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VII Jornada de Iniciação Científica - 2011b) Estudo da organização gramatical produzida pelos primeiros gramáticos latinos...
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Universidade Presbiteriana MackenzieEm meio àquelas publicações gramaticais, Varrão organizou uma extensa teorização sobre...
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VII Jornada de Iniciação Científica - 2011tempo, outras que não apresentam nenhum tipo de flexão e, por fim, aquelas que i...
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VII Jornada de Iniciação Científica - 20113.4.3. SintaxeNão foram encontrados no texto analisado termos relacionados a asp...
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Em parceria com a Professora Helena Abascal, publicamos os relatórios das pesquisas realizados por alunos da fau-Mackenzie, bolsistas PIBIC e PIVIC. O Projeto ARQUITETURA TAMBÉM É CIÊNCIA difunde trabalhos e os modos de produção científica no Mackenzie, visando fortalecer a cultura da pesquisa acadêmica. Assim é justo parabenizar os professores e colegas envolvidos e permitir que mais alunos vejam o que já se produziu e as muitas portas que ainda estão adiante no mundo da ciência, para os alunos da Arquitetura - mostrando que ARQUITETURA TAMBÉM É CIÊNCIA.

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  1. 1. Universidade Presbiteriana MackenzieAVALIAÇÃO DAS BASES LATINAS DA NOMENCLATURA GRAMATICAL OFICIALBRASILEIRA EM CONFRONTO COM AS BASES GREGASLaís Quinquio Benega (IC) e Maria Helena de Moura Neves (Orientadora)Apoio: PIBIC MackenzieResumoEsta pesquisa de iniciação científica apresenta uma análise das influências grega e latina sobre aterminologia gramatical que constitui a Nomenclatura Gramatical Brasileira. Tal investigação iniciou-se pelo levantamento das motivações e das condições de produção do documento que apresenta ostermos a serem utilizados nos estudos gramaticais no país. Em seguida, empreendeu-se um estudodo desenvolvimento do pensamento grego sobre a linguagem, desde as primeiras reflexões até asteorizações que se tornaram um legado para a gramática ocidental. Também se procurou estudar ainfluência do pensamento gramatical grego sobre a gramática latina, refletida na adoção de diversostermos e conceitos da gramática grega. Nesse sentido, destacaram-se as contribuições de diversospensadores gregos para a consolidação do que se compreende como gramática tradicional, e otrabalho dos gramáticos latinos na adaptação dos termos gregos à sua língua. Por fim, empreendeu-se uma comparação entre os termos existentes na Nomenclatura Gramatical Brasileira e aterminologia gramatical latina, tomando-se como corpus o livro De Lingua Latina, de Varrão.Verificou-se, assim, a presença de diversos termos gramaticais na obra analisada que constam emnossa nomenclatura oficial. Constatou-se, ainda, que muitos desses termos latinos originam-se dagramática grega.Palavras-chave: nomenclatura gramatical brasileira; gramática grega; gramática latinaAbstractThis undergraduate research presents an analysis of Greek and Latin influences on the grammaticalterminology that constitutes the Brazilian Grammatical Nomenclature. The investigation programstarted setting up the motivations as well the production conditions of the document which presentsthe terms used in grammatical studies in Brazil. Therefrom, the research led to an overall review of theGreek impressions about the language from the early thoughts to the development of theories thatproved to be a legacy to Western grammar. The preliminary researches results showed the way to asecond level of studies concerning the grammatical Greek thought influence on Latin grammar asshown by the adoption of several terms and concepts of the very Greek grammar by the Latin’sgrammar. Following this direction, some Greek thinkers and Latin grammarians works paved the pathof the research. Finally, a comparison between the terms introduced by the Brazilian GrammaticalNomenclature and the Latin terminology was made based on the book De Lingua Latina, by Varro.The investigations led to a final conclusion that several grammatical terms seen in the analyzed bookare part of our official grammatical classification, as well as that several of these Latin terms areoriginated from Greek grammar indeed.Key-words: Brazilian grammatical nomenclature; Greek grammar; Latin grammar 1
  2. 2. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011INTRODUÇÃONo presente trabalho apresentam-se os resultados de uma análise desenvolvida em tornoda questão sobre a medida em que a nomenclatura gramatical grega e sua correspondentelatina influenciaram a Nomenclatura Gramatical Brasileira. Percorre-se o desenvolvimentodo pensamento gramatical grego até a consolidação da gramática tradicional, verificando-secomo ele deu as bases para a organização da gramática latina e a fixação da terminologianessa gramática.O objetivo geral é verificar a importância de tal percurso para compreender a organização daNomenclatura Gramatical Brasileira e as bases que possibilitaram sua constituição. Paratanto, fixaram-se os seguintes objetivos específicos:1. Comparar o documento que sistematiza nossa nomenclatura gramatical com os termoslinguísticos presentes nas principais gramáticas latinas, especialmente na obra do estudiosoVarrão, De Lingua Latina.2. Analisar-se o modo como a nomenclatura gramatical atualmente seguida reflete o legadodeixado pelas gramáticas grega e latina.1. REFERENCIAL TEÓRICOApresentam-se, a seguir, as principais referências que serviram de base para a pesquisa e aanálise realizadas.Neves (2005) discorre sobre o tratamento dado à linguagem pelos pensadores gregos,desde os primeiros indícios de interesse pela língua, passando pelas primeiras tentativas desistematização, até as principais obras que descreviam a estrutura dessa língua. A autoratrata das teorias filosóficas que envolviam a linguagem, quando ainda se pensava a filosofiae linguagem por via da lógica. Também descreve, minuciosamente, as primeiras tentativasde organização gramatical, até o estabelecimento de uma nomenclatura padrão, além daorigem da concepção de gramática como instrumento que estabeleceria o uso correto dalíngua.Weedwood (2002) retoma as primeiras tentativas de análise linguística grega,estabelecendo um panorama conciso do momento histórico e social em que as primeirasbases da gramática e da linguística atual foram lançadas. Também procura ressaltar aimportância do pensamento linguístico grego, que foi estudado, modificado e aprimoradopelas culturas influenciadas por ele, para o desenvolvimento do que se compreende hojecomo gramática tradicional. A autora também trata dos estudos gramaticais latinos, que sedesenvolveram baseados na tradição gramatical grega, dando atenção aos autores e obrasde maior destaque. 2
  3. 3. Universidade Presbiteriana MackenzieLyons (1979), a fim de levar o leitor a conhecer as origens da Linguística, apresenta osprimeiros questionamentos sobre a língua, levantados na Grécia do século V a.C., época emque se acreditava que a gramática e a filosofia faziam parte de uma mesma área deconhecimento. O autor narra as querelas linguísticas entre pensadores que acreditavam queas palavras espelhavam a realidade, e outros que não concordavam com esseposicionamento. Também acrescenta observações sobre as alterações que os latinosfizeram na gramática grega, adaptando-a a sua língua, e sobre o papel da língua e dagramática latina no período medieval.Kristeva (1974) apresenta o tratamento dado à gramática grega pelos latinos, queadaptaram o sistema à sua língua, sem maiores investigações iniciais. Diante disso, destacao tratado de Varrão, autor que se dedicou a sistematizar e classificar a linguagem. Descrevea divisão da obra De Lingua Latina e explicita o ponto de vista do autor sobre a etimologia,morfologia e seu posicionamento diante da questão entre os analogistas e os anomalistas.Pereira (2000) apresenta as condições culturais em que as primeiras gramáticas gregasforam compostas, dando destaque à obra de Quintiliano, assim como às de Varrão ePrisciano, pesquisadores responsáveis pelas sistematizações gramaticais mais detalhadasde sua época e que elaboraram conceitos gramaticais próximos aos disseminadosatualmente. O autor também ressalta, nessa descrição, os debates sobre as origens e aestrutura das palavras, fatores que caracterizaram o período, e sua influência em pesquisasque os seguiram.Vernant (2009) mostra como a tradição religiosa grega era dependente da transmissão oraldas narrativas sobre os deuses. O desenvolvimento da escrita possibilitou que essashistórias fossem preservadas, e grande importância foi conferida às obras dos poetasHomero e Hesíodo, as quais se tornaram, posteriormente, as principais fontes de estudosgramaticais.Neves (2009) apresenta um exame dos termos presentes na Nomenclatura GramaticalBrasileira herdados da gramática grega. Registraram-se as diferentes vias pelas quais ostermos gregos foram introduzidos, em uma análise organizada em Fonética, Morfologia eSintaxe. Esse estudo constitui o modelo que servirá ao exame que este trabalho propõepara os termos herdados da gramática latina.2. MÉTODODesenvolveram-se as seguintes etapas de pesquisa e análise, orientadas pelo aparatoteórico montado a partir do estudo e discussão das obras referidas:a) Estudo da produção, organização e conteúdo do texto da Nomenclatura Gramatical Brasileira. 3
  4. 4. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011b) Estudo da organização gramatical produzida pelos primeiros gramáticos latinos, com ênfase na nomenclatura por eles estabelecida.c) Confronto entre o texto oficial da NGB e a organização gramatical latina.Paralelamente, empreendeu-se uma análise da organização terminológica das primeirasgramáticas gregas em comparação aos termos das gramáticas latinas, elaboradas combase nas gregas. Em tal direção, esta pesquisa pôs sob exame a filiação dos termos latinosda NGB, investigando, especialmente, três conjuntos:a) os termos decalcados da tradução latina do grego;b) os termos de base latina em que se encontra alteração de nome e manutenção deconceito;c) os termos de base latina em que se encontra alteração de conceito para um nomeconservado.A análise seguiu a divisão que a Nomenclatura Gramatical Brasileira apresenta (Fonética;Morfologia; Sintaxe), completando-se com a análise do Apêndice que o texto da NGBoferece. Utilizou-se a análise de Neves (2009), que tratou a origem grega dos termos daNGB, como roteiro para a organização do presente trabalho, que constitui uma pesquisasimilar para os termos latinos, com ênfase no trabalho de Varrão. A edição da obra dogramático latino consultada para este trabalho foi obtida por meio digital e em versão latim-inglês.3. RESULTADOS E DISCUSSÃO3.1. HISTÓRICO DO ESTABELECIMENTO DA NOMENCLATURA GRAMATICALBRASILEIRA3.1.1. NaturezaA Nomenclatura Gramatical Brasileira (NGB), em vigor desde 1959, pode ser especificadacomo um “documento oficial de referência sobre a terminologia dos fatos, níveis e categoriasgramaticais do português” (MOLLICA, 2009, apud HENRIQUES, 2009, p. 101). Como ditono anteprojeto da NGB, as designações buscavam três objetivos: atingir a exatidão dotermo, popularizá-lo internacionalmente e fazê-lo parte da tradição escolar do país(OLIVEIRA, 1959, p. 16). Entretanto, o objetivo primordial de todo o esforço que foi feitopara estabelecer essa nomenclatura era, segundo a comissão de elaboração, facilitar etornar mais prático o ensino de gramática, e, consequentemente, o de língua portuguesa, noBrasil (BARBOSA, 1962). 4
  5. 5. Universidade Presbiteriana Mackenzie3.1.2. AntecedentesNa própria apresentação do texto oficial da Nomenclatura Gramatical Brasileira afirma-seque a falta de uma padronização da nomenclatura gramatical era um problema de longadata para os professores, os alunos, e também já afligia filólogos e autoridades pedagógicas(OLIVEIRA, 1959, p. 13). Assim, em meio à confusão e à profusão de diferentes termos paradesignar o mesmo fato de língua, especialistas divergiam, professores se confundiam, e oaluno era o principal prejudicado. (PROENÇA, 2009, apud HENRIQUES, 2009, p. 9).Desnecessariamente, a gramática ia tomando para si, cada vez mais, a imagem de umobjeto inatingível, de difícil compreensão.3.1.3. A importânciaComo afirma Henriques (2009, p. 51), o professor de língua materna deve formar leitoreseficientes de textos e produtores textuais competentes, e, estabelecida uma nomenclaturagramatical oficial no país, se ganha tempo para ensinar o que realmente importa.É claro que o estudo de gramática não é um fim em si mesmo. Entretanto, a formação detais leitores e produtores de textos necessita desse estudo, pois ele possibilita e facilita odomínio da língua.Assim, conforme Luft (2004), [...] A reforma da nossa terminologia gramatical, longe de visar a um incremento de gramaticalismo, quis livrar maior espaço à prática e aprendizado efetivo da língua. Esse o sentido da redução e simplificação da matéria gramatical. O tempo que se forra à gramática deverá ser investido em exercícios de leitura, análise literária, explicações de texto, declamação, composição oral e escrita, etc. Menos memorização servil, menos análise gramatical – fonética, morfológica, sintática – e mais explicações de texto, redações, leituras expressivas. Mais prática da língua, enfim. [...] (LUFT, 2004, p.17).3.1.4. O anteprojetoSegundo o texto da portaria nº 152, de 24 de abril de 1957, o então Ministro do Estado daEducação e Cultura, Clóvis Salgado, preocupado com a questão, nomeou uma comissãopara elaborar o projeto de simplificação e unificação da terminologia utilizada no ensino degramática. O grupo designado para essa tarefa contava com Antenor Nascentes, Clóvis doRego Monteiro, Celso Ferreira da Cunha, Carlos Henrique da Rocha Lima e Cândido Jucá(filho). Estes eram renomados professores catedráticos de português do Colégio Pedro II(ELIA; ELIA, 1959). 5
  6. 6. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011Durante o processo de elaboração do anteprojeto, foram recebidas contribuições deprofessores e especialistas em relação ao trabalho que se fazia. É importante ressaltar,aqui, que a participação de outros professores, preocupados com a gramática mas tambémcom a didática, foi possível apenas neste estágio e neste nível (OLIVEIRA, 1959, p. 15-16).Os elaboradores do anteprojeto procuraram instituir uma nomenclatura que não fosseconsiderada excessivamente conservadora ou excessivamente inovadora. Dessa maneira,deve-se compreender que, à época, o texto da NGB recebeu não só elogios mas tambémcríticas. De qualquer forma, sabe-se que o esforço deve ser reconhecido, já que o projeto seconcretizou com sucesso. Por outro lado, reformas dessa nomenclatura já foram sugeridas,mas dificuldades de diversas ordens impediram sua execução (HENRIQUES, 2009, p. 17).3.1.5. O projetoO projeto final da Nomenclatura Gramatical Brasileira é bastante diferente do anteprojeto emvários aspectos (ELIA; ELIA, 1959). Primeiramente, por ser mais sucinto: enquanto aqueletinha 39 páginas, a redação final apresentava apenas 19 (HENRIQUES, 2009, p. 29). Outradiferença substancial entre os dois textos é que o inicial continha definições dos termos queteriam sua nomenclatura estabelecida, enquanto o texto final não as apresenta, apenas trazum recorte de campo das entidades e funções gramaticais.Como apontado anteriormente, não era geral a aprovação à NGB. Entre os que acontestavam, encontra-se o nome de Cândido Jucá (filho), que havia feito parte da comissãode elaboração do documento. Em 1958, antes mesmo da publicação do texto final da NGB,o estudioso publicou um livro em que mostrava seu ponto de vista: [...] Se todos têm o direito de criticar o anteprojeto, ninguém o tem mais do que aquele que nunca conformou com a eventualidade caprichosa dos votos que o compuseram, inteiramente alheios a qualquer espírito de unidade. [...] (JUCÁ, 1958, apud HENRIQUES, 2009, p. 42).Produziram-se diversas publicações sobre o tema da Nomenclatura Gramatical Brasileiralogo após o lançamento dela e até mesmo durante os anos seguintes (HENRIQUES, 2009,p. 41). Pode-se destacar a Pequena Gramática, de Adriano da Gama Kury, de 1959, queparece dialogar com a obra de Cândido Jucá (filho): [...] É evidente que, sendo trabalho de muitos, lhe falta fatalmente a unidade que só a elaboração individual poderia dar. Mas o individual representaria forçosamente o pessoal – e é inevitável resultado da tarefa eclética o descosido que se nota na NGB, resultado, porém, esperável de uma primeira tentativa de tal empresa. [...] (KURY, 1959, apud HENRIQUES, 2009, p. 42). 6
  7. 7. Universidade Presbiteriana MackenzieJoaquim Mattoso Câmara Jr., em apresentação oral, defendeu o documento comveemência, mas também com pesares: [...] De minha parte, tenho a dizer de início que considero a nova Nomenclatura Gramatical Brasileira um excelente passo para conhecer o arbítrio e a fantasia individual em matéria de nomenclatura. [...] Ressalve- se, porém, que não raro procedeu com excessiva timidez; a preocupação de não assumir atitudes doutrinárias radicais levou-a a certas incoerências e à manutenção, em alguns casos, de pontos de vista superados. [...] (CÂMARA JR., 1960, apud HENRIQUES, 2009, p. 43).3.1.6. ConsequênciasDa época em que se deu a elaboração da Nomenclatura Gramatical Brasileira até hoje suaimportância foi relativizada. Tal fato se explica pela mudança de foco do ensino de LínguaPortuguesa nas escolas, já que a NGB foi idealizada e concretizada em um período em quea prática de exercícios de análise sintática tinha maior importância no currículo da disciplina.Atualmente, pretende-se que os alunos exercitem a capacidade de entender e produzirtextos (HENRIQUES, 2009, p. 53).Entretanto, vê-se a importância da NGB no contexto de sua produção e publicação. Se, àépoca de seu surgimento, as aulas de Língua Portuguesa ainda visavam a análisessistemáticas e o conhecimento de sua devida nomenclatura, consequentemente, osvestibulares e concursos públicos visavam, também, às classificações dos fatos de língua(HENRIQUES, 2009, p. 56). De qualquer forma, ainda segundo o autor, os atuais examescontinuam a exigir tal conhecimento dos candidatos, mas de maneira “disfarçada”, de formaque pareça que se trata de interpretação de texto (HENRIQUES, 2009, p.58).3.1.7. ReformaDurante as últimas décadas diversos estudiosos acreditaram – e alguns ainda acreditam –que, dado o tempo que já se passou desde o estabelecimento da NGB, é hora de umareforma na nomenclatura. Entretanto, tal proposta divide opiniões, pois muitos dosenvolvidos na área de língua portuguesa questionam sua importância nos dias atuais.Henriques (2009, p. 69) apresenta opiniões contemporâneas de estudiosos da língua, quese posicionam sobre a “necessidade de uma nomenclatura gramatical uniforme no ensinode língua portuguesa nos níveis fundamental e médio” (HENRIQUES, 2009, p. 69).Entre os defensores da NGB, pode-se citar Castilho (2009): [...] Precisa-se de uma nomenclatura uniformizada em virtude das razões práticas do ensino. Nesse sentido, a NGB cumpriu seu papel, já não há 7
  8. 8. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011 aquela enorme variedade terminológica de antes de 1959. Era complicado organizar concursos públicos, provas de vestibular – sem falar no caso dos alunos que mudavam de escola! Os autores da NGB foram prudentes, não definindo os termos. Isso traria um grande inconveniente: a uniformização dos pontos de vista teóricos! Esse continua, de todo modo, a ser um grande problema, talvez insolúvel. Designações escondem percepções. [...] (CASTILHO, 2009, apud HENRIQUES, 2009, p. 74).Sobre o uso inadequado da atual nomenclatura, Neves (2009) pondera: [...] A existência de uma nomenclatura gramatical uniforme não pode representar que os conteúdos fornecidos no ensino, nesses níveis, devam circunscrever-se à utilização desse contingente de termos que o documento oficial de regulamentação da nomenclatura registra. [...] O que deveria ser tido como mínimo comum de entidades tecnicamente nomeadas foi colocado como arcabouço total de conhecimento a ser buscado, e isso tem sido responsável direto – acredito eu – pelo próprio fato de o ensino gramatical ter-se constituído em uma atividade de exclusiva rotulação de classes e funções, e restrita ao padrão que o documento existente estabelece. [...] (NEVES, 2009, apud HENRIQUES, 2009, p. 105).Mollica (2009), entre outros autores, defende não propriamente uma reforma, mas aincorporação de termos provenientes da Linguística ao texto: [...] Verdade é que os avanços da ciência da linguagem alargaram os horizontes da compreensão das línguas naturais de tal modo que não podem mais ser reduzidos ao texto original dos idos de 1959. Os conceitos de termos controversos, amplamente discutidos ao longo dos anos, as descobertas e concepções novas sobre o português falado, assim como notações abstratas propostas por novos modelos teóricos na linguística impõem uma mudança importante no documento aludido. [...] (MOLLICA, 2009, apud HENRIQUES, 2009, p. 102).3.2. A NOMENCLATURA GRAMATICAL NA HISTÓRIA DA GRAMÁTICA3.2.1. A história da gramática ocidentalNa análise da história do pensamento grego, fica evidente o precoce e contínuo interessepela linguagem (NEVES, 2005, p. 19). Com o tempo, foram desenvolvidas bases teóricas e,graças à contribuição de diversos filósofos e estudiosos da linguagem, tal processoculminou no estabelecimento das primeiras sistematizações gramaticais. Todo esse esforçode investigação e classificação determinaria as bases da sistematização gramatical de todo 8
  9. 9. Universidade Presbiteriana Mackenzieo mundo ocidental. O caminho percorrido desde os primeiros estudos desenvolvidos pelospensadores e gramáticos gregos sobre a linguagem até a organização de categoriasgramaticais será assunto deste capítulo, que terá base, principalmente, em Neves (2005).3.2.2. O pensamento grego sobre a linguagemVerifica-se, na história do pensamento grego, um prematuro interesse pela linguagem, muitoantes de haver uma ciência que a organizasse e buscasse classificações. Observa-se umesforço, principalmente na área da filosofia, de estudo e posterior teorização sobre alinguagem (NEVES, 2005, p.19-47).Dessa forma, pode-se apontar que em obras poéticas, como as de Homero, por exemplo, alinguagem é tratada como importante elemento, mas já não como “uma força real, material,confundida com a força do corpo e da natureza, como ocorre nas sociedades ditasprimitivas”. Nas produções do poeta, a fala e a ação estão sempre ligadas, mas vistas deforma independente: aos discursos persuasivos dos personagens seguem-se as ações queaqueles discursos induziam. Ainda não há uma reflexão teórica sobre a linguagem, mas talvivência dará origem, mais adiante, ao levantamento de problemas linguísticos.Em Hesíodo (século VIII ou VII a.C.), por sua vez, a linguagem é ferramenta de organizaçãodo mundo. Quem detém o poder da fala são as Musas, as quais influenciam poetas e reisem suas ações. Explora-se, nos textos, a capacidade de tais seres inferirem informaçõestanto verdadeiras quanto falsas.Em Heráclito e Parmênides (séculos V e VI a.C.) há um desequilíbrio entre o lógos (o que édito) e a ação, mostrando-se que, talvez, um não corresponda ao outro. Procurava-se levarem conta o sentido da linguagem e das ações.Paralelamente à tradição poética, foi ganhando força a atividade retórica, tomada como arteformal. Ao lado do desenvolvimento dessa atividade desenvolveu-se o discurso filosófico,sempre objetivando estabelecer a origem e a essência das coisas. Os filósofos dos séculosVI e VII a.C. já questionavam as relações entre as palavras e as coisas e entre o ser e alinguagem.3.2.2.1. Os sofistasOs sofistas desenvolveram suas atividades durante a segunda metade do século V a.C.,preocupando-se, principalmente, com a educação para a atividade política. Buscavamexercitar a capacidade de persuasão, e sem compromisso com a verdade, importandoapenas a concordância do ouvinte, uma prática que exigia amplo conhecimento sobre váriasáreas (NEVES, 2005, p. 35-42). 9
  10. 10. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011Considerando que o discurso argumentativo não poderia ser julgado como verdadeiro oufalso, visto que era resultado de opiniões subjetivas, os sofistas atribuíam um grande valor àpalavra. Entretanto, eles não consideravam a linguagem como representação.Os sofistas exploravam largamente o discurso retórico e, por isso, preocupavam-se com aquestão da eficiência na linguagem e, por conseguinte, pelo ensino do uso correto dalinguagem. Todas essas atitudes encaminhariam, mais adiante, à preocupação gramatical.3.2.2.2. PlatãoDiferentemente da visão utilitarista da linguagem dos sofistas, a concepção filosófica dePlatão (429-347 a.C.) vê a linguagem como transmissora de um sentido, que não estásomente nela mesma, mas que remete ao verdadeiro ou ao falso. Na obra Crátilo, porexemplo, Platão trata de algumas das questões mais relevantes para os estudos linguísticosque se seguirão: a origem natural ou convencional da linguagem e a relação entre as coisase os nomes que a denominam (NEVES, 2005, p. 47). No diálogo há três interlocutoresdiscutindo sobre essa questão, defendendo seus pontos de vista. Crátilo acredita na relaçãonatural entre as palavras e as coisas, de modo que a língua reflete o mundo; Hermógenes,por sua vez, não acredita nessa relação; e Sócrates, por fim, se posiciona entre as duasopiniões, em uma tentativa de conciliá-las. Acredita-se que Sócrates seria o personagemque assumiu as ideias do autor, Platão. A partir de exemplos, ele consegue demonstrar aseus interlocutores que há ocorrência de ambos os casos entre as palavras (WEEDWOOD,2008, p. 25).Na obra Sofista, Platão estende sua reflexão sobre a nomeação das coisas para a relaçãoentre esses nomes, que deveria ser estabelecida pelos verbos para formar o discurso.Apenas no discurso, não na nomeação de objetos do mundo, poder-se-ia aferir verdade oufalsidade na linguagem. Relativiza-se e reconsidera-se, ainda, a relação entre a linguagem eo conhecimento da essência das coisas. Pode-se afirmar, também, que Platão chega aconceber a ligação de um lógos (imagem do pensamento) com um referente material(NEVES, 2005, p. 58-63).Atribui-se a Platão a primeira distinção entre substantivos e verbos (LYONS, 1979, p. 10-11). No caso, o pensador considerava os substantivos da maneira que hoje se consideramos sujeitos, assim como chamava de verbo o que hoje se entende como predicado. Afirma-se, também, que entre o que Platão considerava como verbos incluíam-se o que hojecompreendemos como verbos e adjetivos (LYONS, 1979, p. 11).3.2.2.3. AristótelesAristóteles parte de estudos amplos, sobre o corpo humano, por exemplo, para chegar àteorização sobre a linguagem. O filósofo estuda, inicialmente, a capacidade biológica da fala 10
  11. 11. Universidade Presbiteriana Mackenzieno homem: a capacidade de emitir sons leva o ser humano a organizá-los na linguagem e,por meio dela, exprimir seus sentimentos e ideias, o que leva à constituição de umasociedade política (NEVES, 2005, p. 65-68).Sobre a questão da significação, Aristóteles considera os nomes como símbolos das coisas,mas estabelece que, nessa relação, não há identidade total entre os elementos, apesar dehaver correspondência entre eles (NEVES, 2005, p. 65-68). Em outras palavras, paraAristóteles “uma palavra é símbolo (portanto, entidade intencional) de um conteúdo mental,e este é semelhante à coisa significada” (NEVES, 2005, p. 71). Para ele, a significaçãotransmitida por esses símbolos é construída por convenção (NEVES, 2005, p. 71). Em suadefinição de discurso, Aristóteles, assim como Platão, afirma que cada parte tem suasignificação, mas que esta não pode ser julgada como verdadeira ou falsa se consideradaisoladamente (NEVES, 2005, p. 73).Aristóteles elabora uma teoria em que organiza todos os conceitos em categorias, dez“gêneros dos enunciados”, que englobam todas as possibilidades de palavras utilizadaspara comunicação sem relação entre elas. Nas Categorias o autor caracteriza a relaçãoentre as palavras e o mundo sob os termos homónyma (quando há semelhança entre osnomes e diferença nos conceitos) e synónyma (quando há semelhança entre nomes eidentidade nos conceitos das coisas) (NEVES, 2005, p. 69). Dessa forma, o filósofoprocurou organizar a língua em consonância com as estruturas do mundo (NEVES, 2005, p.75).Em obras específicas, como Retórica e Poética, Aristóteles analisa aspectos da linguagemreferentes a cada uma dessas artes, respectivamente. Na primeira ele estuda as qualidadese defeitos do estilo, de forma a organizar os recursos que devem ser utilizados no gêneroretórico. Examina os efeitos de sentido causados pelo uso de verbos, substantivos,homônimos, sinônimos, entre outros. Com tal exposição, o autor já trata de questõesgramaticais (NEVES, 2005, p. 80-81). Na Poética, Aristóteles trata a linguagem poéticacomo imitação da realidade, definindo seu conceito de mímesis. Faz uma exposição sobre amaterialidade sonora das palavras (significante), dizendo que, ao formar uma cadeia sonora,é que estas adquirem significado (NEVES, 2005, p. 82-83). Nas duas obras, de forma geral,Aristóteles dá atenção à distinção entre a léxis (elocução) e o lógos (o que é dito),analisando a relevância de cada um em discursos com diferentes propósitos (NEVES, 2005,p. 80).Pelo exposto, pode-se afirmar que as análises empreendidas pelos filósofos proporcionaramcondições para a separação entre a linguagem e as coisas, o que possibilitou o surgimentoda gramática. (NEVES, 2005, p. 84). 11
  12. 12. VII Jornada de Iniciação Científica - 20113.2.2.4. Os estoicosEm um período de contato entre os gregos e outras civilizações invasoras, relativiza-se avisibilidade do desenvolvimento intelectual e artístico construído durante séculos e aflora osentimento de preservação cultural, principalmente da linguagem (NEVES, 2005, p. 85-86).Para tal objetivo contribuíram atividades de cunho teórico e prático e o campo de estudosgramaticais prosseguiu em sua separação do campo dos estudos filosóficos. Nesse sentido,a filosofia estoica destaca-se pela convergência de estudos sobre física, moral e lógica,ciências consideradas conjuntamente. Entretanto, a lógica é vista como central em qualquerobservação, e a linguagem associa-se à lógica na medida em que configura uma expressãoda realidade. Nessa concepção, a lógica analisa o lektón, o significado do que é dito(NEVES, 2005, p. 86-87).Para os estoicos, a dialética era a ciência dos enunciados e suas partes, e sob essa ciênciafez-se a divisão entre a voz (phoné), a dicção (léxis) e o enunciado (lógos) (NEVES, 2005, p.88-89). Os estoicos também fizeram uma distinção inicial entre significante (semaînon), avoz, e significado (semainómenon), o lékton (NEVES, 2005, p. 90).3.3. A ORGANIZAÇÃO GRAMATICAL NO OCIDENTE3.3.1. A gramática gregaO estudo sobre a gramática grega que aqui se apresenta tem base em Neves (2005). Deacordo com a obra, as bases fundamentais do que se compreende atualmente comogramática desenvolveram-se, principalmente, durante o período helenístico. Tal épocadiferencia-se do período helênico quanto à nova organização política social e também emrelação a novos aspectos culturais (NEVES, 2005, p. 111).Nesse sentido, a pesquisa e o ensino ganham destaque, visto que a preservação etransmissão da cultura helênica assumem importância como atividade cultural. No caso, osprimeiros tratados de gramática tinham como objetivo facilitar o acesso a obras helênicasconsideradas clássicas. Nessas obras, encontrava-se a linguagem que se compreendiacomo o grego clássico, livre das interferências (barbarismos) que a língua corrente já vinhasofrendo (NEVES, 2005, p. 112).Na época helenística, a cultura é ligada à valorização das obras do passado, colocadas sobestudo literário e filológico, após a eliminação de versos espúrios, visto que se buscavamapenas os textos verdadeiros (NEVES, 2005, p. 112). Quanto aos responsáveis pelosestudos citados, a função do grammatikós era elaborar a revisão crítica e a compreensãodas obras analisadas. E como ainda lhe cabia julgar tais obras quanto a quesitos de belezaou autenticidade, ele também assumia função de kritikós (NEVES, 2005, p. 113). 12
  13. 13. Universidade Presbiteriana MackenzieO contexto em que surgiu a disciplina gramatical contribuiu para que esta apresentassedeterminadas características que ainda são verificadas na atualidade quanto ao que secompreende como gramática. Assim, o estudo era restrito à língua escrita grega, maisexatamente à língua grega utilizada em obras literárias do passado (NEVES, 2005, p. 113).Apesar de seu caráter sistemático, a gramática helenística também apresenta elementos doespírito grego cultivado muito antes de seu aparecimento, como uma necessidadeproveniente da manutenção da língua grega pura e o julgamento do trabalho dos poetas.Verificam-se, aqui, relações entre a tradição, correspondente à cultura helênica, e anecessidade de elaboração da gramática em determinado momento (NEVES, 2005, p. 113).O estudo da linguagem empreendido anteriormente pelos filósofos do período helênico erarelativo a princípios da linguagem, com a classificação das palavras em categorias. Taltrabalho foi aprimorado na época helenística e a gramática foi consolidada como disciplinaessencialmente filológica (NEVES, 2005, p. 116).Os centros culturais da época helenística abrigaram a elaboração da disciplina gramatical. Aescola de Pérgamo estudava principalmente os textos de Homero, procurando explicá-los.Buscava sua verossimilhança, a compreensão dos mitos e o entendimento das categoriasda língua, da lógica e da poética. Por outro lado, a escola de Alexandria dava maior ênfaseà análise dos elementos formais dos textos, como sinais gráficos e analogia entre formassonoras. Observa-se, pelo trabalho dos alexandrinos, a passagem de uma visão filosóficada linguagem para outra que privilegia os aspectos externos, formais, ou seja, para umavisão mais prática e, pode-se afirmar, mais gramatical, visto que foram esses estudiosos osresponsáveis pelo modelo de gramática ocidental tradicional que se conhece, como mostraNeves (2005, p. 117-118).Pode-se destacar, entre os primeiros gramáticos alexandrinos, Zenódoto de Éfeso (325-234), que editou a Ilíada e a Odisséia e organizou as palavras raras das obras de Homero,embora as correções feitas ainda não tivessem por base critérios gramaticais (NEVES,2005, p. 118-119). Aristófanes de Bizâncio (257-180) também editou essas obras, além daTeogonia e produções de outros poetas. Atribui-se a ele a definição dos sistemas depontuação e acentuação, organizada para preservar a pronúncia correta das palavras.Aristófanes também dedicou certa atenção à etimologia, organizando as desinências(NEVES, 2005, p. 119-120). A Aristarco atribui-se (215-145) a autoria de diversoscomentários e tratados críticos. Destacam-se suas tentativas de restabelecer os textosverdadeiros e sua atenção à temática dos poemas homéricos, além de sua busca pelosfatos linguísticos. Apesar de Aristarco não estabelecer regras, acredita-se que ele foi um dosprimeiros a reconhecer as oito partes do discurso e era chamado de “gramático porexcelência” (NEVES, 2005, p. 121-122). 13
  14. 14. VII Jornada de Iniciação Científica - 20113.3.1.1. Dionísio o TrácioDionísio (170-90) foi o responsável por organizar a gramática consolidada na Antiguidade ecujas principais características ainda estão de certo modo presentes na gramática atual demoldes tradicionais. Estudava principalmente as obras de Homero dando ênfase àsanalogias das formas sonoras (NEVES, 2005, p. 125).O estudioso publicou a primeira gramática do Ocidente em forma de um tratado metódicoenvolvendo questões que considerava concernentes à gramática, como o julgamento dasobras analisadas, a explicação dos poetas e a investigação etimológica. A obra não incluía asintaxe e não tratava apenas de filologia, organizando um campo de estudo para agramática (NEVES, 2005, p. 126-127).3.3.1.2. Apolônio DíscoloApolônio (século II a.C.) sistematizou a língua sob uma visão filosófica, gerando apossibilidade de tratar a sintaxe, já que procurava analisar a linguagem não apenas por seusaspectos formais, mas também lógicos. O autor publicou diversas obras gramaticais, masdeu ênfase a análises de lógica e de exatidão gramatical (NEVES, 2005, p. 127-128).Apolônio observa a diversidade entre os fatos de língua a serem levados em conta naelaboração de regras, e reconhece que o objeto de análise deve ser a língua comum,tradicional, não a linguagem poética. O autor também considera que o sentido das palavrasé mais importante do que a forma, apesar de reconhecer que a forma é útil, e que agramática não apresenta apenas regularidades (NEVES, 2005, p. 130).3.3.2. A gramática latinaSabe-se que a cultura romana foi fortemente influenciada pela grega. Os métodoseducacionais romanos baseavam-se nos gregos, e a língua grega era ensinada nas escolase deveria ser dominada. Assim, a gramática latina também sofreu essa influência, e haviamesmo uma relação de dependência dessa gramática em relação à grega (LYONS, 1979, p.13).As modificações feitas pelos gramáticos latinos giraram em torno apenas de adaptaçõesdevidas às diferenças entre as línguas, visto que a semelhança estrutural entre elas levouos especialistas latinos a acreditarem que as categorias gramaticais estabelecidas pelosgregos seriam universais (LYONS, 1979, p. 14).As gramáticas latinas elaboradas por Donato (c. 400 A.D.) e Prisciano (c. 500 A.D.),consideradas manuais de ensino, foram utilizadas também durante a Idade Média, econtribuíram para que se mantivesse, nesse período, a ideologia de que a língua utilizadapelos grandes poetas clássicos era superior e mais pura em relação à linguagem oralcoloquial (LYONS, 1979, p. 14). 14
  15. 15. Universidade Presbiteriana MackenzieEm meio àquelas publicações gramaticais, Varrão organizou uma extensa teorização sobrea linguagem, que seria a mais completa até então: a obra De Lingua Latina, dedicada aCícero. Quanto à discussão entre analogistas e anomalistas, Varrão procura demonstrar queambos os posicionamentos estão presentes na língua, porque nela há regularidades eirregularidades (KRISTEVA, 1969, p. 168). A seguir, pretende-se expor alguns dos pontosgramaticais mais relevantes dos capítulos ainda existentes da obra citada.3.3.2.1. VarrãoVarrão de Reate (Marcus Terentius Varro, 116-27 a.C.) pode ser considerado um dosmaiores autores da época clássica latina, no que diz respeito aos estudos da linguagem.Apesar de ter publicado, também, diversos livros sobre agricultura, no caso do tratado DeLingua Latina, que era composto por 25 livros, restaram apenas os de número 5 a 10(PEREIRA, 2000, p. 55).Nos capítulos introdutórios da edição do De Lingua Latina consultada para a análiseconstam dados biográficos e da produção de Varrão. Essa edição também traz informaçõesadicionais sobre os manuscritos que lhe serviram de base e sobre detalhes de tradução dolatim para o inglês, línguas nas quais a edição se apresenta (VARRO, 1938, p. VII-XLVIII).No livro V, o autor explica que tratará, nos três livros seguintes, do modo como os nomesforam dados às coisas, assim como havia feito nos três livros anteriores (VARRO, 1938, p.3,§1). Nos livros de V a VII, Varrão dedica bastante espaço a explicações etimológicas dedeterminadas palavras, baseando-se no que ele acredita ser o conceito de etimologia: dizele que uma análise etimológica é desenvolvida para buscar o significado original daspalavras (VARRO, 1938, p. 5, §2).Ainda no livro V, são apresentadas as explicações etimológicas dos nomes de lugares e dascoisas que estão nesses lugares (VARRO, 1938, p. 15-171, §14-§184). No livro VI encontra-se o mesmo tipo de análise, mas são contempladas palavras que indicam tempo ou açõesque levam um período de tempo (VARRO, 1938, p. 172-265, §1-§97). O livro VII assemelha-se aos dois anteriores, mas dessa vez envolvem-se palavras relacionadas aos trabalhos dospoetas (VARRO, 1938, p. 267-367, §1-§110).No segundo volume da obra consultada encontra-se o capítulo VIII, em que Varrãoapresenta argumentos contra a existência do princípio de analogia na língua. Ele retoma oque diz já ter apresentado: sua concepção das partes em que se organiza o discurso, omodo como os nomes foram impostos às coisas, como os nomes derivados desseschegaram a essas diferenças e como as palavras, racionalmente unidas a outras, ganhamsentido (VARRO, 1938, p. 371, §1).Para dar introdução ao tratamento da segunda parte, Varrão afirma que a relação entre aspalavras e suas respectivas declinações assemelha-se à relação entre um tronco e suas 15
  16. 16. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011ramificações (VARRO, 1938, p. 371, §1). Em seguida, dedica-se a explicar a existência daflexão. O autor afirma que o uso de palavras flexionadas é útil e necessário, e ainda arriscadizer que essas construções são utilizadas não apenas na língua latina, mas na de todos oshomens, ou seja, em todas as línguas. O uso de palavras flexionadas é necessário, porque,se tal recurso não existisse, teríamos que decorar uma infinidade de palavras, enquantoque, com as flexões, pode-se formar um número incontável de palavras a partir daquelasque já se conhece. Além disso, se não fossem as formas flexionadas, não nos seria possívelverificar as relações de sentido que existem entre essas formas e as que lhes deram origem(VARRO, 1938, p. 373, §3).Seguindo esse raciocínio de economia vocabular, Varrão prossegue discorrendo sobre asorigens das palavras. Segundo ele, procurava-se, inicialmente, impor o mínimo possível denomes, de forma que se facilitasse sua aprendizagem, e deles gerar o máximo possível depalavras derivadas (VARRO, 1938, p.375, §5-§6).O autor observa que o uso das formas flexionadas foi adquirido com facilidade pelosfalantes, mas ainda acontecem erros, os quais não devem ser motivo de espanto, poismesmo aqueles que inicialmente impuseram os nomes podem ter-se enganado. Ele afirma,ainda, que os impositores provavelmente criaram o recurso da flexão para indicar as noçõesde plural e gênero (VARRO, 1938, p.375, §7).Varrão passa, em seguida, a distinguir as formas que podem ou não ser flexionadas,destacando que uma classe de palavras apresenta formas a partir das quais muitas outraspodem ser formadas, o que não acontece, entretanto, nas demais, como a dos conectivos(VARRO, 1938, p.376; 379, §9-§10). As classes que fornecem as bases para as formasflexionadas podem ser divididas em duas ou três. De acordo com a primeira hipótese,formulada por Aristóteles, a divisão seria feita entre nomes e verbos; já de acordo com asegunda, pode-se considerar a divisão em tempo, caso, ou nenhum dos dois (VARRO,1938, p.380; 381, §11).Varrão discorre sobre os nomes, que diferem para mostrar diferenças entre as coisas a quese referem, ou mesmo para indicar parte do referente. Assim, no caso dos nomes, podemficar indicados o diminutivo e o plural (VARRO, 1938, p.381; 383, §14).Em seguida, o autor trata da origem das derivações. Ele afirma que foi pelo uso dos falantesque os casos foram derivados, porque pelo recurso das derivações esses falantes poderiamindicar quando estavam chamando ou acusando, por exemplo. Varrão afirma que, por isso,a língua latina foi levada, assim como a grega, ao uso da declinação dos nomes. As formasque o autor chama oblíquas e que foram originadas do nominativo são os casos; a língualatina apresenta seis casos, enquanto a língua grega possui cinco deles (VARRO, 1938,p.383; 385, §16). 16
  17. 17. Universidade Presbiteriana MackenzieVarrão afirma que há palavras que indicam em sua forma ideia de tempo presente, passadoe futuro, que são os verbos. As pessoas do verbo são de três naturezas (aquele que fala,aquele com quem se fala e aquele de quem se fala), e tais informações também sãoexpressas pela terminação verbal (VARRO, 1938, p.383; 385, §16).Após discutir essas questões envolvendo a derivação, o autor traz à tona como e por que aderivação aconteceu. Classificando os tipos de derivação entre voluntária e natural, Varrãoassocia ao primeiro grupo a derivação em que o falante escolhe, individualmente, a origemdo nome a ser atribuído, enquanto que a derivação natural é baseada num consenso geral(VARRO, 1938, p.387; 389, §21-§22).Varrão afirma que autores gregos e latinos pesquisaram e escreveram sobre os tipos dederivação. Alguns defendiam que as palavras deveriam seguir a forma das palavras jáexistentes, num processo de analogia. Outros autores, por sua vez, acreditavam que talprincípio deveria ser desconsiderado, e que os falantes acabariam seguindo as formasirregulares, mais comuns na fala, que seriam produtos da anomalia. Na opinião do autor,devem ser seguidas as duas vertentes. Ambas já estavam presentes no uso, pois naderivação voluntária havia anomalia, enquanto que na natural se verificava regularidade(VARRO, 1938, p.389; 391, §23).Em seguida, o autor anuncia que irá apresentar dois conjuntos, de três livros cada um, sobreesses dois tipos de derivação: o primeiro sobre os seus princípios e o segundo sobre osprodutos desses princípios. Decide escrever, inicialmente, contra a regularidade de formageral, e inicia tratando da natureza da fala humana (VARRO, 1938, p.391, §24-§25).Assim, Varrão prossegue afirmando que todo ato de fala deve ser dotado de utilidadeprática, ou seja, deve ser claro e breve. Desse modo, o autor defende que não hánecessidade de regularidade na língua, já que um discurso curto e objetivo causa um melhore mais rápido entendimento da mensagem, e o uso habitual das mesmas estruturas facilita oseu reconhecimento e compreensão. Se houver duas formas distintas e habitualmenteutilizadas com o mesmo significado, não haverá problema se uma ou outra for utilizada nodiscurso (VARRO, 1938, p.391; 393, §26-§27).Contra a regularidade na linguagem, Varrão apresenta, com exemplos, o argumento de quehá palavras idênticas provenientes de diferentes origens e palavras diferentes entre siprovenientes da mesma origem (VARRO, 1938, p.399; 401, §34-§36). O autor ainda afirmaque o princípio da regularidade funciona adequadamente na linguagem porque nem todasas palavras o seguem (VARRO, 1938, p. 401, §37), e que nem sempre é possível apontarregularidade entre algumas palavras semelhantes que, implicitamente, têm sentidosbastante distintos (VARRO, 1938, p. 403, §41).Mais adiante, Varrão anuncia que tratará mais detidamente das partes do discurso entre emque se vêem palavras que apresentam flexão de caso, outras que apresentam flexão de 17
  18. 18. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011tempo, outras que não apresentam nenhum tipo de flexão e, por fim, aquelas que indicamcaso e tempo. O autor classifica, enfim, tais partes, de acordo com a divisão já estipuladapor alguns gramáticos (VARRO, 1938, p. 405, §44). Dessa maneira, apresenta, comexemplos, as formas usadas para nomear, os provocabula e os pronomes, classificadoscomo artigos, e os nomes comuns e próprios, considerados denominativos. Cada classedessas pode apresentar flexão de número, gênero e caso (VARRO, 1938, p. 406-407, §45-§46). Nos parágrafos seguintes, Varrão aproveita as classificações explanadas e retoma,novamente com exemplos, a afirmação de que não há, nesses casos, regularidade total(VARRO, 1938, p. 407-417, §47-§57).Em seguida, ainda sob a justificativa de demonstrar a falta de regularidade na linguagem, oautor trata dos verbos, que se diferenciam dos nomes por apresentar flexões de caso etempo. A irregularidade, nesse caso, explica-se pela impossibilidade se usarem algunsverbos na voz passiva (VARRO, 1938, p. 417, §58).Os parágrafos seguintes voltam ao assunto da irregularidade da linguagem, desta vezanalisada nos adjetivos provenientes de verbos e nos nomes com diferentes números dedeclinações possíveis (VARRO, 1938, p. 417-431, §59-§74).Varrão apresenta ainda outra classe de palavras, as que apresentam graus de comparação:os comparativos e superlativos (VARRO, 1938, p.431, §75). Também, nesse caso, ele seutiliza de diversos exemplos para mostrar que não há regularidade, assim como não há comos nomes próprios e a relação destes com sua origem (VARRO, 1938, p. 431-439, §76-§84).No livro IX, o autor objetiva argumentar contra o princípio da irregularidade na linguagem, einicia o capítulo acusando alguns pensadores de não terem compreendido devidamente oconceito de irregularidade (VARRO, 1938, p. 441, §1). Em suas observações, Varrão afirma,por exemplo, que não há problema se as pessoas, em geral, usarem a regularidade emtodas as palavras, pois os erros que porventura elas cometerem serão corrigidos com o uso.Já no caso do discurso de um orador, tal prática torna-se condenável (VARRO, 1938, p.445, §5).O autor ainda afirma que defenderá a regularidade na linguagem de forma geral, que, emsua opinião, pode ser empregada até certa medida, e também diz que cada usuário dalíngua é responsável por observar se a utiliza corretamente (VARRO, 1938, p. 445, §6-§7).Entre os motivos que Varrão aponta para avaliar positivamente a regularidade encontra-se afacilidade de recorrer a uma forma que serve de modelo para verificar e corrigir alguns erros(VARRO, 1938, p. 447, §9). Em seguida, o autor recorre a diversos exemplos para justificarseu ponto de vista sobre a gradual mudança no vocabulário, com adoção de novas palavrasderivadas de acordo com uma teoria lógica (VARRO, 1938, p. 451, §16-§17).Nos parágrafos seguintes, Varrão discorre sobre as regularidades que existem na naturezaaté retornar ao assunto das regularidades na linguagem e, mais propriamente, nas 18
  19. 19. Universidade Presbiteriana Mackenziediferentes partes do discurso, como ocorre na língua grega (VARRO, 1938, p. 455-461, §23-§32). Durante todo o livro IX, de forma geral, o autor demonstra a presença de regularidadee irregularidade na linguagem, dando maior atenção aos nomes e aos verbos, com diversosexemplos da vida prática.No livro X, por fim, Varrão esclarece os conceitos de analogia (identidade em váriosaspectos entre elementos comparáveis) e anomalia (ausência de pontos de identidade)(VARRO, 1938, p. 537, §3). Ele ainda afirma que há uma divisão nas partes do discursoentre as palavras primitivas e as derivadas, e que só se pode afirmar que há analogia nasformas derivadas (VARRO, 1938, p.545, §14). Há também uma segunda divisão, visto queas palavras modificadas por derivação ou flexão podem sê-lo por um processo de derivaçãovoluntária (pelo uso) ou natural (pela lógica) (VARRO, 1938, p.545, §14). Varrão coloca suaopinião de que a derivação voluntária está associada à anomalia, porque acontece semnenhuma uniformidade (VARRO, 1938, p. 547, §16). A terceira divisão, segundo o autor, dizrespeito às palavras que são naturalmente flexionadas (VARRO, 1938, p. 547, §17).A cada divisão apontada correspondem determinadas classes de palavras, e, assim,segundo Varrão, afirma que à primeira divisão pertencem os artigos e os nomes. Destes, háregularidade apenas em alguns tipos de artigos e nos nomes, principalmente nos nomescomuns. (VARRO, 1938, p. 548-549, §18-§20). Nesse ponto, é necessário voltar a dizer queo conceito de artigo do autor engloba o que compreendemos atualmente como pronomes epronomes relativos. À segunda divisão, como quer Varrão, pertencem os nomes, ospronomes, os adjetivos, alguns verbos, os particípios e os advérbios (VARRO, 1938, p. 561,§33).1Em seguida, Varrão trata do que seria a linguagem “de acordo com o lógos”, que, segundoele, é o princípio que rege a analogia, ou seja, os diversos tipos de regularidade (VARRO,1938, p. 563, §37), assunto já tratado nos capítulos anteriores. Ainda retomando adiscussão grega sobre anomalia e analogia, o autor afirma que a analogia tem sua origemna imposição dos nomes pelos homens, na natureza, ou em ambos (VARRO, 1938, p. 573,§51). Por fim, Varrão disserta sobre os casos em que há perfeita regularidade na linguageme sobre as regras que acredita que devem ser seguidas para o uso da analogia (VARRO,1938, p. 585, §68). Os trechos que corresponderiam às classes de palavras da terceira divisão não estavam disponíveis1na edição consultada. 19
  20. 20. VII Jornada de Iniciação Científica - 20113.3.2.2. QuintilianoMarcus Fabius Quintilianus (± 30 d.C - ± 96 d.C) dedicou sua vida ao trabalho como retor e,principalmente, ao ensino da Oratória, e os conhecimentos adquiridos com tais experiênciascontribuíram para que elaborasse sua obra principal Institutio Oratoria, considerada umtratado de pedagogia (PEREIRA, 2000, p. 23-25).No primeiro capítulo da obra citada, Quintiliano disserta sobre a importância do ensino daoratória desde a infância e sobre como as crianças poderiam ser expostas a diversosestudos simultâneos. Além disso, trata das funções do grammaticus, responsável peloensinamento da linguagem literária (PEREIRA, 2000, p. 27).Em seguida, o autor discute o papel do mestre de Retórica e a metodologia que deve seraplicada para o ensino dessa disciplina. Tal exposição é complementada pelo tratamento dediversos elementos ligados à origem e à composição da peça oratória. Por fim, a InstitutioOratoria trata do papel do orador e suas responsabilidades. No caso, era dever do oradorprimar pela honestidade, pela integridade moral e pelo equilíbrio, tanto em seu discursocomo em suas ações (PEREIRA, 2000, p. 27-30).Para Quintiliano, deveriam ser levados em conta certos padrões de excelência no passado,como fonte de inspiração para o desenvolvimento da oratória, revelando-se, então, seuconceito de mímesis. Considerava essa relação positiva se permitisse não apenas oespelhamento nos padrões clássicos, mas seu aperfeiçoamento e superação (PEREIRA,2000, p. 31-32).Chama a atenção o tratamento dado pelo autor à gramática em seis capítulos da InstitutioOratoria. Segundo Pereira (2000, p. 62-63), a motivação para Quintiliano deter-se emexplicações gramaticais em uma obra voltada para o ensino da oratória, diferentemente deoutros autores que se debruçaram sobre o mesmo tema, relaciona-se à consciência doautor de que o conhecimento da língua era essencial ao estudo que se pretendia, e,inclusive, o precedia. Assim, além daquelas qualidades que o orador deveria apresentar, eletambém deveria demonstrar amplo conhecimento sobre várias áreas e, principalmente,conhecer bem sua língua, que será o instrumento do qual se servirá para o seu discurso.Nesse sentido, Quintiliano detalha a maneira progressiva com que os conhecimentos sobrea língua deveriam ser apresentados às crianças pelo grammaticus. Tal estudo deveria seriniciado pela classificação das letras e correção da pronúncia, visto que o autor consideravaa gramática, assim como Varrão, como a “arte de falar corretamente” (PEREIRA, 2000, p.65-66).Destacam-se suas considerações sobre processos de formação e flexão de palavras e,principalmente, sobre as partes do discurso. Em sua explanação, Quintiliano trata de como odesenvolvimento dos estudos gramaticais auxiliou no aumento do número das partes do 20
  21. 21. Universidade Presbiteriana Mackenziediscurso: antes se consideravam apenas os nomes, verbos e conectivos, e a estes foramsomados as conjunções, os artigos e as preposições (PEREIRA, 2000, p. 67).Mais adiante, no quinto capítulo, o autor estende-se no tratamento de questões como asonomatopeias e a formação de palavras, mas focaliza principalmente a correção nodiscurso. Para tanto, afirma que tanto o discurso quanto o uso das palavras separadamentedeve primar pela correção, clareza e elegância. Além disso, alerta contra os vícios delinguagem, entre eles o barbarismo e o solecismo. No mesmo capítulo, Quintiliano aindadiscute a prosódia, mais especificamente a origem do tom da língua latina (PEREIRA, 2000,p. 68-71).O capítulo seguinte de Institutio Oratoria mostra o posicionamento de seu autor quanto àpresença da analogia na linguagem. Sobre essa questão, Quintiliano considera a analogiacomo um recurso útil para o orador, mas a submete ao uso na linguagem culta (PEREIRA,2000, p. 71-75).Nos demais capítulos da obra citada concernentes à gramática, Quintiliano atribui àortografia a função de evitar ambiguidades e, dessa forma, auxiliar na exatidão nalinguagem. O autor também discorre sobre a apreciação dos textos literários, e comentaquais autores deveriam ser selecionados para tal estudo, como Virgílio e Homero, e, por fim,retoma o tema do trabalho a ser desempenhado pelos mestres de gramática e retórica(PEREIRA, 2000, p. 76-79).3.4. ANÁLISE DA NOMENCLATURA GRAMATICAL BRASILEIRAA seguir, apresenta-se uma análise dos termos gramaticais encontrados na obra de Varrão,De Lingua Latina, e sua correspondência com os termos da Nomenclatura GramaticalBrasileira.3.4.1. Fonética • Sílaba (syllaba) – Houve transliteração do termo grego para o latim, e, da gramática latina para a NGB, houve manutenção do conceito e do nome.3.4.2. MorfologiaQuanto à formação das palavras, encontraram-se os seguintes termos: • Derivação (derivatio): mudança na forma da palavra de forma voluntária ou natural, por analogia ou anomalia (forma regular ou irregular). Houve manutenção do conceito e do nome latinos. • Sufixo (incrementum): marca significativa adicionada à palavra. Houve manutenção do conceito latino e alteração de nome. 21
  22. 22. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011Dá-se especial atenção à importância da flexão: • Flexão (derivatio): atribuição de marcas de gênero, número e caso às palavras. Houve manutenção do conceito latino e alteração de nome.Há vários termos associados à classificação das palavras. Na maioria dos casos, houvemanutenção dos nomes e dos conceitos herdados da gramática grega: • Nome (nomen): Houve tradução do termo grego correspondente a substantivo, e, na passagem para a NGB, houve manutenção do conceito e do nome. o Singular (singulare): Houve tradução do termo grego para o latim, e, da gramática latina para a NGB, houve manutenção do conceito e do nome. o Plural (multitudine): Houve manutenção do conceito e alteração do nome. o Próprio (nomen): Houve manutenção do conceito grego, alteração do nome na gramática latina, e nova alteração na NGB, com o mesmo conceito de “nome atribuído a uma determinada pessoa”. o Comum (vocabulum): Como no caso do nome próprio, também houve manutenção do conceito grego, alteração do nome na gramática latina e nova alteração na NGB. o Diminutivo (exiguitatem): Houve mudança no nome e no conceito gregos, na passagem do termo para o latim, e na passagem dele para a NGB houve manutenção do conceito e mudança no nome. o Derivado (declinatum): palavra já modificada, oriunda da original adicionada de sufixo. Houve tradução e manutenção do conceito grego e posterior manutenção do nome pela NGB, com o mesmo conceito. • Pronome (pronomine): Termo traduzido do grego correspondente ao mesmo conceito. Houve manutenção de conceito e do termo latino para a NGB. o Pronome relativo (provocabulum): Houve manutenção de conceito e mudança no nome. • Adjetivo o Comparativo (simile): Houve tradução do termo grego, mas o conceito não se referia a adjetivos. Na passagem para a NGB, houve manutenção do conceito latino de comparação graduada com uso de adjetivo, e houve alteração no nome. • Verbo (verbum): palavra que apresenta marcas de tempo e ação. Houve manutenção do conceito e adoção de nome semelhante oriundos da gramática grega. o Declinação (declinatur): Também tem o sentido de conjugação dos verbos. O termo não foi preservado em nossa gramática. 22
  23. 23. Universidade Presbiteriana Mackenzie o Pessoas (do verbo) (personarum): Incluem-se, aqui: quem fala, com quem fala e de quem se fala. Houve manutenção do conceito e do nome. o Tempo (tempore) (verbum temporale): Houve manutenção do conceito grego e do nome traduzido pelos latinos. o Presente (praesens): Houve tradução do termo grego e manutenção do conceito de mesma origem. Na NGB preservou-se o nome e o conceito. o Passado (praeteritum): Houve tradução do termo grego e manutenção do conceito de mesma origem. Na NGB preservou-se o nome e o conceito. o Futuro (futurum): Houve tradução do termo grego e manutenção do conceito de mesma origem. Na NGB preservou-se o nome e o conceito. o Particípio (participium): Houve tradução do termo grego e mudança do conceito de mesma origem. Na NGB preservou-se o nome e o conceito latino.• Conjunção (iunguntur verbum)/ Conectivo (copula): assim como na concepção grega (NEVES, 2009), a conjunção é classificada como um dos elementos não declináveis e tem função de unir diferentes partes do discurso. Houve mudança no nome e manutenção no conceito oriundo da gramática grega.• Artigo (articulum): Tradução de termo grego com alteração no conceito, visto que não havia artigos no latim. No caso, o termo englobava os pronomes (pronomine e provocabulum). Houve mudança no conceito e manutenção no nome pela NGB. o Definido (finitum): Houve mudança no conceito da gramática latina para a NGB e manutenção no nome. o Indefinido (indefinitum): Houve mudança no conceito da gramática latina para a NGB e manutenção no nome. o Gênero (genere): Houve manutenção no conceito e no nome. o Masculino (virile): Houve manutenção no conceito e no nome traduzido do grego. o Feminino (muliebre): Houve manutenção no conceito e no nome traduzido do grego. o Neutro (neutrum): O termo e o conceito não foram preservados em nossa gramática.• Caso (casus): categorias em que as palavras se organizam apresentando flexões que denotam suas funções sintáticas. O conceito grego foi adotado pelos latinos, mas o termo e o conceito não foram preservados na NGB. 23
  24. 24. VII Jornada de Iniciação Científica - 20113.4.3. SintaxeNão foram encontrados no texto analisado termos relacionados a aspectos sintáticos dalinguagem.3.4.4. ApêndiceQuanto aos termos encontrados no apêndice da NGB: • Analogia (analogia): tendência à regularização. Houve manutenção do termo grego por transliteração e do conceito de mesma origem. • Anomalia (anomalia): derivação irregular. Houve manutenção do termo grego por transliteração e do conceito de mesma origem, mas nenhum dos dois foi preservado. • Etimologia (έτyµολογίαν)2: mantém-se o conceito grego de sentido primitivo de uma palavra. Houve manutenção do nome e alteração do conceito, além de transliteração do nome do grego para o latim. • Homônimo (dissimile): mantém-se o conceito grego de semelhança entre nomes e diferença nos conceitos. Houve alteração no nome latino. • Sinônimo (synonimyas): mantém-se o conceito grego de semelhança entre conceitos e diferença nos nomes. Houve transliteração do nome grego.CONCLUSÃOAo longo deste trabalho, buscou-se apresentar os aspectos mais relevantes dodesenvolvimento gramatical no Ocidente. Partiu-se das primeiras reflexões dos gregossobre a natureza da linguagem, sua relação com os objetos que nomeia e com a verdade,reflexões que avançaram para uma teorização sobre a linguagem e, por conseguinte, para oestatuto de uma ciência gramatical.Analisaram-se, nesse percurso, as contribuições de pensadores e, posteriormente, degramáticos para o desenvolvimento da gramática tradicional grega, cujos moldes foramseguidos pelos latinos e, de alguma forma, chegaram até nós. Questionamentos sobre aregularidade ou irregularidade nas formas da língua iniciados pelos gregos e herdados peloslatinos contribuíram para novos desdobramentos do pensamento gramatical ocidental.No levantamento e análise dos termos gramaticais presentes na obra De Lingua Latina, dogramático Varrão, verificou-se que 33 termos se relacionam à terminologia gramatical queconstitui a Nomenclatura Gramatical Brasileira, entre os 37 encontrados no documento.Desses termos, 27 mostraram-se parte do legado gramatical grego, revelando casos em que2 Consta na edição consultada da obra De Lingua Latina o termo em caracteres gregos. 24
  25. 25. Universidade Presbiteriana Mackenziese mantiveram o termo gramatical, o conceito, ou mesmo ambos. Após tal avaliação, pode-se afirmar que em nossa nomenclatura gramatical persiste, principalmente, a terminologia ea conceituação gramatical de origem grega, mesmo que elas tenham chegado até nós porintermédio da gramática latina. Dessa forma, verificou-se a importância da fundamentaçãoteórica desenvolvida pelos gregos para a constituição e a expressão de nosso pensamentosobre a organização gramatical.REFERÊNCIASBARBOSA, N. S. S. Interpretação da Nomenclatura gramatical brasileira. Campanha deaperfeiçoamento e difusão do ensino secundário. Rio de Janeiro: Ministério da Educação eCultura, 1962.ELIA, H.; ELIA, S. Nova Nomenclatura Gramatical Brasileira. Rio de Janeiro: J. Ozon Editor,1959.HENRIQUES, C. C. Nomenclatura Gramatical Brasileira: 50 anos depois. São Paulo:Parábola, 2009.KRISTEVA, J. História da linguagem. Lisboa: Edições 70, 1974.LUFT, C. P. Gramática Resumida. 2. ed. rev. e atual. São Paulo: Globo, 2004.LYONS, J. Introdução à linguística teórica. Trad. Rosa Virgínia Mattos e Silva; rev. IsaacNicolau Salum. São Paulo: Nacional/EDUSP, 1979. Tradução de: Introduction to TheoreticalLinguistics. Londres: Cambridge University Press, 1968.MATTOSO CÂMARA JR., J. Estrutura da língua portuguesa. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 1976.NEVES, M. H. M. A vertente grega da gramática tradicional: uma visão do pensamentogrego sobre a linguagem. 2. ed. rev. São Paulo: UNESP, 2005.________________. O legado grego na terminologia gramatical brasileira. In: CONGRESSOINTERNACIONAL DA ABRALIN, 6. 2009, João Pessoa. Mimeo.OLIVEIRA, C. Nova nomenclatura gramatical brasileira: comentários, definições, exemplos.2. ed. São Paulo: Luzir, 1959.PEREIRA, M. A. Quintiliano gramático. O papel do mestre da Gramática na InstitutioOratoria. São Paulo: Humanitas, 2000.VARRO. On the Latin language. Vol. 1. Trad. Roland G. Kent. Cambridge: HarvardUniversity Press, 1938. Disponível em: <http://www.archive.org/details/onlatinlanguage01varruoft>. Acesso em: 29 Ago. 2009._______. On the Latin language. Vol. 2. Trad. Roland G. Kent. Cambridge: HarvardUniversity Press, 1938. Disponível em: <http://www.archive.org/details/onlatinlanguage02varruoft>. Acesso em: 29 Ago. 2009.VERNANT, Jean-Pierre. Mito e religião na Grécia antiga. São Paulo: WMF Martins Fontes,2006. 25
  26. 26. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011WEEDWOOD, B. História concisa da Linguística. São Paulo: Parábola, 2002.Contato: laisqb@hotmail.com e mhmneves@uol.com.br 26

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