Examinai as Escrituras - Juizes a Ester

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Examinai as Escrituras - Juizes a Ester

  1. 1. J . Sidlow B a x t e r examinai as escrituras J u í z e s a E s t e r
  2. 2. examinai as escrituras* Através de um estudo sistemático e progressivo, o Dr. Baxter "examina" a Palavra de D eus num a série de lições básicas e amplamente interpretativas, abrangendo desde o Livro de Juizes até Ester. Este livro não é um comentário versículo por versículo, nem é também um a série de análises e esboços. Antes, é um completo panoram a dos eventos, lugares e pessoas que compõem a história narrada de Juizes a Ester. Pastores, seminaristas, professores e estudantes da Bíblia em geral irão en co n trar aq u i um a riq u eza de m aterial p a ra mensagens, lições e estudos particulares. Ninguém poderá term inar esta série de lições e continuar a mesma pessoa. Todo estudante receberá um benefício vitalício e será infinitam ente abençoado com estes estudos práticos e envolventes. J. Sidlow Baxter é um australiano de Sydney, tendo crescido na Inglaterra. Ele não é som ente um pregador de habilidade esp an to sa; an tes de tu d o , é um p ro fe sso r de cap acid ad e comprovada por milhares de pessoas que já tiveram oportunidade de ouvi-lo. R ecebeu o g rau de D o u to r em T eologia pelo Seminário Batista Central, em Toronto, no Canadá.
  3. 3. J. S i d l o w B a x t e r T r a c I u ç ã o d E N E y d S i Q U E i R A SOCIEDADE RELIGIOSA EDIÇÕES VJDA NOVA Caixa Postal 21.486 • 04698-970 São Paul o-SP
  4. 4. Título do original em inglês: EXPLORE THE BOOK Copyright © J. Sidlow Baxter Revisões: Lucy Yamakami e Valéria Fontana C oordenação editorial: Robinson M alkom es C oordenação de produção: Eber Cocareli Primeira edição em português: fevereiro de 1993 Publicado no Brasil com a devida autorização e cc’m todos os direitos reservados por SOCIEDADE RELIGIOSA EDIÇÕES VIDA N O V A Caixa Postal 21486 - 04698-970 São Paulo-SP
  5. 5. CONTEÚDO PREFÁCIO DO A U T O R .................................................................... 7 PREFÁCIO À EDIÇÃO EM PO RTU G U ÊS.................................... 9 O LIVRO DOS JU ÍZ E S ....................................................................... 1-1 Lições 24 e 25 O LIVRO DE R U T E ............................................................................. 29 Lições 26 e 27 O PRIMEIRO LIVRO DE SA M U E L ............................................... 47 Lições 28 e 29 O SEGUNDO LIVRO DE S A M U E L ............................................... 67 Lições 30 e 31 O PRIMEIRO LIVRO DOS R E IS ..................................................... 89 Lições 32 a 34 O SEGUNDO LIVRO DOS R E IS ............................................ .. 12l Lições 35 a 39 OS LIVROS DAS CRÔ N ICA S...........................................................169 Lições 40 e 41 O LIVRO DE E S D R A S .......................................................................197 Lições 42 a 44 O LIVRO DE N E E M IA S ....................................................................231 Lições 45 a 47 O LIVRO DE E S T E R ..........................................................................263 Lições 48 a 50
  6. 6. PREFÁCIO q u a s e todas as seções compreendidas neste curso bíblico foram aprensentadas em minhas palestras bíblicas das noites de terça-feira na Capela Charlotte de Edimburgo, justificando assim sua forma em tom de conversa, em certas partes. Não são ensaios escritos, mas foram palestras preparadas para serem proferidas em público, e julguei mais acertado deixá-las em seu molde original, acreditando que há certas vantagens práticas nisso. Peço que sejam tolerantes neste aspecto, especialmente se os olhos exigentes de algum conhecedor ou diletante literário passarem sobre elas em sua forma impressa agora estabelecida. Além do mais, em vista de estes estudos terem sido preparados sem intenção de serem publicados mais tarde, tomei em várias partes a liberdade permitida a um pregador, mas não a um escritor, apropriando-me dos escritos de outros. Só espero que minha admiração não me tenha levado a aproximar-me demais da ameaçadora fronteira do plágio. Se isso aconteceu, sinto-me aliviado com a certeza de que só pode ter sido em relação a autores que não estão mais conosco. Minha gratidão jamais será excessiva para com os caros John Kitto, de tempos idos (e, para muitos, obsoleto), John Urquhart, A. T. Pierson, Sir Robert Anderson, G. Campbell Morgan e outros da mesma tradição evangélica. Todos eles foram mestres em seus dias e a seu próprio modo. A todos eles, e a essa incomparável obra composta, o Pulpit Commentary (“Comentário de Púlpito”), devo minha gratidão permanente e presto minha homenagem. Entretanto, no todo, este curso bíblico é basicamente resultado de meu estudo pessoal, e aceito de bom grado a responsabilidade por ele, crendo que dá verdadeira honra à Bíblia como a Palavra de Deus inspirada, em cada uma de suas partes. Que Deus possa empregá-lo graciosamente em um ministério útil para muitos que vivem e trabalham na seara de seu amado Filho, nosso Senhor e Salvador. J. S. B.
  7. 7. PREFÁCIO À EDIÇÃO EM PORTUGUÊS A obra aqui intitulada E X A M IN A I AS E SC R ITU R A S é a segunda parte de uma coleção de seis volumes (dos quaisjá foram publicados o primeiro do Antigo Testamento e os dois do Novo). Esta coleção surgiu em decorrên­ cia do desejo do Pastor J. Sidlow Baxter de oferecer, com lições atraentes e práticas, um conhecimento bíblico básico aos membros da Capela Charlotte, em Edimburgo, na Escócia. O autor teve a feliz idéia de preparar seus estudos de um modo completo para os membros daquela igreja, começando com Gênesis e terminando em Apocalipse, sem escrever apenas mais um comentário. O autor lança um alicerce agradável e seguro para aquele que deseja apresentar-se como obreiro (ou membro da igreja) “que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade” (2 Tm 2.15). Neste volume, o Pastor Baxter discorre sobre temas palpitantes contidos de Juizes a Ester. Ele apresenta uma abordagem bastante prática, com várias aplicações espirituais dos eventos, lugares e pessoas que compõem a história narrada por estes livros. Destaque deve ser dado ao estudo dos tipos e antítipos que se encontra praticamente em todas as lições deste volume. Às vezes, Baxter alegoriza o texto bíblico, isto é, aparentemente confere um significado a um trecho ou história bíblica que o autor original não tinha em mente nem podia ter. Nós preferiríamos que ele tivesse deixado bem claro que os textos em pauta “ilustram” verdades, mas não “significam” tais verdades. Podem-se criar analogias e comparações entre fatos bíblicos e realidades teológicas sem ultrapassar o verdadeiro significado do texto original. O Pr. Baxter escreveu estes estudos antes do Concílio Vaticano II. Naquele tempo, a postura da Igreja Católica Romana era de hostilidade e exclusivismo. Muito mudou de lá para cá; portanto, o prezado leitor precisa levar isto em conta. Em lições sempre práticas e bastante assimiláveis, Baxter oferece incontáveis informações muito iluminadoras àqueles que têm pouco mais do que uma lembrança das histórias narradas nesta porção histórica da Bíblia. Temos convicção de que a popularidade gozada por esta obra em inglês será a mesma que se verificará na sua edição em português. Dentro de pouco tempo, Edições Vida Nova estará colocando à disposição do
  8. 8. público leitor os últimos dois volumes desta série, que se relacionam com o Antigo Testamento. Os editores
  9. 9. O LIVRO DOS JUÍZES (1) Lição NQ24
  10. 10. NO TA: Para este estudo, leia Juizes por inteiro, preferivelmente de uma só vez. A Bíblia é o mapa da história. Ela fornece uma visão panorâmica de todo o curso de eventos, desde a criação e queda do homem até o juízo final, com o início dos novos céus e da nova terra. Ela não nos apresenta apenas os acontecimentos, mas também seu caráter moral, mostrando os motivos das várias personagens da peça e o resultado de seus atos. Os eventos são mostrados em relação às suas causas e efeitos, sendo revelado o juízo de Deus sobre seu caráter. Sem a Bíblia, a história seria um espetáculo de rios desconhecidos, correndo de nascentes desconhecidas para mares igualmente desconhecidos. Mas, sob sua orientação, podemos rastrear as correntes complexas até seus mananciais e distinguir o fim desde o começo. D R . H . G R A TT O N G U IN N ESS
  11. 11. O LIVRO DOS JUÍZES (1) C O M O SE R IA BO M se pudéssemos apagar dos registros da história de Israel os vários feitos sombrios e os tristes acontecimentos que formam a maior parte deste sétimo livro do cânon! Lamentavelmente, porém, o pecado de Israel está incrustado em sua história, e mesmo que a nação se arrependa amargamente, ainda assim sua iniqüidade permanece marcada aqui para sempre, podendo ser vista por todos. O Senhor diz, muito tempo depois, através do profeta Jeremias: “Eu vos introduzi numa terra fértil, para que comêsseis o seu fruto e o seu bem; mas depois de terdes entrado nela, vós a contaminastes, e da minha herança fizestes abominação” (Jr 2.7). Como não podemos suprimir esse trágico registro, aprendamos dele; pois, embora seja um patético anticlímax do Livro de Josué, trata-se de um dos livros mais ricos das Escrituras, por suas lições e seus exemplos edificantes. O nome Evidentemente, o Livro dos Juizes deve seu nome ao próprio conteúdo, dedicado ao período dos chamados “juizes” de Israel e a alguns desses juizes em particular. Podemos dizer que abrange aproximadamente os primeiros 350 anos da história de Israel em Canaã. Este é o período do regime teocrático, em que o próprio Senhor é o “Rei invisível” de Israel. Os períodos de 400 anos da história de Israel são dignos de nota; observemo-los: Desde o nascimento de Abrão até a morte de José no Egito (o período familiar) cerca de 400 anos Desde a morte de José até o êxodo do Egito (o período tribal) cerca de 400 anos Desde o Êxodo até Saul, o primeiro rei (o período teocrático) cerca de 400 anos Desde Saul até Zedequias e o exílio (o período monárquico) cerca de 400 anos
  12. 12. O período dos juizes encontra-se no terceiro desses períodos de 400 anos, ou seja, o teocrático. A teocracia foi uma gloriosa experiência com possibilidades superlativas; e o fracasso de Israel é mais trágico ainda. Diz o Dr. Joseph Angus com relação aos juizes como uma classe: “Os juizes (shophetim) aqui descritos não constituíram uma sucessão regular de governadores, mas sim libertadores ocasionais levantados por Deus a fim de salvar Israel da opressão e ministrarjustiça. Sem assumir a condição de autoridade real, eles agiam como vice-reis do Senhor, o Rei invisível. O poder exercido por eles parece ter sido comparável ao dos sufetes de Cartago e Tiro, ou ao dos arcontes de Atenas. O governo do povo pode ser descrito como uma confederação republicana, com os anciãos e princípes tendo autoridade sobre as suas próprias tribos”. Natureza e autoria É evidente que os registros que nos foram preservados neste Livro dos Juizes são verdadeiros em termos históricos, embora não pretendam manifestamente constituir uma história científica do período de que tratam, pois a primeira característica de uma história científica é o cuidado com a cronologia — sem dúvida algo que falta ao Livro dos Juizes. Sua ênfase está no significado espiritual dos eventos escolhidos e não na simples continuidade cronológica. O que temos é uma coleção de narrativas escolhidas por causa de sua relação com o objetivo principal do livro. Esta seleção deliberada explica por que se ocupou tanto espaço com os episódios ligados a Débora, Gideão, Abimeleque e o deslize vergonhoso de Benjamin, enquanto longos períodos deixaram de ser mencionados. Isto explica também o estranho silêncio a respeito dos sumos sacerdotes no corpo do livro e certas outras peculiaridades. Ou seja, este Livro dos Juizes não se preocupa tanto em formar uma corrente histórica, mas em destacar uma lição vital, a qual será mencionada a seguir. A autoria do livro é desconhecida, embora a tradição judaica o atribua a Samuel. “Há pouca dúvida de que a maior parte do livro consiste dos registros contemporâneos originais das diferentes tribos. Os detalhes minuciosos e descritivos das narrativas, o cântico de Débora, a história de Jotão, a mensagem de Jefté ao rei de Amom, a descrição exata do grande parlamento em Mispa e muitas outras porções semelhantes devem ser
  13. 13. documentos contemporâneos.” Todavia, ao mesmo tempo é evidente que esses documentos originais foram editados e compilados posteriormente. Fica claro em 18.31 e 20.27 que a compilação teve lugar depois que a arca foi removida de Silo. Pela repetição da frase “naqueles dias não havia rei em Israel” (17.6; 18.1; 19.1; 21.25), concluímos que a organização foi feita depois do início do reino de Saul, o primeiro rei. Todavia, a menção dos jebuseus habitando em Jerusalém “até ao dia de hoje” (1.21), torna igualmente claro que tal compilação se deu antes da ascensão de Davi ao trono (que expulsou os jebuseus de sua fortaleza — 1 Cr 11.5). O que poderia então ser mais provável do que a mão de Samuel, que liga os períodos dos juizes e dos reis, ter participado em grande parte da obra que chegou até nós? A referência em 18.30 a um “cativeiro do povo” levou alguns estudiosos a argumentarem que o livro não foi compilado antes da deportação das dez tribos, centenas de anos depois; mas os outros registros de tempo no livro combinam-se contra essa idéia. As palavras evidentemente indicam uma das primeiras servidões no período dos juizes, ainda viva na memória do povo. Assim, os documentos originais do livro são praticamente con­ temporâneos aos eventos registrados, e sua compilação na forma atual data de algum ponto no reinado de Saul, tendo sido feita — muito provavelmente — pelo grande israelita Samuel. Nas palavras do Dr. Ellicott: “A subordinação de todos os incidentes da história à prática de inculcar lições definidas mostra que o livro, na sua forma atual, foi compilado por uma única pessoa”. O retrato de Israel “O caráter moral dos israelitas, como descrito neste livro, parece ter se deteriorado muito”,escreve o Dr. Angus. “A geração dos contemporâneos de Josué mostrou-se corajosa, fiel e, em grande parte, livre da fraqueza e da obstinação que haviam desonrado seus pais (Jz 2.7). Agora, o primeiro ardor deles havia esfriado um pouco e, mais de uma vez, caíram num estado de indiferença que Josué achou necessário censurar. À medida que cada tribo recebia a sua parte, seus integrantes iam se envolvendo de tal forma no cultivo da terra e apreciando cada vez mais o conforto em lugar
  14. 14. da guerra que cadavez menos mostravam disposição para ajudar o restante do povo. Outra geração surgiu. Vivendo entre idólatras, os israelitas copiaram o seu exemplo, casaram-se com eles e contaminaram-se com as suas abominações (2.13; 3.6). Os antigos habitantes que não foram molestados reuniram forças para atacar a raça escolhida: as nações e tribos vizinhas, tais como os sírios, filisteus, moabitas e midianitas, apro­ veitaram-se de sua degeneração para avançar sobre eles. Enquanto isso, a licenciosidade, o conforto e a idolatria, que os hebreus estavam aceitando, prejudicavam seus poderes de defesa.” O significado geral Os juizes levantados por Deus eram lições práticas vivas, através dos quais Deus procurou preservar em Israel a idéia de que a fé no Senhor, o único Deus verdadeiro, era o caminho exclusivo para a vitória e o bem-estar. Mas o povo só correspondia na medida em que isso servia ao propósito egoísta do momento —livrar-se do cativeiro e obter proveitos materiais. Eles não passaram a amar mais ao Senhor por Sua paciência constante; nem ao menos passaram a servi-lO num plano inferior, por um senso de dever. Em termos gerais, o Deus de seus pais não passava de um recurso conveniente em tempos de dificuldade. Quando as coisas estavam razoavelmente confortáveis, a traição descarada ao Senhor era a ordem do dia. O povo irritava-se sob as exigências disciplinares do chamado superior feito por Deus a Israel, através de Abraão e Moisés. Eles negligenciavam o livro da aliança e desviavam-se rapidamente, praticando o que era impuro e proibido. De tempos em tempos, com pena de Seu povo humilhado e sofredor, Deus levantou esses homens, os juizes, cujas façanhas de livramento em resposta à fé demonstrada para com Ele — apesar das vulgaridades e imperfeições de caráter e de comportamento dos próprios juizes —eram tão manifestamente milagrosas que Israel foi forçado a reconhêce-lO novamente como o Deus verdadeiro, sendo assim encorajado a voltar à sua primeira fé e ao seu primeiro amor. Todavia, essas intervenções graciosas não tinham um efeito duradouro, e a obstinação inicial de Israel transformou-se em um endurecimento incurável. Lamentavelmente, isso é muito para os primeiros 350 anos de Israel em Canaã! Eis um patético anticlímax para o Livro de Josué.
  15. 15. A lição central Qual a razão desse desvio trágico? A resposta a esta pergunta constitui o propósito maior que domina o Livro dos Juizes. Seu objetivo era expor a causa e o curso da decadência e da ruína de Israel, de modo a estimular a consciência nacional a que se voltasse arrependida para o Senhor; não é difícil imaginar que aquele grande patriota, Samuel, compilou este livro com tal fim em vista. O plano do livro, mencionado abaixo, não nos deixa em dúvida quanto à sua lição central, ou seja: O FRACASSO DEVIDO À TRANSIGÊNCIA Cada página do livro contribui para enfatizar esta verdade central. As proezas dos juizes ensinam, naturalmente, que a volta à fé verdadeira proporciona uma vitória renovada; todavia, justamente ao ensinar isto, acentuam a dura realidade central de que todo fracasso se deve à transigência. Como tudo começou? Bem, no primeiro capítulo ficamos sabendo que. as nove tribos e meia que se estabeleceram em Canaã não destruíram, nem sequer expulsaram, as nações dos cananeus, como Deus ordenara, permitindo que ficassem. As outras duas tribos e meia —Rúben, Gade e metade da tribo de Manassés lamentavelmente já haviam transigido, ao preferirem se estabelecer em Gileade, a leste do Jordão. O primeiro capítulo de Juizes oferece-nos uma lista de oito conquistas incompletas de Judá, Benjamim, Manassés, Efraim, Zebulom, Aser, Naftali e Dá. As outras duas tribos, Issacar e Simeão, não foram mencionadas, mas supõe-se que seu comportamento tenha sido igual ao dos outros. Se dominarmos o mal de maneira incompleta no início, teremos constantes problemas com ele mais tarde e, em geral, acabaremos derrotados por ele no fim. Isso aconteceu com Israel. E vem acontecendo com outros. Devemos precaver-nos! Não é bom cutucar onça com vara curta! É insensato abafar o pecado com panos quentes! A ordem divina para Israel foi severa, mas necessária. A nação acolheu o inimigo e viveu para arrepender-se disso. A seguir, no segundo e terceiro capítulos, contemplamos o desen­ volvimento de outra concessão. Depois de ter dominado apenas par­ cialmente os cananeus, Israel fez então uma aliança com eles (2.2) —algo
  16. 16. que Deus havia proibido. O próximo passo foi aceitar casamentos com eles (3.6) —o que Deus também havia proibido. Após os casamentos mistos, Israel passa a imitar seus costumes, curva-se a seus ídolos, esquece o Senhor e serve a Baal e Astarote (2.13; 3.6). Marque bem esses estágios — domínio incompleto, alianças militares, casamentos mistos, idolatria e completa apostasia — seguidos do humilhante cativeiro (2.14; etc.). Os juizes, misericordiosamente levantados para chamar Israel de volta e livrar a nação, impediam sua ruína por algum tempo, mas esta voltava pior do que antes, no momento em que a sepultura silenciava a voz de cada juiz. Lemos em 2.18,19: “Quando o Senhor lhes suscitavajuizes, era com ojuiz, e os livrava das mãos dos seus inimigos, todos os dias daquele juiz; porquanto o Senhor se compadecia deles ante os seus gemidos, por causa dos que os apertavam e oprimiam. Sucedia, porém, que, falecendo o juiz, reincidiam e se tornavam piores do que seus pais, seguindo após outros deuses, servindo-os, e adorando-os eles; nada deixavam das suas obras, nem da obstinação dos seus caminhos”. Esta é então a história trágica do Livro dos Juizes —fracasso devido à transigência. Faça com que essas palavras fiquem gravadas em sua mente e destruam qualquer tolerância negligente de tudo o que for impuro ou suspeito. Não poderemos gozar do repouso prometido por Deus durante muito tempo, se permitirmos que pecados apenas parcialmente destruídos fiquem conosco. Se nos associarmos às coisas suspeitas por parecerem inocentes, logo nos veremos de novo ligados aos desejos da carne e cairemos das alturas às quais Deus nos levantou. Fracasso devido à transigência! Se Israel pelo menos tivesse atendido à mensagem deste livro!Queira Deus que a igreja transigente de hoje jamais o desconsiderei A palavra de Deus a Seu povo hoje continua sendo a de 2 Coríntios 6.17, 18: “PO R ISSO, R ET IR A I-V O S D O M EIO D E L E S, SE PA R A I-V O S, D IZ O SEN H O R ; N Ã O TO Q U E IS E M C O U SA S IM PURAS; E E U VO S R EC EBE R EI, SE R E I VOSSO PAI, E VÓS SEREIS P A R A M IM FILH OS E FILH AS, D IZ O SE N H O R T O D O -PO D E R O SO ”.
  17. 17. O LIVRO DOS JUÍZES (2) Lição NQ25
  18. 18. NOTA: Releia todo o Livro dos Juizes, marcando em sua parte principal (do capítulo 3 ao 16) as seis servidões iniciadas com as palavras: “Os filhos de Israel fizeram o que era mau perante o Senhor”. Esta é então a estrutura básica de Juizes: O LIVRO DOS JUÍZES O LIVRO DA DECADÊNCIA O FRACASSO DEVIDO À TRANSIGÊNCIA PR Ó LO G O EXPLICATIVO - 1-2 NARRATIVA PRINCIPAL - 3-16 Apostasia Servidão Libertador 3.5-8 Ao rei da Mesopotâmia, 8 anos Otniel (3.9-11) 3.12-14 Ao rei de Moabe, Eúde (3.15-30) 18 anos (e Sangar, 31) 4.1-3 Ao rei de Canaã, Débora (4.4-5.31) 20 anos (e Baraque) 6.1-10 Aos midianitas, 7 anos Gideão (6.11-8.35) 10.6-18 Aos filisteus etc., 18 anos Jefté (11.1-12.7) 13.1 Aos filisteus, 40 anos Sansão (13.2-16.31) EPÍLOGO ILUSTRATIVO - 17-21
  19. 19. O LIVRO DOS JUÍZES (2) A disposição o p l a n o ordenado deste livro serve por si para defender com bastante firmeza a idéia de sua compilação por apenas uma pessoa e não várias. Os registros de Juizes vão do capítulo 3 ao 16, e são esses capítulos que formam o corpo do livro. Os outros consistem de um prólogo (1-2) e um epílogo (17-21). O prólogo é uma explicação, enquanto o epílogo é uma ilustração. O prólogo explica como surgiram as condições lamentáveis do período. O epílogo ilustra as próprias condições. Desse modo, temos: Prólogo explicativo (1-2) Parte principal do livro (3-16) Epílogo ilustrativo (17-21) Com relação à parte principal do livro (3-16), não há possibilidade de engano quanto à sua disposição. Doze juizes são citados sucessivamente: Otniel, Eúde, Sangar, Débora (com Baraque), Gideão, Tola, Jair, Jefté, Ibsã, Elom, Abdom e Sansão. Seis deles se destacam mais —pois toda a história concentra-se em seis apostasias e períodos de cativeiro de Israel e nos seis libertadores ou juizes que conseguiram libertar o povo. São eles: Otniel, Eúde, Débora, Gideão, Jefté e Sansão. As seisprincipais apostasias são assinaladas em cada caso pelas palavras: “Osfilhos de Israelfizeram o que era mau perante o Senhor”. Elas ocorrem no corpo do livro apenas essas seis vezes, e em cada caso sobrevêm o juízo com a conseqüente servidão. O fato de esses seis períodos de servidão de Israel serem considerados como procedentes do próprio Senhor é motivo de surpresa. Primeiro: “Então a ira do Senhor se acendeu contra Israel, e ELE os entregou nas mãos de Cusã-Risataim, rei da Mesopotâmia” (3.8). Segundo: “... o SE N H O R deu poder a Eglom, rei dos moabitas, contra Israel” (3.12). Terceiro: “Entregou-os o SE N H O R nas mãos de Jabim, rei de Canaã” (4.2). Quarto: “... o SE N H O R o s entregou nas mãos dos midianitas por sete anos”
  20. 20. (6.1). Quinto: “Acendeu-se a ira do Senhor contra Israel, e (o S E N H O R ) entregou-os nas mãos dos filisteus” (10.7). Sexto: "... (o SE N H O R ) os entregou nas mãos dos filisteus por quarenta anos” (13.1). Os cativeiros de Israel não foram simples acidentes, mas castigos. Este é um ponto a ser seriamente considerado. Deus pode conferir privilégios especiais a certas pessoas e nações, mas Ele não faz acepção de pessoas no sentido de mostrar indulgência para com os favoritos. Os que pecam contra os privilégios especiais têm maiores responsabilidades e incorrem empenas mais severas. Deus talvez conceda muitos privilégios, masjamais dá o privilégio depecar. Devemos tomar cuidado para que um sentimento de privilégio não engane nosso coração e nos leve a incorrer no pecado da presunção. Lendo este Livro dos Juizes, é possível que nos surpreendamos ao ver como um padrão de vida inferior podia associar-se a um chamado tão elevado. Sim — chamado superior e vida inferior. O presidente de uma convenção disse certa vez: “É possível ter boa moral sem ser espiritual; e é até possível ser espiritual sem ter boa moral!” Um paradoxo? Impossível? Todavia, não entramos em contato com pessoas que, tendo conhecimento das verdades mais profundas e elevadas da vida cristã, são capazes de conversar livremente num tom bastante espiritual, mas que, mesmo assim, apresentam um comportamento que faria o não-cristão comum se afastar com repugnância? O conhecimento pode facilmente gerar insensibilidade, e esta pode ser hipocritamente ocultada com um manto exterior de aparente espiritualidade. Devemos vigiar e orar, para não cairmos também nós nesta tentação. Uma ênfase notável é mantida A narrativa principal de Juizes é notável por causa de uma ênfase interessante, de quatro aspectos, que é mantida de ponta a ponta. Cada uma das seis apostasias, servidões e libertações está disposta nesta ordem de quatro itens: PEC A D O SO FRIM ENTO SÚ PL IC A SA LV A Ç Ã O
  21. 21. Isto pode ser visto de modo fácil e claro, se dispusermos os seis episódios em colunas paralelas, com as palavras e a ordem da narrativa bíblica. Para nós será valioso gravar essa seqüência quádrupla em nossas mentes, pois ela tem uma excelente aplicação hoje. E possível que, em relação a Israel, o longo período de pecado e sofrimento esteja agora terminando, e a súplica e a salvação do fim dos séculos, que foram profetizadas, estejam próximas. Os seis episódios Primeiro 3.7-11 Segundo 3.12-30 Terceiro 4.1-5.31 PECADO “Os filhos de Israel fizeram o que era mau perante o Senhor, e se esqueceram do Senhor seu Deus; e renderam culto aos Baalins e ao poste-ídolo...” “Tornaram, então, os filhos de Israel a fazer o que era mau perante o Senhor...” “Os filhos de Israel tornaram a fazer o que era m au p eran te o S en h or, d ep ois de falecer Eúde...” SOFRIMENTO “Então a ira do Senhor se acen d eu contra Israel, e ele os entregou nas m ãos de Cusã-Risataim, rei da M esop otam ia: e os filhos de Israel serviram a Cusã-Risataim oito anos...” “... mas o Senhor deu poder a Eglom, rei dos moabitas, contra Israel; porquanto fizeram o que era mau perante o S en h or. E ajuntou consigo os filhos de A m om e os amalequitas, e foi, e feriu a Israel; ap od eraram -se da cidade das palmeiras. E os filh os de Israel serviram a Eglom, rei dos moabitas, dezoito anos...” “Entregou-os o Senhor nas mãos de Jabim, rei de Canaã, que reinava em Hazor. Sísera era o com andante do seu exército, o qual então habitava em Harosete-Hagoim...” SÚPLICA “Clamaram ao Senhor os filhos de Israel...” “E ntão os filhos de Israel clam aram ao Senhor...” “Clamaram os filhos de Israel ao Senhor, porquanto Jabim tinha novecentos carros de ferro, e por vinte anos oprimia duramente os filhos de Israel...”
  22. 22. SALVAÇÃO e o Senhor lhes suscitou libertador, que os libertou: a Otniel, filho de Quenaz, que era irmao de Calebe, e mais novo do que ele” etc. "... e o Senhor lhes suscitou libertador, Eúde, homem canhoto, filh o de Gera, benjamita” etc. “D éb ora, p rofetisa, mulher de Lapidote, julgava a Israel naquele tempo... Mandou ela chamara Baraque, filho de Abinoão” etc. Quarto 6.1-8.35 Quinto 10.6-12.7 Sexto 13.1-16.31 PECADO “Fizeram os filhos de Israel o que era mau perante o Senhor...” “Tornaram os filhos de Israel a fazer o que era mau perante o Senhor, e serviram aos Baalins, e a A starote, e aos deuses da Síria, e aos de Sidom, de Moabe, dos filhos de Amom e dos filisteus; deixaram o S en h or, e não o serviram...” “Tendo os filhos de Israel tornado a fazer o que era mau perante o Senhor...” SOFRIMENTO "... por isso o Senhor os entregou nas mãos dos m idianitas por sete anos...” “Acendeu-se a ira do Senhor contra Israel, e entregou-os nas mãos dos filisteus, e nas mãos dos filhos de Amom...” “este (o Senhor) os entregou nas mãos dos filisteus por quarenta anos...” SÚPLICA “... entâo os filhos de Israel clam avam ao Senhor. Tendo os filhos de Israel clamado ao Senhor, por causa dos midianitas...” “Então os filhos de Israel clam aram ao Senhor, dizendo: Con­ tra ti havemos pecado, porque deixam os a nosso Deus, e servimos aos Baalins... livra-nos ainda esta vez, te rogamos...” Não há registro de sú­ plica, — evidentemente porque haviam dito, corho último recurso: “Livra-nos ainda esta vez, te rogamos” (veja coluna anterior). SALVAÇÃO “Então veio o Anjo do Senhor, e assentou-se debaixo do carvalho, que está em Ofra, que p erten cia a Joás, abiezrita; e Gideão, seu filho, estava malhando o trigo no lagar, para o pôr a salvo dos m idianitas. E ntão o Anjo do Senhor lhe apareceu (a Gideão), e lhe disse” etc. “Então o Espírito do Senhor veio sobre Jefté; e atravessando este por Gileade e Manassés, passou até Mispa de Gileade e de Mispa de Gileade contra os filhos de A m om ... A ssim foram subjugados os filhos de Amom diante dos filhos de Israel” etc. “Apareceu o Anjo do Senhor... e lhe disse... e ele (Sansão) começará a livrara Israel do poder dos filisteus...” (Segue-se o relato de Sansão e suas proezas.)
  23. 23. Esta ênfase repetida irá, por si mesma, atuar na mente do leitor. Possamos ler, marcar, aprender e digerir interiormente. Existem coisas no reino moral que se acham indissoluvelmente ligadas. O pecado e o sofrimento sempre andam juntos. Não podem ser separados. Seria tão bom se os corações humanos se convencessem disso! É também verdade que a súplica e a salvação igualmente estão ligadas. Deus Se enternecerá com uma súplica sincera em que o mal é abandonado. Ele mostrará então Sua salvação. GIDEÃO - E COMO ELE AINDA FALA Alguns dos personagens descritos neste Livro dos Juizes são dignos de um cuidadoso estudo. Escolhemos Gideão para ser mencionado brevemente aqui, a fim de mostrar como essas pessoas nos falam hoje. Gideão, o quinto juiz de Israel, é relatado com justiça como um dos heróis de destaque na história primitiva da nação. Entretanto, temos de compreender desde o início que seu heroísmo não era produto de um caráter natural, mas sim resultado de uma experiência espiritual transformadora. É isso que o torna importante para nossos dias. O primeiro contato com Gideão mostra uma figura patética de incredulidade (6.11-23). Ele se apresenta como um jovem furtivo e nervoso, malhando trigo no lagar a fim de escondê-lo dos saqueadores midianitas. Que trágicas exclamações de incredulidade escapam de seus lábios quando o Senhor aparece repentinamente em toda Sua majestade! — pois a leitura do versículo 12 é sem dúvida esta: “O Senhor é contigo, o Senhor Todo-poderoso”, e não aquela que chama Gideão de valente, em lugar do Senhor (como acontece na A R A ). Veja as reações do Gideão ainda não convertido. No versículo 13, ele fala ofegante: “Ai, senhor meu, se o Senhor é conosco, por que nos sobreveio tudo isto? e que é feito de todas as suas maravilhas que nossos pais nos contaram, dizendo: Não nos fez o Senhor subir do Egito? Porém, agora o Senhor nos desamparou...” Uma recepção desanimada: “Ai... por que? ...onde? ... mas ...” E no versículo 14 temos: “Então se virou o Senhor para ele, e disse: Vai nessa tua força, e livra a Israel da mão dos midianitas; porventura não te enviei eu?” Essas foram palavras fortes e cheias de segurança, mas Gideão só conseguiu gemer: “Ai, Senhor meu, com que livrarei a Israel?” O Senhor responde de novo: “Já que eu estou contigo, ferirás os midianitas como se
  24. 24. fossem um só homem”. Até isto, porém, só desperta um trêmulo “se”: “Se agora achei mercê diante dos teus olhos, dá-me um sinal”. Nas respostas de Gideão temos certamente uma boa amostra do vocabulário da incredulidade. Em suas exclamações e lamentos sucessivos vemos a surpresa cética da descrença, a seguir sua incerteza e sua indagação, sua queixa e suafalsa humildade, suafalta de recursos, sua dúvidapersistente e sua busca de sinais. O Gideão não convertido é uma triste representação da paralisia que sempre acompanha a falta de fé. Gideão transformado Veja agora, porém, a experiência transformadora de Gideão. Em primeiro lugar, ele foi convertido. Usamos a palavra com ponderação. Quando o “Anjo do Senhor” estava para completar sua visita a ele, Gideão estava plenamente convicto quanto ao verdadeiro Deus de Israel. Note o versículo 24: “Então Gideão edificou ali um altar ao Senhor, e lhe chamou, o Senhor épaz”. O significado do altar é vital, pois ele é sempre o lugar em que Deus e o homem se encontram. Trata-se do símbolo externo de um pacto interno entre a alma humana e Deus. Quando Gideão construiu o altar para o Senhor, ele voltou as costas aos falsos deuses e tornou-se um adorador do Deus verdadeiro. Além disso, Gideão deu ao altar um nome significativo: “o Senhor é paz” (Jehovah-Shalom). Pela primeira vez em sua vida este jovem hebreu teve uma sensação de paz, que é sempre um primeiro produto da verdadeira conversão. Gideão, contudo, seguiu adiante. Ele se tornou consagrado. Rendeu sua vontade à do Senhor. Leia do versículo 25 ao 27. Precisamos retroceder um pouco nos acontecimentos para apreciar como essa prova foi um grande desafio à nova fé e obediência de Gideão. A ordem para “derribar o altar de Baal” faz-nos lembrar imediatamente de que Gideão vivia numa época de completa apostasia religiosa. Os líderes religiosos de Israel eram “modernistas” e haviam feito o povo se desviar. “Derribar o altar de Baal” era ir contra a vontade popular, arriscando a própria vida. Mas Gideão passou no teste, e como o resultado foi notável! Leia de novo do versículo 28 ao 32. O pai de Gideão também se converteu! O velho homem talvez tivesse suspirado secretamente, saudoso do “passado”, ansiando pelo aparecimento de um valente batalhador que viesse em defesa da fé
  25. 25. legítima e chamasse seus compatriotas de volta ao Senhor. Agora, quando seu filho se levantou para lutar pela fé, Joás imediatamente aliou-se a ele. Podemos aplicar isso a nós mesmos. Quase sempre, a razão pela qual temos tão pouca capacidade para influenciar os que nos rodeiam, levando-os a Cristo, é que não estamos preparados para assumir uma plena consagração à vontade de Deus. Finalmente Gideão tornou-se controlado, ou seja, controlado pelo Espírito de Deus. Veja o versículo 34: “Então o Espírito do Senhor revestiu a Gideão, o qual tocou a rebate, e os abiezritas se ajuntaram após dele”. Ele se tornou imediatamente líder e salvador de seu povo. Este reconheceu nele o poder transformador de Deus e o seguiu quando fez soar sua trombeta. A história registrada na Bíblia conta a maravilhosa vitória de Gideão sobre os midianítas e de como ele libertou Israel do jugo estrangeiro. Que transformação! O homem que fora primeiro convertido e depois se tomara consagrado estava sendo agora controlado pelo Espírito Santo. O versículo 34 é notável. Uma tradução apropriada seria assim: “O Espírito do Senhor revestiu Gideão dEle mesmo”. A personalidade de Gideão, por assim dizer, tornou-se um traje com o qual Deus se movia entre os homens. Que sermão este homem é para nós! É como Abel, que, “mesmo depois de morto, ainda fala” (Hb 11.4). Esta experiência de salvação da alma e transformação davida e do caráter, pela qual ele passou, pode ser conhecida por nós —não em seus incidentes exteriores, mas em sua essência interior. Podemos nos tornar verdadeiramente convertidos a Deus, realmente consagrados à Sua vontade e controlados pelo Seu Espírito Santo. Deus pode nos tomar e usar como fez com Gideão. Convertido, consagrado, controlado pelo Espírito! Deus permita que isto se aplique a nós! Precisamos desviar os olhos das circunstâncias que provocam dúvidas e fixá-los na palavra de Deus. “Fiel é o que vos chama, o qual também o fará” (1 Ts 5.24). A dúvida vê os obstáculos, A fé divisa o caminho. A dúvida vê a noite sombria, A fé vê o dia. A dúvida teme adiantar-se, A fé se eleva sublime. A dúvida murmura: “Quem crê?” A fé responde: “Eu”.
  26. 26. O LIVRO DE RUTE (1) Lição NQ26
  27. 27. NOTA: Para este estudo, leia todo o Livro de Rute de uma só vez. Esta é uma das maiores recompensas de se conhecer verdadeiramente as Escrituras. Nenhum outro livro mostra-se uma mina de tesouros preciosos tão inesgotáveis para aqueles que se dispõem a aprofundar-se nele. É um campo para infinitos estudos e incessantes descobertas. O crente mais humilde pode encontrar um tesouro jamais desenterrado por outrem; é algo, então, especialmente seu. Nenhuma prova mais indiscutível da origem divina da Bíblia pode ser encontrada do que esta capacidade de revelar a cada leitor devoto algo absolutamente novo. A R T H U R T. PIERSO N, D .D .
  28. 28. O LIVRO DE RUTE (1) F R E Q Ü E N T E M E N T E encontram-se gemas de valor incalculável em lugares inusitados. Muitas flores raras já se abriram numa fenda rochosa. Arco-íris artísticos iluminam repentinamente os céus mais cinzentos. Vistas belíssimas podem aparecer numa curva de estrada pouco promissora, encantando o viajante. O mesmo acontece com o Livro de Rute, um pequeno mas brilhante e soberbo idílio. Ele começa com as palavras: “Nos dias em que julgavam os juizes...”. Assim, é evidente que a história pertence ao período abrangido pelo Livro dos Juizes — uma época trágica, como já vimos. Todavia, este episódio, centrado em Noemi, Rute e Boaz, é tão tocante e belo que surge como um contraste redentor depois de nossa penosa leitura do Livro dos Juizes. É uma história encantadora e inesperada em tal cenário. O Livro dos Juizes deixa-nos com a certeza indiscutível de que a condição geral da época era de deterioração moral; mas o Livro de Rute focaliza outro aspecto do quadro, mostrando que em meio à corrupção generalizada havia exemplos de amor nobre, cortesia piedosa e ideais elevados. Esta história é realmente uma estrela brilhante num céu escuro, uma rosa se abrindo gloriosamente no deserto árido, uma jóia de grande pureza faiscando entre ruínas, um sopro de brisa perfumada em meio à esterilidade circundante. Mas ele é muito mais do que isso. Se este exemplo de cortesia piedosa foi escolhido pelo autor anônimo e registrado por escrito (talvez por causa de sua ligação especial com Davi e o trono), não podemos supor de forma lógica que representa muitos outros casos entre a decadência que reinava na época, os quais jamais foram relatados e sobre os quais nada sabemos? Há um fundo de verdade na seguinte declaração de Alexander Maclaren: “Os períodos mais negros não foram na realidade tão sombrios como parecem na história”. Este curto trecho biográfico é apresentado em forma de história. Trata-se de uma série de idílios pastorais ou bicos-de-pena feitos sobre um cenário rural, mostrando a nobre dedicação de uma jovem viúva moabitapor sua sograjudia, também viúva, e a recompensa que mais tarde coroou sua devoção e auto-sacrifício.
  29. 29. O relato é verdadeiro. A simplicidade transparente confirma sua autenticidade. Este livro fala de acontecimentos e pessoas reais, cujos nomes figuram de fato em registros genealógicos. Diz o Dr. James Morison: “O material da história é de tal natureza que, se não fosse autêntico, sua falsidade seria imediatamente percebida e desmascarada. A essência da história consiste, por assim dizer, de filamentos de grande sensibilidade. Ela estava ligada à genealogia da família real, sendo que os principais personagens eram ancestrais do rei Davi. O fato de haver um elo moabita na cadeia de sua genealogia deve ter sido muito conhecido pelo próprio rei, por toda sua casa e por grande parte do povo de Israel em geral. Provavelmente, sabia-se também que este elo moabita não se achava muito longe na linhagem real. A existência de tal ligação constituía uma peculiaridade importante demais para ser tratada com indiferença. Não podemos duvidar de que toda a história desse caso fosse narrada com freqüência e comentada tanto na corte como fora dela. Portanto, é naturalmente lógico que o escritor tivesse cuidado em não deturpar os fatos. Qualquer inclusão de detalhes fictícios ou romanceados teria sido rejeitada imediatamente tanto pela família real como pelo povo, os dedicados admiradores do rei”. JfCaracterísticas especiais Este é um dos dois livros das Escrituras que levarti o nome de uma mulher; o outro é Ester. Há um grande contraste entre ambos. Rule_éoima jovem gentia levada p arav iv p j p.ntrp. ns hphreus, que sp rasa comum judeu Ha Knhage.m rpal de Davi. Ester é uma jovem judia levada para viver entre gentios, que se casa com um gentio, rei de um grande império. Tanto Rute como Ester foram mulheres boas e importantes. O Livro de Rute, porém, destaca-se num ponto: trata-se do único caso na Bíblia em que um livro inteiro é dedicado a uma mulher. O Livro de Rute é uma história de amor. Um de seus objetivos é sem dúvida exaltar o amor virtuoso e mostrar como ele pode transpor todas as dificuldades e preconceitos. O notável, porém, é que não se trata do amor romântico entre um rapaz e uma moça, mas sim, nas palavras do Dr. Samuel Cox, “é a história do amor de uma mulher por outra; e por mais estranho que possa parecer aos ouvidos da geração moderna, é o relato do
  30. 30. intenso e dedicado amor de uma jovem esposa por sua sogra!” Outro aspecto interessante da obra é a universalidade de suaperspectiva. As três figuras principais do livro são Noemi, Rute e Boaz. Todos são personagens adoráveis; todavia, de alguma forma, sem absolutamente diminuir os outros dois, Rute se sobressai, e a cada reviravolta da história o autor enfatiza habilmente que ela é a heroína, mesmo não sendo israelita como Noemi e Boaz. Quando pensamos na exclusividade zelosa dos judeus da antigüidade, é notável encontrar esta descrição sincera de uma mulher moabita como alvo de admiração. Ela é vista sobrepujando até as filhas de Israel, mas disto não resulta o menor ressentimento e, sim, uma admiração merecida. O fato de a graça e a virtude da bondosa filha de Moabe terem tido um reconhecimento assim tão franco é evidenciado pelo próprio autor. A história inteira é escrita num espírito de caridade e universalidade. “Ela é justa e até generosa ao falar dos que estavam fora das fronteiras israelitas. Não contém qualquer censura a Elimeleque, apesar de ele ter deixado a terra de seus pais para viver entre os pagãos; nem a Orfa, embora tivesse deixado a Noemi. Pelo contrário, registra sua bondade e dedicação em pelo menos pretender ficar com a ‘mãe’, até que Noemi a dissuadiu dessa intenção. Para Rute, entretanto, os louvores se acumulam. O relato baseia-se na verdade de que Cristo tornou-se patrimônio comum da raça, ou seja, de que em qualquer nação Deus aceita um amor puro e desprendido. Em vez de confirmar o privilégio exclusivo do povo escolhido, Ele convida outra raças a se aproximarem e depositarem sua confiança sob as asas do Senhor, mostrando que, no momento em que confiam nEle, os privilégios e bênçãos de Israel passam a pertencer-lhes também.” Da mesma forma, é surpreendente observar que essa jovem moabita, Rute, não só fez um casamento tão respeitável em Israel como também se tornou a bisavó de Davi (como mostram os versículos finai§]_e uma das mães na linhagem da qual o Messias viria a nascer. Rute é uma das quatro mulheres mencionadas na linhagem messiânica. As outras três são: Tamar, Raabe e Bate-Seba. Elas retratam uma conduta indigna, mas a virtuosa Rute as redime. Um exame cuidadoso da genealogia a partir de Adão até o nascimento de Jesus mostra que houve cerca de 60 gerações, e que estas parecem dividir-se em seis grupos de dez, com o décimo homem em cada caso representando de forma singular alguma grande verdade relativa à vinda
  31. 31. do Messias. Vejamos o primeiro grupo de dez: Jerede Enoque Metusalém Lameque N O É Adão Sete Enos Cainã Maalaleel Noé é o décimo homem. Da mesma forma como Satanás procurara fazer abortar a esperança messiânica, justamente no início da história da humanidade, com o assassinato de Abel, agora, nos dias de Noé, ele tenta frustrá-la, promovendo uma corrupção completa e geral da raça. Em meio à depravação, porém, existe um homem que anda com Deus e é íntegro entre os seus contemporâneos (Gn 6.9); quando toda a humanidade é destruída, esse homem e sua família são poupados, e justamente através dele corre a linhagem messiânica. Todo o poder de Satanás e todo o pecado dos homens não podem frustrar o plano do Senhor Deus. Vejamos agora os próximos dez: Sem Reú Arfaxade Serugue Salá Naor Héber Terá Pelegue A B R A Ã O Abraão é o décimo homem aqui. Ele foi o escolhido para tornar-se o pai do povo da aliança, do qual o Messias seria descendente. Deus revela-Se especialmente a ele e faz promessas incondicionais, confirmadas mais tarde com um juramento. Examinemos agora o terceiro grupo de dez: Isaque Rão Jacó Aminadabe Judá Naassom Perez Salmom Hezrom B O A Z
  32. 32. Boaz é o décimo homem aqui. O que sabemos sobre ele? É justamente isso que nosso pequeno mas precioso Livro de Rute nos conta (não estaríamos agora chegando a um dos significados mais profundos deste livro?). Foi Boaz quem introduziu a Rute., uma gentia, entre os ancestrais de Davi e na linhagem messiânica.No momento em que Rute entrou nessa linhagem, ela levou consigo todos os gentios (de modo representativo), de forma que agora ambos, judeus e gentios, partilham da esperança comum na vinda daquele que seria a “luz para revelação aos gentios, e para glória do teu povo de Israel”. (O outro “décimo” homem será mencionado mais tarde.) Rute realmente pertence a todos nós, e muito mais ainda aquele maravilhoso Salvador que, na plenitude dos tempos, veio dessa linhagem em que Rute brilha como uma delicada estrela. A data em que foi escrito É muito provável que este pequeno livro tenha sido escrito durante o reinado de Davi — como sugerem as seguintes considerações: (1) o primeiro versículo diz: “Nos dias em que julgavam os juizes...” Isto indica que o livro foi escrito depois do período dos juizes, pois o escritor está claramente se referindo a um tempo passado; (2) em 4.7, o escritor fala de um costume que prevalecera em Israel “outrora”. Assim sendo, o livro deve ter sido escrito bem depois do período a que alude, pois o costume mencionado havia caído em desuso —como é evidente pelo fato de o autor se deter para explicá-lo; (3) a genealogia no final do último capítulo vai até Davi, sendo interrompida nele (veja 4.17-22). Masporque parar nesse ponto, se o livro foi escrito depois dos dias de Davi? E como poderia sequer mencionar Davi se tivesse sido escrito antes de seu tempo? (4) o período do reinado de Davi seria suficientemente longo para permitir que o costume dos primeiros dias ou da metade do período dos juizes caísse em desuso (digamos 100 a 150 anos), o que fica claro pelo fato de que Davi, o sétimo filho de Jessé, era bisneto de Boaz, tendo reinado, portanto, de 100 a 150 anos depois dos acontecimentos descritos no Livro de Rute. Por outro lado, o período do reinado de Davi não seria longo o suficiente para impossibilitar o conhecimento dos detalhes contidos no livro, com relação a pessoas e incidentes que teriam sido esquecidos em diasposteriores aos de Davi; (5) o reino davídico foi uma época literária na história judaica. O
  33. 33. próprio rei era um homem de letras e atraía outros letrados à sua volta. Davi também era um homem sensível e profundamente humano, havendo certamente se interessado pela recente ligação moabita em sua linhagem. Além do mais, ele estava muito acima da estreiteza de idéias dos judeus em geral e não se envergonharia de seu elo moabita (especialmente em vista de 1 Sm 22.3, 4). A alma cavalheiresca de Davi não iria, de fato, orgulhar-se de sua ligação com alguém como Rute? Assim, concluímos que o Livro dos Juizes provavelmente foi escrito nos dias de Davi; portanto, este acréscimo seleto, referente ao mesmo período, deve ter sido escrito na mesma época. Como preparo para nossa próxima lição, oferecemos abaixo um esboço simples do Livro de Rute. O LIVRO DE RUTE O amor sofredor reina no final Capítulo 1— A DECISÃO DO AMOR: (a nobre escolha de Rute) RUTE, A FILHA FIEL — apega-se a Noemi em seu sofri­ mento. Capítulo 2 — A RESPOSTA DO AMOR: (o serviço humilde de Rute) RUTE, A RESPIGADEIRA MOABITA—.responde à ne­ cessidade urgente de Noemi. Capítulo 3 — O PEDIDO DO AMOR: (o terno apelo de Rute) RUTE, A SUPLICANTE VIRTUOSA — apela para o pa­ rente bondoso. Capítulo 4 — A RECOMPENSA DO AMOR: (alegrias conjugais de Rute) RUTE, A ESPOSA E MÃE AMADA — alegra-se na con­ sumação abençoada.
  34. 34. O LIVRO DE RUTE (2) Lição NQ27
  35. 35. NOTA: Para este novo estudo sobre o Livro de Rute, leia toda a história mais duas vezes, verificando o quadro que apresentamos no final da lição anterior. Quando o último dia terminar, E as noites se acabarem; Quando o último sol for enterrado Em seu sepulcro azul; Quando as estrelas forem apagadas como velas, E os mares se acalmarem de vez; Quando os ventos esquecerem sua argúcia, E as tempestades se forem; Quando os últimos lábios silenciarem, E a última oração for feita, O amor reinará imortal Enquanto o universo permanecerá na morte. Anônimo
  36. 36. O LIVRO DE RUTE (2) A história Capítulo 1 e m a l g u m p o n t o no período dosjuizes sobreveio uma fome em Canaã que se fez sentir até mesmo nos distritos férteis, como aquele que circundava Belém. Em vista das dificuldades, Elimeleque, um judeu que habitava em Belém, procurou refúgio temporário na terra de Moabe, levando consigo sua mulher Noemi e seus dois filhos, Malom e Quiliom. Sabemos que se tratava de uma família piedosa, e sem dúvida custou-lhes muito decidir ir embora e buscar sustento entre os idólatras moabitas. Mesmo assim eles se foram e, com certeza, erraram em deixar a terra da aliança de Israel e seu lugar entre o povo eleito. Israel sabia que a fome só era infligida por causa do pecado (Lv 26 etc.). Chegaram a Moabe; contudo, não foram felizes, pois ao buscarem a sobrevivência, foram privados da própria vida. Buscaram pão, mas encontraram túmulos. Elimeleque morreu primeiro. Seus filhos órfãos casaram-se então com mulheres moabitas (outra coisa proibida —Dt 7.3 etc.) e, pouco mais tarde, eles também se achavam enterrados no solo de Moabe, deixando suas duas jovens viúvas com a mãe Noemi, também viúva. Dez anos se passaram. Noemi ouve falar da fartura da terra natal e resolve voltar. As duas noras haviam aprendido a amá-la e querem segui-la. Elas ficaram conhecendo o Deus verdadeiro na casa de Noemi. O amor é mútuo. Elas partem com Noemi mas, convencida com bondade, Orfa decide permanecer em Moabe. Rute, porém, aprendeu a amar tanto a Noemi que está preparada para abandonar tudo por causa dela. Num dos pronunciamentos mais nobres já ouvidos, Rute confirma à sogra, a quem tanto ama, sua decisão de ficar com ela; nada, senão a morte, poderia separá-las:
  37. 37. “Não me instespara que te deixe, e me obrigue a não seguir-te;porque aonde quer quefores, irei eu, e onde quer quepousares, alipousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus. Onde quer que morreres, morrerei eu, e aísereisepultada;faça-me o Senhor o que bem lhe aprouver, se outra cousa que não seja a morte me separarde ti”(1.16, 17). A fim de apreciar o significado do amor sacrificial de Rute neste ponto, precisamos ter uma idéia da importância da insistência de Noemi para que as duas jovens voltassem à proteção da casa de seus próprios pais. Veja os versículos 8 e 9: “Ide, voltai cada uma à casa de sua mãe; e o Senhor use convosco de benevolência, como vós usastes com os que morreram, e comigo. O Senhor vos dê que sejais felizes, cada uma em casa de seu marido”. Note a palavra “felizes” (a versão de Almeida Revista e Corrigida traz “descanso”): o termo hebraico assim traduzido é menuchah. Ele significa repouso, não tanto no sentido comum, mas no de abrigoseguro. Os hebreus referiam-se à casa do marido usando essa palavra. Ela era o menuchah da mulher, ou refúgio seguro. No Oriente antigo, a situação das mulheres solteiras e jovens viúvas era delicada. O único lugar onde podiam encontrar segurança e respeito era na casa do marido. Só isto podia garantir à mulher proteção contra a servidão, a negligência ou a licenciosidade. Era este fato que Noemi tinha em mente quando insistiu na volta de Orfa e Rute, pois queria que buscassem segurança, respeito e honra na casa de seus pais e, depois, “em casa de seu marido”. Noemi não tem mais filhos para que se casem com Orfa e Rute, como lhes diz com tristeza. Se a acompanharem de volta a Israel não há qualquer expectativa de futuro ou de segurança para elas. Se continuarem em Moabe há uma boa possibilidade de encontrarem proteção na casa de um marido. Isso, porém, não acontecerá se viajarem para Canaã, pois é proibido por lei aos israelitas contraírem matrimônio com estrangeiros. Não podemos ter portanto qualquer intenção de censura a Orfa em sua decisão final de ficar em Moabe. V eja porém o amor glorioso de R ute. Em bora conhecesse perfeitamente o preço a ser pago, ela desistiu alegremente de tudo e se dispôs a sofrer qualquer coisa por causa de Noemi!
  38. 38. Noemi volta então para casa com a moabita Rute, e “ao chegarem ali, toda a cidade se comoveu por causa delas, e as mulheres diziam: Não é esta Noemi?” (1.19). Assim termina o primeiro capítulo e a primeira cena. Capítulo 2 O capítulo 2 introduz a cena 2, que é de uma beleza tocante. Noemi, em sua completa pobreza, tem de permitir que Rute vá colher os restos da colheita entre respigadores rudes, a fim de levar para casa algum alimento. Rute vai para os campos, cheia de desprendimento, desejosa de fazer esse humilhante mas honesto esforço para obter sustento. Ela é provi- dencialmente guiada a um campo pertencente a Boaz, um rico parente de Noemi. Todas as palavras e atos registrados sobre Boaz revelam sua piedade e bondade. Ele fica impressionado com a graça e modéstia da respigadeira e, depois de fazer perguntas a seu respeito, concede-lhe privilégios e proteção especiais durante todo operíodo da colheita. Assim, ela pode comer e beber com os respigadores e juntar uma boa porção de cereal, ficando protegida de qualquer atrevimento da parte dos empregados mais jovens. Rute volta com o primeiro produto de seu trabalho a Noemi, que imediatamente percebe a mão de Deus nos acontecimentos. Rute continua então a respigar nos campos de Boaz durante toda a colheita de trigo e cevada. Capítulo 3 No capítulo 3 chega a crise, um fato estranho para os ocidentais, devendo portanto ser cuidadosamente estudado. A colheita terminou. Os encontros diários com Boaz chegaram ao fim. Estabeleceu-se uma ligação entre Boaz e Rute, mas o rico parente não tomou nenhuma providência prática. Noemi percebe a tristeza que envolve o terno espírito de Rute e prepara um plano a fim de descobrir quais as intenções de Boaz e resolver o caso. O expediente estava em perfeita conformidade com o antigo costume hebraico e os ensinamentos da lei mosaica. Não há nele qualquer toque de impureza. Os estatutos mosaicos diziam: “Se irmãos morarem juntos, e um deles morrer, sem filhos, então a mulher do que morreu não se casará com outro estranho, fora da família; seu cunhado a tomará e a
  39. 39. receberá por mulher, e exercerá para com ela a obrigação de cunhado. O primogênito que ela lhe der será sucessor do nome do seu irmão falecido, para que o nome deste não se apague em Israel” (Dt 25.5, 6). Quando Noemi enviou Rute a Boaz, como descrito neste capítulo, ela estava, na verdade, pedindo-lhe que obedecesse a esta lei israelita e também, ao mesmo tempo, que desse abrigo marital a Rute, honrando o nome de Malom, seu marido judeu falecido. Boaz entendeu isto claramente, como mostraram suas nobres palavras (3.10-13). Note como Rute e Boaz usam a palavra “resgatador” (parente). Rute diz: tu és resgatador (parente próximo”; v. 9). Boaz responde: “Ora é muito verdade que eu sou resgatador; mas ainda outro resgatador há mais chegado do que eu” (v. 12). A palavra “resgatador”, em hebraico, é goel; e a lei do goel, parente próximo, é muito interessante. Esta lei é estabelecida em Levítico 25, Números 35 e Deuteronômio 19 e 25. Havia três obrigações que ogoel precisava cumprir: (1) Remir o irmão e a herança do irmão, segundo sua possibilidade, caso a pobreza tivesse obrigado o irmão a servir como escravo ou dispor de sua terra. (2) Vingar qualquer violência fatal cometida contra o irmão. (3) Conseguir um sucessor para o irmão, caso ele tivesse morrido sem deixar filhos. O propósito claro em tudo isso era preservar as famílias israelitas da extinção. A qualificação do goel era que deveria ser um parente consanguíneo ou parentepróximo. Cada parente era um dos goelim, mas o parente maispróximo era distintamente o goel. Voltando agora ao terceiro capítulo de Rute e tendo em mente esta lei dogoel, devemos observar como estão distantes de nossas idéias ocidentais modernas as maneiras simples e rústicas que dão o ambiente a esta cena. É com razão que o Dr. Samuel Cox afirma: “Uma era em que o rico proprietário de um latifúndio vasto e fértil colhia cevada e dormia entre montes de grãos no chão da eira (v. 7) é com certeza bem diferente da atual, como também remota. Além disso, o fato de Rute aproximar-se de mansinho do lugar em que Boaz dormia e deitar-se sob a sua capa (v. 7) não passava de uma reivindicação legal feita pela maneira aprovada naqueles tempos”. Quando Rute disse: “... estende a tua capa sobre a tua
  40. 40. serva”,Boaz compreendeu perfeitamente o apelo dajovem viúva, pedindo sua proteção, pois nos casamentos orientais da antigüidade o marido colocava seu manto sobre a cabeça da noiva, como um símbolo de proteção permanente dali por diante. Eis, então, o que acontece: Boaz acorda e encontra Rute a seus pés. No início fica surpreso, mas, ao ouvir as palavras de Rute, compreende a situação e mostra simpatia. Sua resposta amável (w. 10-13) revela sua honradez e a de Rute. Conhecemos agora as razões pelas quais ele não propôs casamento a Rute: (1) por ser consideravelmente mais velho; e (2) por não ser o parente maispróximo. É também possível que uma terceira razão ocupasse a mente de Boaz, ou seja, o fato de que Noemi, a esposa do falecido sogro de Rute, tinha mais direitos sobre ele; agora, entretanto, justamente por ter enviado Rute, Noemi havia desistido de seu direito a favor da nora. As “seis medidas de cevada” que Rute levou para casa na manhã seguinte fizeram com que Noemi soubesse que o honrado Boaz não perderia tempo em tomar as providências necessárias. Capítulo 4 O capítulo 4 é o ponto culminante da história. Boaz faz sem demora um contrato com o parente mais próximo na presença dos anciãos e de testemunhas à porta da cidade, como era o costume. Esse parente anônimo admite sua obrigação e está disposto a comprar a terra que fora de Elimeleque, mas recua quando fica sabendo que, ao fazer isso, deve também tomar uma moabita por mulher, e apresenta a seguinte objeção: “... para que não prejudique a minha [herança]”. Em sua opinião, Malom e Quiliom haviam transgredido a lei ao se casarem com estrangeiras, e as calamidades sobrevindas a eles e a Noemi eram devidas a isso; ele também ficaria sujeito a elas se viesse a casar-se com uma das viúvas. O homem passou então o seu direito a Boaz, reconhecendo isto publicamente através do antigo costume de tirar o calçado e entregá-lo a Boaz —uma prática que tinha origem no fato de que os homens tomavam posse legal das propriedades plantando o pé ou o calçado no solo. Os anciãos e testemunhas na porta então disseram: “Somos testemunhas”. Rute era muito mais preciosa para Boaz do que a terra. Ela se tornou sua esposa. Através de Boaz, Rute veio a ser mãe de um filho que, por sua vez, foi o pai de Jessé, sendo este o pai de Davi, o maior rei de Israel.
  41. 41. Quanto a Noemi, sua alegria foi completa. Ela cuidou do menino, e jamais criança alguma teve uma ama mais terna ou mão mais amorosa. As mulheres do lugar disseram a Noemi: “... tua nora, que te ama, o deu à luz, e ela te é melhor do que sete filhos” (v. 15). Esta história, que começou com fome, morte e luto, termina com plenitude, nova vida e júbilo. O choro durou uma noite, mas a alegria veio com a manhã. O triste início deu lugar a um fim doce e belo. Com uma voz cheia de gentileza e segurança, este precioso Livro de Rute chama-nos do passado, dizendo-nos que o amorque é “longânimo e bondoso’’jamais deixa de tersua recompensa no final. Aspectos tipológicos Uma leitura cuidadosa deste Livro de Rute parece mostrar que existe um significado tipológico latente e oculto desenvolvendo-se de acordo com o desenrolar da história. Os próprios nomes que ocorrem aqui nos indicam isso, e, uma vez descoberta a pista, podemos segui-la sem hesitar. A história começa em Belém, cujo nome significa “Casa do Pão” (beyth —casa; lechem = pão). A primeira figura mencionada é Elimeleque, cujo nome significa “meu Deus é Rei” ou “meu Deus é meu Rei” (Eli = meu Deus; meleque = rei). Este israelita, junto com sua mulher Noemi, cujo nome significa “prazer” ou “favor”, deixa Belém, na terra de Israel, por causa de fome, e busca socorro na terra estrangeira de Móabe. Os nomes de seus dois filhos, que levam em sua companhia, são Malom (alegria ou canção) e Quiliom (ornamento ou perfeição). Sob provação, eles se esquecem do lugar da aliança e recorrem a um expediente que envolve transigência. Em Moabe, Elimeleque (meu Deus é meu rei) morre; o mesmo acontece com Malom (canção) e Quiliom (perfeição). Depois de dez trágicos anos, Noemi, a remanescente comovente, volta; mas em vez de continuar sendo Noemi (prazer, doçura, favor), ela passa a ser Mara (amargura), por sua própria palavra. Se este não é um tipo surpreendente de Israel, estamos muito enga­ nados. Israel, como originalmente constituído em Canaã, era uma teocracia. Deus era o rei de Israel. Israel era Elimeleque —e podia dizer “meu Deus é meu rei”. Israel estava casado, por assim dizer, com Noemi —prazer, favor e bênção; e os filhos de Israel eram Malom e Quiliom —
  42. 42. canção e perfeição. Mas, ao ser provado, Israel cedeu e desviou-se, deixando a anterior lealdade ao Senhor. Elimeleque morreu. Israel não mais podia dizer com um coração perfeito diante do Senhor “meu Deus é meu Rei”. Malom e Quiliom também morreram —a “canção” de louvor e o “ornamento” de santidade piedosa também partiram de vez; enquanto Noemi, a antes “favorecida” e “agradável”, volta finalmente como um triste remanescente, “vazia” e “amarga” como nos dias em que o remanescente de Israel voltou com Esdras e Neemias. A partir da volta de Noemi, porém, Rute (“graciosa”) assume o lugar de destaque; e ela é um tipo da Igreja. O tipo é composto de três cenas: (1) Rute no campo da colheita; (2) Rute na eira; e (3) Rute na casa de Boaz. Vemos primeiro a Rute que rebusca no campo da colheita: estrangeira, pobre e destituída, não tendo parte nem porção em Israel ou na promessa da aliança. Ela busca todavia refúgio sob a proteção do Senhor, Deus de Israel, e suplica piedade junto ao bondoso e rico Boaz. O nome Boaz significa “há força nele”; e certamente Boaz, o forte, o rico, o nobre, o generoso, é aqui um tipo de Cristo, enquanto olha para a gentia Rute com favor benevolente e terno amor por ela. Segundo, vemos Rute que, não tendo esperança em ninguém mais além de Boaz, vai para a eira, apostando tudo, crendo na bondade dele, arriscando tudo em função da honra, bondade e poder remidor de Boaz; achegando-se a ele, pobre e sozinha, mas em amor, porque primeiro foi amada; deitando-se aos seus pés, suplicando o abrigo de seu nome, pedindo a proteção de seu braço, buscando a provisão que só seu amor podia dar e descobrindo nele mais do que a esperança ousara esperar. Terceiro, vemos Rute que, tendo sido graciosamente recebida pelo Boaz resgatador, une-se a ele como esposa e compartilha da vida dele, de seu lar e de toda sua riqueza e suas alegrias. A nosso ver, não é preciso uma percepção muito aguçada para deduzir de tudo isto uma belíssima coerência de ensino de tipos relativos a Cristo e à Igreja. Talvez haja maior ênfase sobre Rute; todavia, os paralelos tipológicos acham-se perfeitamente definidos no caso de Boaz. Ao agir como resgatador, ele deve manifestar as três qualificações principais e indispensáveis; ou seja, ele deve ter o direito de resgatar o poder para resgatar e a vontade de resgatar. Cristo, como nosso “G oel”, ou Parente-Resgatador, tem o direito por ser nosso verdadeiro Parente, o poder por ser Filho de Deus, e a disposição graciosa. Nosso Boaz celestial
  43. 43. não remiu para nós apenas o estado perdido por Elimeleque —um bem terreno; Ele fez de nós Sua noiva, a fim de compartilharmos para sempre com Ele de Sua vida, Seu lar, Sua riqueza e Suas alegrias eternas. Gozamos nEle mais bênçãos do que as que nosso pai Adão perdeu, privando-nos delas! Contudo, quem é oparente anônimo que não quis resgatar (4.6)? Penso que a resposta pode ser encontrada se lermos novamente as palavras registradas em Deuteronômio 23.3: “Nenhum amonita nem moabita entrará na assembléia do Senhor; nem ainda a sua décima geração entrará na assembléia do Senhor eternamente”. Esse parente não identificado e pouco disposto em Rute 4.6 é a LEI. A lei, por si mesma, é justa, mas não acolhe, não abre espaço, não dá as boas-vindas à estrangeira Rute. O parente anônimo teria pago o preço dapropriedade de Elimeleque, se isso fosse tudo que tivesse de fazer (4.4); mas no momento em que ouviu falar que a moabita Rute estava envolvida, recusou-se. A lei também não pode fazer nada por nós como pecadores e espiritualmente estranhos a Deus. Ela não pode perdoar. Não pode purificar. Não pode renovar-nos nem dar-nos poder. Ela só pode condenar-nos. Graças a Deus a moabita rejeitada pela lei é admitida pela graça! Os pecadores contra quem o Monte Sinai troveja — “a alma que pecar, essa morrerá” (Ez 18.20) — escutarão as palavras graciosas do Monte Calvário: “Quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou, tem avida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida” (Jo 5.24).
  44. 44. O PRIMEIRO LIVRO DE SAMUEL (1) Lição N228
  45. 45. NOTA: Para este estudo, leia todo o Primeiro Livro de Samuel e, pelo menos duas vezes, os primeiros sete capítulos. O que pensar então da Bíblia? Vou lhes dizer claramente o que julgo que devemos pensar. Afirmo que os autores bíblicos, depois de terem sido preparados para sua tarefa por meio da organização providencial de toda a sua vida, receberam além disso uma orientação abençoada, maravilhosa e sobrenatural, como também um estímulo do Espírito de Deus, ficando então preservados dos erros que aparecem em outros livros; assim, a obra resultante, a Bíblia, é em todas as suas partes a própria Palavra de Deus, inteiramente verdadeira quanto aos fatos e completamente soberana quanto aos seus mandamentos. J. G R E SH A M M A C H E N
  46. 46. O PRIMEIRO LIVRO DE SAMUEL (1) d i s s e m o s adeus à gentil Rute e viramos outra página da Bíblia. O Primeiro Livro de Samuel está à nossa frente, apresentando-nos a uma das figuras mais veneráveis da história de Israel e iniciando um novo e comovente capítulo na fascinante narrativa sobre o povo terreno de Deus. Este Primeiro Livro de Samuel encabeça o que chamamos de três “livros duplos” do Antigo Testamento —1e 2 Samuel, 1e 2 Reis e 1e 2 Crônicas. Esses três livros duplos formam juntos uma seção completa, registrando a ascensão e queda da monarquia israelita. Samuel e Reis Nos manuscritos hebraicos, 1e 2 Samuel formam apenas um livro, assim como 1 e 2 Reis e 1 e 2 Crônicas. A divisão em dois livros de cada um, como os temos agora, teve origem com a chamada tradução Septuaginta das escrituras hebraicas para o grego, aceita como tendo sido escrita no século terceiro a. C. Na Septuaginta, 1e 2 Samuel e 1e 2Reis são chamados respectivamente de Primeiro, Segundo, Terceiro e Quarto Livros dos Reinos (o plural “Reinos” indica os dois reinos, Judá e Israel). A Vulgata Latina —a famosa tradução da Bíblia para o latim feita por Jerônimo no quarto século A. D. —segue a Septuaginta, dividindo Samuel e Reis em dois livros cada, mas lhes dá o nome de Primeiro, Segundo, Terceiro e Quarto Livros dos Reis (e não Reinos). A divisão atual em 1e 2 Samuel foi criticada por alguns eruditos, embora tenha sem dúvida bastante mérito. O Segundo Livro de Samuel é distintamente o livro dos quarenta anos do reinado de Davi. É muito apropriado que um reino tão memorável fosse destacado e registrado em um livro especial. Quanto a este Primeiro Livro de Samuel, ele marca igualmente um período definido: do nascimento de Samuel, o último dos juizes, até a morte de Saul, o primeiro rei, abrangendo um período de cerca de 150 anos. O Primeiro Livro de Samuel é insuperável no interesse que desperta. Ele não só recapitula os acontecimentos históricos, mas também os
  47. 47. entretece com as biografias de três personalidades brilhantes —Samuel, Saul e Davi. Os capítulos são agrupados em torno dessas três pessoas: Como é natural, os três registros se sobrepõem. Samuel vive bastante tempo durante o reino de Saul e vê também Davi ganhar proeminência, enquanto Saul continua a reinar até Davi chegar aos trinta anos de idade. Todavia, 1 Samuel é realmente agrupado como acabamos de indicar. Nos sete primeiros capítulos, Samuel é a figura principal. Nos oito capítulos seguintes, tudo se concentra em Saul, ficando Samuel em segundo plano. Nos capítulos restantes, apesar de Saul ainda estar reinando, não há qualquer dúvida de que a atenção principal está sobre Davi. No caso de 1 Samuel não há realmente necessidade de nos preo­ cuparmos com uma análise detalhada. Fixe bem na mente (e a memória irá reter facilmente os dados) que 1 Samuel é o livro da transição da teocracia para a monarquia e também o livro de três homens notáveis — Samuel, o último dos juizes, Saul, oprimeiro dos reis, e Davi, o maior dos reis. Se nos lembrarmos disso, dificilmente iremos esquecer a mensagem espiritual central do livro. Deus chamara Israel para uma relação singular com Ele, e o próprio Deus era o rei invisível de Israel. O povo fora castigado de tempos em tempos por causa da desobediência. Mais tarde, porém, queriam atribuir grande parte disso ao fato de que não tinham rei humano visível, como acontecia com as nações vizinhas. Agora, finalmente, quando Samuel envelhece e seus filhos se mostram perversos, o povo aproveita a oportunidade para pedir um rei humano. A decisão fatídica está registrada no capítulo 8, que deve ser lido com cuidado. Tratava-se na verdade de um retrocesso, ditado apenas pela aparente conveniência. Era a aplicação da sabedoria humana e não da fé em Deus. Eles preferiram o nível inferior, recusando o melhor que lhes fora Capítulos 1 a 7 - SA M U E L 8 a 15 - S A U L 16 a 31 - D a v i u íí Aspecto central e mensagem
  48. 48. concedido por Deus e aceitando a segunda escolha. A diferença é bem grande. O povo achava que resolveria seus muitos problemas e que tudo seria maravilhosamente facilitado, se apenas pudesse ter um rei humano e visível como as nações ao seu redor. Infelizmente, porém, tiveram de aprender com presteza o quanto estavam enganados, pois novas dificuldades apareceriam exatamente através do rei que haviam exigido. Esta é a mensagem central de 1 Samuel para nós: aumento de problemas por escolherem o caminho aparentemente mais fácil, mas inferior, da sabedoria humana, em vez do caminho de Deus —por escolherem menos do que o melhor de Deus. Examinemos agora brevemente os três homens notáveis em torno dos quais gira a história. O primeiro deles é Samuel. Samuel (1-7) Poucos se igualam a Samuel em termos de caráter, e como agente no desenvolvimento inicial da nação só Moisés pode ser comparado a ele. O ministério de Samuel marca a instituição da monarquia. A partir de agora veremos Israel sob o governo de reis. Além disso, o aparecimento de Samuel assinala a instituição do cargo de profeta. Havia alguns homens em Israel, mesmo antes do tempo de Samuel, sobre quem o manto da profecia havia caído (Nm 11.25; Jz 6.8). O próprio Moisés é chamado de profeta (Dt 18.18). Mas não havia um ofício profético organizado. Samuel fundou as escolas de profetas e deu origem à ordem profética. Num sentido muito real, portanto, ele é “o primeiro dos profetas”, e tal distinção está no Novo Testamento, conforme mostram os seguintes versículos: “E todos os profetas, a começar com Samuel, assim como todos quantos depois falaram, também anunciaram estes dias” (At 3.24). “Depois disto lhes deu (Deus) juizes até o profeta Samuel” (At 13.20). “E que mais direi ainda? Certamente me faltará o tempo necessário para referir o que há a respeito de Gideão... de Samuel e dos profetas” (Hb 11.32).
  49. 49. Samuel é, pois, uma figura marcante. Ele termina o período dos juizes, encabeça a ordem dos profetas, dá origem ao primeiro grande movimento educacional na nação; coloca o primeiro rei de Israel no trono e, mais tarde, unge Davi, o maior de todos os reis de Israel. Resumimos nos comentários abaixo um ótimo artigo sobre Samuel, incluído no Pulpit Commentary. Seu aparecimento oportuno O preparo de Israel fora excelente. As tribos haviam crescidc daquela cultura mental com a qual o Egito sobrepujara o mune sob a liderança culta de Moisés, fora feita a entrega da ld, jlfKÍrábora simplesmente preparatória em certos aspectos civis^j^BÍistrativos, continha um resumo dos princípios fundamentaisn^morarque jamais foi superado. Por maior que fosse a influência^w o^s<3>ore Israel, não devemos pensar que o povo se elevara artpveKam que ele mesmo se encontrava. Mal Moisés e sua geração^èSapai^ceram, o povo voltou ao barbarismo. Em lugar de compr^é^terçHwnobre ideal que seu legislador planejara para eles, afundavam cad^gz mais (como visto em Juizes), até que a nação chegou ao/pqrito de quase desaparecer. Os filisteus, fortalecidos por um Jhp^^w sm te de imigrantes e a importação de armas da Grécia, estavamVEfòq^mente reduzindo Israel a uma raça escrava. Assim, a neg^Xrf& ^vJüdá em conquistar a costa marítima nos primeiros dias (Jz l.l^TOV^tava agora pondo em perigo a independência da nação. 1 tóebia que Israel iria ser inevitavelmente esmagado, Sa ía. Jamais as coisas pareceram tão desesperadoras. Mesmo íuel deteve a decadência da nação, ajudou-a a tornar-se um ínp ordeiro e próspero e colocou-a no caminho que levava a seu destino íblime, a fim de ensinar a humanidade sobre o Deus verdadeiro; mas isto Sua obra educacional Samuel dedicou-se à tarefa de dar à nação cultura mental e um governo ordeiro. Estas eram as necessidades mais urgentes. A base de toda a sua reforma foi a restauração da vida moral e religiosa do povo. É preciso
  50. 50. começar sempre nesse ponto. Além do mais, Samuel era demasiadamente sábio para confiar apenas em sua influência pessoal. Muitos homens de grande influência em sua época nada deixaram de duradouro. Se Israel tivesse de ser salvo, seria através de instituições que exercessem pressão contínua, empurrando o povo para cima, para um nível superior. O meio que ele empregou para este crescimento interno da nação foi a fundação de escolas. Estas, além de elevar Israel a um nível mental mais alto, auxiliariam na adoração do Senhor, ao transmitir idéias verdadeiras sobre a natureza divina. Samuel deve ter visto com freqüência que o principal obstáculo para seu trabalho como juiz de Israel era a condição mental inferior do povo. Não havia no meio da nação homens cultos para ocupar um cargo oficial ou administrar a justiça. O patético fracasso do talentoso rei Saul mostra isto e prova que Samuel estava certo ao hesitar em levantar um rei. As escolas eram prioritárias. Através delas, toda a condição cultural de Israel progrediria e homens seriam preparados para exercer uma liderança de alto nível. Essas escolas foram abertas em toda parte. Nelas, os jovens aprendiam a ler e escrever, adquirindo conhecimentos. Davi foi um produto delas, assim como a maioria de seus líderes. Surgiu um sistema de educação nacional. Outros resultados viriam, dos quais o mundo inteiro ainda hoje obtém benefícios. Se não fosse por isso, tal conjunto de homens inspirados que nos legaram as Escrituras teria sido impossível. Isaías e seus companheiros eram homens cultos, falando a um povo culto. Tanto o Antigo como o Novo Testamento são em grande parte resultado das escolas de Samuel. Outra grande obra de Samuel foi o preparo da monarquia cons­ titucional, mais um fato que o colocava muito além de sua época. Até certo ponto, ele não se mostrava favorável a isso, pois sabia que a hora não era oportuna. Uma monarquia limitada só é viável em meio a um povo culto. O Livro do Reino escrito por Samuel (1 Sm 10.25) não poderia influenciar muito um Saul que não sabia ler nem escrever; e Saul aproximou-se muito daquilo que Samuel temia. O governo que Samuel desejava estabelecer era o de um poder real nas mãos de um leigo, mas agindo em obediência à lei escrita de Deus e à Sua vontade, conforme declarada de tempos em tempos pela voz viva da profecia, que apelaria para o senso moral do rei. Não foi senão quando Samuel educou Davi que apareceu uma pessoa preparada para o trono. Apesar de suas faltas particulares, Davi, ao contrário de Saul, jamais tentou colocar-se acima da lei de Deus ou sequer
  51. 51. manipulá-la em seu próprio benefício. Ele se manteve estritamente dentro dos limites estabelecidos. Começamos a perceber como foi grande a figura de Samuel. Ele deu início ao primeiro movimento no sentido da educação nacional e moldou a monarquia constitucional da nação. De fato, Samuel é um grande homem. O PRIMEIRO LIVRO DE SAMUEL A TRANSIÇÃO DA TEOCRACIA PARA A MONARQUIA SAMUEL: O ÚLTIMO DOS JUÍZES (1-7) S E U N ASCIM ENTO E S U A JU V E N T U D E (1, 2) S E U C H A M A D O E S E U OFÍCIO (3) SE U S TEM PO S E SE U S ATOS (4-7) Resumo —7.15-17 SAUL: O PRIMEIRO REI (7-15) S U A ESC O L H A CO M O R EI (8-10) SE U INÍCIO PRO M ISSO R (11-12) S U A IN SE N SA TE Z E S E U PE C A D O PO STERIO RES (12-15) Rejeição — 15.23,28, 35 DAVI: O SUCESSOR UNGIDO (16-31) S U A U N Ç Ã O R E A L IZ A D A PO R SA M U E L (16.1-13) S E U SERVIÇO D IA N T E D E S A U L (16.14-20) SE U S A N O S CO M O FU G ITIV O (21-30) Morte de Saul — 31
  52. 52. O PRIMEIRO LIVRO DE SAMUEL (2) Lição N229
  53. 53. iVOTA: Para este novo estudo sobre o Primeiro Livro de Samuel, leia novamente do capítulo 8 até o fim. Quando um homem se desprevine por um momento, com toda probabilidade ficaremos sabendo mais verdades a respeito dele do que em todas as suas tentativas de revelar a si mesmo ou de ocultar-se. A consciência sempre presente, mas geralmente oculta, relampeja nesse instante. Ele mais tarde pode desculpar-se e dizer que não queria realmente dizer o que disse. O fato é que foi surpreendido, dizendo aquilo em que pensava constantemente. Com toda probabilidade Saul jamais dissera isso antes e jamais repetiria; mas ele estivera pensando nisso por muito tempo: “Fui insensato”.O homem não pode escapar da verdade nua sobre si mesmo enquanto continua no uso da razão. Ele pode praticar a arte do engano tão habilmente que não só deixa de revelar-se a seus semelhantes como também em sua loucura inconcebível imagina que se escondeu de Deus; contudo, jamais ocultou-se de si mesmo, e em algum momento de tensão e pressão, acaba por dizer o que estava pensando todo o tempo. , Saul dormira profundamente naquela noite, pois o registro nos diz que da parte do Senhor Jhes havia caído profundo sono”(1 Sm 26.12). Ele acordou com a voz de Davi, chamando-o do monte oposto. Ao despertar, ficou alerta, com o espírito aguçado, não se sentindo pesado por ter comido demais nem entorpecido pelo vinho. Tudo se achava claro e límpido ao seu redor, como acontece muitas vezes quando acordamos. Foi então que percebeu tudo e exclamou: “Eis que tenho procedido como louco”. Esta é toda a história do homem. G. C A M PBELL M O R G A N
  54. 54. O PRIMEIRO LIVRO DE SAMUEL (2) COMOjá dissemos, este primeiro Livro de Samuel é o livro da transição da teocraciapara a monarquia, e será bom nos lembrarmos sempre disto, à medida que procuramos ter uma idéia geral dos livros da Bíblia. Vimos também que este livro concentra-se em três homens — Samuel, Saul e Davi. Samuel, o último dos juizes, já foi estudado, e agora voltamos nossos pensamentos para Saul, o primeiro dos reis. Antes, porém, é preciso observar cuidadosamente como ocorreu a mudança dosjuizes para os reis. A TRANSIÇÃO DOS JUÍZES PARA OS REIS Opedido A mudança aconteceu devido à insistência do próprio povo, como vemos no capítulo 8, que marca o ponto crítico. Veja os versículos 4 e 5: “Então os anciãos todos de Israel se congregaram, e vieram a Samuel, a Ramá, e lhe disseram: Vê, já estás velho, e teus filhos não andam pelos teus caminhos; constitui-nos, pois, agora, um rei sobre nós, para que nos governe, como o têm todas as nações”. Como afirma o Dr. Kitto, “a exigência não era de uma plebe ignorante e iludida, mas o pedido solene e deliberado dos anciãos de Israel —aqueles cujos anos ou alto posto na nação lhes davam maior peso e influência. Não se tratava de um impulso momentâneo, mas sim do resultado de deliberação e conferência prévias, pois os anciãos foram a Ramá com o propósito de apresentar o assunto ao profeta. Sem dúvida alguma, eles se reuniram e consideraram a questão muito bem, antes de darem um passo com tanta resolução”. Sua aproximação de Samuel foi marcada pelo respeito. Eles não estavam descontentes com o profeta em si; mas em vista de sua idade avançada e do comportamento insatisfatório dos filhos dele, queriam insistir para que o governo passasse a ser uma monarquia, enquanto Samuel ainda se achava entre eles e com a aprovação de sua autoridade. Eles realmente deliberaram e consideraram; mas, mesmo assim, não tinham razão. Seus olhos novamente se afastavam de Deus. Um pedido
  55. 55. como este jamais seria produto de oração. Os anciãos realizaram uma reunião de comissão e não de oração! Agora estavam determinados a dar um passo para trás, em vez de avançar com Deus. Quantas vezes a incredulidade é revestida com a sabedoria corporativa das comissões! A resposta A reação de Samuel ao pedido é dada no versículo 6: “Porém esta palavra não agradou a Samuel, quando disseram: Dá-nos um rei, para que nos governe. Então Samuel orou ao Senhor”. A resposta divina foi esta: “Atende à voz do povo em tudo quanto te dizem, pois não te rejeitaram a ti, mas a mim, para eu não reinar sobre eles... Agora, pois, atende à sua voz, porém adverte-os solenemente, e explica-lhes qual será o direito do rei que houver de reinar sobre eles”. Samuel tentou então dissuadi-los (10-18), mas sem êxito, pois os versículos 19 e 20 dizem: “Porém o povo não atendeu à voz de Samuel, e disseram: Não, mas teremos um rei sobre nós. Para que sejamos também como todas as nações; o nosso rei poderá governar-nos, sair adiante de nós, e fazer as nossas guerras”. O pedido transformou-se então em exigência; e Deus fala novamente a Samuel: “Atende à sua voz, e estabelece-lhe um rei” (v. 22). Devemos notar portanto três coisas sobre esta exigência de um rei. Primeira, sua razão externa era a depravação dos filhos de Samuel. Segunda, o motivo interior era que o povo fosse como as outras nações. Terceira, o significado mais profundo era que Israel rejeitara a teocracia, sendo esta a questão mais séria de todas, enfatizada na resposta divina: “Pois não te rejeitaram a ti, mas a M IM , para eu não reinar sobre eles”. Quantos cristãos brilhantes foram prejudicados por desejarem ser como as pessoas do mundo a seu redor, como fez Israel ao exigir um rei humano! E como é traiçoeira a tentação de apoiar-se no que é visível e humano, em vez de repousar no Deus invisível! Todos nós nos inclinamos para essa tentação; mas ceder a ela significa colher tristezas. O resultado O povo exigiu e exerceu o que hoje é chamado de “direito de livre-arbítrio”.A mudança da teocracia para a monarquia foi decidida por
  56. 56. eles. Deus lhes deu um rei e constituiu um sistema monárquico. Parecia que Israel havia se cansado de uma forma teocrática de governo, na qual seu bem-estar dependia de uma conduta correta. Eles talvez supusessem vagamente que um governo sob um rei humano os aliviaria um pouco dessa responsabilidade, já que seu bem-estar dependeria mais do tipo de governo e das qualidades do próprio rei. Ao dar-lhes um rei, porém, Deus resguardou os interesses morais da nação, constituindo uma monarquia que preservava ao máximo os princípios do governo teocrático: o rei deveria responder diretamente a Deus, e o povo também se tornaria responsável perante Ele, através de seu rei. Este não deveria ser autocrático, mas teocrático. O profeta e o sacerdote colaboravam com o rei na qualidade de oficiais, em lugar de lhe serem subordinados; pois também dependiam diretamente de Deus. Como é natural, na qualidade de homens e cidadãos eles estavam sujeitos ao rei, da mesma forma como todos os demais. Já mencionamos antes que o governo seria de um poder real nas mãos de um leigo, mas agindo em obediência à lei escrita de Deus e à Sua vontade, declarada de tempos em tempos pela viva voz da profecia. Assim sendo, quando nos referimos à mudança da teocracia para a monarquia, não pretendemos dizer que todos os princípios do governo teocrático haviam sido abolidos. A respon­ sabilidade teocrática continuava através da monarquia; mas a teocracia absoluta cessara. Observações Podemos compreender ossentimentos dos líderes de Israel ao insistirem em ter um rei humano. Ao que tudo indica, havia sinais de problemas surgindo no horizonte: por parte dos filisteus, sempre prontos para a guerra, no Ocidente, e por parte dos amonitas, no Oriente (12.12). É possível entender igualmente a ansiedade de Israel pelo fato de não haver ninguém destacado entre eles, seja pela capacidade ou pela posição, para liderá-los nos conflitos que provavelmente teriam de enfrentar. O desejo de uma visível dignidade de estado, como tinham as nações à sua volta, pode ser também compreendido, pois a mente oriental é eminentemente régia. Talvez fosse um estigma sobre Israel o fato de não haver um cabeça real da nação. Todavia, devido aos privilégios teocráticos e ao chamado superior de Israel, esta exigênciaperemptória de um rei humano constituía
  57. 57. um erro grave. O pedido do povo por um rei fora previsto na palavra de Deus através de Moisés. Veja Deuteronômio 17.14-20. Talvez os anciãos de Israel deduzissem disso que era desejo de Deus estabelecer um governo monárquico entre eles —e talvez tivessem razão. Todavia, mesmo assim, o mínimo que deveriam ter feito seria buscar o conselho de seu rei divino a respeito disso. Note ainda que, em vez de ficarem reconhecidamente ansiosos por preservar a liberdade e o direito público que possuíam sob a teocracia, eles insistiram em ser governados ao estilo dos povos que os rodeavam. Em outras palavras, insistiram em desistir de seu governo brando em favor de uma soberania humana despótica. Samuel adverte-os solenemente da loucura que estavam cometendo e dos resultados que poderiam sobrevir. Veja 8.11-20. Um rei desse tipo iria tomar seus filhos e filhas para servi-lo, trabalhar para ele e guerrear por ele. Tomaria seus campos e vinhas, assim como o dízimo de suas sementes e colheitas, dos rebanhos e de outros bens. Ele faria ainda mais, de modo que se lamentariam por sua causa. Sem dúvida, as palavras de Samuel descreviam corretamente os governos monárquicos que existiam naquela época nas redondezas de Israel. Não obstante, sem temer coisa alguma, os líderes de Israel mostraram-se prontos a desistir de suas preciosas imunidades! O fato de a monarquia instituída em Israel não ser despótica como as que cercavam a nação, diz o Dr. Kitto, deveu-se “ao cuidado perspicaz e previdente de Samuel, agindo sob a orientação divina, assegurando desde o início que as liberdades que o povo tão voluntariamente atirava ao fogo não fossem abolidas”. Saul, o primeiro rei de Israel Saul, o primeiro rei de Israel, é uma das figuras mais notáveis e trágicas do Antigo Testamento. Se tivermos qualquer sensibilidade em relação aos valores supremos e questões vitais da vida humana, a história de Saul representará um desafio para nós. Em certos aspectos ele foi grande; em outros, insignificante. Em alguns pontos ele chamou atenção pela sua beleza; em outros, mostrou-se definitivamente feio. Saul começou a reinar com grande firmeza, mas em breve decaiu, decepcionando a todos, e terminou de maneira tão lamentável que o processo de decadência que o
  58. 58. arruinou se torna monumental para todos que prestam atenção. Notemos as três fases principais de sua carreira: (1) o início promissor; (2) a decadência posterior; e (3) o fracasso final. O iníciopromissor (9-12) Jamais um jovem mostrou-se tão promissor ou teve possibilidades tão brilhantes em sua juventude. Para começar, ele se distinguia por uma superioridadefísica surpreendente. Saul é descrito como “moço, e tão belo que entre os filhos de Israel não havia outro mais belo do que ele; desde os ombros para cima sobressaía a todo o povo” (9.2). Tinha saúde, altura e beleza. Embora o aspecto físico não seja a parte mais importante do homem, um físico tão esplêndido como o de Saul representava um bem maravilhoso, dando-lhe a vantagem inicial de mostrar-se imediatamente cativante. Em segundo lugar, o jovem Saul demonstrava certas qualidades de caráter altamente recomendáveis. Lemos sobre sua modéstia (9.21; 10.22), discrição (10.27) e espírito generoso (11.13). Havia também outras excelentes qualidades — o respeito pelo pai (9.5), sua valentia e bravura (11.6, 11), sua capacidade para amar intensamente (16.21), sua oposição enérgica a males como o espiritismo (28.3) e sua evidente pureza moral nas relações sociais. Em terceiro lugar, Deus lhe dera instrumentos especiais quando ele se tornou rei. Lemos: “Deus lhe mudou o coração”, de modo que passou a ser “outro homem” (10.6, 9). Outrossim, “o Espírito de Deus se apossou de Saul, e ele profetizou” (10.10). Essas expressões indicam que Saul sofreu uma renovação interior e se achava sob a orientação especial do Espírito Santo. Isso não é tudo; ele recebeu “uma tropa de homens cujos corações Deus tocara” (10.26). Saul tinha também um conselheiro de confiança junto de si, o inspirado Samuel. Para coroar tudo isso, Deus marcou o início do reinado de Saul, concedendo uma vitória militar retumbante, que conquistou a confiança do povo para o novo rei (11.12). Este era o jovem e promissor Saul. Extraordinariamente rico em talentos naturais e preparado de modo especial por meio de dons sobrenaturais, seu futuro parecia de fato brilhante. O chamado para ser rei foi uma oportunidade ímpar, dada a um homem em um milhão. Chamaram-no para reinar, sendo sua realeza apoiada pela constituição.
  59. 59. Ele foi chamado para a soberania teocrática, e Deus o qualificou sobrenaturalm ente para isso. Quanta chance para uma gloriosa colaboração com Deus! Que oportunidade para abençoar os homens! Ele não demonstrou qualquer dos sintomas de vanglória que outros, menos talentosos, teriam deixado entrever ao galgarem de súbito uma posição superior. Sua ascensão ao trono de Israel sem dúvida foi uma manhã de promessas. A decadência posterior A promessa inicial de Saul infelizmente provou ser uma alvorada logo encoberta por nuvens sombrias. Apostasia, decadência, degeneração, desastre — esta é a escala funesta e decrescente que logo se estabelece, até que este herói-gigante morre de modo ignóbil, cometendo suicídio devido à sua perturbação mental. A primeira apostasia ocorreu logo no início. Veja o capítulo 13. Tratava-se de um ato de orgulho irreverente. Os filisteus estavam prontos para pelejar contra Israel. Saul recebeu ordens para aguardar Samuel em Gilgal. Quando parecia que o profeta não viria antes de expirar o prazo combinado, Saul, impaciente, violou a prerrogativa do sacerdote e insensatamente ousou oferecer ao Senhor, com suas próprias mãos, os sacrifícios pré-estabelecidos. Podemos aceitar a impaciência de Saul. Todavia, ele violou aquela obediência à voz de Deus através do profeta, que era uma condição básica da soberania teocrática. Samuel re­ preendeu-o: “Procedeste nesciamente em não guardar o mandamento que o Senhor teu Deus te ordenou”. A próxima falha vem a seguir. Veja o capítulo 14. Foi um ato de obstinação temerária. Deus usa a Jônatas como seu instrumento, espalhando confusão entre os filisteus. Os sentinelas de Israel relatam o que viram. Saul chama o sacerdote para pedir a orientação de Deus, mas impacienta-se insensatamente e, sem esperar resposta, envia seus homens para a peleja. Também impõe sem refletir uma sentença de morte sobre qualquer homem que se alimentasse naquele dia (v. 24). Como resultado, ficaram muito fracos para consolidar a vitória (v. 30) e, por causa da fome extrema, pecaram comendo carne com sangue (v. 32); Jônatas recebe sentença de morte por ignorância, sendo salvo apenas pela intervenção do povo (w. 27, 45).
  60. 60. No capítulo 15 surge uma falha ainda mais grave. É uma mistura de desobediência e engano. Saul recebe uma ordem para destruir com­ pletamente os amalequitas, mas poupa o rei e a melhor parte do gado. A seguir mente a Samuel, culpando o povo pelos despojos. Chega até a afirmar que estes seriam sacrificados ao Senhor. A reprovação de Samuel começa assim: “Porventura, sendo tu pequeno aos teus olhos...” A humildade fora infelizmente substituída pela arrogância. Samuel percebe o fingimento: “Por que, pois, não atentaste à voz do Senhor? ... rejeitaste a palavra do Senhor”. Apartir deste ponto a decadência se acelera. “Tendo-se retirado de Saul o Espírito do Senhor” (16.14), um “espírito maligno o atormentava”. Ele cede a um ciúme mesquinho, que se transforma em maldade cruel contra Davi. Três vezes tenta matá-lo e, depois, persegue-o durante longos meses, como “uma perdiz nas montanhas”. Saul entrega-se à parte mais vil de sua natureza. Duas vezes Davi poupa a vida do rei, e este promete abandonar sua caçada sangrenta. Ele sabe que, ao esforçar-se para matar Davi, ele está na verdade lutando contra Deus, e chega a admitir: “Agora, pois, tenho certeza de que serás rei” (24.20). Todavia, mesmo depois disso, ele retoma sua perseguição covarde. Saul diz com razão a respeito de si mesmo: “Eis que tenho procedido como louco”(26.21). Ofracassofinal O último ato trágico no lamentável drama deste homem é descrito do capítulo 28 ao 31. Sua carreira em declínio finalmente o leva à feiticeira de En-Dor, como um amargurado e aflito fugitivo da condenação. Este destroço de homem, que antes gozara do conselho direto do céu, trata agora com o submundo. Não precisamos nos demorar no assunto da consulta noturna nem no suicídio de Saul no campo de batalha no dia seguinte. Não há necessidade de pesquisar detalhes neste ponto. Basta conhecer os fatos reais, o mergulho final —feitiçaria e suicídio! Saul não existe mais. Jaz morto, juntamente com o bondoso Jônatas. Como os poderosos caem! Como esse filho da manhã foi levado à ruina! Sim, Saul — você que teve um início promissor, mas depois veio a decair e se destruiu, você procedeu definitivamente “como louco”! Quando vemos Saul descer tanto, será que não perguntamos o que estava por trás de sua temível frustração? Foi a obstinação, a vontade

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