Milan kundera -_a_insustentvel_leveza_do_ser

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Milan kundera -_a_insustentvel_leveza_do_ser

  1. 1. (texto da orelha) A insustentável leveza do ser Num mundo em que as vidas são condicionadas por escolhas irrevogáveis e por acontecimentos fortuitos, quando as coisas só acontecem uma vez a existência parece perder a sua substância, o seu peso. Por isso, diz Milan Kundera, sentimos a intolerável leveza do ser Como em outro grande escritor tcheco, Kafka, a vida para ele é um imenso absurdo, totalmente destituída de qualquer significado: tanto pode ser um sonho como um pesadelo. É nesse clima de imprecisão, que um cenário político opressivo torna por vezes sombrio, que vivem os personagens de Milan Kundera. Dois casais constituem o ponto focal dos acontecimentos: Tomas-Tereza e Sabina-Franz. Entre esses quatro personagens, porém, parece haver uma simbiose constante: os traços de caráter de Tomas vão repetir-se em Sabina, e os de Tereza parecem coincidir em muitos pontos com os de Franz. Tereza destrói, de certa maneira, a vida de Tomas, mas para ele isso não tem qualquer importância, quando Sabina abandona Franz, dá um novo rumo à vida deste, mas também para ele isso não tem importância. As coisas acontecem uma vez só, ou são uma interminável repetição? Qualquer que seja a resposta, ela não é importante. O autor coloca-se neste romance como um observador de suas criaturas, como um comentarista de seus atos. Essa técnica permite- lhe fazer digressões sobre problemas do relacionamento humano, principalmente sobre a atração entre os sexos, tema de algumas de suas melhores páginas. Milan Kundera nasceu em Praga, na Tcheco-Eslováquia, em 1929. Era estudante quando o regime comunista foi estabelecido em seu país. Trabalhou depois como operário, foi músico de jazz e, finalmente, dedicou-se à literatura. A publicação de seu primeiro romance, A brincadeira (1967), foi um dos marcos iniciais do movimento de libertação que culminou na Primavera de Praga. Depois da invasão russa de 1968 seus livros foram proibidos. Em 1975 transferiu-se para a França. Capa e foto (vista noturna de Praga) Victor Burton
  2. 2. Milan Kundera A Insustentável Leveza do Ser Tradução: TERESA B. CARVALHO DA FONSECA EDITORA NOVA FRONTEIRA
  3. 3. Título Original: NESNESITELNÁ LEHKOST BYTÍ © Milan Kundera 1983 Direitos de edição da obra em língua portuguesa adquiridos pela EDITORA NOVA FRONTEIRA S/A Rua Bambina, 25 Botafogo CEP 22251 Tel.: 286-7822 Endereço Telegráfico: NEOFRONT - Telex: 34695 ENFS BR Rio de Janeiro, RJ. Revisão RENATO ROSÁRIO CARVALHO CLÊA MARCIA SOARES UMBERTO FIGUEIREDO PINTO CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, Ri. Kundera, Milan. K98i A Insustentável leveza do ser / Kundera; tradução de Tereza B. Carvalho da Fonseca. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1985. Tradução da edição francesa: L insoutenable légêrete de l être 1. Romance tcheco 1. Título CDD-891 .863 84-0938 CDU-885-3 1
  4. 4. SUMÁRIO Primeira parte: A leveza e o peso, 6 Segunda parte: A alma e o corpo, 39 Terceira parte: As palavras incompreendidas, 77 Quarta parte: A alma e o corpo, 125 Quinta parte: A leveza e o peso, 164 Sexta parte: A Grande Marcha, 231 Sétima parte: O sorriso de Karenin, 264
  5. 5. PRIMEIRA PARTE A LEVEZA E O PESO 1 O eterno retorno é uma idéia misteriosa, e Nietzsche, com essa idéia, colocou muitos filósofos em dificuldade: pensar que um dia tudo vai se repetir tal como foi vivido e que essa repetição ainda vai se repetir indefinidamente! O que significa esse mito insensato? O mito do eterno retorno nos diz, por negação, que a vida que vai desaparecer de uma vez por todas, e que não mais voltará, é semelhante a uma sombra, que ela é sem pe so, que está morta desde hoje, e que, por mais atroz, mais bela, mais esplêndida que seja, essa beleza, esse horror, esse esplendor, não têm o menor sentido. Essa vida não deve ser considerada mais importante do que uma guerra entre dois remos africanos do século XIV, que não alterou em nada a face do mundo, embora trezentos mil negros tenham encon trado nela a morte através de indescritíveis suplicios. Será que essa guerra entre dois remos africanos do século XIV se modifica pelo fato de se repetir um número incalculável de vezes no eterno retorno? Sim, certamente: ela se tornará um bloco que se forma e perdura, e sua tolice será sem remissão. Se a Revolução Francesa devesse repetir-se eternamente, a historiografia francesa se mostraria menos orgulhosa de Robespierre. Mas, como ela trata de uma coisa que não voltará,
  6. 6. os anos sangrentos não são mais que palavras, teorias, discussões são mais leves que uma pluma, já não provocam medo. Existe uma enorme diferença entre um Robespierre que não aparece senão uma vez na história e um Robespierre que voltasse eternamente cortando a cabeça dos franceses. Digamos, portanto, que a idéia do eterno retorno designa uma perspectiva na qual as coisas não parecem ser como nós as conhecemos: elas nos aparecem sem a circunstância atenuante de sua fugacidade. Essa circunstância atenuante nos impede, com efeito, de pronunciar qualquer veredicto. Como condenar o que é efêmero? As nuvens alaranjadas do crespúsculo douram todas as coisas com o encanto da nostalgia, inclusive a guilhotina. Não há muito tempo, eu mesmo fui dominado por este fato: parecia-me incrível, mas, folheando um livro sobre Hitler, fiquei emocionado diante de algumas de suas fotos; elas me lembravam o tempo de minha infância; eu a vivi durante a guerra; diversos membros de minha família foram mortos nos campos de concentração nazistas; mas o que era a morte deles diante dessa fotografia de Hitler que me lembrava um tempo passado da minha vida, um tempo que não voltaria mais? Essa reconciliação com Hitler trai a perversão moral inerente a um mundo fundado essencialmente sobre a inexistência do retorno, pois nesse mundo tudo é perdoado por antecipação e tudo é, portanto, cinicamente perdido. 2 Se cada segundo de nossa vida deve se repetir um número infinito de vezes, estamos pregados na eternidade como Cristo na cruz. Que idéia atroz! No mundo do eterno retorno, cada gesto carrega o peso de uma insustentável leveza. Isso é o que
  7. 7. fazia com que Nietzsche dissesse que a idéia do eterno retorno é o mais pesado dos fardos (das schwerste Gewicht). Se o eterno retorno é o mais pesado dos fardos, nossas vidas, sobre esse pano de fundo, podem aparecer em toda a sua esplêndida leveza. Mas, na verdade, será atroz o peso e bela a leveza? O mais pesado fardo nos esmaga, nos faz dobrar sob ele, nos esmaga contra o chão. Na poesia amorosa de todos os séculos, porém, a mulher deseja receber o peso do corpo masculino, O fardo mais pesado é, portanto, ao mesmo tempo a imagem da mais intensa realização vital. Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais ela é real e verdadeira. Por outro lado, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, com que ele voe, se distancie da terra, do ser terrestre, faz com que ele se torne semi- real, que seus movimentos sejam tão livres quanto insignificantes, Então, o que escolher? O peso ou a leveza? Foi a pergunta que Parmênides fez a si mesmo nó século VI antes de Cristo. Segundo ele, o universo está dividido em duplas de contrários: a luz e a obscuridade, o grosso e o fino, o quente e o frio, o ser e o não-ser. Ele considerava que um dos pólos da contradição é positivo (o claro, o quente, o fino, o ser), o outro, negativo. Essa divisão em pólos positivo e negativo pode nos parecer de uma facilidade pueril. Menos em um dos casos: o que é positivo, o peso ou a leveza? Parmênides respondia: o leve é positivo, o pesado negativo. Teria ou não razão? Essa é a questão. Uma coisa é certa. A contradição pesado-leve é a mais misteriosa e a mais ambígua de todas as contradições.
  8. 8. 3 Há muitos anos penso em Tomas. Mas é sob a luz dessas reflexões que o vi claramente pela primeira vez. Eu o vejo de pé, numa das janelas de seu apartamento, os olhos fixos, do outro lado do pátio, na parede do prédio defronte, sem saber o que fazer. Conhecera Tereza três semanas antes, numa pequena cidade da Boêmia. Mal tinham passado uma hora juntos. Ela o acompanhara à estação e esperara até o momento em que ele subiu no trem. Uns dez dias depois veio vê-lo em Praga. Nesse dia logo fizeram amor. De noite ela teve um acesso de febre e passou uma semana inteira com gripe na casa dele. Ele sentiu então um inexplicável amor por essa moça que mal conhecia. Tinha a impressão de que se tratava de uma criança que fora deixada numa cesta, untada com resina e abandonada sobre as águas de um rio para que ele a recolhesse no regaço de seu leito. Tereza ficou com ele uma semana; depois, já curada, voltou para a cidade em que morava, a duzentos quilômetros de Praga. E aí que se situa o momento a que me referia, em que vejo a chave da vida de Tomas: está de pé à janela, os olhos fixos, do outro lado do pátio, na parede do prédio defronte, refletindo: Devo ou não propor que ela venha se instalar em Praga? Essa responsabilidade o assusta. Se convidá-la agora, ela virá oferecer-lhe toda a sua vida. Ou seria melhor desistir? Nesse caso Tereza continuaria garçonete num restaurante de um buraco de província e ele não a veria nunca mais. Desejava que ela ficasse? Sim ou não? Olha o pátio, os olhos fixos no muro defronte, e procura uma resposta.
  9. 9. Volta, mais uma vez e sempre, à imagem daquela mulher deitada no divã. Ela não lhe lembra ninguém de sua vida de outros tempos. Não era nem amante nem esposa. Era uma criança que ele retirara de uma cesta untada de resina e que colocara no regaço de seu leito. Ela havia adormecido. Ele se ajoelhara ao seu lado. Sua respiração febril se acelerava e ele ouviu um leve gemido. Encostou o rosto contra o dela e sussurrou palavras reconfortantes durante o sono. No fim de alguns instantes, sua respiração tornou-se mais calma e seu rosto se levantou maquinalmente em direção ao dele. Sentiu nos lábios o cheiro um pouco acre da febre e o aspirou como se quisesse se impregnar da intimidade de seu corpo. Imaginou então que ela estava na casa dele já há muitos anos e que morria. De repente, pareceu-lhe evidente que não sobreviveria à morte dela. Estendeu-se ao seu lado para morrer junto com ela. Seus rostos uniram-se sobre o travesseiro e assim ficaram por muito tempo: No momento Tomas está de pé à janela e relembra esse instante. O que seria senão o amor que assim se revelava? Mas seria amor? Estava persuadido de que queria morrer ao lado dela e esse sentimento era claramente exagerado: estava vendo-a então pela segunda vez na vida! Não seria mais a reação histérica de um homem que, compreendendo em seu foro intimo sua inaptidão para o amor, começa a representar para si próprio a comédia do amor? Ao mesmo tempo, seu subconsciente se mostrava tão covarde que escolhera para sua comédia essa modesta garçonete de província que não tinha praticamente possibilidade de entrar em sua vida. Olhava os muros sujos do pátio e compreendia que não saberia se era histeria ou amor. E, nessa situação em que um verdadeiro homem saberia agir imediatamente, ele se recriminava por negar assim ao mais belo instante de sua vida (está de joelhos à cabeceira da moça,
  10. 10. convencido de não poder sobreviver à sua morte) a sua plena significação. Torturava-se com recriminações, mas terminou por se convencer de que era no fundo normal que não soubesse o que queria: nunca se pode saber aquilo que se deve querer, pois só se tem uma vida e não se pode nem compará-la com as vidas anteriores nem corrigi-la nas vidas posteriores. Seria melhor ficar com Tereza ou continuar sozinho? Não existe meio de verificar qual é a boa decisão, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? E isso que faz con que a vida pareça sempre um esboço. No entanto, mesmo esboço não é a palavra certa porque um esboço é sempre um projeto de alguma coisa, a preparação de um quadro, ao passo que o esboço que é a nossa vida não é o esboço de nada, é um esboço sem quadro. Tomas repete para si mesmo o provérbio alemão: einmal ist keinmal, uma vez não conta, uma vez é nunca. Não poder viver senão uma vida é como não viver nunca. 4 Mas um dia, numa pausa entre duas operações, uma enfermeira vem avisá-lo de que está sendo chamado ao telefone. Escutou a voz de Tereza no aparelho. Estava telefonando da estação. Ele se alegrou com isso. Infelizmente tinha um compromisso naquela noite e só a convidou para o dia seguinte. Depois de desligar, lamentou não ter pedido que ela viesse logo. Ainda havia tempo de desmarcar o compromisso. Ele tentava imaginar o que Tereza faria em Praga durante aquelas longas trinta e seis
  11. 11. horas que faltavam para o encontro deles e teve vontade de tomar o carro e sair à sua procura pelas ruas da cidade. Ela chegou na noite do dia seguinte. Usava uma bolsa a tiracolo com uma longa alça, ele achou-a mais elegante do que da última vez. Trazia na mão um livro: Ana Karenina de Tolstói. Tinha maneiras joviais, até mesmo um pouco ruidosas, e esforçava-se para demonstrar que estava passando inteiramente por acaso, graças a uma circunstância especial: estava em Praga por motivos profissionais, talvez (suas propostas eram muito vagas) à procura de um novo emprego. Em seguida viram-se deitados nus e cansados no divã. Já era noite. Ele perguntou onde ela morava, ofereceu-se para levá-la de carro. Ela respondeu, embaraçada, que iria procurar um hotel e que tinha deixado a mala no depósito. Na véspera ele temera que ela viesse oferecer-lhe toda a sua vida se a convidasse para vir para sua casa em Praga. Agora, ao ouvi- la dizer que sua mala estava no depósito da estação, pensou que ela havia depositado sua vida na estação antes de oferecê-la. Entrou com ela no carro, estacionou diante do prédio, foi à estação, retirou a mala do depósito (era grande e infinitamente pesada) e levou-a junto com Tereza para sua casa. Como é que ele tomara uma decisão tão súbita quando hesitara durante quase quinze dias, sem lhe dar o menor sinal de vida? Ele mesmo estava surpreso. Agia contra seus princí pios. Há dez anos, quando se divorciara da primeira mulher, viveu seu divórcio numa atmosfera de alegria, como outros comemoram um casamento. Compreendeu então que não nascera para viver ao lado de uma mulher, qual quer que fosse ela, e que só poderia ser um celibatário. Esforçãva-se, portanto, cuidadosamente para organizar seu sistema de vida de maneira tal que nenhuma mulher jamais viesse se instalar com mala em sua casa. Por isso só tinha um divã. Se bem que fosse um divã largo, dizia às suas
  12. 12. companheiras que era incapaz de adormecer na mesma cama com quem quer que fosse, e levava-as sempre de volta depois de meia-noite. Por sinal, na primeira vez em que Tereza ficou na casa dele com gripe, não dormiu com ela. Passou a primeira noite numa grande poltrona, e nas outras noites foi para o hospital onde em seu gabinete de consulta havia uma espreguiçadeira que utilizava nos plantões noturnos. No entanto, desta vez, adormeceu ao lado dela. De manhã percebeu que Tereza, que ainda dormia, segurava sua mão. Teriam ficado de mãos dadas a noite inteira? Era difícil de acreditar. Ela respirava profundamente enquanto dormia, segurava sua mão (com força: ele não conseguia se desvencilhar da pressão) e a pesadissima mala estava ao lado da cama. Não ousava soltar a mão do seu aperto, por temer acordá-la, e virou-se com muito cuidado para observá-la mais à vontade. Mais uma vez, ocorreu-lhe que Tereza era uma criança posta numa cesta untada com resina e abandonada ao sabor da corrente. Como deixar derivar para as águas impetuosas de um rio a cesta onde se abriga uma criança? Se a filha do Faraó não tivesse retirado das águas a cesta do pequeno Moisés, não teria havido o Velho Testamento e toda a nossa civilização! No começo de tantos mitos antigos, existe sem pre alguém que salva uma criança abandonada. Se Pólibo não tivesse recolhido o pequeno Édipo, Sófocles não teria escrito sua mais bela tragédia! Tomas compreendeu então que as metáforas são perigosas. Não se brinca com as metáforas. O amor pode nascer de uma simples metátora.
  13. 13. 5 Tomas vivera apenas dois anos com a primeira mulher e tivera um filho. No julgamento do divórcio, o juiz confiou à mãe a guarda do filho, condenando Tomas a pagar-lhes um terço de seu salário. Concedeu-lhe também o direito de ver o filho duas vezes por mês. Mas, cada vez que Tomas deveria ir vê-lo, a mãe desmarcava o encontro. Se os houvesse presenteado com coisas valiosas, certamente poderia tê-lo visto mais facilmente. Compreendeu que devia pagar à mãe pelo amor do filho e pagar adiantado. Ele se imaginava mais tarde quixotescamente querendo inculcar suas idéias na cabeça do filho, idéias essas que eram diametralmente opostas às da mãe. Só de pensar nisso se sentia cansado. Um domingo em que a mãe, mais uma vez, desmarcara no último minuto uma saída com o filho, ele decidiu que nunca mais o veria. Afinal por que se prenderia a essa criança mais do que a qualquer outra? Não estavam ligados por nada, a não ser por uma noite imprudente. Depositaria escrupulosamente o dinheiro, mas que não viessem exigir dele que, em nome de vagos sentimentos paternos, disputasse a companhia do filho! É óbvio que ninguém estava preparado para aceitar um tal raciocínio. Seus próprios pais o reprovaram e declara ram que se Tomas se recusava a se interessar pelo próprio filho eles também não se interessariam pelo deles. Continuavam a manter com a nora relações de uma cordialidade ostensiva, gabando-se aos amigos de sua atitude exemplar e de seu senso de justiça. Conseguiu, portanto, em pouco tempo desembaraçar se de uma esposa, um filho, uma mãe e um pai. Só não conseguiu livrar-se do medo das mulheres. Ele as desejava mas elas o amedrontavam. Entre o medo e o desejo era preciso encontrar um acordo; era o que ele chamava a amizade erótica .
  14. 14. Afirmava a suas amantes: só uma relação isenta de sentimentalismo, em que nenhum dos parceiros se arrogue direitos sobre a vida e a liberdade do outro, pode trazer felicidade para ambos. Para ter certeza de que a amizade erótica jamais cede à agressividade do amor, só se encontrava com suas amantes permanentes após longos intervalos. Achava esse método perfeito e fazia o elogio dele a seus amigos: É preciso observar a regra de três. Pode-se ver a mesma mulher em intervalos bem próximos, mas nunca mais de três vezes. Ou então vê-la durante longos anos, mas com a condição de deixar passar pelo menos três semanas entre cada encontro. Esse sistema dava a Tomas a possibilidade de nunca romper com suas amantes e tê-las em profusão. Nem sempre era compreendido. De todas as suas amigas, era Sabina quem melhor o compreendia. Ela era pintora. Dizia: Gosto muito de você, porque você é o contrário do kitsch. No reino do kitsch você seria um monstro. Não existe roteiro de filme americano ou russo em que você não fosse outra coisa senão um caso repugnante. Foi, portanto, a Sabina que ele pediu que o ajudasse a encontrar trabalho em Praga para Tereza. Obedecendo às regras não- escritas da amizade erótica, ela prometeu fazer o possível e, efetivamente, não demorou a descobrir um lugar no laboratório fotográfico de uma revista. Esse emprego não exigia qualificação especifica mas graças a ele Tereza deixava de ser garçonete para trabalhar ao lado de jornalistas. Sabina foi pessoalmente apresentá-la à redação e Tomas comentou consigo mesmo que nunca tivera melhor amiga.
  15. 15. 6 A convenção não-escrita da amizade erótica implicava que o amor fosse excluído da vida de Tomas. Se ele desrespeitasse essa condição, suas outras amantes se sentiriam imediatamente numa posição inferior e se revoltariam. Sublocou, portanto, um quarto para Tereza e sua pesada mala. Queria cuidar dela, protegê-la, alegrar-se com sua presença, mas não via nenhuma necessidade de mudar seu modo de vida. Assim, não queria que se soubesse que ela dormia em sua casa. O sono compartilhado era o corpo de delito do amor. Com as outras mulheres ele nunca dormia. Quando ia vê-las em suas casas, era fácil, podia ir embora quando quisesse. Era mais delicado quando elas vinham à sua casa e ele tinha de lhes explicar que as levaria de volta depois de meia- noite, pois sofria de insônia e não conseguia dormir junto de outra pessoa. Não estava longe da verdade, mas a razão principal era menos nobre e não ousava confessá-la a suas companheiras: no instante que se seguia ao amor, sentia um irresistível desejo de ficar só. Achava desagradável acordar em plena noite ao lado de um ser estranho; repugnava-lhe o despertar matinal do casal; não tinha vontade de ser ouvido escovando os dentes no banheiro, nem se sentia atraído pela intimidade de um café da manhã a dois. Portanto, qual não foi sua surpresa quando acordou com Tereza segurando firmemente sua mão! Olhou-a e custou a compreender o que estava acontecendo. Evocou as horas que tinham se passado e acreditou respirar o perfume de uma felicidade desconhecida. Desde então, ambos se alegravam por antecipação com o sono compartilhado. Eu diria mesmo que, para eles, o ob jetivo do ato sexual não era a volúpia, mas o sono de depois. Ela, sobretudo, não podia dormir sem ele. Se por aca so ficasse sozinha em seu quarto (o que depressa se tornou um álibi para Tomas), ela não
  16. 16. conseguia pregar o olho a noite toda. Nos seus braços, mesmo no auge da agitação, ela sempre se acalmava. Ele contava, a meia voz, histórias que inventava para ela bobagens, palavras elogiosas ou engraçadas que repetia num tom monótono. Na cabeça de Tereza essas palavras se transformavam em visões confu sas, que a conduziam ao primeiro sonho. Tomas tinha ple no poder sobre o sono dela, fazendo-a adormecer no momento que escolhia. Quando dormiam, ela o segurava como na primeira noite; apertava-lhe firmemente o pulso, um dos dedos ou o calcanhar. Quando queria se afastar sem acordá-la, Tomas tinha de usar de astúcia. Livrava o dedo (o pulso, o calca nhar) do seu abraço, o que sempre a despertava um pouco, pois ela o vigiava atentamente, mesmo dormindo. Para acalmá-la punha-lhe sempre na mão, no lugar de seu pulso, um objeto qualquer (um pijama enrolado em bola, um chinelo, um livro) que ela apertava em seguida energicamente como se fosse uma parte de seu corpo. Um dia em que acabara de fazê-la adormecer, mas em que ela ainda estava na antecâmara do primeiro sono, donde podia ainda responder às suas perguntas, ele lhe disse: Bem! Agora vou- me embora. Para onde? perguntou ela. Vou sair disse ele com voz severa. Vou com você! disse ela levantando-se da cama. Não, não quero. Vou para sempre disse ele, saindo porta afora. Ela se levantou e seguiu-o até a porta de entrada, piscando os olhos. Estava só de camisola, curta e sem nada por baixo. Seu rosto estava imóvel, sem expressão, mas seus movimentos eram energicos Da entrada, ele passou para o corredor (o corredor do edifício, compartilhado pelos moradores), e fechou a porta na frente dela. Tereza abriu-a com um gesto brusco e o seguiu, convencida, no seu estado de sonolência, de que ele queria partir para sempre e que ela devia retê-lo. Tomas desceu um andar, parou no patamar e ficou espe
  17. 17. rando por ela. Ela foi ter com ele, segurou-o pela mão e trouxe-o para junto de si, na cama. Tomas pensava: deitar com uma mulher e dormir com ela, eis duas paixões não somente diferentes mas quase con traditórias. O amor não se manifesta pelo desejo de fazer amor (esse desejo se aplica a uma série inumerável de mulheres), mas pelo desejo do sono compartilhado (este desejo diz respeito a uma só mulher). 7 No meio da noite, ela começou a gemer enquanto dormia. Tomas acordou-a, mas, ao ver o rosto dele, ela disse com raiva: Vá embora! Vá embora! Depois ela contou-lhe seu sonho: estavam em algum lugar com Sabina. Num quarto enorme. No meio havia uma cama, parecia o cenário de um teatro. Tomas ordenou que ela ficasse num calito enquanto fazia amor com Sabina. Ela olhava e esse espetáculo lhe causava um sofrimento insuportável. Para sufocar a dor da alma com uma dor física, enfiou agulhas sob as unhas. Senti uma dor atroz disse ela, apertando os pulsos como se as mãos tivessem sido realmente machucadas. Ele apertou-a contra si e lentamente, sem parar de tremer, ela adormeceu em seus braços. No dia seguinte, pensando nesse sonho, Tomas lembrou-se de uma coisa. Abriu a escrivaninha e tirou um pacote de cartas de Sabina. No fim de alguns momentos, deu com o seguinte trecho: Gostaria de fazer amor com você no meu ateliê como se fosse no palco de um teatro. Haveria pessoas em torno de nós e elas não teriam o direito de se aproximar. Mas não poderiam tirar os olhos de cima de nós....
  18. 18. O pior era que a carta tinha uma data. Era recente, es crita numa época em que Tereza já morava há muito tempo com Tomas. Censurou-a: Você mexeu nas minhas cartas! Sem tentar negar, ela disse: Está bem! Me mande embora! Mas ele não mandou. Ele a via ali enfiando agulhas sob as unhas, encostada na parede do ateliê de Sabina. Pegou seus dedos, acariciou-os, levou-os aos lábios e beijou- os como se houvesse neles sinais de sangue. Mas, a partir desse momento, tudo pareceu conspirar contra ele. Não se passava praticamente um dia sem que ela descobrisse alguma coisa nova sobre seus amores clandestinos. No começo negava tudo. Quando as provas eram muito evidentes, tentava demonstrar que não havia nenhuma contradição entre sua vida polígama e o amor que lhe tinha. Não era coerente: ora negava suas infidelidades, ora as justificava. Um dia, telefonava a uma amiga para marcar um encontro. Quando a ligação terminou, ouviu um estranho barulho no quarto vizinho, como o som de dentes batendo de frio. Ela chegara em casa por acaso e ele não sabia. Tinha na mão um vidro de calmante, bebia no gargalo e, como sua mão tremia, o vidro do frasco batia em seus dentes. Lançou-se sobre ela como para salvá-la de um afogamento. O frasco de valeriana caiu fazendo uma grande mancha sobre o tapete. Ela se debatia, querendo escapar, e ele a segurou durante quinze minutos como numa camisa-de-força, até que se acalmasse. Ele sabia que se encontrava numa situação injustificável, já que fundada sobre uma total desigualdade. Muito antes que ela descobrisse sua correspondência com Sabina, eles tinham ido juntos a um cabaré com alguns amigos.
  19. 19. Celebravam o novo emprego de Tereza. Ela havia deixado o laboratório de fotografia, e tornara-se fotógrafa da revista. Como ele não gostava de dançar, um de seus jovens colegas de hospital se ocupou de Tereza. Eles deslizavam magnificamente sobre a pista, e Tereza parecia mais bela do que nunca. Ele estava estupefato de ver com que precisão e docilidade ela se adiantava uma fração de segundo à vontade de seu parceiro. Essa dança parecia proclamar que sua dedicação, esse ardente desejo de satisfazer o que lia nos olhos de Tomas, não estava necessariamente ligado à pessoa de Tomas, mas que estava pronta a responder ao apelo de qualquer que fosse o homem que encontrasse em seu lugar. Não havia nada mais fácil do que imaginar Tereza e esse jovem colega como amantes. Era essa facilidade que o magoava, O corpo de Tereza era perfeitamente imaginável num abraço amoroso com qualquer corpo de ho mem, e essa idéia o deixava de mau humor. Tarde da noite, quando voltaram, ele revelou-lhe que estava com ciúmes. Esse ciúme absurdo, nascido de uma possibilidade toda teórica, era a prova de que ele considerava a fidelidade dela um principio inatingível. Mas então, como poderia ele ter raiva do ciúme que ela sentia de suas amantes mais do que reais? 8 Durante o dia se esforçava (mas sem realmente conseguir) por acreditar no que dizia Tomas e ficar alegre como sempre estivera até então. Mas o ciúme, domado durante o dia, se manifestava ainda mais violentamente em seus so nhos, que terminavam sempre por um gemido que ele não podia interromper sem acordá-la. Seus sonhos se repetiam como temas com variações ou como episódios de uma novela de televisão. Um sonho que voltava sempre, por exemplo, era o sonho dos gatos que lhe saltavam no rosto, enfiando as garras em sua pele. Na verdade, esse sonho se
  20. 20. explica facilmente: em tcheco, gato é uma expressão de gíria que significa mulher bonita . Tereza sentia-se ameaçada pelas mulheres, por todas as mu lheres. Todas as mulheres eram, em potencial, amantes de Tomas, e ela tinha medo. Num outro ciclo de sonhos, ela era conduzida à morte. Uma noite em que ele a acordou quando urrava de terror, ela contou- lhe este sonho: Era uma grande piscina coberta. Éramos umas vinte. Somente mulheres. Estávamos todas completamente nuas e tínhamos de andar em torno de um tanque. Havia uma cesta suspensa do teto, com um homem dentro. Ele usava um chapéu de abas largas que lhe escondia o rosto, mas eu sabia que era você. Você nos dava ordens. Você gritava. Tínhamos de cantar e flexionar os joelhos enquanto desfilávamos. Quando uma mulher não con seguia dobrar os joelhos, você dava-lhe um tiro de revólver e ela caía morta dentro do tanque. Nesse momento, todas as outras se punham a rir e cantavam com mais força. E vo cê não tirava os olhos de nós: se alguém fazia um movimento para o lado, você atirava. O tanque estava cheio de cadáveres que boiavam na água. E eu sabia que não teria mais forças para minha próxima flexão e que você iria me matar! O terceiro ciclo de sonhos contava o que lhe aconteceria depois de morta. Ela estava deitada num carro fúnebre do tamanho de um caminhão de mudanças. À volta dela só havia cadáveres de mulheres. Havia tantos que era necessário deixar a porta de trás aberta, por onde saíam pernas. Tereza gritava: Ora! não estou morta! Estou com todos os meus sentidos! Nós também estamos com todos os nossos sentidos zombavam os cadáveres. Os cadáveres tinham exatamente o mesmo riso que os seres vivos que, em outros tempos, se divertiam em lhe dizer que tudo
  21. 21. isso era normal, que ela também ficaria com os dentes estragados, os ovários doentes e que teria rugas. E agora, com o mesmo riso, eles explicavam que ela estava morta e que essa era a ordem natural das coisas! De repente teve vontade de urinar. Gritou: Mas estou com vontade de fazer xixi! E a prova de que não estou morta! Novamente riram às gargalhadas: É normal que você tenha vontade de fazer xixi! Você ficará ainda muito tempo com essas sensações. E como as pessoas que tiveram a mão amputada continuam a senti-la por muito tempo. Nós não temos mais urina, mas mesmo assim continuamos a sentir vontade de mijar. Tereza se agarrou a Tomas na cama: E elas todas me chamavam de você , como se me conhecessem há muito tempo, como se fossem minhas amigas; e eu tinha medo de ser obrigada a ficar com elas para sempre! 9 Todas as línguas derivadas do latim formam a palavra compaixão com o prefixo com e a raiz passio, que ori ginariamente significa sofrimento . Em outras línguas, por exemplo em tcheco, em polonês, em alemão, em sueco, essa palavra se traduz por um substantivo formado com um prefixo equivalente seguido da palavra sentimento (em tcheco: soucit; em polonês: wspol-czucie; em alemão: Mit gefühl; em sueco: med-kãnsla). Nas línguas derivadas do latim, a palavra compaixão significa que não se pode olhar o sofrimento do próximo com o coração frio, em outras palavras: sentimos simpatia por quem sofre. Uma outra palavra que tem mais ou menos o mesmo significado: piedade (em inglês pity, em italiano pietà, etc.), sugere mesmo
  22. 22. uma espécie de indulgência em relação ao ser que sofre. Ter piedade de uma mulher significa sentir-se mais favorecido do que ela, é inclinar-se, abaixar-se até ela. E por isso que a palavra compaixão inspira, em geral, desconfiança; designa um sentimento considerado de segunda ordem que não tem muito a ver com o amor. Amar alguém por compaixão não é amar de verdade. Nas línguas que formam a palavra compaixão não com a raiz passio: sofrimento , mas com o substantivo sentimento , a palavra é empregada mais ou menos no mesmo sentido, mas dificilmente se pode dizer que ela designa um sentimento mau ou medíocre. A força secreta de sua etimologia banha a palavra com uma outra luz e lhe dá um sentido mais amplo: ter compaixão (co-sentimento) é poder viver com alguém sua infelicidade, mas é também sentir com esse alguém qualquer outra emoção: alegria, angústia, felicidade, dor. Essa compaixão (no sentido de soucit, wspol czucie, Mitgefühl, med-kãnsla) designa, portanto, a mais alta capacidade de imaginação afetiva a arte da telepatia das emoções. Na hierarquia dos sentimentos, é o sentimento supremo. Quando Tereza sonhava que enfiava agulhas sob as unhas, ela se traía, revelando a Tomas que mexia ás escondidas em suas gavetas. Se alguma outra mulher tivesse feito isso com ele, nunca mais ele lhe dirigiria a palavra. Como Tereza sabia disso, dizia: Ponha-me para fora! Ora, não somente ele não a mandou embora, como lhe tomou a mão e beijou-lhe a ponta dos dedos, pois nesse momento ele próprio sofria a dor que ela sentia sob as unhas, como se os nervos dos dedos de Tereza estivessem diretamente ligados a seu próprio cérebro. Aquele que não possui o dom diabólico da compaixão (co- sentimento) só pode condenar friamente o comporta mento de Tereza, pois a vida particular do outro é sagrada e não se abrem as gavetas onde ele guarda sua correspondên cia pessoal. Mas,
  23. 23. como a compaixão se tornara o destino (ou maldição) de Tomas, pareceu-lhe que era ele mesmo que se tinha ajoelhado em frente à gaveta de sua escrivaninha e que não conseguia tirar os olhos das frases escritas pela mão de Sabina. Compreendia Tereza, e não somente era incapaz de lhe querer mal, como amava-a ainda mais. 10 Os gestos de Tereza tornavam-se bruscos e incoerentes. Haviam-se passado dois anos desde que descobrira as infi delidades de Tomas e isso só fazia piorar a situação. Não havia solução. Não podia ele pôr fim a suas amizades eróticas? Isso o teria destruido. Não tinha força para controlar seu apetite por outras mulheres. Ademais, isso lhe parecia supérfluo. Ninguém melhor do que ele sabia que suas aventuras não representavam nenhum risco para Tereza. Por que privar-se delas? Essa eventualidade parecia-lhe tão absurda quanto deixar de ir a jogos de futebol. Mas seria possível ainda falar de alegria? Assim que ele saía para encontrar uma de suas amantes, perdia o interesse e jurava a si próprio que seria a última vez. Tinha a imagem de Tereza diante dos olhos e precisava embriagar-se depressa para não pensar mais nela. Desde que a conhecera não podia mais dormir com outras mulheres sem a ajuda do álcool! Mas o hálito impregnado de álcool era justamente o sinal pelo qual Tereza descobria ainda mais facilmente suas infidelidades. Fora apanhado numa armadilha: mal ia visitá-las, perdia a vontade, mas se ficava um dia sem elas, logo telefonava para marcar um encontro.
  24. 24. Ainda era em casa de Sabina que se sentia melhor, pois sabia que era discreta, e que não precisava ter medo de ser descoberto. No ateliê, como que pairava a lembrança de sua vida passada, sua vida idílica de solteiro. Talvez nem ele mesmo se desse conta de como mudara: tinha medo de voltar tarde para casa porque Tereza o espe rava. Certa vez, Sabina percebeu que ele olhava o relógio durante o ato de amor, e que se esforçava para precipitar o fim. Depois, num passo displicente, pôs-se a passear nua pelo ateliê, postando-se em seguida com ar provocante diante de uma tela inacabada e olhando cheia de desejo na direção de Tomas, que enfiava as roupas, apressado. Acabara de vestir-se, conservava um pé descalço. Olhou à sua volta e em seguida ficou de quatro procurando alguma coisa sob a mesa. Disse ela: Quando olho para você, tenho a impressão de que está se confundindo com o eterno tema de meus quadros. O encontro de dois mundos. Uma dupla exposição. Por detrás da silhueta de Tomas, o libertino, transparece o rosto inacreditável do romântico apaixonado. Ou então é o contrário: através da silhueta do Tristão que só pensa em sua Tereza, percebe-se o belo universo traído do libertino. Tomas ergueu-se e ouviu distraidamente as palavras de Sabina: O que está procurando? Uma meia. Ela revistou o quarto com ele, em seguida ele se pôs de quatro e recomeçou a procurar sob a mesa. Não há nenhuma meia aqui disse Sabina. Você não estava com ela quando chegou.
  25. 25. Como não estava com ela! gritou Tomas, consultando o relógio. Claro que não vim com uma meia só! Não duvido nada! Você anda muito distraído ultimamente. Está sempre com pressa, consultando o relógio, não é nada de espantar que tenha se esquecido de calçar uma meia. Já estava resolvido a calçar o sapato com o pé descalço. Está frio lá fora disse Sabina. Vou lhe emprestar uma meia! Estendeu-lhe uma meia branca rendada, comprida, que estava na última moda. Ele sabia muito bem que era uma vingança. Ela escondera sua meia para puni-lo de olhar o relógio durante o amor. Com o frio que fazia, não lhe restava outra alternativa senão submeter-se. Voltou para casa com uma meia numa perna e na outra uma meia branca de mulher, enrolada no tornozelo. Sua situação não tinha saída: aos olhos de suas amantes estava marcado pelo estigma infamante de seu amor por Tereza, aos olhos de Tereza pelos estigmas de suas aventuras com as amantes. 11 Para diminuir seu sofrimento, casou-se com ela (puderam finalmente cancelar o contrato de sublocação, ela não morava mais no quarto há muito tempo) e deu-lhe de presente um cachorrinho. A mãe era o são-bernardo de um colega de Tomas. O pai, o policial do vizinho. Ninguém queria os filhotes mestiços e seu colega estava com o coração partido diante da idéia de matá-los. Tomas tinha de escolher entre os cãezinhos e sabia que os que não escolhesse iriam morrer. Estava na situação de um
  26. 26. presidente da República quando tem quatro condenados à morte só podendo conceder o indulto a um deles. Finalmente escolheu um dos cãezinhos, uma fêmea, com o corpo do policial e a cabeça parecida com a da mãe são- bernardo. Levou-o para Tereza. Ela segurou o bichinho, apertou-o de encontro aos seios, e o animal imediatamente fez xixi em sua blusa. Em seguida foi preciso escolher um nome. Tomas queria que se soubesse, só pelo nome, que era o cachorro de Tereza, e lembrou-se do livro que ela trazia no braço no dia em que chegou a Praga sem avisar. Propôs que o cachorro se chamasse Tolstói. Não podemos chamá-lo de Tolstói respondeu Tereza porque é uma menina. Podemos chamá-la de Ana Karenina. Não podemos chamá-la de Ana Karenina porque uma mulher jamais teria um focinho tão engraçado disse Tomas. Talvez Karenin. E isso, Karenin. E exatamente assim que sempre a imaginei. Será que o fato de chamar-se Karenin não vai perturbar sua sexualidade? E possível disse Tomas que uma cadela que é sempre chamada pelos donos por um nome de cão acabe com tendências lésbicas. O mais curioso é que a previsão de Tomas tornou-se realidade. De um modo geral, as cadelas apegam-se mais ao dono que à dona, mas com Karenin acontecia o contrário. Resolveu encantar-se por Tereza. Tomas lhe era grato por isso. Fazia festa na cabeça dela e dizia: Você tem razão, Karenin, é exatamente o que esperava de você. Como não consigo isso sozinho, é preciso que você me ajude. Mas, mesmo com a ajuda de Karenin, não conseguiu fazê-la feliz. Compreendeu isso uns dez dias depois da ocupação de seu
  27. 27. país por tanques russos. Em agosto de 1968, o diretor de uma clínica em Zurique que Tomas conhecera durante um congresso internacional telefonava-lhe de lá to dos os dias. Temia por Tomas e oferecia-lhe um emprego. 12 Se Tomas recusava sem a menor hesitação o oferecimento do médico suíço, era por causa de Tereza. Supunha que ela não queria partir. Na realidade ela passou os sete primeiros dias da ocupação numa espécie de transe quase semelhante à felicidade. Estava na rua com uma máquina fotográfica e distribuía seus filmes aos jornalistas estrangeiros que brigavam para obtê-los. Um dia em que se mostrou muito temerária e fotografou de perto um oficial que apontava seu revólver para os manifestantes, foi presa e teve de passar a noite no quartel- general russo. Ameaçaram fuzilá la, mas assim que foi posta em liberdade voltou às ruas para tirar novas fotografias. Assim, qual não foi a surpresa de Tomas quando ela lhe disse no décimo dia da ocupação: Diga a verdade, por que é que você não quer ir para a Suíça? E por que eu iria? Aqui eles têm contas a ajustar com você. E com quem eles não têm? replicou Tomas com um gesto resignado. Mas diga-me: você poderia viver no estrangeiro? E por que não? Depois de ter visto que você estava disposta a sacrificar a vida por este pais, não sei como você poderia deixá-lo agora. Depois que Dubcek voltou, tudo mudou disse Tereza. Era verdade: a euforia geral durara apenas os sete primeiros dias da ocupação. Os dirigentes tchecos haviam sido levados pelo
  28. 28. Exército russo como criminosos, ninguém sabia onde estavam, todos temiam por suas vidas e o ódio pelos russos embriagava como uma bebida alcoólica. Era a festa inebriante do ódio. As cidades da Boêmia estavam cobertas de milhares de cartazes pintados a mão, mostrando com destaque inscrições sarcásticas, epigramas, poemas e caricaturas de Brejnev e de seu exército, de que todos zombavam como se fossem uma troupe de palhaços analfabetos. Mas nenhuma festa pode durar eternamente. Enquanto isso, os russos haviam forçado os representantes do povo tcheco, que tinham sido seqüestrados, a assinar um acordo com Moscou. Dubcek voltou a Praga com o acordo e leu seu discurso pelo rádio. Seis dias de prisão o haviam diminuído a tal ponto que mal podia falar, gaguejava, tomava fôlego, parando no meio das frases com pausas intermináveis que duravam até meio minuto. O acordo salvara o país do pior: das execuções e das deportações em massa para a Sibéria que todos temiam. Mas uma coisa apareceu claramente logo em seguida: a Boêmia seria forçada a se curvar diante do conquistador. Ela iria eternamente gaguejar, vacilar, tomar fôlego como Alexandre Dubcek. A festa terminara. Entrava-se na banalidade da humilhação. Tereza explicou tudo isso a Tomas e ele sabia que era verdade, mas que sob essa verdade ocultava-se ainda uma outra razão mais fundamental, que fazia com que Tereza quisesse deixar Praga: até então, ela não tinha sido feliz. Vivera os mais belos dias de sua vida quando fotografara os soldados russos nas ruas de Praga, expondo-se ao perigo. Fora o único período em que a novela de televisão de seus sonhos se havia interrompido e em que suas noites tinham sido serenas. Com seus blindados, os russos tinham lhe trazido a harmonia. Agora que a festa terminara, tinha de novo medo de suas noites e queria fugir delas. Descobrira que existiam circunstâncias em
  29. 29. que podia sentir-se forte e satisfeita, e desejava partir para o estrangeiro na esperança de encontrar circunstâncias análogas. Você não se importa que Sabina tenha emigrado para a Suíça? Genebra não é Zurique disse Tereza. Lá ela certamente me incomodará menos do que me incomodava em Praga. Aquele que quer deixar o lugar em que vive não está feliz. O desejo de Tereza de emigrar soou como uma sentença para Tomas. Submeteu-se, e um pouco mais tarde estava com Tereza e Karenin na maior cidade da Suíça. 13 Comprou uma cama para mobiliar um apartamento vazio (não tinham ainda como comprar outros móveis) e atirou-se ao trabalho com o frenesi de um homem que começa vida nova depois dos quarenta anos. Telefonou para Sabina em Genebra diversas vezes. Por sorte ela tivera um vernissage em Genebra oito dias antes da invasão russa e os apreciadores suíços de pintura, levados pela onda de simpatia por seu pequeno país, haviam comprado todos os seu quadros. Graças aos russos fiquei rica! disse ela às gargalhadas no telefone, e convidou Tomas para vir a sua casa seu novo ateliê, que, assegurou, não era nada diferente daquele que Tomas conhecera em Praga. Ele gostaria de ter ido vê-la, mas não encontrava nenhum pretexto para explicar essa viagem a Tereza. Assim foi Sabina que veio a Zurique. Ela hospedou-se num hotel. Tomas foi vê-la depois do trabalho, fez-se anunciar pela recepção e foi para o quarto dela. Ela abriu a porta e plantou- se diante dele sobre suas belas pernas compridas apenas de calcinha e sutiã. Usava um
  30. 30. chapéu-coco no alto da cabeça. Ficou olhando Tomas longamente, sem se mexer, sem dizer nada. Tomas também permaneceu imóvel, em silêncio. Subitamente, percebeu que estava comovido. Tirou-lhe o chapéu da cabeça, colocando-o sobre a mesinha-de cabeceira. Depois fizeram amor sem dizer uma só palavra. Voltando do hotel para seu apartamento de Zurique (mobiliado há muito tempo com uma mesa, cadeiras, poltronas e um tapete), ele pensava, com um sentimento de felicidade, que carregava seu modo de viver como um caramujo carrega sua casa. Tereza e Sabina representavam os dois pólos de sua vida, pólos distantes, inconciliáveis, mas ambos belos. Mas, como ele transportava consigo, por onde fosse, seu sistema de vida, como um apêndice de seu corpo, Tereza tinha sempre os mesmos sonhos. Estavam em Zurique há seis ou sete meses, quando uma noite em que voltou tarde encontrou uma carta sobre a mesa. Tereza lhe anunciava que tinha voltado a Praga. Tinha ido embora porque não sentia forças para viver no estrangeiro. Sabia que ali deveria ser um apoio para Tomas, e sabia também que era incapaz disso. Acreditara ingenuamente que a vida no estrangeiro iria transformá-la. Havia imaginado que depois do que vivera durante os dias da invasão não seria mais mesquinha, que se tornaria adulta, sensata, corajosa, mas se superestimara. Ela era um peso para ele, e isso era justamente o que não queria ser. Queria evitar as conseqüências antes que fosse tarde demais. E pedia desculpas por levar Karenin. Ele tomou soníferos muito fortes mas só adormeceu de madrugada. Felizmente era um sábado e podia ficar em casa. Pela centésima vez recapitulou toda a situação: as fronteiras entre a Boêmia e o resto do mundo não estavam mais abertas como na época em que tinham partido. Nem telegramas, nem telefonemas poderiam fazer Tereza voltar. As autoridades não a
  31. 31. deixariam mais sair. Custava a acreditar, mas a partida de Tereza era definitiva. 14 A idéia de que não podia fazer absolutamente nada deixava-o mergulhado num estado de estupor mas, ao mesmo tempo, essa idéia o tranqüilizava. Ninguém o obrigava a tomar uma decisão. Não tinha necessidade de fixar os olhos no muro do prédio em frente e ficar se indagando se queria ou não viver com ela. Tereza tinha decidido tudo por si própria. Foi almoçar num restaurante. Sentia-se triste mas durante o almoço o desespero inicial diminuiu, como se tivesse perdido o vigor, só restando a melancolia. Deu uma olhada para trás, para os anos passados em companhia dela, e dizia a si mesmo que o caso deles não poderia ter terminado melhor. Se fosse inventado, não teria sido possível acabar de outra maneira. Um dia, Tereza chegou a sua casa sem ser convidada. Um dia, partiu da mesma maneira. Chegara com uma pesa da mala. Com uma pesada mala partira de volta. Pagou a conta, saiu do restaurante e foi dar uma volta pelas ruas, cheio de uma melancolia cada vez mais radiosa. Tinha atrás de si sete anos de vida com Tereza, e agora percebia que esses anos eram mais belos na lembrança do que no momento em que tinham sido vividos. O amor entre ele e Tereza era belo mas doloroso: era preciso sempre esconder alguma coisa, dissimular, fingir, retificar o que dizia, levantar-lhe o moral, consolá-la, provar continuamente que a amava, suportar as reclamações de seus ciúmes, de seu sofrimento, de seus sonhos, sentir-se culpado, justificar-se e desculpar-se. Agora, o esforço tinha desaparecido, e só ficara a beleza.
  32. 32. A noite de sábado começava, era a primeira vez que passeava sozinho em Zurique e aspirava profundamente o perfume da liberdade. A aventura espreitava-o em cada esquina. O futuro tornava-se de novo um mistério. Voltava à vida de solteiro, essa vida que anteriormente estava certo de ser o seu destino, pois era a única em que poderia ser tal qual era realmente. Vivera acorrentado a Tereza durante sete anos ela havia seguido com o olhar todos os seus passos. Era como carregar bolas de ferro amarradas nos calcanhares. No momento, subitamente, seu passo estava mais leve. Quase voava. Estava no espaço mágico de Parmênides: saboreava a doce leveza do ser. (Teria ele vontade de telefonar para Sabina em Genebra, de entrar em contato com uma das mulheres de Zurique que conhecera nos últimos meses? Não, não tinha a menor vontade. Sabia que, no momento em que se encontrasse com outra mulher, a lembrança de Tereza lhe causaria uma dor insuportável.) 15 Esse estranho encantamento melancólico durou até domingo à noite. Na segunda-feira tudo mudou. Tereza irrompeu no seu pensamento: sentiu o que se passara com ela ao escrever a carta de adeus; sentiu como suas mãos tremiam; podia vê-la segurando com uma das mãos a pesada mala e, com a outra, a correia de Karenin; imaginava-a girando a chave na fechadura do apartamento de Praga, e sentia em seu próprio coração a desolação que lhe aflorou ao rosto quando abriu a porta. Durante esses dois belos dias de melancolia, sua compaixão (essa maldição da telepatia sentimental) tinha se acalmado. A compaixão dormia como um trabalhador das minas num
  33. 33. domingo, depois de uma semana de dura labuta, para poder voltar a trabalhar com intensidade na segunda-feira. Tomas examinava um doente, mas era Tereza que ele via em seu lugar. Chamou-se à ordem: não pense nisso! Não pense! Dizia para si mesmo: estou doente de compaixão, e é por isso que é bom que ela tenha partido, e que não torne a vê-la. Não é dela que eu tenho de me libertar, mas da minha compaixão, dessa doença que não conhecia antigamente, cujo bacilo ela me inoculou. No sábado e no domingo Tomas tinha sentido a doce leveza do ser chegar a ele, vinda da profundeza do futuro. Na segunda- feira, sentiu-se aniquilado por um peso que jamais conhecera. Todas as toneladas de ferro dos tanques russos não eram nada comparadas com esse peso. Não existe nada mais pesado que a compaixão. Mesmo nossa própria dor não é tão pesada como a dor co-sentida com outro, pelo outro, no lugar do outro, multiplicada pela imaginação, prolongada em centenas de ecos. Ele se censurava, chamava-se à ordem para não ceder à compaixão, e a compaixão o escutava, baixando a cabeça como um culpado. A compaixão sabia que ela abusava de seus direitos, mas se obstinava discretamente o que fez com que, cinco dias após a partida de Tereza, Tomas anunciasse ao diretor da clínica (aquele mesmo que lhe telefonara todos os dias para Praga após a invasão russa) que tinha de voltar imediatamente. Estava com vergonha. Sabia que o diretor acharia sua conduta irresponsável e imperdoável. Teve mil vezes vontade de contar tudo a ele, de lhe falar de Tereza e da carta que ela deixara sobre a mesa. Mas não fez nada disso. O médico não teria podido ver na maneira de agir de Tereza senão um odioso comportamento de histérica. E Tomas não queria permitir que pensassem mal de Tereza. O diretor do hospital estava realmente ofendido.
  34. 34. Tomas levantou os ombros e disse: Es muss sein. Es muss sein. Era uma alusão. O último movimento do quarteto de Beethoven é composto sobre estes dois motivos: Muss es sein? (Tem de ser assim?) Es muss sein! (Tem de ser!) Es muss sein! (Tem de ser!) Para que o sentido dessas palavras ficasse absolutamente claro, Beethoven colocou antes do último movimento, a frase: Der schwer gefasste Entschluss a decisão gravemente medida. A alusão a Beethoven era, na verdade, para Tomas um meio de voltar a Tereza, pois fora ela quem o forçara a comprar os discos dos quartetos e das sonatas de Beethoven. Essa alusão era mais oportuna do que ele imaginava, pois o diretor era melômano. Com um sorriso sereno, res pondeu suavemente, imitando o som da melodia de Beethoven: Muss es sein? Tem de ser assim? Tomas disse mais uma vez: Sim, tem de ser! Ja, es muss sein! 16 Ao contrário de Parmênides, Beethoven considerava o peso como algo de positivo. Der schwer gefasste Entschluss , a decisão gravemente pesada está associada à voz do Destino ( Es muss sein! ); o peso, a necessidade e o valor são três noções
  35. 35. íntima e profundamente ligadas: só é grave aquilo que é necessário, só tem valor aquilo que pesa. Essa convicção nasce da música de Beethoven, se bem que seja possível (ou talvez provável) que ela seja mais da responsabilidade dos exegetas de Beethoven do que do próprio compositor; todos nós a compartilhamos de uma certa forma hoje em dia: para nós, o que faz a grandeza de um homem é ele carregar seu destino como Atlas carregava sobre os ombros a abóbada celeste. O herói de Beethoven é um halterofilista que levanta pesos metafísicos. Tomas dirigia-se para a fronteira suíça e imagino que um Beethoven triste e cabeludo regia em pessoa uma banda de bombeiros que tocava para suas despedidas na fronteira uma marcha intitulada Es muss sein! Mais tarde, depois de ter cruzado a fronteira tcheca, encontrou- se cara a cara com uma coluna de tanques russos. Foi obrigado a parar o carro num cruzamento e esperar uma meia hora até que atravessassem. Um horripilante motorista de tanque, vestido de preto, postara-se no cruza mento e dirigia o tráfego como se todas as estradas da Boêmia só pertencessem a ele. Es muss sein! Tem de ser assim , Tomas repetia para si mesmo, mas logo começou a ter dúvidas: teria mesmo de ser? Sim, tinha sido insuportável ficar em Zurique e imaginar Tereza sozinha em Praga. Mas quanto tempo ficaria atormentado por sua compaixão? Toda a vida? Um ano? Um mês? Ou só uma semana? Como podia saber? Como podia verificar? Em trabalhos práticos de física, qualquer aluno pode fazer experimentos para verificar a exatidão de uma hipótese científica. Mas o homem, porque não tem senão uma vida, não tem nenhuma possibilidade de verificar a hipótese através de
  36. 36. experimentos, de maneira que não saberá nunca se errou ou acertou ao obedecer a um sentimento. Estava nesse ponto de suas reflexões quando abriu a porta do apartamento. Karenin saltou-lhe ao pescoço e lambeu-lhe o rosto, o que facilitou o momento do reencontro. O desejo de se jogar nos braços de Tereza (desejo que sentiu ainda ao entrar no carro em Zurique) desaparecera por completo. Estava diante dela no meio de uma planície coberta de neve e os dois tremiam de frio. 17 Depois do primeiro dia de ocupação, os aviões russos voavam a noite toda no céu de Praga. Tomas se desacostumara desse barulho e não conseguia dormir. Virava de um lado para o outro ao lado de Tereza que dormia, e pensava no que ela lhe dissera alguns anos antes durante uma conversa insignificante. Falavam de seu amigo Z., quando ela declarou: Se não tivesse encontrado você, teria certamente me apaixonado por ele. Já nessa época, essas palavras haviam deixado Tomas numa estranha melancolia. Na realidade, compreendeu, subitamente, que fora por acaso que Tereza se apaixonara por ele e não por seu amigo Z. Além do seu amor por Tomas, que se consumara, havia no reino das possibilidades um número infinito de amores não-consumados por outros homens. Acreditamos todos que é impensável que o amor de nossa vida possa ser uma coisa leve, uma coisa imponderável; achamos que nosso amor é o que devia ser; que sem ele nossa vida não seria nossa vida. Convencemo-nos de que Beethoven em pessoa, triste e de cabelos revoltos, toca seu Es muss sein! para nosso grande amor.
  37. 37. Tomas lembrou-se do comentário de Tereza sobre seu amigo Z., e chegou à conclusão de que a história de amor de sua vida não estava colocada sobre Es muss sein! , mas antes sobre Es kõnnte auch anders sein : isso poderia muito bem ter acontecido de outra maneira... Sete anos antes, um caso difícil de meningite aparecera por acaso no hospital da cidade onde morava Tereza, e o chefe do departamento onde Tomas trabalhava havia sido chamado com urgência para uma consulta. Mas, por acaso, o chefe do serviço estava com ciática, impossibilitado de se mexer, e mandou Tomas em seu lugar a esse hospital de província. Havia cinco hotéis na cidade, mas Tomas hospedou-se por acaso no hotel em que Tereza trabalhava. Por acaso, tinha um momento disponível antes da partida do trem, e foi sentar-se no restaurante. Tereza por acaso estava trabalhando, e por acaso servia a mesa de Tomas. Foram necessários seis acasos para impelir Tomas até Tereza, como se, por conta própria, nada o tivesse conduzido até ela. Voltou para a Boêmia por causa dela. Uma decisão tão fatal repousava sobre um amor fortuito, que não teria mes mo existido se o chefe do departamento não tivesse tido uma ciática seis anos antes. E essa mulher, essa encarnação do acaso absoluto, estava agora deitada a seu lado, respirando profundamente em seu sono. Era muito tarde. Tomas sentiu que começava a ter dor de estômago, como acontecia em momentos de grande tensão. A respiração de Tereza mudou uma ou duas vezes para um suave ronco. Tomas não sentia mais a menor compaixão. Só sentia uma coisa: uma pressão no estômago e o desespero de ter voltado.
  38. 38. SEGUNDA PARTE A ALMA E O CORPO 1 De nada serviria o autor afirmar que seus personagens realmente existiram. Não nasceram de um corpo materno, mas de algumas palavras evocadoras ou de uma situação fundamental. Tomas nasceu de um ditado (Einmal ist keinmal), Tereza nasceu de ruídos de seu ventre. A primeira vez em que ela atravessou a soleira do apartamento de Tomas, suas entranhas foram tomadas por ruídos. Não é de espantar: ela não tinha almoçado nem jantado, contentando-se, ao final da manhã, com um sanduíche comido na estação antes de subir no trem. Com a idéia de sua audaciosa viagem esqueceu-se de comer. Mas, quando não cuidamos do corpo, tornamo-nos mais facilmente vítimas dele. Esse suplício de ouvir suas tripas tomarem a palavra no momento em que estava face a face com Tomas! Estava à beira das lágrimas. Passados dez segundos, felizmente Tomas abraçou-a, e ela pôde esquecer as vozes de seu ventre. 2 Tereza nasceu, portanto, de uma situação que revela brutalmente a irreconciliável dualidade do corpo e da alma, essa experiência humana fundamental. Num passado remoto, o homem deve ter ouvido com assombro o som de batidas regulares que vinham do fundo de seu peito, sem conseguir saber o que seria aquilo. Não podia identificar-se
  39. 39. com um corpo, essa coisa tão estranha e desconhecida. O corpo era uma gaiola e dentro dela, dissimulada, estava uma coisa qualquer que olhava, escutava, tinha medo, pensava e espantava- se; essa coisa qualquer, essa sobra que subsistia, deduzido o corpo, era a alma. Hoje, é claro, o corpo deixou de ser um mistério, sabemos que o que bate no peito é o coração, o nariz nada mais é que a extremidade de um cano que avança para poder le var oxigênio aos pulmões. O rosto nada mais é que o painel onde terminam todos os mecanismos físicos: a digestão, a visão, a audição, a respiração, a reflexão. Depois que o homem aprendeu a dar nome a todas as partes de seu corpo, esse corpo o inquieta menos. Atualmente, cada um de nós sabe que a alma nada mais é que a atividade da matéria cinzenta do cérebro. A dualidade da alma e do corpo estava dissimulada por termos científicos; hoje, isso é um preconceito fora de moda que só nos faz rir. Mas basta amar loucamente e ouvir o ruído dos intestinos para que a unidade da alma e do corpo, ilusão lírica da era científica, imediatamente se desfaça. 3 Ela tentava ver-se através do próprio corpo. Por isso, passava longos momentos em frente ao espelho. E, como temia ser surpreendida por sua mãe, esses olhares diante do espelho traziam a marca de um vício secreto. Não era a vaidade que a atraía para o espelho, mas o espanto de descobrir-se. Esquecia que tinha diante de si o painel dos mecanismos psíquicos. Acreditava ver sua alma se revelando sob os traços do seu rosto. Esquecia que o nariz é a extremidade
  40. 40. por onde entra ar para os pulmões. Via nele a expressão fiel de seu temperamento. Contemplava-se, longamente, e o que a contrariava era encontrar em seu rosto alguns traços da mãe. Olhava-se então com mais obstinação e dirigia sua vontade para se abstrair da fisionomia materna: fazer disso tábua rasa, e só deixar prevalecer aquilo que era ela mesma. Quando conseguia, era um momento embriagador. A alma subia à superfície do corpo, semelhante a uma tripulação que saísse do ventre de um navio, invadindo o tombadilho, agitando os braços, e cantando em direção ao céu. 4 Ela se parecia com a mãe, e não apenas fisicamente. Tenho às vezes a impressão de que sua vida foi um mero prolongamento da vida de sua mãe, da mesma forma que a trajetória de uma bola de bilhar é o prolongamento do gesto executado pelo braço do jogador. Onde e quando tinha nascido esse gesto que mais tarde se tornaria a vida de Tereza? Sem dúvida, no momento em que seu avô, comerciante de Praga, elogiou pela primeira vez a beleza da filha, mãe de Tereza. Mamãe tinha então três ou quatro anos e ele lhe dizia que ela parecia uma madona de Rafael. Ela nunca mais se esqueceu disso. Mais tarde, nos bancos do colégio, em vez de escutar o professor, ficava imaginando com que quadro se parecia. Quando chegou a época dos pedidos de casamento, teve nove pretendentes. Todos se ajoelhavam em circulo em torno dela. Ela ficava no meio, como uma princesa, e não sabia qual deles escolher: o primeiro era mais bonito, o segundo mais
  41. 41. espirituoso, o terceiro mais rico, o quarto mais esportivo, o quinto de uma família melhor, o sexto recitava versos, o sétimo viajava pelo mundo inteiro, o oitavo tocava violino e o nono era o mais viril dos homens. Mas todos se ajoelhavam do mesmo modo e todos tinham a mesma calosidade nos joelhos. Escolheu finalmente o nono, não porque fosse o mais viril, e sim porque na hora em que ela lhe segredava: Tome cuidado! Muito cuidado! , quando estavam fazendo amor, ele, de propósito, não ligava, de modo que ela teve de se apressar em escolhê-lo para marido, pois não encontrou a tempo um médico que quisesse lhe fazer um aborto. Assim nasceu Tereza. A família inumerável vinha de todos os cantos do país, debruçava- se sobre o berço e falava em tatibitate. A mãe de Tereza não falava em tatibitate. Pensava nos outros oito pretendentes e achava-os todos muito melhores que o nono. Como sua filha, a mãe de Tereza gostava muito de se olhar no espelho. Um dia notou rugas à volta dos olhos e disse a si mesma que seu casamento tinha sido um erro. Encontrou um homem nada viril, que tinha no seu passado várias trapaças e dois divórcios. Detestava os amantes com joelhos cobertos de calos. Tinha um intenso desejo de ajoelhar-se. Caiu de joelhos diante do trapaceiro e largou o marido e Tereza. O mais viril dos homens tornou-se o mais triste dos ho mens. Estava tão triste que, para ele, tudo era indiferente. Dizia em qualquer lugar, e em alta voz, tudo o que pensava, e a policia comunista, cansada de seus comentários incongruentes, interrogou-o, condenou-o e levou-o preso. Expulsa do apartamento selado pela justiça, Tereza foi para a casa da mãe. No fim de algum tempo, o mais triste dos homens morreu na prisão, e mamãe, seguida de Tereza, partiu com o trapaceiro, instalando-se numa pequena cidade ao pé das montanhas. O padrasto era empregado de escritório, mamãe trabalhava como balconista. Ela teve ainda três filhos. Depois, num dia em que se
  42. 42. olhava mais uma vez no espelho, percebeu que estava velha e feia. 5 Quando percebeu que havia perdido tudo, procurou um culpado. Todo mundo era culpado. Culpado tinha sido seu primeiro marido, viril e mal-amado, que não lhe dera ouvidos quando ela lhe sussurrava que tomasse cuidado. Culpado também, seu segundo marido, pouco viril e muito amado, que a carregara para longe de Praga, para uma pequena cidade de província e corria atrás de qualquer rabo de-saia, de modo que ela nunca parava de ter ciúmes. Contra esses dois maridos ela não tinha armas. O único ser humano que lhe pertencia e não podia escapar de suas mãos a refém que poderia pagar por todos os outros era Tereza. Aliás, talvez fosse verdade ter sido Tereza a responsável pelo destino da mãe. Ela: o absurdo encontro de um espermatozóide do mais viril dos homens e de um óvulo da mais bela das mulheres. Nesse segundo fatídico chamado Tereza, mamãe começava a maratona de sua vida desperdiçada. Mamãe, incansavelmente, explicava a Tereza que ser mãe é sacrificar tudo. Suas palavras eram convincentes por que expressavam a experiência de uma mulher que havia perdido tudo por causa de seu filho. Tereza escutava e acre ditava que o mais alto valor da vida era a maternidade, e que a maternidade era um grande sacrifício. Se a maternidade é o próprio Sacrifício, o destino de uma filha é a Culpa que jamais poderá ser resgatada.
  43. 43. 6 Tereza, é claro, ignorava o episódio da noite em que mamãe havia sussurrado ao ouvido do mais viril dos ho mens que tomasse cuidado. Sentia-se culpada, mas era uma culpa indefinida, como o pecado original. Fazia tudo para expiar essa culpa. Como mamãe a tirara do colégio, trabalhava como garçonete desde os quinze anos, e tudo que ganhava entregava à mãe. Estava disposta a tudo para poder merecer seu amor. Tomava conta da casa, ocupava-se dos irmãos e irmãs, passava o domingo inteiro esfregando e lavando. Era pena, pois no colégio era a aluna mais dotada da turma. Tinha vontade de educar-se, mas onde fazê-lo nessa pequena cidade? Enquanto lavava roupa, tinha um livro a seu lado no tanque. Virava as páginas e o livro ficava coberto de gotículas. Em casa, não existia pudor. Mamãe ia e vinha no apartamento em roupas de baixo, às vezes sem sutiã, às vezes completamente nua, nos dias de verão. Seu padrasto não andava nu, mas só ia ao banheiro quando sabia que Tereza estava no banho. No dia em que ela resolveu trancar a porta, mamãe fez uma cena: Quem você pensa que é? Você acha que ele vai arrancar um pedaço da sua beleza? (Essa situação mostra, com a maior clareza, que o ódio da mãe pela filha era mais forte que o ciúme que poderia ter do marido. A culpa da filha era imensa, até as infidelidades do marido nela estavam incluidas. Que seu marido olhasse Tereza com desejo, mamãe ainda podia admitir, mas não admitia que a filha quisesse se emancipar e ousasse reivindicar direitos, mesmo que fosse apenas o de se trancar no banheiro.) Um dia de inverno mamãe pôs-se a andar nua no quarto com a luz acesa. Tereza correu para abaixar a veneziana, de modo que a mãe não pudesse ser vista do prédio em frente. Ouviu-a rir às suas costas. No dia seguinte algumas ami gas foram visitar mamãe. Uma vizinha, uma colega da loja, uma professora do
  44. 44. bairro, e duas ou três mulheres que se reuniam regularmente. Tereza veio passar um momento com elas acompanhada do filho de uma das senhoras, um garoto de dezesseis anos. Mamãe imediatamente aproveitou para contar como Tereza quis proteger seu pudor. Ela ria, e todas as mulheres a imitavam. Depois disse: Tereza não quer admitir que o corpo humano possa mijar e peidar. Tereza ficou vermelha como um pimentão, mas mamãe prosseguiu: Que mal há nisso? E, imediatamente, ela mesma deu a resposta, dando sonoros peidos. Todas as mulheres riam. 7 Mamãe assoa estrepitosamente o nariz, conta às pessoas detalhes de sua vida sexual, exibe sua dentadura. Sabe deslocá-la com um movimento de língua surpreendentemente ágil, deixando o maxilar superior cair sobre os dentes de baixo num amplo sorriso; subitamente seu rosto adquire uma expressão sinistra. Seu comportamento não é senão um gesto brutal que nega sua juventude e sua beleza. Na época em que os nove pretendentes se ajoelhavam em circulo à sua volta, ela tomava um cuidado escrupuloso com sua nudez. Era em termos de seu pudor que calculava o preço de seu corpo. Se é despudorada agora, ela o é radicalmente com esse despudor, passa um risco solene sobre a vida e grita bem alto que a juventude e a beleza, que ela superestimara, não têm na realidade nenhum valor. Tereza me parece o prolongamento desse gesto, desse gesto de sua mãe despedindo para longe sua vida passada de mulher jovem e bela. (E se Tereza agora tem atitudes nervosas, se falta a seus gestos certa graça espontânea, não nos espantemos. Esse gesto solene de sua mãe, autodestruidor e violento, é ela, é Tereza.)
  45. 45. 8 Mamãe reclama justiça para si, e quer que o culpado seja punido. Insiste para que a filha fique com ela no mundo do despudor, onde a juventude e a beleza nâo têm ne nhum sentido, e onde o universo não é mais que um gigantesco campo de concentração de corpos idênticos e almas invisíveis. Agora podemos compreender melhor o sentido do vício secreto de Tereza e de suas longas e repetidas permanências diante do espelho. Era um combate com sua mãe. Era o desejo de não ser um corpo como outros corpos, mas de ver sobre a superfície de seu rosto a tripulação da alma surgir do ventre do navio. Não era fácil porque sua alma triste, medrosa, perturbada, escondia-se no fundo de suas entranhas, com vergonha de aparecer. Foi assim no dia em que viu Tomas pela primeira vez. Esgueirava-se por entre os bêbados no restaurante, seu corpo envergado sob o peso das canecas de cerveja que carregava numa bandeja, enquanto sua alma estava no buraco do estômago ou no pâncreas. Nesse momento ouviu Tomas chamá-la. Esse chamado era importante, pois partia de alguém que não conhecia nem sua mãe nem os bêbados de quem ela ouvia todos os dias comentários obscenos e nada originais. Sua condição de desconhecido elevava-o acima dos demais. E ainda uma coisa: havia um livro aberto sobre a mesa. Nesse café ninguém jamais abrira um livro sobre a mesa. Para Tereza, o livro era o sinal de reconhecimento de uma fraternidade secreta. Contra o mundo de grosseria que a cercava, não tinha efetivamente senão uma arma: os livros que pedia emprestados na biblioteca municipal; sobre tudo os romances: lia-os em quantidade, de Fielding a Thomas Mann. Eles não só lhe ofereciam a possibilidade de uma evasão imaginária, arrancando-a de uma vida que não lhe trazia nenhuma
  46. 46. satisfação, mas tinham também para ela um significado como objetos: gostava de passear na rua com um livro debaixo do braço. Eram para ela aquilo que uma elegante bengala era para um dândi do século passado. Eles a distinguiam dos outros. (A comparação entre o livro e a bengala elegante do dândi não é inteiramente exata. A bengala era o toque que distinguia o dandi, mas que tambem o transformava num personagem moderno e na moda. O livro distinguia Tereza das outras moças, mas a transformava numa pessoa fora de moda. E claro que ela era ainda muito jovem para poder captar o que havia de ultrapassado em sua pessoa. Achava idiotas os adolescentes que passavam por ela com rádios barulhentos. Não percebia que eram modernos.) Portanto, o homem que acabava de chamá-la era ao mesmo tempo desconhecido e membro de uma fraternidade secreta. Falava num tom cortês e Tereza sentiu sua alma projetar-se por todas as veias, todos os capilares, todos os poros, para ser percebida por ele. 9 Durante a viagem de volta de Zurique a Praga, Tomas sentiu-se mal com a idéia de que seu encontro com Tereza tivesse sido o resultado de seis acasos improváveis. Mas, muito pelo contrário, será que um acontecimento não se torna mais importante e carregado de significados quando depende de um número maior de circunstâncias fortuitas? Só o acaso pode ser interpretado como uma mensagem. Aquilo que acontece por necessidade, aquilo que é esperado e que se repete todos os dias, não é senão uma coisa muda. Somente o acaso tem voz. Tentamos interpretar o acaso como as ciganas
  47. 47. lêem no fundo de uma xícara o dese nho deixado pela borra do café. A presença de Tomas no restaurante foi para Tereza a manifestação de um acaso total. Estava sozinho numa mesa diante de um livro aberto. Levantou os olhos para ela e sorriu: Um conhaque, por favor. Nesse momento o rádio tocava uma música. Tereza foi buscar o conhaque no bar e girou o botão do aparelho para aumentar o volume. Havia reconhecido Beethoven. Ela o conhecera desde que um quarteto de Praga tinha vindo à pequena cidade fazer uma temporada. Tereza, como sabemos, pretendia se educar , foi ao concerto. A estava vazia. Viu-se sozinha com o farmacêutico e a mulher. Havia portanto um quarteto de músicos no palco, e um trio de ouvintes na sala, mas os músicos tinham tido a gentileza de não cancelar o concerto e de tocar só para eles, durante uma noite inteira, os três últimos quartetos de Beethoven. Em seguida, o farmacêutico convidou os músicos para jantar e chamou a ouvinte desconhecida para juntar-se a eles. Desse dia em diante Beethoven tornou-se para ela a imagem do mundo do outro lado , a imagem do mundo ao qual aspirava pertencer. No momento, enquanto voltava do balcão com um conhaque para Tomas, esforçava-se para decifrar esse acaso: como era possível que, no exato instante em que se preparava para servir um conhaque a esse desconhecido que lhe agradava, estivesse ouvindo uma música de Beethoven? O acaso tem suas mágicas, a necessidade não. Para que um amor seja inesquecível, é preciso que os acasos se juntem desde o primeiro instante, como os passarinhos sobre os ombros de São Francisco de Assis.
  48. 48. 10 Pediu a conta. Fechou o livro (sinal de identificação de uma irmandade secreta) e ela teve vontade de saber o que ele estava lendo. Você pode incluir isso na minha conta do hotel? perguntou ele. Claro. Qual é o número de seu quarto? Ele lhe mostrou uma chave presa numa placa de madeira em que havia um número seis escrito em vermelho. Que engraçado, você está no seis. O que existe de engraçado nisso? perguntou ele. Ela se lembrou de que no tempo em que morava em Praga na casa dos pais, antes do divórcio deles, o número do apartamento em que moravam era seis. Mas respondeu outra coisa (e não podemos deixar de admirar sua astúcia): Você está no quarto seis e eu termino meu trabalho às seis horas. E eu pego o trem às sete horas disse o desconhecido. Tereza não sabia mais o que dizer, entregou-lhe a nota para que assinasse e levou-a para a recepção. Quando terminou o trabalho ele já havia saído da mesa. Teria compreendido seu discreto recado? Saindo do restaurante, sentia-se nervosa. Em frente, no meio da pequena cidade suja, havia uma praça sombria, de vegetação esparsa, que para ela sempre tinha sido um oásis de beleza: era um gramado com quatro álamos, alguns bancos, um salgueiro e pequenos arbustos com flores amarelas. Ele estava sentado num banco amarelo de onde podia ver a entrada do restaurante. Era exatamente o banco em que ela se sentara na véspera com um livro sobre os joelhos: compreendeu
  49. 49. então (os pássaros do acaso pousaram juntos sobre seus ombros) que esse desconhecido lhe estava predestinado. Ele a chamou convidando-a para sentar-se a seu lado (Tereza sentiu a tripulação da alma invadir a ponte de ligação com seu corpo). Um pouco mais tarde, foi com ele até a estação, e no momento de deixá-la ele lhe entregou um cartão de visita com seu número de telefone: Se um dia desses você for a Praga... 11 Foi essa força dos acasos (o livro, Beethoven, o número seis, o banco amarelo da praça) mais do que esse cartão de visitas que ele lhe entregou no último momento que deu a Tereza a coragem de sair de casa e mudar de vida. Talvez tenham sido esses pequenos acasos (por sinal bem modestos e banais, dignos dessa pequena cidade insignificante) que acionaram seu amor, e que se transformaram na fonte de energia onde ela se abasteceu até o fim. Nossa vida quotidiana é bombardeada de acasos, mais exatamente encontros fortuitos entre as pessoas e os aconte cimentos aquilo que chamamos de coincidências. Existe co- incidência quando dois acontecimentos inesperados acontecem ao mesmo tempo, quando eles se encontram: Tomas aparece no restaurante no momento em que o rádio toca Beethoven. Na sua imensa maioria, essas coincidências passam completamente despercebidas. Se o açougueiro da esquina tivesse vindo sentar à mesa do restaurante em vez de Tomas, Tereza não teria notado que o rádio tocava Beethoven. (Se bem que o encontro de Beethoven com um açougueiro seja também uma curiosa coincidência.) Mas o amor nascente aguçou nela a percepção da beleza, e ela ja mais esquecerá essa música. Toda vez que a ouvir, tudo que acontecer em torno dela, nesse momento, ficará impregna do com seu brilho.
  50. 50. No princípio do pesado livro que Tereza carregava embaixo do braço no dia em que viera para a casa de Tomas, Ana encontra Vronsky em circunstâncias estranhas. Estão na plataforma de uma estação e alguém acabara de cair sob o trem. No fim do romance, é Ana que se atira sob um trem. Essa composição simétrica, onde o mesmo motivo aparece no começo e no fim, pode parecer até romântica . Admito que seja, mas somente com a condição de que romântico não signifique para você uma coisa inventada , artificial , sem semelhança com a vida . Porque é assim mesmo que é composta a vida humana. Ela é composta como uma partitura musical. O ser humano, guiado pelo sentido da beleza, transpõe o acontecimento fortuito (uma música de Beethoven, a morte numa estação) para fazer disso um tema que, em seguida, fará parte da partitura de sua vida. Voltará ao tema, repetindo o, modificando-o, desenvolvendo-o e transpondo-o, como faz um compositor com os temas de sua sonata. Ana poderia ter posto fim a seus dias de outra maneira. Mas o tema da estação e da morte, esse tema inesquecível associado ao nascimento do amor, atraiu-a no momento do desespero por sua sombria beleza. O homem inconscientemente com põe sua vida segundo as leis da beleza mesmo nos instantes do mais profundo desespero. O romance não pode, portanto, ser censurado por seu fascínio pelos encontros misteriosos dos acasos (como o encontro de Vronsky, de Ana, da estação e da morte, ou o encontro de Beethoven, de Tomas, de Tereza e do copo de conhaque), mas podemos, com razão, censurar o homem por ser cego a esses acasos na vida quotidiana, privando assim a vida da sua dimensão de beleza.
  51. 51. 12 Encorajada pelos pássaros do acaso que haviam pousado juntos sobre seus ombros, ela tirou uma semana de férias sem avisar a mãe, e subiu no trem. Ia sempre ao banheiro olhar-se no espelho, e implorar à sua alma que não abandonasse nem por um segundo a ponte de ligação com seu corpo nesse dia decisivo de sua vida. Enquanto se olhava, ficou com medo: sentiu que sua garganta estava irritada. Será que ia ficar doente justamente nesse dia fatídico? Mas não havia como recuar. Ela telefonou-lhe da estação e, no momento em que a porta se abriu, sua barriga de repente emitiu horríveis ruídos. Sentia vergonha. Era o mesmo que ter sua mãe na barriga e ouvi-la dar gargalhadas para estragar o encontro com Tomas. A princípio achou que ele fosse mandá-la embora por causa desses ruídos inconvenientes, mas ele tomou-a nos braços. Ficou grata por ele não se ter incomodado com esses ruídos, e abraçou-o com mais paixão ainda, os olhos velados de bruma. Em menos de um minuto estavam fazendo amor. Durante o amor, gritou. Já estava com febre. Era gripe. A extremidade que levava ar para seus pulmões estava vermelha e entupida. Depois, voltou outra vez com uma pesada mala onde havia amontoado todos os seus pertences, resolvida a nunca mais voltar para a pequena cidade de província. Ele convidou-a para ir à sua casa na noite seguinte. Ela passou a noite num hotel barato. Na outra manhã deixou sua mala no depósito da estação e durante todo o dia perambulou pelas ruas de Praga com Ana Karenina debaixo do braço. De noite tocou a campainha, ele abriu a porta; Tereza não largava o livro. Era como se este fosse seu bilhete de entrada para o universo de Tomas. Sabia que só tinha esse miserável bilhete como passaporte, e isso dava-lhe vontade de chorar. Para evitar o choro tornou-se loquaz, falava alto e ria. Mas como da outra vez, mal entrou, Tomas abraçou-a
  52. 52. e fizeram amor. Ela penetrou numa bruma, onde não havia nada que se pudesse ver, nada que se pudesse ouvir além de seu próprio grito. 13 Não era um grunhido nem um lamento, era realmente um grito. Gritava tão alto que Tomas afastou a cabeça de seu rosto, como se essa voz urrando em seu ouvido fosse estourar-lhe o tímpano. Esse grito não expressava sensualidade. A sensualidade é a mobilização máxima dos sentidos: um individuo observa o parceiro intensamente, procurando captar os seus menores ruídos, O grito de Tereza, ao contrário, queria anestesiar os sentidos impedindo-os de ver ou entender. O que urrava nela era o idealismo ingênuo de seu amor que queria ser a anulação de todas as contradições, a anulação da dualidade do corpo e da alma, e tal vez mesmo a anulação do tempo. Estaria ela de olhos fechados? Não, mas seus olhos não olhavam em direção alguma, olhavam o vazio do teto e, por instantes, virava violentamente a cabeça de um lado para o outro. Quando parou dé gritar adormeceu ao lado de Tomas, segurando-lhe a mão a noite inteira. Desde os oito anos adormecia com uma mão apertada na outra, imaginando segurar assim o homem que amava, o homem de sua vida. E portanto bem compreensível que segure com tanta força a mão de Tomas adormecido: para isso ela se preparara e treinara desde a infância. 14 Uma jovem que em vez de se educar tem de servir cerveja a bêbados e passar o domingo lavando a roupa suja de seus irmãos e irmãs, tem dentro de si uma imensa reserva de vitalidade,
  53. 53. inconcebível para pessoas que freqüentam a universidade e bocejam diante dos livros. Tereza lera mais do que elas, sabia mais do que elas sobre a vida, mas não se dava conta disso. O que diferencia aquele que estudou do autodidata não é a extensão dos conhecimentos, mas os diferentes graus de vitalidade e de confiança em si. O fervor com que Tereza, uma vez em Praga, atirou-se à vida era ao mesmo tempo voraz e frágil. Parecia temer que alguém pudesse lhe dizer um dia: O que é que você está fazendo aqui? Volte para o lugar de onde veio! Todo o seu apetite de viver estava suspenso por um fio: a voz de Tomas, que fizera subir às alturas a alma timidamente escondida nas entranhas de Tereza. Encontrou um emprego no laboratório fotográfico de uma revista, mas não se contentou com isso. Queria ela mesma tirar fotografias. Sabina, a amiga de Tomas, emprestou-lhe monografias de fotógrafos célebres, voltou a encontrá-la num café e explicou-lhe diante dos livros abertos o que cada fotografia tinha de original. Tereza escutou com silenciosa atenção, coisa que um professor raramente vê no rosto de seus alunos. Graças a Sabina, Tereza compreendeu o parentesco en tre a fotografia e a pintura, e obrigou Tomas a acompanhá-la a todas exposições. Em pouco tempo conseguiu publicar suas próprias fotografias na revista e deixou o laboratório para trabalhar entre os fotógrafos profissionais. Nessa noite, foram a um cabaré comemorar com amigos sua promoção; dançaram. Tomas entristeceu-se e, como Tereza insistisse em saber o que havia acontecido, ele confessou, quando enfim voltaram, que estava com ciúme porque a viu dançar com um colega seu. Será que fiz você ficar com ciúmes? repetiu essas palavras uma dezena de vezes, como se ele estivesse anunciando que ela ganhara o prêmio Nobel e não estivesse acreditando.
  54. 54. Segurou-lhe a cintura e pôs-se a dançar com ele pelo quarto. Não era absolutamente a dança mundana de há pouco na pista de dança. Era uma espécie de dança campestre, uma série de passos extravagantes. Levantava a perna muito alto, dava grandes saltos desajeitados, arrastando-o pelos quatro cantos do quarto. Infelizmente, dentro de pouco tempo ela, por sua vez, tornou-se ciumenta. Para Tomas, o ciúme dela não foi o prêmio Nobel, mas um fardo do qual só se viu livre um ano ou dois antes de morrer. 15 Enquanto ela desfilava nua em torno da piscina, ao lado de uma multidão de outras mulheres fluas, Tomas no alto, de pé dentro de uma cesta suspensa do teto, gritava, obrigava-as a cantar e a flexionar os joelhos. Quando uma mulher fazia um movimento em falso, ele a matava com um tiro de revólver. Gostaria de voltar mais uma vez a esse sonho: o horror não começava no momento em que Tomas dava o primeiro tiro. Desde o começo era um sonho atroz. Andar nua, com passo militar, entre outras mulheres nuas, era para Tereza a imagem típica do horror. No tempo em que morava com a mãe, não lhe era permitido trancar a porta do banheiro. Para sua mãe, essa proibição era uma forma de dizer-lhe: seu corpo é como todos os outros corpos; você não tem direito ao pudor; não tem razão para esconder uma coisa que existe de forma idêntica em milhares de exemplares. No universo de sua mãe, todos os corpos eram os mesmos, andavam a passo, um atrás do outro, num desfile interminável. Desde a infância, a nudez era para Tereza o sinal da uniformidade obrigatória do campo de concentração, o sinal da humilhação. Havia ainda um detalhe horrível no princípio do sonho: todas as mulheres tinham de cantar! Não somente seus corpos eram
  55. 55. idênticos, igualmente desvalorizados, simples mecanismos sonoros e sem alma, mas as mulheres ainda se alegravam com isso! Era a jubilosa solidariedade dos embrutecidos. Ficavam felizes de terem se livrado do fardo da alma essa ilusão da diferença, esse orgulho ridículo e de serem todas semelhantes. Tereza cantava com elas, mas sem alegria. Cantava porque temia que, se não o fizesse, as outras mulheres a matariam. Mas o que significava o fato de Tomas matá-las com tiros de revólver e elas caírem, sem vida, uma após a outra, dentro da piscina? As mulheres que se rejubilavam de serem inteiramente iguais e indiferenciáveis celebravam na realidade sua morte futura, e tornavam completa a semelhança entre si. O estampido do tiro não era, portanto, a conclusão feliz de seu macabro desfile. A cada tiro de revólver elas riam alegremente, e enquanto o cadáver deslizava lentamente sob a água, cantavam ainda mais alto. E por que era Tomas quem atirava? Por que queria também atirar em Tereza? Porque fora ele que pusera Tereza no meio dessas mulheres. Era isso que o sonho se encarregava de revelar a Tomas, já que Tereza não sabia, por si, como dizê-lo. Viera viver com ele para escapar do universo materno, em que todos os corpos eram idênticos. Viera viver com ele para que seu corpo se tornasse único e insubstituível. E eis que ele traçava um sinal de igualdade entre ela e as outras, beijando todas da mesma maneira, distribuindo as mesmas carícias, não fazendo nenhuma, nenhuma, mas nenhuma diferença entre o corpo de Tereza e os outros corpos. Ele a devolvia ao universo do qual pensara ter escapado. Ele a fazia desfilar nua com outras mulheres fluas.
  56. 56. 16 Tereza tinha três séries de sonhos que se sucediam. O primeiro, em que gatos eram torturados, falava dos sofrimentos por que passara. O segundo mostrava, com numerosas variações, imagens de sua execução. O último falava de sua vida depois da morte, vida em que sua humilhação se tornava eterna. Nos sonhos, não havia nada a decifrar. A acusação que faziam a Tomas era tão evidente que ele era forçado a calar-se e a acariciar, cabisbaixo, a mão de Tereza. Esses sonhos eram eloqüentes, mas, além disso, eram belos. Esse é um aspecto que escapou a Freud na sua teoria dos sonhos. O sonho não é apenas uma comunicação (às vezes uma comunicação codificada), é também uma atividade estética, um jogo da imaginação, e esse jogo tem em si mesmo um valor. O sonho é a prova de que imaginar, sonhar com aquilo que nunca aconteceu. é uma das mais profundas necessidades do homem. Eis aí a razão do pérfido perigo que se esconde no sonho. Se não fosse belo, o sonho poderia ser rapidamente esquecido. Mas ela voltava incessantemente a seus sonhos; repetia-os em pensamento, transformando-os em histórias fantásticas. Tomas vivia sob o encanto hipnótico da beleza angustiante dos sonhos de Tereza. Tereza, querida Tereza, parece que você se afasta de mim. Aonde quer ir? Todos os dias você sonha com a morte, como se realmente quisesse partir... disse-lhe um dia, à mesa de um bar. A luz do dia, a razão e a vontade retomavam o comando. Uma gota de vinho tinto escorria lentamente pelo lado do copo, e Tereza dizia: Tomas, não posso fazer nada. Compreendo tudo. Sei que você me ama. E bem sei que suas infidelidades nada têm de dramático...
  57. 57. Olhava para ele com amor, mas temia a noite que ia chegar, tinha medo de seus sonhos. Sua vida partira-se em duas. Ela era o joguete de uma luta entre a noite e o dia. 17 Aquele que deseja continuamente elevar-se deve esperar um. dia pela vertigem. O que é a vertigem? O medo de cair? Mas por que sentimos vertigem num mirante cercado por uma balaustrada? A vertigem não é o medo de cair, é outra coisa. E a voz do vazio embaixo de nós, que nos atrai e nos envolve, é o desejo da queda do qual logo nos defendemos aterrorizados. O cortejo de mulheres nuas em torno da piscina, os cadáveres no carro mortuário que se alegravam com o fato de que Tereza, como eles, estivesse morta, é o embaixo que a assusta e do qual ela já fugira uma vez, mas que a atraia misteriosamente. E a sua vertigem: ela ouve um chamado muito doce (quase alegre) que a convida a renunciar ao destino e à alma. É o chamado da solidariedade bestial e, nos momentos de fraqueza, tem vontade de se deixar levar por ele e voltar para sua mãe. Tem vontade de reunir na ponte de seu corpo a tripulação de sua alma; de descer e sentar-se entre as amigas de sua mãe; de rir quando uma de las solta um sonoro peido; de desfilar nua com elas em volta da piscina e de cantar. 18 É verdade que antes de deixar a família Tereza estava em luta com a mãe, mas não nos esqueçamos de que o amor que ela lhe dedicava era também um amor infeliz. Teria feito qualquer coisa pela mãe, se esta lhe pedisse num tom afetuoso. Era o fato de nunca ter ouvido esse tom que lhe dera forças para sair de casa.
  58. 58. Quando a mãe de Tereza compreendeu que sua agressividade não tinha mais poder sobre a filha, passou a mandar cartas chorosas para Praga. Queixava-se do mãrido, do patrão, de sua saúde, de seus filhos, e dizia que Tereza era a única pessoa que lhe restava na vida. Tereza acreditou estar ouvindo, enfim, a voz do amor materno, pela qual ansiava há vinte anos, e teve vontade de voltar. E essa vontade era ainda mais intensa porque se sentia fraca. As infidelidades de Tomas lhe revelavam de repente sua impotência, e desse sentimento de impotência nascia a vertigem, um imenso de sejo de cair. Mamãe lhe telefonou. Estava com câncer, dizia, e tinha apenas alguns meses de vida. Diante dessa notícia, o desespero em que Tereza mergulhara por causa das infidelidades de Tomas transformou-se em revolta. Traira a mãe, dizia a si mesma em tom de censura, por causa de um homem que não a amava. Estava pronta a esquecer tudo que a mãe lhe fizera. Agora podia compreendê-la. Estavam ambas na mesma situação. Mamãe amava o marido como Tereza amava Tomas, e as infidelidades do padrasto faziam-na sofrer exatamente como as de Tomas atormentavam Tereza. Se a mãe tinha sido cruel com ela era unicamente porque se sentia infeliz demais. Falou com Tomas sobre a doença da mãe e anunciou que iria tirar uma semana de licença para ir vê-la. Havia um desafio em sua voz. Adivinhando, sem dúvida, que era a vertigem que atraía Tereza para junto dainãe, Tomas lhe desaconselhou a viagem. Telefonou para o dispensário da pequena cidade. Na Boêmia, os dossiês dos exames de câncer são muito detalhados, e ele pôde verificar, facilmente, que a mãe de Tereza não tinha nenhum sintoma de câncer e que há mais de um ano não fazia uma consulta. Tereza obedeceu e não foi ver a mãe. Mas no mesmo dia caiu na rua; seu passo tornou-se hesitante; caía quase todos os dias,
  59. 59. esbarrava nas coisas ou, na melhor das hipóteses, deixava cair todos os objetos que tinha nas mãos. Sentia um desejo irresistível de cair. Vivia numa vertigem contínua. Quem cai diz: Levante-me! Pacientemente, Tomas a levantava. 19 Gostaria de fazer amor com você em meu ateliê como se fosse no palco de um teatro. Haveria pessoas em volta que não teriam direito de se aproximar mas que não poderiam tirar os olhos de cima de nós... À medida que o tempo passava, essa imagem perdia a crueldade inicial e começava a excitá-la. Muitas vezes, en quanto faziam amor, evocava essa situação falando nela baixinho ao ouvido de Tomas. Ela pensava que havia um meio de escapar da condenação que percebia nas infidelidades de Tomas: que ele a levasse para a casa das amantes! Com essa sutileza talvez seu corpo se tornasse de novo único e o primeiro entre todos. Seu corpo seria seu alter ego, seu segundo e seu assistente. Eles se abraçaram e ela murmurava: Vou despi-las para você, darei banho nelas e as levarei até você... Queria que ambos se transformassem em criaturas hermafroditas e que os corpos das outras mulheres se transformassem para eles num brinquedo comum. 20 Servir de alter ego em sua vida de polígamo. Tomas recusava-se a compreender isso, mas ela não podia se livrar dessa idéia e
  60. 60. tentava, cada vez mais, se aproximar de Sabina. Ofereceu-se para tirar uma série de fotografias de seus quadros. Sabina convidou-a para ir ao ateliê. Tereza enfim conheceu aquele imenso quarto com um grande divã quadra do no meio, como se fosse um estrado. E uma vergonha você nunca ter vindo aqui! disse Sabina mostrando-lhe os quadros encostados na parede. Apanhou um quadro antigo, que pintara quando era estudante. Representava uma fábrica de altos-fornos em construção. Pintara-o numa época em que a Escola de Belas- Artes exigia o realismo mais rigoroso (a arte não-realista era então considerada uma tentativa de subversão do socialismo), e Sabina, inspirada pelo gosto de aceitar desafios, esforçou-se por ser mais rigorosa do que os professores. Obedecendo ao estilo da época, o traço do pincel era imperceptível, o que dava a seus quadros a aparência de fotografias coloridas. Eu tinha estragado este quadro. Tinha deixado escorrer sobre ele tinha vermelha. A principio, fiquei furiosa, mas essa mancha começou a me agradar porque poderia ser vista como uma divisão, como se a fábrica não fosse uma verdadeira fábrica, mas apenas um velho cenário rachado em que a fábrica aparecia como uma ilusão. Comecei a me distrair com essa fenda, a aumentá-la, imaginando o que poderia ser visto através dela. Foi assim que comecei a pintar meu primeiro ciclo de quadros que chamei de cenários . Está claro que ninguém podia vê-los. Seria expulsa da escola. No primeiro plano havia sempre um mundo perfeitamente realista e, um pouco mais ao fundo, como atrás da cortina rasgada do cenário de um teatro, via-se alguma coisa a mais, algo de misterioso e abstrato. Fez uma pausa e acrescentou: Na frente ficava a mentira inteligível, por trás a verdade incompreensível.
  61. 61. Tereza escutava com aquela incrível atenção que um professor raramente vê no rosto de seus alunos e constatou que todos os quadros de Sabina, os antigos e os atuais, na realidade falavam sempre da mesma coisa, que eram todos o encontro simultâneo de dois temas, de dois mundos, que eram como fotografias nascidas de uma dupla exposição. Uma paisagem e ao fundo, em transparência, uma lâmpada de cabeceira acesa. Uma mão rasgando por detrás uma idílica natureza-morta com maçãs, nozes e um pinheiro de Natal iluminado. Sentia, de repente, admiração por Sabina e, como a pintora era uma pessoa muito afetuosa, essa admiração não estava contaminada de medo ou desconfiança e se transformou em simpatia. Quase esqueceu que tinha vindo tirar fotografias. Sabina teve de lembrá-la disso. Tirando os olhos dos quadros, viu o divã colocado como um estrado no meio do quarto. 21 Havia uma mesinha-de-cabeceira ao lado do divã e, em cima dela, um pequeno pedestal em forma de cabeça humana, um desses suportes que os cabeleireiros usam para colocar perucas. Em casa de Sabina esse suporte não estava com uma peruca e sim com um chapéu-coco. Sabina sorriu: Este chapéu-coco era do meu avô. Chapéu como aquele, preto,.redondo, duro, Tereza só vira no cinema. Charlie Chaplin estava sempre com um. Sorriu, pegou o chapéu e examinou-o longamente. Depois falou: Quer colocá-lo na cabeça para que eu tire uma fo tografia? Como única resposta, Sabina deu uma grande gargalhada. Tereza pôs de lado o chapéu-coco, pegou a máquina e começou a tirar fotografias.
  62. 62. Ao fim de certo tempo disse: E se eu fotografasse você nua? Nua? perguntou Sabina. É disse Tereza, repetindo corajosamente a proposta. Isso exige uma bebida disse Sabina, indo abrir uma garrafa de vinho. Tereza sentiu uma espécie de torpor e permaneceu calada enquanto Sabina andava pelo quarto de um lado para o outro, um copo de vinho na mão, falando de seu avô, que era prefeito de uma cidade do interior; Sabina não o conhecera. Tudo que restara dele era esse chapéu e uma fotografia em que se viam homens importantes numa tribuna um dos homens importantes era o avô de Sabina: não se sabia muito bem o que estavam fazendo ali, talvez estivessem inaugurando um monumento em memória de um outro homem importante que usava também um chapéu-coco nas ocasiões solenes. Sabina falou por muito tempo do chapéu-coco e do avô. Tendo esvaziado seu terceiro copo, falou: Espere um minuto! e desapareceu na direção ao banheiro. Voltou vestida com um quimono. Tereza apanhou a máquina e colocou-a em frente ao olho. Sabina abriu o quimono. 22 Para Tereza a máquina servia como olho mecânico para observar a amante de Tomas e de véu para dela esconder seu rosto. Foi preciso um bom momento para que Sabina se decidisse a tirar o quimono. A situação era mais difícil do que imaginara. Depois de ter posado alguns minutos, aproximou-se de Tereza e disse: Agora é minha vez de fotografar você. Tire a roupa!

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