque ao porque muitas das pessoas que estão no insuportável para um animal tão sensível toureado, os aficcionados desdobram- se libertarem a adrenalina durante a corrida poder são aficionados. No entanto, felizmen- que não tolera as picadas das moscas e em atabalhoadas tentativas de justifica- ficavam anestesiados. Nada mais falso. te, a tendência, na Europa, é para que os as enxota constantemente com a cauda ção que não obedecem a um mínimo de As touradas, quer sejam de praça ou à direitos dos animais acabem por vencer. quando pasta em liberdade. razoabilidade, atingindo alguma vezes as corda, provocam sofrimento nos touros. As touradas foram proibidas em Por- É de facto difícil afirmar o que é que tugal por Decreto de 1836, da iniciativa um Touro sente numa tourada. No en- do então l.º Ministro Passos Manuel, por já então, conforme se lê no Decreto, “se- Touro abatido tanto, os estudos científicos feitos até agora apontam no sentido de que as rem consideradas um divertimento bár- baro e impróprio das nações civilizadas, agressões sofridas antes e durante as ilegalmente em Monsaraz corridas sejam não só dolorosas mas in- capacitantes. O touro fica com nervos e que serve unicamente para habituar os homens ao crime e à ferocidade”. músculos rasgados, e a quantidade de De então para cá, e apesar do re- De acordo com notícia divulgada pela agência LUSA, um touro foi abatido torno das touradas, o certo é que cada sangue que perde continuamente enfra- ilegalmente. no passado dia 13, na vila medieval de Monsaraz, no Alentejo, no vez mais se acentua a repulsa dos paí- quece-o. Não parece ser sensato pen- final de uma novilhada popular, alegadamente “cumprindo uma tradição reivin- ses civilizados por esse barbarismo me- sar que isto pode ser agradável para o dicada pela população local”. dieval. Em Portugal, segundo sonda- Touro, ou mesmo indiferente. De acordo com a notícia “o golpe fatal foi desferido cerca das 19:45, depois gem recente, a percentagem de portu- O touro, tal como os outros mamífe- de o touro ter sido laçado e preso ao muro da arena, na antiga praça de armas gueses que não gosta de touradas é de ros, ao ter um sistema nervoso central do castelo de Monsaraz, histórica povoação localizada nas margens da albu- 74,5 % contra 24,7 que ainda gosta (Vd. tem capacidade para sentir dor, ansieda- feira de Alqueva”. “Público” de 26.08.02). de, medo e sofrimento. E os sinais exte- A notícia diz ainda: “O abate do touro não foi presenciado pela assistência Mesmo acreditando que a tourada é riores que demonstra na arena denunci- que enchia o castelo (mais de 1.500 pessoas, segundo a organização), por o tradição ou cultura, isso nunca poderá am essas emoções. Não é, portanto, ra- animal ter sido coberto com um pano negro. justificar a crueldade com os animais: zoável aceitar a ideia de que os Touros Apesar de o abate ser ilegal, por não lhe ter sido reconhecido o carácter de crueldade é crueldade, independente- sofrem pouco numa tourada. excepção previsto na legislação, a população de Monsaraz voltou a cumprir a mente do sítio no mundo onde ocorre. A No artigo 10º da Declaração Univer- promessa de manter a tradição que reivindica matar um touro no final da crueldade com os animais não tem lugar sal dos Direitos dos Animais lê-se que novilhada”. numa sociedade moderna. nenhum animal deve de ser explorado
  5. 5. 24 DE SETEMBRO A 7 DE OUTUBRO DE 2008 MUNDO ANIMAL 5 INVESTIGADORES COLOCAM COLEIRA COM GPS EM ANIMAIS AMEAÇADOS “Dança” com lobos na Serra do Soajo O jovem lobo Fojo não sabe, mas o colar com GPS que tem no pescoço per- mite aos investigadores do Projecto de Investigação e Conservação do Lobo no Noroeste conhecer todos os seus pas- sos na Serra do Soajo. “Este pode ser um dos animais que ajuda a alimentar as crias, uma espécie de ‘baby-sitter’ da alcateia, já que re- gressa sempre ao local onde estão as crias”, afirmou a bióloga Helena Rio Maior, que tem monitorizado as deslo- cações do lobo desde que lhe colocou o colar, na manhã de 20 de Agosto. O Fojo, um macho entre um e dois anos de idade, pertence à alcateia do Soajo, que tem oito elementos confirma- dos, entre crias, adultos e sub-adultos, tendo sido apanhado numa armadilha colocada na serra, junto ao local onde os investigadores tinham detectado a pre- sença de crias na noite anterior. Durante cerca de uma hora, depois de anestesiado, o animal foi medido e pesa- do, tendo-lhe sido ainda retiradas amos- tras de sangue e de pêlo para análise, após o que foi libertado, já com um colar com GPS colocado no pescoço. “O colar começou logo a emitir, mas, nos primeiros dois dias, ele não se deslo- cou muito, talvez por estar ainda a recu- perar da anestesia”, salientou a investi- gadora, acrescentando, no entanto, que o centro de actividade do Fojo “foi rapi- damente identificado, é o local onde se encontram as crias”. Trata-se de um comportamento nor- mal entre os lobos, que são animais so- ciais e se juntam para alimentar as cri- O jovem lobo “Fojo” vive no Minho com a sua alcateia, mais concretamente na Serra do Soajo. A fotografia foi-lhe tirada poucos as, que, nesta altura do ano, com pouco minutos após ter acordado da anestesia que permitiu a um grupo de biólogos colocar-lhe ao pescoço a coleira que se vê na mais de três meses de idade, já não de- imagem. O que ele não sabe é que essa coleira tem um dispositivo de GPS que permite seguir todos os seus passos. pendem exclusivamente do leite mater- Mas este método de “big brother” tem aqui um papel meritório, já que representa mais um contributo para o êxito no, mas ainda não saem do local onde do Projecto de Investigação e Conservação do Lobo no Noroeste nasceram. O sistema está programado para de- respectivo auto para efeitos de paga- mentar”, salientou Helena Rio Maior. Recursos Genéticos da Universidade do terminar a posição do animal de duas em mento de indemnização. Se tudo correr conforme o previsto, Porto (CIBIO). duas horas, enviando uma mensagem A rápida localização dos locais onde o colar que o Fojo tem no pescoço vai Os investigadores esperam que as in- quando totaliza sete localizações, sendo ocorreram ataques é apenas uma das cair, de forma automática, às 04:00 de formações recolhidas com este projecto os dados convertidos através de um pro- vantagens do colar com GPS, que tam- 12 de Outubro de 2010, altura em que permitam melhorar as relações entre os grama especial que projecta as localiza- bém permite apurar se um determinado os investigadores esperam conhecer homens e os lobos, tornando mais fácil a ções num mapa, no computador. animal foi mesmo morto por lobos, o que muito melhor os hábitos da alcateia do protecção dos rebanhos na montanha por “As incursões que ele tem feito para é fundamental para efeitos do pagamen- Soajo. se saber onde estão os predadores, mas fora daquela zona são sempre para ca- to de indemnizações. O recurso à telemetria GPS é uma também a identificação dos ataques pro- çar e se alimentar”, frisou Helena Rio Por outro lado, o acompanhamento novidade do Projecto de Investigação e vocados pelos lobos e o consequente Maior, destacando que esta situação das deslocações do Fojo pela Serra do Conservação do Lobo no Noroeste de pagamento das indemnizações. permite que os investigadores conhe- Soajo já permitiu a identificação de dois Portugal, financiado pela empresa de O lobo é actualmente o último grande çam rapidamente os locais onde ocor- eventuais ‘pontos de encontro’ dos lo- energias renováveis Vento Minho. predador da fauna portuguesa, sendo rem ataques de lobos. bos, locais onde permanecem durante Este projecto de estudo do último gran- considerada uma espécie ‘em perigo’ há Desde que tem o colar, há precisa- algum tempo depois de um ataque. de predador da fauna nacional está a ser mais de uma década. mente um mês, já ocorreram dois ata- “Normalmente, o Fojo passa uma se- executado pela Associação para a Con- O mais recente censo nacional, reali- ques em que o Fojo esteve envolvido, mana nas imediações do local do ataque servação e Divulgação do Património de zado em 2002 e 2003, revelou a existên- dos quais os investigadores tiveram co- e depois regressa à área onde estão as Montanha (VERANDA) e pelo Centro cia de 65 alcateias, num total de cerca nhecimento antes de ser levantado o crias, até precisar novamente de se ali- de Investigação em Biodiversidade e de 300 indivíduos.
  6. 6. 6 INTERNACIONAL 24 DE SETEMBRO A 7 DE OUTUBRO DE 2008 Barroso pede à UE mil milhões de euros para os países pobres O presidente da Comissão Europeia, José “Mas agora discutimos pormenores e Geldof respondeu: “Não ainda. Voltem sex- Manuel Durão Barroso, exortou anteontem quando se chega aos pormenores, as coisas ta-feira!”, apelou, numa referência ao final (segunda-feira) os europeus a vencerem as ficam mais difíceis”, disse. do debate entre chefes de Estado na ONU. suas reticências e desbloquearem mil mi- “O mais vergonhoso é que alguns dos Já Bono disse que não podia acreditar lhões de euros para os países pobres atingi- países que lá estão esta semana tentam pa- que “possam ser os alemães”. dos pela crise alimentar. rar a coisa”, denunciou Bob Geldof numa “Eles foram heróicos nos últimos anos “É um teste muito importante: somos ou referência à Assembleia-Geral da ONU. para tentar cumprir as promessas feitas em não sérios quando se trata de cumprir os “Alguns países europeus estimam que esta Gleneagles” (Reino Unido) durante a cimeira nossos compromissos?”, questionou Barro- pequena soma deve voltar para as suas al- do G8, assegurou o cantor do grupo U2. A so perante os jornalistas durante uma con- gibeiras”, denunciou. chanceler “Angela Merkel sente verdadei- ferência de imprensa em Nova Iorque ao O cantor reconheceu que “muitas pes- ramente qualquer coisa por África “, disse. lado de cantores de rock e de militantes soas vivem situações horríveis por causa do O executivo europeu pretende retirar como Bono e Bob Geldof. que se passa nos mercados financeiros”. mil milhões de de euros de fundos não Barroso lembrou que “os Estados mem- Mas, acrescentou, “isso não é praticamen- utilizados da Política Agrícola Comum bros” tinham saudado durante o Conselho te nada ao lado do que vivem mil milhões de (PAC) para ajudar os países em desen- Europeu de Junho “a intenção da Comissão pobres”. volvimento a aumentarem a sua produ- de fazer uma proposta” sobre a crise ali- Questionado para nomear os países que ção agrícola, nomeadamente financiando mentar. faziam esse bloqueio no seio da UE, Bob sementes e adubos. OS FUTUROS FOCOS DE LUTA NO ESPAÇO PÓS-SOVIÉTICO Cresce a concorrência geopolítica Fiodor Lukyanov * Moscovo de realizar os seus objectivos soviético. líder bielorrusso quer que o Ocidente re- estratégicos. Para os EUA, os seus pró- A Pridniestrovie (a república na mar- conheça a legitimidade das eleições par- prios objectivos estratégicos não são um gem leste do rio Dniestre, com a capital lamentares, a terem lugar brevemente, O conflito militar no Cáucaso e o re- regresso ao século XIX. De facto, Wa- em Tiraspol, que se autoproclamou inde- que sejam descongeladas as relações conhecimento da independência, em 26 shington não tem esferas de influência pendente em 1991) na Moldova, onde a políticas com os EUA e reactivadas as de Agosto, da Ossétia do Sul e da Abcá- regionais, já que os seus interesses se Rússia empreende agora esforços diplo- relações com a UE. De Moscovo quer sia, assinalaram o início de uma nova fase estendem a todo o mundo, sem qualquer máticos. O Kremlin está interessado em obter condições vantajosas de forneci- na luta pela influência no espaço pós- excepção. demonstrar a sua capacidade de resol- mento de gás natural russo e outras pre- soviético. Antes da «guerra de cinco A União Europeia rejeita toda e qual- ver as crises existentes não apenas por ferências económicas. dias» entre a Geórgia e a Rússia, os par- quer retórica referente à época do «gran- via militar, mas também política. A julgar O terceiro palco do conflito serão os vi- ticipantes desta pugna geopolítica nunca de jogo», insistindo que as relações in- pelas últimas notícias, Moscovo, Kishi- zinhos da Geórgia no Cáucaso do Sul. A sublinhavam o seu carácter de concor- ternacionais no século XXI têm uma neu e Tiraspol estão perto de concreti- «guerra de cinco dias» colocou a Arménia rência. Mas agora deixaram de fazer base muito diferente. Isto, porém, não a zar um plano de solução concebido há 5 numa situação difícil, dado que o gasoduto salamaleques. impede de estender, passo a passo, as anos e abortado então pelos EUA e UE. com gás natural russo passa pelo território Moscovo formulou de modo claro e suas regras e normas aos países vizinhos, A regularização do conflito congelado georgiano. Em Erevan receiam que Mos- indubitável a sua atitude em relação aos colocando «os padrões» delineadores da prevê uma neutralização da Moldova covo possa exigir do seu aliado caucasia- países vizinhos como «uma zona de inte- sua própria zona privilegiada. (assumindo a obrigação de não entrar na no um apoio mais concreto. Estragar as resses privilegiados» russos. A pretensão O terceiro participante da pugna geo- NATO) e uma presença militar russa relações com a Geórgia, um importante a uma esfera de influência própria é a política no espaço pós-soviético é a Chi- neste país. É difícil supor que Washing- parceiro económico, onde vive uma nume- realização na prática da ideia de mundo na. Pequim nunca recorre à retórica usa- ton fique de braços cruzados, se a pers- rosa minoria arménia, vai agravar a situa- multipolar, que até agora tinha um carác- da pelos EUA, pela Rússia ou por algu- pectiva de semelhante solução do con- ção económica da Arménia. Mas desiludir ter abstracto e meramente conceptual. mas potências europeias. flito for real. Isto não agradou aos EUA a Rússia é ainda mais perigoso, pois de Num mundo competitivo, cada pólo Do ponto de vista da China, todas e e à UE em 2003, e dificilmente concor- Moscovo depende muito, inclusive a situa- reforça e amplia as suas possibilidades. quaisquer conversas sobre as zonas de darão com este plano agora, nas condi- ção na Nagorny-Karabakh. Um elemento obrigatório é a existência influência são uma prerrogativa do colo- ções da concorrência estratégica aber- A Turquia, caso sejam restabelecidas de «zona tampão», onde os interesses de nialismo ocidental, acostumado a tratar ta. Mas inviabilizar esta solução na Prid- as relações diplomáticas entre Erevan e outros participantes do jogo podem, em com desdém e arrogância todos os ou- niestrovie significa reconhecer que os Ankara, pode transformar-se numa po- princípio, ter lugar, mas não são domi- tros povos. Isto não significa que para EUA e a UE prezam não a integridade tência regional, cujos interesses nem nantes. O que, naturalmente, pressupõe Pequim não existam «zonas de influên- territorial da Moldova, e querem apenas sempre coincidirão com os dos EUA e uma confrontação, já que os interesses cia». Mas elas não são referidas aberta- impedir que Kishineu fique na órbita de da UE. Para a Rússia, isto abre novas privilegiados nunca são reconhecidos mente e descrevem-se apenas em ter- Moscovo. Neste caso, a possibilidade de oportunidades, mas também promete uma pelos parceiros que vêm de fora. mos de «aspiração a uma harmonia uni- resolver o conflito congelado tornar-se- concorrência acrescida. versal». Na prática, isto reduz-se a um á puramente teórica. Mas o principal palco para um verda- PRINCÍPIOS DO SÉC. XIX avanço paulatino dos interesses econó- Nas condições do actual conflito geo- deiro embate geopolítico, agora aberta- micos da China sempre e onde seja pos- político, cresce o papel da Bielorrússia. mente referido tanto nos EUA como na NO SÉC. XXI sível. Por exemplo, nos Estados Indepen- Para a Rússia, é a única brecha no cer- Rússia, será, sem dúvida, a Ucrânia. A dentes da Ásia Central. co dos adversários a oeste das suas fron- situação neste Estado Independente não Os políticos ocidentais não param de teiras. Para Washington e Bruxelas, é pára de agravar-se. Mas mesmo sem esta bater na mesma tecla: é inadmissível, no nosso século XXI, tentar pôr em prática FOCOS DA LUTA uma chance de afastar de Moscovo o batalha, que se adivinha próxima, o espa- GEOPOLÍTICA seu único aliado institucional. O presiden- ço pós-soviético parece cada vez mais um os princípios do século XIX. Ainda no te Alexander Lukashenko é um mestre campo de minas, onde cada movimento início da crise no Cáucaso, a secretária Não é difícil adivinhar os futuros fo- de tirar vantagens de qualquer situação brusco é prenhe de uma explosão. de Estado Condoleezza Rice declarou cos da luta geopolítica no espaço pós- e tem agora inúmeras oportunidades. O que Washington tudo fará para impedir * in revista A Rússia na Política Global
  7. 7. 24 DE SETEMBRO A 7 DE OUTUBRO DE 2008 COIMBRA 7 Passear na Baixa a recordar... vraria Atlântida, que me dizia respeito por ser o responsável pela minha vinda para Co- Varela Pècurto imbra; Amado dos Cortinados, o homem que fumava de manhã à noite, acendendo cada Os conturbados tempos que se vivem à cigarro na ponta do que ía deitar fora e que escala global afligem milhões de seres hu- tinha um ódio de morte à Pide, não por tê-lo manos, crise económica que os elementos prendido mas por lhe ter confiscado o seu da Natureza se encarregam de agravar. As muito estimado Citroen, modelo “arrastadei- desgraças chegam a toda a parte, grandes ra” e que nunca mais viu porque alguém ou pequenas localidades, alterando a vida rodava nele noutras paragens. de cada um. Tudo se modifica e o equilíbrio Recordar as bicas e os companheiros que dá lugar ao desabar da estabilidade. alternadamente frequentavam a Brasileira Os comércios e as indústrias vão à fa- e o Arcádia causava sempre grande abalo lência. O cidadão que viveu durante anos ao Silvino. Quando chegámos ao largo Mi- sem inquietações ou desajustamentos, num guel Bombarda (ou Portagem?) travou-me ápice vê-se confuso no seu meio, ao perder o passo bruscamente e diz-me convicto. valores e referências em que sempre se Vou deixar de vir à baixa! apoiou. As mutações propiciam a desesta- Com tudo o que me é necessário na zona bilização. As ruas têm agora ambiente des- onde moro, porque hei-de mortificar-me conhecido. No íntimo de cada um entra um semanalmente com estas recordações? desconforto que altera o comportamento. Antes de nos despedirmos foi a minha O que é hoje uma espécie de percurso vez. Contei-lhe que certo dia fotografei o da saudade para os mais idosos, foi há patriarca da família Moura Marques na sua anos a mais movimentada e importante primeira livraria (depois mudou para onde zona da cidade de Coimbra. está hoje a Bertrand). Fiz uma grande am- Ninguém era apressado, os cafés encer- pliação, coloquei-a na montra da Hilda no ravam tarde e na Calçada a conversa pro- dia do seu aniversário, em jeito de homena- longava-se para além da meia-noite. gem. O simpático e barbudo senhor era en- O meu amigo Silvano é um saudosista tão o mais velho livreiro de Coimbra e nun- e a crise também o afecta. Mas, como ca tinha sido lembrado assim. Na sua livra- tive ocasião de constatar, está decidido a ria, um seu filho também reunia ao serão pôr-lhe fim. Num destes domingos encon- um grupo de amigos que entre conversas trámo-nos, descia ela do 4, à PSP, e eu a amenas jogavam até à meia-noite. Desse escadaria que o dr. Mendes Silva para ali Aquele modo de se posicionar foi inten- O Nicola mantém-se. Falta-lhe é o Abe- grupo fazia parte um oficial da GNR, pai de mudou - em boa hora, diga-se. cional. Logo após o primeiro gole retomou a lha. Tinha um cliente que ali almoçava com famoso jogador que foi da AAC. Vinha à baixa, hábito semanal que lhe conversa para me falar da loja do Seco, no frequência mas era um tanto ou quanto dis- Vês? diz-me o Silvino. Estás tão tomado conheço desde sempre. Mas, com os esta- rés-do-chão da praça. Na esquina deste lado traído. Um dia, já depois de ter almoçado, por estas recordações como eu. belecimentos fechados é óbvio que se tra- houve uma Havaneza, antiguidades onde deu umas voltas e regressou ao Nicola. Vou apanhar o 4 na Estação Nova, fi- tava da passeata costumeira para lembrar esteve o Mizarela que tão cedo nos deixou, Oh Abelha eu já almocei hoje? nalizou. um passado ainda não distante. No Verão, depois o Ribeiro dos perfumes na sua Gale- Não senhor doutor, ainda não subiu ao Dando um passo atrás, segurou-me a Calçada e imediações tem alguma anima- ra. Do que lá está agora nada disse, porque restaurante, respondeu o malandro, anteven- um braço e desabafou: O Astória e o Bra- ção com festas sonoras e coloridas. Mas são sapatos, mercadoria sem história, a não do uma boa partida a tanta distracção. gança vão ajudar-me a passar na Zara. no Inverno? ser que lembremos o Pombo da “Elegan- Depois de ter almoçado segunda vez, ajei- Estavam ali o Internacional e os seus vi- Voltamos à estaca zero, responde o te”, que sempre teve um gato na loja, tradi- tando o monóculo, diz o cliente: oh Abelha! zinhos, irmãos Cunha Pinto que vendiam Silvano. ção que se manteve. Mais reconfortados não sei que tenho hoje. Faltou-me o apetite. para “matar o tempo” e por isso pratica- Passando a semana atrás de um balcão, com tantas evocações, levantámo-nos e con- Comi pouco! vam o preço de custo. longe da baixa e atendendo clientela para tinuámos rua acima, agora sem trânsito de Continuámos. Adeus Singer; Jacinto Sil- Adeus, até não sei quando! quem já é sacrifício comprar o indispensá- viaturas, ausência que se lamenta por ter va de nariz afilado de tanto lhe passar o indi- E lá regressou aos Olivais, onde o vel, é de calcular que mantenha o hábito de contribuído para a desertificação. cador direito, em gesto frenético, incontá- meu amigo Andrade, num dia qualquer, vir até à Calçada para rever locais da sua Fomos observando o que está inalterado, veis vezes; delegação de “O Primeiro de vai proclamar a independência e ele- preferência. Um ritual. aceitando as modernidades porque afinal o Janeiro”, onde um grupo de notáveis batia var a cidade a maior freguesia de Na Praça 8 de Maio, nome que rejeita que falta é gente a comprar. cartas em pano verde todos os serões; Li- Coimbra!... parta lhe chamar apenas Sansão, parámos Mas a nostalgia apoquentava-o. A ausên- e o Silvano parecia tirar medidas às novas cia de velhos amigos e conhecidos causa- paredes, qual fiscal da Câmara, mas com va-lhe tristeza. óculos porque o meu amigo tem falta de vista. Citou o delicado Lopes da Casa das Lãs Esboçou um sorriso para os repuxos que e, do lado contrário, o Neves dos vidros, um nem sempre esguicham água certinhos. dos criadores da cerveja de Coimbra, radio- Subimos a rampinha que não lhe mereceu amador e fotógrafo com câmara-escura tão comentários porque nunca ali escorregou, bem equipada que fazia inveja a qualquer tal como acontece com o corrimão croma- profissional. Lembrou-se da Farmácia Do- do a que jamais se apoiou. nato, onde comprava remédios pagos a pres- Na esplanada acolhedora do Santa Cruz tações. Ao virar-se para a Central, quero parámos com dupla finalidade: continuar a dizer, onde esteve a Central, começou a conversa e tomar a bica. sorrir, numa fugaz descontracção. O Silvano sentou-se de costas para o Lembras-te, disse-me, quando era hora edifício que foi igreja e depois restaurante, de fechar, o dono voltava atrás para dar um onde se podia comer nas capelinhas que ti- empurrãozinho na porta para ter a certeza veram santos. Proporcionavam intimidade que estava fechada? porque se mastigava sem estar à vista da A graça não estava no procedimento mas restante clientela. sim nas três ou quatro vezes que o repetia.
  8. 8. 8 OPINIÃO 24 DE SETEMBRO A 7 DE OUTUBRO DE 2008 se não contribuísse para desprestigiar o A ENTERTAINER É que, ao contrário do Estado, a Igreja maior partido da Oposição, cuja imagem desde sempre cuidou dos pobres, dos do- deixou muito maltratada, como é sabido. Fui uma das 75 mil almas que assisti- entes, dos desamparados, por motivos que Falar em Congresso antecipado a um ram ao espectáculo grandioso que foi o se prendem com os próprios fundamentos ano das eleições é de quem quer ‘estoi- concerto da Madonna. Durante duas do cristianismo, com a missão evangélica, rar’, como é evidente. O primeiro-mi- horas ficámos presos a uma encenação com a caridade, maior virtude teóloga. nistro agradece. Espectáculo à margem hipnotizante e coreografias estonteantes (...) Ao contrário do que sucede no Rei- da governação é sempre óptimo para o para 25 anos de músicas que todos sa- no de Deus onde o despudor e a impunida- Governo. Politicamente, entendamo-nos, bemos trautear. Pouco importa que a de não são aceitáveis, no reino de César por muitos carros de cilindrada que alu- rainha cante em playback: ela é, sobre- os governos podem ser despudorados e fi- gue, por muitos fatos que vista, Mene- tudo, uma entertainer que se sabe rein- carem impunes... E assim se vai andando, zes é Menezes, a bengala, a caução, ventar como nenhuma outra. E fá-lo na com os responsáveis puxando os cordeli- uma carta sempre boa para o primeiro- perfeição. nhos nos momentos mais tácticos, como ministro e o Partido Socialista. É só pô- Mas duvido que os 75 mil espectado- os períodos pré-eleitorais, ou quando a po- A TIA MANUELA lo a correr e dar-lhe algum eco. Bem res se tenham apercebido de quão privi- breza se torna mediática. amparado. Ao primeiro-ministro con- legiados são. Duvido que tenham valori- O discurso de Manuela Ferreira Leite vém que Menezes fale muito e muitas zado o facto de poderem assistir a este Maria José Nogueira Pinto na rentrée do PSD foi um completa de- vezes. Ora, não há nada pior do que al- espectáculo por vivermos num espaço de Diário de Notícias (18/Setembro/08) silusão. Dizem que Pacheco Pereira foi guém utilizável, dependendo, claro, do Liberdades a que chamamos o Mundo o autor ou o inspirador desse texto políti- ponto de vista (para Sócrates é exce- Ocidental. Madonna pode andar aos pu- CIÊNCIA E RELIGIÃO co. Não sei se foi, mas se sim é obvio lente, para o PSD é péssimo). Menezes los em pelota porque vivemos numa so- que a minha desilusão também o atinge, não entende que entre ele e Manuela ciedade em que as mulheres não têm de (...) a ciência não é crente nem é ateia. apesar da enorme admiração e respeito Ferreira Leite – concorde-se ou discor- andar de burca; ela pode achincalhar a É pura e simplesmente ciência e, portan- intelectual que tenho por ele. de-se – há toda uma diferença entre o Igreja Católica porque esta não decreta to, quer crentes quer não crentes vão para Sumariamente, Manuela Ferreira Leite estável e a mais completa esquizofre- sentenças de morte sobre os infiéis; ela a ciência em pé de igualdade, com méto- foi ao cardápio das críticas irresponsá- nia política de que aliás deu prova quan- pode brincar às boazinhas-que—vão-sal- dos científicos. A ciência não demonstra veis, das insinuações soezes, e fez desfi- do teve oportunidade. var-os-coitadinhos-a-África, indo lá uma a existência de Deus nem a sua não exis- lar, da primeira à ultima palavra, os ar- De cada vez que Menezes fala, o Par- vez e adoptando um indígena, porque fez tência. A razão é simples: Deus não é gumentos repetidos até ao vómito de que tido Socialista respira aliviado e agrade- uma fortuna colossal numa economia de objecto de ciência, pois não é da ordem a maior parte das obras anunciadas pelo ce embevecido. mercado que tanto está na moda desde- do verificável empiricamente. Governo são disparatadas, a inseguran- Menezes deveria percorrer um cami- nhar. Porque não foi ela fazer carreira no Há cientistas crentes e cientistas ateus ça de agora é culpa inteira do Governo, nho de autocrítica, mas continua sem Irão, no Afeganistão ou… em África?! (...) ou agnósticos. O que se passa é que, no a economia está de rastos, o TGV vai perceber que apesar de tudo não vale limite, há uma pergunta que transcende a ser um desastre, o novo aeroporto não tudo. Mas faz hoje como fez no passa- Teresa Caeiro ciência: porque há algo e não nada? Por- se justifica, as reformas do ensino estão do: vale tudo. A todo o custo. Correio da Manhã (16/Setembro/08) que houve o Big Bang? Qual o sentido de todas mal feitas etc, etc. (...) Não compreende nem compreenderá tudo? que não basta ‘comprar’ o que está à A BELEZA DO CAPITALISMO Aqui, já não se trata de ciência, pois é Emídio Rangel volta ou tecer uma teia de cumplicida- uma questão filosófica e religiosa: o mun- Correio da Manhã (13/Setembro/08) des. Menezes não vive sem um qualquer (...) A beleza do capitalismo especulati- do cria-se a si mesmo e explica-se por si poder e exposição e as pessoas que não vo na sua versão selvagem e neoliberal é mesmo ou há um Deus transcendente e O ENTERTAINER vivem sem um qualquer poder não se que, quando um especulador global espir- pessoal, criador? Face a esta pergunta, governam a si próprias, quanto mais aos ra, nós, os mal agasalhados, apanhamos uma crentes, ateus e agnósticos não interpre- Se Sócrates é o rei do virtual, Mene- outros: destroem. pneumonia. E quando, como eles também tam o mundo de uma determinada ma- zes persiste em não perceber que o pro- Cada vez mais Menezes se assemelha dizem, “a economia real arrefece” nós é neira pelo facto de o serem; o que se pas- blema dele é ele próprio. Cada vez que a um entertainer ao serviço de Sócrates. que tiritamos de frio. Parafraseando o Papa, sa é o contrário: uns são crentes e outros diz alguma coisa – ou o seu contrário, do “o amor (deles) ao dinheiro é a raiz de to- ateus ou agnósticos, porque a interpreta- que nem se deve dar conta – um senti- Paula Teixeira da Cruz dos os (nossos) males”. Fosse eu dado a ção religiosa e a interpretação ateia ou mento de descrédito percorre a socieda- Correio da Manhã (11/Setembro/08) coisas “new age” e veria nesta tumultuosa agnóstica lhes parece, respectivamente, de portuguesa. A coisa não seria grave espécie de neo-Grande Depressão uma mais adequada, consistente e razoável. mão astral. Não é que, algures além-tú- Há fé, mas com razões. A ciência no mulo (e, pelos vistos, aquém-túmulo) os ma- sentido positivista não detém o monopólio léficos utopistas Marx e Engels estão nes- da razão. A razão tem múltiplas dimen- ta altura a comemorar os 160 anos do Ma- sões e não se esgota nas ciências lógico- nifesto Comunista? empíricas. Como disse Bento XVI, na semana passada, no Colégio dos Bernar- Manuel António Pina dinos, em Paris, na presença de grande Jornal de Notícias (17/Setembro/08) número de intelectuais, é próprio da razão perguntar por Deus e “uma cultura pura- DE CÉSAR E DE DEUS mente positivista, que remetesse para o domínio subjectivo, como não científica, a (...) Hoje temos, por um lado, um Esta- pergunta por Deus, seria a capitulação da do que regulamenta em excesso, financia razão, a renúncia às suas possibilidades abaixo dos custos e fiscaliza como e quan- mais elevadas e, portanto, um fracasso do do lhe convém, e por outro, um elevado humanismo”. número de organizações que ao abrigo de Quanto ao Génesis, primeiro livro da uma subcontratação sofrem os solavancos Bíblia, que agora seria definitivamente dos ciclos políticos, a descontinuidade das arrumado, é preciso dizer que se trata de políticas públicas, os ónus da contratação um livro religioso e não de ciência: utiliza laboral, a responsabilidade de milhares e linguagem mítico-simbólica para falar de milhares de cidadãos que o Estado lhes Deus criador. Os crentes há muito deve- transfere, ao mesmo tempo que as subfi- riam saber isso. Quem quiser lê-lo à letra nancia, impedindo qualquer sustentabilida- habita ainda o universo do ridículo de e lhes vai tolhendo, pouco a pouco, a sua identidade e liberdade de agentes so- Anselmo Borges ciais caritativos e desinteressados. Diário de Notícias (20/Setembro/08)
  9. 9. 24 DE SETEMBRO A 7 DE OUTUBRO DE 2008 OPINIÃO 9 OBAMA E A EUROPA do Estado-Maior paquistanês, avisou, entre- ternacionais. A UNESCO avisou, desde to de uma maior contenção presidencial). tanto, que “o Exército defenderá toda a área sempre, que a guerra começa no coração Considero, porém, que uma intervenção (...) Mas deve perguntar-se o que é que da sua soberania”... dos homens, e a longa história de desastres pública demasiado frequente e dispersa, pode significar para a Europa a eleição de Noutra região do mundo – a América não conseguiu inspirar melhor sabedoria. como tem sucedido por vezes, corre o risco Obama. Ele acabará com os benefícios fis- Latina –, os conflitos com os Estados Uni- da banalização da função presidencial. cais para as empresas que criem emprego dos também têm vindo a agudizar-se. Des- Adriano Moreira Há também alguns casos em que Cava- fora dos Estados Unidos, isto é, bloqueará de, pelo menos, o princípio do séc. XX que Diário de Notícias (16/Setembro/08) co Silva se tem pronunciado em termos con- as deslocalizações americanas para a Eu- a América do Norte considera os seus vizi- cretos sobre assuntos específicos da esfera ropa e a Ásia, e procurará repatriar o inves- nhos do Sul, incluindo os mexicanos, como O MISTÉRIO DO GÉNIO governamental, o que me parece de evitar. timento americano no estrangeiro. Refor- seus tutelados, para não dizer “economica- No que respeita ao exercício do seu po- çará as barreiras aduaneiras. Defenderá o mente colonizados”. Por isso, após a Se- (...) A arte sempre foi exigente. A maior der de veto político, só no caso da lei do proteccionismo e a guerra económica. Que- gunda Guerra Mundial, a América do Norte parte das obras de Aristóteles ou Praxíteles divórcio é que se manifesta um entendimen- rerá renegociar as condições de existência interveio militarmente - e sem complexos - perdeu-se, Maquiavel só foi publicado de- to menos pacífico desse poder, já que em da NAFTA, impedir a entrada nos Estados em inúmeros países das Caraíbas, da Amé- pois de morto e Camões teve de salvar o todos os demais estavam em causa diplo- Unidos de produtos dos países emergentes rica Central e do Sul. Para tanto, instigada original de Os Lusíadas de um naufrágio. mas que tinham a ver com o Estado, directa e também dificultar a concorrência europeia. pelos teóricos da “escola de Chicago”, pro- Muitos génios morreram jovens de doenças ou indirectamente, pelo que caem na esfera Diferentemente, McCain, que fala de moveu por toda a região ditaduras militares, hoje banais, Beethoven foi amargurado por de actuação do seu papel de supervisão do mercados estrangeiros abertos para os agri- derrubando, directa ou indirectamente, as uma surdez evitável e Bach ficou cego ao sistema político (...) cultores norte-americanos, defende esfor- democracias existentes. Os casos da Re- passar noites a compor à luz da vela. Hoje, ços multilaterais, regionais e bilaterais que pública Dominicana, da Guatemala, do Chi- pelo contrário, qualquer criança, sem custo Vital Moreira permitam reduzir as barreiras ao comércio le, da Argentina, da Nicarágua, pós-Somo- ou esforço, tem nas mãos uma tipografia Diário Económico (12/Setembro/08) e conseguir o cumprimento “fair” das re- za, do Brasil, para não falar da invasão da mais universal que Cervantes, uma paleta gras de comércio global. Tudo isto vem ao baía dos Porcos, em Cuba, e do bloqueio ao mais rica que Rafael, um estúdio mais so- TODA A VERDADE encontro de interesses europeus numa mun- regime de Fidel Castro, ficaram tristemente fisticado que Chaplin. No entanto não ve- dialização a que nenhum país escapa. célebres. mos por cá génios como Cervantes ou Ra- (...) Confesso que, quando a SIC estreou Quanto ao Irão, ao Iraque, a Israel e ou- fael. Nem sequer Chaplin. Temos cópias e o programa Momento da Verdade, temi o tras questões da mesma natureza, Obama Mário Soares repetição, poucos originais. pior. Julguei tratar-se de mais um produto tem sido sucessivamente contraditório, não Diário de Notícias (16/Setembro/08) A incrível redução de custos da era da televisivo aviltante, o que me colocaria um havendo uma ideia clara quanto às suas informação revolucionou o mundo material. problema difícil. Eu vejo pouca televisão, verdadeiras intenções... O ponto em que tem O SABER DE SEMPRE Deveria ter revolucionado o espiritual. Na mas nunca perco um produto aviltante. A sido mais afirmativo respeita a uma retirada música, literatura, poesia, pintura, arquitec- televisão tem uma capacidade de aviltar que das tropas americanas do Iraque sem aten- A grave situação causada pela interven- tura, desenho, filosofia, sobretudo na foto- não é ultrapassada por qualquer outro meio der às consequências, matérias em que Mc- ção da Rússia na Geórgia teve um primeiro grafia e cinema, os avanços modernos alar- de comunicação e por isso constitui, para Cain defende soluções mais moduladas, efeito desanimador que foi o de fazer re- garam enormemente o acesso e abriram mim, a principal fonte de aviltamento. Se mais realistas e mais sensatas. cordar todo o dramatismo da guerra fria, os novos campos de criatividade. É verdade tomo conhecimento de que há produtos avil- A eleição de Obama poderá sair muito longos anos de inquietação sobre a quebra que não facilitam algumas artes, como es- tantes nas grelhas, pego nas pipocas e vou cara a uma Europa em crise múltipla, pate- eventual da paz, as previsões de então so- cultura, ourivesaria, teatro ou dança. Mas para o sofá ser aviltado. Imaginem o meu ticamente destituída de qualquer capacida- bre as consequências de um eventual re- mesmo nessas aumentaram a divulgação. alívio quando constatei que o Momento da de militar digna desse nome e cronicamen- curso às armas de destruição maciça. No entanto os efeitos de tudo isto foram Verdade é, afinal, serviço público, e o pro- te dependente do parceiro americano para A retórica de uma resposta musculada ambíguos. Verificou-se, como seria de es- grama mais interessante da televisão portu- a segurança dos seus cidadãos e do seu ter- dos ocidentais perpassou pelas declarações perar, uma explosão de boçalidade e dispa- guesa, quer do ponto de vista ético quer do ritório. Sabe-o a esquerda, e por isso exulta. mais ou menos oficiais dos governos euro- rate, de obscenidade e malícia. O que fal- ponto de vista filosófico. Como é óbvio, um Sabe-o a direita, mas só agora começa a peus e americano, que rapidamente regres- tou, e também se esperava, foi o aumento produto com estas características não me dizer alguma coisa. Enfim, afigura-se que saram à moderação que uma linguagem das maravilhas de beleza, elevação, refle- interessa. Para isso, vou ler livros. McCain vai ganhar. Felizmente. cuidada chama prudência, e que, com mais xão e criação. (...) O que o Momento da Verdade vem de- transparência, tem que ver com a relação monstrar, e de forma fulgurante, é que, mes- Vasco Graça Moura de poderes, não necessariamente a que ava- João César das Neves mo a troco de dinheiro, dizer a verdade nun- Diário de Notícias (17/Setembro/08) lia as capacidades militares, apenas a que Diário de Notícias (15/Setembro/08) ca é boa ideia. Toma lá esta, Platão. Se hou- avalia as dependências externas em que os vesse televisão na Grécia Antiga, um certo BUSH DESESTABILIZA europeus se encontram. CAVACO “ACTIVISTA” e determinado senhor teria uns aditamentos O MUNDO (...) A narrativa que vai acompanhando a a fazer a certas e determinadas obras, não sucessão de violações, ao mesmo tempo da (...) É manifesto que Cavaco Silva tem era? Era. (...) A diplomacia agressiva dos Estados Uni- paz e da justiça, também vai demonstrando um entendimento “activista” da função pre- dos, no final do mandato Bush, está a de- que a lógica dos apelos anda por caminhos sidencial, explorando uma interpretação pos- Ricardo Araújo Pereira sestabilizar o mundo e a criar conflitos em muito diferentes dos da lógica da interven- sível da Constituição (embora eu seja adep- Visão (18/Setembro/08) diferentes regiões. Na semana passada es- ção: a insegurança no Chade não diminuiu, crevi, nesta mesma coluna, sobre o Cáuca- e impede mesmo a entrada da ajuda huma- so, o conflito entre a Geórgia e a Rússia nitária; no Zimbabwe, os representantes da (estimulado pela NATO, braço armado dos comunidade internacional avisam o Conse- Estados Unidos) aplacado in extremis pela lho de Segurança de que a situação é “um União Europeia, que percebeu o perigo em desafio para o mundo”; o erro cometido no que incorria se concretizasse as ameaças Kosovo não animou de resultados a inter- feitas. Invocar o regresso à “guerra fria” é venção da Missão da ONU; no Corno de um disparate, num mundo de novo multila- África, a seca e a subida de preços dos gé- teral e com diversos centros de poder... neros terá deixado mais de 14 milhões de Mais recentemente, Bush permitiu que pessoas, que vivem em seis países, na mai- as forças especiais americanas fizessem or carência alimentar. De tantas e longas incursões no Paquistão, intervindo a partir dramáticas narrações, de tão dispendiosas do Afeganistão, sem sequer avisar o Go- intervenções em recursos materiais e hu- verno “aliado” do Paquistão. O objectivo era manos, de tanta inútil intervenção militar, de capturar os terroristas da Al-Qaeda e os tantas perdas de vidas, de futuros, e de es- talibãs nos seus santuários. O que, claro, não peranças, a conclusão que parece abran- aconteceu. A NATO declarou – vá lá! – gente de todos os casos é que a paz conti- que as suas tropas não atravessariam a fron- nua a ser um processo estritamente político, teira do Afeganistão, tanto mais que o chefe apoiado na concentração dos esforços in-
  10. 10. 10 CRÓNICA arte em café 24 DE SETEMBRO A 7 DE OUTUBRO DE 2008 A OUTRA FACE DO ESPELHO Arco da traição José Henrique Dias* hdias@net.sapo.pt É tarde. Consome-se a hora como se alguém ti- vesse de vir bater à porta. É assim desde o princí- pio, não me habituo a esta inevitável solidão. Dis- parate. Estamos sempre sós. Como morremos sem- pre sós. Às vezes parece outra coisa porque não percebemos tudo até ao fim. A distracção assalta- nos. A inquietude impacienta-nos. A realidade des- faz-nos. Somos uma espinha de peixe entre um gato e um esgoto. Recolhi um dia de um poema e depois falei disto, mas não sei onde nem quando. Há pou- co tempo uma pessoa de quem gosto muito con- frontou-me com a tirania que há dentro de mim. Perguntava com voz alterada: julgas-te deus? Não sei exactamente o que é isso, sei seguramente o Homem e a Opressão da Mulher, com que estive pretações. Algumas são fáceis demais. Como se que muitos julgam saber. Desde os primórdios do às voltas para ver se saía do labirinto. dizia no meu tempo de estudante, nas discussões grande desamparo. Como Freud explica em O nas- É tarde, estava a dizer. Consome-se a hora como filosofantes a um canto de A Brasileira, são da cimento de uma ilusão. Para mim não era absolu- se alguém tivesse de vir bater à porta. Comecei primeira folha da Sebenta. Um módico de inteli- tamente preciso. Tinha pensado nisso, embora de por pensar. Quando se apertava o cerco em que gência decifra tudo. maneira incipiente, era ainda um rapazinho. Passou me comprometi. As tarefas da profissão esgotam- A Emerenciana tinha-me avisado. Já ali está a interessar-me cedo o problema da individuação. me. Pensar é penoso para quem se obriga à exce- aquela paciente muito especial. Mando entrar? Tra- Ancorei-me a partir da Urvertrauen, a “confiança lência. Lembrei-me agora que foi qualquer coisa balha para mim há tantos anos que sei o que cada primordial” que articula a conceptualização de au- assim que ela me disse a propósito de artes perfor- coisa quer dizer. Fica com alguma inquietação sem- pre que recebo uma mulher bonita. O que se acen- tuou desde que fiquei viúvo. Não passou muito tem- po, parece que foi ontem, e no entanto correram cinco anos, sentenciou com algum atrevimento o senhor doutor depressa refaz a sua vida e bem merece. Sei o que estava a reverenciar. O relato começou ainda mal respirava do emba- te da aparição. Não posso negar que me perturba e apelo mais à disciplina interior do que ao aperto da deontologia. Os colegas das outras especialidade usam bata branca. Como diz algures o Torga, é como a cortiça de castidade. Que põem aos car- neiros como um avental. Barreira de crueldade para o salto do desejo. A bata aspira funcionar no terri- tório subjectivo dos impulsos. Talvez alguns desa- marrem o avental da metáfora. O sonho, doutor, foi assim: eu andava com ele de mão dada por ruas muito estreitas. Becos, um labi- rinto. E ele dizia-me olha como definho, pareço um cadáver. Vê como estou magro e pálido. Eu olhava e não me parecia, mas ele insistia, insistia, fazia- me sentir que ia morrer. Depois saiu não sei donde um enorme rato. Preto. Do tamanho de um cão. Odeio ratos e cães. Um terror. E eu gritava fora de mim. Depois insultei-o, humilhei quanto pude, des- pi-o até à ínfima nudez da impotência disfarçada, que eu finjo que não é. Transporto-me em memó- rias passadas… Não continuo. É tarde. Em verdade, nem sei há tonomia em Erik Erikson. mativas na cama. Julgo que as palavras foram: para quanto tempo me contou o sonho. O desejo secreto Não sei porque estou assim. Que raio de coisa certos momentos exijo a excelência. Era a última de morte era sobreviver a um amor sem futuro. leva a que permaneça no labirinto de mim no à sol- hipótese que tinha para humilhar. As traições do Quando diminui a autonomia cresce a agressivida- ta em Creta da traição do Eu? Já perceberam. corpo soltam a língua às oprimidas que se querem de. Ainda sinto a sua sombra além da porta. Guar- “A vida é intrinsecamente um naufrágio cons- opressoras. Quando menos se espera atiram pe- do o rasto do perfume e retenho a produção a ver- tante. Mas ser náufrago não significa morrer afo- dradas aos vidros da intimidade. Com a palavra melho e negro dessa tarde. A blusa intensa Cor de gado. […] A própria situação de naufrágio já é a amor diluída em baton. sangue. O lento arfar do peito. O fato negro. O salvação, uma vez que é essa a verdade da vida É Guardei tudo isto em mim quando a vi passar a olhar onde só cabe a excelência. por isso que já não acredito em pensamentos que porta a renovar, naquela sua maneira de olhar para Sou fraco como os demais mas domino o possí- não sejam de náufragos”. trás, o sorriso do até à próxima sessão. Terá sido vel. Não sei se é por isso que me elegeram para a Coisas de Ortega y Gasset a propósito de Goe- um sonho. A narrativa foi de um sonho. Começou comissão de ética. the. A verdade é que ninguém se importa com o exactamente assim: esta noite tive um sonho muito Desde que fiquei viúvo que a Emerenciana vigia que verdadeiramente somos. Só conta o sucesso estranho. Não era a primeira vez que se reconsti- os meus odores. Sabe que não passará pela minha que temos. A advertência vem-me de Arno Gruen, tuía em sonhos que apelidava de estranhos. Nunca cama. Traições do Eu. a espremer os miolos sobre a Desumanização do chego a saber se lhe interessam as possíveis inter- * Professor universitário
  11. 11. 24 DE SETEMBRO A 7 DE OUTUBRO DE 2008 COIMBRA 11 A magia dos Encontros Coimbra foi palco de mais uma edição dos “Encontros Mágicos”, uma iniciativa de Luís de Matos apoiada Fotos de Carina Martins pela Câmara Municipal, e que tem trazido até ao nosso País alguns dos mais famosos artistas do ilusionismo, que maravilham miúdos e graúdos. Este ano assim voltou a acontecer, como documentam as imagens.
  12. 12. 12 FOTOGRAPHARTE 24 DE SETEMBRO A 7 DE OUTUBRO DE 2008 REGATA DOS GRANDES VELEIROS - PORTO DE AVEIRO, 20.09.2008 Fotos de Dinis Manuel Alves

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