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Renata minami

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Em parceria com a Professora Helena Abascal, publicamos os relatórios das pesquisas realizados por alunos da fau-Mackenzie, bolsistas PIBIC e PIVIC. O Projeto ARQUITETURA TAMBÉM É CIÊNCIA difunde trabalhos e os modos de produção científica no Mackenzie, visando fortalecer a cultura da pesquisa acadêmica. Assim é justo parabenizar os professores e colegas envolvidos e permitir que mais alunos vejam o que já se produziu e as muitas portas que ainda estão adiante no mundo da ciência, para os alunos da Arquitetura - mostrando que ARQUITETURA TAMBÉM É CIÊNCIA.

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  1. 1. Universidade Presbiteriana MackenzieA MEMÓRIA E A IDENTIDADE: UMA ANÁLISE DO FOCO NARRATIVO EMMAUSRenata Minami do Nascimento (IC) e Aurora Gedra Ruiz Alvarez (Orientadora)Apoio: PIVIC MackenzieResumoEste trabalho insere-se no campo da investigação literária, tendo como objeto de estudo o romancegráfico Maus, escrito e ilustrado pelo quadrinista norte-americano Art Spiegelman, que conta ahistória da violência nazista contra o povo judeu na II Guerra Mundial. A narrativa privilegia o ponto devista do pai do autor, Vladek Spiegelman, que sobreviveu parcialmente ao campo de concentração deAuschwitz. Neste artigo, propomos uma leitura da obra pelo viés do foco narrativo, com o intuito dedesvelar a identidade dos narradores, construída a partir das memórias narradas por Vladek efiltradas por Art, no desencadeamento do processo catártico de ambos, que se dá em umemocionante relato (auto)biográfico por meio de dois códigos – a imagem e a palavra. Acomplexidade da narrativa, portanto, também dos personagens, revela-se no trato da representaçãolinguística e psicológica de Vladek, das crises existenciais de Art, na construção das narrativaspictóricas e textuais de encaixe, no uso estratégico da antropomorfização para construir um universocapaz de representar o horror do que foi o Holocausto. Os recursos de expressão alocados para aconstrução da narrativa gráfica e o virtuosismo de Spiegelman no manejo dessa linguagemlegitimaram Maus como arte, depois do longo ostracismo a que as histórias em quadrinhos foramcondenadas pelo meio acadêmico.Palavras-chave: Maus; foco narrativo; dialogismo.AbstractThis work falls into the category of literary investigation, with the objective of studying the graphicnovel Maus, written and illustrated by the North American graphic novelist Art Spiegelman. It tells thestory of Nazi violence against the Jewish people during the Second World War. The narrative favorsthe point of view of the authors father, Vladek Spiegelman, a survivor of the Auschwitz concentrationcamp. In this article, we propose a reading of the novel influenced by the narrative focus, with theintention of disclosing the identity of the story-tellers. This identity is constructed from the memoriesrelated by Vladek and filtered by Art, triggering the cathartic process of both characters, which stemsfrom an emotional (auto) biographical account through the medium of two codes - image and word.The complexity of the narrative, however, and also of the characters, is revealed in the following ways:the linguistic and psychological representation of Vladek; the existential crises of Art; the constructionof embedded pictorial and textual narratives; and the strategic use of anthropomorphized characters tocreate a universe capable of representing the horror of the Holocaust. The expressive methodsemployed in the construction of the graphic narrative and the virtuosity of Spiegelmans use of thislanguage legitimizes Maus as a work of art, despite the lengthy ostracism that sequential art hasreceived from academia.Key-words: Maus; narrative focus; dialogism. 1
  2. 2. VII Jornada de Iniciação Científica - 20111. INTRODUÇÃOAs histórias em quadrinhos, doravante também referidas como HQs, foram desconsideradaspelo meio acadêmico por um longo período, mas com o surgimento do romance gráfico, noséculo XX, vimos nascer um novo gênero literário voltado para adultos, com temas epersonagens complexos, enredos bem trabalhados e uma narrativa visual e textual muitoelaborada.O corpus desse trabalho é o romance gráfico Maus, de Art Spiegelman, biografia que contacomo Vladek, pai do autor, sobreviveu ao Holocausto.Nossos objetivos são analisar o foco narrativo construído no supracitado romance gráfico,identificar e caracterizar os narradores e suas vozes, buscando resolver a questão de comoa memória (portanto, os traumas) colabora(m) no processo de reconstrução da identidadeevidenciado a partir da voz de dois narradores (Art e Vladek).Para a realização dessa pesquisa, serão utilizadas as formulações a respeito das estruturasnarrativas, de Tzvetan Todorov, como pilares teóricos para a análise das interações esobreposições narrativas que compõem o romance gráfico Maus, dado que ela se constróipor meio de uma macroestrutura – constituída pela relação entre o presente e o passado(por meio do flashback e das narrativas de encaixe) – e de uma microestrutura – constituídapelas diversas vozes que perpassam tais estruturas narrativas.Prestando suporte ao conteúdo da semiótica levantado para a realização desse trabalho, osestudos e teorias acerca da linguagem e da criação das histórias em quadrinhos serãovastamente utilizados, por se tratar de um texto verbo-pictórico. Além disso, serãoanalisadas as relações entre a imagem e a palavra na composição da narrativa. Para tanto,a escolha de um quadrinista completo e de excelência como o Will Eisner se fez óbvia, poisele é tido como o responsável pela criação do gênero literário em que Maus se enquadra –graphic novel.O trabalho se constrói através da análise qualitativa das vozes dos narradores, tanto notocante às propriedades narrativas textuais, quanto gráficas. Para corroborar os aspectosanalisados, foram selecionadas imagens do livro que estão inseridas ao longo do texto.Neste artigo, analisamos o foco narrativo de Maus, dividindo-o entre a narrativaautobiográfica construída por Art Spiegelman e o relato biográfico de seu pai, tendo como fiocondutor de tais análises a questão da constituição da identidade desses narradores. 2
  3. 3. Universidade Presbiteriana Mackenzie2. REFERENCIAL TEÓRICOAs histórias em quadrinhos, antes marginalizadas pelo meio acadêmico, ganham uma novavisibilidade com o surgimento da graphic novel ou romance gráfico.A classificação de Maus como um romance gráfico é o primeiro passo para aproblematização desse quadrinho, pois apesar de tal termo ter sido empregado pelaprimeira vez em uma publicação há 31 anos, é recente a boa acolhida no mercado, comrelação à sua distribuição e sua circulação.Ao Will Eisner, célebre ilustrador e quadrinista falecido em 2005, é conferida a criação dotermo graphic novel por ele ter sido o primeiro a utilizá-lo em seu livro “Contrato com Deus”(A Contract with God) e a tratar do assunto com um rigor, pode-se dizer, acadêmico. Sobretal gênero dos quadrinhos, Spiegelman utiliza uma metáfora visual que resume de formaeficiente o supracitado conceito – ele afirma “que faz [quadrinhos] para ler com marcador depáginas, e não em banheiro1”.Vindo de encontro com esse mundo reduzido das HQs, que predominou até a primeirametade dos anos 70 nos Estados Unidos, as novelas gráficas passaram a se ocupar emfazer uma história com uma narrativa mais complexa, polifônica, com episódios longos, comum rebuscamento intelectual dos temas, personagens, enredo e diálogos e, por fim, umtrabalho com textos e ilustrações “na direção de uma expressividade mais assumidamentepessoal” (PATATI, Carlos; BRAGA, Flávio, 2006, p. 89).Will Eisner, em seu livro Narrativas Gráficas: princípios e práticas da lenda dos quadrinhos,considera as graphic novels como a evolução das HQs, uma vez que elas têm “umanecessidade de sofisticação literária por parte do escritor e do artista maior do que nunca”(2008, p. 7). O renomado quadrinista norte-americano ainda salienta que “os quadrinhosprocuraram tratar de assuntos que até então haviam sido considerados como territórioexclusivo da literatura, do teatro ou do cinema. Autobiografias, protestos sociais,relacionamentos humanos e fatos históricos” (EISNER, 2008, p. 8), esses são alguns dostemas que passaram a fazer parte do universo das HQs.É desse contexto que emerge a obra Maus: A história de um sobrevivente, romance gráficoautobiográfico que foi escrito e ilustrado pelo quadrinista Art Spiegelman, que, antes de1 LUNA, Pedro de. Art Spiegelman abre seu baú. JB Online, Rio de Janeiro, 28 mar 2008. Disponível em: <http://www.jblog.com.br/quadrinhos.php?itemid=7844>. Acesso em: 10 out 2009. 3
  4. 4. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011iniciar seu projeto (auto)biográfico sobre o Holocausto, era um quadrinista conhecido porseus trabalhos no meio underground2.A graphic novel conta a vida e os percalços de Vladek Spiegelman, pai do autor da obra, umjudeu polonês sobrevivente do Holocausto e ex-prisioneiro do famoso campo deconcentração de Auschwitz. Não obstante a triste história de seu pai, Spiegelman vai além eacaba por retratar em seu livro sua conturbada relação com Vladek e o peso de carregar ahistória do povo judeu mesmo sem tê-la vivido.Art Spiegelman é tido, nos Estados Unidos, como um dos maiores quadrinistas da históriada arte sequencial norte-americana, justamente pela criação de Maus que é considerado umdivisor de águas no processo de legitimação dos quadrinhos ao patamar de arte, além deser visto como um dos melhores trabalhos da literatura sobre o Holocausto. Seusquadrinhos sempre tiveram um cunho político-pessoal com um humor, quando existente,ácido e uma constante representação da sordidez do mundo.Spiegelman é um artista com uma capacidade ilustrativa completamente variada que semolda à necessidade de expressão do quadrinho. Sobre o estilo escolhido em Maus, WillEisner pontua que: “O visual, acima de tudo, transmitia de maneira bastante apropriada aimpressão de que a arte havia sido criada num campo de concentração. Isso é narrativagráfica.” (2008, p. 160).Segundo Stephen Tabachnick (1993, p. 121), esse aspecto estilístico de Maus se dá,primeiramente, porque a ilustração é em preto-e-branco, o que nos leva a retomar ouniforme utilizado pelos prisioneiros dos campos de concentração, os jornais e os filmes empreto-e-branco sobre a Segunda Guerra Mundial (e produzidos durante esse períodohistórico) e sobre o episódio do Holocausto, além de não permitir que o leitor se evada daaspereza amarga do que foi esse Genocídio3 – as cores facilitariam a evasão.2 “Os quadrinhos adultos americanos, conhecidos como ‘underground comix’, começaram [...] a se popularizarnos anos 60. Eram HQs com conteúdo altamente subversivo, que lidavam com política, sexo, rock, drogas e [...]que faziam parte da contracultura e contestação hippie típica da década de 60. Afinal, eram tempos de ’amorlivre’ e guerra do Vietnã. [...] Porém, o Underground Comix não era necessariamente um sucesso de vendascapaz de se igualar aos quadrinhos mais comerciais. Não havia apoio financeiro das editoras [...]” (REAME;YANAZE; REGIS, 2005, p. 2-3. Disponível em: <http://www.fanboy.com.br/modules.php?name=News&file=article&sid=666>. Acesso em: 10 out 2009.)3 Tal palavra foi cunhada por Raphael Lemkin, advogado polonês de origem judia, pioneiro no campo do direitointernacional. Utilizou o termo ao se referir ao assassinato em massa de armênios pelos turcos em 1915. Essecrime e o Holocausto nunca foram considerados judicialmente genocídio, apesar de se enquadrarem em seu 4
  5. 5. Universidade Presbiteriana MackenzieSpiegelman, no entanto, não se atém somente às ilustrações em seu livro, ele faz uso dediagramas, mapas e fotos (reais) para tornar seu relato ainda mais pessoal, verossímil ehistórico.No tocante a Maus, ele levou 13 anos para ser finalizado, mas o trabalho diferenciadorendeu muito méritos a Spiegelman, pois, Tabachnick (1993, p. 154-162) ressalta em seuartigo que Maus ganhou nove prêmios, dentre eles os que mais se destacam são o The WillEisner Comic Industry Award4 e o Prêmio Pulitzer de Literatura, em 1992, – Maus foi o únicoromance gráfico até hoje a receber essa láurea – com o acréscimo ‘especial’, pois o comitêdo prêmio decidiu que a categoria existente, “quadrinho de jornal” (newspaper cartoon), nãoera apropriada para o livro, que foi considerado Literatura.Aliás, o enquadramento de Maus em uma categoria é algo problemático desde o início, pois,apesar de ser uma graphic novel, é a autobiografia de Art Spiegelman e a biografia de seupai. O Jornal norte-americano The New York Times o colocou na categoria de livros deficção mais vendidos, o que levou Art Spiegelman a redigir uma carta ao jornal solicitandoque seu livro passasse para a categoria de não-ficção, uma vez que se trata da narração defatos pessoais e não de uma história qualquer, fruto de sua imaginação.Maus se apresenta os conflitos da relação entre pai e filho, o questionamento sobre opróprio fazer artístico (metacomic), o receio de uma estereotipação do pai como judeu, ainsegurança de Art quanto à possibilidade de não conseguir fazer um livro que relatassecom autenticidade o que foi o Holocausto para seu pai, por ele não ter vivido tal horror e nãopoder sequer imaginar em seus piores pesadelos como teria sido.Pensando nas questões relacionadas ao “eu” em Maus, é imprescindível tratar do foconarrativo; afinal, é desta instância que o “eu” se constrói na história.Como dito anteriormente, em Maus, há dois narradores, Art e Vladek Spiegelman, quepodem ser reconhecidos, segundo a classificação de Friedman retomada por Ligia Leite emseu livro O foco narrativo, como “narrador-protagonista”. Leite (2002, p. 43) define essacategoria afirmando que “o NARRADOR, personagem central, não tem acesso ao estadomental das demais personagens. Narra de um centro fixo, limitado quase queexclusivamente às suas percepções, pensamentos e sentimentos”. Tanto Art, quanto Vladekconceito. (SCHWEIGHÖFER, Kerstin. Conferência na Holanda debateu o que é genocídio. Deutsch Welle,Alemanha, 09 dez. 2008. Disponível em: < http://www.dw-world.de/dw/article/0,,3860170,00.html>. Acesso em:18 nov. 2010.4 Também conhecido apenas como Eisner Award e é tida como a premiação máxima dos quadrinhosamericanos. Foi criada em resposta à descontinuidade do Kirby Awards em 1987. 5
  6. 6. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011narram os fatos ocorridos ao longo da narrativa a partir de suas percepções de mundo,sendo que cada um protagoniza as histórias por eles narradas.Os dois narradores revezam suas vozes ao longo do livro, fazendo com que o romancegráfico se construa sobre a estrutura da narrativa de encaixe, pois há uma narrativa dopassado (história de Vladek) inserida em outra narrativa do presente (história de Artie).Tzvetan Todorov, filósofo e linguista búlgaro, pontua sobre esse tipo de narrativa que [...] o encaixe é uma explicitação da propriedade mais profunda de toda narrativa. Pois a narrativa encaixante é a narrativa de uma narrativa. Contando a história de uma outra narrativa, a primeira atinge seu tema essencial e, ao mesmo tempo, se reflete nessa imagem de si mesma; a narrativa encaixada é ao mesmo tempo a imagem dessa grande narrativa abstrata da qual todas as outras são apenas partes ínfimas, e também da narrativa encaixante, que a precede diretamente. Ser a narrativa de uma narrativa é o destino de toda narrativa que se realiza através do encaixe. (2006, p. 126) Figura 1: Exemplo gráfico da inserção da narrativa de encaixe. (SPIEGELMAN, 2007, p. 101)A narrativa principal5 se inicia com a fala de Art Spiegelman traçando um sumário: “Fuivisitar meu pai em Rego Park. Não o via fazia tempo. Não éramos muito próximos” (2005, p.13). A narrativa secundária se inicia com o interesse de Art pela vida do pai, dizendo: “Euquero [ouvir sua história]. Comece pela mamãe... Como a conheceu?” (2005, p. 14).Por se tratar de uma autobiografia, Art narra a história de parte de sua vida de um lugar nopresente, o que leva a uma predominância dos tempos verbais do pretérito perfeito (falei,tentei), do imperfeito (fazia, davam) e do mais-que-perfeito do indicativo (envelhecera,casara). Sua narrativa é intercalada pela narrativa em flashback de Vladek, ora para Art5 A narrativa de Art Spiegelman será referida, nesse trabalho, como a principal apenas porque é ela quem inicia oromance gráfico, englobando a narrativa de Vladek, que é, portanto, considerada secundária. 6
  7. 7. Universidade Presbiteriana Mackenziesanar alguma dúvida proveniente do relato de seu pai, ora para trazer o leitor de volta aopresente da narrativa de Vladek (mas passado da narrativa de Art). Essa intercalação danarrativa de encaixe dinamiza o relato dos dois narradores e torna-o mais verossímil, pois oautor rompe com o fluxo cronológico da história narrada para, em geral, trazer uma situaçãode metacomic6, como é exemplificado no quadrinho abaixo: Figura 2: Vladek interrompe sua narrativa paraEnquanto na narrativa de Art teremos questões relacionadas ao fazer artístico dosquadrinhos e à dificuldade de ele se relacionar com o pai e com o peso do Holocausto, nade Vladek teremos uma narrativa em flashback, repleta de fotos, diagramas, mapas eilustrações esquemáticas de como se constituíam os bunkers ou de como consertar umcoturno, por exemplo. Foram analisadas as visões de cada narrador, levando em conta suasparticularidades.Por se tratar de uma autobiografia, o narrador-protagonista desta narrativa é também o autorda obra, fato revelado e assumido a partir do uso constante da metacomic.O que o narrador-protagonista dessa história traz são os conflitos de um judeu sueconaturalizado norte-americano, filho de judeus poloneses parcialmente sobreviventes aoHolocausto. Dizemos parcialmente, pois Artie, em uma conversa com sua esposa Françoise,quando esta diz “não. Tudo por que ele [Vladek] passou. É um milagre ter sobrevivido.”,responde “Arrã. Mas de certo modo não sobreviveu” (2007, p. 250), ou seja, o próprionarrador admite a morte parcial em vida de seu pai.6 No concernente à metalinguagem em histórias em quadrinhos, optamos por chamá-las metacomic ao invés demetaquadrinho, pois este é definido, segundo Eisner em Quadrinhos e arte seqüencial (2010, p. 65), comoaquele quadrinho que ocupa uma página inteira, também chamado de superquadrinho. Por metacomic pode-seentender aquele quadrinho que expõe uma situação do fazer quadrinhos. 7
  8. 8. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011Além disso, nos é relatado que a mãe de Artie, Anja, cometeu suicídio muitos anos depoisde sua passagem por Auschwitz. Este caso é contado em uma narrativa encaixada nanarrativa principal (ver figura 1), que se trata de um quadrinho escrito e ilustrado por Art,publicado em uma revista underground. Em Prisioneiro do planeta inferno: história de umcaso, temos Artie como um narrador-protagonista que relata em detalhes o suicídio de suamãe utilizando-se, para tanto, de ilustrações marcadamente pertencentes aoexpressionismo alemão7, como pode ser observado nas figuras 3 e 4. Há a predominânciados tempos verbais do pretérito perfeito e do imperfeito do indicativo, pois relata um fato jáocorrido e acabado. Figura 3: Ernst-Ludwig Figura 4: Art Spiegelman trabalha Kirchner, autorretrato, com a estética do expressionismo alemão em Prisioneiro do planetaNessa história, Artie se sente culpado pela morte materna, considerando-se um assassino,apesar de ponderar quem (ou quais) poderia(m) ser o(s) verdadeiro(s) culpado(s): Hitler?Depressão da menopausa? Ela mesma? Tais questionamentos vêm à luz em um únicoquadrinho que concentra todas essas indagações se entrecruzando, o que sugere aavalanche de pensamentos e sentimentos que afligiam Spiegelman naquele momento.7 Influenciada pela filosofia de Nietzsche e pela teoria de Freud, esta estética caracteriza-se pela manifestaçãoda subjetividade psicológica e emocional, expressa por meio de contraste de cores fortes, traços marcantes eimagens distorcidas – produtos do inconsciente. 8
  9. 9. Universidade Presbiteriana Mackenzie Figura 5: Art fica submerso em seus pensamentos.O quadrinho termina com Artie afirmando que a culpada era a própria mãe que o deixoulouco [“deu curto nos meus circuitos... Cortou minhas terminações nervosas... E cruzoumeus fios!...” (2007, p. 105)], matando sua sanidade ao cometer um crime pelo qual ele iriase sentir responsável, o que a tornaria, portanto, a verdadeira assassina.Porém, Spiegelman não acusa somente sua mãe, ele também acusa o pai de assassinato,mas por motivos distintos. Enquanto Anja é uma homicida por ter cometido suicídio, Vladeko é por ter aniquilado os diários em que Anja relatava o que foi o Holocausto para ela. Nosdois casos, é a morte da mãe (física em um, memorial em outro) que funciona comoelemento desencadeador da tensão de Art. Figura 6: Art acusa a Figura 7: Art acusa o pai de mãe de ser assassina matar as memórias da mãeNo caso de Vladek, ele se diferencia de Artie, porque, enquanto este se preocupa com suascrises existenciais, aquele se ocupa de sua condição de sobrevivente, vivendo à sombra doHolocausto e representando, como já dito anteriormente, o estigma do judeu. Vladek quer 9
  10. 10. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011economizar em todos os aspectos possíveis, é racista (há uma seqüência de quadros queilustram Vladek achando que iria ser roubado por um negro, apenas por ele ser negro) edesconfia de todos com quem convive, achando que querem roubar seu dinheiro ou lhecausar algum dano. Apesar de Vladek ter se casado, após a morte de Anja, com Mala,conhecida da família na Polônia e também sobrevivente do Holocausto, ele reclama paraArtie que ela só pensa em dinheiro e que apenas aguarda sua morte para poder ter acessoà herança.Esse comportamento desconfiado e materialista – estigma da judeidade8 – é justificado porVladek como culpa de Hitler que, durante a II Guerra Mundial, o privou de comida, bebida,roupas, calçados, itens de primeira necessidade: “[...] Desde Hitler, não gosto de jogar nadafora” (SPIEGELMAN, 2007, p. 238). Art, porém, põe em dúvida se Auschwitz foi realmente oresponsável por esse jeito de Vladek, dizendo que “[...] muita gente aqui é sobrevivente. Ostais Karp, por exemplo, talvez sejam pirados, mas é de um jeito diferente do Vladek.”(SPIEGELMAN, 2007, p. 182).No tocante à narrativa de Vladek, em flashback, há um fato lingüístico que diferencia seumodo de narrar do de Artie: aquele, por ser um judeu polonês radicado nos Estados Unidos,tem sua fala transcrita por meio de um português precário, ou seja, os verbos normalmenteestão no infinitivo (apesar de haver várias ocorrências de conjugação no pretérito perfeito eno imperfeito do indicativo), há uma confusão entre artigos definidos femininos emasculinos, além de haver uma recorrente elipse dos artigos indefinidos. Dessa forma,Vladek, no presente, portanto, na narrativa de Art, tem sua fala sempre transcrita com umportuguês de estrangeiro. Quando entramos na narrativa em flashback, porém, Vladekpassa a ter suas falas de diálogos transcritas num português adequado às normasgramaticais, não obstante, as intromissões do narrador, que fala de um tempo no presente,continuam a se dar por meio de um português notadamente de estrangeiro, como pode serobservado na figura abaixo.8 Segundo a postulação da historiadora e psicanalista francesa Elizabeth Roudinesco (2010, p. 18): “ser judeu,portanto, não é como ser cristão, porque, mesmo que um judeu abandone sua religião, ele continua a fazer partedo povo judeu e, portanto da história desse povo: é a sua judeidade, sua identidade de judeu sem deus, poroposição à judaidade dos que permanecem religiosos”. 10
  11. 11. Universidade Presbiteriana Mackenzie Figura 10: A diferença lingüística na representação da fala de Vladek no passado e no presente. (SPIEGELMAN,Isso se dá porque no flashback, Vladek está na Polônia, falando polonês, por isso não háuma motivação para haver o falar de estrangeiro. Por meio dessa diferenciação lingüística,percebemos os diferentes tempos de onde o narrador-protagonista fala.A narrativa de Vladek apresenta, portanto, um relato extremamente objetivo, porém muitodescritivo com um caráter documental. Os capítulos do segundo volume de Mausdescrevem os meses vividos em Auschwitz, período de busca por comida, camas, abrigo,roupas, etc. Nessa perspectiva, impressiona, além do supracitado caráter documental daobra, o distanciamento que Vladek mantém das mortes e horrores vivenciados.Enclausurado em sua própria experiência, essa desconexão emocional dos perigos e dosassassinatos lá testemunhados, aprofundam o relato recriado por Spiegelman.MÉTODOA pesquisa teórica deu sustentação ao exame do romance gráfico Maus, mediante a análisedas narrativas visual e textual, com predominância da última, devido ao objetivo deinvestigar o foco narrativo da obra.A seleção das imagens utilizadas no trabalho seguiu o critério da necessidade dedemonstrar como alguns aspectos da narrativa textual se construíam na narrativa visual.Além disso, foram consultados referenciais teóricos que permitiram que a investigação fosserealizada, corroborando ou fornecendo embasamento teórico para a pesquisa.RESULTADOS E DISCUSSÃOSpiegelman parece vivenciar um processo catártico enquanto está escrevendo e ilustrandoseu livro, pois com as entrevistas com seu pai, Art descobre a história de sua família, 11
  12. 12. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011portanto sua gênese, e aproxima-se de Vladek de quem ele sempre foi distante (fatorelatado no início da HQ), ou seja, essa autobiografia passa a ser, mais do que uma ponteentre pai e filho, um espelho da vida de Art que o leva a questionar o seu ser e o fazerartístico, conduzindo-o a uma jornada rumo ao autoconhecimento.A auto-análise do ser em Art Spiegelman é o fio condutor do fazer, porque é por ter umaidentidade sabidamente fragmentada que Art quer criar sua autobiografia, como umaespécie de acerto de contas com sua história e com a de seus pais. O autor sente-se inferiora seu irmão Richieu, porque enquanto aquele nasceu no pós-guerra, este não sobreviveu aoHolocausto, o que o levou a ser o filho ideal para seus pais, pois se tornou apenas umalembrança e uma “grande foto meio apagada”, na parede do quarto de seus pais – “Dámedo ter ciúmes de um irmão que é só uma foto” (2007, p. 175).O fazer se dá pelo desejo inicial de Art de construir um livro que contasse a história desobrevivência de seu pai. Para transformar esse relato em quadrinhos Art Spiegelman optapela antropomorfização parcial, ou seja, retrata todas as personagens com a cabeça de umanimal, mas com corpos humanos. Para isso decidiu que cada povo, cada etnia, deveria serum espécie diferente. A metáfora mais óbvia foi também a mais adequada – os judeus sãoratos e os alemães são gatos.O autor de Maus não lançou mão da tão conhecida metáfora apenas porque é sensocomum que os gatos perseguem os ratos. Segundo Paulo Pato (2007, p. 126), Spiegelmanopta por essa metáfora porque os nazistas se referiam aos judeus como ratos e tambémporque ela representa a eterna luta do mais fraco contra o mais forte, o que demonstra que,nessa HQ, as personagens afastam-se da iconicidade, pois desempenham uma funçãosimbólica. Maus possui um evidente recorte semiótico, pois cada personagem assume umpapel determinado no universo da trama, em que a imagem representada é vista comoreflexo ou expressão de um contexto histórico e social, representando os conflitos ocorridosna II Guerra Mundial e, particularmente, no Holocausto, que demonstram, na perspectivabakhtiniana, “um vasto espaço de luta entre as vozes sociais”. [...] toda imagem artístico-simbólica ocasionada por um objeto físico particular já é um produto ideológico. Converte-se, assim, em signo o objeto físico, o qual, sem deixar de fazer parte da realidade material, passa a refletir e a refratar, numa certa medida, uma outra realidade (BAKHTIN, 2004, p. 31).Justificando a escolha pela antropomorfização, Tabachnick (1993, p. 158) explica queSpiegelman achou que um estilo realista, ilustrando pessoas ao invés de animais, seriainjusto, pois ele não viveu a história contada, o que faria com que ele não a retratasse comautenticidade; além disso, Spiegelman receou que, retratando todos como humanos,passaria a impressão de um panfletário “lembre-se dos seis milhões de judeus mortos no 12
  13. 13. Universidade Presbiteriana MackenzieHolocausto”. Então, optou pela antropomorfização. O quadrinista declarou também que aantropomorfização passava a idéia de que os humanos foram rebaixados à condição dosanimais, além de o Holocausto ter sido um episódio terrível demais para ser reproduzidosem máscaras.A metáfora proposta por meio da antropomorfização transcende a ilustração daspersonagens como animais e alcança o ato da nominação. Spiegelman escolheu como títuloda obra o nome Maus9, que, traduzido do alemão, quer dizer rato. Ao entrarmos no livro,percebemos que o autor manteve a metáfora inclusive nos títulos de alguns capítulos, como,por exemplo, o quinto capítulo da primeira parte que se chama “Buraco de ratos”; o capítuloseguinte, “A ratoeira” e, por fim, o primeiro capítulo da segunda parte, “Mauschwitz”.Ainda sobre o fazer de Spiegelman, há um quadrinho em que a antropomorfização e ametacomic se encontram, levando ao máximo as duas categorias, pois o narrador-protagonista se questiona sobre como representar sua esposa, Françoise, que é umafrancesa convertida ao judaísmo. O questionamento se dá tanto na esfera textual, quanto napictórica. Segundo Pato (2007, p. 128-129), as escolhas de animais para simbolizar asdiferentes nacionalidades [...] deixam transparecer uma dinâmica de referências e contrastes em relação aos vários discursos ideológicos historicamente construídos pelas nacionalidades, demonstrando que as imagens precisam ser vistas a partir de um contexto de um processo discursivo e não mimético – neutro e transparente.Na figura 8 (abaixo), Françoise já aparece retratada como rata, mas vemos Artexperimentando outros animais para ela, pois, Spiegelman não deseja criar um retrato desua esposa, e sim instituir um símbolo que representasse mais do que sua esposa, osfranceses, considerando, para tanto, os longos anos de anti-semitismo que existiram naFrança. Ao contrário, Françoise deseja ser retratada de forma que mantenha suaindividualidade, repudiando ser enquadrada em um estereótipo, porque deseja manter suahistória, independentemente da história da França.Nessa perspectiva, podemos considerar que, em se tratando de dialogismo, [...] a posição da qual se narra e se constrói a representação ou se comunica algo deve nortear-se em face de um universo de sujeitos isônomos, investidos de plenos9 Uma curiosidade sobre o título da obra é que, apesar de ela ter sido traduzida para cerca de 30 línguas, o títulocontinua sendo Maus em todas, não tendo sido nunca traduzido. (COZER, Raquel. “Desenhar é sempre umaluta”, diz Art Spiegelman. Folha Online. São Paulo, 01 dez. 2009. Disponível em:<http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u659470.shtml>. Acesso em: 20 ago. 2010). 13
  14. 14. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011 direitos, um mundo de consciências individuais caracterizado por forte grau de autonomia e vida própria, pois a consciência do autor não transforma a consciência dos outros – das personagens – em objetos de sua própria consciência e de seu discurso [...]. (BEZERRA, 2005, p. 195). Figura 8: Antropomorfização e metacomic se confluem em um quadro para sanar a dúvida “Como desenhar Françoise?” (2007, p. 171)Para retratar o disfarce de um judeu em um polonês e reforçar a relação simbólica entre asrepresentações das nacionalidades e as faces de animais, Spiegelman brinca com suaprópria metáfora e, para isso, coloca uma máscara de porco no rato.Dessa forma, ele torna a diferença evidente e, para Vladek se disfarçar de polonês comsucesso, faz uso desse artifício externo, a máscara, o que acaba por ser mais uma bemsucedida ironia do quadrinista judeu naturalizado americano. 14
  15. 15. Universidade Presbiteriana Mackenzie Figura 9: Art se vale de uma máscara de porco para disfarçar as diferenças fenotípicas dos judeus e dos demais, no caso, dosA antropomorfização de Spiegelman ao visar o rebaixamento do homem à condição deanimal irracional objetiva elucidar a sordidez do que foi o Holocausto para VladekSpiegelman, destruindo a idéia de que a representação da personificação dos animaisconstitui uma fábula. Spiegelman produz, dessa forma, um texto sincronizado com asimagens relatando a maior barbárie do século XX, porém em quadrinhos, o que o leva aquestionar a validade de sua criação, expondo mais uma vez sua identidade aindafragmentada.No segundo capítulo do segundo livro de Maus, Spiegelman prossegue com a fragmentaçãodo eu, iniciando uma concatenação de idéias que funde a morte do pai, com sua estadia emAuschwitz, com a realização do livro, com a vida pessoal de Artie, com o Holocausto e osucesso da graphic novel. Como Spiegelman faz ao longo de todo o livro, as narrativasvisual e textual caminham juntas. Sendo assim, temos nessa cena um Art Spiegelmanhumano, vestindo uma máscara de rato, cercado por moscas, debruçado em sua mesa dedesenho. O último quadrinho da página nos mostra o porquê das moscas: Art está em cimade um monte de corpos de judeus mortos. O sucesso do livro em torno da temática doHolocausto deprime o autor-narrador que já não sabe mais o motivo de ter feito seu livro ese sente mais um a tratar do genocídio dos judeus e ganhar notoriedade com isso, oresponsável por tornar a tragédia de sua família em um sucesso de público e crítica –Spiegelman demonstra que o seu eu é, na verdade, um constante conflito entre o ser e ofazer, constituindo uma identidade fragmentada porque incapaz de lidar, no presente, com opassado seu, de seu povo e de sua família.Já, no caso de Vladek, ele expõe, ao longo da narrativa, sua fragilidade com relação às suasmemórias por meio da tentativa de esquecê-las. Por isso queima os diários de Anja nummomento de muita tristeza: “Depois que Anja morre tive que fazer ordem em tudo... Essespapéis tinha memória demais. Queimei.” (SPIEGELMAN, 2007, p. 161). Ele também conta,ao ser indagado por Artie se ele ainda guardava alguma carta trocada com um francês com 15
  16. 16. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011o qual ele ficou preso, que as queimou junto com os cadernos de Anja e explica tristementeque “tudo coisas do guerra tentei tirar do cabeça para sempre... Até você reconstruir issotudo com suas perguntas” (SPIEGELMAN, 2007, p. 258).Aqui, o emprego do verbo “reconstruir” é revelador na fala de Vladek, pois este acredita terdestruído todas as memórias de suas vivências do Holocausto quando, em um ato único,queima os cadernos e as cartas com as memórias dos fatos e pessoas desse período;também acredita que é Artie através de suas perguntas quem reconstrói as lembranças daguerra, como se essas fossem dissociáveis dele. Nessa perspectiva, pode-se afirmar que,para Vladek, o testemunho, ainda que fragmentado, limitado, paradoxal, é uma forma dereviver o passado, mesmo que de forma fragmentária e imperfeita.É por meio do relato de Vladek que temos uma narrativa que constrói a figura do heróiépico. Spiegelman alcança essa construção ao ilustrar a história de sobrevivência de seupai, mas não de uma sobrevivência ordinária, e sim de uma sobrevivência ao maiorgenocídio da história.Vladek representa a síntese entre a subjetividade da história individual e o sentido épico dahistória coletiva. A passagem do plano exclusivamente individual para a esfera do coletivodá-se por meio de uma peripécia que é a instauração do regime nazista. A partir daí, apersonagem se revela um novo homem, pois passa a lutar pelo bem comum – apesar deaparentemente se tratar de uma luta pela sobrevivência do indivíduo Vladek, este se apóia eajuda outros judeus nessa luta de um povo contra um regime autoritário – com as armas deum herói extraordinário, ou seja, pela sapiência, pela inteligência, pela capacidade deargumentar (e no caso específico de Vladek, pelo seu conhecimento básico de línguainglesa).Este, ao sobreviver ao Holocausto, não representa um indivíduo sobrevivente, mas a vitóriado povo judeu, no aspecto tocante à judeidade, ao nazismo, representando, portanto, nãomais um herói qualquer, mas um herói coletivo, porque portador dos anseios e valores deum povo, de uma cultura.Esse herói épico, que enfrentou Auschwitz e superou Hitler, encerra seu relato biográfico daguerra de forma ingênua e frágil, dizendo, após seu reencontro com Anja, “Mais, não precisacontar. Nós foi muito feliz, e vive feliz, feliz para sempre” (SPIEGELMAN, 2007, p. 296),Spiegelman demonstra que seu pai edita e altera suas memórias, na medida em que moldacertos relatos e lembrança de forma equivocada. Dizemos ingênua porque Spiegelman nosdeixa saber que Anja nunca superou o que testemunhou nos campos de concentração,tanto que cometeu suicídio em 1968. 16
  17. 17. Universidade Presbiteriana MackenzieApós uma pausa, Vladek pede para que a gravação seja encerrada e diz: “Estou cansadode falar, Richieu. Chega de histórias por hoje...” (SPIEGELMAN, 2007, p. 296). Com essafrase dita por Vladek, Spiegelman corrobora a idéia de imperfeição da memória diante daconvalescença do pai, da passagem do tempo e do trauma do que foi vivenciado noscampos nazistas. Parece que os narradores, Vladek e Art, não mais conseguiriam buscaruma lógica de discurso capaz de narrar os horrores que nem as palavras nem a memóriaconseguiriam reviver de forma coerente.Vladek não se constitui um eu fragmentado, como Art, mas constitui um eu destruído pelohorror da guerra que, mesmo depois de ter acabado, tirou as vidas daqueles que nãopuderam suportar as memórias.CONCLUSÃOApós a realização da pesquisa, concluímos que o metacomic e a antropomorfização foramos aspectos mais estudados, porque eles revelam a subjetividade do processo de criaçãoelaborado por Spiegelman, demonstrando uma riqueza antropológica tanto na esfera textual,quanto na gráfica, característica das graphic novels.Por meio da análise do foco narrativo de Maus, objetivou-se construir a compreensão daidentidade que emerge nessa narrativa dialógica e polifônica, chegando a um entendimentodo sujeito que mediante a forma atinge a esfera da representação social do drama vividopelo povo judeu no Holocausto e dos reflexos dessa tragédia nos sobreviventes e em seusdescendentes.REFERÊNCIASBAKHTIN, Mikhail Mikhailovitch. Problemas da poética de Dostoiévski. 4. ed. TraduçãoPaulo Bezerra. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008._________ (VOLOCHINOV, V. N.). Marxismo e filosofia da linguagem: Problemasfundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. Tradução Michel Lahud eYara Frateschi Vieira. 11. ed. São Paulo: Hucitec, 2004.BEZERRA, Paulo. Polifonia. In: BRAIT, Beth (org.). Bakhtin: conceitos-chave. São Paulo:Contexto, 2005.COZER, Raquel. “Desenhar é sempre uma luta”, diz Art Spiegelman. Folha Online. SãoPaulo, 01 dez. 2009. Disponível em:<http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u659470.shtml>. Acesso em: 20 ago. 2010 17
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