Melissa maria

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Em parceria com a Professora Helena Abascal, publicamos os relatórios das pesquisas realizados por alunos da fau-Mackenzie, bolsistas PIBIC e PIVIC. O Projeto ARQUITETURA TAMBÉM É CIÊNCIA difunde trabalhos e os modos de produção científica no Mackenzie, visando fortalecer a cultura da pesquisa acadêmica. Assim é justo parabenizar os professores e colegas envolvidos e permitir que mais alunos vejam o que já se produziu e as muitas portas que ainda estão adiante no mundo da ciência, para os alunos da Arquitetura - mostrando que ARQUITETURA TAMBÉM É CIÊNCIA.

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  1. 1. Universidade Presbiteriana MackenzieA MULHER NO UNIVERSO MASCULINO DO ROMANCE POLICIAL: LE CRIMEDE ROULETABILLE – UMA OBRA POUCO CONVENCIONALMelissa Maria da Silva de Lima (IC) e Glória Carneiro do Amaral (Orientadora)Apoio: PIBIC Mackenzie/MackPesquisaResumoEste artigo visa apresentar a análise do papel da personagem feminina no romance policial Le Crimede Rouletabille, do francês Gaston Leroux; também autor do aclamado O Fantasma da Ópera. Talanálise foi desenvolvida partindo da comparação entre contos de Edgar Allan Poe (que deram inícioao gênero), e o romance-estreia de uma personagem que o imortalizou: o famoso detetive SherlockHolmes, de Artur Conan Doyle. A pesquisa foi desenvolvida levando em conta a participação erelevância das personagens femininas nessas obras, em comparação às presentes no romance deLeroux. No primeiro caso, a mulher não tem um papel ativo na trama, sua personalidade é poucoexplorada e sua importância é mínima. O centro da narrativa é o detetive e a maneira que conduz oinquérito: seus métodos são puramente lógicos e sua personalidade é marcadamente racional.Segundo alguns teóricos do policial, um relacionamento amoroso ou um envolvimento emocional como crime, atrapalharia seu trabalho intelectual, interferindo na elucidação do mistério. Assim, Holmes eDupin não estarão afetivamente envolvidos em seus casos ou partilharão uma vida amorosa comalguém. Porém, no romance analisado, o detetive Joseph Rouletabille está imerso no caso “até aalma”; o crime que soluciona é o assassinato de sua esposa, do qual é o principal suspeito. Osresultados apontam para uma inovação ligada também à mudança do papel social da mulher e dapersonagem feminina na literatura em geral. O romance de Leroux ultrapassa os clichês; é uma obraque transcende o próprio gênero.Palavras-chave: policial, personagem, femininaAbstractThis paper aims at analyzing the role of female characters in detective fiction of Le Crime deRouletabille, French Gaston Leroux; also the author of the acclaimed The Phantom of the Opera. Thisanalysis was developed from the comparison of stories by Edgar Allan Poe (who started the genre),and the debut novel of a character who immortalized him: the famous detective Sherlock Holmes, fromArthur Conan Doyle. Based on books, literary theory, the research was developed taking into accountthe contribution and relevance of the female characters in the opuses cited in comparison to thosepresent in Lerouxs novel. In the first case, the woman has an active role in the plot, his personality isnot explored and its importance is minimal. The center of the narrative is the detective and the way itconducts its investigation, its methods are purely logical, and his personality is remarkably rational.According to some theorists of the police, a relationship or an emotional involvement with the crimesupposedly interfered with its intellectual work, interfering in the elucidation of the mystery. This wayHolmes and Dupin will be not emotionally involved in their cases or share a love life with someone.However, in the novel object of research, the detective Joseph Rouletabille is involved in the case "tothe soul"; the solved crime is the murder of his wife, of which he is the prime suspect. The results pointto an innovation also linked to the change of womans social role and the female character in theliterature in general. Lerouxs novel goes beyond the cliches, it is a opus that transcends the genreitself.Key-words: police, character, female 1
  2. 2. VII Jornada de Iniciação Científica - 20111 INTRODUÇÃOTodos já ouvimos falar do famoso detetive Sherlock Holmes e seus feitos extraordinários,registrados pelo seu “caro” amigo Watson. Porém, nunca de uma personagem feminina queestivesse intimamente ligada ao protagonista, tampouco em seu lugar. Em sua estreia,Holmes investiga crimes cometidos para vingar o assassinato de uma mulher. Muitoembora, a narrativa não tem nesse motivo, seu principal objeto. O foco do autor é aelucidação do mistério; a maneira extraordinária como nosso herói conduz as investigações.Isso ocorre desde o nascimento do gênero romance policial, com o conto The Murders in theRue Morgue, de Edgar Allan Poe. O detetive é um homem de caráter racionalista: é pormeio da análise, observação das evidências e da dedução que soluciona os enigmas. Otrunfo da narrativa está em impressionar o leitor com a capacidade dedutiva do protagonista.Dupin, o detetive de Poe, resolve o mistério que perturbou os investigadores maisexperientes da polícia e aterrorizou os moradores da cidade. Através da simplesconstatação dos fatos, da observação do local do crime e da aplicação de sua capacidadededutiva. Tais crimes também foram cometidos contra mulheres que novamente nãoestavam no papel central. Talvez, por uma herança literária em que a mulher éconvencionalmente um ser frágil. Ou ainda, pela influência do ambiente social em queessas literaturas ganharam espaço: a segunda metade do século XVIII e início do XIX,períodos em que a figura masculina estava a frente da sociedade. O homem é motor dacivilização moderna: o burguês, o operário, o cientista.Dupin e Sherlock inspiraram uma vasta gama de escritores ao redor do mundo, emdiferentes épocas. Algumas convenções genéricas sofreram alterações no desenvolvimentoe expansão do policial, porém as características do detetive foram, em sua maioria,mantidas. Ambos são homens reservados, cultuadores do raciocínio lógico, que não sedeixam levar por emoções. Não se apaixonam ou têm relacionamentos amorosos. Asnarrativas são completamente voltadas para si e seus dons intelectuais.Já no romance analisado, o detetive Joseph Rouletabille, dotado de uma personalidademais leve, porém também adepto “do bom lado da razão”, tem que investigar a morte desua própria esposa da qual ele é acusado. Além dessas novidades, o romance conta commais duas personagens-chave, ambas femininas.Qual a importância destas personagens no desenrolar da trama? Qual será o resultado doenvolvimento afetivo do detetive? Ele realmente terá seu trabalho prejudicado? Que papelsocial desempenha a mulher?É sobre estes questionamentos que esta pesquisa pretende se desenrolar. 2
  3. 3. Universidade Presbiteriana Mackenzie2 REFERENCIAL TEÓRICOOs conceitos presentes na pesquisa foram retirados das fontes a seguir. Serãoapresentadas de maneira linear ao desenvolvimento dos estudos:Sandra Lúcia Reimão (1989) faz a ligação do surgimento do romance policial com ascorrentes de pensamento do contexto social. Na época da Revolução Industrial a ideologiaque ganha força é o Positivismo. A imprensa também evolui e inicia a publicação daliteratura de massa através do romance-folhetim. O gênero policial tem aí seu início, com oscontos publicados por Edgar Allan Poe. O detetive é o cientista social que estuda ocomportamento do novo homem urbano.Em seguida, Tzvetan Todorov (2006) trata da tipologia do romance, dividindo-o em duasformas que, segundo Boileau e Narcejac (1964 apud TODOROV, 2006) não são subdivisõese sim, formas historicamente distintas. São elas o romance de enigma aquele que mais seaproxima do tradicional (de Poe), e o romance negro, cujas características são encontradasem Le crime de Rouletabille. Todorov cita também autores do gênero que buscaram estudá-los, como S.S. Vin Dine (1928 apud TODOROV, 2006), o enumerador das regrasnecessárias para se obter um bom romance policial.Através de Hauser (1998), pudemos aproximar de maneira mais concreta a análise doconteúdo do romance (personagens, temas, etc.), com o contexto social. Pois trata dovínculo entre o enunciado e a situação enunciativa.Este artigo é baseado principalmente nessas obras; toma como ponto de partida do gêneroos contos publicados nos periódicos do início do século XIX; faz a distinção entre as formasdo romance policial e a ligação entre o a cena enunciativa e o discurso do narrador(REIMAO, 1989; BOILEAU e NARCEJAC (1964 apud TODOROV, 2006); DINE (1928 apudTODOROV, 2006); TODOROV, 2006; HAUSER, 1998).3 MÉTODOAntes de entrarmos no estudo do romance propriamente dito, passamos por algumas etapascom a intenção de sistematizar e, assim, simplificar o desenvolvimento da pesquisa.Em primeiro lugar, foi feito um estudo literário para identificar o surgimento do gênero. Pormeio de livros teóricos mais abrangentes, foi possível constatar a época de seu nascimentoe nomes de autores pioneiros e de seus seguidores. Assim chegamos aos contos de EdgarAllan Poe e ao romance de Artur Conan Doyle. Em seguida, um levantamento dos aspectosreferentes a estas narrativas: como eram os detetives, quais as circunstâncias dos crimes,quem eram os envolvidos, como foram solucionados, etc. 3
  4. 4. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011Então, a pesquisa voltou-se aos livros mais específicos. Aqui foi constatada a existência deduas formas historicamente distintas: primeira, contendo mais influência dos contosoriginários e a segunda, apresentando algumas novidades. Também foram descobertassupostas regras de elaboração desse tipo de narrativa. Essas novidades foram maisestruturais do que temáticas.Para passar do papel da mulher no contexto social ao papel da personagem nas narrativasliterárias, o vínculo entre a obra e seu contexto social começou a ser estabelecido. Nestemomento, foi possível evoluir também na análise das narrativas.Finalmente, o romance tornou-se o foco da pesquisa. Seu enredo, suas personagens e seustemas foram levantados e discutidos, com base nos estudos já concluídos. Após levantarestes aspectos mais gerais, as personagens femininas foram focalizadas para concluir apesquisa e fundamentar as hipóteses levantadas a princípio.Os principais resultados do trabalho científico desenvolvidos foram: a descoberta da época edo surgimento do gênero; seus principais nomes; a influência social na literatura; asconvenções do romance policial; os aspectos comuns e diferentes existentes entre as obrascomparadas; e finalmente, como o romance central poderia ser visto como um retrato dopapel moderno da mulher, tanto social, quanto literário.A pesquisa não seguiu o cronograma esperado. Isto ocorreu principalmente pelanecessidade de responder perguntas que não estavam previstas. Os resultados tambémsuperaram as expectativas do projeto, formulado há doze meses: na época a proposta eraum pouco mais superficial, no que diz respeito aos motivos da pesquisa. O que chamouatenção no romance, em primeiro lugar, foi o envolvimento afetivo do detetive com umamulher, não era esperado que tal aspecto fosse tão significativo, quanto à imagem femininasocial e literária.Estas novas descobertas e, consequentemente, as novas dúvidas influenciaram também nofoco da pesquisa, seu eixo de desenvolvimento foi ligeiramente alterado, pois também nãoera esperado que o estudo de uma única obra envolvesse tantas outras e fosse tão carentede precedentes. Os resultados finais serão apresentados mais detalhadamente a seguir.4 RESULTADOS E DISCUSSÃO4.1 CONTEXTUALIZAÇÃO4.1.1 Os antecedentes do gênero policialCom a expansão da Revolução Industrial, tudo o que se refere à vida urbana começa aganhar a forma que tem hoje, como por exemplo, a formação da polícia e a concepção de 4
  5. 5. Universidade Presbiteriana Mackenzieinimigo público. No início do século XIX, a polícia francesa era majoritariamente compostapor ex-condenados, recrutados para servir a lei em troca de sua liberdade. O mais famosodentre eles era o detetive Vidocq (1775-1857), que em 1828 publica suas memóriasmostrando como funcionava a mente de um contraventor. Era através da convivência comcondenados e ex-condenados que conseguia solucionar todos os casos em que trabalhava,por conhecer interiormente o pensamento criminoso. Porém a sociedade começa a ver oinfrator da lei como um inimigo não meramente individual, este passa a se tornar um inimigopúblico; uma vez evidente o contato da polícia com o crime, começa a desconfiar dainstituição. Assim, os detetives particulares ganham maior prestígio.É ainda no século XIX que a imprensa se torna popular e surgem os grandes jornais, quetratam de tudo quanto diz respeito à vida na cidade. Estes jornais começam a publicar, alémdos textos informativos, textos fictícios, dando origem à literatura de massa, uma forma dearte popular que se vale da exploração do grotesco, das ciências, da urbanização e seusproblemas, enfim, de tudo o que dizia respeito ao homem moderno. Com teor realista e umpouco de sensacionalismo, a população era chamada a contemplar seu próprio cotidiano demaneira fantástica. Dentro deste universo, estão narrativas que evoluíram e resultaram emgêneros literários ainda hoje cultuados em grande escala. Como é o caso do romancepolicial.A narrativa policial que deu início ao gênero foi The Murders in the Rue Morgue publicada narevista Gramham’s em abril de 1841, nos Estados Unidos, por Edgar Allan Poe. O conto dePoe apresentou certos aspectos e características que viriam a se tornar convenções dogênero. Trata-se de uma narrativa em primeira pessoa, cujo narrador é um amigo fiel (nãonomeado) do protagonista, na qual um crime pouco atroz é cometido em um quarto fechado.Atraídas por gritos, quando as testemunhas chegam ao local do crime, têm que arrombar aporta, porém, não encontram culpado. A cena do crime, o quarto, não apresenta alternativade fuga. Este crime é, aparentemente, de solução impossível. A polícia não consegueresolver o caso e o enigma toma grandes proporções. O protagonista, Auguste Dupin, éuma espécie de detetive cientista que preza acima de tudo a razão e passa a ter comoobjetivo desvendar o mistério. Há uma atmosfera constante de mistério, fundamentada numestilo descritivo repleto de indagações.4.1.2 O pensamento da épocaA ideologia que ganhava força, no contexto histórico, era o Positivismo. Tal ideologiaprescrevia que todos os fenômenos naturais eram regidos por leis naturais superiores e,sendo o homem parte dessa cadeia, estaria ele também submetido a tais leis, comoqualquer outro componente da natureza. Outra corrente muito forte na época era o 5
  6. 6. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011Cientificismo, ou seja, a compreensão desse universo através de teorias que partiam daobservação desses fenômenos e experimentos que buscavam validar tais teorias.Ambos os pensamentos eram de cunho estritamente racional e são frutos de uma época emque o homem acreditava em uma verdade universal, objetiva. Assim, não há espaço paracrenças religiosas, uma vez que a existência de um mundo metafísico não podia serprovada de maneira concreta. A verdade que o homem buscava deveria ser plena epartilhada por toda a humanidade. A emotividade exacerbada dá lugar ao racionalismo e aopensamento lógico; o idealismo romântico é substituído pelo objetivismo realista, fruto detodas essas mudanças sociais e ideológicas.O conceito de realismo deve ser tomado como a filosofia que se opõe ao idealismoromântico. Ao movimento artístico fruto desse pensamento, dar-se-á o nome de naturalismo.Hauser fala a respeito do estilo realista; diz que o naturalismo tem como principal critério aprobabilidade do empirismo das ciências naturais. Seu conceito de verdade psicológica ébaseado no principio de causalidade; ou seja, no desenvolvimento de uma trama queelimina a influência do acaso e da metafísica. Seu principio é descrever o ambiente parafundamentar a ideia de que cada fenômeno natural está ligado a uma cadeia de motivos. Autilização desse recurso que pretende detalhar o objeto narrado, ou a cena, ou osenvolvidos, é característico do método de observação científica, que não deve desprezardetalhe algum, por mínimo que seja (HAUSER, 2003).O detetive de Poe é aquele que busca dominar as leis gerais, através desse processo deobservação, assim como seu narrador também será aquele que observa seu herói. Seuolhar investigará o homem em seu habitat: a cidade grande. Um pensador por excelência,conhecedor de todos os aspectos da vida urbana que, através da associação de ideias, écapaz de resolver qualquer enigma que seja apresentado, inclusive o crime aparentementesem solução. Dupin toma conhecimento dos fatos através da notícia de um jornal local edesvenda o mistério, depois de um exame cuidadoso do local do crime. Seu trabalho éestritamente intelectual em oposição ao chefe Vidocq, cujo contato criminal era empírico.Outra oposição a este é o fato de Dupin solucionar enigmas por hobby e não como umfuncionário da lei, que, como já visto, perdia a credibilidade na esfera social.O período em questão é aquele no qual a burguesia estava ascendendo, isso irá repercutirna literatura tornando o escritor um comerciante de sua arte, esta por sua vez será o produtoe o leitor se tornará o freguês. Tendo em vista esse mecanismo, o sucesso de Poe foiimediato. Escreveu mais dois contos na mesma linha: The Mistery of Marie Roget (1842-43)e The Purloined Letter (1845). 6
  7. 7. Universidade Presbiteriana Mackenzie4.1.3 Disseminação do gênero“Seu detetive, Dupin, deu vida a toda uma geração de personagens literárias populares –aos heróis da moderna ficção policial: o Inspetor Bucket de Dickens, o Sargento Cuff deWillkie, o Lecop de Gaboriau, o Sherlock Holmes de Conan Doyle e dúzias de outros.”(ZABEL, 1947)A produção policial de Poe encerra-se nos três textos citados, mais tarde publicados emcoletâneas de contos e traduzidos pelo mundo todo. Na França, tornou-se conhecidoatravés das traduções de Charles Baudelaire (1821-1867), publicadas em 1848. Tais contosinspiraram autores de muitas gerações que lançaram mão das convenções estabelecidas eforam acrescentando outros aspectos; assim nasceu o romance policial.Este acréscimo de aspectos (ou supressão, como veremos adiante) deu ao romance policialvarias faces pelas quais discorreremos a fim de enquadrar o nosso. Boileau-Narcejac dizque “o gênero policial não se subdivide em espécies. Apenas apresenta formashistoricamente diferentes” (1964, apud TODOROV, 2006).Como herança da literatura clássica, a classificação das obras precediam a própria obra, ouseja, o gênero e suas convenções teriam de ser obedecidos, assim, a obra mais valorizadaera a que se enquadrava perfeitamente e não a que apresentava “originalidade”. A partir doromantismo, a criação literária quebra esse estigma: a obra passa a ser valorizada em si,negando as regras e até a noção de sua existência; ela (obra) ganhava primeiro plano. Hátambém na escola romântica o mito de que a arte é a expressão mais íntima do ser; de queo escritor supostamente sentiu ou viveu aquilo que escreveu. Num homem fruto de umasociedade capitalista, a literatura que ganhará prestígio é justamente esta que valorizará oindivíduo, que será essa suposta expressão íntima. O escritor burguês é aquele que vaicomercializar sua arte como uma mercadoria. A novidade e a identidade com o leitor serásua propaganda.As escolas seguintes negarão muitos preceitos românticos, mas conservarão outros: vãobuscar motivos nas pessoas, no fait divers, na vida real. É por isso, por exemplo, que Poesuprime nomes e datas em seus contos: supostamente para proteger a imagem de pessoasreais, para dando-lhes um tom realista, aproximando assim, o leitor da leitura. Outro aspectomantido é a obra que antecede ao gênero e à própria literatura, é o produto, que se elevacada vez mais numa sociedade consumista.Desde então o estudo dos gêneros é pouco desenvolvido, o que há é uma busca pelo meiotermo entre: o estudo da literatura em geral, como instituição; suas subdivisões (osgêneros); e o objeto de sua realização: a obra. A tipologia provém e é proveniente dadescrição desses objetos. Avança até a estrutura em que se enquadra, dando margem às 7
  8. 8. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011novas estruturas resultantes da descrição de novos textos, como um ciclo que se distancioude sua origem e está longe de terminar. (TODOROV, 2006)4.2 TIPOLOGIA4.2.1 O romance de enigmaNesse tipo de romance, a primeira história, ou a do crime, contém o que supostamenteaconteceu; é a realidade evocada; os acontecimentos mundanos; a ordem natural. É o queimporta, porém está ausente: é uma imagem filtrada pelo narrador. É o que aconteceu nopassado precedente à narrativa. Por estar encerrada no momento em que começa asegunda estória, ou a da investigação, o detetive goza de imunidade. Nada pode lheacontecer, uma vez que esse trabalho é essencialmente psicológico, ele apenas segue osindícios. Essa segunda estória pode ser perfeitamente ilustrada pelo ato de completar umquebra-cabeças: o crime é a imagem em sua totalidade, as peças seriam as pistas e omistério é ilustrado pelas peças soltas. Cada pista possui um pequeno fragmento quecomplementa a imagem total. O trabalho do detetive é descobrir onde se encaixam atéremontar a imagem do crime, mas nada poderá fazer que altere o resultado final. Essaestória é escrita em forma de livro, ou seja, narrada como memórias de um observador,amigo do detetive. Leva em conta essa realidade de livro, construída metalinguisticamente.O propósito do narrador é restringido a registrar os feitos do amigo.Este narrador revela-nos como ele tomou conhecimento dos fatos e o leitor, por sua vez, vaitomando conhecimento à mesma medida que ele. Aqui é onde o quebra-cabeças pode sermontado sem seguir uma ordem, as peças não serão postas necessariamente emsequência, elas vão sendo postas à medida que o narrador toma conhecimento dosacontecimentos, o que deixa algumas lacunas e mantém o mistério até as últimas páginas.A função do narrador, supostamente, não passa de intermediar o contato entre o que teriaocorrido e o leitor. Hipoteticamente não é importante em si. Só existe em função dopassado. A característica constitutiva da narrativa são seus temas. Eles justificam-na enaturalizam-na. Por isso deve ser tida como livro, para que, dentro de seu contexto, asituação expressa faça sentido. Portanto, quanto mais neutro, o estilo da narração, melhor.Ela ignora a existência de um narrador.4.2.2 o romance negroA outra vertente do policial é o romance negro. Nasce também nos Estados Unidos e ganhagrande prestígio na França, onde é conhecido como série noire. Este tipo funde as duashistórias antes separadas, ou dá vida à segunda, fazendo-a coincidir com a ação daprimeira. Não é um memorial por não haver um ponto de chegada a partir de onde se faz umretrospecto. Este dá lugar à prospecção. O detetive perde sua imunidade, não se sabe se 8
  9. 9. Universidade Presbiteriana Mackenziechegará vivo até o fim da narrativa e sequer se um crime será cometido, pois os fatos sãotão moldáveis que seria possível impedi-lo. Trabalha a curiosidade do leitor de maneiraabsoluta, pois sua atmosfera é toda envolvida no suspense, não que no primeiro estilo nãoseja, mas sabe-se que o crime terá uma solução. Já aqui cabe a dúvida, pois aspersonagens são vulneráveis à ação. Sustenta a expectativa em torno do que irá acontecer.É o “to be continued” tão famoso ainda hoje. A elucidação ganha segundo lugar, quandovidas estão em jogo.Aquilo que diferencia os dois tipo do policial, é justamente a oposição entre as duashistórias. Porém, os gêneros não se constituem apenas em conformidade com asdescrições estruturais. O romance negro é constituído também por temas que podem variarde acordo com o momento histórico.A segunda história adquire papel central e o mistério dá lugar ao suspense em torno do quepode ou não acontecer. Embora haja uma aproximação dos dois termos, a diferença está nofato de que, ao iniciar a leitura de um romance de enigma, o leitor sabe que o crime serásolucionado. Já no segundo, os acontecimentos são passíveis de mudanças tãoimpressionantes que podem influir no desfecho; é aí onde mora o suspense.4.2.3 As regras de cada tipoHá romancistas que prescrevem a elaboração do romance policial, como S.S. Vin Dine(1928 apud TODOROV, 2006). Há teóricos que descrevem tal processo, como Todorov.Partindo das regras de Vin Dine vamos procurar enquadrar Leroux ou apenas descrevê-lono ponto em que não for possível prescrevê-lo. Ele elabora uma lista de vinte, que Todorovreduz à oito, por julga-las redundantes, postura que adotaremos. Uma parte delas dizrespeito à toda produção policial, a outra se restringe ao romance de enigma:É permitido apenas um detetive e um culpado; o culpado não pode ser um profissional, nemo detetive nem o crime deve ter razões pessoais; o amor não tem lugar no romance policial;o culpado deve gozar de certa importância, não podendo ser, na suposta vida extratextual,um empregado ou de procedência humilde e, no livro, ser uma das personagens principais.Até aqui, vimos características do romance de enigma, as que se seguem aplicam-setambém ao romance negro: a explicação deve ser racional, não dando margem aosobrenatural; não há lugar para descrições nem para análises psicológicas; é preciso evitaro que Vin Dine chama de “soluções banais” como, por exemplo, o culpado ser o mordomo;existe a seguinte homologia: autor=culpado x leitor=detetive, ou seja, o autor, no momentoque está narrando, sabe tanto quanto o culpado, já o leitor, se equipara ao detetive.Se nos detivermos um pouco nestas regras, é possível notar que as regras aplicáveis aoromance de enigma, dizem respeito à primeira história, à suposta vida real, já as outras são 9
  10. 10. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011do âmbito da trama, de como se apresenta a vida real. Isto é a prova de que no romancenegro, a segunda estória ganha vida, pois o estilo do narrador deve fazer-se presente;segue regras.Nos romances de Leroux há variações como: há mais de um detetive, um deles é o própriocriminoso e que é também um profissional. Por outro lado, seus motivos são pessoais.Porém, sua estrutura narrativa e outros aspectos são suficientes para enquadrar Leroux nasérie noire.4.3 A SÉRIE NOIRE4.3.1 Um estudo em vermelhoEm 1887, o inglês Artur Conan Doyle lançou A study in Scarlet, romance de estreia de umapersonagem que ganhou fama mundial e atemporal: o famosíssimo detetive SherlockHolmes e seu fiel amigo, o “caro Watson”, que assume papel de narrador em primeirapessoa. A narrativa apresenta, como no conto de Poe, um enigma aparentemente insolúvel,a incapacidade da polícia, o mistério, sua solução por parte do detetive cientista através deseu trabalho intelectual, etc. Esta narrativa é mais longa e se diferencia da de Poe em certosaspectos; por exemplo, enquanto na segunda os fatos são intermediados puramente pelaconcepção do narrador, que têm acesso aos fatos através dos jornais e “assumem” o casocomo um hobby; no segundo caso o detetive é profissional, procurado pessoalmente.Assim, a vítima, o criminoso e o crime em si, ganham um foco maior: a certa altura doromance, o narrador deixa de ser o dr. Watson, este outro, não nomeado e onisciente, fazuma extensa narração dos antecedentes até chegar ao crime. Neste momento o detetivesequer é citado. Outro aspecto diferente é que novos assassinatos ocorrem durante o temponarrativo, ou tempo cronológico.Com o crime em primeiro plano e os acontecimentos “em aberto”, temos um romance negro,o primeiro de uma série lida e apreciada até os dias atuais.4.3.2 Leroux e a tradição policialEm 1907, influenciado principalmente por ambos (Poe e Doyle), Gaston Leroux lança LeMystère de la Chambre Jaune, livro que retoma a ideia do crime cometido num quartohermeticamente fechado, sem alternativas de fuga e sem suspeito no local. O caso éresolvido pelo jovem repórter Joseph Rouletabille, que tem acesso direto ao crime devido asua profissão A trama é narrada por seu fiel amigo, monsieur Sainclair.Leroux ganhou grande prestígio e foi logo reconhecido como autêntico seguidor de Poe eConan Doyle. Jean Cocteau, em seu prefácio para este livro, diz: “Num gênero em queEdgar Allan Poe foi rei, Gaston Leroux, sem dúvida, foi príncipe.” (1999) 10
  11. 11. Universidade Presbiteriana Mackenzie4.4 ANÁLISE4.4.1 Madame e Mademoiselle LEspanaye, Marie Rogêt, Madamme “…” e Lucy Ferrier,motivos livresNos três contos de Poe em que o detetive Dupin aparece, há personagens femininas quenão estão envolvidas diretamente na trama. Em The Murders in the Rue Morgue, o fato dasvítimas serem mulheres não tira o mérito do detetive e a atmosfera sombria da narrativa,nem interfere na solução do crime. Este dado serviria apenas para aumentar o teor trágico:o leitor, já abalado pela narrativa incisiva de Poe e sua ambientação sombria, ao se depararcom o assassinato de duas mulheres cujo vínculo familiar é tão relevante (mãe e filha), sevê frente a um assassino brutal; afinal, quem ou o que seria capaz de fazer mal a criaturastão inofensivas? Visto isso, podemos facilmente concluir que se trata de um recursoestético, da trama, um motivo livre. O mesmo ocorre com The Purloined Letter.Somente em The Mistery of Marie Roget o fato de a vítima ser uma mulher tem caráter demotivo associado, pois se trata de um crime passional. Muito embora, não é o que poderiaser considerada uma personagem decisiva em certo ponto de vista que trataremos logomais. Há uma grande semelhança entre Lucy Ferrier de Doyle e Marie Roget: a narrativatambém gira em torno de um crime passional, portanto sua existência como mulher passa aser relevante. O que também pode ser relativo: se virmos da perspectiva do crime, éindispensável. Porém, da ótica da investigação, novamente o papel dela perde seu valor:ainda que tenha certa relevância sua personalidade é pouco explorada, no sentido de serpadronizada e até clichê literário: é a mais bela da cidade onde cresce, é uma filha exemplare sonha com um amor ideal. Nestes dois casos, são personagens poucos desenvolvidas natrama, não têm voz no texto e, se considerarmos o ponto de vista da segunda estória, a dainvestigação, são facilmente esquecidas e, assim, tidas como motivos livres.Já da perspectiva da primeira estória, a do crime, tornam-se relevantes se o virmos como oponto de partida do romance. Mesmo assim encontraremos questões igualmente relevantes.Por exemplo: a doutrina da comunidade em que Lucy e seu pai viviam não lhes agradava. Ofato dos mórmons praticarem a poligamia levou os dois a fugirem e a serem perseguidos;seu pai é morto e Lucy obrigada a casar e morre logo em seguida, por conta do abalopsicológico que sofreu. O noivo, por sua vez, comete os crimes investigados por Holmes,como um ato de vingança.Ainda que consideremos os antecedentes do crime, não podemos esquecer que o romancepolicial é voltado mais à sua solução.Podemos dizer, num olhar mais abrangente, o fato de serem personagens femininas é depouca ou nenhuma importância. Para ilustrar, podemos ressaltar que, em momento algum 11
  12. 12. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011dos contos, as personagens tem um discurso direto, e no caso do romance, suas falas sãopouco significativas. O discurso direto seria justamente a voz da personagem, como se apena fosse posta de lado para dar certa independência à criatura.4.4.2 Paráfrase de Le Crime de RouletabilleO romance é a história de um jovem repórter investigativo, Joseph Rouletabille, acusado deser assassino de Roland Boulanger, um renomado cientista, e de Ivana Vilitchkov, suaprópria esposa. Ivana era pesquisadora do Instituto Roland Boulanger. Devido a suadedicação e competência, tornou-se a segunda assistente do grande homem.Apesar de ser um cientista famoso, Roland não era bem quisto por todos. Um pouco porseus trabalhos e teorias polêmicas e inovadoras para a época, um pouco por suapersonalidade. Tinha fama de mulherengo e se envolveu em vários escândalos amorosos.Sua esposa era totalmente dedicada. Apesar de sua formação literária, seu amor por ele fezcom que adquirisse grande conhecimento cientifico e tornou-a seu braço direito, sendo ela aprimeira assistente. Ela fazia vista grossa aos casos extraconjugais do marido, até que umdeles chegou a ameaçar seu trabalho e sua saúde: Roland se envolveu com uma cortesã,Theodora Luigi. Ela era viciada em ópio. Com medo de que o vício prejudicasse a saúde deseu marido e até o futuro da medicina laboratorial, Thérèse intervém contra a relação dosdois.Com a partida de Theodora, tudo volta ao normal, mas por medo de que Roland não ativesse esquecido, Thérèse pede à Ivana que seduza seu marido, para que esqueça aamante de vez. Ivana aceita, com o consentimento de seu marido.Porém Theodora volta à Paris e Roland tem uma recaída. Vendo que seu plano não haviafuncionado, Thérèse resolve tomar medidas drásticas: matar ambos, porém acaba matandoIvana por engano.O caso que vem a público e Rouletabille passa a ser o principal suspeito. Chega a serperseguido e agora, além de lutar contra a dor da perda, terá que desvendar o caso parahonrar o nome de sua esposa e se livrar da acusação.É importante ressaltar que, já aqui, podemos constatar a relevância das personagensfemininas , pois não poderiam ser deixadas de lado da fábula, ou seja, são motivosassociados. Indispensáveis ao enredo.4.4.3 “Elementar, mon cher Sainclair!”O romance é estruturado a partir de uma narrativa em primeira pessoa, do ponto de vista doamigo do protagonista, monsieur Sainclair. O tempo psicológico são as memórias desteamigo já anos distantes do ocorrido. Quanto ao cronológico e à ambientação, trata-se de 12
  13. 13. Universidade Presbiteriana MackenzieParis do século XIX: a cidade das luzes está em pleno desenvolvimento urbano, social,científico e comercial. É sinônimo de requinte e modernidade. A classe social dominante é aalta burguesia.Entre os tipos de narrador, o mais comum entre o gênero policial, ou ao menos entre asobras abordadas, é o aquele em primeira pessoa. O que implica em um narrador envolvidocom os acontecimentos que narra, mas não necessariamente em uma personagemprincipal. Convencionalmente o narrador é um amigo íntimo do detetive, que vai, de maneiradiscreta, persuadindo o leitor a se identificar com o protagonista, através de seu olharfraterno e de admiração.Logo no primeiro parágrafo, do primeiro capítulo, intitulado Réflexions et souvenirs dun ami1,tal intenção fica clara: “Avec quelle émotion nouvelle, à plus de dix ans de distance, moi,Sainclair, je reprends une plume qui a tracé le sensationel << rapport >> du Mystère de laChambre Jaune et les premiers hauts faits du jeune reporter[...]”2 (LEROUX, 1976)O narrador então faz uma pequena introdução relembrando antigos feitos de seu amigo,referindo-se a romances anteriores, que ele chama de relatórios (rapports no original). Aquiele retoma o primeiro livro da série, Le Mystère de la Chambre Jaune, no qual Rouletabilleresolve seu primeiro grande caso e ganha fama. Depois faz referências aos romances nosquais conheceu e se casou com Ivana. Rouletabille chez le Tzar e Les Stranges Noces deRouletabille, respectivamente).A história começa quando ele é convidado por seu amigo a fazer-lhe companhia emDeauville, local das dependências dos Boulanger. A proximidade lhe possibilita construir umperfil do protagonista, apontando seus hábitos, ideias, valores e até mesmo característicasfísicas que não são necessariamente objetivas, que ajudam a convencer o leitor, por teremum aspecto de testemunho, de observação. A credibilidade é alcançada também peladisposição do narrador a tratar um ser que merece notoriedade. Colocar-se em segundoplano já atribui certa importância ao protagonista, de maneira tão sútil que o leitor malpercebe a artimanha.Indo além, o narrador em primeira pessoa e a narrativa em forma de memória, não sãoapenas ferramentas usadas para destacar o protagonista, afinal, é através de sua mediaçãoque tomamos conhecimento de todos os fatos e demais personagens do romance. Como anarrativa é póstuma, ela dá dicas que, num primeiro momento passam despercebidas,1 “Reflexões e lembranças de um amigo” (N. A.).2 “Com a mesma emoção da época, mais de dez anos depois, eu, Sainclair, retomo a penaque registrou o sensacional <<relatório>> do Mistério do Quarto Amarelo e os primeiros grandesfeitos do jovem repórter.” (N.A.) 13
  14. 14. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011porém um leitor mais atento entenderá que são presságios do que está por vir. Também naprimeira página, temos um exemplo:“Le Crime de Rouletabille, sombre tragédie où roulent deffroyables ténèbres et sur le seuilde laquelle apparait le doux monstre à la tête de sphinx: léternel féminin!...”3“O Crime de Rouletabille, sombria tragédia na qual pairam trevas tenebronas e sobre aquelaAlém de preparar o leitor para acontecimentos “terríveis”, o narrador já introduz aimportância da mulher no romance. De si mesmo fala pouco, talvez para dar credibilidade aorelato, talvez como marca de seu temperamento retraído e discreto.4.4.4 Rouletabille e “le bon bout de la raison”A imagem que Sainclair constrói de Rouletabille, a princípio, é de um jovem repórter bem-sucedido e brilhante, de um bom humor constante e que conquista a simpatia de qualquerum por ser dotado de um “espírito original”. Possui um talento nato de detetive amador quetransparece em suas reportagens ao redor de mistérios tão complexos capazes de enganaraté os investigadores mais experientes. Já desvendou casos importantíssimos e até fora deseu país. É famoso por seus feitos. A descrição é repleta de adjetivos, superlativos e outrasfiguras de linguagem que denotam afetividade.Seu método é lógico, consiste em encontrar “o lado certo da razão”, reconhecido por seraquele considerado incorruptível, que não é passível de erros. Observa os fatos e deduzaquilo que não está explícito, esgotando as possibilidades.Apesar de seu caráter racionalíssimo, é apaixonado por sua esposa, a jovem Ivana queexerce grande influência em si. Conheceram-se em meio a casos passados: envolvida emum dos mistérios que ele investigava, estava a jovem. Rouletabille a viu pela primeira vez noHospital Pitié-Salpêtrière, um dos maiores centros de estudos medicinais da época. Emoutro romance, alguns acontecimentos sangrentos em torno da Guerra dos Balcãs serviramde prólogo para seu casamento com o jovem repórter na Igreja de Madeleine, localizada aocentro de Paris.A medida que o romance avança, o humor de Rouletabille se transforma. Tal transformaçãoé fácil de ser constada pela proximidade de ambos (protagonista e narrador). Apesar de nãotransparecer no início, Rouletabille fica enciumado com o plano de Thérèse, mas não negaseu pedido desesperado, por ter um “bom coração” e por confiar em sua esposa.3 "O Crime de Rouletabille, tragédia sombria na qual se desenrola uma tenebrosa escuridão esobre o limiar da qual aparece o doce monstro na cabeça da esfinge: a mulher eterna" (N. A.) 14
  15. 15. Universidade Presbiteriana MackenzieNo início Sainclair não sabe do arranjo; depois, passa a ser contra, principalmente por notaro efeito que ele tem sobre seu amigo. Aqui a empatia do narrador começa a atingir o leitormais diretamente.Embora incomodado com a situação, Rouletabille a suporta. Chega a ter algumas crises,mas em segredo e só as partilha com Sainclair, por medo inclusive de ofender sua esposa.4.4.5 Ivana VilitchkovDe uma beleza exótica, Ivana Vilitchkov é nascida na Bulgária, pertence a uma das famíliasmais ilustres da cidade de Sófia. Veio à Paris ainda muito jovem a fim de estudar medicina.Envolveu-se em um dos casos que Rouletabille cobria, foi assim que o conheceu e tornou-se sua esposa.Foi enfermeira na Primeira Guerra Mundial. Com o seu fim, dedica-se completamente àpesquisa e à medicina laboratorial, é assim que se envolve com o Instituto RolandBoulanger, referência da área na época.Além de ser constantemente exaltada por sua beleza, o é também por sua competênciaprofissional e seu caráter: é bondosa e fiel a seu marido.O século das descobertas é um ambiente de prevalência masculina, porém Ivana é inseridaneste universo, o que pode ser interpretado como um sinal de que os tempos estavammudando, que a mulher estava ganhando outros espaços, inclusive na literatura.O próprio narrador representa um certo conservadorismo a este respeito. Sainclair diz, logonos primeiros capítulos, que em ocasião de uma festa da alta sociedade, ficou chocado coma vestimenta de algumas mulheres, pois suas costas estavam nuas, o que ele,evidentemente reprovou. Aqui temos duas marcas: o conservadorismo masculino e os sinaisda mudança do comportamento feminino. a mulher fica mais ousada, mostrar as costas, nocontexto, pode ser considerada como uma atitude a frente de seu tempo.Ele critica também, de maneira sublime, uma espécie de submissão de Rouletabille à suaesposa: em diversos momentos da narrativa, deixa claro a opinião de que a culpa dodesastre é da permissividade do amigo. O fato de Rouletabille ceder ao pedido de iremmorar nas dependências do cientista, teria sido o princípio de tudo. Novamente, o narradornos diz que o desfecho tem a ver com o papel da mulher no romance e se mostraconservador.Sainclair sugere que seu amigo é incapaz de raciocinar perante os encantos de sua mulher.Isso é novidade no romance policial: o amor carnal leva o detetive a ir contra o que pensa,contra a sua razão. Dessa forma, ele perde o controle sobre o desfecho; a responsabilidadedeste passa a ser dos “caprichos femininos”, ou seja, da vontade da mulher. 15
  16. 16. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011Porém, o próprio Rouletabille rebate essa ideia, afirmando que a decisão estava nas mãosde ambos e foi tomada com o propósito de ajudar uma a amiga. Porém, em algunsmomentos ele fica prestes a perder o controle. A novidade então, é justamente a divisão dodetetive entre a razão e a emotividade. Embora contrariado, aceita o trato e busca controlarsuas emoções.E quando cede e decide por um fim no acordo, a decisão já não estava em suas mãos; osacontecimentos levam quase que automaticamente para isso: Theodora estava em Paris.Ela e Roland se encontrariam na ocasião de um baile. Com exceção de Thérèse, todos sãotestemunhas do fracasso do plano. Ela produz Ivana caprichosamente, para que detenha aatenção de todos e não deixe que o brilho de Theodora lhe ofusque. O narrador a descrevecomo detentora de uma beleza angelical e ao mesmo tempo sensual. Chama a atenção detodos; os olhares de Roland fazem com que Rouletabille perca o controle e decida por umfim naquilo tudo. Porém, o fracasso do plano é que leva a este fim.Na cena em que Ivana disputa a atenção de Roland com Theodora, segundo o narrador, hácerta vaidade por parte de Ivana. Se a vaidade estava presente em Ivana ou não, é passívelde dúvidas, pois é o narrador quem nos passa tal informação. Independente disso, fazendouma análise mais profunda da cena, certa disputa de atenção fica clara. Se não vaidosa,Ivana foi no mínimo ousada.O fato de ter uma carreira profissional, além do papel de esposa, denota algumaindependência conjugal. Outro aspecto é o fato de não terem filhos. Duas novidades para ocontexto, no qual a mulher era basicamente, mãe e esposa.Considerando as narrativas de Poe e de Doyle, antes do romance de Leroux, no gênero nãohouve uma mulher cujo papel não se limitasse a filha dedicada, amante fiel, mãe carinhosa,etc.Primeiro, a mulher era idealizada. Era posta num plano superior. O homem buscava em vãoa mulher de seus sonhos, seu amor nunca se concretizava em vida. Um pouco maisadiante, no realismo, a mulher perde essa aura, mas não o papel na sociedade. O amorpassa a ser carnal e a mulher começa a perder a atmosfera angelical.A sociedade burguesa mantém costumes denunciados por esse período literário, como porexemplo, o casamento por interesse. O homem era educado para cuidar dos negóciosenquanto o papel da mulher era o de cuidar do lar, dos filhos e do marido. Com atransformação da sociedade, na qual a mulher passa a ter um papel mais ativo, ela ganhaum outro espaço também na literatura. 16
  17. 17. Universidade Presbiteriana MackenzieAté aqui podemos constatar uma mulher de personalidade complexa. É angelical e aomesmo tempo sedutora. Esposa dedicada e profissional competente. É um exemploprematuro da mulher moderna: a “multi” mulher.Vira também um mártir, pois na ocasião de sua morte, foi ao encontro de Roland parainterceder a favor de sua amiga.4.4.6 Thérèse BoulangerNo princípio, o que sabemos de Thérèse é que é não tem outra ambição pessoal que nãoseja seu marido. Era viúva, herdeira de grande fortuna, quando se apaixonou por Roland.Nesta época, seu nome já era destaque na medicina, porém trabalhava na área clínica parapoder financiar suas pesquisas. Com o casamento, ele abre seu próprio centro depesquisas.Se por um lado temos um casamento de interesse por parte dele, por outro temos umamulher que de certa forma “compra” o amor de seu objeto de desejo. Ainda que viva emfunção de seu marido, que esteja submissa a ele, é, de certo modo, manipuladora, pois usao dinheiro para conseguir o que quer.O fato de seu marido não amá-la de verdade não a incomoda, como ela mesma diz, emcerto ponto, aceitava que tivesse quantos casos desejasse, desde que nunca aabandonasse. Traços de uma personalidade possessiva.Não fazia questão de que seu nome viesse a público ligado ao sucesso de Roland, tantoque o instituto financiado por ela, carregava apenas o nome de seu marido. Havia boatos deque tinha grande participação em algumas de suas descobertas, mas era a primeira a negartais boatos.É, talvez, a personagem mais emotiva. Representa a esposa submissa a seu amor, ou aodesejo de possuir o amado. É controladora nesse aspecto. O próprio pedido de que Ivanaseduzisse seu marido, prova que queria ter o controle da situação, pois ela era quemplanejava tudo.Ao notar que o plano não havia funcionado, a personagem sofre transformações: vivedoente, cabisbaixa, pelos cantos. Começa a seguir seu marido, suborna criados, comprainformações para sondar o caso. Assim, descobre que Roland pretende fugir com Theodora.Então perde o controle e decide mata-los.Mesmo ao ver o amigo que tanto a ajudou sendo acusado pelo crime que ela cometeu, nãose entrega. Em nenhum momento o narrador desconfia dela. Este fato somado aos demais,nos mostra uma mulher de má índole, manipuladora, dissimulada e até desiquilibradapsicologicamente. Mesmo quando, em julgamento Rouletabille a aponta como autora dos 17
  18. 18. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011crimes, ela tenta negar, porém sua saúde psicológica está tão abalada que é incapaz desustentar a mentira por mais tempo.Finalmente morre, abalada por todos os acontecimentos. É outra mulher trabalhada atravésda dualidade, porém de maneira mais contrastante, mais elevada.4.4.7 Theodora LuigiAs informações que temos e que podem ser consideradas concretas são: a de que eracortesã (pois era conhecida por todos), era usuária de ópio (segundo sua própria criada) eque mantinha relacionamentos extraconjugais, após se casar com o príncipe da Albânia.Sua fama é de mulher extravagante, sedutora e independente. Quanto ao seurelacionamento com Roland, nada podemos afirmar a respeito de suas intenções ousentimentos, pois, como dito antes, essas informações são dadas através do narrador.Esta parece ser a mais revolucionária das mulheres. É tida por Sainclair como a grande vilãda história. Mesmo depois de saber que Thérèse cometeu os crimes, atribui à primeira aculpa de tudo. Porém não podemos esquecer que o narrador tem uma visão, apesar do quepretende, marcadamente subjetiva. Sendo conservador, é um antagonista direto deTheodora, que é um símbolo muito forte contra os bons costumes: era cortesã e viciada emópio.Tudo o que é dito a seu respeito, é através de Thérèse ou de Sainclair, personagens quetêm motivos diretos para vilanizá-la. Porém, em momento algum temos uma confirmaçãoexata de sua perversidade. Não podemos esquecer o caráter de Roland e nem sua paixão.Há rumores de que pretende fugir com Roland, mas no encontro em que supostamenteiriam acertar tudo, ela não aparece. É como se ela própria não o amasse, ou não estivessesubjugada a qualquer sentimento.Mesmo que tomemos tudo o que é dito a seu respeito como verdade, essa mulher postacomo vilã, pode ser também um símbolo da mulher a frente de seu tempo, pois até então,nos romances já citados, o comum era que ela fosse boa, fiel, honesta e angelical.5 CONCLUSÃOO romance policial é um gênero popular. Apresenta duas vertentes, mesmo assim, há poucapossibilidade de inovação em qualquer uma das duas. Na arte popular não há espaço paraa dialética entre gênero e obra: a melhor é a que mais se enquadra, mas difere da estéticaclassicista por seu caráter popular. O romance policial por excelência, considerado demassa, é aquele que se adapta às regras. Destes nada temos a dizer, porém, aquele que as“quebra” sai do âmbito prescritivo, acabando assim, por fazer literatura. 18
  19. 19. Universidade Presbiteriana MackenzieApós o fim da pesquisa, foi possível constatar que o romance escolhido além de umasimples narrativa policial. As novidades presentes nas que evoluíram dos exemplaresoriginários, são de ordem estrutural. Muitos escritores fizeram fama seguindo essa receita,porém poucos apresentaram originalidade, como é o caso de Leroux.A temática presente em sua obra dialoga com seu momento histórico: o século XIX. Atravésdas personagens e ambientes, ele representa e analisa seu meio social. O objeto destapesquisa era o papel feminino. O grande trunfo do autor é justamente como sãotrabalhados: suas personalidades são fortes e distintas. As características femininas vãoalém do clichê; a mulher apresenta uma dualidade, mesmo a bela e angelical esposa doprotagonista, é vista, em muitos momentos, por uma ótica que contradiz estes preceitos eexplora seu psicológico de um modo mais complexo. Além de girar em torno de duas outras,tão importantes quanto a primeira.A novidade não se detém na figura feminina, o detetive também é outro: seu humor é maismaleável, esta entre a razão e a emoção, se apaixona e vive um grande amor. Rouletabille éprotagonista de muitas aventuras, mas com certeza, poucas são tão marcantes quanto estaque encerra seu ciclo com chave-de-ouro.REFERÊNCIASDOYLE, A. C. Um estudo em vermelho. São Paulo: Ática, 1996.HAUSER, Arnold. História social da arte e da literatura; tradução Álvaro Cabral, São Paulo,Martins Fontes, 1998, 4ª edição.LEROUX, G. O mistério do quarto amarelo. Trad. De Duda Machado, Apresentação deMarcos Rey e Posfácio de Geraldo Galvão Ferraz. São Paulo: Ática,1999. p. 7-9, 271-277.LEROUX, G. Le crime de Rouletabille. França: Brodart et Taupin, 1976. 222 p.POE, E. A. Histórias extraordinárias. Trad. de Brenno Silveira. Rio de Janeiro: CivilizaçãoBrasileira, 1978.REIMÃO, S. L. O que é romance policial. São Paulo: Brasiliense, 1989. 87 p. (ColeçãoPrimeiros Passos, v. 109)TODOROV, T. A. As estruturas narrativas. Trad. Leyla Perrone-Moisés. São Paulo:Perspectiva, 2006ZABEL, D. M. A literatura dos Estados Unidos: suas tradições, mestres e problemas. Trad.De Célia Neves. Rio de Janeiro: Livraria Agir Editora, 1947. p. 81-102.Contato: melissamslima@gamil.com; 19

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