ENRIC BATLLE –                 O JARDIM                    DA               METRÓPOLE                – PARTE 2            ...
respeitável grau de acertos. Londres vive todavia do “green belt” de sir Patrick Abercrombie, oescocês percursos, e dos su...
A nova realidade metropolitana se define desde as paisagens vagues produto da crise doslimites entre cidade e território. ...
movimento é tão importante como a comunicação simbólica, visual, que expressa a escalasuperior do território”.7Este sistem...
2. Caminho em um parque natural, Ohiopyle (Pensilvania) Estados Unidos.3. Parc de Catalunya, Sabadell, Barcelona, Espanha,...
O estrato livre deve ser visto num mapa que tem que ser produzido e construído, que semprepode ser desmontado, alterado ou...
4. IBA Emscher Park, Duisburg Nord, Alemanha, 1999.No coração dessa operaçãoo de paisagismo se encontrava o rio Emscher. U...
Redescobrir a continuidade da água através das drenagens do território permite recuperar umconceito que sua ocupação indis...
Catalunha “rica e plena” desejada. O texto começava da seguinte maneira: “O bosque é ogrande acumulador, e a maior parte d...
uma situação equivalente, agravada pela forte pressão urbanística e de considerável abandonode terrenos agrícolas ou flore...
novos materiais que pode produzir-se a partir dos resíduos vegetais; desde as hortasindividuais ao fomento dos alimentos p...
apoios funcionais do sistema econômico. Seus traçados imprescindíveis se caracterizam porser uma das agressões mais intens...
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temáticos estarão destinados ao ócio, aos distintos serviços da cidade ou aos espaços dasustentabilidade que tratarão de r...
9. Parque Central, Sant Cugat del Vallès, Barcelona, Espanha, 1994. Batlle i Roig arquitectes.Os jardins temáticos poderão...
cidadãos de natureza muito diversa, e que sua gestão é delicada e complexa. Necessário edifícil, o verde urbano é um sinal...
A matriz ecológica metropolitana, composta por espaços de interesse natural que podemconservar- se e pelos corredores verd...
construído, entre o jardim da metrópole e a cidade consolidada. Uns bons limites complexosservem para melhorar as condiçõe...
que quero chamar a atenção é sobre isso; eu falei de ponto, de linha e superfície. Começam aconverter-se em uma linguagem ...
explica a forma e o funcionamento de um mosaico. A matriz ecológica metropolitana é osistema composto pelos diversos espaç...
permitem pensar em rotas alternativas para os diferentes movimentos de espécies. A escala eo tamanho da rede que defina a ...
diferentes espaços de interesse natural que tiveram a sorte de receber algum tipo de proteçãolegal, para iniciar a análise...
novos espaços livres urbanos, que, por definição, já se desenvolvem sobre lugares com muitaspotencialidades, frequentement...
As conexões verdes através de vias parques permitem conectar os espaços livres urbanostradicionais de um unidade urbana co...
passeio de cinco metros de largura ao longo de algumas centenas de metros, ou podeconverter-se em um autêntico corredor ve...
17. Parc de La Marina, sistema de parques de Sant Climent, Viladecans, Barcelona, Espanha, 2008. Batlle i Roig arquitectes...
materiais próprios da paisagem, evitando o desastre e desenhando a natureza com a confiançade que se está buscando um mund...
uns espaços desconexos e muito mal relacionados com os tecidos urbanos próximos, e tratade converter-se em um elemento de ...
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  1. 1. ENRIC BATLLE – O JARDIM DA METRÓPOLE – PARTE 2 1. Parque da Rambla del Celler, Batlle i Roig, Sant Cugat del Vallès, Barcelona 1988. Um novo estrato Do terrain vague ao jardim da metrópole“Metrópole! Que palavra! Emblema da modernidade da década de 1930, clichê terminológicoda de 1960. Só a menção dessa palavra sugere de imediato grandes manchas sobre um mapa,eixos e traços de múltiplas ruas e trilhos, movimento veloz de pessoas dirigindo. Parece quesomente ao falar de metrópole reconheceríamos a mancha de azeite, a expressão especulativae maciça, as infinitas urbanizações suburbanas.Poucas cidades foram capazes de dominar sua dimensão metropolitana. Racionalmente,através de planos e projetos, bem poucas. Copenhagen, na década de 1960, com seu famoso“Plano dos cinco dedos”, penetrações de cidade que se fundem no verde maximizando asuperfície de contato entre edificação e natureza. Paris, por via tecnocrata e poder estatalsomando suas forças, que consegue acertar seu esquema de cidades novas “metrópoles dedescongestão”, como as chamam. Algo que nos últimos quinze anos poucos cérebros sérioshaviam apostados ao que hoje reconhecemos, inclusive seus detratores, consegue um
  2. 2. respeitável grau de acertos. Londres vive todavia do “green belt” de sir Patrick Abercrombie, oescocês percursos, e dos subúrbios jardim da década de 1950. Mas, poucos casos a mais.Todas as grandes cidades fazem planos, mas não há porque pensar que tenham êxito. Umaopção cultural sobre a metrópole não pode pretender-se todos os anos, nem em todos oscasos. De fato, quase que sequer se intenta.”1Manuel de Solà-Morales, “Un nuevo Paseo de Gràcia”No panorama urbanístico atual, a referencia aos novos fenômenos de transformação da cidadee de seu território encontra formas de expressão e concepção muito diversas. Dasuburbanização às metrópoles, da difusão à dissolução urbana.Nos últimos anos se levaram ao cabo inúmeros projetos urbanos em grande escala nosgrandes vazios no interior das cidades, resultantes em muitos casos da obsolescência dosgrandes equipamentos industriais, da transformação dos velhos portos ou das mudanças dasestações ferroviárias e seus espaços de serviço. Sem dúvida, um olhar mais detalhado sobreas cidades mostra como as metrópoles tem muitos outros vazios, ligados em muitos casos aosfatores geográficos mais importantes. A superposição de usos e infra-estruturas dasmetrópoles tende a constituir um contínuo urbano não compacto, onde os vazios resultantes secorrespondem, em muitos casos, com acidentes naturais, como por exemplo, as cumeadas ecolinas, rios, costas e praias. Estes espaços, possíveis futuros espaços de projeto, são restosde áreas industriais obsoletas, áreas agrícolas em processo de desaparição ou espaçosnaturais fortemente degradados. A grande quantidade de solo disponível e a impossibilidade detodo resolvê-lo desde a realização de grandes projetos urbanos, desde o uso como parquespúblicos tradicionais ou como parques temáticos específicos, faz com que resulte necessária abusca de alternativas que coloquem soluções mais globais, que reconheçam as problemáticasmeio-ambientais sem renunciar a seu uso como espaços livres metropolitanos ou aformalização com relação às áreas urbanas nas quais este solo é um interstício. Ante talproblemática, se pretende superar as considerações de quem enfrenta o fenômenoexclusivamente desde um ponto de vista social e econômico, de quem sublima estes novoslugares desde um ponto de vista estético e com uma atitude romântica, ou de quem promove aconservação integral de determinados âmbito naturais para permitir a destruição integral doresto das paisagens.O objetivo seria centrar a discussão sobre as possibilidades de vertebração da metrópoledesde os vazios gerados na ocupação do território. Atualmente, quando os grandescondicionantes da forma das cidades se estabelecem desde as grandes infra-estruturas oudesde os projetos urbanos em grande escala, é necessário incidir na necessidade de encontrarestratégias mais globais para o futuro desses ocos metropolitanos.A capacidade de poder integrar em um único âmbito – físico, de projeto, conceitual – adisposição das novas infra-estruturas, a resolução dos problemas meio-ambienais e anecessidade de novos espaços livres, assim como a possibilidade de formalizar a novaimagem da metrópole, gerada desde a riqueza do vazio, que pode dar lugar a um novo estrato,sobreposto aos múltiplos estratos de construção e significado que constituem o fatometropolitano.O novo estrato do qual falamos é o produto da acumulação de todos os espaços livres da novacidade metropolitana, desde os parques naturais aos parques urbanos, desde os rios às praias,desde os corredores verdes às novas agriculturas metropolitanas, desde os bosques aos novosjardins temáticos, desde os espaços que resolvam as problemáticas meio-ambientais aosentornos das grandes infra-estruturas que necessitamos.Este novo estrato quer refazer o terrain vague metropolitano para tratar de desenhar a novageografia da cidade. Se trata de um estrato livre que pretende ajudar a definir um novo modelode ordenação territorial desde o que aqui denominamos jardim da metrópole.1. Sol˜-Morales, Manuel, “Un nuevo Paseo de Gràcia”, El País (Babelia, 19, 20 de junio de 1996
  3. 3. A nova realidade metropolitana se define desde as paisagens vagues produto da crise doslimites entre cidade e território. As infra-estruturas, as novas tipologias, os programas deocupação do território, a novidade radical de determinadas situações e solicitações deram lugara uma cidade e a um território que já são uma só coisa, sem limites, com um sem fim de vaziosurbanos existentes ou possíveis. O Jardim da metrópole trata de resolver esta crise de limitesentre a cidade e seu território a partir das possibilidades desses vazios urbanos.Frente ao “não lugar” universal, produto da amnésia topográfica moderna,2 descobrimos queestes vazios têm dinâmicas próprias, muito distantes do suposto espaço plano que passa a serum espaço rugoso,3 onde o curso das águas, a vibração dos solos ou os diversos processosagroflorestais passam a converter-se em chaves para sua compreensão e ser origem dariqueza de cada lugar. O estrato livre se consolida desde a valorização positiva dessasriquezas.Como assinala Antonio Font, a cidade do sul da Europa e mediterrânea tem umaespecificidade e uma qualidade urbana produto de sua história, que se define em um longoprocesso de acumulação de estratos sobre um território característico. Nos processos decrescimento territoriais atuais, encontramos duas tendências, aparentemente opostas oucontraditórias, que Antonio Font define em seu artigo “Anatomia de uma metrópoledescontínua: a Barcelona metropolitana” da seguinte maneira: “Por um lado, a tendência àhomogeneização, derivada dos processos gerais de globalização que afetam os sistemasprodutivos e seus setores, forma dos artefatos, etc., que para observadores pouco atentospode fazer crer que as arquiteturas, as cidades, os territórios são iguais. Por outro, a afirmaçãoda especificidade e da diferença do decisivo papel do contingente, do local, como mecanismode reação e de defesa, mas também de definição e afirmação frente a um mundoaparentemente cada vez mais igual.”4Nessa leitura do local podemos encontrar a força que define este novo estrato metropolita noque pode ser o jardim da metrópole, um estrato cheio de relações verticais e lugar dashabituais relações horizontais, utilizando a terminologia de Giuseppe Dematteis em seu livroProgetto implícito.5O estrato livre se constrói desde o aproveitamento dos processos naturais que podemconservar-se ou potenciar-se e que, como Ian L. MacHarg expos em Proyectar con lanaturaliza,6 nos ajudarão a decidir o papel da natureza nas áreas metropolitanas.O estrato livre está composto por espaços que procedem do trabalho em todas as escalasdesde todas as circunstâncias. Aos espaços gerados a partir da cidade habitualmente comoespaços livres (praças e parques), se somam os espaços que, desde a geografia (montanhas,rios, etc.), a agricultura (bosques, prados, etc.) ou o meio ambiente (corredores verdes,espaços de proteção de infra-estruturas, etc.) podem ser considerados como os novos espaçoslivres da metrópole.A sistematização e organização do estrato livre é a origem do jardim da metrópole, uma novaversão dos sistemas de espaços exteriores, adaptada à realidade das cidades. Uma versãoatual do sistema de ruas e passeios da cidade compacta: “Avenida agrícola, verde, aberta.Versão atual do que um passeio pode ser. Espaço unitário também: imagem visível dacontinuidade entre as partes da cidade. Espaço de circulação, sem dúvida, no qual o2 . Ver: Virilio, Paul, La machine de vivión, Galilée, Paris, 1992 (versión castellana: La máquina de la visión, Cátedra, Madrid, 1989).3 . Ver: Deleuze, Gilles e Guattari, Felix, Mille Plateaux, Éditions de Minuit, Parisd, 1980 (versión castelhana: Mil mesetas: capitalismo yesquizofrenia, Pre-Textos, Valencia, 1998).4 . Font, Antonio, “Anatomia de una metrópole discontinua: la Barcelona metropolitana”, Papers, nº 26, Barcelona, 1997.5 . Dematteis, Giuseppe, Progetto implícito, Il contributo dela geografia umana alle scienze del território, Franco Angeli, Milán, 1995.6 . MacHarg, Ian, Design with Nature, Natural History Press, Garden City, 1969 (versão castelhano: Proyectar con la naturaliza, EditorialGustavo Gili, Barcelona, 2000).
  4. 4. movimento é tão importante como a comunicação simbólica, visual, que expressa a escalasuperior do território”.7Este sistema de espaços exteriores pode interconectar os espaços naturais próximos com oconjunto de drenagens do território, os diferentes corredores existentes ou possíveis e osdiferentes espaços livres urbanos que produzem as cidades. Se trata de uma estruturacomplexa, definida a partir das possibilidades de uso como espaço livre, da vertebração com acidade e da compreensão da paisagem. O projeto dessa estrutura (jardim da metrópole) podeconverter-se na melhor base para um novo modelo de planejamento territorial, ainda que seuaproveitamento agroflorestal e meio-ambiental pode representar a melhor contribuição para ascidades que intentam ser sustentáveis.O estrato livre“Na realidade, durante anos, tudo aquilo que normalmente se denomina terrain vague foi objetode preocupações por parte de uma cultura que enfrentava o fenômeno exclusivamente desdeum ponto de vista social e econômico constituindo assim uma imagem de pura degradação. Éatravés do olhar de alguns artistas que levaram em consideração estes lugares abandonadosde um ponto de vista estético, e não como lugares sem interesse, mas ao contrário, com umaatitude romântica elevada ao sublime vincada na civilização contemporânea... Em taisafirmações, volta a fascinação das figuras dos grandes arquitetos paisagistas do passado,como Frederick Law Olmsted, com seu exemplo e sua capacidade de determinar diretrizesessenciais para o desenvolvimento urbano através do projeto de parques e bairros imersos navegetação. Somaria uma última nota: adaptado de uma forma extensiva para indicar umamassa heterogênea de situações ambientais diversas, o termo ‘parque’ não parece adequadopara descrever as novas realidades ambientais. A noção de jardim precisa melhor o sentidodestas propostas. O termo ‘jardineiro’, apesar de ser inconcluso e romântico, leva consigo anoção essencial do ritual: de cultivo, agricultura, manutenção e tempo, todos eles basesconceituais cruciais para criar e compreender o âmbito público”.8Pierluigi Nicolin, “La terra incolta”Entre os espaços preservados e os espaços públicos urbanos conservados existe outro tipo deespaço livre que se pode potenciar e valorizar, espaços que requerem novas definições entre onatural e o artificial, que devem construir-se sobre a base de novos programas e idéias, e quepodem ser coesos para dar lugar a este novo estrato, o do espaço livre, o estrato livre.No passado, muitos parques foram implantados em áreas degradadas ou marginais, mas suasolução projetual dependia das tradições estéticas de cada época e se construíam dentro dosprincípios da arquitetura e da engenharia. Em contraposição a este modelo, os movimentosecologistas defendem a conservação de espaços supostamente não contaminados comoamostras de uma natureza que está desaparecendo. Entre os “construtores” das áreasdegradadas e os “conservadores” de restos naturais, certos artistas defendem a preservaçãode espaços de fronteira no interior das cidades como mostra do caos inevitável no qual nosencontramos.7. Solà-Morales, Manuel, op. Cit.8. Nicolin, Pierluigi, “La terra incolta”, Lotus, nº 87, 1995.
  5. 5. 2. Caminho em um parque natural, Ohiopyle (Pensilvania) Estados Unidos.3. Parc de Catalunya, Sabadell, Barcelona, Espanha, 1992, Batlle i Roiga arquitectes.Neste debate, os arquitetos da paisagem apresentam uma posição intermediária entre a açãodos artistas, dos ecologistas e das soluções tradicionais da arquitetura e da engenharia. Estáse procurando uma nova dimensão do projeto que intente não se apresente condicionado pelaslimitações tradicionais da arquitetura e do planejamento. O resultado desta posição pode darlugar ao desenvolvimento de umas operações de diversas inclinações e escala que, dispostascomo um patchwork sobre o território pelo caráter acidental das oportunidades, podem chegara representar um inesperado significado no desenvolvimento dos projetos territoriais modernos.Nessa nova dimensão urbana se busca a conservação das vantagens da cidade compacta e apossibilidade de compatibilizá-la com aquelas que a natureza pode oferecer. Como diz IanMcHarg em Projetar com a natureza, se trata de conseguir uma boa combinação: “O idealpoucas vezes consiste em eleger uma só possibilidade entre duas, mas também a combinaçãodessas duas ou de outras mais. Desejamos que o museu e o cabaré, a sala de consertos e oestádio estejam próximos, mas também seria estupendo que as montanhas, o oceano e obosque natural estivessem na porta da casa e que a águia posassem em nosso ático”.9Estas operações tem como objetivo reinventar a paisagem a partir do estabelecimento denovas interdependências entre a cidade e o território. Rossana Vaccarino fala de “as paisagensrefeitas” como resultado das novas relações físicas, metafóricas e programáticas entre acidade e o parque, a cidade e a natureza, ou o parque e a natureza.10 O resultado é ummutante, um híbrido entre o urbano e o natural, o fim de uma tipologia (o parque urbano) e onascimento de um novo estrato (o estrato livre).Para dar sentido ao espaço livre se requerem novas idéias que permitam promover umterritório frágil sujeito a uma infinidade de forças que o vão esmigalhando, dividindo oureduzindo. Não se trata de recorrer a elementos supérfluos, nem de inventar novas tipologiasde espaços, mas de conhecer o lugar sobre o qual trabalhamos e potenciar as tipologias que jáconhecemos. O estrato livre que estamos tratando de definir se constrói desde a utilização dastipologias convencionais da paisagem – as margens de um rio, um bosque, um campo, umarvoredo, um pântano, etc. – que, com ligeiros ajustes, podem promover efeitos significativossem necessidade de ter que eliminá-los ou encobri-los.9. McHarg, Ian, op. Cit.10 . Vaccarino, Rossana, “I paesaggi ri-fatti”, Lotus, 87, 1995.
  6. 6. O estrato livre deve ser visto num mapa que tem que ser produzido e construído, que semprepode ser desmontado, alterado ou modificado, mas que deve conservar sua essência; umestrato codificado desde a vitalidade que contem e pode chegar a ter um lugar, e que podemosredescobrir no projeto de drenagens do território, dos bosques da metrópole, das agriculturasurbanas, das infra-estruturas verdes e dos jardins temáticos.As novas paisagens se converterão na base da nova forma da cidade e em referênciaobrigatória de todas as demais associações.As novas idéias implicarão numa mudança da ordem de valores em nossas atuações, ondenão será estranho pensar em conter as águas de um pequeno riacho, encharcar um território eestabelecer um projeto integral de nossas bacias; ou que repovoar as terras baldias próximasdas cidades sobre as bases de um projeto global dos bosques da região pode ser o melhorpatrimônio para o futuro e a melhor contribuição para obter microclimas mais adequados.Novos projetos que, como no caso do estabelecimento das novas indústrias agrícolas ou dosfuturos espaços da sustentabilidade, requereriam novas maneiras de enfrentar o desenho doespaço exterior.A nova situação permite falar de indícios de que algumas das idéias expostas nesse livropossam passar do terreno da ingenuidade ao factível. As drenagens do território, os bosquesda metrópole, as agriculturas urbanas, as infra-estruturas verdes, os jardins temáticos e osespaços da sustentabilidade são projetos imprescindíveis que podem somar-se ao resto dosprojetos da metrópole, com a vontade de transformar umas paisagens agora obsoletas noconjunto do estrato livre.Se trata de lugares que poderiam ser como os de sempre – um riacho, um bosque, um campo,um vertedouro e uma autopista, etc. –, mas que também poderiam ser novos motores da formado território, para assim deixar de ser o vazio, o espaço residual, o interstício ou a borda deuma estrada e passar a ser umas novas paisagens, vigorosas, úteis, aproveitáveis e, porquenão, também igualmente belos.O estrato livre é o jardim da metrópole.As drenagens do território
  7. 7. 4. IBA Emscher Park, Duisburg Nord, Alemanha, 1999.No coração dessa operaçãoo de paisagismo se encontrava o rio Emscher. Uma das primeiras ações realizadas foi reconstituirsua forma e melhorar a qualidade de suas águas. O rio recuperou seu caráter natural e as diversas atuações que se realizaramem seu entorno disso se aproveitaram.Os projetos de drenagem do território partem do reconhecimento de que a água é um recursobásico, e tem como primeiro objetivo limpar e proteger seus cursos. Se trata de considerar umfato que já conhecíamos: que o vale fluvial não existiria sem a presença e a história do rio ou adrenagem. É importante considerar as iniciativas dos corredores fluviais estudando todo oâmbito da bacia. A compreensão da totalidade do sistema natural permite efetuar umaaproximação ecológica mais completa e pode ajudar a determinar as soluções mais corretaspara os pontos de conflito que habitualmente encontraremos nas zonas mais urbanizadas.Reter a água e irrigar o território pode contribuir para resolver as problemáticas hidráulicas,mas também a criar novas paisagens. Em primeiro lugar, se tratará da aplicação de estratégiashidráulicas de pequena escala, de retenção da água em reservatórios, para reduzir suavelocidade, para irrigar o território e para o controle hidrológico nos entornos florestais, agrícolae urbano. Em segundo lugar, o fomento da manutenção de todas as drenagens do território e aacumulação em todas as escalas dos caudais de água disponíveis dará lugar à novaspaisagens úmidas, ligados aos bosques, aos espaços agrícolas e à novas áreas urbanas. Emterceiro lugar, a aplicação das medidas enunciadas suporá, em caso de chuvas intensas, adiminuição dos caudais de água nos tramos principais dos rios e das terras, assim como umaevidente diminuição de sua velocidade e a melhor prevenção de todo tipo de inundação. Podeser que os problemas atuais se minimizem, mas, ao mesmo tempo, obterão qualidadespaisagísticas e meio-ambientais somadas, como o aumento da massa florestal, oaproveitamento das águas para a rega, a melhoria dos lençóis freáticos, a diminuição daerosão nos solos, a criação de novas áreas úmidas com possíveis novos ecossistemas e apossibilidade de originar novas paisagens no entorno de rios e terras. E, por último, a aplicaçãode várias medidas simultâneas pode ser a melhor estratégia hidráulica para evitar projetos semsentido, e conseguir assim, que todo o território participe das problemáticas da água e possasomar uma clara potencialidade econômica à evidente potencialidade ecológica dessasatuações, que as converteria em possíveis e talvez, inclusive, em imprescindíveis.
  8. 8. Redescobrir a continuidade da água através das drenagens do território permite recuperar umconceito que sua ocupação indiscriminada havia eliminado: a continuidade dos espaçosexteriores. Se redescobrimos a continuidade da água, podemos recuperar a continuidadeecológica das drenagens do território e teríamos posto a primeira pedra para obter ascontinuidades cívicas que o jardim da metrópole requer. Se, na atual cidade dispersa o únicoestrato com continuidade é o das infra-estruturas, lembrar que as drenagens do territóriopodem ser um sistema contínuo ajuda a começar corretamente a construção desse estrato livreque pretende ser o jardim da metrópole. Recuperar as drenagens do território permite tornarvisíveis ao cidadão os processos da água, ao mesmo tempo que se desenha um ciclohidrológico razoável que dá lugar a um novo ecossistema urbano. Como temos enunciado aoexaminar as estratégias ecológicas de pequena escala, nossas drenagens são os jardins deágua da nova cidade, uns espaços integrados nos jardins da metrópole: bacias de retençãopequenas represas, depósitos de acumulação, drenagens secundárias, redes alternativas dediversos abastecimentos de água, plantas de tratamento de águas residuais, filtros verdes, etc.,e uma infinidade de espaços possíveis que, junto com os riachos principais, os rios e a linha dacosta, podem definir o sistema hídrico metropolitano.A continuidade do sistema de drenagem permite a recuperação de uns fatos geográficosprimordiais na construção da cidade. A gestão da água desde os novos parâmetros enunciadose o projeto dos espaços vinculados a esta gestão permitirá obter um sistema (contínuo pordefinição) que não só considerará os grandes cursos de água (rios e córregos), mas quetambém poderá ser visível em todas as escalas e incluir pequena depressão topográfica, quepassará a ser uma peça a mais desse projeto imprescindível.5. Parque Atlântico en la Vaguada de las Llamas, Santander, Espanha, 2008. Batlle i Roig, arquitectes.As drenagens do território se converterão em autênticos corredores verdes porque poderãogarantir em um mesmo encadeamento a inelutável continuidade da água com as continuidadesda biodiversidade que possibilitarão um trabalho adequado das margens da drenagem. Acontinuidade da água e da biodiversidade poderá ser complementada com as possíveiscontinuidades para os cidadãos através de caminhos que seguem a drenagem ou quepermitam as conexões com os tecidos urbanos próximos. O projeto das drenagens do territóriofará visível a continuidade de uma gota d’água, de um pássaro, de um javali perdido, de umganho de biodiversidade, de ar limpo e de tudo aquilo que possa ser compatível com ditosprincípios.Os bosques da metrópole e as agriculturas urbanasOs benefícios do bosque são conhecidos por todo o mundo, mas não há nada que empreendaum plano de criação e conservação de bosques. Nossos entornos metropolitanos são umterritório ideal para por em prática um plano de bosques públicos que contribua para a melhorapaisagística, ambiental e ecológica de nossas cidades.Em 1920, Manuel Raventós apresentou para a Mancomunidad de Cataluña um plano sobre asvantagens e a necessidade de bosques, como elemento imprescindível para conseguir a
  9. 9. Catalunha “rica e plena” desejada. O texto começava da seguinte maneira: “O bosque é ogrande acumulador, e a maior parte de suas vantagens provem deste fato. O bosque acumulao calor solar, que são calorias e energia; cria uma imensa riqueza no alto da montanha... Comoacumulador de calor, de folhas, lenha, madeira, refresca o ar à grandes distâncias, ao seuredor e até grandes alturas. Para esse esfriamento condensa o vapor da água em forma degaroa e chuva. Regula as temperaturas extremas, dá calor no inverno e frescor no verão, dáfrescor nos dias de sol forte e calor nas noites de inverno modificando os climas de uma formaextraordinária”.11Reflorestar as terras de cultivo e as montanhas pode contribuir para resolver as problemáticasflorestais, mas também as ambientais.12 Em primeiro lugar, se tratará de um plano dereflorestamento, de recuperação das superfícies arbóreas, de controle hidrológico florestal e demelhora da produção florestal. Em segundo lugar, de um plano ambiental de melhora dascondições climáticas, da preservação de incêndios e inundações, de manutenção e aumentodos valores paisagísticos. Em terceiro lugar, do fomento das vocações florestais dos territórios,que compensará a tendência ao abandono dos terrenos agrícolas e poderá somar àpotencialidade ecológica destas atuações uma possível potencialidade econômica, se siestabelecem gestões adequadas desses âmbitos florestais. E, em último lugar, no contexto dasnovas estruturas urbanas, estas novas superfícies florestais se converterão nos espaços livresda nova cidade dispersa, espaços que contribuirão para vertebrar a forma do território desde aadequada proteção urbanística, que em lugar de considerá-los terrain vague sujeito a futurasoperações urbanas, os considerará um novo sistema urbano geográfico: os bosques dametrópole.Fomentar as estruturas agrárias vigorosas e evitar os cultivos obsoletos pode contribuir paraevitar a fragilidade de uns territórios sujeitos a todo tipo de agressão. Em primeiro lugar, setratará de conhecer e potenciar a agricultura: a cultura da terra, a experiência de anos deintervenção do homem com finalidades produtivas, o repertório de imagens e técnicas daspaisagens agrícolas, o processo ideal para a gestão da paisagem. Em segundo lugar, aexperiência da agricultura tradicional – técnicas de cultivo, de conservação de solos, decontrole da erosão, de aproveitamento dos recursos hidráulicos, etc. – será o ponto de partidapara afrontar a aplicação das novas técnicas de cultivo e dos novos sistemas de gestão doterritório, com o fim de encontrar soluções mistas para a implantação das novas indústriasagrícolas. Em terceiro lugar, se partirá da aceitação de que cada nova agricultura requer umanova paisagem, um novo projeto de paisagem, e, do mesmo modo do passado todas asagriculturas que agora valorizamos e queremos preservar transformaram seus territórios, talvezpoderemos chegar a reinventar todas as agriculturas e descobrir que as novas gerações decultivo também podem ser belas. E, em último lugar, se o que não é indústria agrária vigorosaé bosque ou rio, estaremos estabelecendo as bases de um sistema potente de conservação dapaisagem. De que paisagem? Das novas paisagens que teremos projetado.Constatar a grande quantidade de solo de que dispomos nos pode ajudar a pensar que opçõescomo o jardim da metrópole todavia são possíveis. Para nos aproximarmos desta afirmação sóserão necessárias duas comparações no âmbito do caso de Barcelona: uma sobre a superfícieflorestal catalã e outra sobre os espaços não construídos da metrópole.A superfície florestal ocupa, estatisticamente, 62% do território da Catalunha, mas uma partemuito importante de dita superfície é atualmente improdutiva e não dispõe de nenhum modelode gestão, apesar dos importantes benefícios ambientais e sociais que proporciona, e de quecontribui para a conservação da diversidade biológica. Esta superfície nos resultasurpreendente porque está muito distanciada da sensação que se percebe quando se viajapela Catalunha, posto que uma grande parte desses 62% são zonas não arborizadas,queimadas ou sítios com uma rentabilidade nula. Nos entornos metropolitanos encontramos11 . Raventós, Manuel, Sobre replobació de boscos, Mancomunitat de Catalunya, Barcelona, 1920.12 . Ver: Gómez Mendonza, “Plantaciones forestales y restauración arbórea”, Revista de Occidente, nº 149, Madri.
  10. 10. uma situação equivalente, agravada pela forte pressão urbanística e de considerável abandonode terrenos agrícolas ou florestais.A ocupação por usos urbanos se aproxima dos 30% da superfície da área de Barcelona. Pesea importante superfície livre, não dá esta sensação ao mover-se pela metrópole, posto queuma grande parte do 70% restante é correspondente à zonas ocupadas por usos nãocontrolados, espaços agrícolas abandonados ou de muito baixa qualidade. Assim mesmo, asinfra-estruturas trituram os espaços livres resultantes e acentuam a sensação de dispor depouco espaço. Não obstante, o espaço existe, e poderia ser utilizado em planejamentoscoerentes que tratarão de evitar os contínuos urbanos indiferenciados, que, largamente,impossibilitarão a conexão entre as diferentes áreas naturais ou aquelas que poderiamintegrar-se no conjunto dos jardins da metrópole. O reflorestamento também pode ajudar arecuperar todos esses espaços.A proposta do jardim da metrópole trata de conservar e aumentar a superfície florestal, masproporcionando os modelos de conservação e gestão adequados. Como já se disseanteriormente, se deve “reflorestar as terras e as montanhas” mediante sistemas de gestãopotentes e incorporando novas idéias que tratem de obter uns bosques ricos e belos; unsbosques da metrópole auto-suficientes que possam continuar gerando benefícios ambientais esociais;13 uns bosques que não sejam considerados como um valor residual, mas com um valoragregado.14 Como diz Martí Boada, “O bosque não é marginal”.15 Os bosques da metrópolerequerem um sistema múltiplo de gestão de uso que promova simultaneamente o uso socialdesses âmbitos e a produção de matérias primas no mesmo lugar. Para obter adiante umsistema com essas características, deve-se superar o dilema tradicional entre produção econservação. Não se tratará de implantar sistemas intensivos de gestão florestal produtiva,nem tampouco de promover a conservação estática sem realizar nenhum tipo de gestão. Ossistemas de gestão florestal intensivos promovem a implantação de árvores de crescimentorápido, com um rejuvenescimento continuado dos bosques e uma preferência pelos espaçosregulares e específicos de uma só espécie.Frente a esse tipo de posicionamento, podem implantar-se sistemas que promovamdiversidade e complexidade estrutural dos bosques, com massas irregulares compostas porespécies diferentes e tamanhos variados. Nesse tipo de gestão, pode promover-se umaproveitamento importante dos recursos naturais respeitando a beleza e as funções ambientaisdo bosque. Os bosques da metrópole têm que ser implantados tratando de evitar afragmentação em peças isoladas que, largamente, implica o desaparecimento de espéciesvegetais e animais, e dificulta o movimento e a colonização de espécies, assim como amanutenção dos intercâmbios genéticos. A promoção da conectividade entre os diferentesbosques da metrópole se converte em uma estratégia básica para conservar sua riqueza ediversidade.Os bosques da metrópole podem compatibilizar-se com vários tipos de agriculturas urbanas,desde agriculturas integradas no conceito de bosque (exploração controlada do bosque,plantações tradicionais nas clareiras do bosque) àquelas produtivas mais intensivas que podemocupar áreas de maior dimensão (vinhas com denominação de origem, viveiros de árvores,parques agrícolas). Os bosques da metrópole e as agriculturas urbanas são rentáveis emescala local, pois deles pode obter-se madeiras, alimentos ou ócio, e podem ser rentáveis emescala global porque capturam o dióxido de carbono e reduzem a mudança climática; porqueretém a água, controlam a erosão e evitam as inundações; e porque se convertem em reservasde biodiversidade.16O fomento das novas agriculturas urbanas dará lugar a novas economias da paisagemmetropolitana, desde os viveiros ao vinho; desde a produção de madeira local à criação dos13 . Ver: Lucas, Oliver W. R., The Design of Forest Landscape, Oxford University Press, Oxford, 1991.14 . Ver: Folch, Ramon, “Valor añadido o valor residual”, La Vanguardia, 13 de junho de 1995.15 . Ver: Boada, Martí, “El bosque no es marginal”, El País, 8 de agosto de 1999.16 . Ver: Hodge, Simon J., Woodlands around Towns, The Forestry Authority, Londres, 1996.
  11. 11. novos materiais que pode produzir-se a partir dos resíduos vegetais; desde as hortasindividuais ao fomento dos alimentos próximos: uns alimentos locais de boa qualidade em umaépoca de globalização sem limites.As infraestruturas verdesA história das infra-estruturas verdes podia começar recordando as plantações em alinhamentocom as estradas, canais e vias públicas na França. Nessas vias, as plantações em alinhamentoressaltam a presença das infra-estruturas: a linearidade e a regularidade geométrica dasestradas e canais se converte em um componente a mais da paisagem que ajudam aestruturar.6. Alinhamento de plátanos em uma estrada.O rei Enrique II foi o primeiro a ordenar, no ano 1552, a plantação sistemática de árvores noscaminhos públicos: “A todos os grandes senhores justiceiros, a todos os camponeses ehabitantes das cidades, povoados e paróquias, que plantem e façam plantar ao longo das viase grandes caminhos públicos importantes muito bons e grandes olmos para que, com o tempo,nosso reino possa estar suficientemente bem plantado”.17As plantações em alinhamento ao longo das infra-estruturas francesas foram se sucedendodurante os séculos seguintes com um triplo objetivo: as possibilidades econômicas decorrentesde uma produção de madeira efetuada em terreno público com grande facilidade de acesso etransporte; a vontade de embelezar as obras públicas realizadas por uns profissionais queconheciam os requerimentos técnicos concretos para construí-las e que, por sua vez, atendiamas pequenas sensibilidades da arte da paisagem; e a ambição política que utilizava as viaspúblicas como meio de afirmação sobre o território do poder do rei e da unidade do país.Depois de uns anos em que se puseram em pesquisas desde um ponto de vista da segurançada via, o governo francês estabeleceu as leis necessárias para garantir a proteção dosarvoredos em alinhamento de suas vias públicas. O novo olhar sobre a paisagem haviaconvertido as plantações em alinhamento em um patrimônio cultural do país.Esta história também poderia começar recordando que a mobilidade se converteu em um dosfenômenos imprescindíveis de nossas vidas e, por conseguinte, da formalização das cidades.Esta mobilidade constitui a base do novo organismo territorial e dos elementos físicos que ogarantem: redes de estradas, estradas de ferro, portos e aeroportos resultam um dos principais17 . Bourgery, Corinne e Castaner, Dominique, Les plantations d’alignement, Institut pour le Développement Forestier, Paris, 1988.
  12. 12. apoios funcionais do sistema econômico. Seus traçados imprescindíveis se caracterizam porser uma das agressões mais intensas ao território e, por sua vez, a transformação que geramaiores expectativas de desenvolvimento do próprio território.A mobilidade é uma das expressões mais claras de nossas metrópoles, e as infra-estruturasque a fazem possível um dos elementos mais característicos das novas paisagensmetropolitanas. As infra-estruturas verdes são a paisagem resultante da correta implantação dacada infra-estrutura que necessitamos; são o equivalente moderno das plantações emalinhamento das estradas francesas antes citadas.7. Corredor de ônibus entre Castell-defels y Cornellà, Barcelona, Espanha, 2009. Batlle i Roig arquitectes.A continuidade das redes de infra-estrutura permite toda uma série de movimentos necessáriospara o bom funcionamento da cidade, mas seus traçados a miúdo esquecem o resto de outrascontinuidades que requer a metrópole. O projeto da infra-estruturas verdes pretende obter asmelhores mobilidades incluindo nesse conceito as mobilidades lentas – pedestres, bicicletas –e as ecológicas.A estratégia habitual para enfrentar os projetos das novas infra-estruturas se concentraexclusivamente na resolução técnica do problema concreto colocado, obviando todas asimplicações urbanas que a infra-estrutura produzirá sobre o território onde se implanta. JoanRoig reclamava uma recuperação da “urbanidade” das obras de infra-estrutura em seu artigo“El puente como espacio público”.18 As infra-estruturas verdes são o resultado da aplicação de uma nova estratégia no momentode resolver os projetos das grandes infra-estruturas em nossos entornos metropolitanos.Primeiro, se tratará de resolver a necessidade inelutável de implantar as grandes infra-estruturas que nossas metrópoles requerem: novas vias de comunicação, aeroportos, portos,grandes estações intermodais, centrais energéticas sustentáveis, espaços da sustentabilidade,etc. Em segundo lugar, se deve partir da evidência de que na maior parte das ocasiões estasinfra-estruturas devem implantar-se sobre uns territórios todavia “vazios”, suscetíveis de serutilizados na organização do que estamos denominando o jardim da metrópole. Em terceirolugar, há que se constatar a coincidência – nem sempre casual, senão devida habitualmente àrazões geográficas de origem – em um mesmo lugar a necessidade de resolver duasproblemáticas a princípio contraditórias: por um lado, a necessidade de traçar uma infra-estrutura e, por outro, a constatação de que aquele lugar é imprescindível para ascontinuidades do novo sistema de espaços livres da metrópole. E, por último, se deve analisaras grandes possibilidades que oferecem os projetos das novas infra-estruturas se sidesenvolvem de forma adequada com a pretensão de resolver as diversas complexidades quea metrópole apresenta. As infra-estruturas podem resolver desde o projeto problemáticas que18 . Roig, Joan, “El puente como espacio público”, Arquitectura, nº 285, Madrid, 1990.
  13. 13. não são só as vinculadas a seu problema básico. As infra-estruturas têm – ou podem chegar ater – uma capacidade de gestão que abarque um território maior que o estritamente utilizadopela infra-estrutura concreta, um território que poderá contribuir para resolver estascomplexidades.A estratégia das infra-estruturas verdes parte, portanto, da oportunidade que apresentam estasoperações para tratar de resolver outras problemáticas da metrópole. Uma estratégia quebuscará o consenso entre infra-estrutura e paisagem; que não se baseará somente nacorreção dos impactos ambientais que toda infra-estrutura produz, mas nas possibilidades quese desprendem de transformar os projetos das infra-estruturas em grandes projetos depaisagem.Se conseguirmos outorgar às infra-estruturas este sentido de projeto de paisagem, poderemosinverter a tendência habitual que elas apresentam como algo necessário e imprescindível, masque destruirá nossas paisagens e que nos causará danos de difícil correção. As grandes infra-estruturas dentro de uma unidade de paisagem que podem ser gestadas desde suas própriasforças e importância, permitirá superar os duvidosos estudos de impacto ambiental dos novosaeroportos, das autopistas, dos novos traçados ferroviários, para passar a pensar napossibilidade de obter umas novas paisagens, construídas e gestadas desde a própria infra-estrutura, mas vinculadas às lógicas do sistema de espaços livres que se intentará consolidar.O parque do aeroporto, os bosques da autopista ou a paisagem do lixão podem converter-seem novos lugares, em novos espaços livres que resolverão as necessidades de implantarnovas infra-estruturas, mas também a de encontrar novas maneiras de criar e gestar nossaspaisagens. Sua finalidade terá sido, como comentam Rossana Vaccarino e Torgen Johnson emseu artigo “Paisajes reciclados”,19 criar entornos sustentáveis capazes de gerar paisagenspróprios, que integrem os usos concretos e criam novos espaços para o ócio.Os jardins temáticosO estrato livre estará composto por várias unidades de paisagem consolidadas a partir dosprojetos de drenagem do território, dos bosques da metrópole e das agriculturas que podemser compatíveis com os entornos urbanos.O estrato livre contribuirá a estruturar os diferentes espaços livres da metrópole, buscando ascontinuidades urbanas e ecológicas e tratando de vincular seu funcionamento à estruturaurbana onde se inserta. O estrato livre também incorporará os entornos das infra-estruturas,paisagens resultantes a enfrentar com o projeto das infra-estruturas verdes, que terão que seresolver no mesmo território disponível que se trata de organizar.O estrato livre requererá uma nova política de planificação que, em lugar de considerar estesespaços como vazios urbanos, os considere cheios de vida natural, agrícola e florestal. Umapolítica de planificação que não os considere tão só como espaços ornamentais, mas comouns espaços básicos para o correto funcionamento da cidade.O território ocupado por este novo modelo de espaços livres se estenderá, por tanto, desde suavocação ecológica e urbana, como um conjunto de espaços naturais ou agro-florestais quecompatibilizarão sua gestão desde a ecologia e a agricultura com o uso como espaços livres danova metrópole. Seu papel como nova geografia da cidade, como reserva ecológica dametrópole, ou como espaço exterior aberto aos cidadãos, passa a ser a chave em suacompreensão e definição. Mas o jardim da metrópole quer ser algo mais na organização dascidades futuras; também é um lugar que pode receber outras temáticas concretas.Os jardins temáticos são espaços do jardim da metrópole que se destinam a um uso concreto,a uma atividade complexa mas compatível com a filosofia desse estrato livre. Os jardins19 . Vaccarino, Rossana e Johnson, Torgen, “Paisajes reciclados: el reciclaje como motor de cambio”, 2G, nº 3 (Landscape Architecture:estratégias para la construcción del paisaje), Barcelona, 1997, p. 137-143.
  14. 14. temáticos estarão destinados ao ócio, aos distintos serviços da cidade ou aos espaços dasustentabilidade que tratarão de resolver as diferentes problemáticas meio-ambientais dametrópole.A vinculação dos jardins temáticos ao conjunto do estrato livre provém de uma triplaconstatação. Primeiro, a necessidade de resolver a situação de muitas atividades cidadãs que,por uma parte, não encontram seu lugar adequado no conjunto dos tecidos urbanos maisconsolidados e que, por outra, poderiam ser compatíveis com estes lugares. Segundo, seavalia a grande quantidade de solo disponível nos interstícios de nossas metrópoles e aimpossibilidade de destiná-los totalmente a espaços naturais ou agro-florestais sem atividadescomplementárias. E, por último, se comprova a possibilidade de que estas novas atividadespodem ser capazes de gestão de um espaço superior ao que requerem e que, por conseguinte,possa definir-se uma unidade de paisagem que inclua a atividade e que se compatibilize com oresto dos espaços livres da metrópole.Os jardins temáticos se definem como uns espaços – grandes ou pequenos, abertos oufechados – dentro do conjunto do jardim da metrópole, e podem destinar-se a usos de muitodiversa índole, mas sempre relacionados com um sistema que se explica desde raciocíniosmais gerais que os próprios da nova atividade proposta.8. Cemintério Lyngby integrado no sistema de parques de Copenhague, Dinamarca, 1967. Plum e Iversen.Os jardins com tema ecológico darão lugar aos espaços da sustentabilidade. A aplicação detodo o tipo de estratégias ecológicas podem contribuir para resolver as problemáticas meio-ambientais, mais também a fomentar novas maneiras de ocupar o território. Em primeiro lugar,produto de todas as estratégias ecológicas, aparecerão os espaços da sustentabilidade,espaços que darão respostas às diferentes problemáticas meio-ambientais de nosso país:depuração das águas, reservas de água, controle da erosão, tratamento de resíduos de todotipo, criação de energias alternativas, recuperação de espaços degradados, conservação dadiversidade da fauna e da flora, integração das grandes infra-estruturas no território, etc. Emsegundo lugar, estes espaços da sustentabilidade serão o resultado do aproveitamento daspossibilidades que se desprendem da solução dos problemas meio-ambientais desde umaperspectiva ecológica, o que motivará novas maneiras de ocupar o território e originará novaspaisagens, evidentemente artificiais – como, por outro lado, quase todas as paisagens queconhecemos –, produto da aplicação das tecnologias disponíveis a uns novos objetivos. Emterceiro lugar, o fomento deste tipo de espaços em nossa paisagem contribuirá à exploraçãoracional dos recursos ecológicos e poderá somar potencial econômico ao potencial meio-ambiental evidente nestas atuações, que se destaca da solução de uns problemas que, poroutra parte, requerem solução, E, por último, os espaços da sustentabilidade, autênticasfábricas de paisagem, serão tanto um equipamento meio-ambiental como um novo tipo deespaço livre, que estabelecerá novas formas de integração na paisagem da nova metrópole.
  15. 15. 9. Parque Central, Sant Cugat del Vallès, Barcelona, Espanha, 1994. Batlle i Roig arquitectes.Os jardins temáticos poderão desenhar-se como um fenômeno de paisagem polivalentequando seja possível compatibilizar a função requerida com algum tipo de paisagem; oupoderão organizar-se através de alguma estrutura complexa que sirva para ordenarconjuntamente os espaços com usos concretos e os espaços livres que se possam contertemas. Os jardins temáticos poderão ser uma pequena edícula para olhar a paisagem ou umadepuradora natural de águas residuais, um conjunto de hortas privadas ou um estacionamento,um viveiro de árvores para a cidade ou um clube de golfe, uma escola primária ou o entorno deuma fábrica, uma área de piquenique ou um desaguadouro sustentável, um cemitério ou umaárea de esportes municipais. Jardins que compreenderão todo um leque de tipologias diversas,desde as follies sobre a paisagem aos pacotes de usos muito concretos, desde edifícios noparque aos espaços da sustentabilidade.O estrato livre, ecológico e agro-florestal se constrói desde as drenagens do território, osbosques da metrópole e as agriculturas urbanas; mas também é um espaço cheio de novossignificados que aceita as novas necessidades da cidade e as transforma no projeto das infra-estruturas verdes e dos diversos jardins temáticos. Uns jardins que voltam a vincular a magiada palavra jardim a qualquer dos modernos temas que a metrópole requer. Um conjuntodiverso de jardins temáticos para um bom jardim da metrópole.O jardim da metrópole“Todas as ações que empreendemos com relação à água, o bosque, o ócio, o fogo, aagricultura... têm um mesmo segundo objetivo: evitar a degradação de nosso entornoimediato”.20Wenche E. Dramstad, James D. Olson e Richard T. T. Forman, Landscape Ecology Principles in LandscapeArchitecture and Land-Use Planning“A principal característica de um sistema de espaços livres é seu desenho como uma série deparques, cada um com seu caráter paisagístico específico e com umas funções recreativasespeciais, ligados por uma cadeia de passeios, caminhos e avenidas, formando um grandeparkway que se estenda desde o coração da cidade até os cenários rurais dos subúrbios”. 21Frederick Law Olmsted“Se trata, definitivamente, de se dar conta de que o verde é nas cidades muito mais que umasimples pincelada decorativa e benigna, que seu correto aproveitamento beneficia âmbitos20 . Dramstad, Wenche E.; Olson, James D. e Forman, Richard T. T., Landscape Ecology Principles in Landscape Architecture and Land-UsePlanning, Harvard University Graduate School of Design, Cambridge (Mass.), 1996.21 . Olmsted, Frederick Law, citado em Fein, Albert, Frederick Law Olmsted, George Braziller, Nova York, 1972.
  16. 16. cidadãos de natureza muito diversa, e que sua gestão é delicada e complexa. Necessário edifícil, o verde urbano é um sinal de mais do que alguns pensam”.22Ramon Folch, Que lo hermoso sea poderosoA Consideração conjunta e inter-relacionada nos âmbitos metropolitanos das matrizesecológicas de Richard T. T. Forman, da reinterpretação contemporânea dos sistemas deparques de Frederick Law Olmsted e dos espaços gerados desde a sustentabilidade comoresposta aos problemas meio-ambientais, constitui o embrião do nascimento do que aquidenominamos jardim da metrópole.A superposição intencional da matriz ecológica metropolitana, do sistema de espaços livresurbanos e dos entornos com valor agregado dá como resultado o jardim da metrópole, umconjunto de espaços que integram os valores ecológicos que já não podemos depreciar, quepotenciam os valores cívicos que nossas cidades requerem e que recolhem todos os valoresagregados que podemos tratar de conseguir em cada intervenção que realizemos sobre oterritório.O Jardim da metrópole pode desenvolver-se em chave de sistema urbano através de umagestão integrada de todos seus espaços e de todas suas implicações. O jardim da metrópolenão é só a soma de todos os retalhos verdes da cidade ou a conseqüência de aplicar nossavontade ornamental sobre os âmbitos urbanos, senão que pretende ser um sistema contínuoque se explica em chave de matriz e que dispõe de personalidade própria. As matrizesecológicas, ordenadas segundo o modelo de Forman através da trilogia patch-corridor-matrix,23são aplicáveis a qualquer território. Os mosaicos que definem cada uma das paisagens queconhecemos são absolutamente diversos, mas suas possibilidades de ser transformados emum sistema ecológico organizado em chave de matriz são sempre muito elevadas. O modeloelaborado por Forman permite analisar qualquer paisagem, mas o modelo interessa,sobretudo, por suas possibilidades de converter-se em uma proposta de ordenação de nossosentornos metropolitanos. Se trata de um modelo com analogias em muitas disciplinas e quepode ser redesenhado em função dos requerimentos que se estabeleçam.As matrizes ecológicas aplicadas aos entornos metropolitanos podem permitir vincular osespaços que ainda conservam algum interesse natural com os espaços degradadossuscetíveis de recuperação, ou aos espaços livres que podem ser obtidos a partir dosprocessos de transformação urbana. As matrizes ecológicas metropolitanas dão valor aespaços abandonados à espera de conhecer seu destino definitivo e nos preparam o territóriopara poder desenvolver um crescimento sustentável aceitável. As matrizes ecológicas fazememergir todas as possibilidades ecológicas de nossos territórios e, ao mesmo tempo, nosajudam a decidir a forma mais adequada de atuar em cada uma das intervenções.Os sistemas de espaços livres urbanos nasceram como desenvolvimento do modelo elaboradopor Olmsted nos primeiros system park.24 Um modelo que estabelecia a superação dosconceitos estabelecidos nos primeiros parques públicos e somava a sua definição inicial umamaior integração urbana, uma cuidada sistematização dos elementos utilizados e uma intençãode classificar os usos oferecidos. Como já se comentou anteriormente, os jardinsdomesticaram a natureza para o ócio, os parques a introduziram nas grandes cidades e ossistemas trataram de organizá-la com o objetivo de conseguir uma melhor ordenação daspaisagens urbanas. Os novos sistemas verdes tratam de conseguir os mesmos objetivos queos sistemas de espaços livres urbanos tradicionais no marco da realidade atual dasmetrópoles. O estabelecimento desses novos sistemas permite vincular os espaços livresurbanos tradicionais no marco da realidade atual das metrópoles. O estabelecimento dessesnovos sistemas permite vincular os espaços livres urbanos da cada pacote urbano – rua,avenida, passeio, praça e parque – aos espaços livres que podem ser obtidos através darevitalização de todos os interstícios metropolitanos.22 . Folch, Ramon, Que lo hermoso sea poderoso, Altaffula. Barcelona, 1990.23 . Ver: Forman, Richard T. T., Land Mosaics. The Ecology of Landscapes and Regions, Cambridge University Press, Cambridge, 1995.24 . Fein, Albert, op. Cit.
  17. 17. A matriz ecológica metropolitana, composta por espaços de interesse natural que podemconservar- se e pelos corredores verdes que podem ser potenciados, pode compatibilizar-secom o sistema de espaços livres urbanos composto pelos espaços públicos de cada pacoteurbano e pelas vias parque que podem ser obtidas em cada nova intervenção sobre o território.Dessa compatibilização nasce um novo sistema que recolhe os valores ecológicos dasmatrizes e os valores cívicos dos espaços públicos, um novo sistema que pretende atendertanto à escala territorial da metrópole como a escala próxima de cada assentamento urbano.Este novo sistema quer ser capaz de aglutinar as velhas idéias dos sistemas de parque deOlmsted e as novas necessidades de nossos entornos metropolitanos. Recupera ascontinuidades que Olmsted explorou em Prospect Park no Brooklin ou no sistema de parquesde Boston, e as complementa com as continuidades que a ecologia valida agora comoindispensáveis.Não obstante, os espaços disponíveis para formar parte desse novo sistema são tambémfrágeis, estão sujeitos a diferentes expectativas que podem fazer que resultem inutilizadoscomo espaços potenciais do jardim da metrópole. Se trata de espaços que se considerampendentes de urbanizar, ou que podem ser o melhor lugar para dispor as novas infra-estruturas. Também é nesses lugares onde a metrópole resolve seus problemas meio-ambientais, ou onde tem que circular as energias que se consome. O jardim da metrópole nãopretende obviar todas essas problemáticas, mas propõe compatibilizá-las no marco de suaimplantação sobre o território. Os entornos com valor agregado são os espaços livres que sepodem gerar desde a resolução de cada problema proposto. Os entornos com valor agregadotratam de compatibilizar a existência do jardim da metrópole com o desenvolvimento de novosassentamentos, o traçado de novas infra-estruturas, a implantação de novos usosmetropolitanos ou a necessidade de espaços destinados a resolver as problemáticas meio-ambientais. Os entornos com valor agregado podem converter-se em novos fenômenos depaisagem que atenderão tanto a Problemática concreta que se esteja resolvendo como oaumento da qualidade dos espaços naturais próximos.Os entornos com valor agregado são novos espaços livres que se destinam a uma temáticaconcreta, mas que não renunciam a obter a melhor qualidade ambiental possível. Os entornoscom valor agregado podem ser novos jardins – os jardins temáticos – que também podemintegrar-se no conjunto do jardim da metrópole. Os entornos com valor agregado são oresultado da boa gestão de um problema, a conseqüência de aceitar os crescimentos urbanosque requer a cidade sem renunciar a ele para obter o maior número possível de espaços livresde qualidade. Os entornos com valor agregado também podem integrar os espaços quedenominamos intra-estruturas verdes, os entornos corretos das infra-estruturas quenecessitamos.Os valores agregados dos jardins temáticos e das infra-estruturas verdes complementam osvalores ecológicos e cívicos da matriz ecológica metropolitana e do sistema de espaços livresurbanos. O conjunto de todos eles compõem este novo estrato que denominamos o jardim dametrópole.A sociedade atual magnífica duas situações contrapostas: os espaços naturais protegidos e acidade compacta bem urbanizada. Entre esses dois mundos, o jardim da metrópole trata deestabelecer um modelo que permita ordenar corretamente a cidade e seus espaços livres.Para consegui-lo, o jardim da metrópole aceita que é resultado da confrontação entre estasduas situações e que, portanto, não só têm que se defender os parques naturais ou as cidadesacabadas, mas que se deve trabalhar nos territórios de fronteira entre ambos, para dar lugar anovos espaços que assumam seu papel de lugares de transição. O futuro do jardim dametrópole se determina a partir de um bom desenho desta confrontação, o que aquidenominamos limites complexos. Os limites complexos são também o resultado de umavalorização especial do espacio intermédio, do que se encontra entre o espaço livre e o
  18. 18. construído, entre o jardim da metrópole e a cidade consolidada. Uns bons limites complexosservem para melhorar as condições dos elementos que separam e unem.Um espaço intermediário que em lugar de buscar a confusão entre as diferentes partes dacidade nos pode ajudar a encontrar a identidade positiva de cada uma delas, e que, tal comexpressou o paisagista Gustav Lange, pode ser o elemento mais expressivo do conjunto: “Apoesia se cria com a distância entre os elementos”.25A valorização da distância entre os elementos nas periferias metropolitanas permite potenciaros vazios como elementos interessantes que definem a separação justa entre as diferentespartes da cidade. Bernardo Secchi fala do conceito da “distância justa”26 e Manuel de Sola-Morales de “distância interessante”27 para intentar definir a regularização deste novocomponente físico das cidades.10. Par Central, Sant Cugat del Vallès, Barcelona, Espanha, 1994. Batlle i Roig arquitectes.Na construção do jardim da metrópole, a distância interessante nos ajudará a definir asrelações justas entre a cidade construída e uns vazios urbanos que já haverão encontrado suaidentidade. A vontade de estabelecer claramente a identidade destes vazios urbanos atravésde idéias, como as do estrato livre, é uma das diferenças principais entre este trabalho e aspropostas dos autores que defendem conservá-los, mas que consideram que se trata de umterritório que não requer nenhum tipo de desenho. Desde os setores ecologistas se promove aconservação destes vazios como espaços necessários para poder conservar os sistemasnaturais dentro da metrópole, enquanto que desde os setores do planejamento urbanísticotambém se promove sua conservação como espaços de defesa do crescimento urbano e comoespaços de reserva para atividades urbanas futuras. O jardim da metrópole quer ser oelemento que encontre o equilíbrio entre as distintas propostas, recolhendo as melhoresvirtudes de cada uma e tratando de resolver as confrontações sem evitá-las.Talvez o destino final do que estamos tratando de definir se resuma na busca de um modelopara desenhar o território metropolitano compreensível e coerente no qual nossa sociedadepossa ver-se representada de alguma maneira. Bernardo Secchi p resume brilhantemente comas palavras seguintes: “Nos dizem depois que também é importante interconectá-los com unscorredores porque assim as diferentes espécies, botânicas e animais, podem emigrar de umlugar a outro, e que estas migrações aumentam a biodiversidade. Aumentam a diversidade dasespécies que se acham presentes em cada uma dessas áreas, espécies botânicas e animais.E um aumento da biodiversidade redunda em um aumento da capacidade de resistência dosistema ecológico para enfrentar-se com toda a artificialidade que nós introduzimos, Eu não seisi é certo ou não... A mim me agrada o tema; as migrações mesclam as espécies, aumentam abiodiversidade, aumentam a capacidade de resistência... Me agrada porque me parece umagrande metáfora social. Se nós nos mesclamos , nos fazemos mais fortes todos... Mas sobre o25 . De um artigo de Gustav Lange na Bienal de Paisagem de Barcelona, março de 2001.26 . De uma conferência de Bernardo Secchi proferida no curso “Planejamento urbanístico em controvérsia” no Centro de CulturaContemporânea de Barcelona (CCCB), julho de 2001.27
  19. 19. que quero chamar a atenção é sobre isso; eu falei de ponto, de linha e superfície. Começam aconverter-se em uma linguagem minha, de arquiteto, de pessoa que projeta um território.Começo a ver coisas que sei como manejar, materiais com os quais trabalhar na construção deum projeto. Todos nossos projetos são composições feitas a base desses elementos. É esse oaspecto que me interessa. Não usar o sistema ambiental só para conter a expansão urbana oupara conter o consumo do solo da cidade, senão utilizá-lo ademais para dar um desenho aoterritório onde se reconheça, talvez, seu último sentido. Talvez, na cidade decimonônica nósconseguimos sentirmo-nos em casa porque encontramos uma cidade feita de ruas, decalçadas, de pontos, de monumentos que restituíam a seu ponto justo a ordem urbana, e eraisso precisamente o que a cidade decimonônica pretendia. Talvez a sociedade da primeiraparte do nosso século, um pouco enamorada de todo o maquinismo, de todas as grandesobras de engenharia, se reconhecia a si mesma nos grandes sistemas infra-estruturais. Talvezhoje nós não podemos usar estes elementos para compreender a forma da cidade, que pelocontrário cresce, se dispersa e se confunde por todas as partes, convertendo-se em umamálgama de objetos muito heterogêneos. Mas podemos, pelo contrário, usar uma corretaprojeção do sistema ambiental, ponto, linha e superfície do sistema ambiental, para conseguirdesenhar o território. Com um desenho compreensível, coerente, um desenho no qual nossasociedade, de alguma forma, consiga sentir-se representada”.28A matriz ecológica metropolitanaA sustentabilidade e a biodiversidade formarão parte dos mitos desse novo século. Pese aambiguidade da definição e a multiplicidade de interpretação que oferecem, são conceitos quecomeçam a estar presentes em cada uma de nossas atividades. A matriz ecológicametropolitana é o resultado do emprego de ditos conceitos no desenvolvimento territorial dascidades. Como o define Manlio Vendittelli, a sustentabilidade está deixando de ser umaquimera para ser um paradigma, e idéias como matriz ecológica metropolitana talvez possamconverter-se em um novo paradigma da ordenação territorial metropolitana.29Patches e corridors Trampolins Matriz11. Matrizes ecológicas. Wenche E. Dramstad, James D. Olson e Richard T. T. Forman.A idéia de matriz ecológica metropolitana parte da aplicação dos princípios do landscapeacology sobre nossos entornos metropolitanos. Os teóricos da landscape ecology, comoWenche E. Dramstad, James D. Olson e Richard T. T. Forman,30 desenvolvem o modelo patch-corridor-matrix desde a perspectiva de que todos os mosaicos estão compostos pelacombinação desses três tipos de elementos espaciais. O estudo e a análise das diferentescaracterísticas desses espaços lhes permite chegar a um melhor conhecimento da paisagem,com o objetivo de poder ajudar a desenhar ordenações territoriais mais corretas e conseguirdefinir as correlações necessárias para um melhor funcionamento dos sistemas ecológicos.A idéia que tratamos de desenvolver aqui complementa este enfoque desde a perspectivaurbana de nossas cidades. A matriz ecológica metropolitana é o resultado de desenvolver omodelo patch-corridor-matrix a partir das possibilidades que nos oferece a atual situação denossas metrópoles. Os patches (unidades de paisagem) são os espaços de interesse naturalexistentes ou possíveis que podemos encontrar em nosso território. Os corridors (corredores)são os elementos que nos permitem obter a conectividade ecológica entre os diferentesespaços de interesse natural. As matrix (matrizes) são a malha ou estrutura ecológica que28 . Secchi, Bernardo “La práctica actual de la proyetación territorial” (conferência proferida no Máster de Projetação Urbanística da UniversitatPolitécnica de Catalunya), em Eizaguirre, Xabier (ed.), La construcción del território disperso, Edicions UPC, Barcelona, 2001.29 . Vendittelli, Manlio, La sostenibilità da chimera a paradigma, Franco Angeli, Milán, 2000.30 . Dramstad, Wench E.; Olson, James
  20. 20. explica a forma e o funcionamento de um mosaico. A matriz ecológica metropolitana é osistema composto pelos diversos espaços de interesse natural que podemos potenciar e pordiferentes corredores verdes que podemos estabelecer.As análises da ladscape ecology estudam os atributos específicos de cada um desseselementos para estabelecer a linguagem a utilizar em sua classificação. Falam, por exemplo,de patches grandes ou pequenos, alargados ou redondos, irregulares ou suaves... Oscorredores podem ser largos ou estreitos, com muita ou pouca conectividade, e podem formarmeandros ou ser retilíneos. As matrizes podem ser extensivas ou limitadas, contínuas ouperfuradas, variadas ou homogêneas.Na nossa perspectiva, a aplicação desses princípios aos entornos metropolitanos não só temque trabalhar com os espaços que contam com uma alta valorização ecológica, mas quetambém há de incluir todos aqueles que podem se recuperar ou se potenciar, igualmente comotodos aqueles lugares que se podem criar de novo a partir de cada uma das intervenções quese realizam. Também se estabelece a necessidade de assimilar estes espaços desde todas asescalas de trabalho, incorporando tanto os grandes espaços de interesse natural já protegidoscomo os pequenos lugares que podem oferecer alguma valorização ecológica, por pequenaque seja.Os espaços de interesse natural (patches) foram os primeiros lugares sobre os quais secentrou o interesse dos ecologistas, uns espaços que podem ser delimitados e se associar auma ilha natural no meio de território. Muitos deles são objeto de algum tipo de proteção, quedá lugar às normas que hão de tornar possível sua conservação. Suas características e adistribuição sobre o território determinam os benefícios ecológicos que podemos obter.Sem dúvida, uma leitura mais cuidadosa do território mostra que os espaços de interessenatural existentes ou possíveis são muito mais numerosos que os protegidos ou em processode conservação. Uma análise mais detalhada dos territórios pode oferecer muito mais unidadesde paisagem que contribuam a desenhar uma distribuição ecológica mais homogênea. Assimmesmo, uma maior confiança nas possibilidades de intervenção sobre o território abre asportas à criação de novos espaços naturais que complementam os existentes e os potenciais.Os benefícios ecológicos que nos oferece a combinação dos espaços de interesse natural –existentes, recuperados ou criados ex novo – distribuídos adequadamente pelo território,permite estabelecer novos critérios para determinar que modelos de ordenação territorial sãomais coerentes.O estudo dos corredores tem ajudado a entender melhor determinados ecossistemas, e seconverteu em um fator chave na hora de pensar nas possíveis aplicações urbanas das teoriasda ecologia da paisagem. Os corredores ecológicos ou corredores verdes existentes permitema conectividade entre os diferentes espaços de interesse natural e mostram as enormespossibilidades que podem ser obtidas graças a eles.As funções dos corredores verdes são reguladas por duas características básicas: sua largurae conectividade. No marco das situações metropolitanas, a conectividade ecológica sofrehabitualmente muitas interrupções devido às infra-estruturas, nas novas implantações ou naspossibilidades físicas reais de estabelecer um novo corredor. O vento facilita determinadosmovimentos de espécies se a distribuição de espaços de interesse natural os colocasuficientemente próximos uns dos outros, mas não garante a continuidade física requerida. Ossistemas de drenagem do território são os corredores mais estáveis e contínuos, e os que têmuma maior capacidade de recuperação ainda que totalmente degradados.31As unidades de paisagem e os corredores conformam as matrizes cuja saúde ecológica semede pela capacidade de comunicação e conectividade dos sistemas naturais existentes. Asmatrizes com vários circuitos oferecem uma conectividade de melhor qualidade ecológica e31 . Ver: Saunders, Denis A. E Hobbs, Richard J., The Role of Corridors, Surrey Beatty & Sons, Chipping Borton, 1991.
  21. 21. permitem pensar em rotas alternativas para os diferentes movimentos de espécies. A escala eo tamanho da rede que defina a matriz determinarão a efetividade e as possibilidades deconservá-la e melhorá-la. As interseções entre diferentes corredores ou os pontos nos quaisum corredor conecta-se com uma unidade de paisagem se converterão em lugares suscetíveisde conservação, com o fim de manter o equilíbrio ecológico da matriz.Os limites dos diferentes espaços que compõem uma matriz ecológica definem suaformalização física e garantem a efetividade de seus conteúdos; são os espaços mais frágeisde uma matriz, mas também os que podem ser manipulados com maior facilidade paramelhorar as condições ecológicas de um sistema. A forma dos limites e o tamanho dosespaços de transição determinam indiretamente as influências que se estabelecerão entreambos sistemas contrapostos: a matriz ecológica e a cidade construída.A simplicidade formal que adotam os esquemas gráficos das complexas decisões ecológicastenderá a adaptar-se aos difíceis territórios metropolitanos através de um trabalho muito maisdetalhado que considere as múltiplas peculiaridades destes lugares. A matriz ecológicametropolitana deverá construir-se a partir de espaços de tipologias muito diversas, algumasdas quais talvez não apresentem a qualidade ecológica desejada desde uma perspectivacientífica, mas que não tenderíamos a depreciar porque contribuem a construir o mínimosistema possível.A matriz ecológica metropolitana não poderá ser só uma operação de conservação de espaçosde interesse natural, mas uma operação de projeto urbano que tenha em conta os princípiosbásicos que se tenha estabelecido. A potenciação de uma matriz ecológica em um entornometropolitano supõe a ativação de sistemas naturais capazes por si mesmo de melhorar aqualidade ambiental do conjunto e, por conseguinte, talvez consigam a transformação deespaços degradados em uns que queremos conservar.Uns sistemas naturais emergentes que contribuirão para a construção de uma matriz ecológicametropolitana cada vez mais eficiente.A matriz ecológica metropolitana poderá integrar em seu conjunto espaços de usos muitodiversos, como os espaços agrícolas compatíveis com os espaços livres e esportivos de altovalor natural. Os entornos metropolitanos não podem renunciar ao duplo interesse destes tiposde espaço, posto que se trata de lugares destinados a uma atividade concreta – agricultura,ócio, esporte, etc. – que, simultaneamente, nos podem oferecer um valor natural totalmentecompatível com os princípios ecológicos da matriz.A construção da cidade requererá uma multiplicidade de atuações que muitas vezes colocarãoem crise determinados lugares da matriz ecológica. Em ocasiões, a matriz não será efetivadevido a intervenções mal planejadas ou a desenvolvimento de ordenações que ignorem ditosprincípios. Em outras, alguns destes pontos terão uma grande importância estratégica paraconseguir que o sistema ecológico funcione. Estes pontos estratégicos podem ser objeto deuma atenção especial que os converta em lugares a resolver. São o que Richard T. T. Formandenomina military points (pontos militares),32 um elo débil da cadeia, o lugar imprescindível semo qual o sistema pode carecer de sentido. Sem esses pontos, o sistema se dilui, mas umaresolução brilhante pode conseguir convertê-los na porta do sistema, em um de seus pontos demáxima tensão e expressão. Um de nossos máximos objetivos será conseguir que aconstrução da cidade seja compatível com a potenciação da matriz. Desta compatibilizaçãopodem nascer muitos territórios de projeto, pontos estratégicos que validarão a qualidade e avigência de ambos sistemas.Para aproximarmo-nos do papel que podem desenvolver as matrizes ecológicas no contextometropolitano, podemos analisar as propostas de anéis verdes das cidades espanholas deVitória e Barcelona. As propostas têm a pretensão de superar o simples desenho que agrupa32 . Forman, Richard T. T., Land Mosaics,op.cit.
  22. 22. diferentes espaços de interesse natural que tiveram a sorte de receber algum tipo de proteçãolegal, para iniciar a análise de suas vantagens como embrião da possível matriz ecológicametropolitana. No caso de Vitória, o anel está consolidado em grande parte, e serviu deinstrumento para impulsionar novos projetos, como os caminhos urbanos entre o centro e aperiferia. No caso de Barcelona, o anel é a simplificação de um projeto mais ambicioso quetrata de definir a matriz ecológica metropolitana de Barcelona.12. Matriz ecológica metropolitana de Barcelona, Espanha.Desenho da possível matriz ecológica metropolitana de Barcelona, a partir da superposição dos espaços que compõem o anelverde de Barcelona, do conjunto das drenagens do território, os diversos corredores verdes, os diversos espaços agrários quepodem ser potenciados e de alguns entornos com valor agregado que poderiam ser incorporados.As propostas formulam critérios que são válidos para todas as escalas de trabalho, desde aterritorial, que nos permite sonhar com os anéis verdes na escala de projeto urbano paraconstruir uma pequena, mas importante, aproximação ao conjunto do jardim da metrópole. Eassim se poderia continuar desenhando, ou planejando, com a mesma ilusão e os mesmoscritérios, em todas as escalas, até chegar ao último detalhe ecológico, ao último detalhe cívico,ao último detalhe acrescentado, e sempre com todos os valores estéticos possíveis.13. Zonas húmidas de Salburua, anel verde de Vitória, Espanha.O sistema de espaços livres urbanosOs espaços livres urbanos da metrópole atual seguem sendo a rua, a avenida, as calçadas, apraça e o parque de cada unidade urbana. Sem dúvida, as distintas ocupações dos interstíciosmetropolitanos também oferecem outros espaços livres, que muitas vezes têm outros índicesde utilização mais elevados que alguns espaços urbanos tradicionais. Os espaços livres docentro de ócio, do centro comercial, do aeroporto, do recinto universitário, do centroempresarial, de algum complexo industrial privado, de alguma instalação esportiva são tambémespaços livres urbanos que, em geral, respondem exclusivamente ao programa concreto doagente que os faz possível.Entre as unidades urbanos com espaços livres urbanos tradicionais e os interstíciosmetropolitanos cheios de novas ocupações – os novos espaços livres urbanos –, fica o terrainvague metropolitano, com todo sua desordem formal mas com toda sua riqueza naturalpotencial. O aproveitamento destes territórios de fronteira permite completar e enriquecerambas situações: a dos espaços livres urbanos de cada unidade urbana, que habitualmente sedesenvolve no limite entre a cidade compacta e algum espaço natural degradado, e a dos
  23. 23. novos espaços livres urbanos, que, por definição, já se desenvolvem sobre lugares com muitaspotencialidades, frequentemente esquecidas.14. Sistema de parques de Barcelona, Espanha, 1926. Nicolau Maria Rubió i Tudurí.A idéia de organizar os espaços livres da cidade e de tratar de vinculá-los aos espaços naturaispróximos tem sido considerada reiteradamente ao longo da história. Em 1926, Nicolau MariaRubió i Tudurí o apresentava assim: “As ‘reservas de paisagem’ são extensões consideráveisde campo, ou de bosque, que as grandes cidades adquirem, em lugares pitorescos, às vezesnos limites municipais vizinhos, com o objetivo de prever o desenvolvimento futuro dapopulação e de garantir aos cidadãos o gozo da paisagem que rodeia a cidade. Se aumenta aeficácia destes espaços livres unindo-os, no possível, por meio de avenidas-jardim quepermitam aos passeantes transladar-se de uns a outros sem ter que passar pelo tumulto dotráfego. Ademais, convém que os parques suburbanos formem uma cintura e que os parquesexteriores se introduzam às vezes até ela, em forma de cunhas de paisagem cravadas nacidade. Uma melhor circulação do ar puro e uma aparência de maior proximidade do campolivre são as consequências benéficas desse sistema”.33A recuperação da idéia de sistema de parques aplicada às metrópoles atuais permite recuperaro conceito de conexão entre os diferentes espaços livres, aproveitando as possibilidades queoferece a situação urbana antes enunciada. A metrópole atual se estende desde a rede deinfra-estrutura que a conecta, e só começa a ser uma cidade eficiente quando esta galáxia decomunicações é suficientemente completa. A idéia de que as redes de ruas, de autopistas, deenergia, de telecomunicações e de transporte público tem que ser completas, é uma demandaaceita que só atrasa a negligência das Administrações. A idéia de uma rede de conexõesverdes para pedestres, bicicletas, etc., só é um sonho embrionário que frequentemente sereivindica, mas que na maior parte das vezes se destrói.15. Passeio da margem do rio Arianzón, Burgos, Espanha.33 . Rubió i Tudurí, Nicolau Maria, El problema de los espacios libres. Divulgación de su teoria y notas para su solución práctica, Ayuntamentode Barcelona, Barcelona, 1926.
  24. 24. As conexões verdes através de vias parques permitem conectar os espaços livres urbanostradicionais de um unidade urbana com outro, ou com um espaço livre de nova geração. Asconexões verdes também permitem a conexão com os espaços naturais que compõem amatriz ecológica, e estabelecem assim uma rede continua de caminhos que complementaria oresto das redes de comunicações imprescindíveis para a metrópole.Os novos sistemas verdes se constroem desde a idéia da recuperação das conectividadesperdidas, mas também abre a base que pode estabelecer cada um dos novos espaços livres.Estes novos espaços livres – margem de cidade compacta ou interstício metropolitano – nãopodem ser desenhados exclusivamente desde o programa local que os possibilita, mas devemrecolher e assumir o papel que lhes corresponda dentro de um suposto sistema ideal. Estesespaços livres poderão formar parte de uma sucessão de espaços que tratem de estabeleceralguma conectividade ou ser imprescindíveis para recuperar algum lugar natural degradado.Estes novos parques também poderão vincular-se aos sistemas naturais que todavia seencontrem no lugar ou aos novos sistemas naturais que se estabeleçam para fazer emergir osvalores ecológicos que antes se havia anulado.Um sistema de espaços livres urbanos que se explicará desde essa dupla perspectiva, a deuns espaços que se organizam como um sistema como meio de consolidar as conectividades,e uns espaços construídos a partir de uns sistemas naturais potenciados ou recuperados.Manlio Vendittelli o explica como uma contraposição ao modelo de parque tradicional, que seentende como uma ilha de felicidade em meio de um mar de insustentabilidade, e nos solicitaesta dupla idéia: a de parque como sistema natural e a de sistema de parques comoinstrumento de conectividade.34A consolidação deste novo sistema de espaços livres requer a realização de múltiplasconexões e uniões verdes entre os diferentes âmbitos da cidade e entre os diferentes espaçoslivres existentes. As uniões verdes são uma nova versão das vias parque dos velhos systempark de Frederick Law Olmsted, umas uniões que promovem o passeio, que apresentam umelevado interesse metropolitano porque permitem a comunicação dos cidadãos com todos osespaços livres disponíveis, porque estabelecem uma rede que oferece a possibilidade deeleger e alargar os caminhos. Nos arredores de Paris se consolidou uma importante rede deliaisons vertes que oferece aos cidadãos uns percursos de qualidade e uma melhoria ambientalevidente.35As uniões verdes são compatíveis com a revitalização das vias locais como elementos quepermitem estruturar as tramas urbanas dispersas pelo território. Todo espaço não construídopermite uniões urbanas e pode ser o apoio de uma união verde. É importante analisar a grandequantidade de espaços livres infra-utilizados ou marginalizados como espaços residuais,situados em áreas densamente povoadas. Estes espaços também são suscetíveis de construirboas uniões verdes, e muitas vezes constituem as últimas possibilidades que ficam paraestabelecer percursos entre as partes construídas e os espaços naturais. As margens dasestradas, autopistas, vias férreas e outras infra-estruturas ; os traçados de infra-estruturasobsoletas, margens de rios e riachos, grandes equipamentos esportivos ou educativos compercursos interiores fechados ao público, praias, etc.,são só alguns exemplos de espaços quepodem permitir a continuidade desejada. Nos Estados Unidos, este tipo de espaço público é omais solicitado pelos cidadãos, tal como explica Arturo Soria em seu artigo “O passo seguinte”,onde analisa a política de criação das greenways (vias verdes) que permitem aos cidadãos sairda cidade a pé, a cavalo ou de bicicleta, quer dizer, sem necessidade de recorrer aoautomóvel.36As dimensões de uma união verde como passeio são variáveis e dependerão sempre dasdisponibilidades físicas ou das previsões urbanísticas. Uma união verde pode reduzir-se a um34 . Ver: Vendittelli, Manlio, op. Cit.35 . Ver: Liaisons vertes em milieu urbain, Institut d’Aménegement et d’Urbanisme de La Région d’Ile-de-France, Paris, 1987.36 . Soria, Arturo, “El paso siguiente”, em AA VV, La reconquista de Europa, Espacio público urbano 1980-1999, Centre de CulturaContemporânea de Barcelona (CCCB), Barcelona, 1999.
  25. 25. passeio de cinco metros de largura ao longo de algumas centenas de metros, ou podeconverter-se em um autêntico corredor verde de largura suficiente e uns poucos quilômetros decomprimento. Não há regras estritas, mas os espaços de mais de trinta metros de largura quegarantissem a continuidade ao longo do território começam a constituir umas vias eficientes.As uniões verdes se entenderão basicamente como espaços arborizados que também poderãoexercer funções de drenagem das águas da cidade. Será essencial a continuidade dospercursos para pedestres e bicicletas, e, portanto, a boa resolução de todos os cruzamentoscom o resto das infra-estruturas. As uniões verdes poderão ser simples passeios urbanos ouaproximarem-se ao conceito de corredor ecológico, garantindo assim as continuidadesnaturais. A reconversão desses espaços em drenagens vistos da cidade permite aproveitar aágua da chuva para criar espaços úmidos que passarão a formar parte do sistema de parquese do próprio sistema natural. As uniões verdes são uma peça a mais do sistema de percursosurbanos das cidades.Para ilustrar as possibilidades destes sistemas no marco dos entornos urbanos catalães,podemos empregar dois exemplos realizados desde a órbita municipal, mas que são uma boacontribuição para complementar a matriz ecológica metropolitana: o sistema de parques deSant Cugat del Vallès e o corredor urbano do canal de Sant Climent em Viladecans.16. Parc del Monestir, sistema de parques de Sant Cugat del Vallès, Barcelona, Espanha, 1996. Batlle i Roig arquitectes.Ambos casos são propostas que intentam estabelecer um sistema de parques no interior dacidade aproveitando os vazios que a própria cidade gerou na ocupação do território. Estesvazios (talvegues em ambos casos) se converteram em novos espaços livres da cidade e dãolugar a umas continuidades para o pedestre antes inimagináveis. Estes sistemas de parques seconverteram no melhor plano de ordenação para empreender o futuro desenvolvimento deditas populações, e oferecem três vantagens claras: em primeiro lugar, se obtém muitosespaços livres para a cidade e se conservam os valores naturais do território original: emsegundo, se permite o crescimento controlado da cidade com novos bairros que completam ocontínuo urbano prévio e definem a forma perimetral do sistema de parques; e, por último, seconsegue uma sequência de espaços que conectam o interior da cidade com os espaçosnaturais próximos. A vinculação entre os novos crescimentos urbanos e o estabelecimento dossistemas de espaços livres apresenta outra vantagem evidente porque possibilita ofinanciamento conjunto de todo o âmbito.No caso de Sant Cugat del Vallès, o embrião do sistema de parques permite um passeio que,por um parte, leva desde o centro da cidadeaté o parque agrícola de Torrenegra e o parque deCollserola e, por outra, até Sant Llorenç del Munt, através do hipotético corredor verde deVallès. Vários espaços livres procedentes de operações urbanísticas independentes acabamformalizando um sistema de parques face a inexistência de um plano municipal a respeito.Espaços de tipologias diferentes acabam encontrando a unidade na continuidade davegetação, até conseguir a unificação de um vale agrícola reconvertido em parque, os espaçoslivres de um novo bairro e o parque que acompanha um talvegue.
  26. 26. 17. Parc de La Marina, sistema de parques de Sant Climent, Viladecans, Barcelona, Espanha, 2008. Batlle i Roig arquitectes.Em Viladecans, os espaços livres gerados em torno do de Sant Climent permitem estabelecerum percurso entre o mar e a montanha que corta e une, simultaneamente, todo o município.Por um lado, se vinculam ao sistema do parque natural de Garraf e, por outro, para o mar, sepõem em contato com o parque agrário do Llobregat e os espaços naturais do desta do rioLlobregat. O impulso municipal de recuperação do talvegue de Sant Climent se converte emum plano marcante que ordena todas as intervenções ao longo de seu curso. Um parque quese desenha desde a lógica dos sistemas naturais dos talvegues e que consegue desenhar umsistema de parques que atravessa toda a cidade; que aproveita todos os espaços que encontrapara converter-se em uma união verde entre a montanha e o mar. Em ambos exemplos, oplanejamento geral não previa estas opções, e os planejamentos parciais optaram por unsespaços livres desagregados e relacionados a partir de unas lógicas mais urbanas. O resultadoé uma mostra da capacidade que têm estas idéias de ser transformadas em realidademantendo todos os demais parâmetros urbanísticos. Ambos os sistemas de parques foramfinanciados pela iniciativa privada, mas com o controle municipal que supervisionava aexecução.Os entornos com valor agregadoOs entornos com valor agregado são o resultado do melhor estudo de impacto ambiental quepodemos elaborar sobre as intervenções no território. São o resultado positivo de uma boainteração entre o programa concreto a implantar e as capacidades naturais da paisagem que osuportará. São um espaço livre que pode completar os conjuntos da matriz ecológicametropolitana e do sistema de espaços livres urbanos, para dar lugar ao jardim da metrópole.Estes entornos podem ser um valor agregado à intervenção concreta que se está realizando.Habitualmente, se considera que este tipo de intervenção sempre é nocivo para a paisagemque a suporta e que, por conseguinte, cabe determinar o impacto ambiental que produz para,mais tarde, poder praticar as correções necessárias.Em seu livro Que lo hermoso sea poderoso, Ramon Folch comenta: “O último episódio desseprocesso começa quando a obra civil se está terminando, se bem que pode continuar longotempo depois de que esta esteja terminada: é a restauração de todas as feridas causadas. Setrata de fixar taludes, de regenerar zonas afetadas por armazenamentos e instalaçõestemporárias, de construir passagens para animais que efetuam deslocamentos através dolugar, etc. Este processo se reduz demasiado frequentemente a uma jardinagem decircunstâncias que pouco tem a ver com uma verdadeira restauração global e que, ademais,sai ser cara de implantação e caríssima de manutenção: se destruiu desnecessariamente oque já havia e não custava nada, e se colocou o que não existia, vive mal e custa muito”.37Sem dúvida, os entornos com valor agregado aspiram ser algo mais que umas correçõesambientais bem realizadas: querem ter sentido por si mesmos, converter-se em um fatopaisagístico superior à intervenção concreta realizada. Se trata de atuar com energia com os37 . Folch, Ramon, Que lo hermoso sea poderoso, op. Cit.
  27. 27. materiais próprios da paisagem, evitando o desastre e desenhando a natureza com a confiançade que se está buscando um mundo melhor. Lewis Munford o explicava assim na introdução dofamoso livro de Ian L. McHarg: “Ainda que se apresenta como uma chamada à ação, não estádestinado aos que crêem nos programas intensivos ou nas soluções imediatas, senão melhor,o que nos oferece é um fresco caminho de pedrinhas sobre a paisagem já existente. Nessaobra encontramos os cimentos de uma civilização que, sem dúvida, recolocará um mundocontaminado, de terrenos maltratados pelos grandes deslocamentos de terra, dominado pelasmáquinas, desumanizado, ameaçado por explosões e que,nesses momentos, está sedesintegrando e desaparecendo ante nossos olhos. Ao apresentarmos esta impactante visãoda exuberância dos elementos orgânicos e do deleite humano que a ecologia e o desenhoecológico prometem desentranhar, McHarg reaviva a confiança em um mundo melhor”.38Como sugere McHarg,39 da correta relação entre as intervenções e a natureza devem surgirestes valores agregados desejados. Os valores agregados destas intervenções poderiam seros espaços livres que permitam efetuar uma integração correta do objeto correspondente nomarco do projeto de paisagem daquele lugar. Estes espaços livres poderiam ser o entornoadequado para a correção necessária do impacto que se produz, ou o resultado de aproveitar aintervenção prevista como se si tratasse de um espaço livre.Em ambos casos, se trata de considerar o conjunto como uma só unidade de paisagem queagrupa a intervenção concreta e seu entorno. Esta unidade tenderia à gestão simultânea daintervenção e do entorno, de maneira que um e outro fossem elementos inseparáveis. Osentornos com valor agregado seriam os espaços livres dessas intervenções, mas também serelacionariam com o sistema global de espaços livres metropolitanos, cumprindo funçõescívicas e ecológicas que complementam o conjunto. O projeto das infra-estruturas e dosequipamentos necessários para obter ditos valores agregados dá lugar ao que antes temosdenominado de infra-estruturas verdes,uns híbridos de programas concretos e paisagem, umanova tipologia do espaço livre. As infra-estruturas verdes são os entornos com valor agregadoque podem complementar o conjunto formado pela matriz ecológica metropolitana e o sistemade espaços livres urbanos.O Parc del Nus de La Trinitat e o Par del Tramvia, situados na envoltória de Barcelona,são doisexemplos das dificuldades intrínsecas da transformação das infra-estruturas em infra-estruturasverdes, dois exemplos onde o projeto dos entornos das infra-estruturas consegue corrigir ascarências iniciais do projeto da própria infra-estrutura. O Parc del Nus de La Trinitat solta umparque no interior de um grande nó viário, enquanto que o Parc del Tramvia trata de conseguiruma nova paisagem sobre o traçado coberto de uma autopista.O Parc del Nus de La Trinitat é o entorno de uma infra-estrutura e uma paisagem em simesmo, o resultado de um bom estudo de impacto ambiental da complexa infra-estrutura quedeveria executar-se. Sem dúvida, o parque é o resultado de um projeto de paisagem que buscareferências mais globais, com o objetivo de superar a complexidade do problemas e com apretensão de obter um parque público para os bairros próximos. O parque é uma paisagemconstruída desde a topografia e a agricultura, mas também é uma estrutura complexa que tema pretensão de organizar-se como um espaço livre em meio ao nó viário. A solução adotadatrata de vincular este lugar com um suposto sistema geral de espaços exteriores, através dacontinuidade das diferentes fileiras de árvores que entram na cidade acompanhando asdiferentes autopistas. O parque é uma infra-estrutura verde e o resultado de enfrentar o projetode um difícil ponto de conflito.O Parc del Tramvia ocupa os espaços que o planejamento havia reservado para a passagemde uma autopista. No momento da execução desta infra-estrutura, as insistentes reivindicaçõesmunicipais conseguiram que a autopista fosse construída de forma semi-enterrada, o quepossibilitou a construção de um parque nos terrenos que ficaram liberados. O parque ocupa38 . McHarg, Ian, op.cit.39 . IBID.
  28. 28. uns espaços desconexos e muito mal relacionados com os tecidos urbanos próximos, e tratade converter-se em um elemento de conectividade urbana entre as diferentes partes,transformando o lugar em um bosque metropolitano que poderia rastrear todo o traçado daautopista. O resultado final é um percurso verde que permite as conexões entre doismunicípios e um bosque metropolitano que pose ir-se ampliando: um entorno de uma infra-estrutura com uns valores agregados que os municípios podem seguir consolidando.18. Parc del Nus de La Trinitat, Barcelona, Espanha, 1993. Batlle i Roig arquitectes.19. Parc del Tranvia, Tiana-Montgat, Barcelona, Espanha, 2001. Batlle i Roig arquitectes.Ambos projetos põem de manifesto as possibilidades das infraestruturas para levar espaçoslivres aos entornos urbanos que atravessam. As soluções adotadas só mostram uma parte dasimensas possibilidades que poderiam se apresentar se si pudessem projetar as grandes infra-estruturas desde a ótica das infra-estruturas verdes. O projeto conjunto das infra-estruturas ede seus entornos urbanos pode oferecer muitos valores agregados à cidade e ajudar aconsolidar o sistema do jardim da metrópole.Os limites complexosBoa parte dos espaços que podem conformar o jardim da metrópole são frágeis, degradados esuscetíveis de ser utilizados para outros usos. Poderiam potenciar-se com valores ecológicos eagrícolas, mas a indefinição dos limites e a falta de concreção urbanística os converte emespaços de reserva para ocupações futuras. Os espaços urbanizados são habitualmenteduros, fechados em si mesmo e se encontram incomunicáveis com a paisagem. Estes lugarestêm espaços livres, mas quase sempre se projetam desde lógicas exclusivamente urbanas.Estão sempre perto de lugares com valores naturais, mas quase nunca se vinculamdiretamente com eles.Os limites complexos pretendem aproximar estes dois tipos de espaços para evitar oisolamento habitual entre ambos. A aceitação da interdisciplinaridade entre ecologistas eurbanistas pode permitir conjugar estes dois mundos diversos, para tratar de conseguir omelhor de um e de outro. Frente à amnésia geográfica dos urbanistas e a oposição constantedos ecólogos, podem se colocar gestões integradas que tratem de ordenar o conjunto para

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