Katarína - Kathryn Winter

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Eslováquia, janeiro de 1942. Os campos que rodeiam T., uma pequena aldeia no norte, estão cobertos de neve. O comboio de passageiros abranda, à medida que circunda o lago gelado. Crianças em patins correm para a borda e acenam. Apenas uma criança está de costas para o comboio e fita os campos desertos.
Katarína tem 8 anos e a sua vida despreocupada está prestes a sofrer uma enorme alteração. Os Judeus são alvo de perseguições e a sua família corre perigo. Por isso ela é enviada para uma quinta, onde se espera que esteja a salvo, e onde aguarda ansiosamente que a tia venha buscá-la. Os dias transformam-se em semanas, as semanas em meses, e a tia não regressa. Mas Katarína não abandona nunca a esperança de que tudo e todos os que ama estejam à sua espera no final da guerra.

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Katarína - Kathryn Winter

  1. 1. Katarína Kathryn Winter
  2. 2. ESLOVÁQUIA: NOTA HISTÓRICA A Primeira Guerra Mundial conduziu à desagregação do Império Austro-Húngaro. Em seu lugar, surgiu um conjunto de pequenas nações, entre as quais a Checoslováquia. Acreditava-se que a possibilidade das minorias étnicas construírem os seus próprios países evitaria guerras futuras. Durante mais de vinte anos, a Checoslováquia prosperou, como país livre e democrático que era, no coração da Europa. A 15 de Março de 1939, tropas alemãs ocuparam a Boémia e a Morávia, as zonas checas do país. A Eslováquia proclamou a independência e tornou-se um estado fantoche controlado pela Alemanha. Passou a funcionar como um acesso ferroviário e rodoviário para os Alemães e, após a invasão alemã da União Soviética, tornou-se também um ponto de passagem para as tropas germânicas. Em compensação, a Eslováquia beneficiou de um desenvolvimento industrial e comercial notáveis. A polícia estatal eslovaca, a Guarda Hlinka, colaborou, de forma eficiente, no plano de extermínio dos judeus da Europa, concebido por Hitler.
  3. 3.  Kathryn Winter baseou-se na sua experiência biográfica para escrever este livro. Com efeito, teve de fugir das perseguições nazis durante a Segunda Guerra Mundial, tal como aconteceu com todos os judeus da Eslováquia. No fim do conflito, tinha perdido toda a família e foi enviada para os Estados Unidos, onde começou uma nova vida. Atualmente, mora em Berkeley, na Califórnia, sendo autora de vários contos, já publicados. Este é o seu primeiro romance.  PRÓLOGO Eslováquia, janeiro de 1942. Os campos que rodeiam T., uma pequena aldeia no norte, estão cobertos de neve. O comboio de passageiros abranda, à medida que circunda o lago gelado. Crianças em patins correm para a borda e acenam. Apenas uma criança está de costas para o comboio e fita os campos desertos.
  4. 4. Katarína tem 8 anos e a sua vida despreocupada está prestes a sofrer uma enorme alteração. Os Judeus são alvo de perseguições e a sua família corre perigo. Por isso ela é enviada para uma quinta, onde se espera que esteja a salvo, e onde aguarda ansiosamente que a tia venha buscá-la. Os dias transformam-se em semanas, as semanas em meses, e a tia não regressa. Mas Katarína não abandona nunca a esperança de que tudo e todos os que ama estejam à sua espera no final da guerra.  Campânulas brancas Capítulo 1 — Katarína, vem à janela! É a Eva. Sei o que me quer mostrar. Campânulas brancas. Deve ter corrido para os campos com a Kristína ao primeiro sinal de degelo do rio. O ano passado gelei os dedos a esgravatar a neve à procura delas, mas foi a Eva quem teve sorte.
  5. 5. — Olha, encontrei uma. Encontrei a primeira campânula branca! Segurou-a para que todos a víssemos: pétalas brancas pendendo de um caule fino como um fio. — Ei, Katarína, vem ver! Podes gritar à vontade, Eva, que não vou à janela. Puxo os cobertores até me taparem a cabeça. Não quero saber de campânulas brancas! Há um papel vermelho pregado na porta da nossa casa. Diz: PERIGO! ESCARLATINA! 26 DE FEVEREIRO DE 1942. DEPARTAMENTO DE SAÚDE. O papel já lá está há mais de um mês. Não que eu tenha escarlatina. Só a fingir. Acordei uma noite com a tia Lena a untar-me com uma pomada. — Que estás a fazer? — O que é preciso, Katinka. Tenta dormir. — Para! Cheira mal. Saí da cama e aninhei-me atrás da poltrona. — Vem cá. Preciso de te pôr mais pomada. — Porquê? Silêncio. — Se me disseres porquê, deixo-te pôr mais pomada.
  6. 6. Estavam à procura de todos os judeus, a fim de os mandarem para os campos de trabalho. A pomada destinava-se a causar erupções na minha pele. De manhã, a tia dar-me-ia um rebuçado vermelho para causar a mesma impressão na minha boca e garganta. Com sorte, enganaríamos o médico. Receberíamos, então, um papel vermelho para afixar na nossa porta. Isto afastaria as pessoas da nossa casa, incluindo a Guarda Hlinka. — Isto pode salvar-nos, Katinka. Salvar-nos? Olhei com atenção para a minha tia. Salvar-nos de quê? Do trabalho? Por que razão não deveríamos ajudar o nosso país? Hei de perguntar-lho, mas não agora. Agora tinha de saber outra coisa. — Quem é ele? — O que queres dizer com isso? — Aquele que vais visitar sempre que me mandas para casa da Malka. Corou. Pelos vistos tinha acertado em cheio. — Como se chama? — Teodor. Vais chamar-lhe Tio Teo. — Tio Teo. Vais casar-te com ele? Cerrou os lábios, mas não estava zangada. Sei quando está. Havia malícia no seu
  7. 7. olhar. — Vais? — Vou. Agora vem cá, pequena… — Vais? Vai ser um casamento a sério, com música e danças? Quando? — Quando esta loucura acabar e voltar tudo ao normal. Katinka, preciso de te pôr mais pomada. — Se eu deixar, não vou à escola? — Não, não vais! — Durante quanto tempo? — Não sei. Deixa-te de perguntas. Por favor! Saí detrás da poltrona. Espreguicei-me. A tia Lena parecia um passarinho num parapeito de uma janela, a tentar entrar num quarto quente. Tive a sensação de que podia fazê-la prometer o que quer que fosse. Deitar-me mais tarde. Um colete de pele de carneiro como o que a Eva usa. Deixar crescer o cabelo até poder fazer tranças. Comer sonhos uma vez por semana e nunca mais comer espinafres ou abóbora. Corri para ela e atirei-me ao seu pescoço. — Não fiques triste, Lena-Pássaro, não me vou portar mal. Puxei-a para a minha cama.
  8. 8. — Esfrega lá a pomada malcheirosa. No início, estar de quarentena era engraçado. A tia Lena lia-me livros, contava-me histórias dela e da minha mãe, fazia sonhos e pudins de chocolate sempre que lhe pedia. Jogávamos dominó, fazíamos ginástica no chão, dançávamos ao som de melodias que trauteávamos, inventávamos paródias que encenávamos. Eu gostava de parodiar o que tinha acontecido no dia em que o médico me visitara e o tínhamos enganado. — Tu fazes de médico, tia Lena. Ela semicerrava os olhos, fingia fumar cachimbo, abanava a cabeça. — Há algum problema, doutor? Suspiros. — Não é nada de grave, pois não? — Minha cara senhora… as manchas vermelhas na cara… a língua e a garganta vermelhas… — Sim? Seguia-se uma longa pausa. Por fim, surgia o diagnóstico: — A criança tem escarlatina.
  9. 9. Nesta altura eu desmaiava. Voltava a mim alguns segundos mais tarde. — Que horror, doutor. Tem a certeza? — Os sintomas são inequívocos. — Que temos de fazer? — Vamos interná-la e pô-la de quarentena. Já detetámos um caso de escarlatina. — Não vou permitir que a Katarína se exponha a … — Exponha? Mas, minha senhora, ela já contraiu a doença. — Sim, claro. O que eu queria dizer era que não gostaria de a ver num hospital superlotado. Eu própria cuidarei dela, aqui em casa. — Teria de vos pôr de quarentena… — Sim, claro. — …sem que ninguém possa entrar ou sair desta casa durante seis semanas. Como vai conseguir isso? — Temos provisões suficientes na despensa. O nosso empregado, Janko Trnka, pode trazer-nos coisas da quinta dele e deixá-las no alpendre. — Vou trazer-lhes um papel para afixar na porta. — Sim, doutor. — Seis semanas. Fui bem claro?
  10. 10. Claro e maravilhoso. Seis semanas sem escola. Vi a tia Lena acompanhar o médico à porta, ouvi as campainhas do seu trenó à medida que se afastava e saltei da cama. — Hurra! Conseguimos! A tia Lena tapou a minha boca com a sua mão. — Cala-te! Podem ouvir-nos na rua. Podiam ouvir-nos mas não podiam ver-nos através da janela coberta de gelo. A minha tia abraçou-me e atirou-me no ar. Dançámos uma polca até cairmos na minha cama, tontas e a rir. Naquela primeira semana, regozijei-me com o facto de Eva e Kristína passarem pela minha porta bem cedo de manhã. Iam para a escola, enquanto eu ficava enroscada no meu edredão. Na segunda semana, porém, apetecia-me ir com elas, e na terceira semana já gritava: — Tia Lena, por quanto tempo mais tenho de ficar em casa? Não posso ir à escola mas tenho de fazer os trabalhos de casa na mesma. Durante duas horas por dia, a tia ensina-me, corrige os meus trabalhos a lápis vermelho, tal e qual uma professora. Tenho sorte em não ter o violino comigo ou ela obrigava-me a ensaiar, como dantes, todos os dias, sem cessar. Mas, pouco tempo antes do início da minha quarentena, quando regressava a casa depois da escola, vi
  11. 11. uma multidão em frente aos correios. O pregoeiro da cidade estava a ler os avisos. Artigo 1. Os judeus têm de entregar todos os sobretudos e casacos feitos de pele ou couro. Artigo 2. Os judeus têm de entregar todas as peças feitas em ouro, prata, marfim ou bronze. Artigo 3. Os judeus têm de entregar os seus instrumentos musicais. Todas as famílias judias que possuam um piano, um violino, uma flauta, um acordeão, uma harmónica… Não ouvi mais. Corri para casa com as novidades. — Cretinos — murmurou a tia Lena. — Não conhecem quaisquer limites. No dia em que os instrumentos iam ser levados, fiquei à espera dos polícias à janela. Quando o que levou o meu violino ia a sair, pedi-lhe: — Não mude de ideias. — O que disseste? — Não traga esse violino de volta. Promete-me? Duas semanas mais tarde fui atrás dele porque levava o meu trenó. Como chorei!
  12. 12. Não estava em casa quando levaram o rádio e a grafonola. Só soube depois do jantar, que era quando ouvíamos música. Nessa noite a minha tia e eu escondemos as nossas lágrimas por detrás das chávenas fumegantes de leite com mel que bebíamos. Sem me dar conta, estava a usar a chávena para “tocar” até que ouvi a tia Lena responder-me da mesma forma. Olhámo-nos ao mesmo tempo e desatámos a rir. As batidas dela eram mais audíveis do que as minhas. Disse-me que era devido ao facto de a chávena dela ser mais fina e estar quase vazia. Toquei com o jarro do leite, com a compoteira do mel e com o açucareiro. Em breve, todas as chávenas, copos e taças estavam fora das prateleiras e sobre a mesa da cozinha. Batia com os nós dos dedos, com um garfo, com uma colher de madeira, por fora, na borda, no fundo. — Vamos deitar água nesta taça. Tape-tape. — Agora deitamos alguma fora. — Onde está a tábua de lavar? — Toma, tenta o batedor de claras. — Consegues pegar no pilão e no almofariz? Bate, esfrega, arranha. — Tia Lena, esta velha bacia azul faz mais barulho do que uma orquestra. Ficámos a pé muito para além da minha hora de deitar, à procura de sons de que gostássemos, a compor pequenas peças. Cada objeto da casa tinha-se transformado
  13. 13. num instrumento musical. Aborreço-me por não fazer nada, mas também não há nada que queira fazer. Será que vou conseguir ficar a par das minhas colegas nos trabalhos de casa? É uma sorte o diretor gostar da tia Lena e deixar-me ir à escola da aldeia. Mas será que a tia me vai deixar regressar quando o aviso PERIGO! ESCARLATINA! for retirado? Ou ensinar-me-á em casa, como disse ao rabino que faria? Pelo menos não voltarei àquela escola de uma só sala. Detestava-a. A ideia tinha sido do rabino. “Manda-a para junto de nós”, dissera à tia Lena em novembro, “para onde ela deve estar. Deixa-a aprender o que é ser Judeu. Arranjei espaço em minha casa. Temos um professor excelente. O custo é partilhado pelas cinco famílias judias…” Doze alunos, um professor, todas as classes concentradas numa só sala. Malka e eu estávamos na terceira classe. O professor trabalhava com uma classe de cada vez, enquanto as outras se mantinham ocupadas a copiar passagens de livros, a decorar a tabuada, palavras difíceis e poemas. Queixei-me à tia Lena do quão enfadonho era e disse-lhe que preferia estar na escola da Eva. Não lhe disse que as crianças judias contavam segredos umas às outras e me chamavam pagã. O rabino também era culpado desta situação. No primeiro dia, entrou carregado de livros. Bíblias. A turma
  14. 14. leu em voz alta, em hebraico. Eu fingia seguir o texto, mas esqueci-me de que a cabeça se movia da direita para a esquerda. O rabino reparou. — Levanta-te, Katarína. Relê as passagens que acabámos de ler. Fiquei com a cara a arder. Nunca tinha aprendido o alfabeto hebraico. — Com que então! — exclamou o rabino, cofiando a barba. — Diz-nos, Katarína, qual é o feriado judaico que se aproxima e como vamos celebrá-lo? — O Natal? — arrisquei, entre dentes. Sabia que a resposta estava errada, mas não me conseguia lembrar do nome do feriado que a família de Malka festejava. A sala inteira explodiu a rir. Até a minha amiga, a soturna Malka, ria a bom rir. Mas o rabino não achou graça. — Com que então! Temos uma pequena pagã entre nós. Uma pequena pagã. Tive de implorar à tia Lena durante duas semanas que me deixasse voltar à escola da aldeia. Três dias depois, o rabino tocou à nossa porta. — Que estás a fazer, Lena? A miúda assim só aprende a ter vergonha de ser judia. O teu criado goy1, Janko Trnka, sabe mais sobre os nossos feriados e costumes do que 1 Termo pejorativo que os judeus utilizam para designar os não judeus.
  15. 15. ela. Achas que a tua irmã, que descanse em paz… — Sim, deixemo-la descansar em paz. Sou eu que educo a Katarína. — Então ensina-a a ser uma boa judia. A tia Lena falou em voz baixa. Não pude ouvir o que dizia, mas ouvi a resposta do rabino. — O quê? Uma boa pessoa? Que ideias tão modernas! Tem juízo, Lena. Já nos estão a acontecer desgraças e vem por aí algo pior… — Não, não vem. O nosso presidente é um padre católico; não deixará as coisas irem tão longe… — Surpreendes-me, Lena. Já ouviste falar da Inquisição? — Isso foi na Idade Média. Estamos no século XX. O mundo civilizado não vai permitir… — O mundo civilizado! Devias ver o meu filho de nove anos! Vinha da escola da aldeia com o nariz a sangrar, as roupas rasgadas e um olho negro. Os colegas batiam- lhe e os professores civilizados assistiam. Por isso é que abri uma escola para nós, antes da aprovação da lei. E por isso é que deves mandar a Katarína para junto de nós. Se alguém avisar o Quartel-General que uma criança judia frequenta a escola pública, toda a comunidade judia da aldeia será penalizada. Estás a pôr-nos a todos em risco.
  16. 16. Durante algum tempo, o silêncio reinou na sala. Depois, a tia Lena disse: — Está bem. Talvez a ensine eu mesma, em casa. A Katarína não se adaptou à escola de uma só sala e o rabino sabe o que eu penso quanto à religião. Divide as pessoas, cria sofrimento… — É verdade, Lena! Todos devíamos ser irmãos! É uma pena que os Alemães não ouçam o seu poeta Schiller e os Eslovacos não se interessem por ideias liberais. Não importa o que pensas ou fazes. És judia, tal como ela, e ninguém te deixará esquecê- -lo. O rabino tinha razão; na escola da aldeia lembrar-me-iam constantemente que eu era judia. E na escola judia, lembrar-me-iam que era pagã. Chamavam-me pagã porque não sabia nada sobre religião, “cenoura” por causa do meu cabelo ruivo, “sardenta” por causa das minhas sardas. Mas o que faz de mim uma judia? Quando o rabino saiu, perguntei à tia Lena. — Na nossa religião, se a mãe for judia, a criança também o é — disse-me. — Mas a minha mãe não era religiosa, pois não? E nós também não somos. — Não se trata só de religião, Katinka. Os judeus têm uma história comum, valores comuns, tradições. É todo um modo de vida.
  17. 17. — Como assim? — Como acender velas à sexta à noite ou durante o Hanukkah… Hanukkah! Era o que eu devia ter respondido quando o rabino me interrogou sobre o feriado que íamos celebrar. — O que significa Hanukkah? — Há mais de dois mil anos, quando os judeus viviam no seu próprio país, revoltaram-se contra Antíoco, o rei sírio. Os judeus acendem velas para celebrar… — Mas nós não acendemos velas. Só nos bolos de aniversário. Porque somos judias? — Não sei responder, Katinka, e aqueles que sabem estão sempre a dar respostas diferentes. Já definiram ser judeu como uma religião, uma raça, uma anti raça… — Uma quê? Não entendo. — Ninguém entende. Não faz sentido. Nós comemos presunto, não celebramos feriados religiosos, mas seja o que for que pensemos ou façamos, seremos sempre judias. A tia Lena parecia o rabino a falar. Uma forma de vida, dissera. Malka é judia e a sua “forma de vida” não tem nada a ver com a minha. A Eva é católica e vive de forma semelhante à minha. Malka diz
  18. 18. sempre “devo…” ou “não devo…”. “Devo jejuar, usar mangas compridas e meias, mesmo em pleno verão”. “Não devo comer isto ou usar aqueles pratos”. “Não posso comer lacticínios com carne”, disse-me uma vez, quando lhe ofereci bolachas com salame e queijo. “Não tens compota?” Em casa da Eva comemos pão com manteiga e fiambre, seja em que louça for ou sem louça. Às vezes, Eva e eu assávamos presunto em espetos e comíamo-los com os dedos quando esfriavam. Depois da escola, Eva, Kristína e eu andávamos de trenó até escurecer. Quando me levaram o trenó, elas deixavam-me andar no delas. Malka nunca vinha connosco: não era suposto ela brincar com as crianças da aldeia, trepar às árvores, remar no ribeiro, assar batatas no campo. Às sextas, sem trabalhos de casa que nos preocupassem, brincávamos até à hora de jantar. Malka corria para casa para se preparar para o Sabbath2. A forma de vida da Malka não tem nada a ver com a minha. A primavera está a chegar. Ouço-a. A neve já derrete no nosso telhado, os pingentes de gelo caem, as botas mergulham em poças. O gelo no lago da Eva já deve 2 Celebração semanal dos judeus que vai da noite de sexta à noite de sábado.
  19. 19. estar demasiado fino para podermos patinar. Quando o lago gelou em novembro, Eva convidou-nos para patinar. Fui todas as tardes. Um dia, depois do Natal, ela disse-me que não me podia convidar mais. — Porquê? — perguntei. — Passa-se alguma coisa? Estás zangada comigo? Encolheu os ombros e abanou a cabeça. — A minha mãe obrigou-me a dizer-to. — Mas porquê? Que fiz eu? Eva desatou a chorar, virou-se e correu. Eu disse à tia Lena. — Eu sei, Katinka. Aquela mulher disse-mo também. Fez uma voz esganiçada para imitar a mãe da Eva: “Lamento, Miss Lena. Não é nada pessoal, a Katarína é bem comportada. Mas sabe, como o meu marido trabalha para o governo, não podemos ter uma menina judia a patinar na nossa propriedade…” — Não fiques triste, Katinka — disse na sua voz normal. — Vamos para o rio Orava. Ajudo-te a arranjar um lugar onde possas patinar. Vou contigo… — Não — gritei. — Quero estar com as outras crianças. Eu sou como a Eva e a Kristína. Sou como elas.
  20. 20. Eva chorou e implorou até que a mãe anuiu. — Está bem, a Katarína pode vir patinar, mas não pode mostrar a cara. E eu escondia a cara de tal modo que só se viam os olhos e a ponta do meu nariz. Sempre que passava um comboio, todas as crianças se aproximavam da borda do lago para acenar. Às vezes corria com elas, mas Eva puxava-me pela manga para me lembrar de que não devia mostrar a cara. Então, virava-me, e ficava de costas para o comboio. Trovoada. Ouvi-a hoje, ao meio-dia. É o gelo a derreter no rio. Todas as primaveras, esse som assemelha-se ao de um apito que dá início a uma corrida — todas as raparigas da aldeia correm para os campos para encontrar a primeira campânula branca. Saltei da cama, vesti-me e percorri o corredor em bicos de pés. — Ei, o que estás a fazer? A tia Lena apanhou-me a sair, já com o casaco vestido e as botas calçadas. Deve ter ouvido o soalho a ranger. — Responde-me. Onde vais? — Sair, procurar campânulas brancas.
  21. 21. — Volta já para a cama imediatamente. — Não! Quero ir lá para fora, com as outras crianças. Não quero ficar aqui fechada para sempre. — Não é para sempre, Katarína; são só mais dez dias. Agora volta para a cama; as pessoas podem ver-te. — Deixá-las. Deixá-las ver que não estou doente, que me estás a obrigar a ficar na cama. Deixá-las ver quão má és para mim. — Tia Lena, mostra-me a notícia do jornal outra vez. Já sei a história de cor. Duas páginas amarelecidas que a minha tia guardara durante cinco anos. Uma avalanche nas montanhas Tatra que matara seis esquiadores. O jornal trazia uma fotografia deles. O meu pai, moreno e bem-parecido; a minha mãe, loura como a tia Lena, mas mais bonita. Estão ambos a sorrir. Aposto que eles não me teriam besuntado com aquele unguento malcheiroso para me fazer passar por doente. Teriam ido ajudar as pessoas no campo de trabalho e ter-me-iam levado com eles. — Por que não te besuntaste com o óleo, tia Lena? — Quem me dera tê-lo feito! Mas achas que o médico me deixaria ficar em casa
  22. 22. aos cuidados de uma enfermeira que ainda não tem oito anos? Claro que ela tem razão, embora isso não torne as coisas mais fáceis para mim. — Quanto tempo falta para eu voltar à escola? — A nossa quarentena termina dentro de cinco dias, mas não vais voltar à mesma escola. Vamos mudar de casa; vamos viver com o tio Teo. — Vamos? É por isso que vocês se têm escrito tanto? A minha tia assentiu. — Não quero deixar a Eva. — Eu sei que é triste, Katinka. É a tua melhor amiga... — Porque não vem o tio Teo viver connosco? — É advogado e precisa de ficar na sua aldeia. — Mas os judeus já não podem ser advogados. É por isso que o tio da Malka teve de vir viver com eles. Ela disse que não o deixavam exercer. — O tio Teo tem uma autorização especial do Presidente Tito, uma vez que não há mais advogados na terra dele. — E onde é que ele vive? É suficientemente perto para eu poder visitar a Eva? — Fica a cerca de duas horas de camioneta. Mas a mãe da Eva pode não querer que ela nos visite muito.
  23. 23. — Por favor, tia, não nos vamos embora! — Farás amigos na escola nova… — Não me vais ensinar em casa, como prometeste ao rabino? — Não. Vais para a escola pública, porque lá não há outra. Os poucos judeus que lá vivem são casais idosos com filhos já crescidos. — Vou-me sentir tão só sem a Eva… — O tio Teo tem um filho, o Pavel. Tenho a certeza de que vocês os dois… — Ele não conta. É rapaz. — Já não é um rapaz, Katinka. Tem vinte e um anos. — Vinte e um? Isso é um adulto. Então não conta a dobrar. Duas ou três vezes por semana, depois do último candeeiro da aldeia se apagar, a tia Lena embrulha-me em roupa e leva-me até ao pátio. — Respira fundo, Katinka — murmura, — precisas de ar fresco. Nas três primeiras semanas da quarentena, quando as nossas botas chiavam na neve gelada, a tia Lena tinha medo que os vizinhos nos ouvissem. Esgueirávamo-nos para o canto mais escuro e ficávamos lá, muito juntinhas, a observar as estrelas. Agora que só restam pedaços de neve cinzenta derretida e que já posso usar os meus
  24. 24. chinelos de pele de carneiro lá fora, ela costuma dizer-me: — Corre até ao poço e volta, Katinka. Precisas de fazer exercício. Quem me dera ter podido correr naquelas primeiras semanas. Até ao poço, para além dele, até às pastagens geladas por detrás dos celeiros. Sonhava poder correr sem cessar através dos prados, de pular sobre riachos de neve derretida, de deslizar sobre a neve no rio gelado. — Anda lá, não sejas preguiçosa. Agora que as nossas janelas já estão sem gelo e as pessoas já podem espreitar, a tia Lena obriga-me a ficar na cama ou a sentar-me sossegada junto do fogão. As minhas pernas parecem feitas de farinha. Não me apetece correr. Já não sonho com corridas. O nosso empregado, Janko Trnka, corta lenha para os nossos três fogões, varre o gelo dos nossos degraus e deixa-nos pão, leite, queijo e ovos da quinta dele. Também traz as cartas do tio Teo e leva as da tia Lena. Janko é um velho corcunda com um bócio tão grande que pende do seu pescoço como uma bolsa suja. Hoje, pela primeira vez desde há muito, pôde entrar na nossa casa. Ouço-o a empilhar troncos na cozinha. — Janko Trnka — grito do corredor, — viste a minha amiga Malka? — Foi-se embora — grita numa voz rouca e áspera, — foi-se embora com a
  25. 25. família. Onde estarão eles, pergunto-me. Num campo de trabalho? Não vão deixar Malka ficar lá por muito tempo, por causa dos seus ‘devo’ e ‘não devo’. “Desculpem, mas não posso trabalhar. Tenho de ir acender as velas para o Sabbath.” “Desculpem, mas não posso beber leite e comer carne ao mesmo tempo. Não há limonada?” Malka vai voltar e o seu irmão Shaiko também. O que poderia ele lá fazer? Descascar cenouras? Ajudar a pôr a mesa? Nem sequer em bicos de pés consegue ver o tampo! — Tia Lena, por que mandam crianças para os campos de trabalho? — Não mandam. Só os que tiverem entre dezasseis e trinta anos vão. A família da Malka deve estar escondida para proteger as duas filhas mais velhas. — O diretor da escola falou-nos sobre os campos de trabalho. Disse-nos que o trabalho faz bem a quem o faz, às suas famílias e ao nosso país. — Que sortudos que somos, triplamente abençoados. Pergunto-me porque não manda ele para lá as suas três filhas roliças. — Diz que os trabalhadores ajudam os soldados eslovacos a ficarem livres para irem ajudar os Alemães a combater os Russos. — Não é verdade, Katinka. Os jovens estão a ser deportados, mandados para fora
  26. 26. do país contra sua vontade. Só judeus. É racismo. O racismo perturba sempre a tia Lena. Preocupa-se com os Checos, os Ciganos, os Protestantes; com as pessoas que perdem os seus empregos ou que não têm um salário decente. Foi presa uma vez, na cidade onde vivíamos, por distribuir panfletos sobre os sindicatos. Já ouvi a mãe da Eva chamar à tia Lena “judia bolchevique e ateia, sempre com a cabeça no ar.” — Achas que a Malka vai voltar em breve? — Não sei. Como nós, podem estar escondidas nesta aldeia. Ou podem ter ido para a Hungria. Os judeus estão a salvo lá e a mãe da Malka tem família húngara. — Será que voltam depois da guerra? Silêncio. — Voltam, tia Lena? — Penso que sim. A casa deles é aqui. Katinka, não te estarás a esquecer de algo importante? Não te lembras de que dia é hoje? Abano a cabeça. — É o último da nossa quarentena. Tens estado à espera dele… — Tia Lena, ainda não tens trinta anos, pois não?
  27. 27. — Só os faço em outubro. Porquê? — Ainda podem obrigar-te a ir trabalhar para o campo, não podem? — Esta rusga terminou. Só durou alguns dias. Ficámos mais tempo fechadas para eles pensarem que tinhas mesmo escarlatina. — Vai haver outra rusga? Podem levar-te enquanto estou na escola? — Ninguém me vai levar. A autorização especial do tio Teo proteger-me-á. Não ouviste o que eu disse, Katinka? Podemos sair amanhã. — Lembras-te, tia Lena, de quando o médico me queria mandar para o hospital? — Nem me fales. Fiquei aterrorizada que ele o fizesse. — Se ele o tivesse feito, ter-te-iam levado para o campo de trabalho sem mim? A minha tia abanou a cabeça. — Não deixavas que te levassem a lado nenhum sem mim, pois não? — Claro que não. — Prometes, tia Lena? Ela veio até à minha cama e beijou o meu queixo. – Pensa no sítio onde gostarias de ir amanhã. — Não me interessa. Já não há campânulas brancas. — Procuramos violetas. E há salgueiros a florir junto ao rio.
  28. 28. Virei-me para a parede. A tia Lena pegou-me na mão e beliscou as pontas dos dedos, uma a uma. — Olá, Exordimus. Está com bom aspeto, Princesa Exilobí. Como passa a tia Chalupka? Aňaňaňa, Athlonvěvev. Nomes brincalhões que tinham sido inventados para os meus dedos quando criança. Escondi a cara na almofada para me poder rir e depois virei-me para a abraçar. 
  29. 29. Querida Eva Capítulo 2 15 de abril de 1942 Querida Eva, Pediste-me para te escrever, sem falta, a contar a festa de casamento da tia Lena. Não houve festa. Saiu com o tio Teo por umas horas e voltou casada. NÃO houve música. NINGUÉM dançou. Alguns adultos vieram à noite beber vinho e comer bolo de semente de papoila que a tia Lena fizera. Foi maçador. Fiquei acordada até às dez. A casa do tio Teo é cinzenta. Tem um telhado de telhas vermelhas. Há um grande castanheiro em frente à casa que cobre parte do telhado. No jardim, mesmo junto à minha janela, está plantada uma nogueira à qual é fácil trepar. Quando acordo de manhã, vejo pássaros a saltitarem de ramo em ramo e a afiarem os seus bicos. O jardim é grande. Quando me vieres visitar, jogaremos às escondidas. Podemos esconder-nos atrás dos arbustos de groselhas verdes e vermelhas. No barracão também há montes de esconderijos. Desculpa-me os borrões de tinta. Esta pena não
  30. 30. presta. Preciso de uma nova. Beijos, beijos, beijos Katarína P.S. Amanhã receberei a tua primeira carta. 16 de abril Querida Eva, Corri da escola para casa para ler a tua carta, mas ainda não chegou. Vou ter de esperar até amanhã. A nossa professora é Miss Sipková. Gosto muito dela. A professora de bordados tem uma boca grande e grita muito. As raparigas chamam-lhe a ‘Senhora Dragão’. Partilho a carteira com a Bošena. O pai dela é polícia. Há dois polícias nesta aldeia. A Bošena é simpática, mas não é a minha melhor amiga. És tu a minha melhor amiga. O filho do tio Teo, o Pavel, tem olhos azuis-escuros e cabelo loiro, como a tia Lena. Trabalha numa serração junto ao rio e só vem a casa aos fins de semana. No último
  31. 31. domingo levou-me ao rio Orava (que também passa nesta aldeia) e ensinou-me a fazer saltar pedras na água. Enquanto as dele saltam cinco ou seis vezes antes de se afundarem, as minhas afundam-se logo. Estava frio. Quando chegámos a casa, a tia Lena fez-nos chocolate quente e aqueceu água para tomarmos banho. Ainda tenho de ir fazer os trabalhos de casa. Muitos beijos, Katarína 17 de abril Querida Eva, A tua carta ainda não chegou. Esta é a minha terceira carta. Recebeste as duas primeiras? Mostrei a Miss Sipková um poema que escrevi. É sobre o rio Orava e as montanhas que avisto da minha janela. Fala de como a Eslováquia é bela. A professora disse que o poema era muito bonito. Vai mandá-lo para a Amanhecer, para que as crianças de todo o país o possam ler. Tal como a tua, a nossa escola recebe a revista
  32. 32. às terças. Temos uma nova criada. Chama-se Anka. Tem dezassete anos. Tem o cabelo comprido e doirado. Não fala muito comigo. É convencida. Beijos, Katarína P.S. Lembraste-te de pôr selos no envelope? 18 de abril Querida Eva, Prometemo-nos escrever todos os dias. Por que não cumpres a tua promessa? Tens muito que fazer? Tenho saudades tuas. A tia Lena não me dedica muito tempo. Está sempre a cozinhar, a fazer pão e bolos, ou a dactilografar documentos no escritório do tio Teo. Quando me querem esconder alguma coisa falam em húngaro, como ontem à noite. Não sabem que percebo quase tudo o que dizem.
  33. 33. Quando a tia e eu vivíamos em Bratislava, vivia uma família húngara no nosso prédio, no rés-do-chão. Não falavam eslovaco. Eu brincava com as filhas, Ilonka e Irenka, e aprendi húngaro. Perguntaste-me uma vez por que saímos de Bratislava. Tivemos de sair porque Hitler queria que a capital da Eslováquia fosse Judenrein, ou seja, limpa de judeus. E também porque a tia Lena perdeu o emprego. O patrão disse que ela era comunista. Beijos, Katarína P.S. Bratislava tem a casa mais alta do mundo – tem onze andares. Um dia, quando formos mais velhas, hei de mostrar-ta. Também te mostrarei a casa onde nasci; é a casa onde moram a Ilonka e a Irenka. Podemos visitá-las.
  34. 34. 19 de abril Querida Eva, Ontem esqueci-me de te dizer por que razão a tia e o tio tinham falado em húngaro. Estou sempre a pedir à minha tia que me deixe ir às reuniões da juventude Hlinka. A Bošena diz-me que aprendem canções e danças, que jogam jogos, que marcham e ouvem histórias sobre heróis eslovacos. Amanhã vão fazer uma ENORME festa de aniversário para Adolf Hitler, que não vai lá estar. A Bošena disse que eu podia ir mesmo que ainda não fosse membro. Pedi à tia Lena para ir e foi quando ela e o tio começaram a falar (A GRITAR!) em húngaro. Ele disse “Deixa a criança ir” – ele chama-me sempre a criança – “É bom que a vejam lá; bom para ela, bom para nós, etc., etc., etc.” A tia Lena discordou “Não permitirei que ela vá, Teo, há limites…etc., etc., etc.” Não percebi tudo o que disseram, mas percebi o suficiente para saber que o tio estava do meu lado. Por fim, a tia concordou em deixar-me ir à próxima reunião, mas NÃO à festa de aniversário de Hitler. Por favor, Eva, escreve-me.
  35. 35. Muitos beijos, Katarína 22 de abril Querida Eva, Todos os dias corro para a carrinha do correio. Ainda não recebi cartas tuas. Esta é a sexta que te escrevo. Estarás doente? Ontem a Bošena veio brincar comigo. O tio Teo obrigou-nos a ir lá para fora, para a chuva. A tia Lena diz que ele já não está habituado a ter crianças em casa. Escreve documentos importantes e precisa de se concentrar. Quando me vieres visitar, vais ver a sala de espera dele. É a mais engraçada. Os camponeses não têm muito dinheiro. Pagam com coisas das quintas deles: ovos, manteiga, queijo, presunto, fiambre. Também trazem galinhas, galos, gansos, perus, patos, vivos. Enquanto esperam, vêem-se cabecitas de penas a espreitar dos cestos e das trouxas que carregam atrás das costas. Às vezes os grunhidos, os grasnares e os cacarejos são tão altos que o tio
  36. 36. sai do escritório e grita: “Silêncio! O que julgam que isto é? Um celeiro?” Já não há tinta no tinteiro, tenho de pa… 23 de abril Querida Eva, Penso que sei o que aconteceu às tuas cartas. A chefe da estação dos correios fica com elas porque eu sou nova aqui e ela não sabe quem é a Katarína. Ou então, deu as cartas a uma outra Katarína desta aldeia, por engano. Vou agora tentar saber porquê. Beijos, Katarína P.S. Os correios estavam fechados. O aviso na porta dizia “O neto de Tomás nasce hoje. Se Deus quiser, os correios abrem amanhã novamente.” Tomás é o padeiro da aldeia. A tia Lena diz que a chefe da estação é a parteira da aldeia. Mais beijos, Katarína
  37. 37. 24 de abril Eva! Fui aos correios mal saí da escola. Não vieram cartas para nenhuma Katarína. Estou mesmo zangada contigo. Faltaste à promessa de escrever todos os dias. És uma preguiçosa. Não quero que me escrevas cartas nenhumas. Se me escreveres, não vou ler nenhuma das tuas cartas. Devolvo-tas. Katarína 25 de abril Querida Eva, Rasga em mil pedaços a carta que te enviei ontem. Lamento mesmo muito ter-me zangado contigo. O que te disse não era verdade. És a minha melhor amiga. Gosto muito de ti. Katarína
  38. 38. P.S. No caminho de regresso da escola apanhei um ramo de miosótis e atirei-o ao rio. Disse-lhe que to levasse. Agora, tu, eu e a Kristina voltámos a ser as melhores amigas do mundo. 28 de abril Querida Eva, Nem vais acreditar no que tenho para te dizer. Trouxeram um bacorinho ao tio Teo. Resfolegava no cesto, com as pernas atadas. De repente, soltou-se e começou a correr pelo corredor. A Anka e o camponês que o trouxe correram atrás dele, enquanto a tia Lena se apressava a fechar todas as portas da casa. O desgraçado não parava de guinchar. Finalmente a Anka apanhou-o. O tio disse ao homem que levasse “aquele animal” de volta para a quinta, porque não tínhamos onde o guardar. Fiquei com pena. Era tão rosadinho e limpo que eu teria arranjado lugar para ele no meu quarto. Beijos, Katarína
  39. 39. 1 de maio Querida Eva, Não te esqueças de que o meu aniversário é este mês. É uma sorte o dia 16 calhar a um sábado. Como não há escola, podes vir. A Anka e eu levantámo-nos cedo hoje para ver que telhado tinha o maior mastro enfeitado. Na noite anterior tínhamos feito uma aposta. Eu achava que o maior era o da Poluška, já que ela é a rapariga mais bonita da aldeia. A Anka apostava na filha do Presidente da Câmara, por ser a mais rica. Estávamos ambas enganadas. O mais alto e bonito estava no telhado de Miss Sipková. Tinha centenas de fitas e bandeirolas, quase todas vermelhas, que volteavam em roda do poste. Às vezes, o vento apanhava-as e esticava-as o mais que podia; mas logo voltavam de novo para o abraçar. Tanto a Anka como eu nos pusemos a pensar sobre quem amaria Miss Sipková tanto. Vai ficar envergonhada na aula, porque todos, sobretudo os rapazes, nos vamos meter com ela. Esquece que te disse que a Anka era presunçosa. É muito simpática. A família dela vive numa quinta e ela vai levar-me lá no seu dia de folga, logo que a escola acabe. A tia Lena disse que eu podia ir.
  40. 40. Beijos, Katarína P.S. Amanhã não te esqueças de procurar o meu poema na revista Amanhecer. 7 de maio Querida Eva, Isto é muito importante. A tia Lena sabe que eu vou à missa com a Anka, mas não sabe que, todas as noites depois de ela e o tio Teo se deitarem, a Anka me conta histórias de santos e me ensina o catecismo. Não digas nada quando vieres cá no sábado. Beijos, Katarína P.S. Diz à Kristina para também vir à minha festa de anos.
  41. 41. 7 de maio Querida Eva, Fui à reunião da juventude Hlinka com a Bošena. A chefe do nosso grupo tem dentes amarelos tão grandes que lhe saem da boca. Disse-me que podia voltar a ir como convidada da Bošena mas, para ser membro, tinha de levar um cartão timbrado da Secretaria Central. Aprendemos uma canção sobre as corajosas raparigas da Juventude Hlinka e depois marchámos até à praça da aldeia, bradando “Viva Tito! Viva Tuka!” Tuka é o Primeiro-Ministro. A nossa diretora, Vojtech Rospačil, diz que todas as crianças eslovacas se deviam sentir orgulhosas de usar o uniforme da Juventude Hlinka. Pedi à tia Lena para me comprar um para o meu aniversário. Beijos, Katarína P.S. Estou a tentar entrar para a peça da escola. Faz figas por mim.
  42. 42. 12 de maio de 1942 Querida Eva, Vou contar-te o segredo mais extraordinário, mas tens de prometer esquecê-lo e rasgar esta carta depois de a leres. Estou apaixonada pelo filho do tio Teo, o Pavel. Quando for grande vou-me casar com ele. Não contes nada disto à Kristina. E não te ponhas com risinhos parvos quando o vires no sábado. Que S. João de Nepomuceno te impeça de falar. Lembra-te da regra da tia Lena – nada de presentes. Só faltam quatro dias para nos vermos. Beijos, Katarína P.S. Obrigada por teres feito figas. Miss Sipková escolheu-me para ser a Orquídea Dançarina na peça da escola. O meu poema também não apareceu na revista Amanhecer desta semana. Procuraste-o?
  43. 43. 17 de maio Eva! Perdeste a melhor festa de anos de sempre. Nunca mais te convido. Esta é definitiva e absolutamente a minha ÚLTIMA CARTA. Katarína 20 de maio ISTO NÃO é uma carta. É só para te dizer que já não és minha amiga. A partir de agora vou contar os meus segredos à Bošena.
  44. 44.  Santos Capítulo 3 Todas as noites vou até ao quarto da Anka, em bicos de pés. Conta-me histórias do Menino Jesus, da Virgem Maria, e fala-me dos santos, a propósito do dia em que se celebram. Hoje, 13 de junho, é o dia de Santo António. Começou tudo quando assinalei no calendário da cozinha a data do meu oitavo aniversário. — É um dia muito especial, Katarinka — disse ela. — Lá isso é — respondi. — A minha melhor amiga, a Eva, vem visitar-me e vamos ficar acordadas até tarde. A tia Lena vai fazer o meu bolo de chocolate favorito… — Não é essa a razão por que é especial. 16 de maio é a festa de S. João Nepomuceno. — É um santo muito importante?
  45. 45. — Dantes era o santo padroeiro do nosso país, quando se chamava Checoslováquia. Antes da guerra. — E agora, não é o nosso santo padroeiro? Será que os santos perdem o emprego por causa da guerra, tal como aconteceu com os judeus e os comunistas? — Os eslovacos agora têm o seu próprio país e o seu próprio santo padroeiro, e os checos têm o deles. Mas S. João ainda é importante. Rezo-lhe sempre que atravesso uma ponte. E também o faço noutras ocasiões. — Uma ponte? Porquê? — Katarína, não vês que estou ocupada? Tenho de ir buscar lenha à arrecadação e acender o lume para o jantar. Mais tarde respondo-te. Mais tarde, quando Anka estava a limpar a cozinha, mandaram-me para a cama. Quando todas as luzes da casa se apagaram, bati à porta do quarto dela. — Que fazes aqui, Katarína? — Prometeste dizer-me porque rezas a S. João sempre que atravessas uma ponte. — Digo-te amanhã. — Amanhã tens que fazer. Suspirou e indicou-me a única cadeira do seu quarto. — Está bem, senta-te lá.
  46. 46. O quarto de Anka é pequeno. Tem uma cama estreita, uma cómoda, um guarda- -fatos e uma pequena mesa. As paredes estão cobertas de gravuras de santos. Por cima da cama está pendurada uma grande cruz de madeira. — O que te vou contar aconteceu há seiscentos anos. Foi quando João nasceu, na cidade de Nepomuceno, perto de Praga. A única luz que iluminava o quarto era a lua. Anka acendeu uma vela e foi buscar um pacote de pagelas à sua cómoda atafulhada. As pagelas eram figuras de santos. Na primeira que me mostrou via-se um homem vestido de padre. Por cima da cabeça dele via-se sete estrelas. Na segunda, o mesmo homem estava numa ponte e fitava o rio. A terceira mostrava-o com um dedo nos lábios. Na sua outra mão segurava um aloquete. — Para que serve o aloquete, Anka? — João era um padre e era o confessor da Rainha Sofia. O rei queria que João lhe contasse os segredos de Sofia, mas João não o fez, nem quando foi submetido a tortura. Por isso, é o santo padroeiro dos segredos e das pontes. — Das pontes, porquê? — O rei queria nomear alguém da sua confiança como abade. Todos sabiam que a escolha do rei era errada, mas ninguém tinha coragem para se opor ao rei, exceto
  47. 47. João. O rei ficou tão furioso que torturou João com uma tocha ardente. Depois, mandou-o amordaçar, amarrar a uma roda e deitar ao rio Vltava. Nessa noite sete estrelas brilharam sobre o local onde João foi afogado. No dia seguinte não podia deixar de pensar em S. João, no milagre das sete estrelas e no que significava ser torturado. Nessa noite, esgueirei-me da cama e fui de novo ao quarto da Anka. Queria saber mais coisas sobre os santos. Contou-me a história de Santa Catarina. — Era uma princesa. Bela, forte, inteligente. Não aceitava casar com ninguém, nem mesmo com o rei, porque já era casada com Jesus. ‘Tortura-me quanto quiseres, ’ disse ao rei, ‘não mudarei de ideias’. — Santa Catarina vela por ti, Katarinka, é a tua padroeira. Reza-lhe sempre que estejas em apuros. Também lhe podes pedir favores especiais. — Posso pedir-lhe que me liberte das minhas sardas? — Hum… não sei. Deus fez-te com sardas. Não creio que Santa Catarina queira interferir. — Mas eu odeio-as! Toda a gente na minha turma faz troça de mim. — Pede à velha Krasovka. Ela ajuda-te.
  48. 48. — Ir falar com a Krasovka? Nem pensar. Já estive perto dela no cemitério. Estava agachada por detrás de um túmulo. — Não é uma bruxa. Sabe segredos sobre plantas e pássaros e coisas que desconhecemos. Talvez descubra uma poção para as tuas sardas, se lhe levares uma salsicha ou duas. — Tenho medo dela. A Bošena jura que ela é uma bruxa. — Ajudou uma mulher da minha aldeia. Fez as verrugas dela desaparecerem de um dia para o outro. — Nem pensar! Prefiro pedir a Stª Catarina. Que sorte tenho, pensei, em a ter como padroeira. — Fala-me de Santo António. Hoje é o seu dia. — Nada de histórias hoje, Katarinka. Senta-te. Hoje a Anka está diferente. Está pálida e tem os lábios semicerrados. A cruz que pende do seu fio de ouro treme sobre a sua blusa de linho bordada. — Não digas nada sobre o que ouvires. — Não digo, Anka. — Jura por S. João de Nepomuceno. Pela pagela do aloquete. — Juro.
  49. 49. — Que ele te sele os lábios. Senta-se a meu lado, na cama, pega na minha mão e põe-na entre as suas. — Há duas noites tive um sonho. Fala baixinho, devagar, como se ainda estivesse a sonhar. — Era um sonho contigo. Eras um cordeirinho a balir… — Como sabes que o cordeirinho era eu? — Cala-te, ouve. Sei que eras tu. O cordeirinho chorava, porque se tinha perdido… — Encontrou o caminho? — Não sei. Acordei. Anka parou de falar. O quarto estava em silêncio, exceto pelo barulho que as pingas de cera faziam sempre que caíam da vela. Será que a Anka não teria mais nada para me dizer, interroguei-me. O que havia de tão especial no sonho que fez com que eu tivesse de jurar por S. João? — Katarína, ontem à noite tive uma visão. Olhei-a especada. — Uma visão? Que viste e onde? — Aqui, no meu quarto. A Mãe Santíssima… — A Mãe Santíssima veio a esta casa? Viste-a, no teu quarto?
  50. 50. — Não a vi propriamente, mas senti que estava aqui. Sei sempre quando está comigo. Sinto-a. — O que sentes? — Faz-se silêncio e ouve-se o ruge-ruge de um vestido de seda… Sinto-me tonta, quente e fria ao mesmo tempo… fico com pele de galinha e as palmas das minhas mãos a suar… e ontem pela primeira vez ouvi uma voz… Os meus joelhos estão aos saltos. Puxo os cobertores de Anka para cima deles. — O que disse a voz? — Disse-me para te salvar. Para te mostrar o verdadeiro caminho. Não queria vir trabalhar para uma família judia, mas algo me dizia que tinha de vir. Agora vejo o porquê. Jesus quer-me aqui. — Mas, Anka, já sou católica desde que me levaste à missa no domingo. — Ir à missa ao domingo não chega para fazer de ti uma católica. Precisas de conhecer as orações, estudar o catecismo, saber coisas sobre a Santíssima Trindade, os quinze mistérios, os sacramentos… e mais do que tudo, Katarína, tens de acreditar no filho de Deus, nosso salvador… — Oh Anka, mas eu acredito, juro!
  51. 51. A Anka comprou-me um terço e pagelas de santos, como as que ela tem. Escondi- -as numa meia de lã, na minha cómoda. Ensina-me cânticos e orações católicas, faz- -me perguntas sobre o catecismo, conta-me coisas sobre santos e visões que teve. A luz da vela dá-me sono. Às vezes, adormeço na cama dela e volto para a minha em bicos de pés, de madrugada, quando o galo canta. Gosto de ser católica. É bom ter todos aqueles santos com quem falar. Quando perco a minha pulseira ou a minha borracha Santo António ajuda-me a encontrá-las. Os meus bordados são mais perfeitos desde que Santa Clara me ajuda. Santa Benedita livrou-me da urticária e S. Vítor protege-me da trovoada. Quando a tia Lena tem dor de cabeça, rezo a Santo Estêvão. Às terças à noite a Anka e eu rezamos a Santa Marta. Pedimos-lhe que transforme a massa que a tia fez num pão do qual ela se orgulhe. 
  52. 52. O segredo Capítulo 4 Os gansos que estão debaixo da minha janela pertencem aos pais da Bošena. Reconheço o macho cinzento que os guia e o ganso que coxeia atrás deles a grasnar, incessantemente, para não ser esquecido e não se perder no caminho. O irmãozinho da Bošena deve andar por aqui. Compete-lhe olhar pelos gansos. — Jura! Nem rasto dele. Debruço-me na janela. — Jura! Algo cai de uma árvore. Está descalço, embora estejamos no fim de setembro, e tem o nariz a pingar. — Que queres? — Diz à Bošena que vou ter com ela ao cemitério quando tocarem as vésperas. Despacha-te. Nem se mexe. Palerma. Que lhe cresça milho nas orelhas!
  53. 53. Corro para a cozinha. Há roupas empilhadas nas cadeiras, mochilas espalhadas pelo chão, filas de enlatados na mesa. Mal posso mexer-me. — Não consegues dormir? — pergunta-me a minha tia. — Não estou habituada a fazer a sesta. Posso comer uma maçã? Na despensa procuro nozes no saco de serapilheira e encho os bolsos. Também pego numa maçã e num punhado de uvas passas. Jura olha fixamente as nozes. — Toma duas. Mando o resto pela Bošena. Jura deixa os gansos e corre a dar o meu recado. Deito-me na cama e espero pelo toque de vésperas. Um encontro no cemitério significa que a Bošena e eu temos um segredo a partilhar. Hoje o segredo é meu. — Tenho uma coisa para te contar — disse-me a tia Lena quando cheguei da escola. — É um assunto sério. Procurei uma pista no rosto da minha tia, mas nunca a tinha visto com tal expressão. — O tio Teo perdeu a licença especial que o Presidente Tiso lhe concedeu. Já não pode trabalhar como advogado e podemos ser deportados. — Estão a fazer outra rusga?
  54. 54. — As rusgas têm continuado a ser feitas durante a primavera e o verão. Até agora estávamos protegidos. — Mas o tio é velho e tu vais fazer trinta anos no mês que vem. Vão querer que trabalhem nos campos? — Estão a levar toda a gente, crianças, velhos. O casal ao fundo da rua… — O casal de velhos judeus que tu disseste que tinha mudado de casa…foi para o campo? — Sim, Katinka. — Porque não se esconderam se não queriam ir? — Não é assim tão fácil, Katarína. É preciso conhecer pessoas bondosas e corajosas, ou pagar muito dinheiro. Aquele casal não foi avisado. A Guarda Hlinka bateu-lhes à porta e levou-os. — O tio tem dinheiro? — Sim, tem. E fomos avisados. Hoje à noite, um lavrador, Husár, vai levar-nos até outra aldeia – a cerca de uma hora daqui – e vai esconder-nos no seu celeiro. Celeiro? O meu coração saltou de alegria. Não tinha bordado nem mais uma linha e agora já não tinha de enfrentar a Senhora Dragão. Em vez de me agitar nervosamente na minha cadeira, vou poder saltar de uma escada para cima de montes
  55. 55. de feno. — Não podes sair mais de casa. Se alguma das tuas colegas – a Bošena, ou a Karla, ou a Terka – aparecerem, mando-as embora. Não podes contar nada a ninguém. Isto é muito grave. Percebes? — S… im… Estava a pensar na maneira de me encontrar com a Bošena. — Vou fazer uma mochila com as coisas de que vais precisar e podes juntar-lhes lápis, papel, jogos, alguns livros – nada que seja volumoso ou pesado. — E a Anka e o Pavel? Também vêm? — A Anka vai ajudar a tua professora, a Menina Sipková, enquanto estivermos fora, e o Pavel não precisa de se esconder. Tem uma licença especial por trabalhar na serração. — Quando voltaremos? — Não sei. Não nos incomodes, a mim ou ao tio Teo, com perguntas. Vai para a cama e tenta dormir. Chamar-te-ei quando forem horas de partirmos. — Na próxima semana há ensaios para a peça da escola. Estaremos de volta nessa altura? — Katinka…
  56. 56. Ia começar a dizer algo, mas parou. Tinha um ar tão triste que parecia ir chorar. O toque de vésperas! Assusta-me, embora já estivesse à espera dele. Fecho a porta do quarto por dentro e salto pela janela. Apanho um atalho: salto a sebe, passo pelo buraco da vedação do Radko, atravesso a pastagem – depressa, antes que o touro me veja – passo pelo pomar do tio Dodák – as maçãs já estão a mudar de cor, em breve estarão maduras – e, em vez de ir pela ponte, saltito de rochedo em rochedo pelo rio, corro pela colina acima e chego ao cemitério antes do último toque. A Bošena já lá está, à espera. — Rápido!— sussurro. — Não sabem que saí. — E eu? — Franze o sobrolho. — Julgam que estou a fazer manteiga. — É muito importante. É o maior segredo de sempre. Os olhos de Bošena brilham de excitação. As nossas regras são as seguintes: os grandes segredos só podem ser partilhados no topo da colina, atrás da capela do cemitério. Aí desenhamos um círculo mágico. Dentro do círculo estamos sob juramento e temos de dizer toda a verdade, sem omitir nada. O poder do círculo mágico também afasta os espíritos – estão sempre prontos a escutar e a bisbilhotar. Se uma de nós trair um segredo, fica sob o efeito de um feitiço.
  57. 57. — Podes tornar-te um ouriço-cacheiro, como o Fučik, o guarda-noturno — advertiu-me a Bošena — ou um morcego! Lembras-te de quando a sogra do latoeiro desapareceu durante um mês? A velha Krasovka castigou-a por falar demais. Transformou-a num bode. O mundo da Bošena é cheio de magias. Tropeça num rochedo e brande o punho para um gnomo que só ela vê. Vira o balde do leite e persegue um diabinho com a vassoura. Fala com mafarricos que se sentam em vedações e deita a língua de fora a um corvo – sabe quem ele é, evidentemente. Quando decidimos tornar-nos amigas, levou-me à colina atrás da capela e desenhou um círculo. Dentro do círculo jurámo-nos amizade e lealdade mútuas, para sempre. Sigo a Bošena colina acima. Tem a trança atada com uma fita – só usa fitas aos domingos. — É sobre o Pavel? — Não. A Bošena sabe que eu gosto do Pavel. É um dos grandes segredos que revelei atrás da capela. De outra vez contei-lhe do beijo. O Pavel nunca me prestou muita atenção, mas, um dia, de repente, pegou em mim e beijou-me no nariz. Isso passou-se
  58. 58. no dia em que obteve uma dispensa de ir para o campo de trabalho por trabalhar na serração. Passamos pela capela e chegamos ao topo da colina. A Bošena pega numa pedra afiada. — Toma. Desenha o círculo! Traço um círculo no chão enquanto ela entoa: Círculo mágico, mau-olhado, guarda o nosso segredo bem guardado. Que nenhum ouvido humano ouça o segredo da Katarína, e se eu o revelar que no inferno vá assar. Entramos para o círculo. A cara dela é como um recipiente à espera de ser enchido. A minha garganta aperta-se. Tremo, mexo nos bolsos. As nozes. Tinha-me esquecido delas. — Toma — digo à Bošena. — São para o Jura.
  59. 59. Mete-as nos bolsos apertados da sua larga saia de camponesa. — Então? O que se passa comigo? Estava tão ansiosa por partilhar o segredo e agora as palavras enrolam-se na minha garganta como pedaços de pão seco. — Conta-me! — Claro… conto já. Uma andorinha chilreia por cima de nós. Sigo o seu voo através do céu vermelho, sobre os telhados da aldeia: vejo a escola, os correios e a oficina do ferrador. Refaço os meus passos sobre o riacho, por entre o pomar do Dodák, pela pastagem do Radko e sobre a vedação, até à casa do telhado vermelho, parcialmente escondido pelo castanheiro. Dentro da casa os meus tios estão a encher as mochilas. Vejo o olhar preocupado da minha tia e ouço a sua voz: — Não podes contar a ninguém… ISTO é muito grave… Percebes? Será que não deveria contar este segredo, nem mesmo à Bošena? Olho para o rosto rosado da minha amiga, membro da Juventude Hlinka e filha do polícia da aldeia. Fixa-me atentamente e vejo que a sua expressão oscila entre a curiosidade e a impaciência.
  60. 60. — O que foi? O gato comeu-te a língua? De entre todos os sentimentos estranhos que me assaltam há um que se destaca, mas o que se destaca faz-me sentir ainda pior. — Bošena… — Sim? — Bošena, eu…eu não posso contar a ninguém! Ela assente. — Claro! Só eu é que vou saber. — Não. Eu não posso partilhar este segredo com ninguém no mundo! — Engulo em seco e murmuro — Nem mesmo contigo. — De que estás a falar? Trouxeste-me até aqui para fazeres de mim parva? — Não, claro que não! Eu quero contar-te, mas sei que não devo. — Porque não? Não consigo olhar para ela ou responder-lhe. — Mas eu sou tua amiga, Katarína. Sempre partilhámos todos os nossos segredos! Quero tanto contar-lhe! Sinto-me como se uma corrente me levasse por águas demasiado profundas, como se o facto de contar a Bošena o meu segredo fosse conduzir-me de volta a terra firme.
  61. 61. — Tens de me contar! Estamos dentro do círculo mágico – estás sob juramento! Tremo de frio, embora tenha as palmas das mãos húmidas de suor. Bate com o pé no chão. — Pela última vez, vais contar-me o segredo ou não? — Não posso. A Bošena fita-me. — Já não sou tua amiga — grita. — Odeio-te! Vira-se e corre pela colina abaixo. Quero chamá-la, pedir-lhe que volte, mas fico apenas a vê-la desaparecer. Lá em baixo, a aldeia começa a ficar coberta por um véu cinzento e fino; aqui e acolá uma luz brilha. Sai fumo negro das chaminés, que se mistura com o cinzento. Dentro do círculo mágico, consigo ouvir as campainhas e os mugidos das vacas que regressam da pastagem, bem como o estalar do chicote do pastor. Ouço gansos a grasnar, mães a chamarem pelos filhos, carroças a percorrerem caminhos de terra batida. Aparecem as primeiras estrelas. A aldeia está silenciosa, agora. É tempo da colheita da batata e as famílias dos camponeses comem ao ar livre, em redor de
  62. 62. fogueiras crepitantes. Os cheiros da madeira queimada, da terra e das batatas assadas pairam no ar e misturam-se com o cheiro das maçãs maduras, da relva acabada de cortar, das ervas aromáticas que crescem nas encostas das colinas… Está a fazer-se tarde. Devia correr para casa o mais depressa possível, mas não o faço. Algo me prende àquele lugar. Será que os demónios e os mafarricos da Bošena estão a castigar-me por não ter partilhado o meu segredo? Não consigo sair do círculo mágico.  O celeiro dos Husár Capítulo 5 Consigo ver os rapazes da aldeia a jogarem futebol através das frestas do celeiro dos Husár. O campo fica mesmo por debaixo do nosso esconderijo. Só preciso de me encostar à parede e esgueirar-me por entre as tábuas. Já começo a conhecer os jogadores.
  63. 63. O Anton é o que corre mais depressa. O Stefan tem as pernas mais fortes mas, muitas vezes, passa a bola à equipa adversária, ou atira-a quase à altura do meu nariz. O filho dos Husárs, Durik, é um batoteiro. Consigo vê-lo a rasteirar os outros jogadores e a jurar que não o fez. O mais velho, Viktor, tenta acabar com os desacatos entre as equipas. Hoje é domingo. Aos domingos todos os rapazes e raparigas que são demasiado novos para jogar vêm apoiar as suas equipas. Ignác, o idiota da aldeia, bate palmas e apita sempre que alguém marca um golo. As pernas dele são cotos que terminam nos joelhos. Estica os braços para tentar apanhar a bola que lhe sobrevoa a cabeça. O pequeno Miruško chora, porque é demasiado novo para jogar. Dá pontapés no ar enquanto a irmã mais velha tenta limpar-lhe a cara com a camisa. Debaixo da tília, o preguiçoso Matiš e o seu cão dormem. A tarde está quente. Quente demais para outubro. — Tia Lena, que horas são? — Fala baixo! Já te disseram mil vezes para sussurrares! Sussurro: — Que horas são, por favor? Ela aponta para o relógio.
  64. 64. — Só passaram três minutos desde que me perguntaste da última vez. — Só três minutos? Estou a ficar doida! — Já acabaste de ler ‘O Príncipe e o Mendigo’? — Já. Já li o livro cinco vezes. — Decora o próximo capítulo da ‘Abelha Maya’. Decoraste tão bem os três primeiros. — Já estou cansada desse livro! — E que tal decorares outro poema? — São todos tão parvos! A tia suspira. Como pode manter-se tão sossegada debaixo daquele monte de feno, dias a fio, e só mexer os olhos e a cabeça? — Tia Lena, porque acabaram os jogos de futebol? — Não sei. Tem estado a chover. — Mas hoje não está a chover! — O campo deve estar muito lamacento. — Não, não está, vejo-o daqui. Olha! — Katinka, está quieta. Dorme a sesta ou vai visitar o Igor. Olho de relance para a viga por cima da minha cabeça. O Igor não está lá. Deve
  65. 65. estar cansado de eu estar sempre a observá-lo. Deve estar a fazer uma teia noutro lado. Ou a rastejar sob o meu cobertor. Ou está na nova barba do tio Teo. — Não consigo dormir de tarde. A tia Lena suspira. — Vamos brincar às vinte perguntas. Pensa em alguma coisa ou numa pessoa. — Que jogo estúpido! Outra vez não! Vamos inventar um novo. Ou então conta- -me uma história. Começaste uma ontem. O que aconteceu quando… — Manda calar essa criança, Lena, eu vou ficar maluco! O sussurro do tio Teo parece um sibilo. Há dias em que ele perde a paciência comigo. Não que possa fazer muita coisa. A tia Lena está deitada entre os dois para o impedir de me tapar a boca, como ele frequentemente ameaça fazer. Não faria a sesta mesmo que pudesse. Quando faço a sesta, não consigo dormir de noite e a noite passa ainda mais devagar. Não há nada para observar, ninguém com quem falar. Só há ruídos assustadores e o som da tia Lena a dormir, encostada ao tio Teo. Demasiado longe de mim, que lhe quero tocar. — Tia Lena, porque está tão escuro? — Estamos em novembro. Os dias estão a ficar mais pequenos.
  66. 66. O que significa noites mais longas. Mais barulhos assustadores, guinchos de ratazanas, rostos assustadores que de dia revelam ser uma mochila ou um saco de papel. Mais tempo para desejar que a noite acabe. — Tia Lena… Lança-me um olhar admoestador. Se estivéssemos num campo de trabalho, de certeza que não era pior. Estaríamos ao ar livre, mexer-nos-íamos e falaríamos tanto e tão alto quanto quiséssemos. Poderíamos gritar. Cantar. Aposto que eles lá cantam e contam histórias à noite, em redor de uma fogueira. Depois de um dia de trabalho, dormiríamos uma noite descansada. Não haveria barulhos ou rostos assustadores; nem tosses por causa do pó do feno; nem gestos furiosos para impedir os insetos de nos picarem. O trabalho não deve ser assim tão difícil. Pelo menos, não tanto quanto o é o facto de termos de estar aqui sentados dia após dia, noite após noite, sem mais nada para fazer exceto contar os minutos que faltam. Puxo a manga da tia Lena. Pergunto-lhe, através do alfabeto de dedos que inventámos, quanto tempo passou. Levanta o pulso para que eu veja que só passaram cinco minutos. O vento sopra através das frestas das tábuas do celeiro.
  67. 67. Empilhámos as mochilas contra as tábuas, tapámos os buracos com papel de jornal, mas mesmo assim, sentimos o vento a soprar. Estamos vestidos com gorros, luvas e xailes; enterramo-nos ainda mais no feno, mas os meus dentes não param de bater. — Tia Lena, como vamos saber que a guerra acabou? — Os sinos da igreja vão repicar. Todos os sinos de todas as igrejas irão repicar. — E temos de ficar aqui até lá? Passar o Natal aqui? — Não, Katinka. Iremos para casa antes disso. — Em breve? Não obtive resposta. O que significa que não será cedo. E vai ficar cada vez mais frio! — Quero uma bolacha de açúcar. — Já não há nenhuma. — Nem uma? A tia abana a cabeça. — Onde está a lata dos biscoitos? O tio senta-se. — Será que a criança tem fome ou está apenas aborrecida?
  68. 68. A tia encolhe os ombros. Não sabe. Nem eu mesma sei. — Lena, explica-lhe que temos de racionar a comida. Pelos vistos ela ainda não entendeu isso! — Deixa-a comer os biscoitos, Teo. O Pavel vai trazer novas provisões amanhã. — E se ele não trouxer? Também preciso de explicar, a ti, que estamos em guerra? A tia Lena pega na lata e dá-me dois biscoitos. Mastigo-os com a boca aberta para aborrecer o tio Teo. São salgados e estão secos. Fazem-me sede. — Onde vais? — Preciso de beber e de fazer xixi. Por favor, tia Lena, vem comigo. A minha tia põe-se à escuta de vozes ou passos. Não se ouve nada. Podemos ir. Rastejamos até à borda da alcova e vamos ao balde de água. Sopro os insetos afogados e os bocados de feno antes de mergulhar a colher. Husár e Husárka, a mulher dele, mudam a água quando se lembram. Também esvaziam o balde sujo. Fica no outro lado do túnel estreito, tão estreito que temos de rastejar de barriga para baixo. O Pavel escavou o túnel através do feno, da terceira ou quarta vez em que nos trouxe provisões. Foi ideia da minha tia. — Precisamos de privacidade, disse. — Não podemos viver como porcos.
  69. 69. — Temos de viver, argumentava o tio Teo. — Rastejar até ao balde faz muito barulho. — Teo, ou mantemos um mínimo de dignidade ou não vale a pena o sacrifício que estamos a fazer! O tio cedeu. Segurou a lanterna enquanto Pavel escavava. A tia Lena agradeceu- -lhes. — Um presente de aniversário atrasado. Que nunca esquecerei. Todos a abraçámos. Ninguém se tinha lembrado que ela fazia anos. Agora temos privacidade, mas tenho medo de sufocar. Inspiro fundo e só expiro quando chego ao outro lado. Às vezes, tenho a sensação de nem sequer conseguir lá chegar. É por isso que quero que a tia Lena venha comigo, para ter a certeza de que não fico presa ou de que não sou engolida por uma ratazana. Gosto do lado oposto à nossa alcova. Não há feno; apenas um chão de traves de madeira. Posso pôr-me de pé. Esticar-me. Andar! São cinco passos até ao balde de água. A tia Lena sai do túnel coberta de feno. — Ficas engraçada — rio-me dela. — Pareces uma meda de feno ambulante. — Pouco barulho, Katinka, podem ouvir-nos!
  70. 70. Os Husárs colocam uma escada quando nos trazem água para beber e lavar os dentes. Já não nos trazem baldes para nos lavarmos. Limpamo-nos com bolas de algodão embebidas em álcool. Para esvaziar o balde de despejos põem a escada do outro lado e, quando acabam, escondem-na de maneira que ninguém a possa utilizar. — Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito… Os filhos dos Husárs estão a jogar às escondidas com os amigos. O que tem de procurar os outros conta até vinte enquanto eles se escondem. Veroǐka e Jolanka, as filhas mais novas, procuram um esconderijo dentro do celeiro. — Olha. Este é um bom lugar. Cobre-me com feno e procura outro sítio para ti. — Onde? — Em qualquer lado! — Olha, vê! — O que foi? — Voltaram a pôr a escada. Fica aqui enquanto eu subo! O tio Teo sobressalta-se. Aponta para as partes da escada que se veem da nossa alcova. Uma vez mais Husánka esqueceu-se de tirar a escada!
  71. 71. — A mãe disse para não subirmos. — Ela não precisa de saber. — Castiga-nos se souber. — Quero lá saber! Eu vou subir. O tio e a tia entreolham-se. Os olhos dele suplicam-lhe que impeça Veroǐka de subir, mas ela não pode fazer nada. A escada oscila. O meu tio manda-nos ficar quietas; depois senta-se de pernas cruzadas entre as pontas da escada. A última coisa que o vejo fazer é colocar um molho de feno por cima da própria cabeça. Ouve-se um grito. Um grito sucede-se a outro. Ouvem-se passos a descer a escada rapidamente. — Salva-me, Jesus, salva-me! — Veroǐka, o que te deu? Estás doida? — Há um homem lá em cima, com palha a sair-lhe da cabeça… — O quê? — …e uns olhos enormes. Juro! O tio aponta para os seus óculos, que são os olhos que Veroǐka julga ter visto. Todas as crianças estão agora dentro do celeiro e as perguntas atropelam-se. — O que aconteceu? — Por que gritou ela? — Que viu?
  72. 72. Veroǐka chora. — Diz que há um homem lá em cima, com palha a sair-lhe da cabeça. — Um boneco de palha! A nossa Veroǐka viu um boneco de palha na alcova. Quem disse isto foi o Durik. — Vou espreitar — voluntaria-se. — Alguém quer vir comigo? A cara do tio Teo está branca como a cal. Tem a boca escancarada. Uma vez mais, a escada mexe-se. Ficamos petrificados. — Ei! O que estão a fazer aí? Já para baixo! Ouve-se a voz de Husárka sobrepor-se às das crianças. — Há um homem lá em cima, Mamã, eu vi-o… — Já para baixo, Durik, ou dou-te uma sova, mesmo com esse tamanho! Ouve-se a escada a ser retirada e Durik a saltar ou a cair. — Todos daqui para fora! O celeiro fica vazio. Ainda ouvimos Veroǐka, com a voz trémula, a contar à mãe o que viu. O tio abana a cabeça. — Logo à noite toda a aldeia vai saber. — Ninguém vai acreditar nela, Teo. As crianças imaginam coisas.
  73. 73. — O Durik é suficientemente grande para perceber. O rapaz vê um boneco de palha, a mãe fica histérica, há uma escada escondida e fechada à chave. Ora o rapaz não é estúpido e vai suspeitar de alguma coisa. — Acalma-te, Teo. Não podemos ir embora. — Temos de ir. Não podemos confiar na Husárka. A escada esteve lá toda a manhã. Qualquer pessoa podia ter subido. — Teo, não temos para onde ir. — Temos — quase grito, lembrando-me, em seguida, que tenho de segredar. — Temos um lugar para onde podemos ir. Ponho-me entre a minha tia e o meu tio. — Por favor, vamos para o campo de trabalho. Estaremos ao ar livre. Teremos casas de banho em vez de baldes fedorentos. Posso brincar com outras crianças, sem ter de vos aborrecer. Estou farta de estar quieta, de sussurrar e rastejar. Quero que vamos para o campo. A tia Lena suspira. — Não sabes o que dizes. — Sei. Quero ir. Estamos a apodrecer aqui porque és demasiado preguiçosa para trabalhar. Odeio-te!
  74. 74. O tio olha-me especado. A tia Lena cobre o rosto com as mãos. Tomei uma decisão: da próxima vez que o Durik vier ao celeiro, grito. Há crianças que descem a montanha, transportando baldes cheios de bagas: mirtilos, framboesas, murtas, morangos… Sumos rosa, vermelho e púrpura emprestam cor aos seus pés descalços, à medida que pisam as bagas espalhadas pelo caminho. Ignác, o simplório, tenta tocar os baldes que vemos passar. — Vocês aí! Peguem num balde e juntem-se a nós. Há bagas para apanhar. — Levantem os ramos de pinheiro do chão. Encontrarão cogumelos tão grandes como punhos. — Não posso. — Que disse ela? — Não sei. Não consigo ouvi-la. — Ei, fala mais alto! — Não posso. Eles podem ouvir-me. — O quê? Um jovem debruça-se para me ouvir. É Viktor. Já é um homem, até tem bigode.
  75. 75. — Quem são eles? — Tu sabes. A guerra. Estão à nossa procura. — A guerra? — Viktor bate na anca e ri-se. — A guerra já acabou há muito. Não precisas de sussurrar. Podes gritar. Abro a boca para gritar, mas da minha garganta só sai um som rouco. — Atira-lhe um balde, Stefan. Despacha-te, o verão não dura para sempre. Um balde rola encosta abaixo. Estico os braços mas não consigo apanhá-lo. — Despacha-te, está a fazer-se tarde. Fito o balde branco e vazio. O sol põe-se por detrás das montanhas. O balde torna-se cinzento. Continuo a tentar apanhá-lo. Todas as crianças se foram embora à exceção de Ignác. Bate palmas e guincha. Na escuridão tento agarrar o balde que já deixei de ver. Pés. A correr, a atropelarem-se, a mudar de direção. Pés de crianças a jogar futebol. Lá está Anton, mais rápido do que os outros. E Durik, a rasteirar Stefan. Ignác, de pé sobre os seus cotos, tenta tocar a bola quando lhe passa sobre a cabeça. — Ei, tu, vem jogar connosco.
  76. 76. Eu? Ele quer dizer eu, uma rapariga? Deve ser. Ignác e eu somos os únicos a assistir. — De que estás à espera? Conheço aquele rapaz. É Miruško, já suficientemente crescido para jogar na equipa. — Não posso — sussurro, escondendo os cotos que tenho em vez de pernas. — Lá está ela a sussurrar. Não acredita em nós. — Ouves aqueles sinos? — grita o preguiçoso Matúš, debaixo da tília. — A guerra acabou. Por isso estão a repicar. — Tia Lena, é verdade? Onde está a tia? Ainda agora estava à minha beira, a bordar. — Tio Teo – viro-me para ele, — é verdade? Há pedaços de feno que crescem na cabeça dele. E que lhe saem da boca. Há aranhas a rastejar nos seus olhos vazios. Quero fugir mas as pernas não mo permitem. Miruško faz ressaltar a bola. — Ou te levantas antes de eu contar até dez ou nunca te deixaremos jogar connosco. Estás a ouvir? — Estou.
  77. 77. — Um, dois, três… Os sinos continuam a repicar. O barulho enche o vale. Agarro-me a esse som como se fosse uma corda e tento levantar-me. — Quatro, cinco, seis, sete… — Para, não consigo! — Não quê? Oito, nove… — Não consiiigo! Uma mão tapa-me a boca. A cabeça de Ignác, o simplório, é uma bola de futebol que gira, gira, gira… — Acorda, Katinka. Estás a ter um pesadelo. A tia Lena esfrega-me a testa para acabar com o pesadelo. As crianças e o prado desapareceram. Mas os sinos continuam a repicar. — Tia Lena, aqueles sinos… — Sim? — A guerra acabou? — Não. — Então, porque repicam?
  78. 78. — É Natal, Katinka. Estão a tocar para a Missa do Galo. Encosto a testa às tábuas geladas e olho para a paisagem iluminada pela lua. Tanto quanto consigo ver, há lanternas a tremeluzir nos caminhos que foram abertos na neve. Vêm pessoas de todos os lados da aldeia para a igreja. A Missa do Galo. Dentro da igreja há gente. Há luz. Quem me dera lá estar, com a Anka; ela contou-me como era. Há mil velas acesas no altar. Os vitrais das janelas brilham e os halos dourados dos santos reluzem. Os padres e os acólitos têm paramentos festivos e caminham pela igreja abaixo com os queimadores de incenso. Os círculos de fumo rodeiam as cabeças dos camponeses de faces coradas e roupas quentes, dissolvendo-se depois no ar, em nuvens brancas. Os santos parecem querer pisar essas nuvens. O órgão toca suavemente durante as orações. Depois, como um pavão que estica a cauda, cresce em sons tão fortes e belos que nos fazem estremecer. A igreja está cheia de música – o órgão, os sinos, os cânticos dos fiéis. Noite feliz, noite feliz… entoam, dando as boas vindas a Jesus Salvador. — Estás a tremer. Vai para debaixo dos cobertores. — Disseste que não passaríamos aqui o Natal!
  79. 79. Fito a tia Lena. À luz do luar a pele dela parece amarela. As faces estão cavadas, os olhos encovados e sem expressão. Algo de afiado se mexe no meu estômago. Rastejo para debaixo dos cobertores e enfio-me no feno. — Depois da guerra, irei poder apanhar bagas com as outras crianças? Ela não responde. Enrosco-me de tal modo que os joelhos me tocam o queixo. — E quando a guerra terminar — sussurro, — deixas-me jogar futebol com os rapazes? Vira-se para mim. Os seus olhos arregalam-se. Volto a ver neles a chama de antigamente. — Deixas, tia Lena? Pela primeira vez desde que viemos para o celeiro, ouço-a rir. Um riso suave que ninguém mais pode ouvir. 
  80. 80. Rituais de primavera Capítulo 6 — O que se passa? Fala alto, pequena, não te ouço! O tio Teo está sentado à secretária, a bater com um lápis nos nós dos dedos. Está aborrecido comigo. Estamos em março, já voltámos do celeiro há dois meses, mas ainda sussurro. Tento de novo. — O jantar está pronto. Faz uma careta a imitar a minha cara e murmura qualquer coisa. Depois, debruça- se e grita: — O jantar está pronto! Foi isso que disseste? Di-lo de maneira que eu ouça! Encolho-me e tapo os ouvidos. Agarra-me os pulsos e obriga-me a baixar as mãos. — Vá lá, di-lo em voz alta! Inspiro com força e grito: — O jantar está pronto! — Assim, sim. Agora já te ouço — diz, acenando com a cabeça. Não me lembro de quanto tempo levei a recuperar a voz. Depois de ter passado
  81. 81. quatro meses no celeiro, sempre que ouvia o menor ruído dava um salto. Todas as palavras se assemelhavam a gritos. Estava sempre a mandar calar toda a gente. A tia Lena tinha muita paciência comigo... — Já regressámos, Katinka — lembrava-me constantemente. — Já não precisas de sussurrar. E põe-te direita! Também me custava não me vergar, com medo de que alguém me visse. Será que a minha voz estava cada dia mais audível? Assim, de repente? Não me recordo, mas o tio Teo parecia achar que não. — Se essa criança continua a palrar sem cessar, não se pode trabalhar! Está aborrecido. Vejo-o pela forma como continua a bater nos dedos da mão. — Abre um livro — ordena-me. — E se queres cantar, canta no jardim! Hoje não posso sair ou ler – há trabalho a fazer. A Anka e eu estamos a fazer os preparativos para a Páscoa. Estamos a tingir ovos e a decorá-los com motivos eslovacos. Nas mãos dela tornam-se bonitos. Nas minhas, partem. — Por favor, Anka, ajuda-me. Quero tingir um ovo que seja mais bonito do que os outros. — Ai sim? — diz ela. — Para quem? Para quem, pergunta, como se não soubesse! Para o Pavel, claro. Já o amava com
  82. 82. todas as minhas forças antes de irmos para o celeiro, mas agora ainda o amo mais. O lugar onde o amor nasce dentro de mim deve ter crescido durante o tempo em que esperava para ouvir os seus assobios – um longo, três curtos – que eram o sinal para baixar a corda. Nas noites em que o Pavel vinha, o tio Teo ficava tão impaciente como eu. Só que eu ficava todos os dias, e o tio só nas noites em que ele vinha. Quando via as estrelas aparecerem no céu, olhava pelas frestas do celeiro e preocupava-se. — Nunca se atrasou tanto. — Que disparate — sussurrava a tia Lena. — Sabes que ele só vem quando escurece e que leva uma hora para cá chegar. O Pavel vinha uma vez por semana trazer-nos as provisões de que necessitávamos, notícias sobre a guerra, e dinheiro para darmos aos Husárs por nos esconderem no celeiro. — Deve ter acontecido alguma coisa, Lena, ou ele já estaria cá a esta hora. Os papéis da licença são uma armadilha. Podem ser revogados a qualquer momento. Querido Jesus, não deixes que aconteça nada ao Pavel. Esquece tudo o resto que te pedi e mantém-no são e salvo. Por favor. Ouvem-se passos. Sustenho a respiração. Seja quem for, não para e não assobia.
  83. 83. O tio olha para o relógio com a luz da lanterna e geme. Assobios. Mas não é o sinal do Pavel, é uma canção. Conheço a letra. Só mais uma bebida, minha pombinha, e já me vou embora…Talvez alguém que regressa da taberna. Prás! — Jesus Maria! Seja quem for, acaba de bater contra algo; pragueja e vai-se embora. Continuamos às escuras e os únicos sons que se ouvem são a nossa respiração e o tio Teo a descarregar a sua angústia no feno. De repente, ouvem-se vozes. De homem e de mulher. Devem ter parado mesmo debaixo do nosso esconderijo. Falam em voz baixa, mas consigo ouvir algumas palavras. Ele está a pedir-lhe um beijo. Ela nega e ri-se, envergonhada. Noutras ocasiões quereria ouvir o que têm para dizer, mas agora são um impeditivo para que o Pavel venha. Pode ser que ele esteja à espera de que eles se vão embora. Silêncio. Será que estão a beijar-se? Colo o ouvido às tábuas, mas logo me afasto por causa do vento. Nenhum de nós ouve os seus passos, mas quando ouvimos finalmente o seu assobio é como se soasse uma trombeta celeste. O meu coração dispara. O tio desce a corda. Para esconder a minha excitação, finjo que estou a dormir. O Pavel sobe pela corda até à nossa alcova. Ouvem-se as saudações e as perguntas do costume. Como
  84. 84. conseguiu cá chegar? Alguém o deteve? Ainda tem um emprego seguro? Alguém foi lá a casa perguntar por nós? — Ninguém — responde Pavel. — As deportações pararam. Ninguém sabe porquê. — Talvez seja porque já somos tão poucos na Eslováquia. Já não compensa fazer as viagens de comboio ou pôr a Guarda Hlinka a dirigir a operação. — Não é uma questão de dinheiro, Lena — diz o tio. — A Guarda trabalharia até de graça para se ver livre do último judeu. — Ainda se ouve falar em judeus que são mandados para campos aqui na Eslováquia, mas desde outubro que nenhum comboio foi para a Polónia. Já são dois meses, pai. Acho que já é seguro voltarem para casa. — Para casa? Belisco-me para ter a certeza de que não estou a sonhar, mas o tio Teo comenta: — O facto de não haver deportações hoje não quer dizer que não as haja amanhã. Para já ficamos. Que novidades tens da frente? Eles já avançaram? O Pavel passa de eslovaco para húngaro para que eu não perceba. Será que suspeita que eu não esteja a dormir? Mas eu percebo na mesma. Eles são os russos e parece que não posso saber que os tios querem que eles ganhem a guerra. Quando o ouço abrir a mochila, sento-me, esfrego os olhos e espreguiço-me.
  85. 85. — Olá, priminha. Acordei-te? — Hum… Apetece-me pôr os braços à volta do pescoço dele, beijá-lo mil vezes, mas em vez disso, lastimo-me: — Sim, acordaste. Debaixo do seu cobertor, o tio acende uma lanterna e ilumina as coisas que o Pavel trouxe: pão, queijo, uma salsicha, bolachas, um pote de mel, cerejas enlatadas. Roupa interior limpa. Toalhas. Um livro para cada um de nós. — Olha, tia Lena! As Viagens de Gulliver! — Psiu! Calada! Devia ter ido à “casa de banho” enquanto estávamos à espera do Pavel. Agora tenho tanta vontade que não posso esperar um minuto. Rolo até à tia Lena e segredo- -lhe ao ouvido. Ela suspira. — O Pavel que te leve. O Pavel? Que ideia! — Vou sozinha. — Katinka, não tem importância. Está escuro, ninguém te vê. Tenho medo de ir sozinha. Deixo que o Pavel vá comigo. Deslizamos de barriga
  86. 86. colada ao chão e chegamos ao outro lado do túnel sufocados com o pó. O Pavel põe a minha cabeça dentro do casaco dele para que a minha tosse não se ouça. Adoro o cheiro do casaco dele, adoro o facto de ter a minha face encostada ao seu estômago. Continuo a tossir, mesmo quando já não há razão para o fazer. Pega na minha mão. Andamos em bicos de pés sobre as pranchas de madeira. São cinco passadas até ao balde. Quando chegamos lá, entro em pânico. Não posso fazê-lo em frente a ele. Antes morrer. Ou explodir! — Pavel, por favor… Leva-me de volta. Desliga a lanterna, afasta-se o mais que pode e vira-se de costas. Agacho-me sobre o balde. Assim às escuras, o Pavel não me pode ver. Além do mais, está de costas, mas pode ouvir. Aguento o mais que posso. O luar permite-me ver os cotovelos dele, levantados. Está a tapar os ouvidos. Para não ouvir. Nesse momento fico à vontade e, juntamente com o alívio, cresce um sentimento de amor tão grande que as lágrimas me vêm aos olhos. — Pavel — sussurro nas suas costas, enquanto ele mantém os ouvidos tapados, — amo-te, amo-te, amo-te…
  87. 87. — Para quem é o ovo mais bonito de todos? — Podes adivinhar, Anka. Vais ajudar-me, não vais? A Anka ajuda-me. Quando acaba de o tingir, é de longe o ovo mais bonito de todos. Embrulho-o num lenço bordado e escondo-o na minha cómoda. No domingo de Páscoa, o tio Teo não vai para o escritório. — Um dia perdido — resmunga. A gritaria e os risos começam logo de manhã. Os “cavalheiros” da aldeia vêm a nossa casa aspergir a tia Lena com perfume. Perseguem-na à volta da mesa de jantar enquanto ela emite sons agudos e se agacha. Sempre que a Anka se mostra, fazem-lhe o mesmo, mas, para mim, só sorriem – não passo da priminha do Pavel. A tia Lena oferece ovos coloridos de um cesto e serve bebidas. — À vossa saúde, senhores! — À sua, cara senhora. O farmacêutico também aparece. O médico. O pai da Bošena, Švorka, vestido à paisana. O outro polícia não aparece. E o encarregado da serração também não. A tia Lena fica preocupada. Será que vão despedir o Pavel, o único empregado judeu?
  88. 88. — Não será despedido — assegura-lhe o tio Teo. — Não podem despedir um engenheiro brilhante, enquanto os outros estiverem na guerra. — O diretor da escola da Katinka também não apareceu. — Talvez ainda venha. — E o escroque do Radko também não. — Está a candidatar-se a Presidente da Câmara. Não pode ser visto com judeus. — No ano passado o presidente veio. Com o juiz. — Vieram conhecer-te. Felicitar-nos pelo casamento. — Vi há dias o veterinário. Levou a mão ao chapéu e disse que viria hoje. — É um fascista e um sacana. Juntou-se à Guarda Hlinka. — Estão todos a fazê-lo, Teo, do juiz Bundig ao Andrej, o limpa-chaminés. É assustador. A tia olha para o cesto quase cheio de ovos. Por detrás da cortina, observa a rua, mas não há sinais de nenhum outro homem a dirigir-se a nossa casa. O Pavel está de férias. Passo dias a pensar que vestido hei de pôr, mas ele nem olha para mim quando sai do quarto. Oh, Pavel, não vês quanto cresci? Não, não vê. Está com pressa de ir aspergir as raparigas da aldeia. Dá-me um encontrão e nem sequer se desculpa. Deita perfume na tia Lena e na Anka, mas nem sequer me põe
  89. 89. uma gota. O portão do jardim abre-se. Os rapazes da aldeia andam à procura da Anka. Se a encontram, levam-na até ao rio e deitam-lhe baldes de água na cabeça. Ou põem-na debaixo da bomba de água. — Onde está ela? — perguntam-me. — Sabes? Abano a cabeça. Procuram-na por todo o lado. Não a veem aninhada atrás dos arbustos de framboesas. Eu estou mesmo à frente deles, mas nem sequer se importam comigo. Tento suster as lágrimas. — Eh, tu aí! O que te faz pensar que vais ficar seca? Zasran, o vaqueiro da aldeia, está a saltar a vedação, com o cantil de pele de cabra a tiracolo. Pergunto-me com quem estará a falar. Será que viu a Anka? — Tu aí, com sardas. Espera até eu te apanhar! Eu? Não vejo para onde está a olhar porque é zarolho – mas não há mais ninguém em volta. Deve pensar que eu sou outra pessoa, uma rapariga mais velha. Quando se aproximar de mim, vai ver que se enganou e ir-se-á embora. Mas não. Agarra-me o pulso e abre a garrafa que traz com os dentes. — Não! — grito, tentando libertar-me. — Não! Corro. Segue-me, a coxear. Ouço-o respirar com força. Corro para a Anka, atrás
  90. 90. dos arbustos, e grito para que a tia Lena me ouça, mas é o Pavel que quero que me ouça. — Não te atrevas a molhar-me! Atrás de mim a respiração ofegante cessou. O que se passou? Será que ele se cansou? Terá entornado a água? Espreito por detrás do barracão. O Zasran está deitado debaixo da nogueira, a observar as nuvens. — Ouviste? — grito-lhe, saindo detrás do barracão. — Não te atrevas a molhar- -me! Senta-se e boceja. Que preguiçoso! Não admira que as vacas fujam para o campo de milho. — Não te atrevias, pois não? Encolhe os ombros. Faço-me tropeçar e caio a seus pés. — Socorro! Magoei-me! Grunhe, levanta-se e começa a ir-se embora. Oh, não! Não posso deixá-lo ir-se embora. Toda aquela gritaria e nem uma pinga de água para mostrar. Todos me vão gozar: Katarína, estavas a guinchar como um porco. De quem estavas a fugir, de um fantasma? — Volta aqui — suplico, a choramingar.
  91. 91. — Para quê? — Tenho sede. Vou desmaiar. Volta-se e diz: — Vou buscar água a tua casa. — Não! Tens água contigo, não tens? Soergo-me e apoio-me no meu cotovelo. De joelhos, dá-me de beber do cantil que traz. Cheira a vacas, a fumo e a suor. Agarro no pulso dele e entorno o cantil. Um jacto de água cai-me na blusa e no meu colo. — Socorro, estás a afogar-me! Para! O Zasran levanta-se. Sem olhar para trás, salta a vedação e desaparece. Corro para a rua. — Olha para mim! Estou toda molhada! Encharcadas, as raparigas mais velhas da aldeia fogem dos rapazes, enquanto as mais novas, atrás das cercas, observam. Onde estás, Pavel? Olha para mim! Já não sou a tua “priminha”. Fui ensopada! A Poluška, a criada do médico, foge do filho do moleiro. Por que se dá ela ao trabalho de fugir? Não pode ficar mais molhada do que está… E a Marka? Parece uma ninfa. Será água ou lágrimas que lhe correm pela cara abaixo?
  92. 92. — Coitada de ti, Marka. Apanharam-te. A mim também! Olha. — Apanharam-te — troça. — Que história mal contada! Ainda tens sono... A Tonka e a Terka, as gémeas da minha sala, gozam-me. — Que fizeste, Katarína, caíste no tanque? — Ensoparam-me! — Quem? Se soubessem, não paravam de rir. — Quem? — Um dos rapazes mais velhos. — Mentirosa! Deitam-me a língua de fora e eu faço-lhes orelhas de burro. O vento é frio. Tremo nas roupas molhadas, mas não quero que sequem. Quero que o Pavel as veja. Tenho de ir para casa. Ele já deve ter chegado. Não chegou. Sento-me na cozinha, à espera de ouvir o portão ranger. Quando o ouço, levanto-me para ir ter com ele, mas vejo a Anka a choramingar. Tem o cabelo loiro todo molhado e a blusa colada ao peito. Por onde passa deixa poças de água. A minha blusa está seca. A minha saia, quase. Pavel, onde estás? Esgueiro-me para a casa de banho. Abro a torneira e ponho um dedo na abertura.
  93. 93. Não estou a fazer batota – as minhas roupas estavam molhadas; estou apenas a mantê-las molhadas. A tia Lena vê-me. — Katarína, que estás a fazer? Ainda apanhas uma constipação, minha tola! Tira- -me já essa saia! Manda-me sentar na cozinha, junto à lareira. A minha saia está a secar por cima do fogão. Escurece. Os pássaros instalam-se na nogueira. Tenho um nó na garganta que não se desfaz. O lindo ovo de Páscoa que ia dar ao Pavel está na minha cómoda, embrulhado no lenço bordado. Não lho dou. Nem que ele entre agora pela casa dentro e despeje o frasco de perfume por cima de mim. Mas ele não regressa. Nem agora, nem depois. E quando regressar? Não vai prestar-me a menor atenção, nem a mim nem à minha saia. Ou dirá apenas: — O que aconteceu, sua desajeitada? Entornaste leite por cima de ti? Via o Pavel mais vezes quando estávamos no celeiro. Nas noites em que ele vinha, passávamos horas a sussurrar, deitados lado a lado. — Ainda não adormeceste? — Já estava a dormir.
  94. 94. — Com os olhos abertos? — Estavam fechados. — Não quando abri os meus. Apanhei-te a olhar para mim. Finjo ficar ofendida e viro-me de costas para ele. Será que ele se vai importar que eu amue? — Estás a tremer. — Não estou. — Aproxima-te mais. — Não. Mas volto-me de maneira a que ele me possa agarrar. — Já te apanhei! Contorço-me. Dou pontapés. Mordo-lhe a mão. — Amigos? — Não! — Queres que te solte? — Não me importo. O tio Teo e a Tia Lena estão a dormir. Se há alguém a ver-nos é a aranha, Ivana, ou um rato. O Pavel belisca o meu nariz. Somos amigos outra vez. Respiro fundo. As
  95. 95. mãos dele cheiram a madeira verde, a cigarros e à pasta com que as esfrega quando vem da serração. — Pobre Katinka — sussurra — deves aborrecer-te imenso; já lá vão três meses, mas em breve vais para casa. — Vou? Tenho estado a pedir para ir todos os dias, há já semanas, mas agora não quero ir. Quero ficar aqui, com o Pavel, e nunca mais me ir embora. — Quando? — Dentro de dias. A tia Lena não queria dizer-te até ter a certeza. — É a tua última noite aqui? — Espero que sim. Espero que não. Em casa vai ser como dantes. Não me verá sequer, nem terá tempo para mim. Mesmo esta noite será curta. Tem de se ir embora ainda de madrugada. Vejo as estrelas através das frestas das tábuas. Quem me dera ter um milhão de mãos para as manter lá, para impedir a alvorada de vir. O Pavel está a dormir. Os meus lábios estão tão perto da sua face. Será que ele acordaria se eu … — São horas de ires para a cama.
  96. 96. … se eu o beijasse muito ao de leve? — Ouviste? — Sim, tia Lena? — Disse que eram horas de ires para a cama. O teu quarto está quente. A Anka acendeu a lareira. — Que horas são? Não obtenho resposta. — Que horas são, por favor? A tia Lena está sentada na mesa da cozinha, a olhar-me. Abana a cabeça. — Que se passa? — Katinka, já não estamos no celeiro. Regressámos a casa, lembras-te? — Eu sei que estamos em casa. — Então, porque sussurras? 
  97. 97. Uma aranha seca, três bigodes de gato Capítulo 7 Esta noite é de lua cheia, a primeira desde o Pentecostes. Tenho de o fazer esta noite. Ainda falta algum tempo para ficar escuro; este é o dia mais longo do ano. Estou sossegada ao jantar e mal toco na comida. A tia Lena vê se tenho febre. Sorrio, deito mais algumas nozes na minha massa e como outra colher. Não quero que a tia se preocupe porque, se o fizer, e vier ao meu quarto à noite, encontrará uma cama vazia. Amanhã à noite, o Pavel vem a casa. O meu coração bate mais forte só de pensar nisso. Desta vez, quando estivermos sentados à mesa, vou sentir os olhos do Pavel sobre mim. Vai olhar-me como às vezes olha a Anka, quando julga que ninguém está a observá-lo. Também não é para admirar. A Anka tem dezoito anos, cabelo loiro e faces rosadas. Aos domingos, quando veste o traje nacional eslovaco, ficam todos a olhar para ela. Mas amanhã o Pavel só vai ter olhos para mim. Ajudo a Anka a lavar a louça do jantar. Tremem-me as mãos. Falta uma hora até a tia Lena me mandar para a cama e duas até eu sair. Como vou conseguir ficar
  98. 98. acordada? Uvas passas! Vou precisar delas no caso de algum duende me tentar enganar. Vou levar um bolso cheio e uma fotografia do Pavel. Posso olhá-la durante horas, mas, se o vir em pessoa, fico com a cabeça à roda. Quero tanto que ele repare em mim mas, quando o faz, coro, gaguejo, fujo e escondo-me. Só que amanhã não vou esconder-me. Amanhã vou estar bonita quando ele olhar para mim. Está a anoitecer. Já se ouvem os pássaros a chilrear na nogueira. À meia-noite, a lua cheia aparecerá no céu e já sei o que tenho a fazer. A tia Lena manda-me à despensa buscar pão, queijo e uma maçã, o meu almoço de amanhã na escola. Pego nas passas e levo-as para o meu quarto, para as esconder. Na minha cómoda, debaixo de uma pilha de meias de lã, está a caixa. Dentro dela tenho tudo de que preciso hoje à noite, juntamente com as instruções escritas num pedaço de papel. Tive tanto medo de ir à bruxa, mas Santa Catarina não ouvia as minhas orações e a velha Krasovka tem poderes mágicos. — Não vás de mãos vazias — tinha-me avisado a Anka. — Leva-lhe uma salsicha e mostra-lha assim que ela te abrir a porta. A cabana da velha Krasovka fica na orla da floresta e parece prestes a desabar. Não passa de um amontoado de tábuas. Não tem janelas nem chaminé. No dia em que fui visitá-la, levei uma salsicha embrulhada numa folha de jornal. Os meus dentes
  99. 99. abanavam todos. Quase voltei atrás três vezes. Quando lá cheguei, a mão tremia-me tanto que quase não conseguia bater à porta. De repente, a porta abriu-se de par em par. O poder dela deve ter-lhe dito que eu estava ali. — Vai-te embora, espia — guinchou. — Não tens nada a fazer aqui! Fiquei pregada ao chão. Ela estava toda vestida de preto, curvada sobre uma bengala. Os olhos eram pequenos e estrábicos, tinha cabelo a crescer-lhe no queixo pontiagudo, e um longo e enorme nariz. Ainda era mais feia do que eu pensava. Levantou a bengala e apontou-ma, como se fosse uma varinha mágica. — Vai-te embora! Não me ouviste? Não conseguia proferir palavra. Só consegui abanar o jornal e mostrar-lhe a salsicha. Olhou-a como se fosse uma serpente morta. De repente, a fisionomia alterou- -se-lhe. Mostrou, num esgar, os dentes salientes. Cheirou a salsicha. — Quem és, querida? — arrulhou. — Que desejas? Entra, entra. O cheiro pestilento da cabana deu-me náuseas. Tive medo de vomitar. Cheirava a carne podre, a queijo bolorento, a naftalina e a outras coisas cujos odores me traziam lágrimas aos olhos. A única luz provinha de um buraco no teto e de um velho fogão a lenha que tinha um pote ao lume. Havia prateleiras com garrafas e campânulas de todos os tamanhos. Algumas delas tinham lá dentro coisas rastejantes.
  100. 100. Ervas secas aos molhos pendiam do teto. A velha apontou uma cadeira para eu me sentar. Gritei. Algo vindo do teto tinha passado pela minha cabeça e pousado no meu ombro. — Não te assustes, querida; é o Šigmund. Quer ser teu amigo. O Šigmund era um corvo. Havia pus no seu olho direito. Um outro pássaro andava pela mesa, com a perna numa tala. — Ficarão bons em breve — riu-se para consigo. — A velha Krasovka sabe do seu ofício. Prometeu ajudar-me, mas eu teria de voltar mais vezes lá, e de cada vez com uma salsicha ainda maior. Na minha última visita, ditou-me as instruções a seguir. — Que disparate — murmurou, quando lhe disse que já tinha mergulhado a cara numa bacia de vinagre, que já a tinha untado com iogurte e pétalas de rosa molhadas pelo orvalho. — Que disparate! Contas cinquenta dias a partir da Páscoa; é o Pentecostes. Na noite da primeira lua cheia vais fazer tudo o que eu te disser. Quando te olhares ao espelho de manhã… — De manhã! Tenho de esperar até…
  101. 101. — Cala-te e ouve! Só poderás ver-te depois do galo cantar duas vezes, mas antes que cante a terceira. Não adormeças — avisou-me. — Mas se… — Nada de ses, Katarína, isto é magia! Se olhares cedo demais ou tarde demais, deitas tudo a perder! — Está bem, está bem, eu espero… A tia Lena chama-me à cozinha. Às nove horas dá-me um beijo de boas noites e manda-me para a cama. Visto a camisa de dormir por cima do meu vestido. No espelho vejo uma adolescente desajeitada com cabelo ruivo e sardas. Odeio estas sardas! É por causa delas que o Pavel continua a olhar para a Anka em vez de olhar para mim. E na escola é “Ó sardenta!” para aqui e para ali. “Sardenta, sardenta, que tens na cara?” “Não vês que adormeceu debaixo de uma macieira e que os pardais a apanharam?”; “Aquilo são mas é caganitas de morcego!”; “De mosca!”; “Ovos de aranha!” A boca contorce-se, o queixo treme. O espelho fica turvo. Espero que ela apareça. Fica bonita no seu vestido de veludo verde e com o chapéu mole de abas largas. Pele lisa, faces rosadas, cintura fina. Sou eu daqui a uns anos. “Não vás embora”, peço-lhe, mesmo se quem me olha é a sardenta, de olhos vermelhos, um nariz borbulhento e
  102. 102. uma boca a fazer beicinho. Deito-lhe a língua de fora. ”Não vou ver-te mais”, digo-lhe. “Adeus!” Não posso ler na cama depois das nove e meia, mas faço-o com uma lanterna debaixo dos cobertores. Os Contos de Grimm. Leio-os vezes sem conta. Nas minhas histórias favoritas sou a Princesa em apuros e o Pavel é o Príncipe que vem salvar-me. Todos os príncipes têm a cara dele; todas as princesas têm a cara que eu queria ter. O meu nariz toca a página. Ai! Tenho estado a dormitar. Salto da cama e verifico as horas. Ainda tenho de esperar mais uma hora e um quarto. Tento ler mais um pouco, mas não estou a prestar atenção. Passo a vida a olhar para o relógio e a preocupar-me: será que o portão do jardim vai ranger e acordar a tia Lena? Será que alguém da aldeia vai ver-me? Terei na caixa tudo aquilo de que preciso? Tiro-a da cómoda e verifico mais uma vez o seu conteúdo: uma aranha seca, três bigodes de gato, um dente de alho, a cauda de um rato, fezes de morcego, e o unguento que a velha Krasovka me deu. Releio as instruções pela enésima vez. Já passa das dez horas. Fecho os olhos e penso no Pavel. Apaixonei-me por ele desde que o vi, o ano passado, em abril, quando a tia Lena foi viver para casa do tio Teo. O Pavel e o pai vieram receber-nos ao portão. “Leve como uma pena”, disse, levantando-me no ar, tão alto que o meu cabelo tocou os

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