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Deriva cigana um estudo etnográfico sobre os ciganos

  1. 1. 488  RECENSõES etnográfica  novembro de 2009  13 (2): 483-493 Daniel Seabra Lopes o discurso em quatro capítulos, cada um deriva ciGana: um estudo centrado na descrição daquilo a que chama etnoGrÁfico sobre os ciGanos “impressões etnográficas”; para cada uma de lisboa destas propostas interpretativas apresenta Lisboa, Imprensa de Ciências Sociais, e discute pequenos excertos da vida quo- 2008, 410 páginas. tidiana de algumas famílias ciganas com as quais o investigador manteve relações Ruy Llera Blanes ao longo de quinze meses de visitas regu- os aleluias: ciGanos lares ao terreno. No primeiro capítulo, evanGÉlicos e mÚsica “Um passo atrás no tempo”, discutem-se Lisboa, Imprensa de Ciências Sociais, conceitos como os de anacronismo, não- 2008, 260 páginas. -simultaneidade, desfasamento e extempo- raneidade, aos quais os ciganos estariam associados por razões de “inserção históricaAs duas recém-publicadas monografias no universo camponês católico” (p. 114); aem consideração são o resultado do traba- “Introversão” do segundo capítulo sugerelho de investigação de dois antropólogos que o mundo dos ciganos seja lido comoportugueses, Daniel Seabra Lopes e Ruy “claramente delimitado, enconchado, cer-Llera Blanes, cada uma dedicada à pesquisa rado e, como tal, pouco permeável a certasno âmbito de projectos de doutoramento. influências inovadoras que o circundam”A razão pela qual os dois volumes estão a (p. 117), assumindo-a como fenómenoser apresentados em conjunto não depende performativo; em “Lassidão, desagregaçãosomente da simultaneidade da sua saída e vazio” o autor pretende esclarecer comono mercado editorial, mas sobretudo da estas impressões não são necessariamentesuposta pertença a uma área específica “falhas” ou “faltas” do sistema socialdo domínio científico antropológico, rela- cigano, mas a assunção por parte deste detiva aos estudos das comunidades ciganas. uma “posição oblíqua” em relação ao meioTodavia, os textos distanciam-se notavel- social envolvente (pp. 278-280), com vistamente um do outro, quer pelos objectos à preservação da autonomia. Finalmente, oe sujeitos do estudo, quer pela postura quarto capítulo, “As derivas”, analisa criti-metodológica e epistemológica adoptada camente a relação entre a acção “normali-pelos dois autores para tematizar, discutir zadora” das instituições locais e as tácticase desenvolver as pesquisas – diferenças que adaptativas dos ciganos.sobressaem e que se revelam estimuladoras Vale a pena sublinhar que o diálogo comde análise crítica. uma ampla literatura antropológica actual Deriva Cigana de Daniel Seabra Lopes (trabalhos de Paloma Gay y Blasco, Judithapresenta-se como uma monografia etno- Okely, Caterina Pasqualino, Leonardográfica de matriz clássica, se considerar- Piasere, Teresa San Román, Michael Stewart,mos, para além da declaração de intentos Patrick Williams) é assertivo e constante,do autor, o estilo organizativo e argumen- embora o teor argumentativo se reveletativo holista proposto ao longo do texto, frequentemente próximo de uma análiseque denota a vontade de abordar de sociológica – curiosamente, este livro surgeforma abrangente quase todos os aspectos na colecção de sociologia. Talvez decorrente“culturais” característicos de uma espe- do estilo da escrita, o texto apresenta umacífica comunidade cigana residente num estruturação recorrente, na qual relatos dobairro social de Lisboa. O autor estrutura quotidiano, deduzidos da observação no
  2. 2. RECENSõES  489terreno, servem de justificação à discussão construção de conhecimento etnográfico.teórica que, por sua vez, aponta para eixos Aliás, esta perspectiva é ambiguamentetemáticos tópicos de uma antropologia que definida pelo autor (pp. 35-36), deixandose serve de conceitos construídos fora da frequentemente desnorteado o leitor rela-comunidade: o patriarcado, o machismo, tivamente à discussão sobre certo tipo dea virgindade das mulheres, a violência, a conceitos ou inferências problemáticas,tradição e o atraso (cf. David Lagunas, Los entre outras a questão do anacronismo e daTres Cromosomas: Modernidade, Identidad y não-simultaneidade temporal dos ciganosParentesco entre los Gitanos Catalanes, 2005). (pp. 44-45).De resto, o autor está consciente de que o Sublinhe-se, entretanto, que o autorterreno epistemológico no qual se desen- demonstra evidente honestidade intelec-volve a análise é escorregadio; na introdu- tual ao pôr o seu percurso interpretativoção e na conclusão é evidente a necessidade constantemente em diálogo com outrasde tornar claras algumas afirmações ambí- etnografias sobre comunidades ciganas,guas e que parecem querer desafiar a ideia mas, ao fazê-lo, sugere também uma leiturade que, necessariamente, o antropólogo oscilante e ambígua de um ponto de vistadeva experimentar empatia, ou pelo menos teórico e interpretativo. Se, por um lado, seo tente, com os seus interlocutores. distancia de abordagens em que os sujeitos Esta experiência etnográfica revela, são folclorizados, cristalizados, essencializa-talvez de uma forma mais evidente, as dos culturalmente, ao mesmo tempo parecedificuldades de imersão no contexto e de demorar-se a detectar eventuais “traços” –incorporação do processo de conhecimento ainda que explicite não serem necessaria-(cf. Judith Okely, The Travellers-Gypsies, mente negativos ou não ter ambições de1983; Leonardo Piasere, Un Mondo di Mondi, generalização mas sim de comparabilidade1999; Patrick Williams, Nous, on n’en parle – e a “fixar” e “forçar” dentro de categoriaspas, 1993). Não é este o lugar para deba- “éticas” pouco flexíveis, e que precisariamtermos sobre etnografias bem-sucedidas ou então ser mais discutidas, os ciganos dofracassadas, embora a antropologia esteja bairro estudado e de Lisboa, pelo que a cria-carente de textos em que os próprios antro- tividade da comunidade parece desaparecer.pólogos reflictam sobre o eventual insucesso De um outro modo, a abordagem teó-das pesquisas de terreno (cf. Piasere, acima rica, o objecto de estudo e a metodologiareferido). Contudo é cientificamente dese- utilizada pelo autor do livro Os Aleluias,jável que uma monografia etnográfica pro- Ruy Llera Blanes, assume outras direcções.duza um conhecimento que nos aproxime Tendo como enfoque específico o fenó-das visões do mundo do grupo estudado meno do movimento evangélico cigano nae que nos ofereça uma análise qualitativa Península Ibérica – nomeadamente a Igrejasobre as categorias, estruturas sociais, inter- Evangélica de Filadélfia –, a monografiapretações, cosmologias e teorias “émicas”, investiga os contextos em que música,que se confronte com a construção interna religião, identidades e memória históricados significados e não tanto com uma pro- se entrelaçam e onde as práticas musicaiscura, por parte do antropólogo, de uma assumem relevância singular e explicativacoerência entre o seu discurso teórico e enquanto promotoras “de sentidos de espaçoas “impressões” pessoais dispersas e logo e tempo, de momento e lugar” dentro decosturadas. De facto, reflexividade e sub- um contexto de “identidades diaspóricas”jectividade são processos distintos da pro- (p. 59). Embora o conceito de diáspora,posta de aproximação “impressionista” na associado a “terrenos ciganos”, tivesse
  3. 3. 490  RECENSõES etnográfica  novembro de 2009  13 (2): 483-493talvez necessitado de uma análise mais crí- tecostal cigano colocam aos comentadorestica, do ponto de vista histórico e identitá- ou aos investigadores; de facto, o fenómenorio, dada a complexidade problemática da obriga a ampliar o olhar explicativo para mol-discussão teórica sobre diáspora como “prá- dar leituras fechadas, dirigidas, por exemplo,tica social” – cf., entre outros, Rogers Bru- à análise de uma eventual crise que a socie-baker, “The ‘diaspora’ diaspora”, Ethnic and dade cigana estaria a enfrentar e que justifi-Racial Studies, 28 (1), pp. 1-19, 2005; Mar- caria o sucesso do movimento (p. 133).tin Sökefeld, “Mobilizing in transnational Com efeito, o autor do presente livrospace: a social movement approach to the oferece uma leitura que lida com as trans-formation of diaspora”, Global Networks, formações estruturais que, ao longo do6 (3), pp. 265-284, 2006; Kachig Tölölyan, século XX, os ciganos da Península Ibérica“Rethinking diaspora(s): stateless power in experienciaram, passando “de um noma-the transnational moment”, Diaspora, 5, pp. dismo rural a uma vida nos subúrbios mul-3-36, 1996 –, o autor propõe uma interpre- ticulturais das principais urbes” (p. 18)tação interessante ao enfatizar a dimensão – um argumento entre outros possíveis.musical, no seio do contexto evangélico, O conceito da “marginalidade” social quecomo “agente de ciganidade” (p. 61). Final- perpassa os capítulos do livro, explícita oumente, não é por acaso que neste trabalho implicitamente, é explorado de tal formao antropólogo adoptou uma metodologia que, embora permanecendo “na sua essên-bissituada, de modo a tornar evidente a cia o mesmo” (p. 32), se reconfigura a partirnecessidade da complementaridade entre o de um novo contexto histórico, social, cul-terreno de investigação português (Lisboa) tural, experiencial. A proposta é de inter-e o terreno espanhol (Madrid). pretá-lo como uma “estratégia” relacional Trata-se de uma pesquisa que se insere na e identitária, no sentido da reinvenção delinha de intersecção entre as abordagens teó- uma nova “ciganidade” através do uso daricas da antropologia de comunidades ciga- própria marginalidade, a qual se tornarianas e da antropologia das religiões, embora um instrumento que inverte a polaridadea argumentação seja definitivamente mais entre a vitimização do sujeito e a reivindi-centrada na análise dos cultos religiosos. De cação étnica activa.resto, os conteúdos dos últimos três capítu- “O ‘Senhor’ tem substituído os ‘Gadjé’”,los demonstram a centralidade da “vertente dizia Patrick Williams (no artigo referido,experiencial, performativa e participativa” p. 135, tradução minha) para colocar o pro-(p. 137) do culto, descrita através de práti- cesso de “transformação”, vindo da adesãocas e ideologias que se destacam por coloca- ao movimento pentecostal, na análise dorem o acento em questões fundamentais às cruzamento entre as dimensões relacionaisquais o autor procura dar resposta ao longo internas e externas aos próprios grupos ciga-do texto – entre elas, as da marginalidade, nos; isto é, perguntamo-nos se as dinâmicasda mobilidade / diáspora, da modernidade do evangelismo cigano se colocam nas rela-cigana, da reivindicação identitária, do ções entre ciganos ou naquelas entre ciga-reconhecimento político e social. nos e não-ciganos, ou eventualmente nas Patrick Williams, num artigo de 1995 duas, e com que características, inclusive(“Quesiti per lo studio del movimento pen- a reivindicação, ou não, de visibilidade etecostale tra gli Zingari”, La Ricerca Folklorica, “emergência” social, religiosa e até política.31, pp. 133-138), interrogava-se relativa- Talvez seja neste ponto que a propostamente aos “quesitos” que o nascimento e etnográfica de Os Aleluias resulte, de certao crescimento do próprio movimento pen- forma, carenciada de uma análise mais
  4. 4. RECENSõES  491dialéctica, que seja capaz de actualizar se o advento e a adesão consistente doso diálogo relacional, justamente entre as manouches ao movimento pentecostal nãofamílias ciganas com as quais o antropó- terá intervindo na relação “silenciosa” entrelogo trabalhou e os espaços experienciais manouches, oferece um ponto de vista inte-por elas vivenciados e construídos na con- ressante para a exploração de aspectos quetínua “negociação” social e cultural com o talvez tenham sido menos aprofundados“mundo” dos não-ciganos. Embora relativa por Ruy Llera Blanes, como o da construçãoa um contexto histórico e cultural especí- social do movimento religioso da Igreja defico, o das famílias francesas manouches, a Filadélfia, que nos indica quão constitutivasetnografia Nous, on n’en parle pas, de Patrick do mesmo são as redes ciganas de pertençaWilliams (Ministère de la Culture et de e sociabilidade familiar e parental.la Francophonie / Maison des sciences del’homme, 1993), ao analisar a dimensão do Micol Brazzabeni“silêncio” e do “rumor”, e ao perguntar-se CRIA, bolseira FCT Benoît de l’Estoile aborda-se problemas mais amplos: o sen- le Goût des autres: tido dos “museus dos Outros” no mundo de l’exposition coloniale pós-colonial; o museu enquanto catalisador aux arts premiers de uma antropologia do “goût des Autres” Paris, Flammarion, 2007, 454 páginas. (alusão a um filme de Agnès Jaoui centrado nas difíceis relações, no quotidiano, entre adeptos de gostos estéticos diferentes),Nos últimos vinte anos, a situação dos das “nossas concepções da alteridade e dasgrandes museus etnográficos franceses ali- suas transformações” (p. 20). É de notarmentou acesos debates. O livro de Benoît que, como o autor aliás admite, a dicoto-de l’Estoile foi publicado um ano após a mia museu dos Outros / museu de Nós éinauguração, em Junho de 2006, do Musée demasiado esquemática, como se vê com odu Quai Branly, constituído a partir das Museu Nacional de Etnologia de Lisboa.colecções etnográficas exóticas do Musée Procurando um distanciamento, a análisede l’Homme. Numa língua sempre clara, procede por historicização e comparação.integrando referências bibliográficas cos- A primeira parte mostra como, entre as duasmopolitas, estas 454 páginas notavelmente guerras mundiais, três tipos de discursosdocumentadas incluem úteis índices de pes- (evolucionista, diferencialista, primitivista)soas, de temas, de museus e exposições – se entrelaçam, nomeadamente na Exposi-uma prática que ainda não é geral na edição tion Coloniale de 1931, resultando numfrancesa de ciências sociais; deplora-se, em universalismo plural consagrado em 1937contrapartida, a ausência de uma bibliogra- pela inauguração do Musée de l’Homme e ofia recapitulativa. A partir das questões sus- “triunfo da etnologia” enquanto detentoracitadas pela elaboração do Musée du Quay da autoridade científica sobre os objectos dosBranly (nome ocultando a polémica desig- Outros. O projecto colonialista combina-senação inicial de Musée des Arts Premiers), com um reconhecimento da diversidade

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