Não há
estranhos
para mim
Ann Grifalconi; Jerry Pinkney
Há muito, muito tempo, quando eu era criança, o meu avô levou-me a visitar o seu pomar.
― É o último bocadinho de terra qu...
― Avô, como fazes para conhecer tanta gente? ― perguntei-lhe, enquanto corria para o acompanhar.
Ele parou para esperar po...
― Porque eu e o meu coração somos livres.
Depois de caminharmos um pouco, disse:
― Minha querida, sabias que nos tempos tr...
― Não, não sabia.
― Um dia dei-me conta de que isso só aconteceria quando nós mesmos lutássemos pela liberdade.
Então, uma...
― Eu, a tua avó Polly, e a
tua mãe, que era bebé na
altura ― respondeu,
acariciando os meus caracóis.
― Tínhamos medo, cla...
Dormimos toda a noite, como há muito não fazíamos. De madrugada, um homem veio mungir as vacas,
e a nossa bebé chorou. Fic...
― Oh, não! ―disse,
tremendo só de pensar.
Mas eu sabia que o
meu avô estava agora em
segurança ao meu lado.
Apertei-lhe a ...
Nunca me perguntou o nome, embora me dissesse o dele. Chamava-se James Stanton e era membro do
Caminho de Ferro Clandestin...
― Isso é que foi sorte, avô! ― exclamei, conservando a minha mão na dele.
― Não sei se foi sorte, Honey ― disse, meneando ...
― Sei o que é precisar de
auxílio e recebê-lo. Quando
alguém cai, quem é que se vai
negar a ajudá-lo só porque se
trata de...
― Quando chegámos ao Norte, a tua avó e eu trabalhámos arduamente para quem nos quisesse
contratar. Arámos a terra, apanhá...
― Ora, aqui está! ― disse, radiante.
E mostrou-me um belo pomar, cheio de macieiras em flor.
― Lembras-te das sementes que...
― Essas vieram da tua cave, avô?
― Vieram. Guardei-as para as comermos juntos neste sítio.
Sentámo-nos a comer.
― Avô, ser...
Plantei as sementes da maçã que comera. Enquanto isso, o meu avô observava os meus gestos,
relembrando, sem dúvida, o que ...
E nunca esqueci.
― Então agora percebes por que
razão não há estranhos para mim ―
disse o avô, com uma alegria imensa
esta...
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Avô conta a história da sua vida, da sua libertação.

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Não há estranhos para mim - Um escravo que encontrou a liberdade

  1. 1. Não há estranhos para mim Ann Grifalconi; Jerry Pinkney
  2. 2. Há muito, muito tempo, quando eu era criança, o meu avô levou-me a visitar o seu pomar. ― É o último bocadinho de terra que possuo, desde que vim viver para a cidade ― disse-me, enquanto cumprimentava toda a gente.
  3. 3. ― Avô, como fazes para conhecer tanta gente? ― perguntei-lhe, enquanto corria para o acompanhar. Ele parou para esperar por mim. ― Não os conheço pelo nome, conheço-os pelo coração. Sabes, Honey, não há estranhos para mim. ― Porquê? ― perguntei, dando-lhe a mão. Sorriu alegremente e respondeu:
  4. 4. ― Porque eu e o meu coração somos livres. Depois de caminharmos um pouco, disse: ― Minha querida, sabias que nos tempos tristes da escravatura eu costumava andar com sementes de macieira no bolso, e acreditava que, quando fosse livre, haveria de as plantar no meu próprio pedacinho de terra?
  5. 5. ― Não, não sabia. ― Um dia dei-me conta de que isso só aconteceria quando nós mesmos lutássemos pela liberdade. Então, uma noite, nós fugimos. ― Quem é “nós”, avô?
  6. 6. ― Eu, a tua avó Polly, e a tua mãe, que era bebé na altura ― respondeu, acariciando os meus caracóis. ― Tínhamos medo, claro, mas fomos cuidadosos. Parou de falar, enquanto relembrava aqueles tempos… ― Quando chegámos ao Norte, já tínhamos passado por muitos estranhos e por muitos perigos. Estávamos junto ao rio Ohio e éramos quase livres, quando nos demos conta de que a fome e o cansaço eram demasiado grandes para continuarmos a andar. Então, escondemo-nos num celeiro ali perto.
  7. 7. Dormimos toda a noite, como há muito não fazíamos. De madrugada, um homem veio mungir as vacas, e a nossa bebé chorou. Ficámos petrificados. O nosso desespero era tanto que nos sentíamos capazes de atravessar o rio a nado, só para sermos livres! Nunca voltaríamos para trás!
  8. 8. ― Oh, não! ―disse, tremendo só de pensar. Mas eu sabia que o meu avô estava agora em segurança ao meu lado. Apertei-lhe a mão com mais força. ― Mesmo no escuro, o homem percebeu que não estava sozinho. Mas sabes?… Olhei para ele, ainda cheia de preocupação. ― O homem não olhou para a nossa cor; olhou para a nossa aflição. Era branco, mas ajudou-nos.
  9. 9. Nunca me perguntou o nome, embora me dissesse o dele. Chamava-se James Stanton e era membro do Caminho de Ferro Clandestino. ― Oh! ― exclamei. ― Aquelas pessoas que ajudavam os escravos a viajar para o Norte? ― Aqueles que nos ajudaram quando mais precisávamos. James e a mulher, Sarah, não viram na tua mãe uma menina negra, apenas um bebé com fome. Deram-nos de comer e ajudaram-nos a atravessar o rio na noite seguinte.
  10. 10. ― Isso é que foi sorte, avô! ― exclamei, conservando a minha mão na dele. ― Não sei se foi sorte, Honey ― disse, meneando a cabeça. ―Tínhamos de confiar em Deus. Tomámos uma resolução correta e nunca nos faltou a ajuda. E conseguimos.
  11. 11. ― Sei o que é precisar de auxílio e recebê-lo. Quando alguém cai, quem é que se vai negar a ajudá-lo só porque se trata de um estranho? Por mim, nenhum estranho ficará caído no chão sem que eu lhe estenda a mão. Caminhámos em silêncio e o ar primaveril trazia até nós o cheiro fresco e doce das macieiras em flor.
  12. 12. ― Quando chegámos ao Norte, a tua avó e eu trabalhámos arduamente para quem nos quisesse contratar. Arámos a terra, apanhámos fruta, mungimos vacas, cosemos, ferrámos cavalos, até termos dinheiro suficiente para comprarmos um pedaço de terra. Este!
  13. 13. ― Ora, aqui está! ― disse, radiante. E mostrou-me um belo pomar, cheio de macieiras em flor. ― Lembras-te das sementes que te disse que trazia sempre no bolso? Peguei nelas e plantei-as no nosso pedacinho de terra. De cada vez que plantava uma, lembrava-me de uma pessoa que me tinha ajudado. Olha para todas estas flores! O meu avô tirou uma maçã de cada bolso.
  14. 14. ― Essas vieram da tua cave, avô? ― Vieram. Guardei-as para as comermos juntos neste sítio. Sentámo-nos a comer. ― Avô, será que um dia poderei plantar aqui uma semente de memória? O meu avô sorriu, comovido: ― Podes fazê-lo agora mesmo.
  15. 15. Plantei as sementes da maçã que comera. Enquanto isso, o meu avô observava os meus gestos, relembrando, sem dúvida, o que fizera há muitos anos atrás. ― Não me esquecerei do que fizeste hoje ― disse o meu avô, levando a mão ao peito. ― E eu não esquecerei o que me contaste, avô.
  16. 16. E nunca esqueci. ― Então agora percebes por que razão não há estranhos para mim ― disse o avô, com uma alegria imensa estampada no rosto, enquanto acenava para o céu.

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