Lucas borges

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Em parceria com a Professora Helena Abascal, publicamos os relatórios das pesquisas realizados por alunos da fau-Mackenzie, bolsistas PIBIC e PIVIC. O Projeto ARQUITETURA TAMBÉM É CIÊNCIA difunde trabalhos e os modos de produção científica no Mackenzie, visando fortalecer a cultura da pesquisa acadêmica. Assim é justo parabenizar os professores e colegas envolvidos e permitir que mais alunos vejam o que já se produziu e as muitas portas que ainda estão adiante no mundo da ciência, para os alunos da Arquitetura - mostrando que ARQUITETURA TAMBÉM É CIÊNCIA.

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Lucas borges

  1. 1. Universidade Presbiteriana MackenzieA VISÃO IMEDIATA DA IMPRENSA BRASILEIRA ACERCA DOS ATENTADOSTERRORISTAS EM NOVA YORKLucas Teixeira (IC) e Denise Paiero (Orientadora)Apoio: PIVIC MackenzieResumoOs atentados ao World Trade Center em Nova York, no dia 11 de setembro de 2001 foi um dosataques terroristas mais reproduzidos e discutidos pela imprensa mundial. Foi assunto nas redes detelevisão, jornal e revista ao redor do globo. A presente pesquisa pretende analisar a coberturaimediata feita pela revista Veja e pelo jornal Folha de S. Paulo acerca dos ataques. Pretende analisarde que forma ocorreu essa cobertura e se houve ou não algum tratamento preconceituoso.Palavras-chave: jornalismo; terrorismo; imprensaAbstractThe attacks on the World Trade Center in New York on September 11, 2001 were one of the mostreproduced and discussed terrorist attacks by the world press. This subject was on the televisionnetworks, newspapers and magazines around the globe. This study intends to analyze the immediatecoverage made by Veja magazine and the newspaper Folha de S. Paulo about the event. Intends toanalyze how this coverage occurred and if had or not any prejudicial treatment.Key-words: journalism; terrorism; press 1
  2. 2. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011IntroduçãoOs atentados ao World Trade Center em Nova York, no dia 11 de setembro de 2001,trouxeram à tona uma tendência do terrorismo contemporâneo: a criação de fatosespetaculares que, mais do que o ato em si, visam à sua repercussão através dos meios decomunicação.O termo terrorismo adotado por nós refere-se ao “uso do terror como prática de violênciapara a consecução de um objetivo político”. (MELO NETO, 2002, p. 22) O que tem seobservado, no entanto, é a utilização de recursos terroristas para a obtenção de destaque ecobertura midiática. Segundo Wainberg, Tais ocorrências [atentados terroristas contra civis] são premeditadas e visam prioritariamente atrair a atenção da mídia. Neste sentido, costuma-se também dizer que o terror é uma forma de comunicação violenta. (2005, contracapa)Essa questão de comunicação, fundamental nos dias atuais, abre espaço para a discussãode como se dá essa cobertura midiática acerca desses eventos que, conforme já afirmamos,visam em grande parte às páginas dos jornais, revistas e sites e também à cobertura do telee do rádiojornalismo.Ao cumprir sua função de informar, o jornalismo acaba por construir a compreensão públicaacerca desses atos terroristas. Nesta pesquisa, propomos analisar a visão midiática sobre oatentado terrorista a Nova York, no dia 11 de setembro de 2001. O objetivo é analisar acobertura imediata após os atentados, verificando o discurso construído pela mídia acercadesse evento, mesmo antes de qualquer apuração mais aprofundada ou de umencaminhamento mais longo das investigações. Para essa cobertura, analisaremos tanto ostextos publicados sobre os eventos, quanto às imagens que ilustravam as páginas decobertura e também o projeto de hierarquização da informação, ou seja, o que foiconsiderado mais ou menos importante na distribuição das notícias na página.Na manhã do dia 11 de setembro de 2001, dois aviões, um da American Airlines e outro daUnited Airlines, colidiram com as duas torres do World Trade Center, o maior prédio denegócios de Nova York. O grupo terrorista Al Qaeda foi considerado culpado pelo atentado.Nosso foco foi a cobertura brasileira do atentado. Para isso, escolhemos as cinco ediçõesseguintes aos ataques do Jornal Folha de S. Paulo, o jornal com maior circulação do país,que tem a tiragem média de 302 mil exemplares em dias úteis e 365 mil aos domingos(segundo site oficial da Folha), e a edição seguinte da Revista Veja, a revista com maiornúmero de leitores do país, que tem a circulação média de um milhão de revistas porsemana (segundo o site Publiabril, da editora da revista). 2
  3. 3. Universidade Presbiteriana MackenzieA escolha de um corpus construído logo após os acontecimentos nos permitiu observar sehá uma visão pré-concebida da mídia acerca do atentado e de seus possíveis executores.Verificamos também que aspectos dos eventos são destacados por cada coberturajornalística e onde elas assemelham e se diferenciam entre si.Outra questão que tem estado em discussão nos meios acadêmicos diz respeito aopreconceito que se desenvolveu contra os árabes ou os seguidores do islamismo logo apóstais atentados. Sobre isso, Wainberg afirma que O ataque às torres gêmeas de Nova York, em 11 de setembro de 2001, foi realizado por terroristas mulçumanos, por isso mesmo, encontrou campo fértil num imaginário ocidental que estereotipou um Islã militante e agressivo. (2005, p. 50)A partir dessas considerações observaremos se, de fato, nessa cobertura imediata existeuma tendência a tratar esses grupos com preconceito, atribuindo a eles uma possível culpapelos atentados, antes mesmo de qualquer investigação. Os conceitos de moderado e extremista foram amplamente utilizados não só pelo governo americano e por pensadores conservadores. A mídia reproduziu esses rótulos na maioria das vezes em que tratou do islamismo. (DORNELES, 2002, p. 221)Hoje, no jornalismo, muito se discute sobre a necessidade de transparência dos meios emrelação à produção de notícias. Ao mesmo tempo, observa-se uma tendência a coberturasinternacionais direcionadas para uma única visão ocidental e americanizada. Quando oassunto é terrorismo, estamos nos referindo aos grandes inimigos da cultura ocidentalcontemporânea, ou seja, é de se esperar que certo direcionamento preconceituoso apareçajá nos primeiros momentos do fato ocorrido. No entanto, esse direcionamento, ao ser tratadocom a naturalidade de quem se vê como uma das partes envolvidas – a vítima – noepisódio, não esteja sendo percebido pelos veículos de comunicação nem pelo seu públicoconsumidor. Imagine uma televisão que adota um alinhamento automático com o governo de seu país, recomenda a seus repórteres que sejam patriotas, admite declaradamente a propaganda contra o “inimigo” e censura pronunciamentos de quem é contrário ao discurso oficial. Não seria uma aberração para os padrões ocidentais da chamada liberdade de expressão? Imagine então que esse canal tem o nome de Al Jazira. Seria difícil então imaginar o bombardeio que ele receberia da imprensa desse lado de cá do mundo? Mas como essa televisão não se chama Al Jazira, mas sim CNN, nossos padrões de reação são outros. (DORNELES, 2002, p. 130) 3
  4. 4. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011Essa citação do jornalista Carlos Dorneles deixa evidente a falta de transparência presentena cobertura jornalística quando o assunto é terrorismo e a dificuldade de olhar para opróprio desvio da função do jornalismo pelas mídias envolvidas. Ainda segundo Dorneles, A imprensa somente revela os fatos, não toma partido; não é responsável por acontecimentos, apenas os registra. Esse dogma jornalístico jamais soou tão irreal como depois do 11 de setembro. Muitos episódios, como a própria guerra do Afeganistão, tiveram participação ativa da imprensa. É impossível, hoje, separar o que foi apenas a intenção pura e simples do governo Bush e o que foi facilitado, possibilitado pela influência da mídia. (2002, p. 270)Com este trabalho, pretendemos trazer à tona como se dá a cobertura brasileira sobre osepisódios de terror, se o nosso jornalismo está ou não contaminado com essas visõespreconceituosas e direcionadas acerca de episódios que são notícia obrigatória.A mass culture e o Marketing do TerrorPara entendermos por que e como a mídia tratou os atentados terroristas que foramanalisados, é importante, primeiro, considerar alguns conceitos, tais como o que o sociólogofrancês Edgard Morin chama de Cultura de Massas (mass culture).O jornalismo, assim como toda a área da comunicação de um modo geral, vai sedesenvolver no mundo capitalista totalmente influenciado por essa mass culture. SegundoMorin, a cultura de massa integra e se integra ao mesmo tempo numa realidade policultural; faz-se conter, controlar, censurar (pelo Estado, pela Igreja) e, simultaneamente, tende a corroer, a desagregar as outras culturas. (...) Embora não sendo a única cultura do Século XX, é a corrente verdadeiramente maciça e nova deste século. (...) Alguns de seus elementos se espalharam por todo o globo. Ela é cosmopolita por vocação e planetária por extensão. (1962, p. 16)É a cultura da pós-Segunda Guerra, que se desenvolverá em um mundo bipolar, divididoentre o capitalismo desenfreado do Ocidente e o comunismo fechado do Oriente.Mas, por ser desenvolvida e difundida principalmente em países como Estados Unidos eFrança, “a cultura de massa favorecerá em profundidade, numa segunda fase, odesenvolvimento dos valores e dos modelos do individualismo, do bem-estar e doconsumo.” (MORIN, 1962, p. 165)Ela terá o consumo como maior estimulante, pois “toda produção de massa destinada aoconsumo tem sua própria lógica, que é a de máximo consumo” (MORIN, 1962, p. 35). E seráessa lógica que fará os jornais irem se adaptando às necessidades da publicidade. 4
  5. 5. Universidade Presbiteriana Mackenzie O fim da fronteira entre informação e entretenimento obrigou o telejornalismo a se adaptar ao ritmo das mensagens publicitárias: ninguém que tenha acabado de passar pelo impacto visual proporcionado pelas mensagens da Coca-Cola ou Marlboro suportaria uma sequência longa (mais do que trinta segundos) ou densa sobre algum evento. (ARBEX JR, 2002, p. 51)Para conseguir acompanhar esse ritmo, é formada uma espetacularização da notícia. “Ostemas fundamentais do cinema – a aventura, a proeza, o amor, a vida privada – sãoigualmente privilegiados junto à informação.” (MORIN, 1962, p. 99) O fantástico e o que éconsiderado “cena de filme” começará a ser muito valorizado pela imprensa, especialmentea televisão que pode mostrar, em sequência, tudo o que aconteceu. Com o advento dacâmera no celular, então, basta um anônimo estar no local, filmar e mandar para aemissora. Em cinco minutos essas imagens podem rodar o mundo.Essa lógica do consumo não só gera uma vontade momentânea, como uma futura também.Quanto mais a imprensa fornece essas “cenas” para o público, mais o público quer vê-las.“A presença no sensacionalismo do horrível (...) é atenuada pelo modo de consumojornalístico; o sensacionalismo é consumado (...) à mesa.” (MORIN, 1962, p. 115)O sensacionalismo tomará conta da imprensa mundial para que ela consiga preencher essademanda do público. E, claro, quanto maior a demanda do público, maior o interesse dosanunciantes publicitários pelo veículo.Mesmo essa lógica sendo mais antiga que a cultura de massas, já que os anúncios deprodutos em um jornal vêm desde o início do século XIX, “com o tempo, tornaram-se a partemais importante de suas receitas.” (ARBEX JR, 2002, p. 35)Essa lógica consumista cria uma nova tendência, pois se no passado a publicidade tinha como objetivo vender produtos, no mundo contemporâneo ela estabelece modelos a serem seguidos, padrões físicos, estéticos, sensuais e comportamentais. (ARBEX JR, 2002, p. 60,61)Dentro desse contexto, podemos entender melhor qual o objetivo dos responsáveis peloataque fazerem o que fizeram da forma que fizeram. Isso nos leva a outro conceitoimportante que seria o chamado Marketing do Terror, criado pelo estudioso brasileiroFrancisco Paulo de Melo Neto.Mas primeiro é importante esclarecer que ele diferencia ataques chamados terroristas, comoos tratados nessa pesquisa, de atos de guerra. O ato terrorista não é um ato de guerra. (...) Ao contrário, o ato terrorista é uma fúria descabida, um ato isolado, inesperado, covarde, porque surge das sombras e não dá nenhuma possibilidade de defesa. (2002, p. 21) 5
  6. 6. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011Porém, o próprio Francisco adverte: O ataque terrorista aos Estados Unidos demonstraram ao mundo o surgimento de um novo tipo de terrorismo. Para o especialista americano Ian O. Lesser, o novo terrorismo tem as seguintes características: utilização de ataques em maior escala com um enorme número de vítimas fatais, escolha de alvos simbólicos e ataques sem objetivos claramente definidos. (2002, p. 28)Ao estudar tais atos e sua repercussão no mundo e, em especial, nos meios decomunicação, ele criou o termo do Marketing do Terror. O qual é um tipo de marketing às avessas. Suas ações e características constituem o avesso do que denominamos de marketing moderno. Utiliza as redes de TV como promotores do seu espetáculo trágico e bárbaro. Não é uma mídia para si, mas contra si. Não investe em mídia. É a mídia que investe nele. (2002, p. 17)Assim, pode-se entender e analisar melhor como a mídia internacional (no nosso caso, abrasileira) trata de imediato atentados terroristas como os selecionados por nós. Otratamento dessas catástrofes como espetáculo é determinante na forma que a notícia épassada. É fazendo esse marketing que muitas vezes a mídia, mesmo sem saber, jácomeça a sua cobertura.11 de Setembro de 2001 – Nova YorkA colisão de dois aviões, um da American Airlines e outro da United Airlines, nas torres doWorld Trade Center, em Nova York, na manhã do dia 11 de setembro de 2001 épossivelmente o atentado terrorista mais conhecido na história. As televisões ao longo domundo inteiro passaram horas transmitindo ao vivo o que estava acontecendo e também foiassunto de grande parte das publicações impressas, inclusive no Brasil.VejaEsse fatídico dia foi uma terça-feira. A revista Veja data as suas edições na quarta-feiraseguinte à distribuição, por isso, a edição Nº 1717 foi datada no dia 12 de setembro, maschegou às bancas no domingo anterior, dia 9.A edição seguinte (Nº 1718), datada no dia 19 de setembro, é que foi distribuída no domingoseguinte ao ocorrido, dia 16 de setembro. Foi uma edição especial sobre os atentados, semnenhuma matéria nacional ou internacional que não fosse relacionada a eles. Essa foi aedição escolhida por nós. 6
  7. 7. Universidade Presbiteriana MackenzieTendo isso em vista, é importante levar em consideração que os jornalistas da revistativeram por volta de cinco dias para apurar os acontecimentos e as informações oficiaisdivulgadas até então e escreverem suas reportagens.Tal informação é importante, pois o presente artigo fez a análise da cobertura imediata e,por mais que cinco dias pareçam um período curto de tempo, é, na verdade, um períodobastante considerável, visto que os jornais diários, como a Folha, tiveram que publicar suasmatérias apenas um dia depois.A imagem escolhida para a capa não foi uma montagem, algo muito frequente nas ediçõesda revista, mas sim uma foto do exato momento em que o segundo avião sequestradocolidiu com a torre sul. Embaixo, o seguinte título: O Império Vulnerável, e ao lado, algumaschamadas para as matérias internas, escritas em branco com fundo preto, o que certamenteajuda no tom pesado da capa.Como é uma edição especial apenas sobre os atentados, as Páginas Amarelas, conhecidoespaço de entrevista, a Carta ao Leitor e as colunas de opinião abordaram o assunto. Até oíndice foi escrito sobre uma foto de bombeiros retirando um homem dos escombros. O únicotrecho da revista que não trata do assunto é a sessão A Semana, que abordou de algumasquestões da política nacional.A proposta do editorial, que na revista tem o nome de Carta ao leitor, já foi exposta no título:O que incomoda o terror. Nesta parte é prevista a opinião da revista, a qual se espera queseja embasada em fatos e, no mínimo, coerente.Mas o que temos em dois grandes parágrafos é um discurso repleto de pré-julgamentos oqual prega que “o que os radicais não toleram, mais que tudo, é a modernidade”. (p. 9) Econtinua: “É a existência de uma sociedade em que os justos podem viver sem serincomodados e os pobres têm possibilidades reais de atingir a prosperidade com o fruto deseu trabalho. Esse é o verdadeiro anátema dos terroristas que atacaram os EstadosUnidos”. (p. 9)Além de nos fazer pensar se tal editorial foi mesmo escrito por um brasileiro, visto seu tomextremamente patriota, também nos passa a imagem de que, seja qual for o país árabe quevieram tais “fundamentalistas”, é um país regido pelo atraso, no qual o desenvolvimento e otrabalho duro não são considerados qualidades. A ideia de que os países árabes e mulçumanos são pobres, atrasados e têm inveja do progresso americano também se tornou como nas páginas dos jornais. Um contraponto (...) veio do economista americano Jeffrey Sachs. Ele escreveu um artigo negando que a cultura islâmica represente uma barreira ao crescimento. ‘É falso que algumas culturas sejam estáticas e adversárias da mudança enquanto outras sejam, de alguma maneira, singularmente modernas.’ (...) ‘A ideia de um mundo islâmico unificado e 7
  8. 8. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011 conservador é tão errônea quanto a de uma sociedade ocidental moderna e única’. (DORNELES, 2002, p. 222)Em suma, várias culturas, modos de vida e preceitos morais foram unificados, simplificadose destruídos em poucas linhas de um texto cheio de preconceitos e com pouquíssimo – ounenhum – embasamento teórico.A reportagem especial, na qual a revista está toda baseada, começa com uma foto deManhattan num dia de sol, ainda com as torres do World Trade Center, e a seguinteinscrição: Este mundo nunca mais será o mesmo.A matéria principal, A Descoberta da Vulnerabilidade, começa mesmo nas duas páginasseguintes. Dessa vez, com duas fotos que mostram o avião da United Airlines segundosantes de colidir e colidindo com a segunda torre.Como o título e a própria capa já apontavam, a matéria começa com o foco na repercussãoque os atentados geraram nos Estados Unidos e no mundo. Para isso, a revista afirma queo acontecido representa o “fim do mito da invulnerabilidade do território americano” (p. 48).Mais uma vez as letras são brancas com fundo preto, o que dá um tom mais sério, pesado eaté de luto a esse trecho da matéria.A matéria segue narrando o acontecido e o que o então presidente George W. Bush feznaquele dia. Para fazer um contraponto e reforçar o sentimento de vulnerabilidade propostopela revista, os Estados Unidos são chamados de “superpotência” ou “a nação maispoderosa do planeta” (p. 50).Outro fato a se apontar é que desde o começo a matéria comete o erro da generalização,tratando sempre dos “americanos” ou do “povo americano”, como se todos os envolvidospudessem ser definidos assim ou como se todos os cidadãos americanos pensassem damesma maneira.A situação se agrava um pouco quando a matéria sugere que “os americanos acham que épreciso dar o troco” (p. 48), mas usa como única fonte o subsecretário de Defesa dogoverno Bush, Paul Wolfowitz. Tal fonte que, obviamente, confirma a tese. A opinião dediferentes cidadãos comuns, que estatisticamente representa melhor “os americanos” queapenas um homem do governo, foi dispensada. Faltou pluralidade no desenvolvimento dodiscurso e no uso das fontes.Nas páginas 50 e 51, além de mais uma foto do World Trade Center pegando fogo (dessavez com a legenda: Nova York em chamas), consta um pequeno mapa que mostra a rotados quatro aviões sequestrados naquela manhã e os seus horários de decolagem e colisão.Esse recurso, que é muito usado pela revista, ajuda o leitor a entender o percurso feito pelasaeronaves, além do preciso detalhamento do horário. 8
  9. 9. Universidade Presbiteriana MackenzieA matéria segue levantando questões que abordam a reação dos Estados Unidos e aindadá as alternativas prováveis que Bush iria seguir. É nesse contexto que a revista usa a suaprimeira fonte, que não declarações do presidente ou do subsecretário. A matéria cita umtrecho do editorial do respeitado jornal americano Washington Post, o qual fala dasdificuldades que Bush iria enfrentar.Nas próximas quatro páginas, somos bombardeados por fotos de prédios em chamas,escombros, pessoas chorando e até alguém se atirando de uma das torres. Mesmo queindiretamente, a revista acaba por reforçar o que os atos tanto pretendem: propagar o medoe a sensação de insegurança por meio da sua imagem. Não sabemos se o desabamento das torres fora previsto pelos terroristas. O importante é que o espetáculo de destruição maximizou a exposição do terror na mídia. Ao dar total cobertura do evento, a mídia tornara-se a grande aliada do terrorismo, como afirmam Umberto Eco e George Steiner. (MELO NETO, 2002, p. 108)Na antemão das imagens, a matéria aborda vários temas para contextualizar – ou pelomenos tentar – o leitor. Para explicar, por exemplo, essa vontade de vingança já citadaforam abordados assuntos como o relativismo cultural, além do uso de mais fontes, comoum ex-secretário de Estado e combatente do Vietnã e o ex-presidente do Conselho deSegurança Nacional do governo Clinton. Ambos a favor da retaliação.Mesmo essa contextualização, embora simplista, ser um ponto positivo para a matéria, ela éabalada pela pluralidade de fontes, que continua deixando a desejar, pois, embora pareçaplural colocar dois homens de visões diferentes apontando para o mesmo rumo, não é.Continua faltando membros de outras classes que não seja a dos envolvidos no poder.Algumas falas parecem estar ali apenas para confirmar o discurso de vulnerabilidade evingança proposto pela matéria.Discurso esse que, segundo Melo Neto, está previsto no objetivo dos terroristas: A lógica do marketing do terror é perfeita. Inicialmente, gera cenas de catástrofe muito admiradas pela imprensa. Com isso, assegura a sua ampla veiculação. Em seguida, desperta polêmicas de interesse da mídia: a autoria dos atentados, a cobertura das ações, a estratégia utilizada pelos terroristas, as vulnerabilidades dos Estados Unidos como país hegemônico, a natureza e a abrangência da reação americana e de seus aliados. (2002, p. 106)A matéria segue com generalizações, mas dessa vez sobre “o outro lado”. Quando começaa falar sobre a identificação dos culpados, que, a essa altura, já haviam sido identificados, amatéria insiste em falar dos “árabes” e “mulçumanos”, a única diferenciação entre qualquergrupo dentro dessas amplas definições vem nesse trecho igualmente simplista e 9
  10. 10. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011preconceituoso: “Há mais de 1 bilhão de mulçumanos espalhados por quase todos ospaíses. Na maioria, são moderados. A minoria radical, no entanto, tem uma disposiçãofanática para matar e morrer e se une num ódio incontrolável contra os Estados Unidos, emsua opinião um país satânico.” (p. 56 e 57)É muito difícil e improvável que o jornalista que escreveu a matéria tenha feito um estudo ouuma pesquisa abordando os mais de um bilhão de mulçumanos espalhados pelo mundo. E,mesmo se tivesse o feito, definir uma religião apenas baseado em um grupo menor é, nomínimo, uma generalização indevida. Até mesmo os mulçumanos que não são consideradosradicais pela matéria são chamados de “moderados”, o que significa que, se você for ummulçumano, você tem que ser, no mínimo, moderado.A foto dividida entre as páginas 56 e 57 mostra um grupo de homens armadoscomemorando no meio da rua. A legenda, intitulada A favor do terrorismo, diz: “Palestinoscomemoram atentados contra os americanos em um campo de refugiados no Líbano:alegria com a desgraça do ‘grande Satã’”.Esse trecho não só é repleto de pré-julgamentos, como também cria a noção dos EstadosUnidos como o país correto que foram atacados pelos anticristos do século XX. É evidenteque eles foram vítimas de um ataque inesperado, covarde e desumano. Isso tem que serdito. Porém criar uma bipolaridade, na qual existe um povo “do bem” e outro povo “do mal”,é desnecessário. A luta do bem contra o mal, tão repetida pelo presidente George W. Bush em seus discursos,foi levada a sério pela imprensa e por grande parte dos pensadores acadêmicos, fartamente utilizados para satanizar o islamismo. (DORNELES, 2002, p. 219)Melo Neto complementa: No caso dos atos terroristas, os Estados Unidos são mostrados como o país “do bem”, covardemente atingido, e os terroristas, como a imagem “do mal”. O marketing do terror sabe explorar a estratégia de manipulação exercida pela mídia americana (...), bem como o seu maniqueísmo exacerbado, que se expressa nas ações de demonização dos mulçumanos, de caricaturização do islamismo e da depreciação do exotismo do Oriente. (2002, p. 113)Esse assunto é tratado na matéria Assassinato em Nome de Alá. Porém o que chama aatenção é que a sua proposta vai ao sentido inverso: de quebrar alguns preconceitos eequívocos freqüentes no que se refere aos mulçumanos. Usa como fontes professores eestudiosos de universidades respeitadas, como Harvard e USP.A matéria tenta fazer uma diferenciação entre os radicais e os chamados por ela de“moderados”, mas, assim como a anterior, acaba caindo em lugar-comum na sua narrativa. 10
  11. 11. Universidade Presbiteriana MackenzieEla chega a tratar uma religião como raça ou doença: “Com o liberalismo religioso na maiorparte do Ocidente, os mulçumanos também se espalham com alguma facilidade” (p. 82). Overbo “espalhar” está empregado de forma similar ao tratamento de uma praga ou doençacontagiosa.Nela também está presente um recurso muito utilizado pela Veja: um quadro na parteinferior que resume alguns acontecimentos históricos. Nesse, intitulado A cara das guerras,propõe: “Confira como mudou a natureza dos conflitos nos últimos 500 anos, período emque consolidou o domínio da civilização cristã e ocidental no mundo.”Quadros como esse são interessantes no que desrespeito à contextualização, porém é nomínimo pretensioso definir 500 anos de história do mundo em apenas quatro pequenosparágrafos. Essa redução não é apenas simplista como favorece a generalização. Essepequeno recorte de quatro traços importantes na história se encaixa na visão simplificadorada matéria e fica acaba parecendo o bastante, mas é, no fim, uma contextualizaçãodescontextualizada que não acrescenta muito.O Inimigo Número 1 da América é a matéria mais bem elaborada da edição. Com um títuloque tinha tudo para endossar preconceitos e lugar-comum, a matéria não só dá um resumoda biografia de Osama Bin Laden, como dá também um pequeno histórico, não tãodetalhado, de alguns ataques terroristas que os Estados Unidos sofreram. A matéria nãodemoniza nem glorifica o líder acusado dos atentados e, ao final, como nada foi provado,chega até a assumir que ele pode ser ou não o responsável.Ainda sim, o tom presente na edição como um todo já é representado no editorial, no final,especialmente: “Eles [terroristas/fundamentalistas/mulçumanos] são enviados da morte, daelite teocrática, medieval, tirânica que exerce o poder absoluto em seus feudos. Para eles, ademocracia é satânica”. (p. 9) A generalização os torna iguais. Eles são todos parecidos emaus. Diferentes de “nós”, o Ocidente, democrático e justo. “Nós” somos o bem e “eles”, omal.A edição especial conta com mais algumas matérias que tratam do assunto, como a reaçãode alguns passageiros dos aviões seqüestrados ou filmes americanos que tratam deterrorismo, mas que não são interessantes para a análise proposta aqui, pois não chegam atratar dos ataques em si ou dos responsáveis.Folha de São PauloJá no dia seguinte, quarta-feira, dia 12 de setembro, a Folha de S. Paulo publicou mais devinte matérias, entre notícias e colunas de opinião, sobre os atentados. Embora a pesquisa 11
  12. 12. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011aborde a cobertura imediata como um todo, algumas matérias, tais como sobre arepercussão econômica e relacionadas ao Brasil, não são interessantes, pois não nosajudam a ver como a mídia trata o terrorismo.A manchete e a capa dessa edição, como não poderiam deixar de ser, tratam dos ataques.A manchete EUA SOFREM MAIOR ATAQUE DA HISTÓRIA – sim, em caixa alta – éilustrada pela repetida imagem do exato momento em que o avião 747 da United Airlinesbate na torre sul do World Trade Center. Pelos alvos escolhidos, todos de grande valor simbólico para os americanos, o terror seduziu a mídia com o espetáculo de suas imagens. É o marketing do terror produzindo imagens de impacto para a mídia. (MELO NETO, 2002, p. 104)A imagem é tão surreal que parece vir da ficção. Parece que estamos prestes a abrir umlivro, a vermos um espetáculo. Sob a legenda um pouco sensacionalista de Guerra naAmérica, temos quase certeza que, dentro dessas páginas, presenciaremos algo fantástico. O universo do sensacionalismo tem isso em comum com o imaginário (...): infringe a ordem das coisas, viola os tabus, compele ao extremo a lógica das paixões. (...) É esse universo do sonho vivido, da tragédia vivida e de fatalidade que valorizam os jornais modernos do mundo ocidental. (MORIN, 1962, p. 100)Dentre várias matérias informativas, sobre atrasos nos aeroportos e confusão nas linhastelefônicas, a matéria escrita por Sérgio Dávila, um dos enviados da Folha em Nova York,chama atenção.Escrita de forma narrativa, em Horror em Nova York – Corpos e destroços compõem ocenário, o jornalista conta de forma detalhada como foi o seu trajeto do prédio do jornal até oWorld Trade Center, á quinze quadras. Ele narra não só o efeito físico nos arredorescausado pelo desabamento de uma das torres, como a reação das pessoas que seencontravam na rua.Um bom exemplo de jornalismo literário que não se prendeu a clichês e pode dar a nós, queestávamos há milhares de quilômetros, uma noção de como as coisas estavam por lá.Já outras matérias como Crianças de Nova York enfrentam clima de guerra após atentado eNY vive caos, com filas parar doar sangue e estocar comida e dinheiro não sãopropriamente sensacionalistas, mas, mesmo sem saber, aderem ao mecanismo quaseautomático de usar palavras de efeito, como “colapso”, “guerra” e “caos”, para narrar osacontecimentos. O que não é falso ou talvez nem indevido, é apenas digno de se ressaltar. 12
  13. 13. Universidade Presbiteriana MackenzieUma das matérias que mais chama a atenção na edição é “Nações renegadas” podem tercolaborado. Escrita por um jornalista enviado aos Estados Unidos, a matéria já começamostrando de onde veio a opinião expressa no título: “Uma opinião era dominante entre asdezenas de analistas ouvidos ontem pelas TVs americanas”.Especialista por especialista e veículo por veículo, ele vai reproduzindo as opiniões que,como já dito, convergem em um ponto dominante: que o grupo terrorista não agiu sozinho,mas teve ajuda de países como Afeganistão, Iraque, Irã ou Líbia. O interessante a seressaltar nessa matéria não é apenas questionar por que um correspondente dentro dosEstados Unidos precisou recorrer às TVs americanas e não foi atrás das suas própriasfontes, mas sim ressaltá-la como uma prova de que a Folha de S. Paulo acabou aderindo àsinfundadas opiniões que tomaram conta de alguns veículos americanos.Ao invés de ir atrás de outras fontes e escrever uma matéria que confirme ou não taisopiniões, o jornal preferiu pegar depoimentos de especialistas em TVs locais para tomarcomo verdade única. É cabível perguntar o que acha, então, um especialista (ou estudioso)de algum dos países acusados de darem apoio ao grupo. Será que a opinião continuaria“dominante”?Em sua coluna de opinião, intitulada Zona de Guerra, Janio de Freitas é o primeiro a fazerum levantamento interessante, que sempre é lembrado por estudiosos do assunto: nomesmo dia dos ataques, por exemplo, os Estados Unidos estavam bombardeando o Iraque.Sem se dar conta ou se importar, a imprensa compra uma briga – a Folha e a Veja seguiramesse caminho – de forma completamente imparcial e injusta. O fato de os atentadosterroristas terem sido cometidos por árabes mulçumanos, informação que ainda não haviasido provada no dia seguinte, já é motivo para que a mídia faça julgamentos sobre todo umpovo e uma cultura.Tais opiniões que, na maioria das vezes, não têm embasamento teórico nenhum sãopassadas como verdade absoluta para o público. O bombardeio americano foi ignoradopelos dois veículos pesquisados. Nenhum julgamento moral, como foi feito repetidas vezescom o povo árabe, foi feito com a atitude americana. A coluna do Janio de Freitas elucidaisso.É na quinta-feira, dia 13 de setembro, que um dos principais nomes do jornal se pronunciaem uma coluna, intitulada Guerra Invisível, assinada por ele. Otávio Frias Filho, ao invés defazer um julgamento ou análise do ato terrorista em si, faz uma pequena retrospectiva docenário do terrorismo internacional e fala das possíveis conseqüências de tais atos. Quasedez anos depois, podemos ver que ele acertou em algumas de suas previsões, como “umpresidente até aqui fraco deverá fortalecer-se por efeito da coesão nacionalista interna” 13
  14. 14. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011(George W. Bush foi reeleito em 2004, dessa vez, sem questionamento na contagem devotos) e “intervenções em nome da ‘civilização’, como nas guerras do Golfo e dos Bálcãs,contarão com apoio internacional mais amplo e talvez se tornem rotina” (em resposta direta,os Estados Unidos começaram a Guerra do Afeganistão, que não acabou até hoje, e foramapoiados por países como o Reino Unido).Mais lúcido que a maioria, o artigo de Frias Filho não se refere ao que aconteceu em NovaYork como “guerra”, o nome que consta no título se refere a o que, segundo ele, seria osubstituto da Guerra Fria, previsão essa que ainda não pode ser confirmada ou descartada.Nessa edição também consta uma reunião de análises sobre diferentes pontos ligados aosataques. Dentre elas, está a entrevista de Maurício Santos Dias com o historiador KennedyMaxwell. Com perguntas diretas e bem feitas, o jornalista toca em pontos como a situaçãodos árabes residentes nos Estados Unidos, a atitude da imprensa e a reação americana.Porém o melhor texto dessa edição, e provavelmente de toda a cobertura, foi um artigo doescritor israelense Asmo Oz. O texto aborda o assunto de uma forma sensível eextremamente sensata, sem fazer julgamento nenhum, nos lembra: “nenhum ser humanodecente se esqueça de que a imensa maioria dos árabes e outros muçulmanos não écúmplice do crime nem se regozija com ele. Quase todos estão tão chocados e aflitosquanto o resto da humanidade”.Tal afirmação, evidentemente, parece óbvia, porém, como estamos mostrando, essesentimento de vingança e ódio levou a muitos, inclusive membros da imprensa, proferirempalavras preconceituosas e generalizadas em relação às pessoas de origem árabe ou dareligião mulçumana. Ainda mais por não ter sido um texto escrito para o jornal, foi um pontoalto de sua cobertura tê-lo publicado.Na sexta-feira, dia 14 de setembro, mais uma vez, além das matérias técnicas sobre osseguros e a paralisação da Bolsa, o que mais chama atenção são os comentários, artigos eanálises.Milly Lacombe, enviada da Folha em Los Angeles, entrevistou Larry Wright, escritor de NovaYork Sitiada – que virou filme – e escreveu um artigo. No livro (1997) e no filme (1998), acidade fica sob lei marcial no comando do exército enquanto terroristas detonam bombas.Os terroristas culpados eram árabes.O artigo, intitulado A Profecia, é prudente ao lembrar que ainda não se sabia naquele diaquais eram os culpados, os “inimigos”. Uma das partes que ela transcreve é um importantelembrete proferido por Wright: “Isso me apavora. Não podemos cair na tentação nazista degeneralizar e eleger uma raça como inimiga." 14
  15. 15. Universidade Presbiteriana MackenzieOutra análise do mesmo dia que aborda e ficção é o artigo de Sérgio Rizzo chamadoFantasia nunca se atreveu a imitar o horror da realidade. Ele faz uma abordagem sobrevários momentos do cinema os quais tiveram relação com o tema, como filmes sobresequestro de avião e os chamados “filmes-catástrofe”.Marcio Aith, de Washington, escreveu um comentário que trata sobre o preconceito que osárabes e descendentes estavam sofrendo. Ele próprio, descendente de sírios e libaneses,chegou a sofrer preconceito.Os temas patriotismo e insegurança foram abordados por Álvaro Pereira Júnior, enviadoespecial em São Francisco. No texto Patriotismo toma conta dos americanos em todo opaís, ele expõe como o patriotismo e amor à bandeira americana aumentaram em grandeescala após os ataques e lembra que “comunidade islâmica enfrenta manifestações dehostilidade”.A edição trás ainda uma matéria sobre um marroquino preso no Brasil que disse terinformações privilegiadas sobre os atentados. Até a embaixada americana no Brasil e o FBIentraram no caso que, como lembrou o jornal, poderia não passar de um blefe. Mas servepara expor o clima que estava instalado, não só nos Estados Unidos.A Folha do dia 15 de setembro, um sábado, trouxe duas matérias sobre o comportamentoamericano e o comportamento mundial perante os ataques. Em Bush é ovacionado emvisita a NY, Sérgio Dávila mostra que, mesmo o presidente que enfrentava oposição nacidade e estado de Nova York, foi muito aplaudido e elogiado devido ao clima de euforiapatriota. Em Mundo unido contra o terror, o jornal fala das diversas manifestações queocorreram ao redor do mundo em memória às vitimas, mas lembrou ainda que, mesmohavendo milhares de mulçumanos prestando homenagens, vários templos foram pichados eo clima de xenofobia estava aumentando no país.Mais um artigo escrito por Marcio Aith, Mídia filtra tragédia e poupa Bush, trás uma análiseinteressante para a pesquisa. Segundo ele, o clima patriótico presente no país duranteaqueles dias guiou o tratamento dos jornais norte-americanos em relação a Bush. “Aprioridade dos meios de comunicação tem sido a de ‘curar’ feridas emocionais causadaspelo desastre na população”, escreveu ele. Isso fez com que a imprensa e as redestelevisivas transmitissem mais e mais as imagens e dramas pessoais das famílias, mas nãofizesse perguntas chaves, como, por exemplo, como os terroristas conseguiram furar osistema de inteligência americano, considerado o melhor do mundo.Um dos editoriais publicados nesse dia foi mais um ponto alto da cobertura da Folha.Intitulado de Pela Culatra, ele trata do preconceito contra o mundo árabe e como os ataquespodem ter afetado Estados como o da Palestina. Ele ressalta um ponto importantíssimo, que 15
  16. 16. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011foi ignorado pela revista Veja: analisa que, mesmo não tendo ainda certeza dos culpados,fica difícil não associar à imagem árabe, já que várias imagens e vídeos exibemcomemoração nas ruas, todavia, o jornal lembra que “a esmagadora maioria dos palestinos,como a esmagadora maioria dos seres humanos, condena com vigor crimes dessanatureza”. Fala ainda que já culpar os árabes pelos ataques é “uma visão distorcida e comcontornos racistas”. Foi um editorial bem escrito, analítico e nada hipócrita.O jornal publicou ainda uma análise financeira de Andrew Hill, do Financial Times, sobre osefeitos dos atentados no mercado, intitulada Amanhã é o dia D.O último dia previsto na nossa análise, 16 de setembro, o domingo, teve duas análises decolunistas sobre o antiamericanismo, que, em contraponto à crescente xenofobia nosEstados Unidos, vinha também crescendo no mundo.Contardo Calligaris em uma grande análise da ação terrorista chamada A face oculta doantiamericanismo faz a seguinte pergunta sobre os ataques a um dos maiores símbolosamericanos: “o show era para quem?”. Explica que a aposta dos terroristas era que, emvários lugares do mundo, muita gente gostou de ver um dos maiores símbolos docapitalismo e materialismo ser derrubado. O imaginário foi à mil.Citando pesquisas feitas pelas redes de televisão e sites, ele mostra que a grande maioriados americanos entrevistados era a favor de uma retaliação. Esta briga de sentimentosrepercutiu no mundo inteiro. Para ele, era um bom momento para reflexão sobre todasessas questões.Já para Elio Gaspari, em Celso Furtado comprou a teoria do Grande Satã, esseantiamericanismo cresceu no Brasil, e isso se deve em parte a um sentimento deinferioridade presente em nós. Ambos tentam mostrar que muitas vezes culpamos osEstados Unidos por problemas internos.O que é interessante na publicação dos dois artigos é mostrar que a Folha, pelo menosnessas cinco primeiras edições, não embarcou em sentimento algum. Não formou um “ladobom, lado ruim”, seja ele os Estados Unidos ou qualquer país árabe. A análise sobre osacontecimentos está mais presente no jornal diário que, com o passar dos dias, foidedicando cada vez menos espaço para o ocorrido.ConclusãoAo se fazer a análise mais detalhada da cobertura feita pelas duas mídias, podemos chegara certas conclusões – algumas alarmantes – sobre cada cobertura específica e sobrealgumas diferenças entre elas. 16
  17. 17. Universidade Presbiteriana MackenzieA falta de cuidado com as generalizações foi muito presente na cobertura da Veja. A maioriado material publicado não procurou diferenciar a nacionalidade dos cidadãos árabes, comose identificá-los como “árabes” fosse o bastante. Raramente lê-se “iraquianos”,“paquistaneses” ou “iranianos”, são todos “árabes”.A situação piora quando a generalização parte para a religião. Não são apenas árabes, sãomulçumanos. Para a revista, não importa se o cidadão nasceu no Afeganistão ou nosEstados Unidos, sendo mulçumano, ele só tem duas escolhas: ser “radical” ou “moderado”.Mais que uma generalização, é um preconceito.Já a Folha de S. Paulo procurou não criar muitos rótulos. Pouquíssimas vezes foram usadosem suas análises termos de generalização.Isso denota outro grave problema presente durante quase toda a cobertura da Veja: a faltade embasamento teórico. Quando se trata com uma cultura tão diferente da nossa, espera-se que seja feito com cuidado, para que o jornalista mostre o diferente para o leitor, e nãoendosse os preconceitos. Mas essa cobertura, tratando os mulçumanos desse modo, porexemplo, fez o contrário: rotulou e tratou de forma simplista misturando culturas, nações ereligião. Passa a impressão que tudo é um só. Enquanto isso, os ensaios da Folhaprocuraram emitir suas opiniões, em sua maioria, embasadas em pesquisas, entrevistas evivência (já que havia enviados por todo o país).Na revista Veja, como já foi dito, foram raras as vezes em que as matérias foramapresentadas com algum contexto histórico ou cultural necessário. Quando isso ocorreu,como no uso do quadro citado, foi de forma rasa e nada esclarecedora. O leitor foiapresentado a um grande número de informações, a maioria delas relatava osacontecimentos recentes e outra parte tentava explicar o porquê desses acontecimentos.Nessa segunda parte está o problema.Ao tentar fazer essa explicação, regidas pelo editorial, as matérias analisadas caiam nolugar comum do preconceito, cometendo o erro que Francisco de Melo Neto advertiu:confundir atos terroristas com atos de guerra. E pior: a revista reforçou a ideia de que erauma guerra do Ocidente contra o Oriente.Muitas vezes tínhamos a impressão de que o ataque terrorista estava ameaçando não só ademocracia norte-americana, como a mundial, inclusive a brasileira. Ao fazer essa leituramal embasada, a revista reforçou o objetivo do ato terrorista: propagou insegurança e fixoua marca do medo.Todavia, em parte por ser um jornal, quase todas as matérias presentes na Folha nãotinham nem um histórico. Como vimos, ao tratar de vários incidentes, raramente eraconstruído um quadro contextualizado. 17
  18. 18. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011Ambas as coberturas também não pouparam em imagens. Desde as imagens das torresexplodindo até imagens de pessoas se jogando delas. Legendadas com mensagenssensacionalistas como Nova York em chamas, elas foram determinantes na formação de umclima de insegurança e medo. Em suma, tudo que um atentado pretende.Por fim, a grande diferença entre a cobertura da Veja e da Folha está presente na parte quedeveria, teoricamente, ser a mais analítica e coerente: o editorial. Sem fundamento teóricoalgum, do começo ao fim, a Carta ao leitor não só reforçou preconceitos como muniu ospreconceituosos de novos argumentos infundados.Sem deixar bem claro se está se referindo especificamente aos terroristas que atacaram osEstados Unidos ou aos mulçumanos ou árabes de uma forma geral, lemos uma carta derepúdio. Mas não de repúdio apenas aos ataques, a generalização é tão grande e tão malfeita que deixa o leitor em dúvida se o repúdio não é a todo um povo.Já a Folha teve os editorias – um deles assinado, inclusive – e as análises de opinião seuponto forte, pois vários assuntos acerca dos atentados, principalmente mídia e preconceito,foram discutidos nesses espaços de forma analítica e na maioria das vezes coerentes. Ojornal, no entanto, pecou ao, muitas vezes, usar como fonte redes de televisão americanas.Uma cobertura como a feita pela revista Veja não deve ser pensada apenas como umexercício mal feito de jornalismo, mas também como uma questão ética, que não está naproposta deste trabalho analisar. Porém, ao publicar matérias com tantas falhas, a revistadeixa o leitor leigo, que confia nela para se informar, a mercê de preconceitos.É trabalho do jornalista e dos veículos midiáticos passarem a informação da maneira maisimparcial possível e com menos preconceitos arrobados. A cobertura de uma revista tãorespeitada não tomou esse cuidado e, em alguns momentos, fez o contrário: reforçoupreconceito contra uma religião, algumas nações e algumas culturas. Sem querer elegerqual o melhor veículo, ambas tiveram seus pontos altos e baixos, só que uma teve maispontos que positivos e a outra, mais negativos. São nesses pontos positivos, como textosanalíticos e mais imparciais possível, que devemos nos espelhar para fazer bom jornalismo.ReferênciasARBEX JR, J. Showrnalismo: A notícia como espetáculo. São Paulo: Casa Amarela, 2002.DEBORD, G. A sociedade do espetáculo. Projeto Periferia: eBookLibris, 2003. Presenteno endereço: <http://www.ebooksbrasil.com/eLibris/socespetaculo.html>DORNELES, C. Deus é inocente: a imprensa, não. 4. ed. São Paulo: Globo, 2005. 18
  19. 19. Universidade Presbiteriana MackenzieFolha Online: banco de dados. Disponível em:<http://www1.folha.uol.com.br/folha/conheca/>. Acesso em 02 de abril de 2011.MELO NETO, F. P. Marketing do Terror. São Paulo: Contexto, 2002.MORIN, E. Cultura de Massas no Séc. XX: Neurose. 3ª ed. São Paulo: ForenseUniversitária, 2009.Publiabril: banco de dados. Disponível em:<http://publicidade.abril.com.br/marcas/veja/revista/informacoes-gerais> Acesso em 02 deabril de 2011.WAINBERG, J. A. Mídia e terror: Comunicação e violência política. São Paulo: Paulus,2005.Contato: lucas.bteixeira@gmail; denise.paiero@mackenzie.br 19

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