Crescer em valores

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Paz - Um lugar tranquilo --------------- 4
Honestidade - O presente da costureira de mantas -- 10
Humildade - A flor mágica ---------------- 22
Ternura - Voa, gaivota, voa! ----------------- 27
Alegria - O duende Dudu, professor de felicidade ---- 36
Justiça - No país de Iqbal -------------------------- 45
Esperança - Vende-se cachorrinhos -------------- 67
Gratidão - De graça ----------------- 70
Amizade - Dois amigos a sério ----------------------------------- 74
Respeito pela Natureza - A história da árvore do Paraíso -------- 87
Paciência - A árvore que falava ---------------------- 92
Compaixão - Uma estrela subiu ao céu -------- 109
Responsabilidade - Chico ------------------------ 117
Sinceridade - O caminho para a verdade ---- 125
Generosidade - O Senhor Palha ----------- 131
Delicadeza - O cato -------------------------- 137
Obediência - O pássaro da alma -------- 144
Disciplina - Jogos perigosos --------- 148

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Crescer em valores

  1. 1. Crescer em Valores Histórias para Ler e Pensar
  2. 2. ÍNDICE Paz - Um lugar tranquilo Slide 4 Honestidade - O presentedacostureira de mantas Slide 10 Humildade - A flor mágica Slide 22 Ternura - Voa, gaivota, voa! Slide 27 Alegria - O duendeDudu, professordefelicidade Slide 36 Justiça - No país deIqbal Slide 45 Esperança - Vende-se cachorrinhos Slide 67 Gratidão - Degraça Slide 70 Amizade - Dois amigos a sério Slide 74 Respeito pelaNatureza - A história da árvoredo Paraíso Slide 87 Paciência - A árvoreque falava Slide 92
  3. 3. Compaixão - Uma estrela subiu ao céu Slide 109 Responsabilidade – Chico Slide 117 Sinceridade - O caminho paraa verdade Slide 125 Generosidade - O Senhor Palha Slide 131 Delicadeza - O cato Slide 137 Obediência - O pássaro da alma Slide 144 Disciplina - Jogos perigosos Slide 148 * Alguns dos textos da presente antologia são adaptações da versão original.
  4. 4.  Paz  De vez em quando, procura um espaço de silêncio. O barulho excessivo é prejudicial.
  5. 5.  Um lugar tranquilo Por vezes, uma pessoa precisa de um lugar tranquilo. Um sítio para descansar os ouvidos de campainhas a tocar, de apitos a silvar, de adultos a falar, de motores a roncar, de buzinas a apitar, de rádios… Bom, às vezes, até os adultos precisam de um lugar tranquilo. Mas encontrar um pode ser difícil. Tens de saber onde procurar. Podias procurar por baixo de um arbusto, de um lilás, no teu quintal. Quando gatinhas para debaixo dele, todos os sons do mundo parecem abafados e distantes. E tu podes ser um pirata numa ilha deserta e encontrar um tesouro enterrado. O teu lugar tranquilo podia ser um arbusto. Até que alguém te chama para ires limpar o teu quarto. Então… Podias procurar no bosque. Talvez encontres um tronco velho que sirva de cadeira ou um cepo com musgo a servir de sofá numa mansão verde de sombras e de raios de sol. Claro que não é muito silencioso. Os gaios azuis gritam e o vento canta
  6. 6. nas folhas. Mas tudo parece calmo. E tu podes ser o lobo, o fantasma cinzento da floresta. O teu lugar tranquilo podia ser o bosque. Mas se o bosque é demasiado escuro e profundo… Podias procurar à beira-mar, na praia, numa manhã de nevoeiro, onde as tuas pegadas na areia são as primeiras do dia. As ondas marulham e as gaivotas soltam gritos mas isso nem parece barulho. E tu podes ser mesmo um explorador a descobrir um continente perdido. A praia podia ser o teu lugar tranquilo. Mas se a praia não é bem aquilo de que gostas… Podias procurar no deserto, onde o Velho Sanguaro tenta alcançar o céu e, ao longe, as nuvens rebentam como flores que caiem das alturas sobre os planaltos. Uma carriça dos catos aparece para fazer uma visita, enquanto um sapo cabeçudo brilha ao sol. E tu podes ser um cavaleiro do Pony Express galopando pelo velho Oeste.
  7. 7. O deserto podia ser o teu lugar tranquilo. Mas se o deserto for um pouco seco demais… Podias sentar-te junto de um lago. Perto da margem, uma garça-real está imóvel como o tronco de uma árvore e a água está tão calma que parece um espelho. Uma rã salta de uma folha de nenúfar e o teu rosto agita-se. E tu podes ser o melhor pescador do mundo a recolher uma armadilha para monstros. Um lago podia ser o teu lugar tranquilo. Mas se os peixes não estão a morder… Podias procurar numa caverna, onde os passos ecoam e o gotejar lento da água forma novas rochas que caem como pingentes de gelo ou se erguem como esculturas; onde os dias e as noites, as semanas e os anos são todos iguais. E tu podes ser um habitante das cavernas no antro do tigre com dentes de sabre. O teu lugar tranquilo podia ser uma caverna. Mas se a caverna for demasiado fria e húmida… Podias subir até ao cume de um monte, onde as nuvens passam a flutuar como
  8. 8. barcos ou jacarés ou elefantes. No cume de um monte consegues ver até muito longe e refletir longamente sobre “Como”, “O quê” e “Porquê”. E tu podes ser um alpinista no topo do mundo. O cume da montanha podia ser o teu lugar tranquilo. Mas se as tuas pernas estão demasiado cansadas para escalar… Podias esperar por um dia de muito frio e deitar-te num montão de neve. A neve que cai à tua volta sussurra “Ch-ch-ch-i-i-u” e envolve o mundo em silêncio. Se escutares com mais atenção, quase consegues ouvi-la respirar. Também tu respiras devagar, fingindo que és um urso polar a dormir num país onde o silêncio da neve não acaba nunca. O teu lugar tranquilo podia ser um montão de neve… Mas se estiver demasiado quente para montões de neve… Podias ir visitar um museu onde tigres de latão e leões de bronze guardam silenciosamente tesouros fabulosos. Cada quadro é uma janela mágica que a tua imaginação pode abrir de par em par e atravessar. E tu podes ser um artista a admirar as tuas próprias obras-primas.
  9. 9. O teu lugar tranquilo podia ser um museu. Mas se o museu está fechado para obras de remodelação… Podias ir para um canto secreto da biblioteca onde as únicas pessoas que falam estão dentro dos livros. Falam tão baixinho, que só na tua cabeça consegues ouvi-las, enquanto vais lendo sobre florestas e mares e desertos e grutas e museus e centenas de outras coisas. O teu lugar tranquilo podia ser uma biblioteca. Mas se a biblioteca ainda não está aberta… Podias vir para casa e arrumar o teu quarto e ler os teus livros e pensar os teus pensamentos e sentir os teus sentimentos e descobrir o lugar mais tranquilo de todos: aquele que está sempre lá, onde quer que vás ou onde quer que fiques… … o lugar que está dentro de ti! Douglas Wood A Quiet Place New York, Simon and Schuster, 2002
  10. 10.  Honestidade  Há muitas pessoas para quem o dinheiro é o mais importante na vida, não olhando a meios para enriquecerem. Procura ver a verdadeira riqueza nas coisas simples e belas da vida. Só assim terás alegria.
  11. 11.  O presente da costureira de mantas Era uma vez uma costureira de mantas que vivia numa casa no cimo das montanhas de bruma azulada. Até o mais idoso dos tetravôs não se lembrava de um tempo em que ela não estivesse lá em cima a coser, dia após dia. Aqui e ali, e onde quer que o sol aquecesse a terra, dizia-se que ela fazia as mantas mais belas que alguma vez se tinha visto. Os azuis pareciam vir do mais profundo do oceano; os brancos, das neves mais boreais; os verdes e os púrpuras, das abundantes flores silvestres; os vermelhos, os cor-de-rosa e os cor-de-laranja, do mais maravilhoso dos pores do sol. Algumas pessoas diziam que os seus dedos eram mágicos. Outras murmuravam que as suas agulhas e tecidos eram dádivas do povo das fadas. E outras diziam ainda que as mantas tinham caído de anjos que por ali passavam. Muita gente subia a montanha, com os bolsos a abarrotar de oiro, na esperança de comprar uma daquelas maravilhosas mantas. Mas a costureira não as vendia. — Dou as minhas mantas aos que são pobres ou não têm casa — dizia a todos os que lhe batiam à porta. — Não são para os ricos.
  12. 12. Nas noites mais frias e escuras, a costureira descia à cidade, no sopé da montanha. Percorria as ruas calcetadas até encontrar alguém a dormir ao relento. Então, tirava do saco uma manta acabada de fazer, enrolava-a nos ombros dos que tremiam de frio, aconchegava-os bem, e afastava-se depois em bicos de pés. No dia seguinte, depois de beber uma chávena fumegante de chá de amoras, começava uma nova manta. Por esta altura, vivia também um rei, senhor de muito poder e ambição, que, mais do que tudo, gostava de receber prendas. Os milhares e milhares de lindíssimos presentes que recebia pelo Natal e pelo seu aniversário nunca lhe chegavam. Proclamou, então, uma lei que dizia que o rei passaria a festejar o seu dia de aniversário duas vezes por ano. Quando isto também deixou de o satisfazer, deu ordens aos seus soldados para procurarem pelo reino as poucas pessoas que ainda não lhe tinham dado prenda alguma. No decurso dos anos, o rei foi assim ficando com quase todas as coisas mais bonitas do mundo. Os seus inúmeros bens estavam empilhados um pouco por todo o castelo. Em gavetas ou prateleiras, em caixas e arcas, em armários e sacos. Coisas que brilhavam, cintilavam e tremeluziam. Coisas extravagantes e práticas. Coisas misteriosas e mágicas. Eram tantas, que o rei tinha uma lista de tudo
  13. 13. o que possuía. Mas, apesar de ser dono de todos estes tesouros maravilhosos, o rei não sorria. Não era nada feliz. — Deve haver, algures, algo de bonito que me faça, finalmente, sorrir — ouvia- -se o rei dizer muitas vezes. — E hei de tê-lo. Um dia, um soldado entrou precipitadamente no castelo com a notícia de uma mágica costureira de mantas que vivia nas montanhas. O rei bateu com o pé no chão. — E por que razão essa pessoa nunca me deu nenhuma das suas mantas de presente? — perguntou ele. — Ela só as faz para os pobres, Vossa Majestade — respondeu o soldado. — E não as vende por dinheiro algum. — Isso é o que vamos ver! — bradou o rei. — Tragam-me um cavalo e mil soldados. E partiram à procura da costureira de mantas. Quando chegaram a casa dela, esta limitou-se a rir. — As minhas mantas são para os pobres e necessitados, e vê-se facilmente que
  14. 14. não és nem uma coisa nem outra. — Eu quero uma dessas mantas — exigiu o rei. — Talvez seja o que finalmente me fará feliz. A costureira pensou por um momento. — Oferece tudo o que tens — disse — e então far-te-ei uma manta. Por cada prenda que deres, acrescento um quadrado à manta. Quando tiveres dado todas as tuas coisas, a tua manta estará terminada. — Dar todos os meus maravilhosos tesouros? — gritou o rei. — Eu não dou, eu recebo! E, dito isto, deu ordem aos soldados para se apoderarem da linda manta de estrelas da costureira. Mas, quando se precipitaram sobre ela, a costureira lançou a manta pela janela e uma forte rajada de vento levou-a. O rei ficou muito zangado: levou a mulher montanha abaixo, atravessou a cidade e subiu outra montanha, onde os seus ferreiros reais fizeram uma grossa pulseira de ferro. Acorrentaram-na a uma rocha, na gruta de um urso que estava a dormir. O rei pediu-lhe novamente uma manta, e uma vez mais ela recusou.
  15. 15. — Muito bem, então — respondeu o rei. — Vou deixar-te aqui. Quando o urso acordar, tenho a certeza de que vai fazer de ti um ótimo pequeno-almoço. Quando, algum tempo mais tarde, o urso abriu os olhos e viu a costureira na gruta, equilibrou-se nas fortes pernas traseiras e soltou um rugido que sacudiu os ossos da mulher. A costureira ergueu os olhos para o urso e abanou tristemente a cabeça. — Não admira que sejas tão resmungão — disse. — Para além de rochas, não tens nada onde possas à noite descansar a cabeça. Arranja-me um braçado de agulhas de pinheiro e, com o meu xaile, far-te-ei uma almofada grande e fofa. E foi isso que fez. Nunca ninguém fora antes tão amável para com o urso. Este partiu a pulseira de ferro da mulher e pediu-lhe que lhe fizesse companhia durante a noite. Mas, embora o rei desempenhasse bem o papel de homem ganancioso, desempenhava mal o papel de homem malvado. Durante toda a noite não conseguiu dormir, a pensar na pobre mulher, prisioneira na gruta. — Oh, meu Deus, o que é que eu fui fazer? — lamentava-se. Acordou os soldados e lá marcharam todos em pijama até à gruta, para a
  16. 16. salvarem. Mas, quando chegaram, o rei encontrou a costureira e o urso a tomarem um pequeno-almoço de frutos silvestres e mel. Então, o rei esqueceu por completo a pena que sentira e voltou a ficar zangado. Ordenou aos construtores reais de ilhas que construíssem uma ilha tão pequena que a costureira só lá pudesse ficar em bicos de pés. Novamente o rei lhe pediu uma manta e novamente ela recusou. — Muito bem — respondeu o rei. — Esta noite, quando estiveres demasiado cansada para te manteres em pé e quiseres deitar-te para dormir, afogar-te-ás. E o rei deixou-a só na minúscula ilhota. Pouco depois de ele partir, a costureira viu um pardal atravessar o grande lago. Soprava um vento forte e violento e o pobre pássaro não parecia capaz de chegar a terra. A costureira chamou-o e ele poisou no ombro dela para descansar. Como o pobre e cansado pardal estava a tremer, fez-lhe uma capa de um pedaço de tecido do seu colete púrpura. Quando a ave se sentiu mais quente e o vento parou de soprar, levantou voo de novo, grato pelo que a costureira lhe tinha feito. Dali a pouco, o céu escureceu devido a uma enorme nuvem de pardais. Com as asas sempre a bater, milhares deles desceram, pegaram na mulher com os seus
  17. 17. pequeninos bicos e levaram-na em segurança para terra. Uma vez mais, nessa noite, o rei não conseguia dormir a pensar na costureira, sozinha na ilha. — Oh, meu Deus, o que é que eu fui fazer? — lamentava-se. Voltou a acordar os soldados que estavam a dormir, e lá marcharam em pijama até ao lago, para libertarem a costureira. Mas, quando chegaram, ela estava sentada no ramo de uma árvore a coser minúsculas capas cor de púrpura para todos os pardais. — Desisto! — gritou o rei. — O que tenho de fazer para me dares uma manta? — Como já te disse — respondeu ela — oferece tudo o que tens e eu faço-te uma manta. E, por cada prenda que dês, acrescento mais um quadrado à tua manta. — Não consigo fazer isso! — gritou o rei. — Eu adoro todas as minhas lindas e maravilhosas coisas. — Mas, se elas não te fazem feliz — retorquiu a costureira — para que servem então? — Lá isso é verdade! — suspirou rei. E pensou muito, muito, no que ela dissera. Pensou durante tanto tempo, que as
  18. 18. semanas se sucederam umas às outras. — Pronto, está bem — disse entredentes. — Se tenho de me libertar dos meus tesouros, então que seja! O rei regressou ao castelo e procurou, de uma ponta a outra, qualquer coisa da qual conseguisse abdicar. De sobrolho franzido, lá acabou por encontrar um simples berlinde. Só que o rapazinho que o recebeu retribuiu-lhe o gesto com um sorriso tão radiante, que o rei regressou ao castelo para ir buscar mais coisas. Por fim, pegou num monte de casacos aveludados e foi distribuí-los pelas pessoas vestidas de trapos. Ficaram todas tão contentes, que se puseram a desfilar pelas ruas da cidade. Mas, ainda assim, o rei não sorria. Em seguida, foi buscar uma centena de gatos siameses azuis, que dançavam valsas, e uma dezena de peixes transparentes como vidro. Depois, deu ordem para que trouxessem para fora o carrossel com os cavalos verdadeiros. As crianças gritaram de entusiasmo e puseram-se a dançar em redor dele. O rei olhou à sua volta e viu as danças, a felicidade e a alegria que os seus presentes tinham trazido. Uma criança pegou-lhe na mão e puxou-o para dançar. O rei agora sorria e até soltava gargalhadas.
  19. 19. — Como é possível? — exclamou. — Como é possível eu sentir-me tão feliz por dar as minhas coisas? Tirem tudo cá para fora! Tirem tudo imediatamente! Entretanto, a costureira manteve a sua palavra e começou a fazer uma manta especial para o rei. Por cada presente que ele dava, ela acrescentava mais um quadrado à manta. O rei continuou a dar e a dar. Quando, por fim, não havia mais ninguém que não tivesse recebido alguma coisa, o rei decidiu ir pelo mundo e procurar outras pessoas que precisassem das suas prendas. Mas, antes de partir, o rei prometeu à costureira que lhe enviaria um pardal, de todas as vezes que desse alguma coisa. De manhã, à tarde e à noite, as carroças partiam da cidade, cada uma delas carregada até cima com todos os objetos maravilhosos do rei. E durante anos e anos, os pardais mensageiros foram voando até ao peitoril da janela da costureira, à medida que ele ia esvaziando lentamente os seus carros por onde quer que passasse, trocando os seus tesouros por sorrisos. A costureira trabalhava sem parar e, pedaço a pedaço, a manta do rei foi crescendo, cada vez maior e mais bonita. Por fim, certo dia, um pardal cansado entrou-lhe pela janela e poisou na agulha. A costureira compreendeu imediatamente
  20. 20. que este era o último mensageiro. Deu o último ponto na manta e desceu a montanha em busca do rei. Após uma longa busca, encontrou-o finalmente. As suas vestes reais estavam agora em farrapos e os dedos dos pés espreitavam-lhe das botas. Os olhos brilhavam de alegria e o riso era maravilhoso e sonoro. A costureira retirou do saco a manta e desdobrou-a. Era de tal forma bela, que borboletas e colibris esvoaçavam à sua volta. Ergueu--se em bicos de pés e pô-la à volta do rei. — O que é isto? — exclamou ele. — Prometi-te há muito tempo — disse ela — que, quando fosses pobre, te daria uma manta. O sorriso radiante do rei fez cair maçãs e levou as flores a voltarem-se para ele. — Mas eu não sou pobre — disse. — Posso parecer pobre mas, na verdade, o meu coração está cheio a mais não poder, com as recordações de toda a alegria que dei e recebi. Agora sou o homem mais rico do mundo! — Mesmo assim, fiz esta manta só para ti — disse a costureira. — Obrigado — respondeu o rei. — Mas só fico com ela se aceitares uma prenda
  21. 21. minha. Há um último tesouro que ainda não dei. Guardei-o todos estes anos para ti. O rei retirou o seu trono do carro velho e frágil. — É mesmo muito confortável — disse o rei. — E o ideal para quem passa longos dias a coser. A partir desse dia, o rei voltou muitas vezes à casa da costureira de mantas, que ficava bem lá em cima, perto das nuvens… Durante o dia, a costureira fazia lindas mantas que não vendia e, à noite, o rei levava-as para a cidade. Procurava, então, os pobres e infelizes, pois nunca se sentia tão feliz como quando dava alguma coisa a alguém. Jeff Brumbeau The quiltmaker’s gift New York, Orchard Books,2000
  22. 22.  Humildade  As pessoas que têm verdadeiro valor não gostam de se exibir. Procura ser discreto e atento aos outros.
  23. 23.  A flor mágica Era uma vez duas irmãs. Uma muito bonita e a outra muito feia. Certo dia em que passeavam pelo bosque à procura de frutos silvestres, ouviram alguém chamar e gemer. Era o anão Malaquias. Tinha ficado preso num silvado e não conseguia soltar-se. A irmã bonita começou a rir. A feia cortou os espinhos e pousou o anão são e salvo no chão. — Como forma de te agradecer, vou ensinar-te o caminho para a flor mágica — disse o anão. — Quem a levar ao rei, tornar-se-á rainha. Segue o ribeiro até à nascente. É aí, entre as pedras, que nasce a flor mágica. Dito isto, desapareceu. — Sou eu quem vai buscar a flor. Tu és demasiado feia para ser rainha — disse a irmã bonita à irmã feia. E partiu imediatamente. Quando andara já um bom pedaço, encontrou um sacho no meio do caminho. — Leva-me contigo — pediu o sacho.
  24. 24. — Não. Estás muito sujo — disse a rapariga, e prosseguiu. Mais à frente, encontrou um regador no meio do caminho. — Leva-me contigo — pediu o regador. — Não. És muito pesado — disse ela, prosseguindo. Mais à frente, encontrou uma corda no caminho. — Leva-me contigo — pediu a corda. — Não. Não serves para nada — respondeu a rapariga, seguindo caminho. Quando o sol estava no seu ponto mais alto, chegou finalmente à nascente. Só que a nascente estava a secar, a terra, ressequida e a flor, murcha. — O anão mentiu — disse a rapariga e, furiosa, regressou a correr pelo mesmo caminho. — Vai agora tu — disse ela à irmã, no dia seguinte, contente por saber que ela iria fazer o longo caminho em vão. A irmã feia fez-se, então, ao caminho. Quando já tinha andado um bom bocado, encontrou um sacho.
  25. 25. — Leva-me contigo — pediu o sacho. — Com todo o gosto — disse a rapariga. — Se calhar, ainda vou precisar de ti. E, com o sacho ao ombro, continuou. Mais adiante, encontrou um regador. — Leva-me contigo — pediu o regador. — Com todo o gosto — disse a rapariga. — Se calhar, ainda vou precisar de ti. De sacho ao ombro e regador na mão, a rapariga continuou. Um pouco mais à frente, encontrou uma corda caída no caminho. — Leva-me contigo — pediu a corda. — Com todo o gosto — disse a rapariga. — Se calhar, ainda vou precisar de ti. E lá continuou, com o sacho ao ombro, o regador numa mão, e a corda na outra. Quando o sol tinha atingido o seu ponto mais alto, chegou à nascente, mas a fonte estava a secar, a terra ressequida e a flor mágica, murcha. A rapariga pegou então no sacho e escavou a terra. Com o regador, regou a flor. Por último, pegou na corda e com ela endireitou a flor. A flor começou então a reviver. A água subiu pelo caule até às folhas, o botão
  26. 26. endireitou-se em direção à luz e abriu-se. A rapariga observava, espantada. Olhava para a flor e nem se deu conta de que, a pouco e pouco, ela própria estava a tornar- -se tão bonita quanto a flor. Cortou-a e levou-a ao rei. O rei ficou muito contente ao ver a bonita rapariga com a flor e, tal como tinha prometido, fez dela rainha. A irmã bonita, essa foi ficando, com a inveja, cada dia mais feia. Max Bolliger S Risefäscht Aarau, AT Verlag, 1990
  27. 27.  Ternura  És terno quando mostras afeto pelas pessoas e pelos animais e tomas cuidado para não magoar ninguém com palavras ou atitudes desagradáveis.
  28. 28.  Voa, gaivota, voa! Danute irrompeu no pátio a correr. Olhou à sua volta e gritou: — Romas! — O que tens? — perguntou Romas, que estava no jardim, por detrás do poço, trincando uma maçã. — O Vilius anda à tua procura! — Que quer ele? — Tem uma gaivota. — Uma gaivota? — Romas fez uma careta. A maçã estava verde. — Pequena. Tem uma asa ferida. Dá cá uma maçã! — Toma! — Romas arrancou uma e estendeu-a à menina. — Só que estão verdes. Com a maçã na mão e depois de ter acalmado a respiração, Danute explicou:
  29. 29. — Sabes, ele quer vender-te a gaivota. Vamos! A verdade é que Mykolas, o irmão mais velho, tinha dado a Romas uma nova moeda de rublo — um rublo! — para comprar gelados. Romas comentara isso com os amigos. Quando Vilius soube, os olhos cintilaram-lhe de inveja. Chamara mentiroso ao Romas. Então, este pôs-lhe a moeda debaixo do nariz: era ou não verdade? Vilius sentiu até náuseas ao ver o dinheiro, sem compreender que necessidade dele teria aquele fedelho! Claro que ia gastá-lo numa bugiganga qualquer! Ele, Vilius, sim, sabia como o empregar: comprava, por exemplo, uma bobina de linha de pesca! Cortava a linha em pedaços e trocava-os com a rapaziada por outras coisas... De qualquer maneira, haveria de surripiar a moeda ao Romas. Mas como? Vilius passou dois dias a dar cabo da cabeça, mas não encontrou estratagema de jeito. Naquele dia, entretanto, apanhara na costa uma gaivota ferida e decidira tentar a sorte. Mandara Danute chamar Romas e ficou à espera empoleirado num barco virado. Acertara na previsão: Romas e Danute chegaram à costa pouco tempo depois. Quando Romas se aproximou, Vilius, agora sentado em cima do barco, mostrou- lhe a gaivota e perguntou:
  30. 30. — Queres comprá-la? Os olhos da gaivota suplicavam, cheios de medo. — Não a apertes tanto — pediu Romas. — Estás a magoá-la! — Coitada! Quem lhe teria ferido a asa? — Danute quis fazer-lhe festas, mas Vilius bateu-lhe nos dedos: — Não lhe mexas! — E para Romas: — Dá cá o dinheiro, e fica com ela. Se a curares, terás uma gaivota em casa. Romas tinha pena do pássaro. — É possível curá-la? — perguntou. — Coisa mais fácil! Então? É pegar ou largar, não tenho tempo para conversas. — Aceita! — sussurrou-lhe a menina, quase a chorar. Também sentia pena da gaivota. — Aceita. Tratamos dela. Eu ajudo-te. Romas hesitava, pois poderia precisar do rublo para outra coisa. — Então, estás com pena do dinheiro? — provocava-o Vilius. — O que dizes? — Compro!
  31. 31. — Então, passa para cá a moeda! Romas correu a toda a pressa para casa. Aqui encontrou o avô, a quem contou atabalhoadamente o que se tinha passado. Disse-lhe que tinha muita pena da gaivota. — Claro — disse o avô em tom compreensivo e dando-lhe pancadinhas no ombro. Vilius pegou na moeda e entregou a ave a Romas. Ambos ficaram contentes. Com a gaivota ferida contra o peito e acompanhado de Danute, Romas caminhou para casa. Depois de examinar a asa ferida, o avô disse: — Fizeste bem! Vamos curá-la. Teremos mais uma gaivota viva neste mundo. Só então Romas se sentiu realmente satisfeito. Embora ainda tivesse pena do seu rublo... — Ora bem... Primeiro, vamos ligar-lhe a asa... — O avô trouxe a gaze e começou a fazer umas talas. Quando a mãe voltou do trabalho e viu tudo aquilo, perguntou severamente:
  32. 32. — O que se passa aqui? — Estamos a tratar de uma gaivota — respondeu Romas. — Muito bem, mas é melhor montarem o hospital na arrecadação — aconselhou a mãe. A arrecadação, onde se instalaram momentos depois, era realmente um ótimo lugar para tratar da gaivota. O avô estava tão feliz como Romas por prestar socorro à gaivota. — Vamos arranjar qualquer coisa para pôr no fundo da caixa, onde ela ficará muito bem — sugeriu. — E quando ficar boa? — quis saber Romas. — Veremos então o que fazer. Para já, vai com Giedrius à pesca. A gaivota é uma ave que está sempre com fome. A doente foi presenteada com um jantar de doze percas. Mas estava sem apetite. Talvez lhe doesse a asa. Comeu só quatro peixes, e dos mais pequenos. Mas, no dia seguinte, já apresentava melhoras. Um dia depois, não podendo manter-se na caixa, começou a dar pulos, arrastando a asa ferida pelo chão. Romas, Giedrius,
  33. 33. Danute e Ruta tiveram de ficar sucessivamente de guarda à entrada, para manter a ave ao abrigo dos gatos, que andavam à espreita. Toda a gente tinha pena da gaivota, e pensava com alegria que o avô ia curá-la e ela tornaria a voar. Até o Ignas passou pela arrecadação. — Mostra-me lá a tua gaivota — pediu. O pássaro estava sentado em cima de uma pilha de lenha. — O Vilius é um espertalhão — disse abanando a cabeça. — Trocou isto por um rublo. Caíste como um patinho! Romas respondeu-lhe com as palavras do avô: — Teremos mais uma gaivota neste mundo. — Ora, meu filho — sorriu Ignas. — Só que daqui a pouco terás de soltá-la. Não vai continuar aqui o resto da vida. E ficarás sem a gaivota e sem o dinheiro. Romas ainda não pensara nisso. Talvez o Ignas tivesse razão: quer quisesse quer não, um dia teria de soltá-la. Chegava a desejar que ela não melhorasse tão depressa! A gaivota, porém, era nova e o avô tratava-a bem. Restabelecia-se rapidamente.
  34. 34. Já voava pela arrecadação, chocando contra as paredes. «Oxalá não volte a magoar- se, pois na arrecadação há tanta coisa: lenha, a ferramenta do avô, os aparelhos de pesca do pai», pensava Romas. — Acho que é tempo de soltá-la — disse o avô certo dia. — o que pensas? O coração apertou-se-lhe. Estava quase a ponto de chorar. Mas não era nenhum bebé! Reprimiu as lágrimas, embora a ideia da separação continuasse a causar-lhe imensa tristeza. — Não existem gaivotas domésticas. Não são como as galinhas — disse o avô, meneando a cabeça para convencer Romas. — Precisam de liberdade. Mas, ao ver que Romas só com grande esforço continha as lágrimas, sugeriu com um sorriso: — Está bem. Deixa-a ficar mais uns dias. Estavam na arrecadação. A gaivota, como que compreendendo que os homens não queriam pô-la em liberdade, voou, bateu no teto e caiu em cima das canas de pesca do pai., lançando a Romas um olhar muito, muito triste. — Não! — gritou Romas. — É melhor deixá-la voar!
  35. 35. Quis apanhar a ave para a levar para a costa, mas esta não se deixava caçar. Embora com grande dificuldade, só o avô conseguiu agarrá-la. O rapaz apertou a gaivota contra o peito e sentiu um coração bater mais depressa. O dele ou o da ave? Não sabia. — Vamos, avô. Chegaram à costa. Juntaram-se-lhes logo Giedrius, Danute e Ruta. O mar estava calmo, o céu sem nuvens, o ar transparente. À superfície viam-se gaivotas. Dali a pouco, teriam mais uma companheira. — Voa — disse o rapaz, lançando a gaivota ao ar. A gaivota levantou voo. Romas nem sentia que as lágrimas lhe turvavam os olhos. E não era do dinheiro que tinha pena! Viktoras Miliünas Voa, gaivota, voa Edições Ráduga Moscovo, 1987
  36. 36.  Alegria  Sempre que começares o teu dia, lembra-te dos inúmeros dons que vais receber, desde o alimento à saúde do corpo, do afeto que te tem sido dado, e de como é importante poderes crescer num ambiente de paz. Tantos motivos para te alegrares!
  37. 37.  O duende Dudu, professor de felicidade Naquele dia, Martinho acordara muito, muito mal disposto, como era, aliás, habitual, todas as manhãs. Martinho estava sempre de péssimo humor. Mas não era por falta de uma mãe sorridente, de um pai carinhoso, de uma linda casa, nem de todas aquelas coisas que são necessárias para se ser feliz. — Bom dia, querido! — exclamou a mãe. O sol inundou o quarto. — Grrr — disse Martinho, à laia de bom dia. — Hoje está bom tempo, podes vestir os teus calções — disse-lhe a mãe carinhosamente. — Não gosto de bom tempo — resmungou Martinho. — Quando está bom tempo, fica muito quente. A mãe suspirou. Porque seria ele tão resmungão? Mas, naquela manhã, alguma coisa ia mudar na vida de Martinho. Ao despir o casaco do pijama, sentiu uma coisa no bolso... Assustado, sacudiu o casaco. — Ai, ai! Ui! — ouviu-se do chão uma vozinha minúscula.
  38. 38. Martinho semicerrou os olhos... Diante dele, agitava-se o mais pequenino duende que alguma vez existiu à face da terra. Um duendezinho que esfregava o seu minúsculo pé esquerdo, ao mesmo tempo que fazia caretas. — O que estás aqui a fazer? — perguntou Martinho. — Não és nada simpático. Ao menos podias perguntar-me se eu não me magoei, não achas? Julgo que parti o pé esquerdo. — E depois? — perguntou Martinho, cruzando os braços. O pequeno duende estendeu-lhe a sua mãozinha minúscula. — Sou o duende Dudu, professor de felicidade — disse em tom solene. — Às tuas ordens. — Professor de felicidade? E que mais? — disse Martinho, rindo maldosamente. — Porque não professor de delicadeza e de boas-maneiras? — Acertaste em cheio! — exclamou Dudu com a sua vozinha minúscula — porque sou tudo isso ao mesmo tempo. Ensino a gentileza, as boas-maneiras, os sorrisos, o desejo de viver. E agora, cuidas-me da perna e levas-me para a escola, por favor? De má-vontade, Martinho foi buscar cartão, fósforos e fio de pesca para fazer
  39. 39. uma tala. Em seguida, meteu Dudu no bolso do casaco, dizendo: — Nunca se sabe... talvez eu me aborreça menos do que de costume! A caminho da escola, o duende Dudu pôs a sua pequenina cabeça fora do bolso. — Martinho, levanta a cabeça! Tens os olhos pregados no chão! Assim só vês o cocó dos cães! — E depois? — perguntou Martinho com um tom arrogante. — Quero lá saber do que se passa à minha volta! — Não me admira que andes sempre mal disposto, assim fechado em ti mesmo como numa prisão! — suspirou o duende da felicidade. — Olha à tua volta! Olha para esta banca de frutos! Aprecia estes morangos! Davam-me para uma casa fantástica. Quando for rico, hei de comprar um morango como aquele e fazer dali a minha segunda residência. Com cortinados brancos às pintinhas cor-de-rosa. “É doido de todo”, pensou Martinho. Mas o duende não parava de se extasiar: — Oh! Olha! Aquela menina... Que beleza! Parece saída das Mil e Uma Noites. Se lhe puseres um diadema, fica uma verdadeira princesa.
  40. 40. Pela primeira vez, Martinho reconheceu que Dudu tinha razão. Quando se olhava para ela com olhos de duende, aquela menina parecia saída de um conto de fadas. — Oh! É extraordinário! — voltou Dudu a exclamar. — O que é agora? — perguntou Martinho cheio de curiosidade, erguendo os olhos. — O que estás a ver, Dudu? — Bem, é o senhor Peixoto, o peixeiro — exclamou Dudu com a sua vozinha estridente. — Vai de bicicleta, olha! Deve ir à pesca. — Para onde? — Pode ir para o rio Douro, para o rio Tejo, para o oceano... tanto faz! — É verdade — concordou Martinho. — Não importa saber para onde. O que tem graça é imaginá-lo a pescar... Na escola, Dudu admirava-se a cada instante. A aula de Matemática fê-lo dar saltos dentro do bolso. — Ena! Tantas possibilidades! Tantos cálculos até ao infinito! A aula de História fê-lo suspirar de satisfação.
  41. 41. — Tantas histórias... — murmurava ele com a sua vozinha minúscula de duende. — Histórias de reis, de imperadores... Mas a sua preferida foi a aula de Geografia. — Os mares! Os oceanos! Tantas ilhas, tantos lugares que não conhecemos e que podemos imaginar só de olharmos para um mapa! Os mapas geográficos são um verdadeiro sonho! Era assim mesmo, sem tirar nem pôr! Martinho começou a pensar que aquele homenzinho estava cheio de razão, e passou a prestar atenção àquilo que acontecia na escola. — Gostavas de ir a algum lado, Martinho? — Gostava de ir à Polinésia — respondeu Martinho. — Porque lá a água do mar é quente e há peixes de todas as cores. Quando saiu da escola, às quatro e meia, com o duende no bolso, Martinho já não ia cabisbaixo. Sentia agora que a sua vida estava cheia de sonhos e de cores. — Vês — disse Dudu — basta mudar-se o que se tem na cabeça. Se pensarmos: “Vou aborrecer-me na escola”, aborrecemo-nos de certeza. Mas, se pensarmos: “Vou
  42. 42. ouvir histórias bonitas sobre países longínquos”, tudo se torna diferente. O ar cheirava a framboesas e Dudu não parava de falar. — Sabes que mais? Se eu tivesse uma mãe como a tua, só teria um desejo: sentir a cara dela junto da minha, respirar o seu perfume... As mães são tão perfumadas, tão carinhosas! Ficamos tão contentes quando pensamos nelas... E a sua voz tornou-se grave: — Eu tive mãe, há muito, muito tempo... E agora daria tudo para poder respirar o seu perfume. Mas é tarde demais. Martinho compreendeu que a mãe de Dudu e o seu desaparecimento tinham um papel muito importante na história do duendezinho e na sua maneira de procurar ser feliz. Naquela noite, Martinho deu à mãe um abraço muito apertado e respirou com força o seu perfume. A mãe deu-lhe um abraço mais apertado ainda. — Sinto que estás melhor, Martinho, e estou muito contente por isso. — É natural! — respondeu Martinho a rir-se. — Trago comigo um génio bom… Um pequeno duende que me ensina a ser alegre.
  43. 43. A mãe também se riu e deu-lhe as boas-noites. No dia seguinte, quando Martinho acordou, meteu a mão no bolso à procura de Dudu. Nada. Sacudiu com força o casaco do pijama à espera de ouvir o duende resmungar, como na véspera. Mas aquilo que caiu foi uma minúscula folha de papel branco que ele desdobrou. O meu pé melhorou e já posso ir-me embora. Espero que o teu pé também esteja melhor. Desejo-te uma vida bonita, cheia de pequenas alegrias. Martinho fez um esforço para não chorar. Passado algum tempo, já não se sentia triste nem zangado. Comentou simplesmente: — Que sorte tive eu de o ter conhecido! Foi o melhor professor de felicidade que alguma vez encontrei! Foi assim que a sua vida mudou por completo. Quando cresceu, Martinho casou- -se com uma princesa das Mil e Uma Noites. Viajou para longe, durante muito tempo. Descobriu regiões desconhecidas, só vistas nos mapas, tal como a Polinésia, o que lhe dava sempre uma enorme satisfação.
  44. 44. Por vezes, diante de um oásis, de uma duna, ou de um cardume de peixes multicores que nadavam rumo ao sonho, ele pensava no duende Dudu e sabia que, onde quer que este estivesse, no seu morango gigante ou no deserto da Arábia, iria sempre olhar para ele com o seu olhar sábio de filósofo e murmuraria: — Bravo, Martinho! Estou orgulhoso de ti! O teu pé esquerdo está agora muito melhor! Sophie Carquain Petites histoires pour devenir grand Paris, Ed. Albin Michel, 2003
  45. 45.  Justiça  Ninguém deve sentir-se tranquilo quando sabe que há pessoas que passam necessidades, e que há crianças que não podem ir à escola e trabalham como escravas. Colabora como puderes para a criação de uma sociedade mais justa.
  46. 46.  No país de Iqbal 1 — Feliz aniversário! Kevin sopra as velas. Apaga-as de uma só vez. À volta dele, pais e amigos gritam e aplaudem. Kevin pode agora abrir os presentes. Gosta particularmente deste momento, em que rasga o papel dos embrulhos. Estragam-no com mimos. Como acontece todos os anos. Começa pelos sobrescritos que contêm dinheiro, mas o que mais gosta de abrir são, é claro, os presentes de verdade. Dos três embrulhos, Kevin já percebeu qual é o melhor, aquele por que está à espera. Guarda-o para o fim. — Uau, é tão bonita! — exclama. Exatamente o que ele queria: uma bola de couro, cosida. Uma bola de jogador profissional, azul e branca, ainda mais lisa e brilhante do que nos seus sonhos. Tira-a da caixa, segurando-a com a ponta dos dedos, como se fosse de açúcar. Kevin queria uma bola, porque Laurent, o seu vizinho, tem uma e nunca quer
  47. 47. emprestá-la por muito tempo. No entanto, é muito menos bonita. Quando jogam na praceta em frente das vivendas, sempre que Laurent começa a perder, encontra um pretexto para se zangar. Pega na bola e vai-se embora. E, claro, o jogo acaba. É irritante. De futuro, ninguém voltará a interromper a partida enquanto Kevin quiser continuar a jogar; ninguém poderá suspendê-la contra a sua vontade. Nunca se sentira tão feliz. — Ora dá cá! — pede o pai, estendendo as mãos. É a sua vez de agarrar na bola. Acaricia-a, fá-la saltar… Que vontade de lhe dar uns bons pontapés! — Dá-ma, por favor! — atalha rapidamente Kevin, que sabe o pai que tem. Quando este segura uma bola nas mãos, torna-se uma autêntica criança. É capaz de a estragar sem querer. — Se querem jogar, vão para o jardim! A mãe conhece-os bem, e já começa a recear pelos móveis e adornos. Kevin não espera que lhe digam duas vezes e desata a fugir com o seu presente. Nem sequer espera até chegar ao relvado. Ainda vai a meio do terraço e já quer experimentar a
  48. 48. bola. Lança-a ao chão e estende as mãos para a apanhar… Mas não apanha nada! As mãos estendidas ficam vazias. A bola não saltou. Caiu como goma sobre a tijoleira. Não voltou a mover-se, ficou como que colada e mole. Dir-se-ia uma pastilha elástica. Espantado, Kevin baixa-se para pegar no seu tesouro. Espantado, mas não inquieto. Esta bola não pode ser de má qualidade. Foi ele, Kevin, que a atirou mal… Ou então é a tijoleira do terraço que está pegajosa, provavelmente cheia de compota. Seja como for, tratou-se de um acidente que não voltará a acontecer. Kevin limpa a bola e dá-lhe lustro. Observa-lhe discretamente todas as costuras mas, nada, está tudo perfeito. A bola precisa é de erva. No relvado vai renascer. Kevin afasta-se da casa e espera o momento de chegar a meio do relvado para atirar ao ar o seu brinquedo. Lança a bola para o céu, o mais alto que lhe é possível. Orgulhosamente, vê-a descer, lisa, brilhante, azul e branca, bela. Vê-a descer… e abater-se sobre aquele tapete de relva tão suave, sem o menor desejo de saltar e de se divertir. Não há dúvida, esta bola tem algum defeito, há algo que não bate certo.
  49. 49. 2 — Então! Não chores! É porque a bola não está suficientemente cheia. Acontece muitas vezes quando são novas. Kevin tinha ido contar ao pai a sua desdita. Apesar dos esforços para se conter, os olhos estão cheios de lágrimas. O pai enterra os fortes polegares no couro, que cede facilmente. — O que é que eu dizia! Anda, vamos arranjar isto! Kevin assoa-se e vai com o pai até à garagem. Está cabisbaixo, ainda não sorri, mas já recuperou a esperança. O pai de Kevin é habilidoso. Na garagem, penduradas na parede ou guardadas numa gaveta, há ferramentas que permitem consertar tudo o que não funciona bem à face da terra. — Não mexas! Sei que há uma bomba de ar em qualquer lado… Cá está, nesta caixa… Introduz um tubo fino como uma agulha na bomba de ar e, com firmeza, segura a bola recalcitrante entre os joelhos. E depressa lhe devolve a boa cara que ela nunca
  50. 50. deveria ter perdido. — Anda, apanha-a, se fores capaz! A porta da garagem abre para o jardim. O pai lança a bola com tanta força que esta devia saltar até à parede do fundo. Kevin corre atrás dela, a rir-se… Mas não por muito tempo! Cheia ou não, a bonita bola deixa-se ficar na relva, após dois ou três saltos ofegantes. Não chegará nunca à parede do fundo. Mais uma vez a esperança morreu nos olhos de Kevin. — Tens razão — constata o pai — algum defeito há de ter, na verdade. Talvez um problema no couro, não compreendo… Guardei o talão de compra. Amanhã, vamos à loja para a trocarmos, não te preocupes! Kevin encolhe os ombros: não está preocupado, mas a festa, o seu aniversário, é hoje, não amanhã! Com um pontapé furioso, atira aquele trapo mole para um canto, já que não serve para nada. É então que decide esquecê-la. Afinal, tem outros brinquedos, brinquedos de verdade que gostam de se divertir, brinquedos de confiança. Chegada a noite, ainda se sente tão zangado que continua a não querer ocupar- se daquele brinquedo tão dececionante.
  51. 51. — Pode dormir lá fora, é o que merece. Mas o pai não está de acordo. — Não, não, Kevin. Vai buscá-la e guarda-a. Se a perderes ou estragares, já não podes trocá-la. É verdade, Kevin reconhece-o. O pai tem razão. Vai buscar a bola. Empurra-a com o pé até ao terraço, como se fosse uma velha lata de conserva, depois pega nela sem qualquer cuidado. À entrada do quarto está o cesto da roupa suja. Atira-a lá para dentro. — Dorme bem! — ironiza. De agora em diante só quer esquecê-la, mas sente-se tão irritado que não é capaz de o fazer. Antes de se deitar, não consegue deixar de se virar uma vez mais para o cesto, onde a deixou: — Não se admite o que fizeste, não se admite. No teu lugar, escondia-me. Não tens o direito de ser tão bonita, de brilhar, para depois não servires para nada quando contamos contigo. Não tens o direito de te esvaziares dessa maneira… Uma idiota, é o que tu és! Detesto-te!... Ainda bem que não te mostrei aos meus colegas. Que vergonha!... Mas não faz mal, não perdes pela demora. Amanhã vais voltar para
  52. 52. de onde vieste, e nunca mais quero ouvir falar de ti! Mais calmo depois destas duras palavras, Kevin deita-se e apaga a luz. Está tão cansado que adormeceria bem depressa se, por detrás dele, um estranho barulho não se fizesse ouvir. 3 Um estranho barulho, na verdade, como o de alguém a fungar, como o soluço abafado de uma criança. No meio da escuridão, Kevin ergue-se e aguça o ouvido. — És mau! — escuta distintamente. Desorientado, volta a acender a luz da mesa de cabeceira: — Quem foi que falou, quem? — pergunta Kevin, cada vez mais inquieto. — Aqui! — decide-se a dizer a voz misteriosa. — Aqui! Na tua bola! De facto, a voz parece sair do cesto da roupa suja. Kevin senta-se na beira da cama, virado para o cesto, sem se atrever a aproximar-se. É impossível, não consegue acreditar. — Uma bola não fala! Uma bola não tem boca!
  53. 53. — Uma bola também não tem ouvidos e, no entanto, dirigiste-me a palavra, deste-me uma lição de moral durante um quarto de hora! Verdade ou mentira? Julgo até que me chamaste “idiota”… — Escapou-me… Com os olhos encarquilhados e a boca aberta, quase sem respirar, Kevin fixa o recipiente. — Vá, não fiques assim. Vou explicar-te. Mas, por favor, tira--me deste cesto de roupa suja. Kevin obedece como um autómato. Aproxima-se e levanta a tampa. É de facto a bola que está lá dentro, a própria bola. Pega nela cautelosamente, com as pontas dos dedos mas, desta vez, é por ter medo dela. Com os braços esticados, leva-a até à cama e pousa-a em cima do colchão. — Para lá com essas fitas! Anda ajudar-me! — impacienta-se a voz. Kevin dá um enorme grito, porque a voz já não vem de dentro da bola. Um rapazinho da sua idade esforça-se por sair pelo minúsculo orifício da válvula. Já libertou a cabeça e os ombros. Com as duas mãos apoiadas no couro, tenta soltar
  54. 54. o resto do corpo, e é a voz dele que se ouve. Kevin esconde o rosto. Já nem se atreve a olhar. — Não! É demais! Vim parar à casa do rei dos medricas, ou quê? Anda ajudar- me, já te disse! Acho que fiquei preso. Kevin ainda tem medo, mas sente-se envergonhado. Não pode continuar a tremer. Faz um esforço para se aproximar. É verdade que o rapaz não é nenhum monstro. Com os cabelos muito negros e muito lisos colados à testa, é parecido com qualquer outra criança. Kevin agarra a bola, segura nela com firmeza para a impedir de deslizar para os lados, enquanto o seu estranho visitante faz cada vez mais força com os braços. — Assim, isso! Aguenta! Faz tanta força que se liberta num rompante, de uma forma tão brusca como a rolha de uma garrafa de champanhe. Depois de um enorme trambolhão, acaba sentado, de costas contra a parede, a um canto do quarto. Ri-se. Os dentes reluzem- lhe no rosto tisnado. Kevin ri também. O medo desaparecera. O coração continua a bater-lhe acelerado, mas por causa do esforço e da emoção. — É um caso sério sair de lá de dentro. Ainda bem que me ajudaste, se não,
  55. 55. ainda lá estava! Kevin encolheu os ombros. Concorda, sente-se até orgulhoso, mas nem sabe o que dizer. Não se pode falar tranquilamente, como se nada fosse, com alguém saído não se sabe de onde. Antes de mais, Kevin precisa de algumas explicações. E o rapaz compreende. — Queres saber como cheguei até aqui? É normal! Vou explicar-te! Levanta-se e alisa a roupa amarrotada: uma longa túnica, uma espécie de camisa de noite. Satisfeito, senta-se confortavelmente com as pernas cruzadas, em cima da alcatifa. Kevin instala-se a seu lado, com as costas apoiadas na beira da cama. Para começar, o rapaz apresenta-se: — Chamo-me Iqbal… Tu, chamas-te Kevin. Ouvi o teu pai chamar-te assim. — Ouvias tudo dentro da bola? — Claro! — E… também sentias tudo? Devo ter-te magoado! Desculpa! — Kevin lembrou- -se dos seus pontapés furiosos. — Não te preocupes, já vi outras coisas bem piores no sítio onde trabalho! Aliás,
  56. 56. foi por isso que fugi. — Trabalhar… Fugir… Continuo sem perceber! Antes de mais, diz-me de onde vens. — Venho de muito longe. Venho do país onde se fazem as bolas. 4 Kevin, que se instalara sensatamente junto do seu convidado, levanta-se de um salto, furioso: — Estás a exagerar! Do país onde se fazem as bolas? Tretas! Julgas, se calhar, que na minha idade ainda acredito em contos como o da Branca de Neve e os sete anões? Que ainda acredito naqueles países extraordinários onde se diz que seres minúsculos fabricam os nossos objetos quotidianos? Já passei a idade dessas tolices! Ando na escola e sei que os objetos são feitos em fábricas por máquinas e até por robôs… Não tentes baralhar-me! — Mas eu não estou a tentar baralhar-te. Juro que estou a dizer a verdade: as bolas como esta são quase todas fabricadas no meu país, um país de verdade. Os bocados são unidos com um fio e uma agulha enorme por crianças da minha idade. No que me diz respeito, não os contei, mas devo ter cosido seguramente uns
  57. 57. milhares. — Desculpa, é que não gosto que me tomem por um imbecil… Kevin acalma-se. Senta-se e repete: — Desculpa! Explica-me agora por que razão fugiste e, principalmente, como. — Porquê, é fácil de explicar. Mas como foi, já te previno, não é nada fácil. Nem eu consegui ainda perceber! — Se não percebeste, então quero ouvir-te. Conta-me tudo! — Foi certamente por influência da minha avó. Ela é extraordinária! É velha, velha, e conhece coisas que tu nem imaginas… Olha, estamos aqui os dois a conversar, como se falássemos a mesma língua!... tenho a certeza de que se deve a ela. — Estranho, de facto… Mas fala-me da tua avó! — Ela ficou cega mas, com as mãos, continua a fazer milagres. Cura as queimaduras, afasta o mal. As pessoas vêm vê-la de muito longe, pagam para falar com ela… Gosto de me sentar à beira da minha avó, embora ela às vezes me assuste. Costumava dizer: «Sinto o infortúnio a pairar sobre ti! Tem cuidado.» Um dia,
  58. 58. acrescentou: «Ouve, se alguém quiser fazer-te mal, pronuncia esta palavra, só esta palavra, e serás salvo.» Advertiu-me com um ar tão trágico que a palavra ficou logo gravada na minha memória. — Serviste-te dela porque queriam matar-te? Foi isso, não foi? — diz Kevin de imediato, impressionado com a história. — De certo modo… O dono da oficina onde cosemos as bolas batia-me cada vez mais. — Porque é que te batia? — Apercebi-me de que ele era um ladrão… Tinha emprestado dinheiro ao meu pai, e o meu trabalho seria para o ajudar a reembolsá-lo. Trabalhava até rebentar e o meu pai também, mas a dívida não diminuía. Havia um ardil por detrás, ele era um ladrão. — O patife! — Dizes bem. Da primeira vez que quis protestar, começou a dar-me murros… Uma noite, vinguei-me, inundei-lhe o stock, os caixotes prontos para partir para todos os países do mundo e ele ficou louco! Agarrou num pau enorme e atirou-se a mim. Senti muito medo e escondi a cabeça entre os braços. Pensei logo na minha
  59. 59. avó, porque ela sempre me defendeu. Sem mesmo refletir, a palavra que me tinha ensinado veio-me aos lábios. Gritei-a…e, então, vi-me em tua casa, dentro desta bola, e não era nada agradável: davas-me grandes pontapés na cabeça, porque eu não saltava — concluiu Iqbal a rir. — Para com isso! Tiveste muita sorte, ele podia ter-te matado!... Que palavra extraordinária é essa? — Não é extraordinária, até nem quer dizer nada, a minha avó inventou-a com toda a certeza: Shabatsé. Iqbal já tinha pronunciado a palavra quando se apercebeu que não o devia ter feito. E Kevin repete: — Shabatsé, é bonito, talvez que… Não chega a terminar a frase. Torna-se de repente muito leve, começa a flutuar, a baloiçar. E grita: — Iqbal! Demasiado tarde. E logo a seguir ao seu amigo, Kevin é aspirado para o interior da bola.
  60. 60. 5 — Onde estamos? O que se passou? Kevin sente medo, tem vontade de chorar. — Regressámos à minha oficina — responde Iqbal. — Que horror! Estão sentados no chão de cimento de uma divisão sombria, húmida e suja. À volta deles amontoam-se peles. É o couro que serve para fabricar as bolas. Cheira mal. — Shabatsé! Shabatsé! Shabatsé! — grita Kevin, desesperado. — Não te canses! — advertiu Iqbal. — Já tentei, mas parece que a palavra perdeu todo o seu poder. Kevin lança-se contra a porta… Está fechada à chave pelo lado de fora. — O que é que nos vai acontecer? Não pedi para vir até cá! — gritou Kevin. — Ninguém pediu para vir! Não foi Iqbal quem respondeu. A pessoa que respondeu foi um rapaz ainda mais novo. Está de pé, ao lado de Kevin. Tem olhos grandes, muito tristes, mas sorri. Não
  61. 61. é o único a ter-se levantado e aproximado. Três, cinco, oito crianças mais, rodeiam Iqbal, o recém-chegado, e o seu misterioso companheiro. — De onde saíram? — inquieta-se Kevin. — Trabalham comigo. — E vivem aqui? Dormem aqui? Como é que fazem? Há ratos, não? — Habituamo-nos. Os ratos não fazem mal. — É nojento. O vosso patrão merece ser preso. Ninguém se dá ao trabalho de concordar. — E agora, o que vamos fazer? Kevin mudou de tom. Começou a perceber. Já não se inquieta apenas por si próprio, mas por todas as crianças que o acaso apanhou numa armadilha, naquele buraco pestilento. Iqbal queria responder, mas não teve tempo: a chave gira na fechadura enferrujada da única porta. Em pânico, as crianças desaparecem. Voltam a deitar-se e fingem que estão a dormir. O próprio Iqbal foge também, mas regressa; não tem o direito de abandonar Kevin.
  62. 62. O homem que entra é enorme, um brutamontes. Os olhos são tão frios como balas de espingarda: — Ah! Estás aqui! Sempre voltaste! Onde te meteste? Mas não perdes pela demora! Está prestes a lançar-se sobre Iqbal, quando de repente se imobiliza: — E este, quem é? Descobrira Kevin e compreendera que pertencia a um outro mundo. — É meu amigo — murmura Iqbal. — Teu amigo… Teu amigo… O homem hesita, tanto mais que Kevin já não é o mesmo. Não só tinha deixado de tremer como é agora ele quem ataca: — Devia ter vergonha! O meu professor falou-nos de pessoas como você, mas eu não acreditava! Vou contar-lhe tudo e havemos de escrever ao ministro, ao presidente da República, ao vosso chefe de Estado! Vai pagar caro! O homem de olhos cruéis hesitou apenas um instante. Desata a rir.
  63. 63. — Estrangeiro imbecil! Não vais contar a tua história a ninguém. Não voltarás a sair daqui. Vou reduzir-te a picado e hás de ser comido pelos ratos. Com uma só mão, agarra Kevin pelos colarinhos, levanta-o como se fosse uma palha e encosta-o à parede. Levanta a outra mão, fecha o punho, ganha o impulso necessário... Vai cumprir a ameaça, mas para no último instante. Volta-se, sem largar Kevin: o seu instinto de animal selvagem advertiu-o de que havia perigo nas suas costas. Está cercado por um bando de crianças amotinadas, encurralado contra a parede. Como seria de esperar, Iqbal e os companheiros encontram-se na primeira linha, mas os restantes vieram em socorro deles. São já trinta, quarenta, em filas cerradas, e cada vez chega mais gente. Empunham o seu instrumento de trabalho, uma temível agulha, tão afiada como um punhal. Mas mais inquietante ainda é o brilho dos seus olhos. O homem nunca levará a melhor. Sabe-o bem, apesar da sua tacanhez. Pode varrer a primeira fila e, depois, a segunda. Como soldados prontos para o sacrifício, outros tomarão a vez. Mais cedo ou mais tarde será derrotado. Para poder ver-se livre deles, prefere render--se. Esquece Kevin, e levanta os braços.
  64. 64. 6 As crianças não dão nenhuma hipótese ao seu carrasco. Com a resistente corda que serve para coser as bolas, prendem-no de imediato e abandonam-no. Agora é cada um por si: todos se dispersam e fogem. — Vamos ter com a minha avó. Só ela pode ajudar-te a regressar a casa — garante Iqbal a Kevin. Para deixarem aquela cidade gigantesca, têm de caminhar durante horas antes de chegarem aos primeiros campos, sulcados por uma rede de irrigação. Algumas frágeis barracas de madeira aninham--se no cruzamento de dois caminhos perdidos. — É ali — declara Iqbal. Indica-lhe uma das casas. Entram na divisão única, sem ninguém, já que naquela altura a família está a trabalhar no campo. A avó de Iqbal está sentada bem longe da entrada, no meio de um amontoado de tapetes. — Estava à vossa espera! — afirma. — Aproximem-se, para eu vos ver melhor. Para poder ver melhor, tal como diz, acaricia o rosto das crianças com as suas velhas mãos cheias de suavidade.
  65. 65. — Meu Deus, estão exaustos! Dá-lhe de beber! Recebe o teu amigo como deve ser. Sobre uma braseira acesa algures, a água ferve. Iqbal prepara o chá. Serve-o a Kevin com toda a cerimónia. — Sabes, avó, o homem quis matar Kevin. É preciso castigá-lo. Vais… — Chiu! A avó põe um dedo nos lábios. Pede a Iqbal que se cale, antes de continuar: — Kevin, meu filho… Chamas-te Kevin, não é verdade? Não estou enganada? Descansa primeiro, restabelece-te de tantas emoções. Em seguida, quando estiveres preparado, pronuncia esta palavra: Namasté e voltarás para o teu quarto. Kevin não se apressa. Acaba o chá, bate na mão de Iqbal, prometendo que tentará vê-lo de novo, embora não saiba como, pronuncia a fórmula e desaparece. 7 — Kevin! Kevin! Kevin senta-se na cama, acordado em sobressalto pelo pai. Dormira toda a manhã.
  66. 66. — Levanta-te. A bola espera-te lá fora. Já não tem nada, salta como um cabrito. — Que bola?... Com os cabelos despenteados e os olhos pesados de sono, Kevin tem o ar de quem veio de outro planeta. — Sabes? A tua bola supostamente estragada… Tive tempo de ir à loja. Está impecável. Devemos ter sonhado… Mas o vendedor tranquilizou-me. Tem havido ultimamente muitos problemas, muitas coisas estranhas a acontecer com estes produtos fabricados não se sabe onde… Até me falou de um punching-ball que acabou de receber. Sabes, aqueles grandes sacos de couro com que os boxeurs se treinam. Sempre que alguém lhes dá um soco, tem-se a impressão de que o saco chora e geme! Como se alguém estivesse fechado lá dentro! É estranho, não é? Jacques Vénuleth Au pays d’Iqbal Paris, Ed. Magnard, 2001
  67. 67.  Esperança  Nunca deixes de acreditar na vida. Lembra-te sempre: só podes olhar o futuro com esperança se viveres o presente com retidão.
  68. 68.  Vende-se cachorrinhos Um rapazinho olhou para o letreiro da loja onde estava escrito: “Vende-se cachorrinhos.” — Por quanto vai vender os cachorrinhos? — perguntou. — Entre 30 e 50 euros — respondeu o dono da loja. — Tenho 2 euros e 37 cêntimos — disse o rapazinho. — Posso vê-los? O dono da loja sorriu e assobiou, e do canil saíram cinco bolinhas de pelo. Um dos cachorrinhos ia ficando bastante para trás. O menino viu imediatamente o cachorrinho atrasado que coxeava, e disse: — O que é que tem aquele cãozinho? O dono da loja explicou que ele não tinha o encaixe da anca e que seria sempre coxo. O rapazinho ficou entusiasmado: — É esse cãozinho que eu quero comprar. O dono da loja comentou:
  69. 69. — O cão não está à venda. Se o quiseres, dou-to. O rapazinho ficou muito aborrecido. Olhou bem nos olhos o dono da loja e disse: — Não quero que mo dê. Esse cãozinho vale cada cêntimo, tal como os outros, e vou pagar o preço total. Vou dar-lhe 2 euros e 37 agora e 2 euros por mês até o ter pago. O dono da loja insistiu. — Não podes querer comprar este cãozinho. Nunca vai conseguir correr e saltar contigo como os outros cães. A isto, o rapaz respondeu, baixando-se e levantando a perna da calça. Mostrou em seguida a perna esquerda muito torta e defeituosa, presa por um grande aro de metal. Olhou para o dono da loja e respondeu suavemente: — Eu também não corro lá muito bem, e o cachorrinho vai precisar de alguém que o compreenda! Dan Clark Canja de galinha para a alma Mem Martins, Lyon Edições, 2002
  70. 70.  Gratidão  Sê grato por tudo aquilo que tens e lembra-te: só aquele que sabe agradecer os favores que recebe merece ser ajudado!
  71. 71.  De graça Um rapaz foi ter com a mãe e entregou-lhe um papel. Depois de limpar as mãos ao avental, a mãe leu-o: Por cortar a relva 5,00€ Por limpar o quarto esta semana1,00€ Por ir fazer um recado à loja0,50€ Por tomar conta do meu irmão0,25€ Por ir pôr o lixo lá fora 1,00€ Por trazer boas notas 5,00€ Por limpar e varrer o quintal2,00€ Total em dívida: 14,75€
  72. 72. A mãe ergueu o olhar e ele ficou ali, à espera. Ela pegou no papel, voltou-o e escreveu: Nove meses em que te transportei enquanto estavas dentro de mim: de graça. O tempo em que estive sentada a teu lado a tratar-te, e em que rezei por ti: de graça. Todas as lágrimas que me fizeste chorar ao longo dos anos: de graça. Todas as noites povoadas de medo e preocupações que me esperavam: de graça. Por brinquedos, comida, roupa, e até por te assoar: de graça. E depois de somar tudo, o amor verdadeiro é... de graça meu filho!
  73. 73. Quando o filho leu o que a mãe escreveu, os olhos encheram-se-lhe de lágrimas. Olhou de frente para ela e disse: “Mãe, gosto muito de ti.” Depois, pegou na caneta e em grandes letras escreveu: “CONTA SALDADA.” M. Adams Canja de galinha para a alma Mem Martins, Lyon Edições, 2002
  74. 74.  Amizade  Um amigo verdadeiro é aquele com quem podes partilhar um livro, estudar as lições, falar do que te preocupa. Receberás dele atenção e lealdade, e não inveja, mentira ou atitudes agressivas.
  75. 75.  Dois amigos a sério — Tu irritas-me mesmo! — resmunga Roberto. — Isto aqui não é para ti! É só para grandes! O parque de diversões não é para garotos de cinco anos, mesmo que morem na rua por detrás das barracas de tiro, precisamente onde Roberto também mora. Mas Marco não deixa que o tirem dali para fora. Com passos largos e pesados segue atrás do outro. Quando ele para, Marco para também. — Porque é que andas sempre a correr atrás de mim? — Eu não ando a correr atrás de ti — afirma Marco. — Tu é que andas muito depressa! — Eu não quero que venhas comigo, percebes? Marco para. Deita para fora a pequena barriga redonda que a camisola interior, com um buraco do tamanho de uma cereja e muitas nódoas de gelado e doce, só tapa até ao umbigo. Enfia as mãos bem fundo nos bolsos das calças e deixa descair os cantos da boca, lançando sobre o Roberto o seu olhar amuado.
  76. 76. Roberto torna-se meigo. — Pronto, anda cá! Lá por mim… — com um gesto largo chama-o para si. É assim o jogo. Roberto, o grande de 10 anos, deixa que o pequeno de 5 anos vá com ele. Sem Marco, o parque de diversões não é tão divertido. Mas alguém tem mesmo que ser o chefe e mandar! Regras são regras. Ninguém é tão fiel como Marco. Ninguém escuta Roberto com tanta atenção como ele. Não importa que haja muitas coisas que não entenda, que não perceba tudo aquilo que Roberto sonha e relata. Sonhos que ele conta de forma tão emocionante como se fossem reais. Mas só Marco acredita em tudo o que ele diz. Só Marco consegue o que mais ninguém consegue, mesmo quando esse alguém é muito hábil e crescido: ficar contente e ter medo, juntamente com Roberto. À sua maneira, Marco gosta mesmo de Roberto. Roberto e Marco têm muito tempo para vaguear porque ninguém se ocupa deles. Só à noite é que têm de ir para casa jantar, o que é importante; e também é importante que ainda se vejam as cores das calças e que não haja cabeças partidas.
  77. 77. À tarde, andam juntos pelo parque de diversões, farejam as salsichas grelhadas para as quais não têm moedas, lambem em pensamento o algodão doce, que não podem comprar por falta de dinheiro, e porque preferem gastar o pouquinho que têm num gelado. Roberto tem dinheiro. Mas muito pouco! Nos bolsos, Marco tem elásticos para fazerem fisgas. E o lenço de assoar, o enorme, do pai, usado já milhentas vezes. Primeiro, passeiam calmamente até à montanha russa, param um bocado. Ouvem como os carrinhos às cores cheios de pessoas se lançam pelas curvas, continuam a corrida a subir e vão ficando mais lentos, como se não conseguissem chegar ao cimo. — Agora! — grita Marco, agarrando a barriga com as duas mãos. Aperta os lábios, fecha os olhos com força. Imagina-se a cair para o fundo a toda a velocidade. Mal as pessoas gritam com medo, ele agarra o braço de Roberto, e Roberto agarra Marco pelos ombros e tapa-lhe os olhos. — Já passou — diz, tirando a mão. O jogo é assim. Na pista de cart é a vez de Roberto. Regras são regras.
  78. 78. Marco está radiante. É bom ter medo quando Roberto está ao seu lado para o proteger. Roberto é daqueles que nunca têm medo. E quando tem, nunca mostra. Muitas vezes, até provoca propositadamente os rapazes mais velhos da feira. E ganha todas as bulhas! Então, como é bom quando o mais pequeno está a assistir e grita com toda a força: — Dá-lhe! Quem mais poderia bater no ombro de Roberto, depois da luta, se não o pequenito? Quem mais poderia limpar-lhe o sangue do nariz de uma forma tão carinhosa e desajeitada com a única ponta limpa do lenço todo sujo? Roberto faz voz grossa: — Deixa lá isso! Não sou nenhum bebé. Mas Marco responde: — Um dia ainda vou ser como tu. Igualzinho a ti, o melhor e o que consegue cuspir mais longe aqui no parque! E depois, também vou deixar que me limpem o nariz!
  79. 79. Mesmo assim, Marco já é capaz, a três passos de distância, de cuspir nas tábuas do banco de madeira em frente da cabine das gargalhadas. Tenta até imitar, com as suas pernas curtas, o andar de Roberto. Um pouco largo, com passos seguros, as mãos nos bolsos das calças, mesmo que os bolsos estejam meio rotos e, ao correr, esvoacem como bandeirolas ao vento. Tenta habituar-se a falar como Roberto, com pequenas pausas entre certas palavras, que soam muito adultas. Marco sabe praguejar como o amigo, e não lhe fica nada atrás. E sabe jogar futebol com a bola demasiado mole, a que falta sempre um pouco de ar para que salte bem. Como uma flecha, Marco corre atrás da bola e atira-se para a baliza. Não chora quando cai, nem quando o chão é duro e a terra salta e arde nos olhos. Só chora depois, em casa, quando a água corre sobre as feridas. Da montanha russa seguem para o autódromo, passando pelo baloiço gigante e pelo carrossel. — Gostava tanto de voar uma vez no avião! Achas que alguma vez vamos conseguir juntar tanto dinheiro? Como sempre, Marco olha com desejo e pena para os cavalos de pau a baloiçar, para o seu avião que gira ao lado das motas pretas.
  80. 80. — Voar, é sempre possível — diz Roberto — com o nariz no chão! Anda, vamos para a pista de cart! — Tu ficas com o carro número 4. Eu com o 6 — decide Roberto quando lá chegam. Encostam-se à rampa e observam como os outros entram nos seus carros. Mal os carros começam a trabalhar, imaginam-se atrás do volante, carregam no acelerador, cortam as curvas, chocam contra as proteções, guinam com o volante. O número 6 rasga a meta a grande velocidade. — Campeão!! — grita Marco por Roberto. Até se esqueceu que apostou no número 4! Mas Roberto é sempre o vencedor! O jogo é assim. E o vencedor também ganha o gelado. O perdedor tem autorização para lamber três vezes, uma vez em cada cor. Regras são regras. Às vezes também há um pão com fiambre como prémio. Ou chocolate. Marco recebe então uma tira inteirinha, e meia tira quando os chocolates são recheados. Em troca, oferece ao amigo, uma vez por outra, um selo turco, porque o avô lhe manda um postal por mês. Marco mandou dizer ao avô que lhe enviasse sempre um selo
  81. 81. diferente porque, por cada selo bom, recebia um bocado de chocolate! Mas Marco preferiria voar no avião… a comer chocolate… — Só uma volta — implora Marco. Mas o amigo responde: — Isso não dá. O carrossel tem muitas voltas. Não nos vendem só uma! — Pergunta aos teus amigos se nos emprestam algum dinheiro. Aos do parque de estacionamento, aos que indicam os lugares vagos aos carros! — Eles não andam a gastar as pernas para tu poderes andar de avião! — Porque é que nós não trabalhamos também no parque de estacionamento? — pergunta Marco. — Porquê? Primeiro, eles não aceitam miúdos. Segundo, não aceitam ninguém. Senão, têm de dividir o dinheiro por muitos. — Mas vamos lá na mesma! — insiste Marco. — Não. — Eu também sou o teu melhor amigo.
  82. 82. — Pois és — diz Roberto. — Mas não vamos! — Também te deixo ganhar sempre no cart! — Eu ganho de qualquer maneira porque tu gritas sempre por mim: “Campeão!” Marco para. Deita a pequena barriga redonda para fora, enfia as mãos nos bolsos das calças, lança sobre o Roberto o seu olhar amuado. — Pronto, está bem — diz Roberto suavemente. — Vá. Por mim, podemos ir. — Eu adoro-te! — diz Marco. Depois, estica-se todo até chegar ao pescoço de Roberto e pespega-lhe um grande beijo na cara! — Deixa-te disso — retorquiu Roberto. — Não sou nenhum bebé! — Com as mãos, limpa a cara do beijo de Marco. Depois dobra-se, rápido, e dá-lhe um beijo na cabeça, mesmo a meio do cabelo curto e espetado como um ouriço. — Ai! Isto pica! — Roberto leva as mãos aos lábios. — E pica bem! — diz Marco, a rir.
  83. 83. No parque de estacionamento, Ivo e Theo indicam aos carros que chegam os lugares vagos. As crianças que lá “trabalham” são da mesma idade de Roberto. É assim que ganham algum dinheiro com as gorjetas dos condutores. — Isso eu também sei fazer! — Marco observa como Theo faz sinal a um carro, corre à frente e leva-o até um lugar livre. — Isto não são coisas para ti — diz Roberto. Depois pergunta a Theo onde está o terceiro, o Jojo. — O Jojo fez chichi para o pneu da frente de um Mercedes — diz Theo. — No preciso momento em que o condutor regressava. Pusemos Jojo fora do grupo. Nada de chichis, nada de riscar a pintura, nada de tirar ar dos pneus! Era assim que estava combinado! — Ouviste? — diz Roberto a Marco. — Regras são regras. Com eles também! — Queres fazer na vez do Jojo? Ainda podíamos precisar de um terceiro. Mas de um quarto, não! — diz Theo, ríspido, deitando um olhar reprovador a Marco. — Eu faço com vocês mas só se este aqui ficar comigo. É o meu ajudante! Indica Marco que está à sua beira como um pequeno soldado, os ombros para
  84. 84. trás, a barriga encolhida, a cabeça direita, com um olhar de “eu-já-sou-grande”, como quem diz: nem tentes imaginar que eu sou tão pequeno como pareço! — O quêêê!?! — grita Theo. — Tu precisas de ajuda? Aqui ninguém precisa de mais do que dois braços. Além disso, ele é pequeno demais. Ainda escorrega para baixo do capot de um Volkswagen! — Eu tomo conta dele! — diz Roberto. — O miúdo é fixe. Roberto não vai desistir de maneira nenhuma. Esta noite ainda vai fazer uma surpresa a Marco! — Podes ir brincar de babysitter para outro lado! — diz Ivo, aproximando-se. — Aqui trabalha-se. Não precisamos de uma quarta pessoa. Podes ir embora! — Vamos com calma — diz Roberto muito adulto. Pega em Marco, que só tem uma grande barriga e que, de resto, é muito magro e levezinho. — Segura-te — diz-lhe para cima. — Nós os dois contamos como um homem! — diz para Ivo. — Queres brincar aos gigantes, é? — Theo sorri ironicamente. — Apostas em como nos veem melhor a nós os dois do que a vocês? E em como
  85. 85. nós temos mais gorjetas que vocês? No fim, calha-vos mais dinheiro! — Hum — resmunga Ivo. — Combinado — diz Theo. — Mas se der para o torto, sais tu e o teu ajudante anãozinho. — Não sou anão nenhum! — grita Marco de cima para Theo. — Agora, sou maior do que tu! Por volta da noite, Roberto e Marco tinham já ajudado a estacionar nove carros. De cada vez que um carro chegava, Marco trepava para os ombros de Roberto. Este orientava os condutores até aos lugares vagos e Marco baixava-se e recebia o dinheiro. Antes de cada um ir para casa, fazem-se as contas. As gorjetas recolhidas vão para o boné de Theo onde o dinheiro é dividido pelos três. Marco faz as contas com Roberto: dois gelados, meio pão com fiambre para cada um. Duas tabletes de chocolate, uma recheada, outra simples. Estão ricos! Talvez ainda sobre algum para… — Amanhã, deixo-te voar! — exclama Roberto, levantando o pequeno no ar. Rodopia com ele de tal forma que Marco quase se desequilibra.
  86. 86. — Queres dizer voar a sério — pergunta Marco ao amigo — ou só como agora? — A sério! — diz Roberto. — No teu avião. — Iupii!! — grita Marco, dando um enorme salto no ar! — Então convido-te eu também para uma volta de cart! Depois grito “Campeão!” e tu estás mesmo sentado lá dentro. — OK! — diz Roberto. É assim o novo jogo. — Mas eu sou o primeiro — diz Marco. — De acordo — responde Roberto. Novo jogo, novas regras! Evelyne Stein-Fischer 13 Geschichten vom Liebhaben München, DTV Junior, 1990
  87. 87.  Respeito pela Natureza  A natureza é generosa com todos, mas os seus dons estão a esgotar-se devido à cegueira e ao egoísmo dos homens que põem os seus interesses acima do interesse comum. Sê responsável.
  88. 88.  A história da árvore do Paraíso No início do mundo, o Grande Criador plantou um jardim. Inúmeras plantas formosas cresciam em cada um dos seus diferentes campos. Havia jardins de florestas, completamente cobertos de musgo verde e campainhas ondulantes, que acenavam timidamente ao vento. Pequenos seres povoavam estes jardins, farejando e sussurrando a toda a hora. Havia jardins de pradarias cheios de ervas oscilantes, que os animais percorriam com passadas graciosas. Havia também jardins subaquáticos, para os seres do mar profundo. Tinham folhas roçagantes, arrastadas pelas correntes, e misteriosas flores de pétalas trémulas. Os mais belos de todos eram os jardins de árvores. Eram tão altas que tocavam o céu. Nessas árvores, todos os pássaros faziam os seus ninhos. Os ramos, cheios de folhas, enchiam-se de trios e chilreios, de gorjeios e assobios, de melodias trinadas, que caíam em sonora cascata para deleite do mundo.
  89. 89. O Grande Criador pediu aos homens que tomassem conta do mundo e construíssem para si próprios casas simples e seguras, num dos jardins de que gostassem. Mas o tempo foi passando e as pessoas tornaram-se cada vez mais ambiciosas… — Vamos construir CASAS MAIORES! — disseram. — Há materiais de construção em abundância para usarmos como quisermos. Em breve começaram a construir palácios. Cada novo edifício era mais alto do que o anterior e os palácios eram feitos cada vez com mais magnificência. As suas salas às centenas estavam cheias de todo o tipo de luxos… mas a ambição das pessoas não conhecia limites. Os jardins do mundo foram caindo em ruínas, cada um deles imagem da mais desoladora devastação. Todas as árvores tinham sido abatidas. Os pássaros agitavam-se tristemente no chão frio, tentando, em desespero, construir novos ninhos. As suas canções foram silenciadas. Então, do alto do seu palácio, uma criança olhou para o mundo devastado e chorou.
  90. 90. — Desce à terra — sussurrou-lhe, por entre o vento, a voz do Criador. — Lá encontrarás uma semente, que deves semear num local onde possa crescer em segurança. A correr, a criança desceu as escadas em caracol da torre do palácio. Pousada na terra, estava uma semente castanha, enrugada, feia. A criança pegou na semente com delicadeza. — Onde poderei semeá-la em segurança? — perguntou-se. Foi caminhando, caminhando, até que chegou a uma vala na qual uma lama escura corria lentamente e alguns juncos baloiçavam no vento frio. — Coloca-a aqui, onde nunca ninguém vem! — parecia sussurrar o vento. E foi ali que a menina enterrou a semente. Devagar, em silêncio e completamente invisível, a semente começou a germinar. Cresceu e fez-se uma árvore forte. Sob os seus ramos, outros jardins começaram a florescer. Em breve, as criaturas reuniram-se à sua volta. A árvore cresceu mais alto do que todos os palácios. Os pássaros voavam por entre os seus ramos e aí construíam os ninhos.
  91. 91. Cresceu tanto, que chegou ao Paraíso. E quem assim o desejasse, poderia subir pelos seus ramos até ao Jardim do Paraíso do Grande Criador. Mary Joslin The tale of the heaven tree Oxford, Lion Publishing, 2001
  92. 92.  Paciência  Não te zangues com aqueles que são mais fracos do que tu, nem os olhes com superioridade. Tenta aceitar com calma as contrariedades que vais encontrando pelo caminho. Vê também o seu lado positivo! Ajudar-te-ão a crescer.
  93. 93.  A árvore que falava Longe, muito longe… bem no coração da savana, vivia uma árvore maior e mais velha do que qualquer outra. Abrigava, sob a sua corcha, toda a sabedoria de África. A seus pés, por entre as altas ervas, a leoa espiava o antílope ou a zebra que se tinham afastado do grupo. Como era a única árvore das redondezas, os pássaros, que se empoleiravam nos ramos mais altos, conheciam-na bem. Também as girafas, que comiam as folhas dos ramos do meio, a conheciam. E os leões, que se estendiam sob os ramos baixos para fazerem a sesta… E assim a árvore conhecia todos os segredos dos pássaros, dos leões, das girafas, das zebras e de muitos outros animais. É que ela escutava com todas as suas folhas. Até os homens vinham sentar-se debaixo dela no momento das grandes decisões, discutindo os assuntos sérios à sombra dos seus ramos. A árvore sabia mais sobre o povo dos homens do que o mais velho dos anciãos e o mais sábio dos sábios. Porque ela sabia calar-se, enquanto eles gostavam de falar. Mas a árvore não guardava para si o seu saber: àqueles que tinham os ouvidos atentos, ela murmurava, em confidência, a resposta a muitas questões.
  94. 94. Quando as suas crias estavam suficientemente grandes para voar, as andorinhas, as cotovias e os estorninhos tinham por hábito levá-las até à árvore. Ao cair da noite, esta enchia-se de chilreios. Passado algum tempo, com três bicadas, os pais faziam calar as mais palradoras. E cada uma escutava o murmúrio que subia da raiz mais profunda até ao raminho mais alto. No dia seguinte, os juvenis sabiam um pouco mais da arte de voar em ziguezague para enganar as aves de rapina que mergulham sobre as presas. E a águia ou o milhafre regressavam às montanhas de mãos a abanar, perguntando-se por que milagre todos os passarinhos daquele canto da savana se tinham tornado, de repente, tão espertos! E cada girafinha que partia a mascar um punhado de folhas da árvore ficava a saber um pouco melhor como evitar a leoa que caçava. E, misteriosamente, cada leãozinho, depois da sesta ao pé da árvore, desconfiava um pouco mais do riso da hiena que rondava à procura de uma presa fácil. Mas os homens, esses, partiam tão sisudos e ocos como tinham vindo, e a sua tagarelice nada lhes ensinava porque não sabiam escutar. Eram orgulhosos e arrogantes. Incendiavam a savana com os seus fogos e
  95. 95. matavam mais animais do que aqueles de que precisavam para se alimentar. Matavam-se até uns aos outros. E chamavam a isso «a guerra». A árvore falava-lhes, como a todos, mas os homens não a escutavam. Por causa deles, a árvore ficou triste. Pela primeira vez, sentiu-se velha e cansada. Se pudesse, ter-se-ia deitado para esquecer. Mas quando se é uma árvore, é preciso ficar de pé a recordar… Foi então que as suas folhas amareleceram e secaram e, em breve, ficou nua no meio da savana. Os pássaros começaram a desdenhar dos seus ramos e os leões e as girafas também, porque ela deixara de lhes falar. E todos diziam que ela estava morta. * * * Por muito tempo a árvore seca ficou de pé. E parecia que nada viria alguma vez a mudar… O milhafre da montanha estava contente e as hienas riam-se. A leoa perdeu um leãozinho, a girafa uma girafinha e a andorinha, três passarinhos que mal sabiam voar. Mas, uma manhã, veio um pequeno homem com um ar decidido. Tinha o olhar de uma criança, e esse olhar não refletia nem fogo nem sangue. As suas mãos não agarravam nem arco nem zagaia. Contudo, era um homem.
  96. 96. Parou ao pé da árvore seca, estendeu os braços e, com as pontas dos dedos, tocou no tronco, muito devagar, ao de leve, como se acordasse alguém que dorme. A corcha estremeceu. E a voz do pequeno homem subiu ao longo da árvore, terna como um cântico muito antigo. O homem falava à árvore, cheio de simplicidade. Depois, calou-se. E encostando a orelha ao tronco, escutou. O vento nos ramos parecia formar palavras e frases. E quanto mais a árvore falava, mais a expressão do homem se iluminava. Quando a árvore terminou, o homem partiu. Quando voltou, trazia um machado aos ombros. Uma vez perto da árvore, levantou a cabeça em direção aos ramos e murmurou algumas palavras em tom de desculpa. Depois, firme nas suas pernas, com o cabo do machado bem preso nas mãos, começou a cortar o tronco. E a madeira ressoou na savana, até aos limites do deserto e das montanhas. Cada pássaro, cada leão e cada girafa reconheceram a voz da velha árvore. Todos acorreram para junto dela, mas apenas encontraram um cepo e algumas aparas espalhadas pelo solo. É que o pequeno homem, ajudado por alguns da sua aldeia, tinha levado a árvore até casa. E, com medo dos homens, os animais não se atreveram a segui-lo. Uma vez chegados à aldeia, o homem pôs-se a trabalhar. Tinha uma grande
  97. 97. ideia: para que a voz de madeira da velha sábia percorresse de novo a savana, iria fazer um tantã. Um tantã mais sonoro e maior do que qualquer outro. Suficientemente longo para que todos os homens da tribo pudessem tocar em conjunto. Quando o homem pegava de novo no machado para podar os ramos e deixar, assim, o tronco livre, aqueles que tinham carregado a árvore com ele fizeram-lhe sinal que parasse: — Pequeno homem, nós ajudámos-te — disseram os homens fortes com as suas vozes grossas. — O nosso trabalho deve ser pago. — Mas… com que é que vou pagar-vos? Eu não tenho nada, bem sabem! — Deixa-te disso! — insistiram os homens fortes. — Trouxemos a tua árvore, dá- nos a nossa parte. — Não pode ser — protestou o homem. — É preciso que o tronco fique inteiro para o tantã. Se não, como é que a tribo poderá tocar? Os homens obstinavam-se a reclamar a sua parte da madeira e o assunto foi levado ao Conselho dos Anciãos.
  98. 98. * * * Era uma assembleia de homens muito velhos e muito tagarelas. Sempre prontos a pronunciar uma sentença ou um julgamento, tanto a propósito do que conheciam como do que ignoravam. Nada lhes agradava mais do que reunirem-se quando lhes pediam um conselho, e também quando não lhos pediam! Ora, o Conselho tinha por hábito reunir-se debaixo da grande árvore, e os velhos sentiam-se desamparados… pois a árvore tinha sido cortada! O mais velho dos Anciãos, um pequeno velhinho com a face enrugada como uma ameixa seca, agitou o cachimbo por cima da cabeça e tomou a palavra: — O Conselho não se pode reunir por falta de um lugar adequado. E expeliu uma baforada do seu cachimbo. Os outros membros do Conselho, sentados em círculo, aprovaram com um movimento de cabeça, expeliram, cada um, uma baforada do seu cachimbo e guardaram silêncio. Os homens fortes, que queriam a sua parte da árvore, e o pequeno homem, que nada queria, não sabiam o que fazer. Impaciente por começar o trabalho, o homem avançou para dentro do círculo, curvou-se respeitosamente diante do mais velho dos Anciãos:
  99. 99. — Digam-me apenas se posso começar o meu trabalho, já que estais aqui reunidos. — É verdade que estamos aqui — respondeu o Ancião. — Mas o Conselho não está reunido. Por isso, não pode dar a sua opinião. Expeliu uma outra baforada e calou-se. Os homens fortes, impacientes por levar a madeira que lhes cabia, inclinaram-se, por sua vez, diante dos Anciãos e disseram: — Digam-nos apenas se podemos pegar na nossa parte. O Ancião nem se deu ao trabalho de responder. Limitou-se a expelir uma baforada do cachimbo e permaneceu em silêncio. Mas o mais forte, que também era o mais impaciente, deu um passo em frente. De imediato, o velho homem largou o cachimbo e, com uma voz trémula, acrescentou precipitadamente: — O Conselho vai reunir… para decidir onde terá lugar o próximo Conselho. O discurso enfadonho que se seguiu poderia ter durado até ao final dos tempos, se o Conselho não tivesse acabado por decidir… que decidiria mais tarde! De seguida, os velhos aconselharam o pequeno homem a dar aos homens fortes
  100. 100. o que eles pediam. Depois, reclamaram, por sua vez, um pedaço da árvore como recompensa pelo sábio conselho. E o pequeno homem assim o fez, porque era costume dar uma prenda aos Anciãos, como agradecimento pelos seus conselhos. E cada um se apressou a serrar, a rachar e a atar. E o pedaço de árvore não tardou a transformar-se em achas, toros e feixes para queimar. Os homens acendiam fogueiras à volta da aldeia para manter afastados os animais selvagens. Ignoravam que os animais tinham ainda mais medo deles do que das suas fogueiras. * * * Um pouco desiludido, o pequeno homem reparou na diminuição do tronco, mas disse para si mesmo que, apesar de tudo, ainda chegava para fazer um bom tambor para a tribo. Lançou-se ao trabalho, cheio de coragem. O machado, no entanto, não era muito adequado para o descortiçamento, por isso decidiu ir a casa de um vizinho pedir emprestado um podão, cuja lâmina curvada faria melhor o serviço. Como era hábito, o vizinho estava a fazer a sesta e o pequeno homem acordou-o para lhe fazer o pedido.
  101. 101. — Ah! És tu? — disse o vizinho, bocejando como um hipopótamo. — O que queres de mim? — Podias emprestar-me o teu podão? — perguntou muito educadamente o pequeno homem. — Eh! — respondeu o vizinho, tão amável quanto um crocodilo a quem interromperam a digestão. — Não me deixas dormir com esse barulho todo… E ainda por cima queres que te empreste o meu podão! E se eu precisar dele? — Mas… é só por um dia! Amanhã já terei acabado! — O que me dás em troca? — Sabes bem que não tenho nada de meu. — Ah não? E essa árvore? É tua, não é? — Sim, mas… — começou o pequeno homem. — Pois bem, dá-me um pedaço para alimentar a minha fogueira e emprestar-te- -ei o meu podão. Assim se fez, já que mais ninguém na aldeia tinha a ferramenta de que o pequeno homem precisava. Um pouco desiludido, atentou no tronco, agora mais
  102. 102. pequeno. No entanto, havia ainda madeira para fazer um tantã para a tribo. Lançou- se ao trabalho, cheio de coragem. E o descortiçamento depressa terminou. Mas, quando quis cavar o tronco, apercebeu-se de que não tinha cinzel para o fazer. De certeza que o vizinho tinha um, mas será que lho emprestaria sem reclamar mais um pedaço da árvore? Infelizmente, mais ninguém da aldeia tinha cinzel. E era preciso acordar novamente o hipopótamo, amável como um crocodilo. — Tu, outra vez! — bocejou o vizinho. — O que queres? — Desculpa — disse o pequeno homem com a sua voz gentil. — Vim devolver-te o podão… e pedir-te, em troca, um cinzel, se fazes o favor. — Em troca? — zombou o vizinho. — Não há troca nenhuma porque o podão é meu. Dá-me um pedaço de madeira para a minha fogueira e emprestar-te-ei o meu cinzel. * * * Assim foi feito. E o pequeno homem, um pouco desiludido, atentou no tronco muito curto. Ainda podia fazer um bonito tantã, não para toda a tribo, mas, mesmo assim, um bonito tantã. Cheio de coragem, meteu mãos à obra e depressa cavou o tronco. Faltava apenas endurecê-lo ao lume, para que fosse mais sólido e para que o
  103. 103. seu som chegasse mais longe. Mas o pequeno homem não tinha fogueira e já havia dado tanta madeira aos outros que não possuía o suficiente nem para atear um fogo. Claro que a fogueira do vizinho crepitava, um pouco mais longe, mas não ousava acordá-lo pela terceira vez. Foi então pedir aos homens fortes a permissão de passar o seu tantã pelo fogo. — De acordo, — disseram eles — mas com a condição de pores uma acha na nossa fogueira, como todos fazem. — Mas… já não tenho madeira, já vos dei tudo! — respondeu. — Ah sim? E isto, isto não é madeira? — perguntou o mais forte dos homens fortes, indicando o pequeno tantã. Com a morte na alma, o pequeno homem teve de se resolver a cortar um pedaço do tantã antes mesmo de lhe ter ouvido a voz. E quando pensou naquilo que lhe restava do imenso tronco que a árvore lhe tinha dado, esteve quase para se sentar a chorar e abandonar o seu belo projeto. Mas caiu de novo em si e disse para si mesmo que, apesar de tudo, se não chegasse para um tantã, chegaria para fazer um grande tambor. Cheio de coragem, meteu mãos à obra e o que restava do tantã foi rapidamente
  104. 104. convertido em djembé. (Djembé é o nome que se dá em África a esta espécie de tambor). Mas o pequeno homem apercebeu-se de que lhe faltava uma pele de cabra para o tambor. Partiu então à procura do rebanho de cabras. A rapariga que as guardava era ainda quase uma criança, e o pequeno homem pensou que seria mais fácil falar com ela. — Bom dia — disse à criança. — Bom dia — respondeu ela. — És tu que dás madeira a toda a gente em troca de uma ferramenta ou de lume? — Sim, quer dizer… — começou ele. — O que queres de mim? — interrompeu a criança. — Apenas uma pele de cabra, uma daquelas que tens por aí. Mas já não tenho madeira para te dar. — É pena — disse a rapariga. — Porque também eu necessito de um pouco de madeira. Para afastar os leões do meu rebanho não há nada melhor do que uma boa fogueira, disseram-me os Anciãos.
  105. 105. — Oh, por favor, dá-me uma pele. Bem vejo que não te fazem falta — suplicou o pequeno homem. — Pelo contrário, as minhas peles, troco-as por madeira! — retorquiu a criança. E, como mais ninguém na aldeia tinha peles de cabra, o homem foi obrigado, uma vez mais, a cortar um pedaço do tambor. * * * A pele de cabra era dura e seca, frágil como uma corcha. Antes de a colocar no tambor, era preciso macerá-la, fervê-la, esticá-la, batê-la, para a tornar mais suave e tão sólida como o couro. Só faltava levá-la ao curtidor. Aquele que curtia todas as peles da tribo morava sozinho fora da aldeia, perto do rio. O seu trabalho requeria muita água. E os outros não tinham querido que ele se instalasse perto, devido ao cheiro insuportável das peles molhadas. Mas, por mais longe que o curtidor morasse, também ele tinha ouvido falar da árvore abatida. Por sua vez, reclamou uma parte, como prémio do seu trabalho. — Mas já não há nenhuma árvore! — lamentou-se o pequeno homem. Ficou apenas um tambor!
  106. 106. — De acordo — concluiu o curtidor. — Contentar-me-ei com um bocado do tambor. E o pequeno homem cortou e deu-lhe a madeira, e a pele foi curtida, seca e ficou pronta a ser colocada no djembé. Quando quis esticá-la, deu-se conta de que lhe faltava uma corda para o fazer. Foi então à procura daquele que na aldeia melhor sabia entrançar cordas. É que a corda que estica a pele de um djembé tem de ser sólida. Tal como os outros, o entrançador de cordas pediu um pouco de madeira. Apesar dos seus protestos e lamentos, o pequeno homem nada conseguiu. E o tambor ficou ainda mais pequeno. Regressou a casa perturbado, com a corda ao ombro. Ao ver o tambor tão pequeno, perguntou-se se teria valido a pena o trabalho. Depois, recordou a árvore que se erguia no meio da savana. Lembrou-se da promessa que lhe tinha feito e sentiu de novo coragem. Depressa a pele de cabra foi colocada no djembé, em arco, e muito esticada por uma rede de nós sólidos e complicados. * * * O homem olhou para o seu djembé, finalmente pronto! Claro que era um djembé muito pequenino, bem diferente daquele tantã que ele quereria ter talhado e no qual
  107. 107. toda a tribo teria tocado em conjunto. No entanto, o homem não ficou dececionado, porque era um belo djembé: esculpido, polido, suficientemente largo para as suas pequenas mãos, e suficientemente grande para lhe caber entre os joelhos. Então, quis experimentá-lo. Com as palmas e os dedos pôs-se a tocar. E a voz que saía deste tambor, tão pequenino que mais parecia um tambor de criança, era ampla e vasta e profunda como a floresta. O homem sentiu-se arrebatado e as suas mãos continuaram a tocar… E a voz imponente do pequeno djembé estendeu-se a toda a aldeia e à savana inteira. Um por um, todos os membros da tribo aproximaram-se dele. Tinham vindo todos: desde o mais ancião dos Anciãos à pequena guardadora de cabras, do mais forte dos homens fortes ao vizinho crocodilo. Tinham deixado as suas fogueiras, as suas conversas enfadonhas e as suas sestas, para formar um círculo em redor do pequeno tambor. E faziam silêncio. Do pequeno djembé elevavam-se palavras e frases que diziam toda a savana: o medo da zebra que foge à azagaia do caçador ávido, o sofrimento da erva que curva perante a chama acesa pelo homem, a doçura do vento que murmura nos ramos da árvore… E os homens escutavam. Eles, que só pensavam na caça, na guerra e nas fogueiras, faziam silêncio.
  108. 108. Assim, até aos limites da montanha e do deserto, cada pássaro, cada leão e cada girafa reconheceram a voz da velha árvore. E, graças às mãos do pequeno homem, todos partilharam de novo o seu saber, por muito tempo ainda. Porque, ao som do djembé, o cepo da antiga árvore germinou. Do jovem rebento brotou uma nova árvore. E, sob a sua corcha de árvore, corria a seiva da sabedoria de África. A seus pés, por entre as ervas altas, a leoa espiava o antílope ou a zebra que se tinham afastado do grupo. Os pássaros, que se empoleiravam nos ramos mais altos, conheciam-na bem. E as girafas, que comiam as folhas dos ramos do meio, e os leões, que se estendiam sob os ramos baixos para fazerem a sesta. Até mesmo os homens… Do Spillers L’arbre qui parle Toulouse, Milan Poche, 1999
  109. 109.  Compaixão  Não desprezes aqueles a quem a vida desfavoreceu, mas ajuda-os no que estiver ao teu alcance. Cada pessoa tem em si algo de bom que é preciso fazer desabrochar.
  110. 110.  Uma estrela subiu ao céu Estava no chão do recreio, no meio da sujidade. No fim do intervalo grande, Regina pegou nela. Era uma bolacha de Natal em forma de estrela, escura e com uma espessa cobertura de açúcar. Na sala, Regina pôs a estrela na secretária, em frente da professora, a D. Mariana. — Encontrei-a no recreio — disse. — Alguém a deitou fora — disse Carolina. — Está suja e já ninguém pode comê-la — disse Francisco. — Se alguém tivesse fome de verdade, comia-a — assegurava Regina. — Ugh! Eu nunca iria metê-la à boca — disse Francisco. A D. Mariana, em silêncio, ouviu as crianças durante algum tempo. — Qual de vocês já teve fome de verdade, uma fome a sério? — perguntou por fim.
  111. 111. Alguns dedos levantaram-se. — Uma vez, eu tive de ir para a cama sem jantar. — Num passeio, no verão, esquecemo-nos do cesto do piquenique. — Nós fomos visitar a nossa tia Emília, mas ela não nos ofereceu nada para comer. — E a vossa fome era tão grande que seriam capazes de comer a estrela? — perguntou a professora. — Não, não era assim tão grande — respondeu Sandra, por todos. — Se se comer uma coisa dessas, fica-se doente. Então, a D. Mariana contou a história do pequeno Sindra Singh, que vive na Índia longínqua e que tem aproximadamente a idade dos alunos da turma B da terceira classe. Todos os dias, Sindra recebe na estação uma mão-cheia de arroz. São aproximadamente 300 grãos. Um dia Sindra contou-os. Come 150, assim que o senhor da estação lhos dá. Mete 100 grãos à boca quando o sol está alto e guarda o resto para a altura em que o sol se põe. Às vezes, faz batota e começa a comer
  112. 112. quando o sol ainda está por cima das árvores. — O que acham? — pergunta D. Mariana às crianças. — Acham que o Sindra Singh comeria esta estrelinha? — Eu acho que sim — admitiu Regina. — Mas, aqui, a bolacha estava caída no recreio, no meio da sujidade. — O meu avô disse-me que não se deve deitar pão fora — contou Matilde. — Ele disse que aprendeu isso na Rússia, quando esteve preso depois da guerra. — Em África, as pessoas também passam fome — disse Francisco. — E no Brasil também. Lá, numa certa região, não choveu durante dois anos — contou Carolina. — O meu tio escreveu da Anatólia — relatou Zeki. — Houve lá um terramoto e as pessoas já não têm quase nada para comer. Até ali, Maria não tinha dito nada. Agora pedia para falar. — Ontem à noite, na festa de Natal, cantámos e tocámos para os pais — disse. — Juntámos algum dinheiro. Com ele, podíamos fazer uma encomenda…
  113. 113. Maria hesitou e sentou-se novamente. — Um embrulho de Natal! — exclamou Francisco. — Depois de amanhã, parte da igreja um camião para o local do terramoto — disse Carolina. — De certeza que levava o embrulho! As crianças estavam entusiasmadas. Escreveram no quadro tudo o que queriam meter no embrulho: chocolate e maçapão, farinha, açúcar, biscoitos, conservas, etc. Quando tocou para o intervalo, cada criança da turma sabia o que devia comprar nessa tarde, para se mandar a encomenda. Era o único trabalho de casa desse dia. No fim, a D. Mariana ergueu a estrela. — Estou enganada, meninos, ou ela está mesmo a brilhar um bocadinho? — As crianças também acharam que estava um pouco mais clara. A professora voltou para casa relativamente cansada, mas satisfeita. À noite, o telefone tocou. Era o Sr. Mateus, o pai de Francisco, a queixar-se. O dinheiro tinha sido reunido para a turma. O dinheiro estava pensado para papel e lápis de cor. O dinheiro era para proveito das crianças da classe B. O dinheiro não era para deitar pela janela.
  114. 114. A D. Mariana objetou que tinham sido as crianças a terem a ideia de, no Advento, fazerem algum bem com aquele dinheiro. O Sr. Mateus disse que a escola não existia para isso. — Mas, Sr. Mateus, então o Francisco não contou nada da estrela? — Estrela? — perguntou o Sr. Mateus. — Mas que estrela? — Bem — disse a D. Mariana um pouco desamparada — a bolacha de Natal. Quando as crianças tiveram a ideia do embrulho, de repente, ela começou a brilhar. Quero dizer… — Quer enfiar-me o barrete, não é? — resmungou o Sr. Mateus. — Vou tomar outras medidas. O ministro… — Pergunte ao Francisco sobre a estrela. Ele também viu! — podia ainda ter dito a D. Mariana, mas o pai de Francisco já tinha desligado. Na manhã seguinte, a professora foi para a escola um pouco abatida. O marido tinha-a animado, e sugerido, caso fosse preciso, que pagasse ela própria as coisas para a encomenda, mas a D. Mariana achava que não seria a mesma coisa. No recreio, Francisco veio logo a correr ao seu encontro e entregou-lhe uma
  115. 115. carta. A professora abriu apressadamente o envelope e a nota de vinte euros que vinha lá dentro quase voou. O Sr. Mateus tinha escrito ainda algumas linhas. Cara D. Mariana, Falei com o meu filho Francisco. Ainda não sei se é correto o que pensa fazer, mas tive a impressão de que ainda se via nos olhos do Francisco o brilho da estrela. Desculpe, por favor, o meu telefonema de ontem. A minha mulher diz muitas vezes que eu sou uma pessoa impetuosa. Alexandre Mateus No dia seguinte, saiu o camião para a Anatólia com muitas encomendas. No embrulho da turma B, ia uma carta.
  116. 116. Estava escrito FELIZ NATAL! Cada uma das vinte e seis crianças escrevera o seu nome por baixo. — Algures, na Anatólia, uma estrela vai subir ao céu — disse a D. Mariana às crianças. Willi Fährmann Jutta Modler (org.) Frieden fängt zu Hause an München, DTV Junior, 1989

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