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A empresa que vai construir, que vai receber essa tecnologia, esse projeto, não tem autonomia para criar, de repente, o si...
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Revista Au 208 lelé - minha casa minha vida

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Revista Au 208 lelé - minha casa minha vida

  1. 1. Pré-fabricação e montagem manual caracterizam os projetoshabitacionais criados por Lelé para o programa Minha Casa, MinhaVidaEstrutura metálica e argamassa armada compõem proposta de Lelé para o projetoMinha Casa, Minha Vida, e contempla edificações em encostasPor Cláudia Estrela Porto SLIDE SHOW DESENHOS FICHA TÉCNICAA notícia correu: Lelé foi convidado pela presidenta Dilma Roussef para rever eapresentar uma solução ao programa habitacional Minha Casa, Minha Vida. Conhecidopela Rede Sarah de Hospitais e Tribunais de Contas da União, um dos maioresespecialistas brasileiros na pré-fabricação apresentou, então, a proposta de um projetofacilmente exequível, no qual une invenção, funcionalidade, baixo custo e estética.Embora tenha inicialmente detalhado propostas para duas regiões de favelas de Salvador- a urbanização de Pernambués, com ocupação mista de apartamentos e casasgeminadas, e o conjunto habitacional para Cajazeiras -, as soluções podem ser adaptadasa qualquer parte do País. "O programa tem de levar em conta as diversas tipologiasbrasileiras, típicas de cada lugar, inclusive topográficas. No caso de Salvador, atopografia dificulta muito a implantação de um prédio convencional, conforme está sendofeito", explica. Desenvolvida e apresentada em janeiro, a proposta está ainda à esperada superação de entraves burocráticos para ser implementada.Até aqui, as propostas do Minha Casa, Minha Vida não contemporizavam as construçõesem encostas, e recebem críticas pela baixa qualidade e pelo custo elevado. Sãorealizadas por construtoras contratadas pela Caixa, que se responsabilizam pela entregados imóveis concluídos e legalizados. O programa Minha Casa, Minha Vida foi criado peloentão presidente Lula em 2009 com o intuito de construir 1 milhão de moradias, e metade erguer 400 mil unidades habitacionais no triênio 2009/2011 nas capitais estaduais erespectivas regiões metropolitanas, e municípios com população igual ou superior a 50mil habitantes. As unidades habitacionais, depois de concluídas, são vendidas semarrendamento prévio às famílias que possuem renda familiar mensal até 1.395 reais. Oprojeto, no entanto, não tem respondido bem à demanda.Após a tragédia da região serrana do Rio de Janeiro, onde centenas de pessoasmorreram devido ao deslizamento de terra provocado pelas chuvas, Dilma Roussefconvocou Lelé para trazer novas soluções, baseadas no programa funcional estabelecidopela Caixa Econômica Federal, com prédios de quatro pavimentos sem elevador eapartamentos econômicos com área útil de 39,60 m2.Lelé apresentou dois projetos. O primeiro, com 40 apartamentos, para terrenos planos eutilizando a tecnologia da construção, com uma minifábrica. "Mas não nos agrada pura esimplesmente fazer o prédio sem levar em conta o entorno. Esta primeira proposta teriauma praça com playground", detalha Lelé.O outro projeto, para Pernambués, inclui prédios e casas geminadas. Os dois projetostêm por princípio construtivo uma estrutura mista metálica com argamassa armada. Estaestrutura mista trabalha unida. Todas as peças, inclusive as metálicas, são montadasmanualmente. "A peça mais pesada, uma laje que vence 2,70 m de vão, pesa 86 kg, oque permite que duas pessoas a montem manualmente", explica Lelé. O sistema foidesenvolvido para evitar equipamentos como o bate-estaca, que o terreno nãosuportaria. "Você não pode estaquear, não pode colocar guindaste, grua, nada. Então,tudo tem de ser na mão, inclusive a estrutura metálica", explica.
  2. 2. A primeira fase é constituída de elementos em argamassa. A estrutura metálica seintegra, na concretagem, à argamassa armada da segunda fase. Com isso, consegue-seenxugar a estrutura. "Só como comparação: a Usiminas, que vai fornecer os perfis, fezuma proposta com o máximo de economia, conseguindo chegar a 27 kg/m2 de estruturametálica. Conseguimos, com o sistema misto, 19 kg/m2. Se considerarmos o preço daunidade de 40 m2, 28 mil reais, teríamos por volta de 700 reais o metro quadradoconstruído", explica Lelé.Esta proposta, além das unidades habitacionais, inclui creche, escola, área de lazer."Habitação não é só o lugar onde você mora, é um conjunto de coisas que fazem vocêsobreviver, inclusive o trabalho. Em Salvador, onde a economia informal tem um pesoforte, é impossível pensar em uma proposta como essa sem levar em consideração todosos parâmetros", avalia.Para não levar os moradores para longe, o objetivo é escolher terrenos livres, ao ladodas favelas. "O terreno ao lado de Pernambués, uma favela gigantesca que já estácomendo os terrenos pela beirada, é livre. O que estamos propondo: nas encostas,dividir em dois tipos de implantação. Uma implantação mais simples, já na cumeada,onde o terreno é plano. E nas encostas usar um tipo de implantação que permiteapartamentos de um, dois, três, quatro andares, da forma que é feito atualmente pelosmoradores." A proposta é cópia fiel da implantação usada nas favelas, em que cadaunidade se amplia verticalmente para se ajustar a eventuais mudanças do respectivoprograma familiar.Lelé pretende realizar o projeto pelo Instituto Brasileiro de Tecnologia do Habitat, semfins lucrativos, que criou há dois anos em Salvador, cujo objetivo, além da pesquisa, é arealização de obras públicas com a pré-fabricação. Segundo Lelé, um programa deabrangência nacional como este requer industrialização e qualidade, o que só seconsegue com tecnologia. E disso, ele entende.Proposta ConstrutivaExecução industrializada com estrutura mista em argamassa armada e chapas dobradasde aço SAC 300.Pré-lajes e paredes executadas em argamassa armada.Argamassa estrutural de segunda fase após a montagem das pré-lajes polida logo após afundição.Argamassa armada produzida em miniusinas montadas no canteiro.Divisórias externas com painéis duplos isolados entre si por lâminas de isopor.Divisórias entre apartamentos com painéis duplos isolados entre si por lâminas de lã derocha.Divisórias internas dos apartamentos em painéis duplos.Transporte manual dos componentes de argamassa armada - peso máximo 70 kg.Montagem da estrutura preferencialmente soldada.Parede sanitária visitável.Fiações visitáveis e executadas independentemente da montagem.Acabamento das paredes e tetos sem pintura.Esquadrias externas em chapas pré-pintadas de aço ou alumínio, dependendo da regiãoda implantação.ENTREVISTA - João Filgueiras Lima,LeléPor Cláudia Estrela PortoComo foi seu trabalho para o Minha Casa, Minha Vida?Fiz uma análise do programa para o caso de Salvador, onde a topografiadificulta muito a implantação de um prédio convencional, conforme estásendo feito. Além do mais, é uma violência terrível retirar uma populaçãosem poder aquisitivo que vive, melhor dizendo, sobrevive, graças aocomércio informal, do local onde mora, mesmo que seja uma favela feia, e colocá-la a 40 km de distância, onde se consegue um terreno plano para fazerum prédio. É uma violência, porque ela já tem as crianças nas escolas, há toda uma fórmula de vida. Habitação não é unicamente o espaço que você
  3. 3. um prédio. É uma violência, porque ela já tem as crianças nas escolas, há toda uma fórmula de vida. Habitação não é unicamente o espaço que vocêhabita, são as coisas todas que criam a sua vivência local, o trabalho que você tem, a escola de seu filho.A proposta não é tirar as pessoas do local, é refazer, com o apoio de uma fábrica. Estamos propondo uma urbanização com creche, escola, posto desaúde, próximo ao local onde as famílias vivem. Assim não haverá quebra na rotina da vida dessas pessoas, elas continuarão com o trabalho ao lado.De que forma a fábrica trabalharia?As casas têm de ser bem-feitas, industrializadas. Montaríamos uma miniusina em cada local, para atender a uma demanda de 300 unidades e umapopulação de 2 a 2,5 mil pessoas. A minifábrica, que pode ser desmontável e transportada para outro local, tem capacidade para fazer 40 apartamentosem 45 dias. As unidades devem ser flexíveis, para que possam crescer de acordo com o programa de necessidade de cada um. No programa atual deMinha Casa, Minha Vida se constrói uma unidade típica de 30 m2, 40 m2, e todos os membros da família têm de caber ali, sem levar em conta suasnecessidades.Qual é o sistema construtivo?Um sistema misto de aço com argamassa armada. Todo o sistema é uma espécie de palafita, distribuindo as habitações pelos patamares. As encostas deSalvador têm uma boa estabilidade, desde que você não faça movimento de terra. É o que eles fazem na favela: enfiam estacas de concreto, às vezes atéde madeira, e constroem as casas como se fossem palafitas. Nas encostas eles não fazem movimento de terra, porque são muito íngremes. Em umaencosta com a declividade de Salvador, se cortar ou aterrar, destrói-se a estrutura do terreno.São construções com até quatro pavimentos, como as que eles constroem hoje, e até com uma pequena oficina no quarto nível, pois essa população vivedo que produz em casa. A proposta contempla a forma de vida que eles adotam hoje, dando-lhes conforto. O bondinho sobre trilhos, por exemplo, leva osmoradores morro acima, evita que eles subam 40 metros feito cabritos.Quanto tempo levaria para ser construído?Montei um módulo mínimo de fábrica que permite fazer 40 unidades do tamanho médio, que corresponde a um apartamento de dois quartos, em 45 dias.Essa fábrica pode ser duplicada facilmente. Basta dispor de um terreno um pouco maior, sem acréscimo de equipamentos. Ela custa 220 mil reais, e comos mesmos 220 mil reais você só precisa aumentar o número de fôrmas. Se você dobrar as fôrmas que custam 40 mil reais, totalizando 260 mil reais, vocêdobra a produção para 80 unidades. Então, na proposta de construir 300 unidades com uma minifábrica, em seis meses você monta um tipo desuperquadra como as de Brasília.Quanto custaria?Atualmente, o programa Minha Casa, Minha Vida é desenvolvido pelas construtoras - o preço inicial era de 46 mil reais para uma habitação de 40 m2.Eles já pediram para aumentar para 52 mil reais, e agora estão pedindo para aumentar para 70 mil reais, dizendo que a infraestrutura puxa o preço paracima.Já o custo para a habitação de 40 m2 que estamos propondo, o preço de custo, sem BDI, sem lucro, é de 28 mil reais, e sem infraestrutura. No protótipode dois apartamentos para Cajazeiras, incluindo uma praça e playground para as crianças, se incluirmos o preço da fábrica e da infraestrutura, as unidadessaem por 46 mil reais. Se adotarmos este preço, o valor das 40 unidades seria de 1.840.000 reais. Mas conseguimos diminuir este custo. Vejamos: 40unidades a 28 mil reais cada, sai 1.120.000 reais. A fábrica custa 220 mil reais, a infraestrutura e a praça, 250 mil reais, totalizando 1.590.000 reais.Sobram 250 mil reais. Há algumas despesas não computadas, mas ainda fica abaixo de 1.840.000 reais. Ou seja: sobra dinheiro para outras construções.Fiz, inclusive, arrimos para criar áreas planas para as crianças brincarem.A presidenta já aprovou?Sim, desde janeiro, e está se empenhando ao máximo para a viabilização. Mas há o problema do repasse de verba da Caixa Econômica para o InstitutoHabitat, já que se trata de uma instituição sem fins lucrativos. Se fôssemos uma construtora, não haveria problema, tudo poderia ser feito mediantecontrato. Não interessa ao Instituto Habitat se transformar em empresa construtora, e sim fazer pesquisa. A sobrevivência de uma construtora é baseadano lucro. O Instituto tem como objetivo a pesquisa arquitetônica e a construção, conforme vínhamos fazendo todos esses anos no CTRS.As pessoas da comunidade poderiam trabalhar para fazer as suas próprias moradias, ou é necessário mão deobra qualificada?A gente qualifica a mão de obra num instante. A qualificação é pequena, porque, a rigor, trata-se de um jogo de armar que se aprende com rapidez. Lógicoque há os instrutores. O que estamos propondo é a racionalização da construção nos mínimos detalhes, nada é improvisado. Um tipo de construção que vaise multiplicando e que pode ser repassada para qualquer pessoa, e para as empresas.Há a possibilidade de expansão da moradia?É fundamental. Você pode ter uma moradia mínima, desde que seja também flexível. Estou propondo um espaço de 40 m2, que eu gostaria inclusive demobiliar. A flexibilidade permite uma melhor utilização do espaço, que pode se adequar às necessidades dos moradores.O projeto difere muito se construído na região plana ou nas encostas?Não, é o mesmo projeto. O mesmo elemento, o mesmo componente, a mesma estrutura. Não tem modificação, a fábrica executa os dois sistemas, nãoimportando o tipo de terreno. Mesmo nas encostas, pelo fato de ter muitos pilares metálicos, o sistema é leve, você pode fazer tudo com fundação direta.O mesmo para as construções na área plana.O princípio básico é não criar aterros, deixar o terreno como está. Se lá em cima você tem sempre uma pequena área plana, então você faz blocos. Aimplantação nas encostas é feita por patamares sucessivos, interligados por escadarias drenantes e elevador em plano inclinado, integrado aos transportesurbanos. O bondinho já foi criado e testado, e liga a cumeada ao vale, chegando à plataforma de acesso às casas. Esse é o elevador que fizemos na RedeSarah. Não tem mistério: é pendurado lá em cima, os trilhos vencem o vão.Qual a grande dificuldade para a implantação?A empresa que vai construir, que vai receber essa tecnologia, esse projeto, não tem autonomia para criar, de repente, o sistema de transporte. Irá construir
  4. 4. A empresa que vai construir, que vai receber essa tecnologia, esse projeto, não tem autonomia para criar, de repente, o sistema de transporte. Irá construiralgo, mas não tem autonomia para chamar um morador e dizer que a sua casa será substituída. Pressupõe-se que o setor público esteja organizado paraisso. Precisa existir alguém que diga ao cara que ele vai ser realocado, que vai morar melhor, há a necessidade de ajustar o programa de cada casa e tema questão da venda dos apartamentos. O esquema administrativo dificulta tudo, está desestruturado, não tem poder para fazer nada, a burocracia impera.Se o sistema for implantado em Salvador onde já existem barracos, os moradores não teriam de sair do sítio,não é?É o que eu estou propondo. Nestes locais você tem áreas verdes acopladas. Para a urbanização de Pernambués, por exemplo, existe uma área verde quenão está sendo usada. É perto da favela. Constrói-se ali, transfere-se a população, e segue construindo. Começa por uma área onde não tem ninguém etransfere os assentamentos na favela já construída. Há muitas áreas, é facílimo. É só você pegar uma faixa pequena e começar a realocar, e ir andando, irandando.OUR HOME, OUR LIFELelé was invited by President Dilma Roussef to renew and present a solution to the Minha Casa, Minha Vida(My Home, My Life) housing program. Even though he had originally detailed proposals for two slum regionsin Salvador - the Pernambués urbanization, with mixed occupation of apartments and townhouses, and theCajazeiras housing complex -, the solutions may be adapted to any part of the country. The proposal is stillawaiting bureaucratic obstacles in order to start. Lelé presented two projects. The first one, with 40apartments, is to be used in flat lots. The other project has as constructive principle a mixed metallic structurewith reinforced mortar. This mixed structure operates united. All the parts, including the metallic ones, areassembled manually. "The heaviest part, a slab covering a 2.70 m span, weighs 86 kilos, allowing two workersto assemble it manually", explains Lelé. The first phase consists of mortar elements. The metallic structureintegrates itself, during concreting, to the second phases reinforced mortar. This proposal, in addition to thehousing units, includes a day care center, a school, and a leisure area. "Home is not only where you live, it is acomplex of things that make you happy, including work. It is impossible to think of a proposal without takingall the parameters into consideration", she says.

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