O Centro - n.º 16 – 13.12.2006

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Versão integral da edição n.º 16 do quinzenário “O Centro”, que se publica em Coimbra. Director: Jorge Castilho. 13.12.2006.

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O Centro - n.º 16 – 13.12.2006

  1. 1. Inscreva-se em: Atelier de Pintura Iniciação em Artes Plásticas Conferências de Anatomia Artística Mais de 250 obras de arte em catálogo Visite-nos em www.aelima.com ou Rua Gil Vicente, 86-A – Coimbra Exposição de fotografia de João Igor e de pintura de Luís Sargento até 21 de Dezembro Telefone: 239 781 486 – Telemóvel: 917 766 093 Santos da Casa DIRECTOR J O R G E C A S T I L H O João Araújo, D.O. de: Maria Luíza Fernandes OSTEOPATA Comércio Guarda – Consultas à 2.ª feira de Artigos Religiosos Marcações pelo telefone: 271 237 039 | Taxa Paga | Devesas – 4400 V. N. Gaia | Telef. 239 83 62 83 Autorizado a circular em invólucro Rua da Sofia, 94 A - 3000-389 Coimbra de plástico fechado (DE53742006MPC) ANO I N.º 16 (II série) De 13 a 26 de Dezembro de 2006 € 1 euro (iva incluído) Natal Origens Contos Tradições Poemas “Natividade” Josefa de Óbidos PÁGINAS 4 A 12 (1630 – 1684) INICIATIVA DO CONSERVATÓRIO DE COIMBRA Música vai invadir a cidade Quinta-feira na Baixa Sexta-feira no “Dolce Vita” Perspectiva do futuro Conservatório PÁGINA 11 UMA PRENDA NATALÍCIA SÓ UMA ESCOLA NO PAÍS OPINIÃO Ofereça ORIGINAL uma assinatura Cães-guia Quem do “Centro” mudam se lembra e ganhe uma obra de arte vida de da deficientes Académica? PÁG. 2 e 3 PÁG. 18 PÁG. 15
  2. 2. 2 ENTREVISTA DE 13 A 26 DE DEZEMBRO DE 2006 CONFIRMANDO A OPINIÃO DE D. ALBINO CLETO EM ENTREVISTA AO “CENTRO” Cardeal de São Paulo admite que a Igreja reconsidere celibato dos padres Na anterior edição do “Centro” publicá- Reiterando o que D. Albino Cleto referi- apresentou a demissão por motivos de mos uma desenvolvida entrevista com o ra ao “Centro”, o cardeal brasileiro salien- idade. Bispo de Coimbra, D. Albino Cleto, onde o tou na entrevista que existem alguns padres Com a recente nomeação, Hummes questionámos sobre o celibato dos padres casados e que a proibição do matrimónio passa a ser o brasileiro com maior influên- (relativamente ao qual ele manifestou con- só foi adoptada depois da instituição do cia no Vaticano e aumentará as suas possi- cordância) e sobre o alegado conservado- sacerdócio. bilidades de se tornar Papa se houver outro rismo do novo Papa, de que ele discordou. Cláudio Hummes, que chegou a ser conclave antes de completar 80 anos, limi- Para sustentar que o Papa Bento XVI não é considerado um dos prováveis sucessores te para a participação dos cardeais na esco- conservador, D. Albino Cleto aludiu mes- de João Paulo II no conclave que elegeu lha papal. mo ao facto de ele ter acabado de nomear Bento XVI, disse que a Igreja Católica não Filho de imigrantes alemães, nascido como responsável pela Congregação para é “estacionária, sim uma instituição que em 1934 na cidade de Montenegro, no Es- o Clero o cardeal brasileiro Cláudio muda quando deve mudar”. tado do Rio Grande Sul, Cláudio Hummes Hummes, que é conhecido pelas suas posi- Instado a comentar os recentes escânda- foi bispo na cidade de Santo André, na ções progressistas. los de pedofilia, Cláudio Hummes referiu região metropolitana de São Paulo, entre Ora sucede que apenas três dias depois que o tema preocupa a Igreja. 1975 a 1996. da edição do “Centro”, o jornal “O Estado “Ainda que se trate de um só caso – fri- D. Cláudio Hummes é considerado um de São Paulo” publicava uma entrevista sou – já seria uma grande preocupação, cardeal progressista em relação às questões com o referido cardeal Cláudio Hummes, principalmente por causa das vítimas”. sociais, embora alguns o achem um tanto confirmando a opinião que nos fora dada “É injusto e hipócrita generalizar os conservador no que se refere à doutrina da por D. Albino Cleto. escândalos de pedofilia, pois mais de 99 Igreja. Assim, nessa entrevista o cardeal por cento dos sacerdotes não têm nada a No final da década de 70 apoiou as pri- Hummes afirma que a Igreja poderá rever ver com isso”, salientou. meiras greves operárias contra o regime o celibato para admitir sacerdotes casados. Segundo o cardeal, a pedofilia é um pro- militar de então (1964-1985), acolheu líde- “Apesar de o celibato fazer parte da his- blema de toda a sociedade, uma vez que res perseguidos, entre eles Lula da Silva, e Cláudio Hummes tória e da cultura católicas, a Igreja pode entrevista ainda no Brasil, antes de partir existem casos de abuso sexual de crianças autorizou a realização de reuniões secretas rever esta questão, pois o celibato não é um para o Vaticano (onde foi assumir o rele- nas suas próprias famílias. nas igrejas da diocese. dogma, sim uma norma disciplinar”, disse vante cargo que o torna como responsável Dom Cláudio Hummes, de 72 anos, Depois de passar dois anos em For- o cardeal. pelos assuntos relativos a 400 mil padres substitui no cargo o cardeal colombiano taleza, capital do Estado do Ceará, Cláudio Dom Cláudio Hummes concedeu esta espalhados por todo o mundo). Dario Castrillón Hoyos, de 77 anos, que Hummes substituiu, em 1998, D. Paulo Evaristo Arns, um dos mais destacados re- IGREJAS SEPARADAS HÁ MAIS DE 800 ANOS ligiosos progressistas do Brasil, na Ar- quidiocese de São Paulo. Papa recebe hoje em Roma o Primaz ortodoxo grego Ao contrário de seu antecessor em São Paulo, manteve sempre distância em rela- O chefe da igreja ortodoxa grega, mon- duas igrejas estiveram também no centro “O facto de os cristãos latinos nele ção à Teologia da Libertação, uma corren- senhor Christodoulos, inicia hoje (quar- dos encontros, no final de Novembro, em terem participado enche os católicos de te da Igreja, nomeadamente na América ta-feira, dia 13) uma visita histórica ao Istambul, entre Bento XVI e o Patriarca um profundo arrependimento”, subli- Latina, que adaptou conceitos marxistas à Vaticano, durante a qual se encontrará ecuménico ortodoxo Bartolomeu I, no nhou o Pontífice. doutrina católica. com o Papa Bento XVI, anunciou a ar- âmbito da visita do Papa à Turquia. A igreja grega, uma das mais conser- Seguidor das orientações de João Paulo quidiocese de Atenas. Tradicionalmente anti-papista, a igre- vadoras no seio da Igreja Ortodoxa, re- II, o arcebispo de São Paulo é contra a Trata-se do primeiro encontro oficial ja da Grécia melhorou no entanto as suas clamara insistentemente um arrependi- eutanásia, os métodos contraceptivos, as em Roma entre um Primaz da Igreja relações com a Santa Sé depois de uma mento do Vaticano pelas “crueldades que investigações científicas com células esta- Ortodoxa grega e um Papa. visita de João Paulo II a Atenas, em Maio os seus fiéis infligiram aos ortodoxos minais e a ordenação de mulheres. Numa entrevista ao jornal grego “Na- de 2001, em que manifestou o arrependi- durante a Quarta Cruzada”. O cardeal brasileiro fala cinco idiomas e tional Herald”, Christodoulos afirmou mento da Igreja Católica pelos erros Durante a visita do chefe da Igreja ocupa actualmente 12 cargos em organis- que este encontro com o Papa acontece cometidos contra os ortodoxos. Ortodoxa grega ao Vaticano, que termina mos do Vaticano, o que o faz passar, em no âmbito dos esforços de aproximação Na altura, o Papa evocou a “pilhagem sábado, o Papa deverá oferecer a Chris- média, uma semana por mês em Roma, entre as Igrejas Católica e Ortodoxa, dramática da cidade imperial de Constan- todoulos dois pedaços da corrente que com destaque para a participação no separadas desde 1054. tinopla, que era um bastião da Cristandade terá mantido prisioneiro o apóstolo Paulo Conselho do Diálogo Inter-religioso na As tentativas de reconciliação entre as no Oriente”, pelos cruzados em 1.204. antes da sua execução em Roma. Cúria Romana. Ofereça livros no Natal com 10% de desconto Director: Jorge Castilho No sentido de proporcionar mais alguns Mas este desconto não se cinge aos li- bastará ir ao site www.livrosnet.com e fazer benefícios aos assinantes deste jornal, o vros, antes abrange todos os produtos congé- o seu registo e a respectiva encomenda, que (Carteira Profissional n.º 99) Propriedade: Audimprensa “Centro” estabeleceu um acordo com a li- neres que estão à disposição na livraria on lhe será entregue directamente. Nif: 501 863 109 vraria on line “livrosnet.com”. line “livrosnet.com”. São apenas 20 euros por uma assinatura Sócios: Jorge Castilho e Irene Castilho Para além do desconto de 10%, o assinan- Aproveite esta oportunidade, se já é assi- anual – uma importância que certamente Inscrito na DGCS sob o n.º 120 930 te do “Centro” pode ainda fazer a encomen- nante do “Centro”. recuperará logo na primeira encomenda de da dos livros de forma muito cómoda, sem Caso ainda não seja, preencha o boletim livros. Composição e montagem: Audimprensa sair de casa, e nada terá a pagar de custos de que publicamos na página seguinte e envie-o E, para além disso, como ao lado se indi- – Rua da Sofia, 95, 3.º 3000-390 Coimbra - Telefone: 239 854 150 envio dos livros encomendados. para a morada que se indica. ca, receberá ainda, de forma automática e Fax: 239 854 154 Numa altura em que se aproxima o Natal, Se não quiser ter esse trabalho, bastará completamente gratuita, uma valiosa obra de e em que os livros são sempre uma excelente ligar para o 239 854 150 para fazer a sua arte de Zé Penicheiro – trabalho original e-mail: centro.jornal@gmail.com Impressão: CIC - CORAZE oferta para gente de todas as idades, este assinatura, ou solicitá-la através do e-mail simbolizando os seis distritos da Região Oliveira de Azeméis Depósito legal n.º 250930/06 desconto que proporcionamos aos assinantes centro.jornal@gmail.com. Centro, especialmente concebido para este Tiragem: 10.000 exemplares do “Centro” assume especial significado. Depois, para encomendar os seus livros, jornal pelo consagrado artista.
  3. 3. DE 13 A 26 DE DEZEMBRO DE 2006 3 EDITORIAL NA SOCIEDADE PORTUGUESA DE AUTORES São hoje entregues Espírito natalício os Prémios Pen Clube Os Prémios do PEN Clube Português relativos a obras publicadas em 2005 nas modalidades de poesia, ensaio, narrativa, Quero especialmente aludir às atitudes o milagre de assim descobrir, no seu ínti- primeira obra e tradução vão ser entre- Jorge Castilho de reconciliação e, sobretudo, aos gestos mo, o espírito natalício, que será a mais gues hoje (quarta-feira, dia 13) na de presença que há muito andam ausentes reconfortante de todas as prendas – para Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), jorge.castilho@zmail.pt Se fôssemos analisar as causas, certa- – entre familiares, na maioria das situa- si e para os que lhe sentiam a falta… em Lisboa. mente chegaríamos a conclusões decep- ções, mas igualmente entre amigos. Os vencedores da edição 2005 foram cionantes. Mesmo os que não se identificam *** António Ramos Rosa, na Poesia (“Géne- A verdade, porém, é que, neste caso e com uma religião são crentes, no senti- se”), Pedro Eiras, no Ensaio (“Esquecer nesta altura, mais importantes que as do de acreditarem na bondade do seu Esta edição do “CENTRO” assinala a Fausto”), Fiama Hasse Pais Brandão e causas são as consequências. próximo – às vezes, ostensivamente, tão quadra festiva, procurando fazê-lo com a Hélder Macedo, na Ficção (“Contos da Estou a referir-me ao chamado “espí- distante… possível originalidade. Daí que tenhamos Imagem” e “Sem nome”, respectivamen- rito natalício” e às coisas positivas que Por isso, seria bom que o Natal por seleccionado alguns poemas alusivos ao te) e Ana Cristina Oliveira, na primeira podem encontrar-se entre a multiplici- todos fosse assinalado – através de uma Natal, dois contos muito interessantes obra (“Continentes Negros”). dade de fenómenos que se manifestam a mensagem, de um telefonema, de uma (um de Mia Couto, num comovente José Bento e Miguel Serras Pereira par- propósito do Natal. visita… “Natal” africano, outro de Maria Ondina tilham o Grande Prémio da Tradução, pe- Que importa se a dádiva a quem pre- Não tenho dúvidas que para muitos, Braga, numa tocante vivência asiática). E las suas versões da obra magna da novelís- cisa não é feita com propósito verdadei- sobretudo para os que habitualmente es- ainda uma crónica de Eça de Queirós, tica espanhola, “Dom Quixote”, de Miguel ramente solidário, antes com o intuito tão mais sós, essa oferta provocará muito sobre o Natal londrino por ele testemu- de Cervantes. de cumprir obrigação anual, como se se mais alegria do que qualquer objecto nhado em fins do séc- XIX. À excepção do destinado à primeira tratasse do pagamento de um imposto? valioso. Para além disso, reproduzimos pintu- obra, no valor de 2.500 euros, os prémios Relevante é que ela se concretize! Por isso aqui deixo um veemente ras de alguns dos nossos mais reputados têm todos uma dotação de 5 mil euros. E não estou a referir-me às prendas, apelo: roube algum tempo aos embrulhos artistas que mostram a forma como eles, O Presidente da República, Cavaco às coisas materiais, já que essas assumi- e utilize-o a visitar (ou a escrever, a tele- em épocas bem distintas, sentiram o Silva, e o Director do Instituto Português ram, na maior parte dos casos, uma ver- fonar, a enviar um e-mail ou sms..) àque- Natal. do Livro e das Bibliotecas (IPLB), Jorge tente que tem muito mais a ver com o les que gostam de si e de quem tem anda- Desta forma singela, a todos os nossos Manuel Martins, deverão assistir à cerimó- consumismo do que com a religião – ou do afastado! Leitores, Assinantes e Anunciantes dese- nia de entrega dos prémios, marcada para mesmo com a fraternidade. Vai ver que custa pouco. E pode dar-se jamos um Natal com saúde e muito feliz! as 18h30. EXCELENTE PRENDA DE NATAL POR APENAS 20 EUROS Jornal “Centro” Rua da Sofia. 95 - 3.º 3000–390 COIMBRA Ofereça uma assinatura do “Centro” Poderá também dirigir-nos o seu pedido de e ganhe valiosa obra de arte assinatura através de: telefone 239 854 156 O jornal “Centro” tem uma aliciante pro- tónico, de deslumbrantes paisagens (desde as sempre bem informado sobre o que de mais fax 239 854 154 posta para si. praias magníficas até às serras verdejantes) e, importante vai acontecendo nesta Região, no ou para o seguinte endereço de e-mail: De facto, basta subscrever uma assinatura ainda, de gente hospitaleira e trabalhadora. País e no Mundo. centro.jornal@gmail.com anual, por apenas 20 euros, para automatica- Não perca, pois, a oportunidade de receber Tudo isto, voltamos a sublinhá-lo, por mente ganharem uma valiosa obra de arte. já, GRATUITAMENTE, esta magnífica obra APENAS 20 EUROS! Para além da obra de arte que desde já lhe ofe- Trata-se de um belíssimo trabalho da auto- de arte, que está reproduzida na primeira pági- Não perca esta campanha promocional, e recemos, estamos a preparar muitas outras regali- ria de Zé Penicheiro, expressamente concebi- na, mas que tem dimensões bem maiores do ASSINE JÁ o “Centro”. as para os nossos assinantes, pelo que os 20 euros do para o jornal “Centro”, com o cunho bem que aquelas que ali apresenta (mais exacta- Para tanto, basta cortar e preencher o da assinatura serão um excelente investimento. característico deste artista plástico – um dos mente 50 cm x 34 cm). cupão que abaixo publicamos, e enviá-lo, O seu apoio é imprescindível para que o mais prestigiados pintores portugueses, com Para além desta oferta, passará a receber acompanhado do valor de 20 euros (de prefe- “Centro” cresça e se desenvolva, dando voz a reconhecimento mesmo a nível internacional, directamente em sua casa (ou no local que nos rência em cheque passado em nome de esta Região. estando representado em colecções espalha- indicar), o jornal “Centro”, que o manterá AUDIMPRENSA), para a seguinte morada: CONTAMOS CONSIGO! das por vários pontos do Mundo. Neste trabalho, Zé Penicheiro, com o seu traço peculiar e a inconfundível utilização de uma invulgar paleta de cores, criou uma obra Desejo receber uma assinatura do jornal CENTRO (26 edições). que alia grande qualidade artística a um pro- fundo simbolismo. Para tal envio: cheque vale de correio no valor de 20 euros. De facto, o artista, para representar a Re- gião Centro, concebeu uma flor, composta pelos seis distritos que integram esta zona do Nome: País: Aveiro, Castelo Branco, Coimbra, Morada: Guarda, Leiria e Viseu. Cada um destes distritos é representado Localidade: Cód. Postal: Telefone: por um elemento (remetendo para respecti- vo património histórico, arquitectónico ou Profissão: e-mail: natural). A flor, assim composta desta forma tão ori- Desejo receber recibo na volta do correio N.º de contribuinte: ginal, está a desabrochar, simbolizando o crescente desenvolvimento desta Região Cen- Assinatura: tro de Portugal, tão rica de potencialidades, de História, de Cultura, de património arquitec-
  4. 4. 4 NATAL DE 13 A 26 DE DEZEMBRO DE 2006 Natal: origem e O Natal surge como o aniversário tes, que são dados pelo Pai Natal ou O nascimento de Jesus começou a ser burro e feno, e colocou na gruta as ima- do nascimento de Jesus Cristo, pelo Menino Jesus, dependendo da tra- celebrado no século III, data das primei- gens do Menino Jesus, da Virgem Maria Filho de Deus, sendo dição de cada país. ras peregrinações a Belém, para se visi- e de S. José. Com isto, pretendeu tornar actualmente uma das festas tar o local onde Jesus nasceu. mais acessível e clara a celebração do católicas mais importantes. No século IV começaram a surgir Natal, para que as pessoas pudessem representações do nascimento de Jesus visualizar o que se terá passado em PRESÉPIO Inicialmente, a Igreja Católica não comemorava o Natal. A palavra “presépio” significa “um em pinturas, relevos ou frescos. Belém durante o nascimento de Jesus. lugar onde se recolhe o gado, curral, es- Passados nove séculos, mais precisa- Nos finais do século XV, graças a um Foi em meados do século IV d. C. tábulo”. Contudo, esta também é a mente no ano de 1223, S. desejo crescente de fazer reconstruções que se começou a festejar designação dada à representação Francisco de Assis decidiu plásticas da Natividade, as figuras de o nascimento do Menino Jesus, artística do nascimento do celebrar a missa da véspera Natal libertam-se das paredes das igre- tendo o Papa Júlio I fixado Menino Jesus num estábulo, de Natal com os cidadãos de jas, surgindo em pequenas figuras, o a data no dia 25 de Dezembro, acompanhado pela Virgem Ma- Assis de forma diferente. que permite criar cenas diferentes. já que se desconhece a verdadeira ria, S. José e uma vaca e Assim, esta missa, em Surgem, assim, os presépios. data do seu nascimento. um jumento – a que muitas vez de ser celebrada no A criação do cenário que hoje é Uma das explicações para vezes se acrescentam outras interior de uma igreja, conhecido como presépio, provavel- a escolha do dia 25 de Dezembro figuras, como pastores, foi celebrada numa mente, deu-se já no século XVI. como sendo o dia de Natal ovelhas, anjos, os Reis gruta, que se situava Segundo o inventário do Castelo de prende-se como facto de esta data Magos. na floresta de Grécio, Piccolomini em Celano, o primeiro pre- coincidir com a Saturnália perto da cida- sépio criado num lar particular surgiu dos romanos e com as festas de. S. Francis- em 1567, na casa da Duquesa de germânicas e célticas do Solstício co transportou Amalfi, Constanza Piccolomini. de Inverno. Sendo todas estas para essa No século XVIII, a recriação da cena festividades pagãs, a Igreja viu gruta um do nascimento de Jesus estava comple- aqui uma oportunidade boi e um tamente inserida nas tradições de Nápoles e da Península Ibérica, incluin- de cristianizar a data, colocando do Portugal. em segundo plano a sua conotação Aliás, há quem considere que no pagã. Algumas zonas optaram nosso País foram feitos alguns dos mais por festejar o acontecimento belos presépios de todo o mundo, sendo em 6 de Janeiro, mas gradualmente de destacar os realizados pelos esculto- esta data foi sendo associada res e barristas Machada de Castro e à chegada dos Reis Magos e não António Ferreira, no século XVIII. ao nascimento de Jesus Cristo. O Natal é, assim, dedicado pelos cristãos a Cristo, ÁRVORE DE NATAL que é o verdadeiro Sol de Justiça A Árvore de Natal é um pi- (Mateus 17,2; Apocalipse 1,16), nheiro ou abeto, enfeitado e ilu- e transformou-se numa minado, especialmente nas casas das festividades centrais particulares, na noite de Natal. da Igreja, equiparada A tradição da Árvore de Natal desde cedo à Páscoa. tem raízes muito mais longínquas Apesar de ser uma festa cristã, do que o próprio Natal. o Natal, com o passar Os romanos enfeitavam árvo- do tempo, converteu-se res em honra de Saturno, deus da agricultura, mais ou menos na numa festa familiar mesma época em que hoje com tradições pagãs, preparamos a Ár- em parte germâni- vore de Natal. Os cas e em parte egípcios traziam ga- romanas. lhos verdes de pal- meiras para dentro Sob influência francis- de suas casa no dia cana, espalhou-se, a mais curto do ano partir de 1233, o cos- (que é em Dezem- tume de, em toda a bro), como símbo- cristandade, se cons- lo de triunfo da truírem presépios, já vida sobre a que estes reconstituí- morte. Nas cul- am a cena do nasci- turas célticas, mento de Jesus. os druídas tin- A árvore de Natal sur- ham o costume de ge no século XVI, sendo decorar velhos carva- enfeitada com luzes sím- lhos com maçãs doura- bolo de Cristo, Luz do das para festividades Mundo. Uma outra tradição também celebradas na de Natal é a troca de presen- mesma época do ano.
  5. 5. DE 13 A 26 DE DEZEMBRO DE 2006 NATAL 5 simbologia A primeira referência a uma “Árvore de Belchior e Gaspar). O rei da Judeia, tolos, traiu Jesus por 30 dinheiros. Depois Quanto ao número e nomes dos Reis Natal” surgiu no século XVI e foi nesta Herodes, sabendo que chegada do Messias de ter celebrado a última ceia e instituído a Magos são tudo suposições sem base altura que ela se vulgarizou na Europa era anunciada para essa época pelos anti- Eucaristia, Cristo teve de comparecer histórica, aliás algumas pinturas dos pri- Central, há notícias de árvores de Natal na gos profetas, ordenou que todos os recém- perante o sumo-sacerdote dos Judeus, meiros séculos mostram 2, 4 e até Lituânia em 1510. nascidos fossem assassinados. Perante isto, Caifás, e em seguida perante a justiça mesmo 12 Reis Magos adorando Jesus. Diz-se que foi Lutero (1483-1546), José (pai adoptivo de Jesus) e Maria deci- romana, representada por Pôncio Pilatos. Foi uma tradição posterior aos Evan- autor da reforma protestante, que após um diram fugir para o Egipto, para salvarem a Condenado pelo primeiro, abandonado gelhos que lhes deu o nome de Baltasar, passeio, pela floresta no Inverno, numa Gaspar e Belchior (ou Melchior), tendo- noite de céu limpo e de estrelas brilhantes se também atribuído a cada um caracte- trouxe essa imagem à família sob a forma rísticas próprias. de Árvore de Natal, com uma estrela bri- Belchior (ou Melchior) seria o represen- lhante no topo e decorada com velas, isto tante da raça branca (europeia) e descende- porque para ele o céu devia ter estado ria de Jafé; Gaspar representaria a raça assim no dia do nascimento do Menino amarela (asiática) e seria descendente de Jesus. Sem; por fim, Baltasar representaria todos O costume começou a enraizar-se. Na os de raça negra (africana) e descenderia de Alemanha, as famílias, ricas e pobres, Cam. Estavam assim representadas todas decoravam as suas árvores com frutos, as raças bíblicas (e as únicas conhecidas na doces e flores de papel (as flores vermelhas altura: os semitas, os jafetitas e camitas. representavam o conhecimento e as bran- Pode então dizer-se que a adoração dos cas representavam a inocência). Isto per- Reis Magos ao Menino Jesus simboliza a mitiu que surgisse uma indústria de deco- homenagem de todos os homens na Terra rações de Natal, em que a Turíngia se espe- ao Rei dos reis, mesmo os representantes cializou. do tronos, senhores da Terra, curvam-se No início do século XVII, a Grã- perante Cristo, reconhecendo assim a sua Bretanha começou a importar da Ale- divina realeza. manha a tradição da Árvore de Natal O dia de Reis celebra-se a 6 de Janeiro, pelas mãos dos monarcas de Hannover. partindo-se do princípio que foi neste dia Contudo a tradição só se consolidou nas que os Reis Magos chegaram finalmente Ilhas Britânicas após a publicação pela junto ao Menino Jesus. Em alguns países é “Illustrated London News”, de uma no dia 6 de Janeiro que se entregam os pre- imagem da Rainha Vitória e Alberto sentes. com os seus filhos, junto à Árvore de Ao chegarem ao seu destino, os Reis Natal no castelo de Windsor, no Natal Magos deram como presentes ao Menino de 1846. Jesus: Ouro (oferecido por Belchior), para Esta tradição espalhou-se por toda a representar a Sua nobreza; incenso (ofere- Europa e chegou aos EUA aquando da cido por Gaspar), que representa a divinda- guerra da independência pelas mãos dos de de Jesus; e Mirra (oferecido por soldados alemães. A tradição não se conso- Baltasar), simbolizando o sofrimento que lidou uniformemente dada a divergência Cristo enfrentaria na Terra (a mirra é uma erva amarga). “Presépio” Gregório Lopes, c.1490-1550, Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa de povos e culturas. Contudo, em 1856, a Casa Branca foi enfeitada com uma árvore Assim, os Reis Magos homenagearam de Natal e a tradição mantém-se desde vida de Jesus. Só depois da morte de He- pelo segundo, coberto de ultrajes pelo povo Jesus como rei (ouro), como deus (incen- 1923. rodes, esta família voltou para Nazaré, na subiu ao Calvário, onde morreu crucifica- so) e como homem (mirra). Como o uso da árvore de Natal tem ori- Galileia. Aqui Jesus cresceu, ajudando seu do entre dois ladrões. Ressuscitou ao 3.º Coloca-se a questão de saber como é gem pagã, este predomina nos países nór- pai adoptivo no trabalho de carpinteiro. dia e apareceu a muitos dos seus discípu- que os Reis Magos associaram o apareci- dicos e no mundo anglo-saxónico. Nos Aos 30 anos, Jesus começou a sua missão, los, encarregando-os de espalhar a sua dou- mento da Estrela com o nascimento de países católicos, como Portugal, a tradição sendo baptizado por seu primo S. João trina pelo mundo inteiro. Quarenta dias Jesus. A verdade é que existem várias teo- da árvore de Natal foi surgindo pouco a Baptista, nas águas do Jordão. Em seguida, depois da sua ressurreição, subiu aos céus rias, mas não há como saber qual delas é a pouco ao lado dos já tradicionais presépios. dirigiu-se para o deserto onde permaneceu na presença dos seus discípulos. correcta. Uma dessas teorias considera que durante 40 dias em jejum e onde resistiu às os Reis Magos descobriram a relação entre tentações de Satanás. Começou por pregar o novo astro e o nascimento de Cristo. o Evangelho ou a “boa nova” na Galileia, MENINO JESUS REIS MAGOS Jesus, em hebreu, Jehoshua, abreviado depois dirigiu-se para Jerusalém, lugar Os Reis Magos teriam vindo do Oriente, Mais explicações sobre esta questão e em Jeshua, que quer dizer “Javé, é a salva- onde se deparou com uma hostilidade cres- guiados por uma estrela, para adorar o outras relacionadas com os Reis Magos ção”, o filho de Deus, segundo o cente por parte dos fariseus. Na sua missão, Deus Menino, em Belém são dadas através de textos apócrifos, isto Evangelho, e o Messias anunciado pelos Jesus foi acompanhado pelos seus discípu- A designação “Mago” era dada, entre é, textos não reconhecidos pela Igreja. profetas. Nasceu em Belém da Virgem los, os doze apóstolos, com estes percorreu os Orientais, à classe dos sábios ou erudi- Contudo estes textos foram, de um Maria, em 25 de Dezembro do ano de 749 as cidades da Judeia e da Galileia, pregan- tos, contudo esta palavra também era modo geral, escritos nos séculos II e III da de Roma, embora o cálculo feito no século do a caridade, o amor de Deus e do próxi- usada para designar os astrólogo. Isto fez era cristã, para preencherem lacunas VI pelo frade Dionísio, e que serve de cro- mo e realizando inúmeros milagres. As com que, inicialmente, se pensasse que sobre a vida de Jesus e de outras persona- nologia da era cristã, colocou o nascimen- ideias defendidas por Jesus Cristo fizeram estes magos eram sábios astrólogos, mem- gens do Novo Testamento, assim objecti- to, erradamente, no ano de 754. Jesus mor- enfurecer os fariseus e os sacerdotes bros da classe sacerdotal de alguns povos vo destes era saciar a curiosidade religio- reu crucificado, no ano 33 da era moderna. judeus, que acusaram-no perante o gover- orientais. sa, transformando o vago em concreto, Segundo os Evangelhos, o presépio que nador romano, Pôncio Pilatos, de se dizer Posteriormente, a Igreja atribuiu-lhes o independentemente da veracidade dos fac- serviu de berço ao Menino Jesus foi visita- Rei dos Judeus e de querer derrubar o apelido de “Reis”, em virtude da aplicação tos, daí não estarem incluídos nos chama- do pelos Reis Magos do Oriente (Baltasar, governo estabelecido. Judas, um dos após- liberal que se lhes fez do Salmo 71,10. dos Livros Canónicos.
  6. 6. 6 NATAL DE 13 A 26 DE DEZEMBRO DE 2006 O menino no sapatinho Mia Couto * desirmanada lhe fazia de cobertor. O sendo aqueles seus exclusivos e únicos O marido azedava e começou a ame- frio estreitasse e a mulher se levantava sapatos, ele se despromoveria para um açar: se era para lhe desalojar o definiti- Era uma vez o menino pequenito, tão de noite para repuxar a trança dos ataca- chinelado? vo pé, então, o melhor seria desfaze- minimozito que todos seus dedos eram dores. Assim lhe calçava um aconche- – Sim – respondeu a mulher. – Eu já rem-se do vindouro. A mãe, estarrecida, mindinhos. Dito assim, fino modo, ele, go. Todas as manhãs, de prevenção, ela lhe dei os meus chinelos. fosse o fim de todos os mundos: quando nasceu, nem foi dado à luz mas avisava os demais e demasiados: Mas não dava jeito naqueles areais – Vai o quê fazer? a uma simples fresta de claridade. – Cuidado, já dentrei o menino no do bairro. Ela devia saber. A pessoa – Vou é desfazer. De tão miserenta, a mãe se alegrou sapato. pisa o chão e não sabe se há mais Ela prometia-lhe um tempo, na espe- com o destamanho do rebento – assim ra que o bebé graudasse. Mas o assunto pediria apenas os menores alimentos. A azedava e até degenerou em soco, pun- mulher, em si, deu graças: que é bom a hos ciscando o escuro. Os olhos dela, criança nascer assim desprovida de amendoídos ainda, continuaram esprei- peso que é para não chamar os maus tando o improvisado berço. Ela sabia espíritos. E suspirava, enquanto con- que os anjos da guarda estão a preços templava a diminuta criatura. que os pobres nem ousam. Olhar de mãe, quem mais pode apa- Até que o ano findou, esgotada a últi- gar as feiuras e defeitos nos viventes? ma folha do calendário. Vinda da igreja, Ao menino nem se lhe ouvia o choro. a mãe descobriu-se do véu e anunciou Sabia-se de sua tristeza pelas lágrimas. que iria compor a árvore de Natal. Sem Mas estas, de tão leves, nem lhe des- despesa nem sobrepeso. Tirou à lenha ciam pelo rosto. As lagriminhas subiam um tosco arbusto. Os enfeites eram tam- pelo ar e vogavam suspensas. Depois, pinhas de cerveja, sobras da bebedeira se fixavam no tecto e ali se grutavam, do homem. Junto à árvore ela rezou missangas tremeluzentes. com devoção de Eva antes de haver a Ela pegava no menino, com uma só macieira. Pediu a Deus que fosse dado mão. E falava, mansinho, para essa con- ao seu menino o tamanho que lhe era cha. devido. Só isso, mais nada. Talvez, Na realidade, não falava: assobiava, depois, um adequado berço. Ou quem feita uma ave. Dizia que o filho não sabe, um calçado novo para o seu tinha entendimento para palavra. Só lín- homem. Que aquele sapato já espreitava gua de pássaro lhe tocaria o reduzido pelo umbigo, o buraco na frente autori- coração. Quem podia entender? Ele há zando o frio. dessas coisas tão subtis, incapazes Na sagrada antenoite, a mulher fez mesmo de existir. Como essas estrelas como aprendera dos brancos: deixou o que chegam até nós mesmo depois de sapatinho na árvore para uma qualquer terem morrido. A senhora não se impor- improbabilíssima oferta que lhe miracu- tava com os dizquedizeres. lasse o lar. Ela mesmo tinha aprendido a ser de No escuro dessa noite, a mãe não outra dimensão, florindo como o capim: dormiu, seus ouvidos não esmoreceram. sem cor nem cheiro. Despontavam as primeiras horas A mãe só tinha fala na igreja. No quando lhe pareceu escutar passos na resto, pouco falava. O marido, descren- sala. E depois, o silêncio. Tão espesso te de tudo, nem tinha tempo para ser que tudo se afundou e a mãe foi engoli- desempregado. O homem era um fiorra- da pelo cansaço. po, despacha-gargalos, entorna-fundos. “Adoração dos Magos” Acordou cedo e foi directa ao arbus- Vasco Fernandes (Grão Vasco), activo entre 1501 e 1540 Do bar para o quarto, de casa para a cer- to de Natal. Dentro do sapato, porém, só vejaria. o vago vazio, a redonda concavidade do Pois, aconteceu o seguinte: dadas as Que ninguém, por descuido, o calças- areia em baixo que em cima do pé. nada. O filho desaparecera? Não para os dimensões de sua vida e não havendo se. Muito-muito, o marido quando vol- – Além disso, eu é que paguei os tais olhos da mãe. Que ele tinha sido levado berço à medida, a mãe colocou o meni- tava bêbado e queria sair uma vez mais, sapatos. por Jesus, rumo aos céus, onde há um ninho num sapato. E cujo era o esquer- desnoitado, sem distinguir o mais Palavras. Porque a mãe respondia mundo apto para crianças. Descida em do do único par, o do marido. De então esquerdo do menos esquerdo. A mulher com sentimentos: seus joelhos, agradeceu a bondade divi- em diante, o homem passou a calçar de não deixava que o berço fugisse da vis- – Veja o seu filho, parece o Jesuzinho na. De relance, ainda notou que lá no um só pé. Só na ida isso o incomodava. lembrança dela. Porque o marido já se empalhado, todo embrulhadinho nos tecto já não brilhavam as lágrimas do Na volta, ele nem se apercebia de ter outorgava, cheio de queixa: bichos de cabedal. seu menino. Mas ela desviou o olhar, pés, dois na mesma direcção. – Então, ando para aqui improvisar Ainda o filho estava melhor que que essa é a competência de mãe: o não Em casa, na quentura da palmilha, o um coxinho? Cristo – ao menos um sapato já não é enxergar nunca a curva onde o escuro miúdo aprendia já o lugar do pobre: nos – É seu filho, pois não? bicho em bruto. Era o argumento dela faz extinguir o mundo. embaixos do mundo. Junto ao chão, tão – O diabo que te descarregue! mas ele, nem querendo saber, subia de rés e rasteiro que, em morrendo, dispen- E apontava o filhote: o individuozito tom: * Retirado de “Na Berma de Nenhuma Estrada” saria quase o ser enterrado. Uma peúga interrompia o seu calçado? Pois que, – Cá se fazem, cá se apagam! (2ª Edição), Lisboa, Editorial Caminho, 2001 Festas Felizes
  7. 7. DE 13 A 26 DE DEZEMBRO DE 2006 NATAL 7 Natal Chinês Por Maria Ondina Braga * Com um sorriso meio complacente traduzia em inglês para a senhora Tung, sim, mas racionalmente, atraindo a von- meio contrariado, a irmã Chen-Mou que achava isto enternecedor e gratifi- tade do homem à da sua companheira e A senhora Tung chegava dois dias desconversava, passando a bandeja dos cava a velha generosamente. exaltando essa atracção. Como o Céu antes da consoada. Costumava vê-la logo bolos à superiora, que separava uns tan- Quando por fim atravessávamos a alagando a Terra na estação própria. de manhã, com a irmã jardineira, no tos para o convento. Os restantes comê- cerca a caminho de casa, sob uma lua Retomávamos a marcha em direcção pátio maior, a admirar as laranjeiras anãs los-íamos nós, ao fim da Missa do Galo, branca, espantada, anunciadora do aos nossos aposentos. Difícil para mim nos vasos de loiça. Via-a casualmente a com chocolate quente. Inverno para a madrugada, a senhora responder às dúvidas da senhora Tung, contemplar, embevecida, o presépio do O chocolate era a esperada surpresa Tung abria-se em confidências. nem ela parecia esperar resposta. Mu- convento. Encontrava-a por fim à mesa. da directora. A senhora Tung chamava- A menina sabia... ? a «menina» era a dava, rápida, de assunto, aludindo ao A senhora Tung viajava todos os anos lhe, em ar de gracejo, «chá de Paris». No irmã Chen-Mou, a subdirectora do colé- tempo, à viagem de regresso, às saboro- da Formosa para Macau, na época do fim das três missas vinham outra vez as gio ?, sabia que ela continuava a vene- sas guloseimas da criada macaísta. Natal, a fim de festejar o nascimento de três freiras ao refeitório do colégio para rar a Deusa da Fecundidade. Tratava-se Já em casa, convidava-me a ir ver o Cristo na companhia da sua primogéni- trocarem connosco o beijo da paz e nos de uma pequena divindade, toda nua e seu presépio. O quarto cheirava forte- ta, a irmã Chen-Mou. oferecerem a tigela fumegante do cho- toda de oiro. Fora ela quem lhe dera fil- mente a incenso. Em cima da cómoda, Nesses dias, com as meninas em colate. Vinham e partiam logo (tarde hos. Estéril durante sete anos, a senhora entre flores, lá estava o Menino Jesus, férias, o refeitório do colégio parecia demais para se demorarem), e Miss Lu, Tung recorrera à sua intercessão divina de cabaia de seda encarnada, sapatinhos maior e mais desconfortável: só eu e fanática terceira-franciscana, sempre quando o marido já se preparava para de veludo preto, feições chinesas. Miss Lu nos sentávamos à mesa com- atenta aos passos das monjas, sorvia à receber nova esposa. Não podia portan- Depois, timidamente, a senhora Tung prida das professoras. Daí a presença da pressa o líquido escaldante, como quem to deixar de a amar. Toda a felicidade abria a gaveta... e surgia a deusa. senhora Tung, que noutra ocasião pas- cumprisse um dever, e saía atrás delas. lhe provinha daí, dessa afortunada hora O Menino Jesus era de marfim. A saria talvez despercebida (estirada a Ficávamos, assim, a senhora Tung e em que a deusa a escutara. Deusa da Fecundidade era de oiro. O sala entre pátios de cimento e plantas eu, uma em frente da outra. À luz das Parava a meio do largo átrio enluara- Menino, de pé, de um palmo de altura, verdes), se tornar nessa altura notável. trajando ricamente. A deusa, sentada, Baixa, seca de carnes, de olhos aten- pequenina, nua. ciosos, pensativos, a senhora Tung sor- Os olhos da senhora Tung atentavam ria constantemente, falava inglês, gosta- nos meus, como se à procura de com- va de comer, de fumar, de jogar ma- preensão, mas as suas palavras prontas jong. As criadas cortejavam-na nos cor- (a deter as minhas?) eram de autocensu- redores, preparavam-lhe pratos especi- ra. Não, não devia fazer aquilo. A filha ais, levavam-lhe chá ao quarto. Além de asseverara que o Menino Jesus entriste- ser mãe da subdirectora, tinha fama de cia, em cima da cómoda, por causa da rica e distribuía moedas de prata a todo deusa, na gaveta. E quem sabia mais do o pessoal na noite de festa. que a filha? Nessa noite assistiam três freiras ao Eu já sentia frio, apesar da aguarden- nosso jantar (a regra não lhes permitia te de arroz. O Inverno, ali, chegava de comer connosco): a directora, a subdi- repente. A senhora Tung, no entanto, rectora e a mestra dos estudos. E muito tinha as mãos quentes e as faces afo- empertigada, segurando com ambas as gueadas. mãos um tabuleiro de laca coberto com Despedíamo-nos. Eu sempre me ape- um pano de seda, a senhora Tung rece- tecia dizer-lhe que estivesse sossegada, bia-as à porta do refeitório, entregando que de certeza o Menino Jesus não ha- cerimoniosamente o presente à filha, via de se entristecer, em cima da cómo- que por sua vez o oferecia à directora. da, por causa da deusa, na gaveta. Mas Eram bolos de farinha fina de arroz nunca lho disse nos três anos que passei amassada com óleo de sésamo. Toda de o Natal com ela. Palpitava-me que a “Adoração dos Magos” Domingos António de Sequeira, 1768-1837, Colecção Particular vermelho, de sapatos bordados e gan- senhora Tung se enervava com o assun- chos de jade no cabelo, a senhora Tung, to. E que, de qualquer jeito, não me quando a superiora colocava o tabuleiro velas olorosas do centro de mesa, os do, de olhar meditabundo, mãos cruza- acreditaria. dos bolos na mesa, dobrava-se quase até seus olhos eram dois riscos tremulantes. das no colo. E as palavras saíam-lhe ao chão. Rezava-se, depois. Para lá dos Sorríamos. Finalmente, o reposteiro ao lentas e soltas, como se falasse sozinha. In “ A China Fica ao Lado”, pátios, à porta da cozinha, as criadas fundo da sala apartava-se. Uma das cri- ... E aquele mistério da virgindade de Lisboa, Panorama, 1968 espreitavam, curiosas. adas entrava, silenciosa. Servia-se Nossa Senhora! Virgem e mãe ao Nem no primeiro, nem no segundo, vinho de arroz. mesmo tempo... Não se lia no Génesis: (Maria Ondina Braga nasceu em 1932, em nem no terceiro Natal que passei em Creio que o vinho de arroz figurava «O homem deixará o pai e a mãe para se Braga. Deixou esta cidade nos anos 50. Em Macau, a senhora Tung era cristã, mas entre as bebidas proibidas no colégio e unir a sua mulher e os dois serão uma só Paris, cursou a Alliance Française e em Londres todos os anos se nomeava catecúmena. A que chegava ali por portas travessas. O carne?» Não era essa a lei do Senhor? a Royal Society of Arts. Viajou, aprendeu e ensi- seguir ao jantar falava-se nisso. A direc- certo, contudo, é que ambas o bebía- Por quê então a Mãe de Cristo diferente nou. Foi professora do ensino secundário em Luanda, Goa e Macau, desenvolvendo também tora, uma francesa de mãos engelhadas mos, a acompanhar os bolos de sésamo, das outras, num mundo de homens e de actividade no domínio da tradução. De todas que noutros tempos frequentara a no grande e deserto refeitório, na noite mulheres onde o Filho havia de vir pre- estas viagens resultaram páginas de escrita onde Universidade de Pequim, perguntava em de Natal. gar o amor? A Deusa da Fecundidade, se combinam memória, conto, novela, romance e chinês formal quando era o baptizado. O vinho de arroz queimava-me a gar- patrona dos lares, operava milagres, crónica, sem nunca esquecer as raízes minhotas). Inclinando a cabeça para o peito, a ganta e fazia-me vir lágrimas aos olhos. senhora Tung balbuciava, indicando a Quanto à senhora Tung, saboreava-o irmã Chen-Mou. A filha... a filha sabia. devagar, molhando nele o bolo, e, como Talvez se pudesse chamar cristã pelo mal provara o «chá de Paris», bebia espírito, mas o coração atraiçoava-a. O dois cálices. coração continuava apegado a antigas Entretanto, Aldegundes, a criada devoções... Todavia, vestira-se de gala macaense mais antiga do colégio, apa- para a festividade da meia-noite, tinha no recia com as especialidades da terra: Deseja-lhe Festas Felizes quarto o Menino Jesus cercado de flores, aluares, fartes e coscorões, dizendo que e a alma transbordava-lhe de alegria aluá era o colchão do Minino Jesus, como se cristã verdadeiramente fosse. farte almofada, coscorão lençol. E eu
  8. 8. 8 NATAL DE 13 A 26 DE DEZEMBRO DE 2006 Ao Menino Deus em metáfora O Natal Eça de Queirós * douradas, ondei- am os dísticos de doce tradicionais – Romance O Natal, a grande festa doméstica da Merry Chris- Inglaterra, foi este ano triste – dessa tmas! Mer- – Quem quer fruta doce? – Mostre lá! Que é isso? tristeza particular que oferece, por um ry Christ- – É doce coberto; dia de calma ardente, a praça deserta de mas! alegre É manjar divino. uma vila pobre... natal! ale- – Vejamos o doce; O que nos estragou o Natal, não gre natal! e Compraremos todo, foram decerto as preocupações políti- o mesmo Se for todo rico. cas, apesar da sua negrura de borrasca. grito se re- – Venha ao portal logo; Nem a rebelião do Transval em que os pete nos Verá que não minto, Boers debutaram por exterminar o 94 shake-hands Pois de várias sortes de linha, um dos mais experimentados e que se dão ao É doce infinito. gloriosos regimentos da Inglaterra e que hóspede. – Desculpa, minha alma. ameaça ensanguentar toda a África do Sob a cha- Mas ah! Que diviso?! miné estala e dança Sul numa guerra de raças; nem a situa- Envolto em mantilhas, ção da Irlanda, que já não é governada a grande fogueira Um Infante lindo! – Pois de que se admira, pela Inglaterra, mas pelo comité revolu- do Natal: a sua luz Quando este Menino cionário da Liga Agrária – seriam inqui- rica faz parecer de ouro os cabelos É doce coberto, etações suficientes para tirar o sabor louros, e de prata as barbas brancas. É manjar divino? tradicional ao, plum-pudding do Natal. Tudo está enfeitado como numa – Diga o como é doce, As desgraças públicas nunca impedem Páscoa sagrada: dos retratos dos avós Que ignoro o prodígio. que os cidadãos jantem com apetite: e pendem ramos de flores de Inverno, – Não sabe o mistério? misérias da pátria, enquanto não são as flores da neve, e todas as pratas da “Santo Claus” Ora vá ouvindo: tangíveis e senão apresentam, sob a casa cintilam sobre os aparadores, de acordo com Muito antes de Santa Ana, forma flamejante de obuses rebentando, numa solenidade patriarcal. Dos o Harper’s Bazar Teve este doce princípio, inuma cidade sitiada, não tirarão jamais grandes lustres balança- de Dezembro Porque já do Salvador de1867 o sono ao patriota. se o ramo simbólico do Se davam muitos indícios. Não; o que estragou o Natal, foi sim- mistletoe, o ramo do amor Mas na Anunciada dizem plesmente a falta de neve. Um Natal doméstico: e ai das se- Que houve mais expresso aviso, E logo na Encarnação como este que passámos, com um sol de nhoras que um momento pa- Se entrou por modo divino. uma palidez de convalescente, deslizan- rarem sob a sua ramagem! Quem assim Esteve pois na Esperança do timidamente sobre uma imensa peça as surpreender tem direito a beijá-las Mas destas personagens que aparecem Muitos tempos escondido; de seda azul desbotada, um Natal sem num grande abraço! Também, que vol- pelas consoadas, o meu predilecto é Father Saiu da Madre de Deus, neve, um Natal sem casacos de peles, tas sábias, que estratégia complicada, Christmas – o papá Natal. depois às Claras foi visto. parece tão insípido e tão desconsolado para evitar o ramo fatídico! Mas, pobres Esse, porém, só pode ser admirado em Fazem dele estimação como seria em Portugal a noite de S. anjos! ou se enganam ou se assustam, e toda a sua glória, quando se abre a sala da As freiras com tal capricho, João, noite de fogueiras e descantes, se a cada momento é sob o mistletoe um ceia: então lá está sobre o seu pedestal, ao Que apuram para este doce houvesse no chão três palmos de neve e grito, um beijo, dois abraços que pren- centro da mesa – que lhe põe em torno, Todos os cinco sentidos. caísse por cima o granizo até de madru- dem uma cinta fugitiva... com os cristais e os pratos, um amável bri- Afirmam que no Calvário gada! Um desapontamento nacional! E o piano não se cala nestas noites! É lho da auréola caseira. Bem-vindo, papá Terá seu termo finito, Para compreender bem o encanto da alguma velha canção inglesa, em que se Natal! Boas noites, papá Natal! Sendo que no Sacramento neve deste famoso Natal inglês, basta fala de torneios e cavaleiros, ou uma O respeitável ancião, com o seu capuz Há-de ter novo artifício. Que seja doce este Infante, examinar alguma das pinturas, gravuras dança da Escócia, que se baila, com o até aos olhos, todo salpicado de neve, as A razão o está pedindo, ou oleografias, que o têm popularizado. gentil cerimonial do passado. mãos escondidas nas largas mangas de Porque é certo que é morgado, O assunto não varia na paisagem re- E por corredores e salas, as crianças, frade, o olho maganão e jovial, esgarça a Sendo unigénito Filho! petida: é sempre a mesma entrada dum os bebés, com os cabelos ao vento, vesti- boca num riso de felicidade sem-fim, e as Exposto ao rigor do tempo, parque, de aparência feudal, por véspe- dos de branco e cor-de-rosa, correm, can- suas enormes barbas de algodão pendem- Quando tirita nuzinho, ras do Natal, antes da meia-noite; o céu tam, riem, vão a cada momento espreitar lhe até aos pés. Um caramelo parece pesado de neve suspensa parece uma, os ponteiros do relógio monumental, por- Todas as crianças o querem abraçar, e Pelo branco e pelo frio. gaza suja: e a perder de vista tudo está que à meia-noite chega Santo Claus, o ele não se recusa, porque é indulgente. Tão doce é que, porque farte coberto da neve caída, uma neve bran- venerável Santo Claus que tem três mil E quanto mais a ceia se anima, mais o Ao pecador mais faminto, ca, fofa, alta, que faz nos campos um anos de idade e um coração de pomba, e seu patriarcal riso se escancara; as boche- Será de pão com espécies, grande silêncio. Junto à grade do par- que já a essa hora vem caminhando pela chas reluzem-lhe de escarlates, as barbas Substancial doce divino. que, uma mulher e duas crianças, ataba- neve da estrada, rindo com os seus velhos parecem crescer-lhe, e ali está, bonacheirão É manjar tão soberano, fadas nos seus farrapos, com lampiões botões, apoiado ao seu cajado, e com os e venerável, com a importância de um Regalo tão peregrino, Que os espíritos levanta, na mão, vão cantando as loas; e ao alforges cheios de bonecos. Amável Deus tutelar e amado, como a encarnação Tornando aos mortos vivos. fundo, entre as ramagens despidas, Santo Claus! Por um tempo tão frio, sacramental da alegria doméstica. Tão delicioso bocado ergue-se o maciço castelo, com as jane- naquela idade deixar a cabana de algodão E no entanto fora, na neve, as pobres cri- Será de gosto infinito, las flamejando, abrasadas da grande luz que ele habita no país da Legenda, e vir anças cantam as loas: e com vigor as can- Manjar real, verdadeiro, de dentro e da alegria que as habita. por sobre ondas do mar e ramagens de tam! É que elas sabem que não serão Manjar branco, parecido! E toda a poesia do Natal está justa- florestas trazer a estes bebés o seu natal! esquecidas: e que daqui a pouco a grade se Que é manjar dos Anjos, dizem mente nessas janelas resplandecendo na Também, como eles o adoram, o bom abrirá, e virá um criado, vergando ao peso Talentos mui fidedignos, noite nevada. Claus! E apenas ele chegar, como corre- de toda a sorte de coisas boas, peças de Por ser pão de ló, que aos Anjos Felizes aqueles para quem essas por- rão todos, em triunfo, a puxá-lo para o carne, empadas, vinho, queijos – e mesmo Foi em figura oferecido tas difíceis se abrem! Logo ao entrar na pé do lume, a esfregar-lhe as decrépitas bonecas para os pequenos; porque Santo Jerónimo Baía antecâmara os tectos, as ombreiras, os mãos regeladas, e oferecer-lhe uma taça Claus é um democrata, e, se enche os seus (Frade beneditino e professor, espaldares das cadeiras, os troféus de de prata cheia de hidromel quente - que alforges para os ricos, gosta sobretudo de nascido em Coimbra em 1620 caça, aparecem adornados das verduras ele bebe dum trago, o glutão! Depois os ver esvaziados no regaço dos pobres. e falecido em Viana do Castelo em 1688, do Natal, das ramagens sagradas do car- abrem-se-lhe os alforges. Quantas Tudo isto é encantador. Mas tire-se-lhe a pregador na corte de D. Afonso VI) valho céltico; e pelas paredes, em letras maravilhas!... neve, e fica estragado. O Natal com uma

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