Examinai as Escrituras - O Período Intertestamentario e os Evangelhos

2.838 visualizações

Publicada em

Publicada em: Espiritual
0 comentários
1 gostou
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
2.838
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
23
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
324
Comentários
0
Gostaram
1
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

Examinai as Escrituras - O Período Intertestamentario e os Evangelhos

  1. 1. EXAMINAI AS ESCRITURAS J. SIDLOW BAXTER O PERIODO INTERTESTAMENTÁRIO E OS EVANGELHOS SOCIEDADE RELIGIOSA EDIÇÕES VID A NOVA Rua Antonio Carlos Tacconi, 75 — 04810 — São Paulo SP
  2. 2. Título do original em inglês: E X PLO R E THE BO O K Copyright© 1955 de j. Sidlow Baxter Publicado pela primeira vez por Marshall, Morgan & Scott, Ltd- Inglaterra Tradução: Neyd Siqueira Revisão de estilo: Robinson Norberto Malkomes Revisão de provas: Vera Lúcia dos Santos Barba Primeira edição em português: 1985 - 3.000 exemplares Impresso nas oficinas da Associação Religiosa Imprensilia Fé Cx. Postal 18918 - São Paulo, SP - CEP 04695 iblicaao no Brasil com a devida autorização e com todos os di- eservados pela S O C IE D ^ E RELIGIOSA EDIÇD^ “ W W NOVA Caixa Posta 04698 h^ ^ aulo SP M A Z IN H O RODRIGUES
  3. 3. CONTEÚDO PREFÁCIO ..................................................................... 6 PREFÁCIO À EDIÇÃO EM PORTUGUÊS ........................ 7 PERÍODO IIM TERTESTAM ENTÁRIO ................................ 9 Lições 1, 2, 3 e 4 O NOVO E O V ELH O TESTAMENTOS ............................ 93 Lição 5 O NOVO TESTAM EN TO COMO UM T O D O ...................... 105 Lição 6 OS Q UATRO E V A N G E L H O S ........................................... 123 Lição 7 O EVAN G ELH O SEGUNDO M A T E U S .............................. 145 Lições 8, 9, 10 e 11 O EVAN G ELH O SEGUNDO M A R C O S .............................. 199 Lições 12, 13 e 14 O EVAN G ELH O SEGUNDO LUCAS ................................ 241 Lições 15, 16 e 17 O EVAN G ELH O SEGUNDO JO Ã O ................................... 289 Lições 18, 19 e 20
  4. 4. PREFACIO Ao publicarmos estes estudos acerca do período intertesta­ mentário e dos evangelhos desejamos fazer três observações: (1) Não estamos tentando satisfazer neste trabalho os capri­ chos de alguns que sempre desejam as últimas novidades em teo­ logia. A teologia hoje está em perigo de tornar-se simples especu­ lação religiosa, distanciando-se de suas amarras em uma Bíblia inspirada sobrenaturalmente. Estes estudos presumem que a Bí­ blia é uma revelação tanto inspirada como completa, com a con­ seqüência natural de que a era presente não é de continuação da revelação, mas de percepção humana orientada pelo Espírito. (2) Estes estudos não pretendem absolutamente ser um “ co­ mentário” ou um simpósio de artigos teológicos. Trata-se de uma pesquisa exploratória da Bíblia, a fim de mostrar quão convida­ tivas e compensadoras são as suas páginas e prover uma breve, mas ampla, preparação para um estudo mais detalhado de suas várias partes. (3) Estamos dedicando um número excessivo de páginas aos séculos intertestamentários? Talvez; todavia, a fim de atingir o propósito mencionado acima, estamos convencidos de que um conhecimento adequado do intervalo significativo, e das notáveis instituições judaicas que nele se desenvolveram, é mais valioso pa­ ra o estudo do Novo Testamento do que muitos julgam. Conhe­ cer de perto essa “grande divisão” faz muitas vezes que passagens dos Evangelhos, Atos e Epístolas ganhem maior "vida” e relevân­ cia — como no Sermão do Monte em que as palavras repetidas do Senhor, “Ouvistes que foi dito... Eu, porém, vos digo”, abrem uma brecha entre as suas próprias palavras e aquelas da simples “ Lei Oral”, que surgira no período intertestamentário, e não com o Ve­ lho Testamento (como muitos supõem erradamente).
  5. 5. PREFÁCIO À EDIÇÃO EM PORTUGUÊS A obra aqui intitulada EXAM INAI AS ESCRITURAS é a quinta parte de uma coleção de seis volumes. Essa coleção surgiu em decorrência do desejo do Pastor J. Sidlow Baxter em oferecer, com lições atraentes e práticas, um conhecimento bíblico básico aos membros da Capela Charlotte, em Edinburgo. O autor teve a fe­ liz idéia de preparar seus estudos de um modo completo para os membros daquela igreja, começando com Gênesis e terminando em Apocalipse, sem escrever apenas mais um comentário. O autor lança um agradável e seguro alicerce para aquele que desejar apresentar-se como obreiro (ou membro da igreja) “ que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da ver­ dade” (2 Tm 2:15). Neste volume o Pastor Baxter discorre sobre o período in- tertestamentário e os quatro evangelhos. São poucos os livros que informam os interessados acerca do período de quatrocentos anos da história judaica, chamado de “ o período interbíblico (ou inter- testamentário).” Procurar entender o Novo Testamento sem essas raízes históricas presentes entre Malaquias e Mateus, leva o estu­ dioso a uma compreensão falha dos Evangelhos. O autor destaca nesta sua obra prima as origens do judaísmo que dominou a Ter­ ra Santa nos dias de Nosso Senhor. Os estudos sobre os quatro Evangelhos oferecem ao leitor um panorama inesquecível acerca do conteúdo, estrutura e intenção dos evangelistas. Em lições sempre práticas e bastante assimiláveis, Baxter dá, àqueles que somente têm idéias acerca do Novo Testamento, in- contávéis informações muito iluminadoras. E nossa convicção que a popularidade gozada por esta obra em inglês, será a mesma que se verificará na sua edição em português. Esperamos que, com o decorrer dos meses, possamos lançar a coleção completa em nosso idioma. Os Editores
  6. 6. o perío d o in t e r t e s t a m e n t á r io I. O ASPECTO POLÍTICO Lição nQ 1
  7. 7. NOTAS (1) As sinopses que se seguem, relativas ao intervalo inter­ testamentário, são dirigidas a aprendizes. Não há necessidade de dizer nada novo sobre o mesmo, mas arranjá-lo e apresentá-lo de modo a tornar mais fácil a sua memorização. Para os que dese­ jam explorar o período mais detalhadamente, recomendamos: O Novo Testamento — Sua Origem e Anáiise — Tenney — págs. 31-144 e O Período Inter-Bíblico — E. Tognini. (2) Em sua grande misericórdia, Deus não tornou as verda­ des salvadoras de sua Palavra escrita, dependentes do fato de co­ nhecermos ou não o curso da história fora da mesma, de modo que tanto os ignorantes como os informados possam ser salvos. Mas se desejarmos adquirir também um conhecimento mais completo e mais proveitoso da Sua Palavra, então aprofundar-se na história fora dela (mas relacionada com a mesma) é de máxima importân­ cia para nós, e devemos esforçar-nos para aprendê-la. Este o mo­ tivo de termos concedido espaço considerável ao período entre os Testamentos nos estudos que se seguem. Recomendamos que as sinopses desse período sejam lidas cuidadosa e repetidamente, co­ mo um preparo realmente valioso para o estudo das Escrituras do Novo Testamento em si.
  8. 8. ENTRE MALAQUIAS E MATEUS Não dirfamos que um conhecimento do período entre o Velho e o Novo Testamentos é vital para a nossa compreensão dos quatro evangelhos, embora seja muito desejável e de fato praticamente necessário, se quisermos apreciar plenamente as muitas cenas e incidentes sobre os quais Mateus ergue a cortina. Ele apresenta um pano de fundo contra o qual vemos com perfeita clareza as ligações e relevâncias das palavras e acontecimentos que ocupam as primei­ ras páginas de nosso Novo Testamento. Os leitores bíblicos, geralmente, conhecem muito pouco a respeito deste período. Desejamos muitas vezes que as várias edi­ ções da Bíblia incluíssem uma breve sinopse, a fim de esclarecer para o leitor comum este longo e divisor hiato entre os dois Tes­ tamentos. Achamos útil dar um breve esboço do período neste ponto, como um prelúdio para o nosso estudo dos quatro evan­ gelhos. O PERÍODO DE FORMA GERAL O período entre Malaquias e Mateus abrange cerca de quatro­ centos anos, se aceitarmos a data habitualmente atribuída a Mala­ quias. A crítica histórica moderna situou Malaquias numa data posterior, fazendo com que Joel e partes de Isaías se enquadras­ sem no mesmo período, colocando Zacarias perto do ano 250 a.C. e Daniel a duzentos anos do nascimento do Senhor. Mas es- ll
  9. 9. sas datas posteriores baseiam-se em pontos subjetivos e não passam, na verdade, de conjeturas teóricas. Podemos aceitar com confiança o encerramento do cânon do Velho Testamento com Malaquias, cerca de 397 a.C. Este intervalo de quatrocentos anos foi chamado de o “ perío­ do negro” da história de Israel nos tempos pré-cristãos, em vista de não ter surgido qualquer profeta ou escritor inspirado em toda essa época. O sol desvanecente da profecia extingüiu-se e o lamen­ to do Salmo 74:9 parece encontrar um triste cumprimento nos quatro séculos que se seguiram: “ Já não vemos os nossos símbolos; já não há profeta; nem, entre nós, quem saiba até quando...” Nossas fontes de informação para o período são os livros XI, XII e XIII de Josefo, dois livros dos Apócrifos, 1 e 2 Macabeus, além de referências aqui e ali em historiadores gregos e latinos: Po- líbio, Tácito, Lívio e Ápio. Os historiadores gentios referem-se apenas superficialmente aos assuntos judeus daqueles dias, prova­ velmente por não apreciarem o povo da aliança e devido à sua in­ capacidade para avaliar corretamente os aspectos espirituais dos conflitos que irrompiam repetidamente entre os judeus e os povos idólatras que os cercavam. A condição dos judeus como nação e raça deste período de quatrocentos anos deve ser claramente lembrada. Duzentos anos antes Jerusalém tinha sido conquistada e o povo judeu levado para o exílio na Babilônia (587 a.C.). Cinqüenta anos depois.disso, en­ quanto os judeus continuavam cativos, o próprio império babilóni­ co fora derrubado e substituído pelo medo-persa, o segundo dos impérios mundiais profetizado em Daniel; Ciro, o imperador persa expedira seu famoso decreto (536 a.C.), provocando a volta do “ Remanescente” judeu a Jerusalém e Judéia, sob Zorobabel, cer­ ca de 50.000 ao todo. Vinte e um anos mais tarde, depois de mui­ tos obstáculos, a construção do novo templo foi completada em 515 a.C. Outros cinqüenta e sete anos depois disso, em 458 a.C., o escriba Esdras se juntou ao “ Remanescente” repatriado em Jeru­ salém com um contingente bem menor de duas mil pessoas com suas famílias, e restaurou a Lei e o ritual. Após outros doze anos, em 446 a.C., Neemias chegou a Jerusalém para reconstruir os mu­ ros e exercer a função de governador. Havia então agora, nova­ mente, um estado judeu na Judéia, embora sob o domínio persa.
  10. 10. Mas o “remanescente” que voltara era apenas um remanes­ cente. A parte maior da nação preferiu permanecer na Babilônia e Assíria (agora dominada pela Pérsia), onde prosperava e onde, desde o início do reinado medo-persa, eram tratados mais como colonos do que cativos. Essa é portanto a descrição do povo judeu no começo do período de quatrocentos anos entre Malaquias e Mateus: o rema­ nescente judeu de volta à Judéia cerca de cento e quarenta anos; um estado judeu pequeno e dependente ali, Jerusalém e o tem­ plo reconstruídos, a LEI e o ritual restaurados; mas a massa do povo continuava dispersa através de todo o império medo-persa. Nosso interesse se fixa especialmente sobre a comunidade ju­ daica repatriada e reconstituída na Judéia, “ o Remanescente” , pois é nela que a continuidade da história judaica, nacional e po­ lítica, é preservada entre o Velho e o Novo Testamentos; i.e., os que são a nação judaica, distintos dos judeus como uma raça dis­ persa e desintegrada. Se quisermos apreciar corretamente esta comunidade judai­ ca, à medida que ela emerge de novo nas páginas do Novo Testa­ mento, precisamos traçar o seu curso de duas maneiras: primei­ ro, quanto aos desenvolvimentos externos (o aspecto político): e, segundo, quanto aos desenvolvimentos internos (o aspecto re­ ligioso). DesenvÀJyimentos Externos Considerado externa e politicamente, o curso variado da pequena nação judaica na Palestina, simplesmente reflete a his­ tória dos diferentes impérios mundiais e outros grandes pode­ res que obtiveram sucessivamente o domínio da Palestina, com exceção de uma breve conjuntura, a saber, a revolta dos maca- bes, quando durante um curto período houve de novo um go­ verno independente. Podemos dizer que a história judaica duran­ te esses quatro séculos entre os Testamentos se divide em seis períodos: persa, grego, egípcio, sírio, macabeu e romano.
  11. 11. O Período Persa (536-333 a.C.) O dom mio persa sobre a Palestina, que se iniciou com o de­ creto de Ciro em 536 a.C. autorizando a volta do remanescente ju­ deu, continuou até 333 a.C., quando a Palestina caiu sob o poder de Alexandre, o Grande e seu império greco-macedônio (o tercei­ ro dos impérios mundiais pagãos preditos por Daniel). Isto signi­ fica que no final de Malaquias os judeus se achavam ainda sob o reinado persa e permaneceram nessa situação durante praticamen­ te sessenta anos da era intertestamentária. A última parte do período persa parece ter sido mais ou me­ nos calma. Existe pouca informação a respeito. A Palestina fazía parte da satrapia síria, e o domínio parece ter sido tolerante. A forma sacerdotal do governo judeu foi respeitada e o sumo sacer­ dote recebeu ainda maior poder civil além de seus ofícios religio­ sos, embora tivesse de, naturalmente, prestar contas ao governa­ dor persa da Síria. Ao que parece, a única perturbação notável durante esse tem­ po foi uma represália anti-semita provocada pelos próprios líde­ res judeus através de intrigas e homicídios em sua competição per­ versa pelo cobiçado cargo de sumo-sacerdote — já que o poder ci­ vil investido na posição sagrada fizera dele um objeto de ambição política. No próprio recinto do templo, Jônatas, neto de Elisabe, assassinou seu irmão Josué, favorito do governador persa. Os per­ sas descarregaram sua vingança sobre Jerusalém, profanaram o templo, impuseram uma severa multa, devastaram parcialmente a cidade e perseguiram os judeus por algum tempo depois disso. Um outro ponto talvez deva ser destacado neste período per­ sa. Ele está ligado a Samaria, a província anexa à Judéia, e parte da satrapia síria. Em 2 Reis 17:24-41, lemos que bem antes, em 721 a.C., depois de destruir o reino das dez tribos de Israel e dispersar os israelitas através das cidades dos medos, o rei da Assíria repo­ voou as cidades de Israel com um povo misto que veio a ser chamado de “ samaritanos” , seu território sendo conhecido como Samaria, o nome da cidade principal, ex-capital de Israel. Mais tarde, Neemias encontrou grande oposição e maldade justaménte por parte do povo dessa região, quando foi enviado pelo imperador persa em 446 a.C. para reconstruir os muros de Jerusalém. Agora, muitos anos mais tarde, nos estágios iniciais dos séculos intertestamentá- rios, e quase no final do reino persa, parece que o culto rival de
  12. 12. Samaria (Ja 4:19-22) tornou-se estabelecido, com a fundação do templo samaritano. Esse acontecimento marcou a separação total entre judeus e samaritanos. Desde então, Samaria passou a viver como uma comunidade isolada em uma estreita área. A competi­ ção no culto fazia parte de uma rivalidade mais generalizada, vio­ lenta e rancorosa, que persistiu até os dias do Novo Testamento. 5O Período Grego (333-323 a.C.) Alexandre, o Grande foi um fenômeno meteórico tão notá­ vel na história que não podemos deixar de perguntar-nos quáí se­ ria o seu impacto total no mundo se ele não tivesse morrido re­ pentinamente aos 32 anos de idade. Arremessado ao poder, após o assassinato do pai, quando tinha apenas vinte anos, Alexandre transformou politicamente a face do mundo em pouco menos de uma década. Ele é o “ chifre notável” na visão do “ bode” de Da­ niel (veja Daniel 8.1-7). Em sua campanha na Síria ele marchou na direção sul contra Jerusalém. Josefo nos conta como o sumo sacerdote Jadua, em suas vestes sacerdotais e encabeçando uma procissão de sacerdotes vestidos de branco, apresentou-se para invocar a clemência do conquistador. Alexandre, que, segundo dizem, reconheceu em Ja­ dua o cumprimento de um sonho, não só poupou Jerusalém e ofe­ receu sacrifício a Jeová, mas também ouviu a leitura das profecias de Daniel referentes à queda do império persa por meio de um rei da Grécia. Desde então ele tratou os judeus com marcada preferên­ cia, concedendo-lhes plenos direitos de cidadania com os gregos em sua nova cidade, Alexandria, e em outras cidades. Isto, por sua vez, criou entre os judeus simpatias decididamente pró-gregas e, juntamente com a difusão da língua e civilização gregas feita por Alexandre, teve suas repercussões a longo prazo no espírito hele- nista que se desenvolveu entre os semitas e afetou grandemente sua perspectiva mental mais tarde. O Período Egípcio (323-204 a.C.) Es,ta foi a mais longa das seis épocas na era intertestamentá- ria. A morte prematura de Alexandre precipitou um intervalo de confusão que se resolveu na divisão de seu império entre seus qua­
  13. 13. tro generais: Ptolomeu, Lisímaco, Cassandro e Seleno. Esses são os “ quatro notáveis” que substituem o “grande chifre” , como pro­ fetizado em Daniel 8:21-22. Depois de severa luta, em que a Judéia, juntamente com a ou­ tra parte da Síria, tornou-se novamente tanto “ o prêmio como a vítima” no conflito pelo império entre Leste e Oeste, a Judéia caiu agora nas mãos de Ptolomeu, juntamente com o Egito. Este foi Ptolomeu Soter, o primeiro da dinastia ptolemaica, i.e., a linha­ gem de reis gregos sobre o Egito. (Para uma lista dos ptolomeus veja o final deste estudo.) Ptolomeu arrancou as províncias sírias de um general oponen­ te, Laomedo. Os judeus recusaram-se a retirar seu voto de lealda­ de a Laomedo, mas Ptolomeu capturou Jerusalém num sábado, dia que os judeus se negavam a profanar mesmo para se defenderem. Dentre os cem mil cativos, Ptolomeu destacou trinta mil para guar­ necer suas cidades mais importantes, especialmente na Líbia e Ci- rene, que acabara de anexar. Tomou essa decisão devido à fideli­ dade mostrada pelos judeus em se manterem leais a Laomedo. Durante algum tempo Ptolomeu Soter tratou duramente os judeus, mas depois mostrou-se amigável. Seu sucessor, Ptolomeu Filadelfo, continuou numa atitude favorável e seu reinado desta­ cou-se não só por ter fundado a renomada biblioteca alexandrina, mas também pelo fato da famosa tradução Septuaginta das Escri­ turas do Velho Testamento ter sido feita nessa época; passando-as do hebraico para o grego, cuja língua se tornara conhecida em to­ do o mundo civilizado. Segundo se julga, o Pentateuco foi traduzido cerca de 285 a.C. e o restante das Escrituras em estágios posterio­ res. Os judeus eram então tão numerosos no Egito e norte da Áfri­ ca que tal tradução mostrou-se imprescindível. Ela passou a ser usada de modo geral bem antes do nascimento do Senhor e muitos dos gentios puderam conhecer então as Escrituras. Durante o período de tratamento humano e algumas vezes bondoso dos três primeiros Ptolomeus, os judeus da Judéia cresce­ ram em número e riqueza; desenvolvendo o seu comércio, que prosperou com a queda de Tiro. Mas durante a última parte do pe­ ríodo egípcio eles passaram por duras provações. A Palestina esta­ va se tornando cada vez mais um campo de batalha entre o Egito e os agora poderosíssimos Selêucidas (i.e., a linha dos reis s/rios descendentes de Seleuco I). Por achar-se localizada entre a Síria
  14. 14. e o Egito, a Palestina encontrou-se novamente entre “o martelo e a bigorna” . Antíoco o Grande da Sfria afirmava que a província da Síria tinha sido originalmente cedida a Seleuco na divisão do império de Alexandre. Numa grande batalha em Rafia, perto de Gaza, Antíoco foi derrotado por Ptolomeu Filopatro (o quarto ptolomeu), determinando assim o destino da Palestina que per­ maneceu como província egípcia até o final do reinado de Filopa­ tro. Este, porém, ganhou a antipatia dos judeus pela sua ousadia em pretender entrar no Santo dos Santos. O sumo sacerdote, Si- mão II, impediu-o e Filopatro, voltando a Alexandria, perseguiu os judeus e tomou até medidas para extirpá-los de seus domínios (3 Mac 2). A partir do reinado de Ptolomeu Filopatro, o poder do Egito desvaneceu-se rapidamente. A estrela do império final­ mente empalidecia para o Egito e uma civilização que durava des­ de os primórdios da história pós-diluviana em breve seria esmaga­ da sob os tacões de aço de Roma. Por ocasião da morte de Ptolomeu Filopatro, Ptolomeu Epi- fânio, seu sucessor, tinha apenas cinco anos. Antíoco, o Grande, aproveitou-se desta oportunidade e em 204 a.C. invadiu o Egito. Logo depois, Judéia e outros territórios foram anexados à Sí­ ria e passaram a ser governados pelos selêucidas. (Para uma lista dos selêucidas na Síria veja o final deste estudo.) ’ O Período Sírio (204-165 a.C.) Dois pontos devem ser especialmente notados neste perío­ do. Primeiro, foi nessa época que a Palestina dividíu-se em cinco províncias, as quais encontramos nos tempos do Novo Testamen­ to, a saber: Judéia, Samaria, Galiléia, Peréia, Traconites. (Algu­ mas vezes as três primeiras são chamadas coletivamente de Ju­ déia.) Segundo, este período sírio foi o mais trágico da era inter- testamentária para os judeus na pátria. Antíoco, o Grande, foi cruel para com eles. O mesmo acon­ teceu com seu sucessor, Seleuco Filopatro. Todavia, os judeus na Judéia continuavam tendo permissão para viver sob as suas pró­ prias leis e administrados pelo sumo sacerdote e seu concílio co­ mo governantes nominais. Com a ascensão de Antíoco Epifânio (175-164 a.C.), um “ reinado de terror” caiu sobre a Judéia.
  15. 15. Nessa ocasião tinha surgido na Judéia um partido com idéias gregas ou helenistas, defendendo inovações anti-semitas. Eles se inclinavam a relaxar a observância ortodoxa do judaísmo com a exclusividade nacional contida na mesma, a favor de uma liberda­ de grega de pensamento, maneiras e formas de religião. As dispu­ tas entre nacionalistas e helenistas para alcançar o poder nesses assuntos provocou amargas contendas e até assassinatos. Depois de várias interferências anteriores no templo e no sa­ cerdócio, Antíoco Epifânio usou então este partidarismo judaico como uma provocação para fazer cair sobre eles todo o peso do seu rancor. Descarregou o seu ódio em forma de uma terrível de­ vastação em 170 a.C. Jerusalém foi saqueada, os muros derruba­ dos, o templo grosseiramente profanado e a população submeti­ da a monstruosas crueldades. Milhares foram massacrados. As mu­ lheres e crianças vendidas como escravas. Abolidos os sacrifícios no templo. O Santo dos Santos pilhado e sua valiosa mobília rou­ bada. A religião judaica foi banida. Proibiu-se a circuncisão sob pena de morte. Um governador estrangeiro passou a administrar a terra, elevaram um traidor ao sumo sacerdócio e impuseram o paganismo à força sobre o povo. Uma pessoa ficou encarregada de profanar tanto o templo de Jerusalém como o de Samaria e rededi- cá-los a Júpiter Olímpio e Júpiter Xênio, respectivamente. Todas as cópias da Lei encontradas foram queimadas ou des­ figuradas com figuras idólatras e seus possuidores executados. O primeiro livro dos Macabeus diz que muitos judeus se tornaram apóstatas e alguns até se juntaram aos perseguidores. Em 168 a.C. Antíoco ordenou que um porco fosse oferecido sobre o altar de sacrifício e, a seguir, no próprio altar, mandou erguer uma estátua a Júpiter Olímpio. Nessa década medonha os judeus da Palestina achavam-se decididamente no vale da sombra da morte. O Período Macabeu (165-63 a.C.) Como um relampejar súbito de estrelas brilhantes, irrompen­ do dentre as nuvens numa noite escura, o episódio surge diante de nós. Trata-se de uma das passagens mais heróicas de toda a histó­ ria. Para apreciá-la como merece, é necessário que conheçamos não apenas os fatos, mas também que entremos no espírito dos mes­ mos.
  16. 16. O movimento de revolta e resistência foi provocado pelos próprios excessos de Antfoco. Ele iniciou-se com um sacerdote idoso, Matatias, e desenvolveu-se com seu filho Judas, conhecido subseqüentemente como Judas Macabeu, nome derivado do termo hebraico para martelo. Contra um pano de fundo de terríveis tre­ vas e desafiando forças contrárias esmagadoras, a fé santa de Mata­ tias e seus filhos ardeu com glorioso brilho e encontrou eco no co­ ração de uma multidão santa que se ofereceu voluntariamente em sacrifício. A dedicação de centenas de milhares levou-os ao martírio. E difícil encontrar, seja no Velho Testamento ou na era cristã, um flamejar mais nobre de ciúme santo pela honra de Deus. A centelha que fez explodir a indignação desesperada foi uma represália corajosa e drástica por parte do velho e zeloso sacerdote. Os oficiais de Antíoco, em sua missão de obliterar o judaísmo e substitui-lo pela religião estatal do rei, visitaram Modin, cidade de Matatias. Este, figura então proeminente, recusou-se a cumprir as ordens, matou o oficial de Antíoco, juntamente com um judeu desleal e destruiu o altar idólatra. Matatias e seus cinco filhos refu­ giaram-se então nas montanhas do deserto e muitos dos fiéis reu­ niram-se a eles com suas famílias. Filipe, o frígio, os perseguiu e matou cerca de mil deles com suas mulheres e filhos, queimando- os vivos nas cavernas onde se escondiam. Isto não foi difícil, por­ que os judeus negavam a se defender nos dias de sábado. Matatias os convenceu, depois disso, de que a autodefesa em tais circunstân­ cias era justa mesmo no sábado. Matatias e seu bando vieram a constituir um exército. Eles atacavam cidade após cidade, matando os judeus traidores, derru­ bando os altares idólatras e restaurando a verdadeira religião. Cerca de um ano mais tarde, Matatias morreu, tendo indicado seu filho Simão para ocupar o cargo de conselheiro-chefe e seu filho Judas como general do exército. Judas desenvolveu então uma poderosa estratégia de guerri­ lhas, sendo a região perfeitamente adequada a táticas como essa. Seu exército cresceu. Ele derrotou dois exércitos invasores em ba­ talha acirrada, matando ambos os comandantes, Apolônio e Seron. Uma terceira expedição, muito maior, com cerca de 50.000 ho­ mens enviados diretamente por Antíoco, sob o comando conjunto de seus generais Ptolomeu Macron, Nicanor e Górgias, terminou em derrota. Depois disso, um grande exército de 65.000 soldados
  17. 17. de infantaria e cavaleiros, dentre os melhores, invadiram a Judéia sob o comando do chefe de todos os generais de Antíoco, Lísias. O resultado foi o mesmo. Os dez mil homens de Judas lutaram com tão terrível desespero e força aparentemente sobrehumanos que os sírios se amedrontaram e Lísias retirou-se, compreendendo que nada senão uma campanha total resolveria a situação. Judas assumiu então a ofensiva. Jerusalém foi recuperada, o templo remobiliado e a 25 de dezembro, aniversário da sua pro­ fanação três anos antes, os sacrifícios ortodoxos foram reinstituí­ dos (cuja data os judeus continuam observando como a Festa da Dedicação; veja Jo 10.22). Judas capturou também os principais postos em toda a terra. Antíoco, ao que tudo indica, preparava uma formidável vingança, mas uma pesada derrota em Elimas na Pérsia, além dos fracassos sucessivos na Judéia, parecem tê-lo envolvido num terror supersticioso que transformou-se em enfer­ midade fatal. Conta-se que morreu em estado de completa loucura. O que poderia ter parecido um sinal divino de libertação fi­ nal, mostrou-se todavia como justamente o oposto. Veio então a pior crise de todas. O filho de Antíoco era muito jovem. Lísias passou a ser o regente da Síria, autonomeado, e invadiu a Judéia com um exército de 120.000 homens. Judas e seu exército foram derrotados em Betsur e retiraram-se para Jerusalém. O cerco foi longo. Os macabeus resistiram valentemente, mas faltaram provi­ sões. Muitos dos sitiados desertaram movidos pela fome. Os adep­ tos de Judas foram diminuindo cada vez mais, até que a capitula­ ção parecia inevitável e a causa perdida. Mas quando tudo parecia ter acabado, Lísias ouviu subita­ mente falar de um regente rival na capital da Síria e induziu o jo­ vem filho de Antíoco e os príncipes sírios a fazer paz com a Judéia em termos amigáveis, prometendo-lhes a restauração de todas as liberdades religiosas. A revolta dos macabeus, no momento em que parecia a ponto de ser esmagada, foi então coroada de sucesso! No entanto, outros problemas surgiram mais tarde, por parte de um novo sucessor do trono da Síria, Demétrio I. Depois de al­ gumas interferências contra os macabeus em Jerusalém, ele final­ mente enviou um exército comandado por Nicanor para matar Ju­ das. Judas o derrotou e Nicanor foi morto. Mais ou menos nessa época, Judas procurou aliar-se a Roma, que se tornara então um dos maiores poderes do mundo. Mas antes dos frutos dessa aliança
  18. 18. poderem ser colhidos, ele foi derrubado numa batalha contra o exército sírio, quando resistia corajosamente com um punhado de homens. Não podemos narrar aqui os sucessivos altos e baixos do po­ vo judeu durante as décadas seguintes, as vacilações entre os ma- cabeus ortodoxos e o partido helenista heterodoxo, continuamen­ te complicadas pela interferência pouco inteligente dos poderes estrangeiros. Os comentários abaixo irão porém indicar o curso seguido pelos acontecimentos. O partido ortodoxo prevaleceu sob o comando de Jônatas, irmão mais moço de Judas Macabeu. Ele mostrou-se um guerrei­ ro capaz, obtendo notáveis vitórias e, por absoluta força das cir­ cunstâncias, os governantes sírios e outros foram obrigados a res­ peitá-lo fora da Judéia. Jônatas tornou-se também sumo sacerdo­ te, unindo assim a autoridade civil e religiosa em uma única pes­ soa e dando início a linha de sacerdotes “asmoneus” ou “ hasmo- neus’’ (assim chamada por causa de Hasmon, tataravô dos irmãos macabeus). Mais tarde, entretanto, ele foi traído e assassinado por um poder estrangeiro (143 a.C.) e seu irmão Simão assumiu a liderança. Simão também foi um bom líder. Após capturar todas as demais fortalezas sírias na Judéia, ele obrigou a guarnição síria na cidadela de Jerusalém a render-se. A Judéia ficou assim livre de todas as tropas estrangeiras e a partir dessa época (cerca de 142 a.C.), passou novamente a ser um governo judeu independen­ te. Exceto por uma pequena exceção, isto continuou até que a Judéia veio a tornar-se província romana em 63 a.C. Simão, além de expulsar a guarnição síria da cidadela de Je­ rusalém, mandou nivelar a “ montanha” sobre a qual ela se achava. O povo trabalhou noite e dia durante três anos, até que a mesma ficou reduzida ao nível comum da cidade, para que jamais voltas­ se a ameaçá-los e para que o templo se mantivesse como o mais alto de todos os edifícios. Simão era amado por todos; mas depois de oito anos no cargo ele e dois de seus filhos foram traiçoeiramen­ te assassinados por um genro que cobiçava o sumo sacerdócio. O filho de Simão que restou, o capaz João Hircano, tornou- se então sumo sacerdote. Depois de um revés inicial e um curto in­ tervalo de servidão à Síria, ele estendeu notavelmente o poder da Judéia. De fato, desde a dispersão das dez tribos depois do reinado
  19. 19. de Salomão, nenhum rei judeu conseguira uma área tão espaçosa. João Hircano foi sem dúvida um personagem digno de nota. A di­ nastia hasmoneana é geralmente considerada como começando com ele (135-63 a.C.); embora talvez tenha tido verdadeiro início com seu pai Simão em 140 a.C., quando uma grande assembléia em Jerusalém tornou o duplo cargo de príncipe e sumo sacerdo­ te hereditário na família dos hasmoneanos. João Hircano teve um reinado próspero durante 29 anos, morrendo em 106 a.C. Depois dele, infelizmente, o registro da independência judaica está longe de ser brilhante. Os últimos go­ vernantes da linhagem hasmoneana não tinham as qualidades dos primeiros macabeus. As amargas contendas partidárias foram agra­ vadas por repetidos conflitos mortais e uma guerra civil que só terminou após a intervenção romana. Com a morte de João Hircano, seu filho Aristóbulo transfor­ mou a liderança em reinado, aprisionando e deixando morrer de fome sua própria mãe no processo, encarcerando três de seus qua­ tro irmãos, e negociando o assassinato do outro. Mas este Aristó­ bulo só viveu mais um ano depois dessas maldades. Ele foi seguido por Alexandre, que, no mar de sangue que manchou seu reinado, mandou matar 50.000 de seus compatrio­ tas. Sua viúva conseguiu manter a coroa por cerca de nove anos após sua morte, mas quando ela também morreu houve um amar­ go conflito entre seus dois filhos — outro Aristóbulo e outro Hir­ cano. A família Herodes aparece agora em cena. Antípater, pai do Herodes que reinou na época do nascimento do Senhor, conseguiu obter através de suas engenhosas maquinações o apoio do general romano Pompeu para seu irmão Hircano. Aristóbulo, o outro ir­ mão, desafiou Roma. O resultado foi o cerco de Jerusalém. Depois de um cerco de três meses, Pompeu tomou a cidade. Nessa oca­ sião, com a máxima desconsideração, ele entrou no Santo dos San­ tos — cujo ato imediatamente fez com que todos os corações se voltassem para os romanos. Isso aconteceu em 63 a.C. O Período Romano (a partir de 63 a.C.) A conquista de Jerusalém por Pompeu encerrou o intervalo da independência pela Judéia e ela tornou-se uma província do im-
  20. 20. pério romano. O sumo sacerdote perdeu completamente seus po­ deres reais retendo apenas a função sacerdotal. Este sumo sacer­ dote, João Hircano, marca o fim da linhagem de sumos sacerdo­ tes hasmoneus e macabeus. O governo passou a ser exercido por Antípater, o idumeu, que foi nomeado procurador da Judéia por Júlio César em 47 a.C. , Antípater, nomeou Herodes (seu filho pelo casamento com uma mulher árabe, Cipros) governador da Galiléia, quando ele ti­ nha apenas 15 anos de idade (segundo Josefo). Durante a guerra entre Pompeu e César, os interesses da Ju­ déia desapareceram durante algum tempo em vista de questões mais importantes. Mas depois do assassinato de César, Herodes fugiu das desordens provocadas por esse incidente na Palestina e apelou para o triunvirato de Roma, onde suas manobras even­ tualmente lhe obtiveram a coroa da Judéia, objeto de sua maior ambição. Ele foi nomeado rei dos judeus por volta de 40 a.C. Ao voltar à Judéia, ele procurou agradar os judeus casando- se com Mariamne, a belíssima neta do asmoneu João Hircano e no­ meando sumo sacerdote o irmão dela, Aristóbulo. Ele também aumentou grandemente o esplendor de Jerusalém, construindo o bem elaborado templo que veio a ser o centro de adoração judai­ ca nos dias do Senhor. Herodes, porém, era tão cruel e sinistro quanto hábil e ambi­ cioso. Sua determinação em extinguir a família dos hasmoneus era praticamente satânica e para conseguir isto manchou as mãos com homicídios terríveis. Mandou matar os três irmãos da mu­ lher — Antígono, Aristóbulo e Hircano. Mais tarde assassinou até mesmo a esposa, embora ela pareça ter sido a única que foi ca­ paz de amar. Tempos depois matou também a sogra, Alexandra. E posteriormente ainda assassinou os filhos que tivera com Ma- riamne — Aristóbulo e Alexandre. Este foi aquele “ Herodes, o Grande,” que reinava quando o Senhor nasceu. Em resumo, esse é o contexto da história dos judeus na Pa­ lestina estudado externa e politicamente, durante os quatro sé­ culos entre Malaquias e Mateus. E importante guardar na memó­ ria os seus períodos descritos. Passamos agora a uma revisão do período do ponto de vista religioso e espiritual.
  21. 21. PARA SUA REFERÊNCIA em relação ao exame precedente do período entre Malaquias e Mateus OS PTOLOMEUS (i.e. a dinastia dos reis gregos que gover­ naram o Egito durante a última fase do império egípcio) Ptolomeu Soter 323-285 Ptolomeu Filadelfo 285-247 Ptolomeu Euergetes 247-222 Ptolomeu Filopatro 222-205 Ptolomeu Epifânio 205-181 Ptolomeu Filômetro 181-146 Ptolomeu Fiscon 146-117 Ptolomeu Soter II 117-107 Ptolomeu Alexandre I 107-90 Ptolomeu Soter II (reinado posterior) 89-81 Ptolomeu Alexandre II 19 dias Ptolomeu Dionísio 80-51 Ptolomeus XII e XIII com a Rainha Cleópatra 51-43 O Egito sucumbiu ao domínio romano em 30 a.C. OS SELÊUCID/.S (i.e a dinastia dos reis descendentes de Seleuco Nicator, fundador da monarquia síria) Seleuco Nicator 312-280 Antíoco Soter 280-261 Antíoco Teos 261-246 Seleuco Cal fnico 246-226 Seleuco Ceranus 226-223 Antíoco, o Grande 223-187 Seleuco Filopatro 187-175 Antíoco Epifânio 175-163 Antíoco Eupatro 163-162 Demétrio Soter 162-150 Alexandre Balas 150-146 Demétrio Nicator 146-144 Antíoco Teos 144-142 Usurpador, Trifão 142-137 Antíoco Sidetes 137-128 Demétrio II (novamente) 128-125 Seleuco V 125-124 Antíoco Gripo 124-96 Seleuco Epifânio 95-93 Logo depois disto os sírios, desgastados pelas guerras civis dos selêucidas, entre­ garam o reino a Tigranes, rei da Armê­ nia, em 83 a.C. Ele tornou-se parte do império romano em 69 a.C.
  22. 22. o perío d o in t e r t e s t a m e n t á r io 11. O ASPECTO RELIGIOSO Lição nQ 2
  23. 23. É da maior importância lembrar... que apenas uma minoria dos judeus, cerca de 60.000 ao todo, voltou inicialmente da Ba­ bilônia, primeiro sob Zorobabel e mais tarde sob Esdras. Esta in­ ferioridade não estava apenas nos números. Os judeus mais ricos e influentes ficaram para trás. Segundo Josefo, com quem Filo concorda substancialmente, um vasto número, calculado em milhões, habitava as províncias trans-eufráticas. Só pela estimati­ va do número de pessoas mortas nos levantes populares (50.000 apenas na Selêucia), esses algarismos não parecem excessivamen­ te exagerados. Uma tradição posterior afirmava que a população judaica era tão densa no império persa que Ciro proibiu a volta de novos exilados, a fim de que o país não ficasse desabitado. Um grupo assim tão grande e compacto logo tornou-se um poder po­ lítico. Tratados com bondade pela monarquia persa, depois da queda desse império, eles foram favorecidos pelos sucessores de Alexandre. Quando o governo sírio-macedônio foi por sua vez substituído pelo império dos partas, os judeus, pela sua oposi­ ção nacional a Roma, formaram um elemento importante no Oriente. A influência deles era tão grande que numa época tão posterior quanto o ano 40 A. D. o legado romano ainda evitava provocar a hostilidade deles. Ao mesmo tempo, não deve ser ima­ ginado què sequer nessas regiões favorecidas eles estivessem com­ pletamente a salvo de perseguição. A história registra aqui tam­ bém mais do que um relato de conflitos sangrentos promovidos por aqueles povos entre os quais habitavam. — A. Edersheim, D. D.
  24. 24. ENTRE MALAQUIAS E MATEUS (2) Não podemos adiantar-nos muito nas páginas do Novo Tes­ tamento sem perceber que grandes mudanças tiveram lugar entre os judeus desde que o último escritor do Velho Testamento des­ cansou a sua pena. Não foi só no sentido de a Palestina ter mudado de mãos meia dúzia de vezes, à medida que os poderes estrangeiros a ar­ rancavam sucessivamente uns dos outros e que essas mudanças gravavam suas marcas profundamente sobre a nação. Os judeus em si haviam mudado. Surgiram novas seitas ou partidos — fari­ seus, saduceus, herodianos. Novas instituições — sinagoga, escri­ bas, Sinédrio. De fato, o povo judeu se desenvolvera numa espécie de “ is­ mo” nacional, i.e., o judaísmo. As coisas evoluíram de tal modo que a nação inteira identificou-se praticamente com este culto, este judaísmo que se desenvolveu em volta das Escrituras do Ve­ lho Testamento. Os judeus (o povo) e o judaísmo (a religião) encontravam-se então praticamente coexistindo, e um implica­ va o outro. Todas essas mudanças — o surgimento das novas seitas e instituições, e a evolução do judaísmo — tiveram início durante os quatro séculos que mediaram entre o Velho Testamento e o Novo. Isto, por si mesmo, mostra a importância do intervalo inter- testamentário. Desse modo, tendo recapitulado esses quatro sé­ culos quanto ao curso exterior da história judaica, vamos, agora, traçar brevemente os principais desenvolvimentos internos e re­ ligiosos.
  25. 25. Desenvolvimentos Internos Se quisermos compreender de modo geral o espírito e tendên­ cias da comunidade cristã durante esse trecho dos séculos, é preci­ so apreciar primeiramente o impacto profundo do exílio da Babi­ lônia sobre a nação. Vamos deixar que nossa mente retroceda por um momento ao Livro de Reis. Depois da morte do rei Salomão houve uma divisão no povo hebreu que jamais foi reparada. Dez das tribos se separaram da casa de Davi e estabeleceram um reino próprio; a partir de então houve dois reinos em lugar de um úni­ co. Havia o reino do norte com dez tribos tendo Samaria como sua capital: e o do sul, o reino de Judá, com a capital em Jerusa­ lém. Depois de uma carreira inglória durante dois séculos e meio, o reino das dez tribos foi conquistado pelos assírios, as tribos dis­ persadas em territórios estrangeiros e o imperador assírio repovoou a terra deles com uma mistura heterogênea de cativos levados de outras regiões. Essa dispersão deu-se em 721 a.C. e o povo coloca­ do no antigo território israelita tornou-se conhecido como “ os sa- maritanos”. O reino do sul, Judá, continuou durante mais um século e meio e depois sucumbiu ao poder da Babilônia, o novo poder mun­ dial que suplantara o império assírio. Em 587 a.C. a Judéia foi conquistada, Jerusalém reduzida a ruínas e a maior parte do povo levado cativo para a Babilônia. Esse exílio babilónico é muitas vezes chamado de exílio dos setenta anos, mas na verdade não du­ rou tanto. E certo que durante exatamente setenta anos (de 606, quando Daniel e outros príncipes judeus foram levados, até 536, quando o império babilónico caiu), Deus usou a Babilônia para castigar o povo da aliança; mas o exílio em si durou apenas cin­ qüenta arios. Ele teve um impacto tão grande sobre o povo judeu que precisamos estudá-lo a fim de compreender os desenvolvimen­ tos religiosos durante o período intertestamentário. Sanada a Idolatria Habitual Quando refletimos sobre os privilégios únicos, o relaciona­ mento de aliança e o chamado superior do povo escolhido, o exí­ lio foi uma catástrofe superlativa. Ele foi, todavia, ordenado por Deus para produzir uma transformação nos conceitos religiosos do
  26. 26. povo hebreu que só pode ser descrita como uma das mais surpreen­ dentes revoluções na história de qualquer nação. Os judeus segui­ ram para esse exílio com o que parecia uma paixão insensata, apa­ rentemente incurável, pela idolatria. Eles emergiram dele na con­ dição em que permanecem até hoje, o povo mais monoteísta do mundo, os defensores e promulgadores.da crença no Deus único e verdadeiro, Jeová, o Senhor. Recapitulemos a sua história. Mal saíram do Egito e já esta­ vam adorando o bezerro de ouro. Logo depois de se estabelecerem em Canaã passaram a prostrar-se diante dos Baalins e de Astarote, divindades dos fenícios. No ponto mais alto da monarquia, o pró­ prio Salomão levou a nação a adorar Milcom, abominação dos amonitas; Camos, abominação dos moabitas, assim como Molo- que e outros igualmente abomináveis. Depois da separação das dez tribos, encontramos Jeroboão colocando seus bezerros de ouro em Dã e Betei: e esse não foi senão o começo de um longo e espantoso período de idolatria, agravado por reinados como o de Acabe e sua mulher pagã Jezabel, até que o reino inevitavelmente apóstata foi dissolvido na dispersão pelos assírios. Quanto ao reino do sul, i.e., Judá, apesar dos reinados de vários reis piedosos, o mal da idola­ tria agravou-se cada vez mais, até que nos reinados de Manassés, Jeoaquim e Zedequias as coisas chegaram a um ponto crítico. Je­ remias, o profeta da hora crucial de Judá, clama: “ Segundo o nú­ mero de tuas cidades são os teus deuses, ó Judá” . Todavia, vemos mais tarde este fato extraordinário: depois do exílio na Babilônia o povo judeu converteu-se totalmente e para sempre da idolatria, transformado em um adorador convicto do Deus único e verdadeiro. Como justificar isso? O que houve, naquele curto intervalo de cinqüenta anos, que alcançou tão decisivamente o que todos os castigos anteriores, exortações proféticas e reformas reais, assim como as advertências divinas tinham falhado em obter? Não foi certamente a cultura babilónica, pois a Babilônia era o centro da idolatria. Seus deuses, altares e santuários eram tão antigos quanto a civilização, sendo venerados em toda parte. A Babilônia pode­ ria muito bem ter aumentado a idolatria dos judeus, mas certa­ mente não poderia curá-la. Deve existir, porém alguma explicação para a renúncia rá­ pida e final da idolatria por parte de Israel, pois povo algum pode
  27. 27. experimentar uma transformação tão básica e permanente de idéias sem que haja uma compulsão poderosíssima. O que foi en­ tão que converteu tão completa e definitivamente todo esse povo? Os Fatores Sobrenaturais A resposta está no fato de o milagre da profecia estar sendo cumprido diante de seus próprios olhos. Em tempos idos, os pro­ fetas Isaías e Jeremias haviam predito claramente em seus escri­ tos os acontecimentos que sobrevieram sobre eles. A destruição de Jerusalém, o exílio dos filhos e filhas de Judá na Babilônia, a queda subseqüente e súbita da própria Babilônia, as brilhantes conquistas de Ciro o Persa que conquistou a Babilônia, os decre­ tos posteriores de Ciro para a restauração do templo em Jerusa­ lém — tudo isso foi profetizado 200 anos antes de acontecer, jun­ tamente com as profecias mais recentes e ainda mais específicas de Jeremias relativas ao período de setenta anos determinado por Deus para o castigo de Judá, e o intervalo menor do exílio pro­ priamente dito na Babilônia (veja Is 43: 14; 44:28; 45:1-7; 46.1 -11; 47:1-11; 48:3-7; Jr 25:8-14; 50, 51). Os judeus mal podiam imaginar, quando estavam sendo ar­ rastados para a Babilônia, que dentro de cinqüenta anos a pode­ rosa, opulenta e aparentemente inexpugnável capital do vasto e crescente império de Nabucodonosor seria derrubada para sem­ pre, que Ciro o Persa iria conquistá-la e que quase imediatamen­ te ele daria aos judeus a oportunidade de voltar para a Judéia de posse de um édito real para a reconstrução do templo. Todavia, tudo isso ocorreu e os judeus exilados, profundamente atônitos, viram as coisas acontecerem exatamente como predito pelo SE­ NHOR através dos profetas hebreus! Os fatos não podiam ser im­ pugnados. A evidência era conclusiva. O historiador Josefo prati­ camente nos conta que o imperador Ciro foi convertido através dessas maravilhas. Além disso, Deus colocara uma surpreendente testemunha de Si mesmo na própria corte babilónica. Abaixo do imperador, a personagem mais renomada da época era DANIEL. Através de­ le, esse judeu de grande fama, esse homem de intransigente leal­ dade ao Senhor, tinham sido realizados milagres de sabedoria e poder divinos que superaram todas as artes e mágicas dos babi­
  28. 28. lônios. Daniel foi sem dúvida um belíssimo monumento da reali­ dade e supremacia do Senhor. Cada judeu na Babilônia deve ter­ se maravilhado e meditado. E como os judeus devem ter-se surpre­ endido com as promessas graciosas que Deus anexara a algumas das predições de Isafas sobre o exílio na Babilônia — promessas de bênção e restauração caso o povo exilado renunciasse a idola­ tria e se tornasse um servo verdadeiro do Senhor! Assim sendo, finalmente, o povo hebreu foi levado a com­ preender que os deuses pagãos não passavam de vaidades mentiro­ sas e que o Senhor era o único Deus verdadeiro, o Criador de to­ das as coisas, o Rei soberano do universo, cuja vontade domina os exércitos dos céus e os habitantes da terra. Ficaram curados de uma vez para sempre de sua idolatria; tornando-se depois disso eternos e confirmados adoradores do seu Deus da ali^nçji, p Se­ nhor. Manifestação e Crescimento do Judaísmo Ao reconhecermos nessa profunda conversão nacional <5mais determinante de todos os fatores na história judaica subseqüente, vamos fazer uma viagem mental com os cinqüenta mil que volta­ ram da Babilônia para Jerusalém em resposta ao édito do impera­ dor Ciro. Esses cinqüenta mil são conhecidos como o “ Remanescente” . Eles não passavam justamente disso, um remanescente, pois a maior parte da nação permaneceu na Babilônia. Sem dúvida havia muitos para quem a saída da Babilônia e a viagem por centenas de quilô­ metros de volta à Judéia seria muito difícil, ou até impossível. Ra­ zões de família impediriam alguns, e outros em vista da idade ou má saúde. Outros ainda julgariam insuperável o esforço de voltar a estabelecer-se nas cidades e vilas devastadas, recuperando o solo invadido pelas ervas daninhas e sem cultivo há meio século. Outros pretendiam voltar, porém mais tarde. E, aparentemente, muitos outros, embora sua convicção contra a idolatria fosse genuína e permanente, não se sentiam obrigados a voltar para a terra em si, como uma questão de consciência. Entretanto, de uma coisa podemos estar certos: aqueles cin­ qüenta mil que voltaram eram os mais piedosos entre os piedo­
  29. 29. sos. Eles sabiam no que acreditavam e porque acreditavam. Sabiam porque estavam voltando. Compreendiam, pelo menos em parte, as dificuldades que os aguardavam e tinham pleno conhecimento do que tencionavam fazer na Judéia. ' De volta à Judéia: e então? Voltemos então à Judéia com o Remanescente. O que eles en­ contraram? Tente sentir como eles. Além daquelas coisas que sal­ tam à vista — as ruínas empoeiradas, o mato invadindo tudo, e as lembranças pungentes das tragédias passadas, existem certas au­ sências que golpeiam a mente. Não há rei nem trono; a linhagem real de Davi desapareceu. Não há templo; e embora um outro pos­ sa ser construído sobre os antigos fundamentos, ela jamais poderá substituir seu incomparável predescessor. Não existe mais também qualquer independência nacional, pois, embora os cinqüenta mil tivessem retornado com o propósito de restabelecer um estado ju­ deu na Judéia, eles se acham ali apenas com permissão, como uma província subordinada numa área restrita, abrangendo somente uma pequena parte do antigo reino de Judá. Nada de trono, templo ou independência! O que restou? Por que esses judeus voltaram a tais ruínas, restos e dificuldades? Por que voltaram com tanto entusiasmo e dedicação? Porque restara ainda uma coisa que se tornara recentemente a possessão mais pre­ ciosa e vital em todo o mundo para eles e seus conterrâneos: o te­ souro de suas ESCRITURAS sagradas. Elas haviam provado ser indubitavelmente a palavra inspirada do Deus único e verdadeiro, o Senhor; e são os artigos da aliança do Senhor com o povo de Israel. Na Lei de Moisés, ò Pentateuco, esses judeus lêem agora com novos olhos a base de sua comunidade e vocação; com estra­ nhas e novas emoções, eles vêem igualmente nela os castigos pro­ metidos para a desobediência que foram cumpridos com terrível exatidão com a queda do reino e o exílio das tribos. Mas, além disto, esses judeus percebem então em suas Escri­ turas, especialmente nos profetas, a maravilhosa seqüência de pre­ dições relativas à vinda de um Messias que iria reunir de novo e exaltar permanentemente o povo escolhido, sob cujo reinado glorioso todas as bênçãos prometidas na aliança abrâmica deveriam se cumpridas. Todas as demais predições se realizaram, como esses
  30. 30. judeus viveram para testemunhar, e o mesmo ocorrerá com as de­ mais promessas que falam a respeito do Messias que está para vir. Foi assim que esses 50.000 exilados que voltaram raciocinaram consigo mesmos e eles retornaram à pátria, animados por um no­ vo zelo pela Lei e com nova esperança para o futuro. A Lei do Passado: Esperança para o Futuro Essas duas coisas — o novo zelo pela Lei e a esperança messiâ­ nica — jazem nas próprias raízes do “ judaísmo”, o sistema judaico de religião que teve origem logo após o Exílio e se desenvolveu du­ rante o período intertestamentário. O estado judeu, como restau­ rado sob os líderes do Remanescente, Zorobabel e Jesua, pertence a uma ordem diferente de coisas quando comparado aos reinos an­ teriores de Judá e Israel. Nesses reinos pré-exílio as verdades supe­ riores da religião israelita haviam sido mantidas na maioria das ve­ zes apenas pelos profetas e uma pequena minoria, enquanto a vas­ ta maioria se entregava a várias idolatrias e aparentemente não jul­ gava haver muita diferença entre o Senhor e os outros deuses. Mas agora existe uma absoluta aversão pela idolatria e o povo como um todo reconhece a incomparável superioridade da religião sobre toda forma de paganismo: Existe agora um novo desejo intenso de compreender as verdades imperecíveis da revelação que lhes foi en­ tregue por ser a nação da aliança, e um zelo ardente no sentido de que a nação cumpra a sua vocação como guardiã desse depósito in­ superável de verdade divina, que significará, em última análise, a salvação até aos confins da terra. Esses 50.000 decidem moldar o novo estado judeu como o povo santo do Senhor, separado de to­ dos os demais pela mais escrupulosa observância da sua Lei. Porém, traduzir este exaltado conceito em termos práticos, na formação e funcionamento de um novo organismo social, mos­ trou ser uma tarefa cheia de dificuldades. Uma delas, como é natu­ ral, foi o processo inalterado pelo qual as pessoas morrem e outras surgem em seu lugar. Muitos dos 50.000 que retornaram eram ido­ sos (Ed 3.12). Sua volta à terra deu-se poucos anos antes de morre­ rem. As crianças que cresceram talvez não pudessem sentiras mes­ mas emoções vivas pela repatriação e havia muito para desencora­ jar até mesmo os corações mais valentes entre eles. Assim sendo, não se tratava só de oposição dos inimigos externos, mas também
  31. 31. havia apatia e transigência entre o próprio povo, Mas, ainda assim, as idéias básicas do judaísmo tinham realmente se enraizado e não havia transigência quanto à idolatria. O que o povo precisava era de um novo e sistemático ensino da Lei; e quando o escriba Es- dras chegou , oitenta anos depois do regresso dos 50.000, o povo respondeu. Os progressos foram decisivos e o primeiro objetivo parecia novamente passível de realização. Nas palavras do Professor John Skinner: “ Sob os auspícios de Esdras, uma grande reforma foi levada a efeito. O princípio de separação dos pagãos foi reavivado e reforçado inflexivelmente me­ diante a dissolução de todos os casamentos mistos (Ed 9, 10). Nu­ ma grande assembléia do povo, o livro da Lei foi adotado como a constituição escrita do estado e norma autorizada da vida pessoal (Ne 8.7-10). Os esforços de Esdras foram apoiados e continua­ dos vigorosamente por Neemias, que se propusera, em primeiro lugar, a proteger Jerusalém dos ataques inimigos reconstruindo os muros. Mediante o trabalho conjunto desses dois homens, o ju­ daísmo foi finalmente colocado em bases seguras. A Lei tornou- se então, ao mesmo tempo, o padrão da santidade e o símbolo do nacionalismo; e apesar de tendências desintegradoras ainda ope­ rantes, ela apoderou-se de tal forma do coração do povo judeu que todo perigo de serem absorvidos pelas nações vizinhas desa­ pareceu.” A Sinagoga, os Escribas e a Lei Ora! A partir de então a sinagoga local, onde as Escrituras eram lidas e expostas, e a ordem dos escribas, especialistas na tradução e interpretação das Escrituras, assumiram cada vez maior impor­ tância. A partir também dessa época, infelizmente, começou a for­ ma-se aquele sistema elaborado de interpretação, ampliações e re­ gulamentos adicionais que resultou no judaísmo dos dias do Se­ nhor. Sabemos como era esse produto final e como o Senhor o considerou carente de vitalidade espiritual. O judaísmo surgiu enquanto a voz viva da profecia ainda fala­ va através dos profetas do pós-exílio, Ageu, Zacarias e Malaquias, mas suas características distintas se desenvolveram durante os sécu­ los sucessivos entre Malaquias e Mateus, quando essa voz silencia­ ra. Ageu, Zacarias e Malaquias reiteram a ética superior dos profe-
  32. 32. tas do pós-exílio — sua censura severa dosimplesformalismoesuas profecias brilhantes sobre a restauração final de Israel, em suprema­ cia nacional e religiosa, sob o Messias vindouro. O judaísmo teve iní­ cio com o zelo e propósito de manter vivo esse ideal exaltado em meio a perseguições externas e divisões internas, mas os pedagogos e as sinagogas gradualmente introduziram tal escravidão à simples letra da Escritura que o espírito vivo da verdadeira religião mal po­ dia sobreviver. A tendência era cada vez mais de se aplicar um lite- ralismo legalista e a exteriorização religiosa. Ao redor das Escritu­ ras e especialmente da Lei de Moisés, acumulou-se aquela massa de comentários, interpretação e complementação que veio a ser conhecida como Lei Oral e que era transmitida com uma santida­ de tradicional tão grande na época em que o Senhor estava na terra que a obediência se transferira da Lei para a interpretação tradicio­ nal. A Mishna e o Talmude Esta MISHNA, ou Lei Oral, com sua Halachoth (exegese le­ gal ou determinações) e sua Haggadoth (expansões morais, práti­ cas e com freqüencia extravagantes), depois de ter sido transmitida oralmente durante gerações, foi aos poucos sendo escrita em suas várias partes e formas, até que finalmente, por volta do final do se­ gundo século A.D., foi totalmente compilada pelo Rabbi Jehuda no TALM U D E, dividido em duas partes principais: (1) a Mishna, ou Lei Oral, e (2) a Gemara, ou comentários sobre a Mishna; e o Talmude permanece a enciclopédia reverenciada e em grande par­ te autorizada dos judeus até hoje. Nos dias do Senhor a Lei Oral continuava ainda principalmen­ te oral. Podemos imaginar como Ele a considerou um formidável obstáculo. Contradizê-la, como o fez (Mt 15.1-9; 23.16-18r 23), era contrariar todo o peso da opinião erudita, da convicção piedo­ sa e do sentimento público. Além do mais, podemos entender per­ feitamente que ao usar seis vezes a fórmula (veja Mt 5): “Ouvistes que foi dito... eu porém vos digo...” no Sermão do Monte, o Se­ nhor não estava colocando o seu “ eu vos digo” contra as Escrituras do Velho Testamento (como alguns críticos modernos tentaram fazer), mas contra as máximas desta lei ora! ou tradicional. Seu modo habitual de referir-se às Escrituras propriamente ditas era: “ Está escrito” .
  33. 33. Isso é o que nos compete dizer sobre o “judaísmo”. Não de­ vemos nos esquecer de que bons elementos foram preservados pór ele. Em seus primeiros estágios o judaísmo certamente restaurou as Escrituras a seu lugar adequado na mente popular; e suas duas instituições mais características — a sinagoga e o escriba — tinham o propósito de perpetuar essa ordem de coisas. Ele com certeza manteve a leitura pública regular e sistemática das Escrituras. Esti­ mulou a observância devota do sábado e manteve acesa a esperan­ ça messiânica, embora não no espírito primitivo e mais correto. O seu mal foi ter sido sobreposto às Escrituras, resultando em uma religiosidade tão rígida e cerimonial, em termos gerais, que na vin­ da do Senhor a obstrução mais formidável à sua missão de graça foi o peso morto da exteriorização religiosa, do formalismo e da auto-retidão com que o judaísmo praticamente obscureceu as ver­ dades espirituais da Palavra de Deus. A Sinagoga O Velho Testamento não menciona uma vez sequer a palavra sinagoga, nem mesmo nos capítulos escritos por último; mas no momento em que começamos a ler, a partir dos quatro evangelhos, nós a encontramos em toda a parte. Uma sinagoga para cada locali­ dade ocupada da terra. Quando prosseguimos lendo os Atos dos Apóstolos, nós a encontramos semelhantemente estabelecidas em todo lugar entre as comunidades judaicas, através de todo o impé­ rio romano. Esse é um fato notável e deve ser observado por todo crente, pois foi da sinagoga e não do templo que a primeira Igreja Cristã, como organizada pelos apóstolos, extraiu a sua constituição e prin­ cipais formas de adoração. O Senhor evidentemente planejou pa­ ra que a sua igreja na terra assumisse a forma da sinagoga quando prometeu que estaria no meio dos discípulos sempre que dois ou três estivessem reunidos em seu nome e quando deu autoridade a tais grupos para exercerem disciplina (Mt 18:17-20). Além disso, os títulos dados aos oficiais da igreja cristã, i.e. “ Presbíteros” (presbuteroi), “ Bispos” (episkopoi), “ Diáconos” (diakonoi), vie­ ram todos da sinagoga, enquanto o título “ Sacerdote” (hierus) conforme seu uso no templo, não foi empregado sequer uma vez.
  34. 34. A sinagoga tem sido chamada de “ a instituição mais caracte­ rística e de maior e duradoura influência de todas as-instituições judaicas” . Quando, por que e como se originou? Os fatos parecem ser os seguintes: Não existia antes do Exí/io Primeiro, a sinagoga não existia antes do Exílio. Os rabi nos ju­ deus, em seu zelo de acentuar a reverência às instituições israelitas, exageraram excessivamente a antigüidade da sinagoga, fazendo-a retroceder aos dias de Abraão. Mas o fato incontestável é que a si­ nagoga, no sentido apropriado da palavra, como uma assembléia religiosa constituída regularmente com um objetivo definido e ofi­ ciais estabelecidos, jamais existiu antes do Exílio, nem qualquer outra coisa que se assemelhasse a ela. Pode ser dito que a palavra “ sinagoga” ocorre no Salmo 74:8, mas trata-se simplesmente de um caso de tradução. O termo he­ braico (mo’adah) em questão ocorre duzentas vezes no Velho Tes­ tamento, sendo esse o único lugar em que foi traduzido como “ si­ nagoga” . (Na versão de Almeida, em português, tanto a Revista e Corrigida como a Atualizada, o termo foi traduzido por “ lugares santos” ). O fato fala por si mesmo. A palavra em si refere-se às fes­ tas solenes ou épocas estabelecidas (estações do ano) no calendário religioso de Israel e, a seguir, por extensão, aos lugares onde eram observadas. Ela nada tem a ver com a idéia de sinagoga. O Salmo 74 foi escrito pouco depois dos babilônios terem devastado a ter­ ra e está, portanto, em sincronia com as Lamentações de Jeremias. Essa palavra ocorre nas Lamentações no capítulo 2.6, 7, 22 e basta apenas examinar as “ festas solenes” ou “ solenidades” men­ cionadas para concluir que não existe qualquer relação possível com a sinagoga. Além do mais, a mesma palavra aparece de novo com o Remanescente, depois da volta da Babilônia, em Esdras 3.5 e Neemias 10.33, onde outra vez é traduzida por “ festas fixas” e onde, obviamente, qualquer idéia de sinagoga é absolutamente es­ tranha. Em 2 Crônicas 17:7-9, é-nos dito que o rei Josafá teve de enviar alguns príncipes, levitas e sacerdotes, levando o livro da Lei com eles, a fim de ensinarem o povo em toda parte; e o capítulo 34:14-21 vemos a surpresa e alarme do rei Josias quando o livro da
  35. 35. Lei foi encontrado em seus dias (apenas 40 anos antes do Exílio), de modo que a sinagoga não poderia certamente ter existido antes do Exílio. Veio a existir logo depois do Exílio Todavia, é igualmente certo que a sinagoga passou a existir logo depois do Exílio. Em Atos 15:21 encontramos o apóstolo Tiago dizendo: “ Porque Moisés tem, em cada cidade desde tem­ pos antigos, os que pregam nas sinagogas, onde é lido todos os sá­ bados” . As sinagogas deveriam ter então, na época, várias cente­ nas de anos. De acordo com isto, em Neemias 8 (noventa anos de­ pois da volta do Remanescente) algo bastante parecido com a ado­ ração na sinagoga em seu estado plenamente desenvolvido nos confronta. Vemos ali o púlpito elevado de madeira, a leitura da Lei feita por Esdras e outros, a explicação da Lei pelos escribas, a oração e louvor em nome da congregação, com as respostas do povo, tudo sendo feito segundo o padrão usual da adoração na si­ nagoga. E, bastante significativamente, foi o próprio povo que pe­ diu “ a Esdras o escriba, que trouxesse o livro da lei de Moisés, que o Senhor tinha prescrito a Israel” . As narrativas sobre Esdras parecem certamente incluir um cenário em que a prática de reuniões organizadas e periódicas se havia tornado familiar (Ed 8:15; Ne 8:1, 2; 9:1). Portanto, parece clara a conclusão de que a sinagoga origi­ nou-se durante o Exílio, coincidindo com a notável conversão do povo judeu da idolatria e seu despertar para um novo e intenso in­ teresse pelas sagradas Escrituras. Com essa explosão do reaviva- mento religioso surgiu um clamor para conhecer mais aquelas ma­ ravilhosas Escrituras. As almas piedosas, impelidas por um impul­ so e anseio comuns, começaram então a reunir-se regular e sistema­ ticamente com o propósito de aprender o conteúdo dos rolos ins­ pirados. Não havia mais um templo judeu e eles se achavam em terra estranha, mas o seu cativeiro na Babilônia não impedia que se reunissem com propósitos religiosos. A exigência nova e urgente e a oportunidade davam-se as mãos. A necessidade era ainda maior porque todos, com exceção dos judeus mais velhos, estavam es­ quecendo a língua hebraica e fazendo uso da linguagem babilóni­ ca. Desse modo, reuniões regulares começariam a tomar forma vi­ sando a leitura e interpretação das Escrituras.
  36. 36. Foi assim que a sinagoga veio a existir e isso explica imediata­ mente porque havia tantas sinagogas entre os judeus da dispersão, como também no novo estado judeu que o Remanescente estabele­ ceu na Judéia. A sinagoga iria sem dúvida sofrer muitas modifica­ ções desde o fim do Exílio até os dias do Senhor (cerca de 500 anos), mas suas idéias e formas básicas permaneceram as mesmas. A Idéia Básica, O Método e As Características A idéia básica da sinagoga era a instrução nas Escrituras e não a adoração, embora um serviço litúrgico elaborado se desen­ volvesse mais tarde, com orações lidas em público por determina­ das pessoas e respostas dadas pela congregação. Como a leitura pública da Lei agora tinha de ser feita mediante tradução para a língua aramaica que o povo aprendera na Babilônia (veja Ne 8.8, onde tal tradução está implícita), a transição da tradução para a exposição e até para os discursos foi fácil, embora tivesse, sem dúvida, ocorrido gradualmente. Em referências como Mateus 4:23, 9:35; Lucas 4:15, 44; Atos 13:5, 15, 14:1; 17:10; 18:19, vemos que tais discursos na sinagoga eram comuns nos dias do Senhor. Esses versículos tam­ bém nos mostram que o direito de ensinar não era reservado so­ mente aos professores regularmente treinados e nomeados. O líder da congregação podia convidar qualquer pessoa adequada que es­ tivesse presente para dirigir-se ao povo; e qualquer um poderia oferecer-se para fazê-lo. Descobrimos assim que o Senhor, embo­ ra não tivesse cursado qualquer das escolas, podia pregar em toda parte e ensinar na sinagoga. Do mesmo modo, lemos em Atos 13:15: “ Depois da leitura da lei e dos profetas, os chefes da sina­ goga mandaram dizer-lhes: Irmãos, se tendes alguma palavra de exortação para o povo, dizei-a” . Quanto à sua constituição, a característica mais importan­ te da sinagoga era o fato de ser congregacional e não sacerdotal. Os sacerdotes eram sempre honrados quando presentes, mas não possuíam quaisquer privilégios especiais; desde que suas funções eram consideradas como pertencentes especificamente ao templo, onde o seu direito de desempenhá-las era hereditário. Os ocupan­ tes dos cargos na sinagoga não tinham direito hereditário, sendo nomeados pelo voto ou consentimento congregacional. Havia um
  37. 37. “ chefe (principal)” ou presidente e um conselho de anciãos tam­ bém chamados “ principais” (Mc 5:22; At 13:15). Tinham também um “ legado”, cujo dever era recitar as orações e “diáconos” que cuidavam das esmolas; assim como o chazzan, que chamava em voz alta os nomes dos leitores escolhidos e ficava ao lado deles para fazer com que as lições do dia fossem lidas e pronunciadas adequada­ mente, etc. Ele cuidava também dos rolos das Escrituras, soprava a trombeta que anunciava a aproximação do sábado santo, man­ dava acender as lâmpadas, supervisionava os utensílios do templo e aplicava os açoites nas ocasiões de castigo. (Ele é referido como “ assistente” em Lucas 4:20). Quanto à disciplina, a jurisdição da sinagoga tornou-se muito ampla, algo inevitável numa constituição em que a lei eclesiásti­ ca e civil era uma só, como acontecia entre os judeus após o exí­ lio. A sinagoga tornou-se e permaneceu como uma das institui­ ções judaicas mais características e influentes. Foi dito em verda­ de: “ Ela era o grande meio de instrução religiosa, o grande centro do pensamento religioso. Por mais superficial que possa ter sido a qualidade de seu ensino algumas vezes, às mãos dos instrutores re­ conhecidos de Israel; ao menos foi nela, e nela somente, que a Lei passou a ser lida publicamente, explicações foram dadas sobre a mesma, discursos livres pronunciados e estimulada a mente do po­ vo. A grande instituição da pregação — completamente desconhe­ cida do paganismo — surgiu na sinagoga; e o zelo pela Lei, que marcou Israel tão notavelmente a partir da volta da Babilônia e até a vinda de Cristo, foi alimentado e aumentado mais pelos seus arranjos do que por qualquer outro agente.”
  38. 38. o perío d o in t e r t e s t a m e n t á r io 111. ESCRIBAS, FARISEUS E SADUCEUS Lição n<?3
  39. 39. A história de Israel e todas as suas esperanças estavam ligadas à sua religião. Pode-se então dizer que sem a sua religião eles não teriam história e sem a história não teriam religião. Assim sendo, a história, o patriotismo, a religião e a esperança, tudo apontava para Jerusalém e o templo como centro da unidade de Israel. — A. Edersheim
  40. 40. ENTRE MALAQUIAS E MATEUS (3) (1) OS ESCRIBAS Quem e o que eram os “ escribas” , esses personagens pouco atraentes que aparecem com tanta freqüência nas narrativas do evangelho? O fato de serem uma classe influente fica eviden­ ciado e é necessário que os conheçamos um pouco, à medida que viajamos através do Novo Testamento. Lemos a respeito dos escribas nos tempos do Velho Testa­ mento, mas eles elevem ser distingüidos daquela outra ordem que se desenvolveu durante o período intertestamentário e adquirira uma posição importante nos dias do Senhor. Os escribas que encontramos nas narrativas do evangelho são uma classe de peritos profissionais na interpretação e aplicação da Lei e outras Escrituras do Velho Testamento. Se lhe dermos o seu nome hebraico, eram os sopherim (im é o plural em hebraico), do verbo hebraico saphar, que significa escrever, colocar em ordem, contar. No grego do Novo Testamento, seu título usual é o plural, grammateis, traduzido uniformemente como “ escribas”. Com me­ nor freqüência são chamados de “ intérprete da lei” (nomikoi), co­ mo em Lucas 7.30. A Origem como uma Classe Quanto à sua origem como classe, quase o mesmo que foi di­ to sobre a sinagoga também pode ser dito a respeito deles. Quais­
  41. 41. quer que tenham sido as funções e características dos escribas is­ raelitas nos tempos do Velho Testamento, e qualquer que tenha sido o tipo de associação de copistas patrocinado pelo rei Eze- quias cerca de um século antes do exílio babilónico, não pode haver dúvida de que a partir desse exílio desenvolveu-se uma nova linhagem de escribas que não era composta apenas de copis­ tas, registradores, transcritores, secretários, mas um novo grupo ou corpo de homens que se tornaram os guardiães, expositores, os doutores da Lei e de outras Escrituras, para toda a nação, e cujo poder como classe aumentou com a passagem do tempo. Eles não eram apenas escribas no sentido antigo, mas “os escri­ bas” como uma ordem especialmente distinta na nação. A transição deveu-se a cinco fatores: (1) a conversão do po­ vo judeu na metade do exílio, saindo da idolatria para uma nova e ardente fé em sua religião e na Escritura; (2) a necessidade de pro­ fessores especiais, sentida então pelos exilados, devido à separa­ ção de sua pátria, da capital e do templo; (3) a mudança do hebrai­ co, como linguagem falada, para o aramaico, exigindo uma nova espécie de especialista no estudo e exposição das sagradas Escri­ turas; (4) o aparecimento e difusão da sinagoga durante e depois do exílio na Babilônia; (5) a interrupção da viva voz da profecia, com Malaquias, e o acentuado interesse na palavra escrita da ins­ piração i.e., as Escrituras, provocado por esse fato. Não é difícil ver como esta nova ordem de escribas, uma vez introduzida, obteve rapidamente grande poder. A própria nature­ za do judaísmo tornou tal coisa praticamente inevitável, pois al­ guém observou com acerto, “O alvo e tendência do judaísmo era tornar cada judeu pessoalmente responsável pelo cumprimento de toda a Lei” ; e portanto uma “ regra definitiva” precisava ser de alguma forma extraída da Lei para cobrir praticamente toda ativi­ dade da vida diária. Este empenho em fazer da Lei um código tão detalhado, criou um problema complexo e por vezes agudo. De um outro modo a Lei precisava ser normativa mesmo em circuns­ tâncias em que não tivesse aplicação específica; e quando um re­ quisito parecia ser contrariado por outro, alguma harmonia oculta ou outra explicação adequada tinha de ser descoberta. Como acres­ centa o Dr. John Skinner: “Manter-se fiel à aliança de Deus em tais condições tornou-se uma séria dificuldade teórica, vencida ape­ nas pelos esforços contínuos de um grupo de peritos treinados,
  42. 42. que fizeram do estudo da Lei o alvo de suas vidas” . O que isto veio a significar numa sociedade em que a lei civil e religiosa era uma só pode ser facilmente imaginado. Podemos dizer que a nova ordem de escribas originou-se com o grande Esdras, embora este não possa ser associado às elaboradas deturpações que se desenvolveram mais tarde. Em 458 a.C., cerca de 80 anos depois do remanescente judeu ter deixado a Babilônia para voltar a estabelecer-se na Judéia, Esdras seguiu para lá com seu contingente menor, de duas mil e poucas pessoas. Ele é descri­ to com ênfase acentuada como “ escriba versado na lei de Moisés” e “ escriba das palavras dos mandamentos e dos estatutos do Se­ nhor sobre Israel” (Ed 7.6, 11). Mesmo no decreto de Artaxerxes ele é chamado de “ escriba da lei do Deus dos céus” (Ed 7.21). Fi­ ca claro que com Esdras o cargo de escriba alcançou uma nova dignidade. Em Neemias 8.1-8, vemos Esdras em um púlpito ele­ vado, lendo, expondo e aplicando a Lei e, juntamente com auxi­ liares levitas, dando explicações “ de maneira que entendessem (o povo) o que se lia” (agora que o hebraico não era mais a lín­ gua falada por eles). A partir dessa época desenvolveu-se gradual­ mente uma classe de especialistas que dedicou-se às Escrituras he­ braicas e procurou aplicá-las como uma norma para tudo, até mes­ mo nos detalhes. Eles sem dúvida prestaram inicialmente um gran­ de serviço; enquanto a voz viva da profecia continuou, diante da qual toda Israel se curvava, a subordinação deles preservou sua utilidade. Desvio Subseqüente Nas palavras do falecido Dr. William Milligan: “ Só depois de cessada a inspiração profética do período e de completado o câ­ non, é que devemos observar a degeneração de seu espírito e o au­ mento do seu poder. Em meio às múltiplas influências estranhas que, desde essa época até o início da era cristã, estavam sempre ameaçando a existência de tudo o que era mais característico do povo escolhido, a Lei precisava ser preservada com o maior zelo possível. Ela tinha de ser ao mesmo tempo estudada e seus pre­ ceitos aplicados às circunstâncias em contínua mutação da vida e condição do povo. Esta aplicação da Lei, porém, não era feita esclarecendo o seu espírito, mas através de prescrições positivas
  43. 43. — prescrições que apenas professavam explicá-la e, fazendo isto de maneira concisa, sentenciosa e autoritária, nada deixando ao julgamento dos ouvintes, não podiam deixar de investir as regras assim dadas com uma autoridade quase comparável à dos próprios escritos inspirados... Assim sendo, foi praticamente impossível evi­ tar o que veio a constituir os dois princípios fundamentais dos es­ cribas: primeiro, a multiplicação das tradições orais; e, segundo, a introdução de um sistema de interpretação e exposição das Es­ crituras que destruiu completamente o seu significado e, sob a pre­ tensão de honrá-las, na realidade usurpou seu lugar” . No curso do tempo este corpo de tradição oral transmitida sempre crescente passou aser considerado como superando até mes­ mo a Lei em si. ‘Passo a passo os escribas foram levados a conclu­ sões que, segundo acreditamos, teriam horrorizado os primeiros representantes da ordem. As decisões sobre novos assuntos foram acumuladas em um complexo sistema de casuísmo. Os novos pre­ ceitos, ainda transmitidos oralmente, adequando-se mais precisa­ mente às circunstâncias humanas do que os antigos, passaram pra­ ticamente a substitui-los. A relação correta entre a lei moral e ce­ rimonial não foi só esquecida, mas absolutamente invertida.” O estudo das Escrituras em si tornou-se uma obsessão para com as minúcias, uma concentração em significados supostamente ocultos até nas sílabas e letras, uma absorção na simples “ letra” da Pala­ vra, até que a idolatria da letra destruísse a própria reverência em que ela tivera origem e a verdadeira instrução espiritual acabou por extingüir-se praticamente. Não é de se admirar que o povo ficasse surpreendido com o contraste entre os ensinos diretos de Jesus e o dos escribas (Mt 7.28, 29); nem é de surpreender que nosso Senhor condenasse essa super-veneração da “ tradição dos ho­ mens” (Mc 7.7, 8), ou que os escribas, decididos a manter sua po­ sição, se opusessem determinadamente ao Senhor e seus ensinos. Algumas Distinções Necessárias Os escribas devem ser cuidadosamente distinguidos dos sa­ cerdotes. Talvez possa parecer estranho que a ocupação de expor e aplicar as Escrituras não se identificasse desde o início com o sacerdócio em Israel, mas isso, na verdade, não é estranho. A fun­ ção do sacerdote estava ligada inteiramente com as cerimônias ofi­
  44. 44. ciais e deveres da adoração do templo. Como é natural, o indiví­ duo podia ser sacerdote e mesmo assim dedicar seu tempo livre ao estudo da Lei e demais Escrituras, tornando-se assim tanto sacer­ dote como escriba (como aconteceu com o renomado Esdras: veja Ed 7.1-11), e sem dúvida muitos sacerdotes fizeram isso: mas as duas atividades sempre foram reconhecidas como completamen­ te distintas. Várias vezes nos evangelhos encontramos os escribas e sacerdotes reunidos, indicando estarem cônscios da relação íntima no sistema religioso único. Não obstante isto, porém, as funções de ambos eram separadas. A maioria dos primeiros escri­ bas eram homens leigos que, através do estudo concentrado, ha­ viam adquirido conhecimento das Escrituras e da Lei Oral, segun­ do os padrões exigidos; mais tarde, entretanto, em muitos casos, foi feito um curso na escola de algum rabino em Jerusalém. Os escribas deveriam ser também distingüidos dos fariseus. Repetidas vezes nos evangelhos eles são mencionados em conjunto com os fariseus (Mt 5:20; 12:38; 15:1; 23:2; Mc 2:16; Lc 5:21, 30, etc.), mas embora isto revele afinidade não implica em identi­ dade. Os fariseus constituíam um partido eclesiástico, unido pelos seus objetivos e pontos de vista peculiares, enquanto os escribas compunham um grupo de peritos no sentido escolástico ou aca­ dêmico. O indivíduo poderia ser certamente tanto um fariseu co­ mo escriba: e o fato que praticamente todos os escribas eram fari­ seus em sua perspectiva e associação, daí serem eles tantas vezes mencionados juntamente com os fariseus; as duas fraternidades no entanto diferiam. Os escribas não podiam ser considerados co­ mo uma espécie de seção do partido farisaico: eles eram indepen­ dentes e são mencionados separadamente em vários pontos (Mt 7.29; 17:10; Mc 9:11, 14, 16, etc.). O homem poderia mesmo ser as três coisas — sacerdote, fariseu e escriba — todavia essas três liga­ ções abrangiam áreas distintas de sua vida: a primeira relacionada com a ocupação diária, a segunda com a convicção religiosa, a ter­ ceira com a vocação especial. Do mesmo modo, ele poderia ser sa­ cerdote, escriba e saduceu, embora não haja evidência clara de que qualquer escriba fosse saduceu, cuja situação seja talvez devi­ da à atitude racionalista do partido saduceu. Não podemos nomear e descrever aqui as várias partes que compunham a chamada Lei Oral e que eventualmente (no segundo século A.D.) foram fixadas em forma escrita. Iremos referir-nos a
  45. 45. isso num adendo sobre o Talmude judaico. Havia muito de verdade na acusação de haver muita corrup­ ção por trás da santidade exterior dos escribas e o Senhor denun­ ciou-a severamente (Mt 23:13-28). Todavia, não deve ser suposto que todos os escribas agissem desse modo. Os nomes de homens como Nicodemos, Gamaliel e o renomado Hillel provam o contrá­ rio. O Senhor disse certa vez a um escriba anônimo: “ Não estás longe do reino de Deus” . Foi dito com verdade, porém, que geral­ mente “ constituíam uma casta marcada não só pelo pior tipo de farisaísmo, mas também pelo mais alto grau do mesmo. A tendên­ cia geral de seu espírito e instruções, como consta em todos os re­ gistros do Talmude nesse aspecto, era exatamente o oposto do evangelho de Cristo. Daí a severidade das censuras do Senhor e a justiça das maldições que Ele pronunciou contra os mesmos”. (2) OS FARISEUS Por mais que nos desagradem as características dos fariseus como apresentados nas narrativas do evangelho, não podemos dei­ xar de sentir que coletivamente tratava-se de uma seita poderosa e extraordinária. O Senhor disse essas coisas a respeito deles e pa­ ra eles; e sua forte oposição teve consecjüências tão fatais que deve­ mos saber quem eram e o que eram. Sua origem como um movimento pode ser comparada a um rio que corre debaixo da terra por algum tempo antes de surgir à superfície e continuar correndo visivelmente daí por diante. O espírito e atitudes típicos do farisaísmo já estavam presentes nos judeus do pós-exílio antes que o grupo tomasse sua forma históri­ ca sob o nome de “ fariseus”. Fatores Causais: (1 )0 Separatismo Baseado na Lei Para a protogênese do movimento farisaico, devemos repor­ tar-nos ao início do período intertestamentário. Quando o Rema­ nescente voltou à Judéia depois do Exílio, seu objetivo era recons­ truir a comunidade judaica repatriada como uma nação dedicada ao Senhor, separada de todas as outras pela mais escrupulosa ob­ servância da sua lei. A integração desta idéia na nova organização
  46. 46. social e através dela mostrou-se muito mais problemática na prá­ tica do que na teoria e surgiram inúmeras dificuldades; mas o ideal não desapareceu, especialmente entre os mais piedosos. Como dissemos, quando Esdras e seu novo “ remanescente” de cerca de duas mil pessoas chegou a Jerusalém oitenta anos de­ pois do grupo principal ter-se estabelecido ali, ele encabeçou uma reforma que já se fizera necessária — em que o primeiro ideal de separação tornou-se novamente supremo. Por consentimento co­ mum foram dissolvidos todos os casamentos mistos e corrigidas outras irregularidades. Numa reunião coletiva e através de acordo escrito, o livro da Lei foi aclamado como o padrão aceito tanto pelo estado como pelo indivíduo. A separação para o Senhor era o ideal dominante. Fatores Causais: (2) A Influência Crescente do Sumo Sacerdote A partir dessa épocà (aprox. 458-445 a.C.), durante o perío­ do comparativamente calmo da soberania persa (536-333 a.C.), a importância e prestígio do sumo sacerdócio cresceram cada vez mais. Isso não é de surpreender. Por manter, como direito de he­ rança, o supremo ofício sagrado num estado onde não havia rei senão Deus, era certo que exerceria uma influência especial desde o início. A autoridade sagrada e civil fundiu-se cada vez mais na figura única até que, em lugar de nomear governadores civis se­ parados, o governo persa concedeu ao sumo sacerdote judeu a completa responsabilidade por toda a administração civil e cobran­ ça de impostos para a Pérsia. Houve também outros aspectos que não surpreendem tanto, sendo a natureza humana como é. O sumo sacerdócio tornou-se um cargo ambicionado por eclesiásticos que pensavam mais em suas vantagens políticas do que em suas responsabilidades espiri­ tuais. Não é também de se admirar que isto tivesse levado mais tarde à falta de escrúpulos, criminalidade e degradação do cargo, que veio a prejudicar o curso da história da nação. Seria igualmen­ te de se esperar que contra esse estado de coisas surgisse um mo­ vimento acentuadamente rígido, defendendo a estrita obediência d Lei nacional dada por Deus e aos primeiros ideais do judaísmo.
  47. 47. Fatores Causais: (3) O Aparecimento de Dois Grupos Opostos Os primeiros sinais dos dois principais grupos opostos na na­ ção são encontrados bem cedo no período intertestamentário. O Dr. Skinner diz: “ Logo no início surgiram duas classes governan­ tes na Judéia, cada uma aspirando à influência suprema segundo seus moldes — os sacerdotes com base em sua posição oficial e os escribas na autoridade da Lei. “ Vale a pena notar que de todos os círculos da sociedade ju­ daica, as fileiras superiores do sacerdócio foram as menos influen­ ciadas pelo espírito teocrático, as mais suscetíveis às influências estrangeiras e as mais prontas em momentos de tentação a aban­ donarem os princípios fundamentais de sua religião... Os escribas, pelo contrário, foram os zelosos campeões da integridade da Lei e defensores de tudo o que era característico do judaísmo. Eles fo­ ram a vida e a alma da resistência popular ao paganismo, que trans­ portou a nação com segurança através dos perigos do período gre­ go, apesar da apostasia dos principais sacerdotes.” No decorrer do período persa (536-333 a.C.), foi através dos escribas que “ os grandes princípios da santidade por meio de sepa­ ração se gravaram profundamente na consciência da comunidade e o caráter judeu adquiriu gradualmente a austera exclusividade e devoção às formas externas da religião que desde então desperta­ ram a antipatia do mundo gentio” . Não havia possibilidade de transpor a brecha aberta entre o grupo de sacerdotes e o dos escribas. Ela se alargou cada vez mais até cristalizar-se em dois grupos distintos, os “ saduceus” e os “ fa­ riseus”, sempre em oposição. Características Históricas: (1) A Primeira Menção pelo Nome Assim, tendo em mente esta idéia das duas atitudes, grupos e tendências opostas no pequeno estado judeu, viajemos em pen­ samento para além do período persa, atravessando o período gre­ go (333-323 a.C.); ao egípcio, quando a Palestina fazia parte do império dos Ptolomeus (323-204 a.C.), do sírio (204-165 a.C.) e entremos no período macabeu (165-63 a.C.). Depois da heróica resistência dos macabeus (165-135 a.C.) e devido à decadência do poder sírio, o estado judeu obteve um curto período de independência (depois de quatro séculos e meio
  48. 48. de sujeição a outros poderes). Isto se deu entre 135 a.C. e 63 a.C., data da conquista romana. João Hircano tornou-se sumo sacerdo­ te e embora jamais assumisse o título de rei, reinou como tal, dan­ do começo àquilo que foi chamada de dinastia hasmoneana. (“ Has- moneu” era o nome de família herdado por Matatias, pai de Ju­ das Macabeu e seus irmãos, e avô de João Hircano). Este João Hircano recapturou a maior parte do território que pertencera muito antes a Israel. Nenhum rei judeu dominara uma área tão vasta desde a separação das dez tribos após a morte do rei Salomão. E nos dias de João Hircano que vemos também a primei­ ra aparição em cena dos fariseus, já com esse nome, como um mo­ vimento histórico. * Como dissemos, os fariseus representam e dão continuidade àquela subdivisão dos líderes e do povo judeu para quem a leal­ dade à Lei e à religião de Jeová, assim como a dedicação aos pri­ meiros ideais do judaísmo representava tudo; porém, se não se po­ de deixar de presumir que a essa altura uma quantidade considerá­ vel de lei oral se acumulara, com múltiplas observâncias religiosas externas. Mais imediatamente, os fariseus eram os sucessores espi­ rituais dos Hasidim, i.e., “Os Piedosos”, que trinta ou quarenta anos antes, se haviam agrupado em uma liga secreta a fim de pre­ servar a fé judaica quando o enlouquecido Antíoco Epifânio pro­ curava exterminá-la mediante terríveis atrocidades. Esses Hasidim viviam de modo tão rígido e literal “ segundo a Lei” que muitos preferiam morrer do que levantar a mão para defender-se no sába­ do santo. Quando Judas Macabeu começou sua luta de libertação, os Hasidim se uniram a ele em grande número. São esses, então, os antecedentes e surgimento histórico dos fariseus. O nome fariseu significa “ Separatistas” ; e não é imprová­ vel que seus inimigos lhes tenham assim chamado por causa de sua exclusividade piedosa, mas orgulhosa e por vezes mesquinha. Eles prefeririam ter-se mantido à distância dos assuntos políticos, mas as questões religiosas estavam sendo sempre envolvidas, o que os levou a um partidarismo ardente. A separação era o aspecto predo­ minante e a principal virtude no conceito fariseu de religião. Alia­ do a este achava-se a obediência fanática à letra da Lei.
  49. 49. Características Históricas: (2) As Tendências Inevitáveis Era inevitável que os fariseus tivessem muitos pontos em co­ mum com os escribas, os especialistas na Lei Escrita e na sempre crescente Lei Oral. De fato, como mencionamos antes, a maior parte dos escribas por vocação seria farisaica por convicção. Tan­ to para os escribas como para os fariseus, a separação e a santida­ de pelo cumprimento estrito da lei escrita e oral, era o objetivo supremo. Por outro lado, uma propensão infeliz dos fariseus era um desprezo beato pelo povo comum que não tinha a menor possibili­ dade, e sabia disso, de vir a cumprir um dia os requisitos comple­ xos do código dos escribas. Uma outra armadilha era sua facilidade em cair na hipocrisia. A princípio se esforçavam solenemente para desempenharem to­ dos os deveres prescritos pelos escribas; a seguir, fracassando nisto, satisfaziam-se na simples obediência exterior, na correção externa apenas ocultando-se atrás de uma máscara de piedade enquanto pecavam; até que, finalmente, habituando-se a essa atitude, tolera­ vam o pecado e o praticavam, tornando-se assim nos piores tipos de hipócritas. A massa do povo desistiu completamente de tentar, resig­ nando-se à posição de infelizes pecadores. Eles, porém, continua­ vam admirando os fariseus como representantes de algo que, de alguma forma, deveria ser alcançado, embora estes os desprezas­ sem. A situação se encontrava assim nos dias do Senhor na terra. Características Históricas: (3) Outros Aspectos Notáveis Mesmo assim não podemos, com justiça, deixar as coisas nesse ponto. O movimento dos fariseus incluia, sem dúvida, mui­ tas almas sinceras e dedicadas, apesar de sua má orientação. Além disso, foram homens como eles que mantiveram viva e atuante a esperança messiânica no período intertestamentário em Israel, pre­ gando a esperança da ressurreição do corpo para os fiéis quando o Messias introduzisse o seu reino. Em seu livro Antigüidades dos Judeus (Livro XVII), Josefo nos conta que os fariseus nos dias de Herodes eram cerca de seis mil. Talvez nunca tenham chegado a ser um grupo muito grande numericamente, mas sua influência em proporção ao seu número
  50. 50. era enorme. Seu poder sobre a opinião popular era tanta que ne­ nhum governante podia desconsiderá-los. Durante o período intertestamentário, descobrimos diversas vezes que os fariseus foram o fator determinante nas lutas para al­ cançar o poder. No reinado de Alexandre Janus (filho de João Hir­ cano) foram os fariseus que incitaram o povo a uma guerra civil contra o rei e os saduceus, obrigando o rei a fugir. Eles também li­ deraram uma outra insurreição no reinado de Aristóbulo II (neto de Hircano). Os oitenta anos de independência sob a dinastia dos hasmoneus (macabeus), somados aos ensinamentos dos fariseus, pro­ vocaram a reação violenta dos judeus quando a idéia tornou-se parte do império romano. Basta ler os quatro evangelhos para verificar a tendência de­ les nos dias em que o Senhor estava na terra — e sua influência em promover a crucificação dEle. OS SADUCEUS O fato de concedermos menos espaço aos saduceus não sig­ nifica que fossem menos importantes, mas simplesmente porque já discutimos em relação aos fariseus os fatores que deram origem aos dois grupos divergentes e não precisamos mais abordar esse as­ sunto. Os dois movimentos já se apresentavam em estado embrio­ nário nas primeiras demonstrações de inimizade entre os sacerdo­ tes e escribas. Eles não puderam desenvolver-se entre os judeus após o exí­ lio, enquanto havia profetas inspirados, representando a teocracia em sua forma mais nobre. Mas no período intertestamentário, quando a voz da profecia morrera, as tendências opostas cresce­ ram até que, eventualmente, pouco depois da revolta dos maca­ beus, elas emergiram sob o nome de “ fariseus” e “ saduceus” . Parece certo que o título “ saduceus” vem de “ zadoquitas” ; mas se “ zadoquitas” é derivado de “filhos de Zadoque” , que reti­ veram o sumo sacerdócio a partir de Zadoque no reinado de Davi (2 Sm 8:17, etc.) até a época dos macabeus, ou de um certo Zado­ que que viveu cerca do ano 250 a.C., ou ainda de uma palavra he­ braica significando “justo”, não tem sido fácil determinar. E mais provável que derive dessa càsa sacerdotal de Zadoque de longa da-
  51. 51. ta. Numa época posterior, em meio ao período de exílio, Ezequiel cita os “ filhos de Zadoque” como representando todo o sacerdó­ cio (40:46; 43:19; 44:15; 48:11). O que seria então mais razoável, quando o sumo sacerdócio passou para a casa dos hasmoneus de­ pois da vitória dos macabeus, do que o grupo de sacerdotes judeus, ansioso por reter o prestígio e as vantagens de tão venerada tradi­ ção em prol de seus alvos e práticas, enfatizar de um novo modo que, embora apoiassem lealmente o sacerdócio hasmoneu, conti­ nuavam sendo na verdade “os zadoquitas"? O fato de ter-se aberto tão cedo uma brecha entre saceçâo^K tes e escribas na era intertestamentária parece realmente depois de Esdras ter combinado em si mesmo as dtfM^smoes (Ed 7:6, 12). Não havia causa constitucional. O^á&çmtòcimento surgiu de tendências anteriores. Como diss^oá^aaoe+arteocráti- ca e a esperança messiânica representavgjr^ÉíyV^wmos escribas; enquanto os sacerdotes parecem ter-^Nv^ih^ktô^os aspectos oficiais e terrenos do sumo sacerdócio, á(mmfaa que cada vez mais reunia em si mesmo a liderança^pífíSaKe-fíolítica da nação. Mais tarde, quando o im j^ iqts^ Alexandre difundiu a lin­ guagem e cultura gregas atrave^fejodo o mundo civilizado e hou­ ve um conflito entre o iodíNsmVe o helenismo, foram os sacerdo­ tes que transigir , . ,uartto a influência dos escribas tornou-se a espinha dorsal dOx' to de resistência que eventualmente afastou a n^ã^efç&â^vozes sedutoras e rochedos fatais. Muit^Emjt^sHio desaparecimento de Alexandre e seu im- lilfh tfai ’ grega continuou a espalhar-se entre as nações, ao redor da Judéia tinham sido uma presa fácil. O peri- itável, à medida que os judeus entravam em contato vários refinamentos, liberdade de pensamento e prazeres ptuosos dessas comunidades de vida grega. O grupo aristocrá- associado aos sacerdotes era sempre o que mostrava propensão para negligenciar o judaísmo em favor das liberdades gregas: este foi o grupo que mais tarde tomou o nome de saduceus. O Professor Skinner nos dá uma descrição curta e viva de seus aspectos característicos no seguinte parágrafo: “Os saduceus, à primeira vista, não parecem ter sido uma seita religiosa ou um par­ tido político, mas um grupo social. Em questão de número o seu grupo era bem menor que o dos fariseus e pertenciam na maior parte às ricas e poderosas famílias dos sacerdotes que formavam

×