A Exploração
do Homem
pelo Homem
A Escravatura Ontem
(i)
Índice
Intertexto........................................................................................................
(ii)
Industrialização - Uma revolução em curso ....................................................... 102
A revolução ind...
1
Intertexto
INTERTEXTO
Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns...
2
Os escravos de Roma
A escravatura desempenha um papel da maior importância ao longo de toda a
antiguidade, particularmen...
3
Apolónio precipitou-se para a cozinha: desta vez, era ele que trazia grandes novidades.
Procurou Philotas1 com o olhar e...
4
O rapaz concentrou-se na tarefa. Dobrar uma tão pesada peça de tecido era tarefa difícil.
A voz de Públio elevou-se atrá...
5
Públio olhou-o pasmado.
— Foi o Philotas que te meteu na cabeça que os escravos têm direito a sentimentos?
Apolónio não ...
6
— Sim. Levam-lhe o trigo e recuperam a farinha várias vezes por dia. Dão-lhe às vezes
um pouco de pão e água.
— Não o so...
7
Philotas prosseguiu, num tom mais contido.
— Tenho fome e frio durante a noite, sinto medo nesta escuridão. Não suporto ...
8
Camponeses e senhores
A servidão e a pobreza são um dos flagelos que atingem os camponeses da Idade
Média. Para escapar ...
9
augúrio, por certo. Mas havia pior. O senhor de Vélizé e o capelão também o acompanhavam,
bem como dois albardeiros. A m...
10
O conde interrompeu:
― O que interessa é quantos filhos vivos tens. Ou seja, dez. O senhor de Vélizé e eu
combinámos di...
11
voz embargada, o pai falara de dever, de Deus e de renúncia. Mencionara ainda a necessidade de
aceitação e a recompensa...
12
A revolta
No ano de 1798, em França, os camponeses continuam vítimas de opressão, sendo
obrigados a pagar ao rei e aos ...
13
— Bons dias — lança o cobrador.
O tia Chantelou simula espanto:
— Ah, é você!
— Sim, cá estou, como todos os anos — res...
14
As ruas de Paris
Aimé tem 10 anos. Órfão de pai e mãe, parte à procura das suas origens. Primeira
etapa: Paris, onde ac...
15
Custava acreditar que, naquele preciso momento, e sobretudo em Paris, o povo miúdo
morria de fome. Porque, nessa mesma ...
16

O tráfico dos escravos africanos
Entre o século XVI e finais do século XIX, cerca de 11 milhões de homens, mulheres...
17
No rasto dos escravos
Após uma longa e penosa travessia do Atlântico, dois irmãos, Monzo e Mangala,
descobrem o mundo c...
18
— Tudo por causa daquele maldito feiticeiro! — exclamara. — “É uma expedição muito
perigosa”, disseram-lhe os espíritos...
19
O pôr do sol tingia de ouro e vermelho a paisagem, quando os irmãos se aperceberam dos
telhados de uma aldeia junto ao ...
20
infortúnio eram homens e mulheres, com um ar apavorado e um olhar baço. Os seus pés, nus,
estavam quase em sangue. Há q...
21
Muitos outros “incidentes” deste tipo se sucederam, mas nenhum teve um efeito tão
devastador sobre Mangala. Fora arranc...
22
como nos barrotes. Não era preciso pensar muito para perceber para que serviam aquelas
argolas. Todos os prisioneiros f...
23
A partir desse dia, lavavam os presos com abundância e frequência, e eles próprios tinham
de lavar a boca e os olhos. M...
24
Algumas horas mais tarde, uma longa coluna de pessoas acorrentadas punha-se em marcha,
escoltada desta vez por homens b...
25
poucos respondiam. Os mercadores tinham separado as famílias, deixando cada membro
entregue ao seu desespero e à sua im...
26
atirados borda fora, para grande satisfação dos tubarões que circundavam o navio. O capitão não
podia deixar de dar uma...
27
brilhante, apesar de todas as provas a que tinha sido sujeito. Que pena as chicotadas terem
deixado tantas marcas nas s...
28
Dawu, do povo dos Yoruba
Na aldeia onde vive Dawu, as pessoas estão desconfiadas. Sabe-se que os caçadores de
escravos ...
29
Quando amanheceu, a aldeia estava destruída e apresentava um ar de desolação. Ouviam-se
gemidos por todos os lados. Os ...
30
Os navios negreiros
Na sua definição mais básica, o comércio transatlântico de escravos consistia no fluxo
forçado de s...
31
exemplo, o centro económico do comércio britânico era Londres, mas o próprio foco do
tráfico de escravos mudou-se de Lo...
32
Aquilo que parecia ser uma simples rede de negociações na costa era, na realidade, a parte
mais visível (para os europe...
33
que preferissem acabar com os seus tormentos atirando-se ao mar. Quando havia mau
tempo, os africanos nem eram limpos n...
34
compensar as dificuldades da travessia transatlântica. Mas, para os africanos, pouco havia a
fazer para que recuperasse...
35
volumes crescentes de produtos cultivados por escravos. Entre 1640 e 1700 foram
desembarcados um milhão e 600 mil afric...
36
Estas circunstâncias de doença e mortalidade, é necessário referir, bem como também as
suas consequências – ou seja, qu...
37
Profissão: negociante
Jean-Baptiste Duchemin, francês, é negociante… de escravos. Compra negros em África e
revende-os ...
38
“Maravilhas” ignoram escravatura
Catedráticos de África, Europa e América
acusam o Governo português de querer apagar o...
39
A carta aberta salienta que, nas últimas décadas, tem havido uma crescente
consciencialização da «memória dolorosa do c...
40
A carta aberta foi assinada por dezenas de catedráticos de Universidades de África, Europa e
Américas do Norte e do Sul...
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Escrava!
Tem dez anos, é negra, e há muito que deixou de ter nome. Capturada em África e
embarcada com destino à Améric...
42
grávida estava estendida no pavimento, completamente esgotada. Meia dúzia de crianças, um
pouco afastadas, observavam, ...
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Lembrava-se do pesadelo que fora a invasão da aldeia por guerreiros inimigos, e a morte do
chefe, seu pai, durante a ba...
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O destino de Daisy
De manhã, habitualmente, Daisy fica com a Tia Marta, a velha escrava que se ocupa dos mais
pequenos....
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Tom, o carregador de água
Tom tem oito anos. Este ano, já é suficientemente grande para ir trabalhar nos campos de
algo...
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Os escravos na América do Norte
Introdução
No século XVII, na América do Norte, desenvolvem-se grandes plantações, em e...
47
na qual reinava uma grande solidariedade. Vão ser precisos anos de luta e uma guerra civil para
que a escravatura seja ...
A exploração do homem pelo homem -  a escravatura ontem
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Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho o meu emprego
Também não me importei
Agora estão a levar-me
Mas já é tarde
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo
Bertold Brecht

Publicada em: Educação
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A exploração do homem pelo homem - a escravatura ontem

  1. 1. A Exploração do Homem pelo Homem A Escravatura Ontem
  2. 2. (i) Índice Intertexto...............................................................................................................................1 Os escravos de Roma..........................................................................................................2 Camponeses e senhores ....................................................................................................8 A revolta..............................................................................................................................12 As ruas de Paris................................................................................................................14 O tráfico dos escravos africanos................................................................................16 No rasto dos escravos .....................................................................................................17 Dawu, do povo dos Yoruba............................................................................................28 Os navios negreiros........................................................................................................30 Profissão: negociante .....................................................................................................37 “Maravilhas” ignoram escravatura...........................................................................38 Escrava! ..............................................................................................................................41 O destino de Daisy............................................................................................................44 Tom, o carregador de água...........................................................................................45 Os escravos na América do Norte..............................................................................46 John, o clandestino...........................................................................................................57 Allen Jay e o caminho de ferro Clandestino............................................................59 Morangos para o pequeno-almoço.............................................................................67 A vida de Harriet Tubman.............................................................................................71 A caixa da liberdade........................................................................................................75 Rosetta, Rosetta, senta-te ao meu lado .....................................................................80 A história de Ruby Bridges............................................................................................94 Não há estranhos para mim.........................................................................................99
  3. 3. (ii) Industrialização - Uma revolução em curso ....................................................... 102 A revolução industrial na Grã-Bretanha - Uma nova era............................... 103 A revolução industrial na Grã-Bretanha - O avesso do cenário................... 105 Diário de uma criança durante a Revolução Industrial ................................... 110 As crianças da mina ..................................................................................................... 125
  4. 4. 1 Intertexto INTERTEXTO Primeiro levaram os negros Mas não me importei com isso Eu não era negro Em seguida levaram alguns operários Mas não me importei com isso Eu também não era operário Depois prenderam os miseráveis Mas não me importei com isso Porque eu não sou miserável Depois agarraram uns desempregados Mas como tenho o meu emprego Também não me importei Agora estão a levar-me Mas já é tarde Como eu não me importei com ninguém Ninguém se importa comigo Bertold Brecht
  5. 5. 2 Os escravos de Roma A escravatura desempenha um papel da maior importância ao longo de toda a antiguidade, particularmente em Roma. A mão de obra servil realiza todas as tarefas hoje confiadas às máquinas e à eletricidade. O escravo deve total obediência ao seu proprietário. Os Romanos consideram-no, por vezes um objeto (do qual o senhor pode fazer o que bem lhe apraz), por vezes um animal (não é dotado de sentimentos que os homens livres possuem), por vezes uma pessoa desprovida de uma alma capaz de a guiar. A sorte dos escravos varia de acordo com o proprietário, e sobretudo de acordo com o tipo de trabalho realizado. Nas cidades, os escravos domésticos têm um destino bem mais invejável do que os escravos das grandes propriedades agrícolas. As conquistas romanas dos séculos II e I a.C. lançam milhões de prisioneiros (gauleses, ibéricos, gregos, asiáticos) nos mercados de escravos. Quando chega a Roma, Syram, de origem asiática, (mais tarde chamado Apolónio), nada tem: família, pátria, dinheiro, tudo se esfumara. Vendido como escravo ao rico e poderoso Crasso, tem de aprender a língua dos amos, obedecer às suas ordens, esquecer quem foi outrora. 
  6. 6. 3 Apolónio precipitou-se para a cozinha: desta vez, era ele que trazia grandes novidades. Procurou Philotas1 com o olhar e, não o encontrando, admirou-se. Àquela hora de intensa atividade, nem mesmo um vadio como o seu amigo teria a coragem de se ausentar. Apolónio murmurou para Arquestrato: — O Philotas não está? O cozinheiro, habitualmente tão amigável em relação a ele, olhou-o com extrema dureza. — Não, o teu amigo ladrão não está. A mó há de pô-lo nos eixos.2 Apolónio empalideceu. Empurrar a mó era o pior dos castigos, juntamente com as minas e as galeras. — Está aqui em casa? — Ah, sim! Não era preciso mandá-lo para o campo, tem trigo para moer mais do que suficiente para o ocupar de manhã até à noite e de noite até de manhã. Soaram risos na cozinha. No entanto Apolónio prosseguiu. — E … durante quanto tempo? Desta vez o riso foi geral. — Se os deuses forem misericordiosos, fazem-no morrer depressa. Ele vai ter de empurrar a mó como uma besta de carga. Agora desaparece, e não ponhas cá mais os pés. Não quero outro ladrão na cozinha. Apolónio apressou-se a sair, mas ao chegar à soleira, virou-se para trás. — Nunca roubei nada na minha vida, Arquestrato — exclamou, com um nó na garganta e lágrimas na voz. Dirigiu-se lentamente para o quarto de Públio3. Só ele poderia fazer alguma coisa. Apolónio entrou suavemente no quarto do seu amo. Públio sonhava diante da toga viril, estendida sobre a cama. Faltavam apenas algumas semanas para envergá-la. — Amo, tenho uma coisa para te pedir. A voz tremia-lhe, o que o contrariava. Públio olhou-o, pensativo. — Dobra a minha toga, Apolónio. 1 Philotas, de origem grega, é também escravo ao serviço de Crasso, e amigo de Apolónio. 2 Grande cilindro plano, utilizado para moer o trigo. 3 Filho de Crasso. Apolónio encontra-se ao seu serviço.
  7. 7. 4 O rapaz concentrou-se na tarefa. Dobrar uma tão pesada peça de tecido era tarefa difícil. A voz de Públio elevou-se atrás de si, grave, bem colocada, como se procedesse ao seu primeiro discurso no fórum. — Julgo que sei o que me vais pedir. O meu pai avisou-me, e mandou-me verificar se desapareceu alguma coisa. Apolónio ergueu bruscamente a cabeça, muito vermelho, deixando cair a toga imaculada. — Não sou nenhum ladrão — gritou desesperado. — Eu sei, foi o que disse a meu pai. Porque, se tivesse havido a mínima suspeita, já estavas a empurrar a mó juntamente com o teu amigo. Mas não sabias de nada a respeito do teu seu tráfico, pois não? Muito atento, Públio perscrutava-o com o olhar. Apolónio olhou-o bem no rosto, já tranquilo. — Não, amo, não sabia de nada. Foi o Arquestrato que me disse. — Então o que queres? O teu amigo teve sorte. Se fosse um pouco mais velho, teria sido crucificado. O meu pai não brinca com ladrões e muito menos com traficantes. “Até parece que o teu pai4 não trafica”, pensou Apolónio num ápice, mas sem deixar que o seu olhar o traísse. Pronunciou com uma voz respeitosa: — Não podes fazer nada por ele? Três meses já seriam castigo suficiente para o trazer para o bom caminho, e eu impedi-lo-ia de voltar a desviar-se. Públio riu maldosamente. — Um garoto como tu responsabilizar-se por outro! — Por favor, amo, servi-te sempre fielmente. — E é justamente por isso que me espanta ver-te defender semelhante patife. Vais acabar por me fazer duvidar de ti. Apolónio recusava-se a desistir. — É meu amigo e ouvi-vos repetir em casa de Cícero que a amizade era o mais nobre dos sentimentos. 4 Crasso, dito o Rico. Pertence a uma grande família da nobreza romana. É conhecido por ser o homem mais rico da República, riqueza essa obtida graças a uma exploração impiedosa do sistema da escravatura. Mas é também sobretudo um homem político, ávido de glória, como todos os grandes aristocratas. Esmaga com uma particular brutalidade a revolta dos escravos de Espártaco. Invejoso dos sucessos de César na Gália, Crasso decide enfrentar o reino dos Partos. Sofrerá uma derrota ignominiosa e será assassinado pelo rei dos Partos.
  8. 8. 5 Públio olhou-o pasmado. — Foi o Philotas que te meteu na cabeça que os escravos têm direito a sentimentos? Apolónio não queria perceber a advertência contida na voz de Públio e mantinha-se obstinado. — É um rapaz ousado, alegre, inteligente. Merece acabar de outro modo que não preso ao braço de uma mó. A voz de Públio adquiriu uma dureza mineral: — Esse patife pode ter qualidades, mas não são qualidades de escravo. Adulto tornar- se-ia um novo Espártaco5. Não vou falar com o meu pai. Não só porque ele acharia que enlouqueci e mandar-me-ia para o campo, em lugar de me deixar frequentar a casa de Cícero. Mas também porque estou de acordo com ele. E não voltes a falar-me como acabas de o fazer. Agora apanha essa toga e dobra-a corretamente. Vais servir-me à refeição. E trata de te portar como deve ser, porque ao meu pai nada lhe escapa.  Apolónio deslizava furtivamente na penumbra, interrompida pelas tochas e pelas lamparinas de azeite. Eponia pôs-se diante dele e murmurou. — Andava à tua procura, Apolónio. — Sabes o que aconteceu? — Egnátia6 contou-me o que eu não vi. Ele foi apanhado com comida roubada, quando se preparava para ir vagabundear. Arquestrato e Faber já desconfiavam. Deleciatos, o carrasco, torturou-o. Se tivesses ouvido os gritos… Porque é que ele se lembrou de fazer aquilo? Julgava- -o mais esperto. Apolónio respondeu com tristeza. — Ele é que se julgava mais esperto. Achas que conseguimos vê-lo? A rapariga encolheu os ombros. — Não julgues que iam encarregar escravos de guardar o local onde prenderam um miúdo de treze anos! Está acorrentado e a divisão fechada à chave. — Quem tem a chave? Faber? 5 Um gladiador que se revoltou, arrastando atrás de si milhares de escravos. Esmagaram os exércitos romanos, até serem derrotados por Crasso, que mandou crucificar os sobreviventes ao longo da Via Ápia (via romana que ligava Roma a Brindisi). 6 Eponia e Egnátia são igualmente escravas domésticas.
  9. 9. 6 — Sim. Levam-lhe o trigo e recuperam a farinha várias vezes por dia. Dão-lhe às vezes um pouco de pão e água. — Não o soltam nem para dormir? — Soltam-lhe as mãos da barra e ele dorme no mesmo sítio. Philotas que tanto gostava de descer as colinas de Roma com os braços abertos, como se fosse levantar voo… — Não vai aguentar… — murmurou Apolónio. — Noite e dia na penumbra, a andar à volta como um jumento cego… Acompanha-me até onde ele está e ficas à espreita. Eponia hesitou antes de aceitar. Foi para a esquina do corredor com as mantas de ambos. Se fossem surpreendidos, poderiam sempre dizer que andavam à procura de um lugar onde dormir. — Psst… — murmurou Apolónio através do buraco da fechadura. — Philotas… sou eu… Houve por fim uma resposta. Philotas tinha acordado. — Espera… Vou aproximar-me… Um tilintar de cadeias, o ranger da madeira, o raspar surdo da mó… — As cadeias dos meus pés estão presas à barra da mó. Não é lá muito prático. Philotas tentava adotar um tom ligeiro e fanfarrão que Apolónio sempre lhe tinha conhecido, mas soava a falso. Prosseguiu: — Não tiveste aborrecimentos? — Não te preocupes comigo. — Eu joguei e perdi… O único sonho que me resta é ter a sepultura que os deuses e a tradição exigem. Não quero ser um espírito errante obrigado a vaguear pela terra. — Não fales assim, vais conseguir sair daqui. Apolónio mentia e sabia-o. Philotas teve um riso crispado. — Estás a ver-me a chegar a homem e depois a velho, sempre preso a esta maldita barra? Muito antes, os ferros que me prendem já terão penetrado na minha carne. E terei ficado cego. Como os cavalos das minas, sabes. Ficam cegos ao fim de seis meses. Não quero ficar cego. Nada é mais precioso do que a vista. O seu murmúrio tornava-se convulsivo e Apolónio ficou cheio de medo de que chegasse demasiado longe, no silêncio da casa. — Chiu, mais baixo, peço-te.
  10. 10. 7 Philotas prosseguiu, num tom mais contido. — Tenho fome e frio durante a noite, sinto medo nesta escuridão. Não suporto mais a escuridão. Para quê viver? Quero morrer e não sei como fazê-lo. — Os escravos não têm o direito de se suicidar. É um privilégio dos homens livres. Se tentares e falhares… — Mas o que queres que me aconteça de pior? A voz de Philotas era longínqua e débil, e Apolónio compreendeu que ele lutava para reprimir as lágrimas. — Quanto a isso, confia na imaginação de Crasso. Tens dores? Acabava de se lembrar da sessão de tortura. — Queimaduras, só isso. Não me esmagaram os ossos, exceto os da mão esquerda. Mas já estou habituado, e quase já não me incomoda ao empurrar… — O que posso fazer por ti? — A porta não chega ao chão. Importas-te de pôr a lamparina junto da frincha da porta? Só isso, para eu ver um pouco de luz. Assim, sentia menos medo e menos frio. Apolónio deslocou cuidadosamente a lamparina pousada no chão… Um pequeno sinal nas trevas. Dominique Bonnin-Comelli Les esclaves de Rome Toulouse, Editions Milan, 2003 (tradução e adaptação)
  11. 11. 8 Camponeses e senhores A servidão e a pobreza são um dos flagelos que atingem os camponeses da Idade Média. Para escapar a um senhor cruel, Renaud, o jovem servo, deixa a família e foge para Paris. Sem lugar onde se refugiar, terá de tornar-se mendigo, viver de pequenos roubos, e pernoitar ao relento…  Renaud endireitou a cabeça. A mãe parara bruscamente de cantar e pousara a escova com que esfregava a mesa. Limpando as mãos ao pano que trazia à cintura, murmurou para o filho: ― O conde Jehan! Renaud pôs-se em pé de um salto, passou a mão pelos cabelos em desalinho e correu para alisar o vestido da irmã, Doda, que brincava com as cinzas da chaminé. Como os irmãos mais novos, Landri, Étienne e Perrin, brincavam debaixo da mesa, Renaud não teve tempo de lhes pedir alguma compostura. Já se ouviam os cascos dos cavalos no pátio. O conde Jehan nunca visitava os seus servos. O que se teria passado? Inquieto, Renaud passou mentalmente em revista todas as asneiras que tinha feito com os irmãos, mas não encontrou nenhuma que justificasse uma visita pessoal do conde. Costumava ser o intendente, Arnaud de Mani, a tratar dos problemas que ocorriam nas terras do senhor. Renaud tentou entrever o que se passava e viu que o conde estava acompanhado pelo intendente. Um mau
  12. 12. 9 augúrio, por certo. Mas havia pior. O senhor de Vélizé e o capelão também o acompanhavam, bem como dois albardeiros. A mãe suprimiu a custo um estremecimento. ― És Adélaïde Rivier? ― perguntou o conde, num tom seco e formal, com o semblante cerrado. A mãe continuava a tremer. ― Sim ou não? ― impacientou-se o conde. A mãe, agitada, acenou afirmativamente. ― Lembras-te de que quis libertar-te a ti e ao teu marido há dez anos? Adélaïde torceu as mãos, nervosa, e gaguejou: ― Sim, Monsenhor… mas não pudemos pagar-vos a franquia. O conde alteou as sobrancelhas. ― Só posso felicitar-me por não vos ter libertado. Em que problemas estaria eu hoje mergulhado! Esperou que a frase surtisse o efeito desejado e continuou: ― Adélaïde Rivier, o meu amigo Vélizé acaba de me dizer que és serva do seu domínio e que deseja reclamar-te. O que tens a dizer? A mulher sentiu-se desesperada. Já há muito que esperava isto. ― Responde! ― ordenou Vélizé. ― …Reconheço que… casei com Laurent sem autorização. A voz sumiu-se. O senhor de Vélizé fitou-a com um olhar duro: ― Não sabes que o casamento de servos de domínios diferentes deve ser objeto de acordo entre os senhores? Dás-te conta de que perdi vinte anos do teu trabalho e do dos teus filhos? Um silêncio mortal pairou sobre a quinta. Vélizé bateu com o calcanhar no chão seco, enervado. ― Deixa-te de lágrimas, mulher! É tarde demais. Quantos filhos tens? A mãe fungou: ― Dez… ― Onze com o bebé que nasceu este inverno! ― retificou o intendente. A mãe sacudiu a cabeça: ― O bebé morreu de coqueluche, no mês passado. ― De coqueluche? ― duvidou o intendente. ― Não me tinhas dito que era tifo? ― Isso foi no ano passado, quando perdi dois filhos.
  13. 13. 10 O conde interrompeu: ― O que interessa é quantos filhos vivos tens. Ou seja, dez. O senhor de Vélizé e eu combinámos dividi-los da seguinte forma: como ele perdeu mais anos de trabalho do que eu, ficará com seis dos teus filhos e eu ficarei com quatro. A mulher chorava em silêncio. Ia ficar sem os filhos e nada podia fazer. ― Fico com os seis mais velhos ― interpôs Vélizé. ― Os mais pequenos ficam com a mãe. Este arranjo convinha-lhe especialmente, porque iria beneficiar do trabalho imediato dos mais velhos, enquanto que os mais pequenos não passavam de bocas a alimentar. O conde Jehan nada disse. Assim, ninguém podia acusá-lo de ter ignorado o sucedido de propósito. Renaud fez um cálculo rápido. Seis… era ele o sexto. Havia quatro filhos depois dele. As pernas tremeram-lhe e teve de se sentar na pedra da chaminé. Ouviu a mãe dizer que os filhos mais velhos estavam no campo. A mãe não mencionou a sua presença em casa. Renaud sabia que devia estar no campo, mas a mãe costumava mantê-lo junto dela. Era mais débil do que os outros e o trabalho duro do campo matá-lo-ia. Quando tinha sete anos, o pai tentou confiar-lhe os gansos, mas ele perdia-os sempre. Aos oito anos, quando já deveria ser capaz de guardar os porcos, tinha-se mostrado incapaz de os conter. Tiveram de dar esta tarefa a um irmão mais novo do que ele, Jean. Jean morrera no inverno passado, quando o frio foi tanto que o vinagre solidificou e as cristas das galinhas se tornaram duras como o gelo. Raoulet tinha ficado a tomar conta dos porcos e Renaud ocupava- -se das vacas. Mas estas já tinham sido vendidas para pagar o imposto ao senhor. A ideia de que em breve iria para as terras do senhor de Vélizé revoltava-o. O seu amigo cura não lhe tinha dito que fazia parte dos últimos servos do reino de França? Todos tinham sido libertados, menos eles. Pertenciam ao senhor, da ponta dos cabelos à ponta dos pés, e agora tinha de deixar a mãe e os irmãos para servir um novo dono… Renaud cerrou os dentes e decidiu que não seria escravo do senhor de Vélizé, que todos achavam cruel. Nem dele nem de ninguém. Iria fugir. Partiria de noite, deixando um bilhete à mãe. No dia seguinte, a mãe levaria o lenço no qual o filho garatujara algumas palavras e o cura decifrá-las-ia. Seria demasiado tarde para o apanharem, para lhe mostrarem como é errado revoltar-se contra a vida que Deus escolheu para nós, mesmo antes de nascermos. A noite veio dar com ele sentado na cama grande da única divisão da casa. Ninguém tinha comido, ninguém falava. Raoulet fungava, não procurando sequer esconder as lágrimas. Com a
  14. 14. 11 voz embargada, o pai falara de dever, de Deus e de renúncia. Mencionara ainda a necessidade de aceitação e a recompensa que os esperava no outro mundo. Renaud nada ouvira das palavras do pai. A mãe limpava as manchas que as lágrimas iam deixando no fogão. Doda continuava a brincar com as cinzas. Os mais pequenos nem se ouviam. Sempre que amanhecia, Renaud sentia-se forte e duro, capaz de rejeitar o mundo cruel em que vivia. Sentia-se com coragem de partir fosse a que hora fosse. Quando a noite caía, porém, o medo apertava-lhe o coração e ele adiava a partida para o dia seguinte. Nada o obrigava e sentia-se bem no meio dos seus. Estava tanto frio lá fora. Havia, para lá da soleira da porta, um território em tudo desconhecido. Os limites do domínio pareciam-lhe o fim do mundo. Se partisse, tinha de atravessar esse limiar. O que o esperaria do lado de lá? Mas se não partisse, esperava-o Vélizé e ele não podia servir Vélizé. Tinha sempre ficado, mesmo quando o intendente o chicoteara até fazer sangue, mesmo quando o seu amigo Martin tinha sido preso por esconder trigo na enxerga. Agora, mesmo que ficasse, nunca mais veria a mãe. Nada o impedia de fugir. Evelyne Brisou-Pellen La cour aux étoiles Paris, Rageot Cascade, 1996 (tradução e adaptação)
  15. 15. 12 A revolta No ano de 1798, em França, os camponeses continuam vítimas de opressão, sendo obrigados a pagar ao rei e aos senhores das terras pesadíssimos impostos. É o que se passa na aldeia de Ginouillac, Normandia, em que os camponeses manifestam a sua revolta perante o cobrador de impostos enviado pelo conde de Montigny.  Alguns meses mais tarde, a aldeia de Ginouillac é esmagada pelo calor, e o sol de agosto vibra por entre as hastes do trigo recentemente cortado. No campo do tio Chantelou a ceifa terminara. Os feixes de trigo amontoados lembram grandes ramos amarelos, pintalgados aqui e ali, pelo vermelho das papoilas. Munidos de forquilhas de madeira, Chatelou e mais quatro camponeses, vestidos com largas camisas brancas e alagados em suor, atiram os feixes para uma carroça onde Tomás os empilha cuidadosamente. De tempos a tempos trinca um grão de trigo e sorri. — Este ano o trigo sai bom, pai. É seco e muito branco. — Atenção vem aí o cobrador — diz Chantelou. Envergando umas calças justas e um longo casaco cinzento, cabelo preso atrás com um nó de veludo preto, chapéu, bengala de castão em aço prateado e um alforge a tiracolo, o cobrador aproxima-se, segurando pelas rédeas uma mula atrelada a uma pesada carroça. O grupo de camponeses finge não notar a aproximação.
  16. 16. 13 — Bons dias — lança o cobrador. O tia Chantelou simula espanto: — Ah, é você! — Sim, cá estou, como todos os anos — responde o cobrador, com um ar zombeteiro. — Têm de pagar os impostos devidos ao vosso senhor. Os camponeses, sem nada responderem, continuam a apanhar os feixes de trigo com gestos lentos e regulares. Só o zumbido das abelhas e o canto dos grilos quebram o silêncio. — Vai ser como no ano passado — acabou por declarar o cobrador. — Um feixe por cada dezasseis. O tio Chantelou enterra violentamente a forquilha nos feixes. — Depois da neve e do granizo que houve em março, pouco nos vai restar para comer. O cobrador esboçou um sorriso. — Faz-me rir, Chantelou. Passa a vida a reclamar. — Reclamo porque o senhor conde encontra sempre motivos para aumentar os impostos sobre as nossas colheitas. O cobrador levanta os braços com um ar indefeso. — O senhor conde fez tudo o que pôde. Cedeu os seus cães e os seus cavalos. — O que não quer dizer que, dados o granizo e o imposto do rei, o senhor conde não pudesse baixar os seus. A voz do cobrador adquire subitamente um tom autoritário. — Não tenho tempo a perder. Pelas minhas contas são-me devidos quatro feixes de trigo. — Não te devemos coisa nenhuma — replica Chantelou, encolerizado. O inverno foi duro e ninguém aqui tem farinha para fazer pão. E, agarrando num dos feixes, Chantelou atira-o aos pés do cobrador. — Leva-o se fores capaz. O cobrador faz menção de se aproximar do feixe de trigo, mas Tomás salta-lhe para a frente com os punhos erguidos. O cobrador dá um passo a trás e grita: — Ah, malandro, se me tocares, é com o senhor conde que vais ter de te haver!… Odile Weulersse Les vagabonds de la Bastille Paris, Rageot Cascade, 1996 (tradução e adaptação)
  17. 17. 14 As ruas de Paris Aimé tem 10 anos. Órfão de pai e mãe, parte à procura das suas origens. Primeira etapa: Paris, onde acaba por descobrir um tio bem misterioso…Mas em Paris reinam a miséria e a revolta. Na capital, o destino de Aimé cruza-se com a sorte adversa de todo um povo….  No dia seguinte, o sol ergueu-se sobre um bela manhã de abril. Eu e Modestina abalámos, por assim dizer, a toque de caixa. Para mim era uma oportunidade de descobrir Paris. Dirigimo- -nos para o bairro Santo António, do outro lado da Bastilha.7 Se o Marais, onde residia o meu tio, era composto por lindas residências a que se dava o nome de “mansões particulares”, o bairro de Santo António era a parte mais industriosa da capital. Via-se por todo o lado tendas de marceneiros e de ebanistas, fabricantes de espelhos, de porcelanas ou de veludos. Os empregados das lojas carregavam às costas sofás acabados de forrar ou levavam nos braços rolos de tecido de cores flamejantes. Era muito interessante apreciar aquela profusão de belos vasos, de pratos pintados, de espelhos de cristal com molduras ricamente trabalhadas… 7 Fortaleza que datava do século XIV e que serviu de prisão de Estado durante a monarquia. A 14 de julho de 1789 é tomada de assalto pela população parisiense, e definitivamente destruída em 1790.
  18. 18. 15 Custava acreditar que, naquele preciso momento, e sobretudo em Paris, o povo miúdo morria de fome. Porque, nessa mesma altura, reinava uma terrível fome provocada pela subida do preço do pão, que era o principal alimento dos pobres. Mas isso não me preocupava muito, pela simples razão de ter apenas dez anos e de nada saber do assunto. Infelizmente, a minha ignorância não iria durar muito tempo. Mas vi também crianças pouco mais velhas do que eu, com cerca de doze anos, já a trabalharem nas fábricas, principalmente entre os tecelões e os impressores de papel estampado. Só conhecia os pequenos pastores que, entre nós, na Bretanha, bem antes de terem atingido essa idade, levavam os rebanhos a pastar. Vi três ou quatro miúdos a jogar ao bilhar diante de um daqueles estabelecimentos. Um operário assomou à porta, interrompeu-lhes a brincadeira e obrigou-os a ir para dentro, ralhando-lhes por causa da sua preguiça. Disse para comigo que tinha muita sorte… por enquanto. — Porque é que empregam crianças? — perguntei eu a Modestina. — Então porquê? — respondeu. — Porque lhes pagam menos do que aos pais. Para falar verdade, as crianças quase não servem para nada e cansam-se muito depressa, como toda a gente sabe. Surpreendente, este comentário da parte de uma pessoa que, uns dias antes, me tinha feito trabalhar como um escravo na sua cozinha! Modestina tinha a memória bem curta! — Assim, não andam a vadiar pelas ruas — acrescentou. — E fazem alguma coisa de útil, aprendem um ofício. E, além disso, não se podem queixar. Têm o domingo livre. Deixavam-lhes um dia em cada sete para serem crianças! Não era muito. Frédéric Lenormand L’Orphelin de la Bastille Toulouse, Editions Milan, 2002 (tradução e adaptação)  
  19. 19. 16  O tráfico dos escravos africanos Entre o século XVI e finais do século XIX, cerca de 11 milhões de homens, mulheres e crianças africanos foram capturados, deportados e transportados em barcos de mercadores europeus, para serem vendidos como escravos a proprietários do outro lado do Atlântico, principalmente nas Antilhas, nos Estados Unidos e no Brasil. Da história ao romance Quem se interessar pela captura dos Africanos, e pela sua travessia do Atlântico, encontra uma dificuldade quase intransponível: a ausência de testemunhos dos interessados, porque estes não sabiam escrever. Apenas as raras narrativas dos viajantes europeus, alguns vestígios materiais (as forquilhas dos prisioneiros, os desenhos dos barcos negreiros, por exemplo), e os registos dos mercadores permitem reconstituir estes episódios e a organização do tráfico de escravos. Quanto à vida dos escravos nas plantações ou na cidade, dela sabemos através de cartas de colonos ou de listas de bens transmitidos em herança. Só tardiamente, a partir do século XIX, é que alguns escravos libertados e instruídos escreveram a narrativa das suas vidas. O antigo escravo norte-americano Frederick Douglass, um fervoroso militante da causa abolicionista, publicou a sua autobiografia em 1845. Nessa época, o intuito destas narrativas era contribuir para fomentar a causa abolicionista. São também de salientar narrativas como La mulâtresse Solitude de André Schwartz-Bart (1967), Ségou de Maryse Condé (1984-85), L’esclave vieil homme et le molosse de Patrick Chamoiseau (1997). Uma palavra especial para Harriet Beecher-Stowe (1811-1896), uma romancista que pertenceu a uma família de abolicionistas convictos, do norte dos Estados Unidos. Harriet publicou A Cabana do Pai Tomás em 1852, o primeiro romance a vender mais de um milhão de exemplares nos Estados Unidos. Esta obra deu um alento renovado ao movimento abolicionista, tanto na América como no resto do mundo. 
  20. 20. 17 No rasto dos escravos Após uma longa e penosa travessia do Atlântico, dois irmãos, Monzo e Mangala, descobrem o mundo cruel da escravatura e as terríveis e desumanas condições de vida nas plantações de cana-de-açúcar. Separados, sobrevivem heroicamente a todas as violências e até conseguem, cada um por seu lado, fundar uma família. Mas, se Monzo, resignado, acaba por aceitar a sua condição, já Mangala, que tem, entretanto, a sorte de conhecer uma grande cidade e de aprender a ler, permanece toda a vida um revoltado. Irá morrer no momento das primeiras revoltas a favor da escravatura, mas os seus filhos vão conhecer a liberdade.  Capturados… Monzo decidiu sentar-se à sombra de um karité. Mangala respirou fundo. Há já várias horas que, tentando passar despercebido, seguia o irmão através das ervas secas, sob um sol cada vez mais escaldante. Mangala tinha treze anos e estava quase tão alto quanto Monzo, que tinha dezoito. Contudo, não possuía nem a força nem a resistência do irmão, e ficou contente por poderem parar um pouco. O que teria acontecido para que o irmão deixasse o território da concessão, antes do amanhecer, sem avisar ninguém? Na véspera, Monzo estivera com o instrutor de caça, que tinha decidido anular a caçada ao leão combinada dois dias antes. O rapaz ficara furioso.
  21. 21. 18 — Tudo por causa daquele maldito feiticeiro! — exclamara. — “É uma expedição muito perigosa”, disseram-lhe os espíritos! Aposto que só interroga espíritos medrosos como ele. Não me tornei caçador para andar a correr atrás de gazelas! Infelizmente, Monzo tinha dito isto na presença da mãe, Nyéli, que o repreendera severamente diante de todos os irmãos. Que humilhação! É verdade que o jovem tinha transgredido uma regra fundamental: nunca se contradizia um feiticeiro, um pai ou uma mãe, os adultos, em geral. Nem sequer a sua palavra era para ser posta em causa. Regra geral, a obediência a esta regra não era custosa: as crianças de Ségou levavam uma vida livre e feliz, sem escola e sem grandes obrigações, até terem idade para trabalhar. Mas Monzo era o filho mais velho de Ngolo, o Chefe, e de Nyéli, a sua primeira mulher. Além disso, era um rapaz bonito, bem constituído, e de sorriso encantador. Por todas estas razões, todos o adoravam e nunca lhe ralhavam. Como não suportou que a mãe o repreendesse, tinha ido embora, vestido só com uma tanga, como convém a um caçador. Não esquecera, porém, os seus amuletos, bem como o arco e as flechas envenenadas. Também levava um saco com alguma comida e dele tirou um pão de milho. Mangala deu-se então conta de que tinha fome. Adorava o irmão, mas, neste momento, quase o odiava. Olhou em volta, à procura de algo com que enganar o estômago. À força de tanto remexer nas ervas secas, acabou por chamar a atenção do irmão. Este deu um salto e preparou-se para atirar uma flecha. Mangala, assustado e embaraçado, levantou a mão: — Não atires, Monzo! Sou eu, o Mangala! — Mangala! O que fazes aqui? Espiavas-me? — Não, irmão. A verdade é que não suportava ver-te partir sem mim. — És louco! Pensaste na tua mãe, Sira? Vai afligir-se e imaginar o pior. — E tu, não pensaste na inquietação dos teus pais? Os dois rapazes pareciam dois galos a combater. Ninguém diria que eram irmãos. Monzo era alto e forte, com a pele negra e luzidia, enquanto Mangala era alto e magro, como a sua mãe, que pertencia ao povo dos Peules. Tinha pele de cor acobreada e olhos em feitio de amêndoa. O mais velho cedeu, finalmente, devido à ternura que sentia por este irmão fiel. Sorriu e abraçou-o. Ainda tentou convencê-lo a voltar atrás, mas Mangala nem quis ouvir, teimoso como era. Embora cheio de remorsos por levar consigo uma criança na sua aventura, Monzo retomou o caminho, seguido pelo irmão.
  22. 22. 19 O pôr do sol tingia de ouro e vermelho a paisagem, quando os irmãos se aperceberam dos telhados de uma aldeia junto ao rio. Monzo acelerou o passo, mas Mangala distanciou-se dele. Um barulho atrás de si sobressaltou-o. Virou a cabeça, sem contudo ter tempo para ver o agressor. Acabava de levar uma pancada na cabeça. Quando recobrou os sentidos, sentiu uma forte dor de cabeça. Quis ver se estava ferido, mas deu-se conta de que tinha as mãos e os pés atados, e de que não conseguia mover-se. Soerguendo a cabeça, viu o irmão, estendido ali perto, com ar de sofrimento. Decerto que não tinham capturado Monzo sem este se defender! Estaria vivo, ao menos? Uma voz trocista fez-se ouvir atrás dele: — Eis que o nosso belo rapaz acorda por fim! Já podemos partir. — Espera que o grândula se remeta do choque. — Vão-nos dar bom dinheiro, estes! Gargalhadas escarninhas pontuaram estas frases. Mangala, aterrorizado, tentou compreender o que divertia tanto os seus raptores. Pareceu-lhe ouvir algumas palavras em poular, a língua da mãe. O pensamento da mãe encheu-o de angústia. Já teriam dado pelo desaparecimento deles? Será que os procuravam? Mas como poderiam procurá-los, se nem ele sabia onde se encontravam? O que lhes iria acontecer? Sentiu um aperto no coração, ao pensar nos ladrões de crianças. Sabia que o desaparecimento de rapazes e raparigas era coisa corrente: reduzidos à escravatura, demasiado novos para se lembrarem da terra natal, adaptavam-se com facilidade à sua nova vida. Porém, um olhar rápido em redor desenganou-o. As formas estendidas no chão correspondiam a adultos, homens e mulheres. Quando o malfeitor que se encontrava junto dele se afastou, Mangala tentou interpelar o prisioneiro mais próximo de si. Este olhou-o fixamente por uns instantes, e depois virou as costas. “Não percebe o que digo”, deu-se conta o rapaz, “Que língua falará? De onde virá?” Neste momento, Monzo começou a mexer-se. Que alívio para Mangala! O irmão estava vivo, e ele não teria de enfrentar sozinho o desconhecido. Estavam longe um do outro, mas trocaram olhares que lhes deram alguma coragem mútua. De manhãzinha, os raptores, homens vindos do Norte — a julgar pelo tom de pele mais claro e pela indumentária — distribuíram uma cabaça de papa de milho a cada prisioneiro e obrigaram- -nos a levantar. Foi só neste momento que Mangala pôde ver que os seus companheiros de
  23. 23. 20 infortúnio eram homens e mulheres, com um ar apavorado e um olhar baço. Os seus pés, nus, estavam quase em sangue. Há quando tempo estariam a andar? Para onde iam? Alguns homens tinham chagas nos ombros e no peito. Mangala percebeu porquê, quando viu os captores colocarem uma forquilha ao pescoço de cada preso. O braço da forquilha assentava no ombro do cativo que caminhava à frente. Quando lha colocaram, o rapaz percebeu a sua eficácia. Quando andava depressa demais, a forquilha estrangulava-o; quando abrandava demais o passo, a extremidade do braço da forquilha caía de encontro ao seu peito e quase o sufocava. Os captores ajudaram-no a retomar o lugar na cadeia, não sem antes o insultarem e espancarem. Tiveram de caminhar assim o dia todo, escoltados por guardas a cavalo, de chicote em punho. Monzo bem tentou desfazer-se da forquilha, só parando quando se sentiu estrangulado. Também tentou fugir, quando pararam à noite. Mas, fustigado por golpes, chicoteado até fazer sangue, acabou por se render e silenciar a sua revolta, para grande alívio de Mangala, que sofria por ver o irmão assim espancado e humilhado. Os dois irmãos estavam, às vezes, atados juntos, e aproveitavam para conversar e para se reconfortar mutuamente. Monzo esforçava-se por assumir o seu papel de irmão mais velho. Consolava e tranquilizava o irmão, silenciando o sentimento que o acabrunhava, a culpa que sentia por Mangala ali estar. Recordava episódios engraçados das suas vidas e fazia o irmão sorrir. Isto ajudava bastante o mais novo, que tinha muita dificuldade em suportar aquela situação. No início, tinha-lhe custado sobretudo o ritmo de marcha imposto pelos captores. Depois, tinha-se habituado. Em contrapartida, nunca se habituou à infelicidade dos companheiros de cativeiro. A primeira vez que um deles, vítima de insolação, de picada de inseto, ou de mordedura de serpente, ninguém sabia ao certo, caiu e morreu estrangulado pela famosa e infame forquilha, sob o olhar indiferente dos guardas, Mangala serrou os dentes para não chorar. Mas não conseguiu suster as lágrimas e teve de virar a cara para as esconder. Houve episódios piores, porém: os malfeitores tinham raptado uma mulher com dois filhos. Passados dois dias, já a mulher, que levava o filho mais novo às costas, caía por terra sem forças. Nada conseguiu fazê-la levantar-se, nem mesmo os golpes de chicote. O grupo continuou a marcha. Mangala tentou abrandar o passo para esperar por ela. Quase sufocou. O mais terrível foi ver a menina de seis anos, que continuou a andar, encorajada pela mãe. Quando a mãe se calou, contudo, a menina correu para ela, a chorar. Vários prisioneiros chamaram pela menina. Em vão. É como estivesse já prometida à morte, tal como a mãe e o irmão…
  24. 24. 21 Muitos outros “incidentes” deste tipo se sucederam, mas nenhum teve um efeito tão devastador sobre Mangala. Fora arrancado à infância e tinha envelhecido subitamente. Levou vários dias a recuperar desta crueldade. Silencioso e ensimesmado, perguntava-se se, apesar da sua juventude, não valia mais deixar-se morrer. Depois de andar quilómetros pela savana e por planaltos rochosos, o grupo, que aumentava cada vez mais, chegou a um segundo rio, o Senegal. Se seguisse o curso do rio, o grupo chegaria ao seu destino. Pelo menos, era o que Mangala tinha ouvido nas discussões dos malfeitores. Depois da sua captura, tinha aprendido muitas palavras da língua que eles falavam. E também das línguas dos outros prisioneiros. Esta aprendizagem era devida à sua vivacidade e ao facto de ter crescido a ouvir falar duas línguas em seu redor: o bambara e o poular. Depressa desatou a falar com toda a gente. Contrariamente aos outros prisioneiros, e mesmo ao seu próprio irmão, Mangala já não estava isolado. Podia agora falar um pouco com toda a gente, inclusive com os seus raptores. Há já dias e semanas que caminhavam, quando chegaram junto de uma cidade enorme, que em nada se parecia com Ségou e as sua paredes de terra. Estavam em Saint-Louis, o termo da sua expedição. … e vendidos Os prisioneiros atravessaram a cidade até chegarem ao porto, estupefactos com o espetáculo que se lhes deparava. Por todo o lado, viam-se casas altas em madeira, carroças puxadas por cavalos, uma multidão díspar e colorida, peles negras, castanhas e brancas, roupas de todas as formas e de todas as cores… Depois do silêncio da savana, este barulho aturdia-os. Perceberam a custo que outros captores se encarregavam agora deles. Depois de uma rápida travessia, feita em botes, encontraram-se dentro de edifícios em pedra. Separaram-nos a golpes de chicote, homens para um lado, mulheres para o outro, crianças (as que tinham sobrevivido) à direita, jovens à esquerda… Mangala, ao ver as separações, rezou a todos os espíritos para que não o afastassem do irmão. Os espíritos ouviram-no, sem dúvida, porque o mulato encarregado da operação o mandou para junto dos jovens e não das crianças. Isto permitiu-lhe ficar com Monzo. “Ainda bem que não somos parecidos”, pensou. Tinha reparado que estes novos guardas preferiam separar os membros da mesma família. O barracão onde os meteram estava semiaberto: duas paredes serviam de amparo a barrotes enormes alinhados com intervalos regulares. Havia argolas grossas de metal, tanto nas paredes
  25. 25. 22 como nos barrotes. Não era preciso pensar muito para perceber para que serviam aquelas argolas. Todos os prisioneiros foram amarrados a elas, quer com algemas, quer com cadeias. Às vezes, eram-no com tanta força que mal podiam sentar-se. A maioria deles, inerte e resignada, já não tentava compreender o que estava a acontecer. Mas Monzo e três outros homens estavam possuídos de uma tal raiva que se debateram quando tentaram acorrentá-los, cedendo apenas à violência dos golpes e passando os dias seguintes a tentar aproveitar a menor desatenção dos guardas. Estes, porém, plantados à entrada do barracão, não abrandaram a vigilância. Também eram negros, mas estavam armados com espingardas. Mangala tentou ultrapassar o terror que sentia e acalmar o irmão: ― Não vês que te matam se continuares assim? ― Prefiro morrer a viver desta maneira ― retorquiu o irmão, que tinha o lábio fendido, a maçã direita do rosto inchada, e um olho fechado. ― Queres dizer que não te importas de me abandonar aqui! Monzo calou-se. Consciente de ter tocado numa corda sensível, Mangala recriminou-se por ter avivado os remorsos do irmão. ― Revoltar-se abertamente não vai servir de nada. Eles são mais fortes do que nós. Mas se não desconfiarem de nós, poderemos tentar fugir mais tarde ― disse, para lhe dar esperança. Mangala estava convencido do que dizia. Ao invés do irmão, que parecia sumir-se à medida que se afastavam de Ségou, Mangala recobrava coragem. Como era filho de uma concubina, de uma prisioneira sem valor, não ocupava a mesma posição de Monzo. Tinha aprendido, desde muito novo, a resignar-se e a adaptar-se. Por isso, tentava obter todas as informações que podia. No dia seguinte a terem chegado, os guardas fizeram sair os presos para o pátio. Despiram- -nos um a um e levaram-nos à presença de um branco com um chapéu enorme. Monzo debateu- -se, como sempre, mas acabou por se deixar examinar. Quanto a Mangala, apesar da vergonha e da repugnância que sentia, deixou-se examinar sem opor resistência. O homem apalpava-o, fazia- -o abrir a boca, levantar o braço, afastar as pernas. O jovem sentia-se um animal em vez de uma pessoa. Compreendia a revolta do irmão. Depois da inspeção, dois dos presos foram enviados para outro lugar. Ambos tinham tido grande dificuldade em refazer-se da viagem. Um deles, esgotado, só tinha pele e osso, e já não conseguia alimentar-se. O segundo tinha feridas cheias de pus entre as pernas, que o impediam de andar. Nenhum deles podia ser vendido. Será que os tratariam ou que os abateriam como se fossem gado doente? Mangala nunca poderia saber.
  26. 26. 23 A partir desse dia, lavavam os presos com abundância e frequência, e eles próprios tinham de lavar a boca e os olhos. Mangala percebeu logo que seriam vendidos por um preço mais elevado, se estivessem saudáveis. Vendidos a quem? Também se apercebera de que eram agora mais bem alimentados. Não por bondade, porque eram açoitados com a mesma frequência de sempre. Lembrou-se de algo que ouvira durante a viagem. Os guardas falavam, a rir, de “brancos devoradores de homens”. Se isto fosse verdade, estariam a engordá-los para servir de repasto aos brancos que tinha visto em Saint-Louis? Esta ideia impediu-o de dormir ou comer durante muito tempo. Mas não disse nada ao irmão, porque este era tão impotente quanto ele. Não valia a pena atormentá-lo mais. Um dia, depois de uma lavagem particularmente cuidadosa, levaram-nos, bem vigiados, para um lugar cheio de prisioneiros nus e acorrentados como eles. Mangala e Monzo procuravam ver se conheciam alguém, quando avistaram algumas raparigas. Uma delas fez despontar um sorriso nos lábios de Monzo, o que não acontecia há já muito tempo. Baixa e magra, fitava o chão, sem dúvida por pudor. Era muito novinha. Pouco depois, porém, levantou os olhos do chão e o seu olhar luminoso fitou Monzo, que ficou maravilhado. Mas logo os baixou de novo, antes que o jovem lhe pudesse fazer o mínimo sinal. Mangala deu-se conta desta troca breve e sentiu uma ponta de ciúme. Chegaram depois vários homens brancos, rodeados de mulatos de pele clara e de negros vestidos como brancos, que os guiavam através da multidão de prisioneiros. Os brancos acabaram por se sentar, e os cativos desfilaram diante deles. E recomeçou a inspeção, tão humilhante quanto antes. Desta vez, Monzo baixou os olhos, incapaz de encarar a rapariga com quem trocara olhares antes. Ela também não olhava para nada nem ninguém, e Mangala também não. Nem nenhum outro preso. Só os assistentes dos brancos os examinavam com atenção, rindo, às vezes, de uma postura desajeitada ou de uma piada grosseira. A maior parte das vezes, porém, tinham um ar sério e calculador. Levaram, por fim, todos os cativos escolhidos pelo chefe branco, dos quais Monzo e Mangala faziam parte, bem como a rapariga que haviam avistado no mercado. Mais além estavam vários homens atarefados diante de braseiras incandescentes. Logo se ouviram uivos de dor, gritos de partir a alma, e o chicote estalou para restabelecer a ordem perturbada. Cada preso era obrigado a ajoelhar-se diante da braseira, e a sentir no ombro a terrível mordedura do ferro incandescente, com que todos, mesmo as crianças, eram marcados.
  27. 27. 24 Algumas horas mais tarde, uma longa coluna de pessoas acorrentadas punha-se em marcha, escoltada desta vez por homens brancos armados. Homens e mulheres, que só conheciam o Senegal e o rio Níger, recuaram diante da imensidão do mar. Murmúrios e gritos percorreram a fila de pessoas, que começou a avançar às sacudidelas, apesar dos golpes de chicote. Iam deixar África! Os seus medos despontaram de novo, e Mangala percebeu que não era o único que tinha ouvido falar dos brancos “devoradores de homens”. O pior foi fazê-los subir para os botes. Os homens iam primeiro, ligados entre si para evitar problemas. Loucos de desespero, alguns atiraram-se ao mar, sem sequer se preocuparem com quem arrastavam consigo. Mangala perdeu o sangue-frio e desatou a gritar quando viu Monzo dentro de água, contra vontade deste. Dois brancos pegaram logo em varas e “repescaram” Monzo e o seu companheiro. Mas era demasiado tarde para salvar os outros dois presos que, entretanto, se afundaram. O candidato a suicida foi cuidadosamente acorrentado. Iria, mais tarde, receber o castigo devido. Quanto aos restantes fugitivos, deixaram-se arrastar pela corrente até ao navio que os esperava no ancoradouro. Puxados e empurrados, foram brutalmente atirados para o interior do barco. O teto era tão baixo que precisavam de rastejar para não irem uns contra os outros. Quanto mais se afastavam da abertura, mais escura se tornava a cavidade. A dada altura, tiveram de parar, porque já havia mais homens a ocupar aquele espaço. Mangala foi contra um que estava deitado, e sentiu logo o impacto de um outro que o seguia. Mal encontraram o seu “lugar”, sentiram logo as correntes a fecharem-se, com um barulho sinistro, em torno dos tornozelos. Monzo não aparecia. Mangala bem tentou ver a silhueta do irmão, mas não conseguiu. A sua inquietação aumentava a cada minuto. Por fim, através de um buraco de claridade no teto, viu-o. Estava totalmente acorrentado, como os outros revoltosos. Depois da tarefa concluída, os marinheiros subiram para o convés, e fecharam o alçapão com estrondo. Rumo ao desconhecido O que mais se ouvia era o silêncio. Estavam como que mortos, numa sepultura. Depois, foram-se apercebendo de ligeiros ruídos, dos gritos dos marinheiros e do choro das crianças, que também tinham embarcado, juntamente com as mulheres. Os presos começaram a chamar, numa confusão de dialetos, pelos companheiros de aldeia ou de etnia. Contudo, mesmo o ouvido treinado de Mangala não conseguia discernir o que diziam. Os mais desesperados desatavam a soluçar, protegidos da vergonha pela escuridão que os envolvia. Os mais obstinados temperavam a sua paciência, tentando não se atropelar. Mas
  28. 28. 25 poucos respondiam. Os mercadores tinham separado as famílias, deixando cada membro entregue ao seu desespero e à sua impotência. De repente, um barulho mais acentuado e um movimento maior no convés deram o sinal de partida. Os gemidos e os gritos de terror fizeram-se novamente ouvir. Mangala sentiu um novo medo apoderar-se de si: os movimentos do barco, o calor e o odor insuportáveis, tudo o fazia sentir-se mal. Acabou por vomitar. Algumas horas depois, o porão tinha um cheiro insuportável. Ninguém falava com ninguém. Só aqueles que ainda conseguiam ver a costa africana não tinham perdido a esperança. Dois dias mais tarde, o navio ancorou de novo. Os prisioneiros ficaram a bordo, debaixo de vigilância cerrada. Os marinheiros que os alimentavam nunca vinham sozinhos e traziam sempre escolta. Como a paragem foi muito longa, Mangala perdeu a noção do tempo. O seu espírito voava em direção a Ségou e aos bolos que a avó cozinhava. Ouvia a sua voz doce cantar-lhe canções de embalar. De repente, deu-se conta de que estava a cantar uma dessas canções, entre soluços. Os pedidos de socorro de Monzo acordaram-no do devaneio. À sua volta, vários eram os que cantavam como ele, para mitigar a dor. Os prisioneiros sentiam-se enlouquecer. Aos poucos, foram levados até ao convés. Quando viram a luz, sentiram-se cegar. Os brancos acordaram-nos com baldes de água e esfregaram-nos com vassouras de lavar o chão. Como os presos mal podiam mexer-se, os guardas fizeram estalar o chicote, para os fazer “dançar”. Esperaram ali até chegarem novos “recrutas”. O barco de novo levantou âncora, embora continuasse a navegar junto à costa de África. Os que não tinham perdido a esperança tentavam falar entre si. Traçavam planos na sombra. Mangala servia de intérprete, por vezes, e parecia-lhe que os negros estavam muito pouco preparados para enfrentar os brancos. Mais paragens se fizeram e mais prisioneiros entraram. Um dia, o navio afastou-se de vez da costa africana. O terror assaltou os mais destemidos: — Temos de agir agora. Depois, será demasiado tarde para voltar à terra dos nossos antepassados. Ao descer do convés, um dos conspiradores tinha encontrado uma faca, milagrosamente perdida por um dos marinheiros. Conseguiu forçar a fechadura das suas grilhetas e ajudar outros companheiros. Quando os marinheiros desceram com a comida, foram surpreendidos e desarmados num instante. Mas alguns tinham tido tempo de gritar por socorro. O que podiam os negros fazer contra espingardas? Um morto e dois feridos franceses tiveram como contraponto doze mortos negros, o que enfureceu o capitão, que agora dispunha de menos mercadoria para vender. Os mortos foram
  29. 29. 26 atirados borda fora, para grande satisfação dos tubarões que circundavam o navio. O capitão não podia deixar de dar uma lição aos revoltosos. Aqueles que queriam agradar-lhe logo indicaram os conspiradores, que foram pendurados pelos braços nos mastros e chicoteados. O incitador foi açoitado até à morte, e os outros receberam cem golpes. Os restantes prisioneiros tiveram de assistir ao suplício dos companheiros, porque os brancos queriam apagar das suas mentes qualquer desejo de revolta. E assim aconteceu. O porão já só continha sombras de homens, deitados sobre a sua própria imundície. De vez em quando, faziam-lhes uma limpeza brutal no convés, enquanto os marinheiros lavavam o porão com vinagre para afastar os vermes e o mau cheiro. A saída para o convés também contribuía para evitar que os presos ficassem entorpecidos. Porém, alguns acabavam por morrer de doença ou de fome. A viagem continuava. A comida estragava-se e escasseava, e a água contaminada aumentava o número de doentes. O tempo passava, inexorável. De noite, se o vento não soprasse muito forte, e se as ondas não fustigassem o casco do navio, ouviam-se, por vezes, choros e lamentos. Os homens que não tinham perdido a consciência pensavam amargamente nas lágrimas das mulheres e das filhas, à mercê dos marinheiros. Mas a maioria já nem consigo mesmo se preocupava. Um dia, os gritos dos pássaros anunciaram terra firme. Estavam a chegar. Mas aonde? Alguns despertavam de um longo pesadelo, outros já nem despertavam sequer. Mas todos desceram a terra, recuperando o equilíbrio com dificuldade, num chão agora imóvel, encandeados pela luz, pelos cantos dos pássaros, e pelos cheiros das flores. Era sinal de que estavam vivos! Foram de novo fechados, em prisões que só tinham estacas pouco espaçadas como muros. Mangala estava separado de Monzo. Este viu entrar numa dessas prisões a bela rapariga de olhos negros. Mal a reconheceu. Tinha-se tornado esquelética e estava grávida. Monzo sentiu o coração despedaçado, porque os olhos dela estavam sombrios e apagados e pareciam nada mais ver. O rapaz examinou os restos humanos que o rodeavam. Ninguém dos que antes vos tinham rodeado ou amado os reconheceria hoje. Emaciados, com a pele coberta de pústulas e enormes cicatrizes, não eram agora ninguém. Tal como tinha acontecido no porto de St. Louis, os carcereiros trataram de lhes restituir algum tipo de aparência humana. Alimentaram-nos com tudo o que lhes havia faltado durante a travessia: fruta, legumes, peixe, e até mesmo carne. Obrigaram-nos, à vez, a mexer, a correr, a exercitar os músculos frouxos. As feridas foram examinadas e tratadas sem grandes cuidados. Um dia, depois de um banho mais cuidadoso, esfregaram-lhes o corpo com óleo de palma. Mangala conseguiu ver Monzo e admirou-se como o irmão continuava belo e forte, com a pele negra e
  30. 30. 27 brilhante, apesar de todas as provas a que tinha sido sujeito. Que pena as chicotadas terem deixado tantas marcas nas suas costas! Mangala não se dava conta da sua própria beleza, que continuava delicada, apesar dos horrores por que tinha passado terem endurecido o seu corpo e o seu espírito. Conduzidos para um novo mercado, os dois irmãos não tiraram os olhos um do outro. Uma multidão excitada precipitou-se sobre os africanos. Uma multidão constituída por brancos, mas também por mulatos e negros, embora estes fossem em menor número. Havia sobretudo homens, que inspecionavam a mercadoria e discutiam, de forma rude, com o capitão e os seus subalternos. Vários compradores pararam diante de Monzo, mas as cicatrizes numerosas do escravo pareciam dissuadi-los: — Este tem ar de rufia! Vai dar-me mais preocupações do que lucro! — Nem pensar — assegurava o vendedor. — Os Bambaras gostam de trabalhar na terra. Este é forte e o chicote ensinou-o a obedecer. Quanto a Mangala, o discurso do vendedor era outro: — Este vai dar um bom escravo de casa: é jovem e obediente. Até fala um pouco de francês! Os dois irmãos lá se despediram em silêncio, cada um levado pelo seu comprador. A Monzo tinha calhado um mulato arrogante e a Mangala um branco de monóculo. No entanto, fizeram a viagem juntos, porque o branco ia sozinho numa caleche. Eram ambos propriedade do Senhor de Saint-Bris, mas estavam destinados a tarefas diferentes: um iria trabalhar no campo e o outro, em casa. M.-Th. Davidson; Th. Aprile Sur les traces des esclaves Paris, Gallimard Jeunesse, 2003 (excertos adaptados)
  31. 31. 28 Dawu, do povo dos Yoruba Na aldeia onde vive Dawu, as pessoas estão desconfiadas. Sabe-se que os caçadores de escravos invadem com frequência as terras dos Yoruba. São pessoas que vêm da costa longínqua e que caminharam ao longo do Rio Níger durante vários dias. São perigosos, pois transportam armas que cospem chamas e que matam. Assaltam as aldeias adormecidas, mesmo antes da alvorada, e massacram os que tentam resistir. Acorrentam todos os homens e mulheres válidos que encontram e levam-nos. Estes nunca mais regressam. Por isso os aldeões têm medo. A aldeia de Dawu está rodeada de uma paliçada de arbustos e há gente a vigiar os arredores. No entanto, nessa mesma noite… Nem sequer houve tempo para dar o alerta. De repente, oriundos da noite escura, surgiram demónios aos gritos. Duas casas ficaram imediatamente em chamas e ouviram-se tiros. Os mais rápidos tentaram fugir, escapulindo-se por entre as sombras, mas as balas sibilantes conseguiram apanhá-los e não voltaram a levantar-se. Entretanto, os atacantes entraram de rompante nas casas e mandaram sair todos os habitantes, à custa de gritos, ameaças e pontapés. Mal saíram, homens e mulheres foram logo acorrentados de mãos e pés. E Dawu? Primeiro, pensou fugir, só que não foi suficientemente rápido. Então, tentou tudo por tudo. Soltou um grito de dor e deitou-se no chão, imóvel. Ninguém lhe prestou atenção. Viu os caçadores reunirem os habitantes da aldeia, escolherem os que lhes interessavam, empurrarem as crianças a pontapé, arrancarem os bebés dos braços das mães. Dawu pensou poder escapar. Mas alguém lhe deu um pontapé nas costas e o seu corpo traiu-o. Reprimiu um grito de dor e encolheu-se. O homem desatou a rir, agarrou-o pelo ombro, e pô-lo em pé. Dois minutos mais tarde, estava acorrentado como os outros.
  32. 32. 29 Quando amanheceu, a aldeia estava destruída e apresentava um ar de desolação. Ouviam-se gemidos por todos os lados. Os caçadores verificavam se os escravos estavam bem acorrentados e organizavam os homens e as mulheres em colunas. Os chicotes estalaram: tinham de se pôr a caminho. Sob um sol que despontava no horizonte, a coluna caminhava por entre as ervas altas. Cada homem tinha o pescoço preso numa espécie de forquilha, que o ligava ao prisioneiro precedente e ao seguinte. As mãos estavam atadas em redor do poste horizontal que servia de fio condutor entre os prisioneiros e que lhes pousava nos ombros. O caçador que ia à frente ia armado. Leva ao ombro a parte dianteira do poste e comanda a coluna. Todos dependem uns dos outros. Nenhum sonha em fugir ou parar, enquanto o chefe da coluna não o decidir. As mulheres não estão presas a forquilhas, mas ligadas entre si por cordas que lhes prendem o pescoço. Algumas levam à cabeça cestos com provisões roubadas da aldeia pelos traficantes. Outras transportam uma criança às costas, embrulhada num pedaço de tecido. As crianças mais velhinhas seguem a pé, atadas aos adultos por cordas. Às vezes, uma delas cai por terra, esgotada. Então, o caçador, corta as cordas e manda prosseguir a marcha, apesar dos gritos lancinantes da mãe. Dawu aperta os dentes com força. Faz parte de um grupo de homens. A madeira da forquilha serra-lhe o pescoço. Começam a doer-lhe os ombros de levar os braços tão levantados. A planta dos pés começa-lhe a arder. Tem sede… Não sabe ainda que vai caminhar assim durante semanas e que verá muitos dos seus companheiros morrerem sob o sol e sob os golpes. Só sabe que tem 12 anos e que acabou de se transformar num escravo. Hélène Montardre Les esclaves en Amérique du Nord Paris, Éditions De La Martinière, 2004 (tradução e adaptação)
  33. 33. 30 Os navios negreiros Na sua definição mais básica, o comércio transatlântico de escravos consistia no fluxo forçado de seres humanos entre a África e as Américas, em que cerca de 12 milhões de africanos foram transportados em navios negreiros. Foi um fenómeno histórico espantoso, cujo horror não é ofuscado pelas tragédias humanas globais do século XX. Ainda hoje é difícil compreender, sob a frieza das estatísticas, o sofrimento de milhões de pessoas. As páginas que se seguem pretendem não minimizar esse sofrimento, não o reduzir a meros números que possam ocultar o desespero humano que representam, e sim descrever, em traços gerais, as circunstâncias em que este fenómeno teve lugar e o modo como foi gerado por forças vindas de partes distantes do globo. Os africanos apanhados nestas trocas comerciais eram joguetes humanos de um sistema comercial maciço, que era motivado pela crença generalizada de que os escravos eram coisas e não pessoas: bens móveis e não seres humanos. Ainda que seja grotesca para o entendimento contemporâneo, e apesar de todas as suas contradições e ambiguidades, esta era a filosofia que constituía o alicerce moral de todo o negócio transatlântico. Se a humanidade dos africanos fosse reconhecida, o sistema desabaria por completo. E, como iremos ver, foi exatamente isso que começou a acontecer no final do século XVIII, quando vozes de discordância moral, religiosa (e até económica) começaram a pôr em causa a ideia do escravo como “bem privado”. Aquilo que, inicialmente, parecia uma estrutura relativamente simples de comércio dos escravos através do Atlântico – um fluxo de pessoas, bens e mercadorias que ligavam a Europa, África e Américas – acabou por dar lugar a um sistema de grande complexidade. Por
  34. 34. 31 exemplo, o centro económico do comércio britânico era Londres, mas o próprio foco do tráfico de escravos mudou-se de Londres para Bristol e, mais tarde, para Liverpool. E embora muitos outros portos participassem do comércio, enviando navios para retirar lucros da cornucópia que era o sistema esclavagista britânico, o sistema estava sob o domínio daqueles três portos. E este processo implicava um fluxo complexo de finanças, seguros, dinheiro, notas de crédito, instruções e comércio, que passava pelas casas comerciais e pelos bancos londrinos. As estatísticas do comércio transatlântico de escravos são-nos agora familiares, ainda que não sejam menos impressionantes por isso. Dos 12 milhões de africanos carregados nos barcos, dez milhões e meio conseguiram sobreviver até ao desembarque nas Américas. São conhecidas 27 mil viagens de escravos, das quais 12 mil foram de iniciativa britânica ou das suas colónias, em especial das colónias norte-americanas. Cerca de cinco mil viagens de escravos começaram em Liverpool. A maioria dos cativos africanos era do sexo masculino, embora as proporções de sexos se tenham alterado ao longo do tempo. No final da época de comércio de escravos, em meados do século XIX, quando os últimos navios negreiros já ilegais se dirigiam para o Brasil e para Cuba, tentando evitar as patrulhas antiescravatura de ingleses e americanos, as cargas humanas que transportavam eram na sua maioria de homens africanos muito jovens. Do número total de africanos desembarcados nas Américas, menos de dez por cento foram levados para a América do Norte. A grande maioria foi descarregada no Brasil e nas Caraíbas, por uma simples razão: iam trabalhar nas plantações de açúcar. Apesar da dispersão de escravos por todos os recantos das economias americanas (com trabalhos que iam desde as lides domésticas até às funções de vaqueiro), foi o açúcar que fez a grande maioria atravessar o Atlântico. O objetivo de eleição dos traficantes de escravos era o de encher o mais rapidamente possível os porões dos seus navios com africanos e deixar imediatamente a costa africana. Mas isso era muitas vezes impossível e, quanto mais tempo os comerciantes de escravos permanecessem na costa, maior era a taxa de mortalidade entre a tripulação (por vezes, chegava a atingir 45 por cento ao mês). Mas os navios tinham de permanecer aí até obterem carga humana que justificasse economicamente a viagem. Porém, é errado pensar que os escravos eram a única exportação africana: até ao início do século XVIII, o valor total de outros produtos africanos vendidos para o estrangeiro, especialmente o ouro, era superior às exportações de escravos. Todavia, independentemente da natureza do seu comércio, enquanto permaneciam na costa, os comerciantes europeus estavam, de facto, nas mãos dos mercadores africanos da costa e das elites governantes africanas.
  35. 35. 32 Aquilo que parecia ser uma simples rede de negociações na costa era, na realidade, a parte mais visível (para os europeus) de uma rede enorme, complexa e geograficamente variada de sistemas comerciais que se estendiam do ponto de contacto na costa africana até ao seu interior. E as consequências desse comércio foram enormes, levando, no extremo, à devastação de estados indígenas africanos e encorajando a violência e a guerra na obtenção de prisioneiros/escravos para venda posterior aos comerciantes. A venda dos africanos aos navios negreiros era apenas a última de uma longa sequência de transações em que aqueles eram escravizados e levados, normalmente a pé, desde a sua terra natal (muitas vezes a uma enorme distância) até à costa. Muitos, certamente, nunca anteriormente haviam visto homens brancos, nem o mar, e muito menos navios europeus. E tudo isto acontecia antes de serem lançados no inferno pestilento dos porões de escravos. Não sabemos quantos africanos morreram em cativeiro antes de entrarem nos navios. Mas temos uma ideia relativamente precisa dos níveis de mortalidade. No total, cerca de um milhão e meio de africanos morreram a bordo, sendo os seus corpos lançados ao mar e os seus números (eram registados por números e nunca pelos seus nomes) riscados do registo dos navios, como acontecia à restante carga. As taxas da mortalidade baixaram cerca de vinte por cento no início do século XVII e para metade desse número um século depois. As taxas de mortalidade raramente ultrapassavam os cinco por cento dos embarcados, mas há, evidentemente, exemplos catastróficos de doenças contagiosas que tiravam a vida a um vasto número de africanos, muito acima daqueles que morriam devido a revoltas e resistência. Do que se sabe das insurreições a bordo, estas só terão ocorrido em dez por cento dos navios negreiros. A maioria das mortes dos escravos a bordo devia-se a problemas gastrointestinais, nomeadamente de disenteria. Inevitavelmente, números não contabilizados de sobreviventes chegavam aos portos americanos sofrendo do mesmo problema: enfraquecidos, envelhecidos (muitas vezes «arranjados» pelos negociantes de escravos, ansiosos por fazê-los passar por saudáveis) e destinados a uma morte precoce. Os escravos estavam acorrentados nos porões, normalmente em pequenos grupos, onde comiam vitualhas comuns e de onde se arrastavam, sempre acorrentados, até às selhas de necessidades. Mas, quando ficavam doentes, aliviavam-se onde estivessem, deixando as próprias fezes sujá-los e contaminá-los, a si próprios e aos seus vizinhos. Quando o clima e a segurança permitiam à tripulação deixar os africanos vir ao convés para fazer algum exercício, estes apenas podiam fazê-lo em pequenos grupos – os marinheiros receavam constantemente que os africanos pudessem recorrer à violência ou
  36. 36. 33 que preferissem acabar com os seus tormentos atirando-se ao mar. Quando havia mau tempo, os africanos nem eram limpos nem levados a exercitar-se, pois a tripulação estava demasiado ocupada a tentar controlar o navio. Era preciso um médico de estômago forte ou um tripulante experiente para se aventurar nos compartimentos pestilentos e malcheirosos dos escravos. Já os africanos não tinham direito a escolher. As condições em que atravessavam o Atlântico muitas vezes desafiam aquilo que é crível e passível de ser descrito e, quando o Parlamento inglês começou a analisar o comércio de escravos no final da década de 1780, foi a ladainha de relatos de horror dos homens que tinham tripulado os navios negreiros que ajudou a colocar a opinião pública contra o negócio. É neste ponto que, inevitavelmente, voltamos à questão da interpretação histórica. Como é que poderemos compreender, expor e debater um sofrimento de tais proporções? Como representar um sofrimento de tal natureza, tão individualmente humilhante, em que até o funcionamento fisiológico era público, a privacidade nada significava e os compartimentos dos escravos rapidamente adquiriam a sordidez de um estábulo flutuante? É óbvio que as estatísticas são fundamentais para que qualquer historiador possa compreender os acontecimentos históricos, e sem elas só se pode proceder a mera especulação. Contudo, só quando tentamos ver de perto os compartimentos dos escravos, quando tentamos imaginar na nossa cabeça a realidade física do navio negreiro, sentir o odor inconfundível de um navio de escravos (as outras embarcações podiam sentir-lhes o cheiro a quilómetros de distância se o vento estivesse favorável), só aí podemos começar a compreender o que os escravos na verdade experimentavam. No entanto, talvez não seja possível imaginar os porões dos navios negreiros e, por isso, talvez este seja um daqueles temas (o Holocausto certamente será outro) que desafiam a compreensão e a reconstituição históricas. Nem mesmo quando chegavam a terra e eram finalmente libertados dos porões terminava a agonia dos africanos. Esta entrava antes numa nova fase daquilo que deveria parecer uma história de terror infindável. Antes de serem desembarcados para venda, os escravos eram preparados para a inspeção, a que se seguiria uma outra viagem para outro destino longínquo e desconhecido. Quem preparava os africanos para a venda eram os próprios tripulantes, ansiosos por apresentarem a sua carga com o melhor aspeto possível. Esta preparação consistia, normalmente, num período de limpeza, descanso e alimentação a bordo, para tentar
  37. 37. 34 compensar as dificuldades da travessia transatlântica. Mas, para os africanos, pouco havia a fazer para que recuperassem a saúde (e o valor comercial). Aliás, pouco haverá de mais revelador do que as dolorosas histórias da vida e destino dos «escravos rejeitados» – os que, tendo ficado incapacitados pela doença e, logo, sem valor comercial, estavam destinados a uma morte rápida pouco depois do desembarque. Mas, mesmo entre aqueles que eram vendidos, havia uma quantidade considerável de escravos que levavam para as suas novas casas americanas as doenças e os problemas que haviam adquirido no longo período de escravização e transporte. Não admira, portanto, que muitos morressem no primeiro ano após a chegada. No cais, os métodos de inspeção física eram semelhantes em todo o lado e idênticos às humilhações que os africanos já haviam sofrido aquando do primeiro encontro com os comerciantes de escravos na costa africana. Os escravos eram escrutinados, vistos, analisados e inspecionados nas suas partes mais íntimas de uma forma clínica, a fim de se detetarem fragilidades, qualidades e imperfeições. E, depois da viagem transatlântica, havia muitos problemas para detetar. Nos armazéns, nos barracões, nas casas de leilão, nos mercados e nos próprios navios, os africanos eram inspecionados pelos potenciais compradores, como agentes, fazendeiros e mercadores, ansiosos por comprarem escravos saudáveis (e, logo, lucrativos). Para muitos, as viagens de mar não acabavam aí. Centenas de milhares de africanos eram levadas do seu ponto de desembarque para outros destinos. Por exemplo, cerca de 200 mil africanos foram transportados da Jamaica para outros territórios, na sua maioria espanhóis ou franceses. Do mesmo modo, os navios holandeses atracavam na pequena ilha holandesa de Curaçao, de onde os africanos eram levados, noutros barcos, para as colónias espanholas. Daí, muitos africanos eram transportados para a América Central e para a Colômbia ou para o Panamá, e daí para Lima. Também na América do Norte, muitos dos africanos desembarcados na baía de Chesapeake (onde eram usados para trabalhar nas plantações de tabaco), já haviam sido obrigados a fazer transbordo nas Caraíbas e, muitas vezes, tinham ainda pela frente uma viagem terrestre até ao interior dos Estados Unidos. Mas o normal era que os navios negreiros se dirigissem diretamente para as regiões onde existisse um grande desenvolvimento dependente de escravos, para aí depositarem a sua carga humana, onde era mais cobiçada para mão de obra. Todavia, como é natural, os padrões de necessidade variaram com o tempo. Antes de 1600, a América espanhola e o Brasil eram o destino da maioria dos africanos. Depois de 1640, com a proliferação das ilhas do açúcar, uma parte substancial dos escravos africanos orientou-se para as Caraíbas. O número de escravos aumentou à medida que as plantações proliferavam e que a Europa devorava
  38. 38. 35 volumes crescentes de produtos cultivados por escravos. Entre 1640 e 1700 foram desembarcados um milhão e 600 mil africanos nas Américas e, no decorrer do século XVIII, quase seis milhões de africanos foram levados de África. Apesar de os britânicos e os americanos terem abolido a escravatura em 1807, ainda houve mais três milhões de africanos a atravessar o Atlântico como escravos, tendo como principais destinos o Brasil e Cuba. Os escravos estavam em toda a parte e apareciam em todos os cantos da economia atlântica, desde a cidadezinha do oeste americano mais distante até às comunidades costeiras de Londres e Nantes. Os africanos e seus descendentes eram não só parte integrante da evolução e prosperidade, mas uma componente incontornável do mundo Atlântico. E todos eles foram disseminados através da violenta experiência de passar meses a bordo dos navios negreiros. Os antigos marinheiros – e capitães – dos navios negreiros também deixaram descrições detalhadas das condições degradantes que os africanos tinham de suportar. E muitos comerciantes de escravos tinham consciência de que estes, em desespero, poderiam lançar- -se (e lançavam-se efetivamente) ao mar para acabar com os seus tormentos. Na prolongada história de sofrimento coletivo que constitui a narrativa do comércio de escravos do Atlântico, poucos incidentes são comparáveis ao caso do Zongs, em 1781. Luke Collingwood, capitão deste navio de Liverpool, atirou 133 escravos ao mar quando as provisões se estavam a acabar, esperando assim reclamar a indemnização do seguro. O caso foi a tribunal, em Londres, dois anos depois, não por acusação de massacre, mas numa disputa pela reclamação do seguro. Aquilo que se passou é descrito nas Memoirs of Granville Sharp, de 1820: «O navio Zong, ou Zung, comandado por Luke Collingwood, partiu da ilha de St. Thomas, na costa de África, a 6 de setembro de 1781, com 440 (ou 442) escravos e 17 brancos a bordo, rumo à Jamaica. No dia 27 de novembro, o navio aproximou-se da ilha, mas, em vez de seguir para um porto, o comandante, ou por ignorância ou intenção maldosa, afastou o navio da ilha, alegando que havia confundido a Jamaica com Hispaniola. Nesta altura, já a doença e a morte haviam tomado conta do navio, como é costumeiro nos navios negreiros, devido à avareza destes detestáveis comerciantes, que os leva a amontoarem, ou melhor, a empilharem demasiados escravos nos porões dos seus navios. Por isso, a bordo do Zong, entre a sua partida da costa de África e o dia 29 de novembro de 1781, morreram mais de 60 escravos e sete brancos e um grande número dos restantes escravos estava doente, com uma ou mais maleitas, no dia mencionado e, provavelmente, morreriam ou viveriam muito pouco.
  39. 39. 36 Estas circunstâncias de doença e mortalidade, é necessário referir, bem como também as suas consequências – ou seja, que os escravos mortos ou agonizantes teriam sido um peso morto para os seus donos e, em alguma proporção, uma perda também para os empregados destes proprietários, a menos que se encontrasse algum expediente ou subterfúgio que atirasse a perda para a seguradora, como no caso de Jetsam ou Jetson – isto é, a declaração da necessidade de atirar borda fora uma parte da carga para salvar o resto. Como eu disse, é necessário ter estas circunstâncias em mente, pois revelam o motivo provável da enorme malvadez que se seguiu. A doença e mortandade a bordo do Zong, antes de 29 de novembro de 1781 (o dia em que começaram a atirar os pobres negros borda fora, ainda vivos) não ficou a dever-se à falta de água, pois provou-se que não foi descoberto até esse mesmo dia de 29 de novembro (ou na véspera) que a reserva de água potável estava reduzida a 900 litros: mas nesse mesmo dia, ou na noite anterior, "antes que qualquer alma tivesse sido levada deste mundo" e antes que houvesse qualquer necessidade real de água, "o comandante do navio reuniu alguns dos seus oficiais e disse-lhes que se os escravos morressem de morte natural seria uma perda dos donos do navio, mas se fossem atirados ao mar seria uma perda para os seguradores" e, para atenuar a sua proposta desumana, o dito Collingwood acrescentou que "não seria tão cruel atirar os desgraçados doentes (referindo-se aos escravos) ao mar como seria deixá-los continuar a sofrer as dores de que sofriam, ou lhes disse algo com tal sentido". A tal proposta respondeu o imediato, objetando inicialmente, ao que parece, dizendo que "no presente não há falta de água que justifique tal medida". Mas "o dito Luke Collingwood conseguiu convencer o resto da tripulação, ou o resto deles apoiou a sua proposta, e nessa mesma noite e nos dois ou três dias seguintes, ou durante alguns dias, escolheu ou mandou escolher, de entre a carga do navio, 133 escravos, todos eles doentes ou fracos e com poucas possibilidades de sobreviver, e ordenou à tripulação que os atirasse por turnos ao mar, desumana ordem que foi cruelmente obedecida." James Walvin Uma história da escravatura Lisboa, Edições tinta da China, 2008 (excertos adaptados)
  40. 40. 37 Profissão: negociante Jean-Baptiste Duchemin, francês, é negociante… de escravos. Compra negros em África e revende-os na América. É claro que não o faz pessoalmente. Tem dois bons barcos, que confia a capitães sérios, com ordens bem precisas sobre o itinerário a seguir, o número de escravos a comprar, e os preços a garantir. Em contrapartida, é ele quem financia a operação: paga a tripulação e fornece as mercadorias necessárias para a aquisição de escravos: os artigos em vidro, o álcool, as armas. Quando o barco regressa, é também ele quem mais lucra. Jean-Baptiste Duchemin vive desafogadamente. Tem uma bela casa no melhor bairro de Nantes, uma esposa jovem e três filhos. Ganha-se bem com o comércio de escravos! Nos meados do século XVII, Duchemin partilha da opinião da maioria dos seus contemporâneos: pensa que um negro é um selvagem que pode ser educado, mas que nunca poderá ser autónomo. É melhor que esteja ao serviço de um branco. Duchemin está persuadido de que os negros se converterão ao Cristianismo e de que acederão à civilização. Nem lhe passa pela cabeça que os Africanos, arrancados à sua terra de origem, à sua família, à sua história e modo de vida, não partilhem do seu ponto de vista. Hélène Montardre Les esclaves en Amérique du Nord Paris, Éditions De La Martinière, 2004 (tradução e adaptação)
  41. 41. 38 “Maravilhas” ignoram escravatura Catedráticos de África, Europa e América acusam o Governo português de querer apagar o seu passado esclavagista. Vários catedráticos proeminentes especializados no estudo da África de expressão portuguesa e no colonialismo português redigiram uma carta aberta em três línguas (inglês, francês e português), em protesto contra a recente tentativa do Governo português para distorcer a História manchada de sangue da expansão colonial portuguesa. O Governo português e instituições académicas como a Universidade de Coimbra estão a promover um concurso internacional para encontrar as «Sete Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo» [anunciadas no passado dia 16 de junho]. Muitas destas maravilhas, dispersas pelo globo, foram erigidas no auge do poder imperial português. Algumas são, efetivamente, impressionantes. Mas as notas explicativas tratam-nas como pouco mais do que exemplos de excelência arquitetónica. Pelos textos que acompanham o concurso, ninguém suporia que, durante séculos, diversos desses locais desempenharam um papel de charneira no comércio de escravos do Atlântico. Estimativas indicam que cerca de 12 milhões de africanos foram sequestrados e transportados através do Atlântico na época da escravatura. Portugal e Brasil foram responsáveis por metade deste número. O comércio de escravos é um facto da maior relevância, que domina a história da expansão colonial portuguesa; mas foi deliberadamente omitido no concurso das «maravilhas».
  42. 42. 39 A carta aberta salienta que, nas últimas décadas, tem havido uma crescente consciencialização da «memória dolorosa do comércio de africanos escravizados, valorizando o património que lhe é associado». Algumas das antigas nações esclavagistas, nomeadamente a França, reconheceram o comércio de escravos como um crime contra a Humanidade, e a França adotou mesmo uma data específica, 10 de maio, como «Dia Nacional de Memória do Comércio Negreiro, da Escravatura e da sua Abolição». O Vaticano, em tempos cúmplice da escravatura, desculpou-se, na pessoa do Papa João Paulo II, quando este visitou a Casa dos Escravos na ilha de Goreia, em frente da costa do Senegal, em 1992. Vários Chefes de Estado de países que estiveram envolvidos no comércio de escravos, incluindo Inácio Lula da Silva, do Brasil, e dois Presidentes dos Estados Unidos, Bill Clinton e George W. Bush, condenaram a escravidão e o passado trágico das suas nações. Em 2007, a Grã- -Bretanha comemorou o 200.° aniversário da abolição do comércio de escravos, e o primeiro- -ministro de então, Tony Blair, expressou pesar pelo papel britânico na escravização de africanos. Mas Portugal, assinala a carta aberta, está a remar contra esta maré de reconhecimento e contrição. A lista de «maravilhas» inclui locais como o centro histórico de Luanda, hoje capital de Angola, a ilha de Moçambique, que foi a primeira capital do país, Ribeira Grande, na ilha cabo- -verdiana de Santiago, e o castelo de S. Jorge da Mina no atual território do Gana. Todos estes lugares estiveram profundamente envolvidos no comércio de escravos e esse facto é sistematicamente omitido na literatura do concurso. Apenas um texto das «Sete Maravilhas» diz que o Castelo de S. Jorge da Mina foi um depósito de escravos, depois de ter sido ocupado pelos holandeses em 1637. O pressuposto é claro: os holandeses eram esclavagistas, mas os portugueses não; no entanto, assinala a carta aberta, os portugueses fundaram a feitoria de S. Jorge da Mina como entreposto do tráfico de escravos em 1482. Servia igualmente de centro do comércio do ouro e de outros bens; mas não há nenhuma dúvida de que grande número de escravos passou pela Mina quando estava sob o controlo português, para ser desembarcado no Brasil. A carta aberta acusa o Governo português e os organizadores do concurso de ignorarem «a dor daqueles que tiveram os seus antepassados deportados desses entrepostos comerciais e muitas vezes ali mortos». «Seria possível desvincular a arquitetura dessas construções do papel que elas tiveram no passado e que ainda têm no presente enquanto lugares de memória da imensa tragédia que representou o tráfico transatlântico e a escravidão africana nas colónias europeias?», perguntam os autores da carta.
  43. 43. 40 A carta aberta foi assinada por dezenas de catedráticos de Universidades de África, Europa e Américas do Norte e do Sul, que quiseram «repudiar a omissão do papel que tiveram esses lugares no comércio atlântico de africanos escravizados». Paul Fauvet in Courrier International, Julho 2009 Allafrica.com (excertos)
  44. 44. 41 Escrava! Tem dez anos, é negra, e há muito que deixou de ter nome. Capturada em África e embarcada com destino à América, é vendida num mercado da Venezuela8. Batizada Ana, trabalha duramente e vai-se adaptando à sua nova vida, na qual aprende depressa, demasiado depressa… Muitos têm ciúmes dela e, um dia, acusam-na de algo que não fez. Chicoteada e humilhada, Ana decide fugir. Mas reencontrar a liberdade vai revelar-se uma luta bem difícil…  Sobre o cais alinhavam-se filas de Africanos, seminus. Todos piscavam os olhos, aturdidos que se sentiam por verem luz após semanas de obscuridade num porão de navio. Para que tivessem um ar mais atraente como mercadoria, tinham sido lavados e oleados, e as suas feridas curadas à pressa. Apesar disso, os boçais9 , como eram denominados os escravos acabados de desembarcar dos navios negreiros, tinham um ar bastante miserável. A travessia horrível, no decurso da qual muitos haviam morrido, tinha-os tornado mais fracos, doentes e desesperados. Alguns eram amparados pelos companheiros, e uma jovem 8 Nos finais do século XVIII, a Venezuela, então uma colónia de Espanha, contava com cerca de 60.000 escravos, trazidos de África em navios espanhóis, portugueses, ingleses e franceses. Todos os anos, mais de mil Africanos desembarcavam em La Guaira, o principal porto do país, para aí serem vendidos. Os colonos venezuelanos usavam-nos para pescar pérolas no fundo do oceano, extrair minérios da terra, desbravar selva, plantar café e cacau, e assegurar todas as tarefas domésticas. Tal como acontecia no resto da América, os escravos venezuelanos eram tratados com crueldade. Para escaparem à sua triste condição, alguns não hesitavam em revoltar-se e fugir, instalando-se em regiões afastadas do país, ainda muito despovoado. 9 Os “boçais” eram escravos negros, recém-chegados de África, e desconhecedores da língua do país. (N.T.)
  45. 45. 42 grávida estava estendida no pavimento, completamente esgotada. Meia dúzia de crianças, um pouco afastadas, observavam, com olhos assustados e admirados, este Novo Mundo. No seio do grupo apavorado, estava uma menina de cerca de dez anos, que parecia alheada de tudo o que a rodeava. A sua cara bonita, emagrecida por todas as provações que sofrera, tinha um ar totalmente ausente, e esta impassibilidade ainda a tornava mais patética do que os outros. Não manifestou qualquer tipo de emoção quando o traficante a puxou pelo braço para a apresentar a um homem muito moreno, cujos traços duros eram pontuados por um fino bigode. ― Leve esta miúda, senhor. Não posso baixar o preço do lote, mas dou-lha de graça. ― É muito magrita! ― protestou o homem. ― E nem sequer parece acordada. ― Ouça, señor Ricardo, é pegar ou largar. Os três homens são robustos e as duas mulheres são jovens e sadias. Cinco belas “peças” por mil e duzentos pesos, com a miúda a completar, eis o que eu chamo um belo negócio! O homem chamado Ricardo fingia hesitar, enquanto observava a rapariguinha sem qualquer piedade. Don José Mijares de Solapado y Pacheco, de quem era intendente, tinha necessidade de novos criados e tinha-o incumbido de comprar alguns boçais. O intendente tinha viajado de propósito de Caracas, a capital, que ficava para lá das montanhas, a fim de assistir à chegada desta carga. Claro que iria comprar o lote. Era preciso aproveitar a ocasião. À parte a miúda, tinha selecionado os melhores exemplares e tinha negociado um bom preço. Don José ficaria satisfeito. ― Está bem ― disse lentamente. ― Põe a miúda junto dos outros. Os seis boçais foram colocados na casa principal de Don José, a fim de se habituarem à língua. Também era preciso saber quais deles estariam aptos para o serviço doméstico. Após algumas semanas, foram mandados embora dois homens e uma mulher, que se mostravam rudes e teimosos. Enviaram-nos para uma plantação de café, onde o chicote do capataz os poria no lugar. Eram precisos escravos dóceis e inteligentes para o serviço da casa. Só ficaram com um dos homens, que parecia ter jeito para a jardinagem, e com uma mulher, que confiaram à cozinheira, também ela negra. A miúda, que os medos e os sofrimentos passados pareciam ter estupidificado, ficou também na casa. Era demasiado débil para trabalhar no campo. As criadas tentaram conquistá-la, mas ela parecia um animal acossado num canto. Quase não pegava na comida que lhe davam. Na casa, havia escravos de várias origens, e todos os que ainda se lembravam do seu dialeto africano tentavam falar com ela. A cozinheira, a ama, a criada de passar a ferro, um criado, todos tentavam fazê-la falar. Mas a rapariga não reagia. Parecia nada compreender e olhava-os apenas com uns belos olhos cheios de medo. A sua existência passada parecia-lhe agora extremamente longínqua.
  46. 46. 43 Lembrava-se do pesadelo que fora a invasão da aldeia por guerreiros inimigos, e a morte do chefe, seu pai, durante a batalha. Depois, tinham sido feitos prisioneiros e forçados a caminhar durante dias a fio: ela, a mãe, os dois irmãos, e muitos outros. Separaram os homens das mulheres e os irmãos desapareceram. A mãe e ela tinham ficado fechadas numa casa abafada, juntamente com outras mulheres, antes de embarcarem numa horrível prisão flutuante, onde eram guardadas por homens brancos. Quase todos os prisioneiros, acorrentados e amontoados no porão abafado do navio, tinham enjoos horríveis. O cheiro de vómito e de excrementos era insuportável e a escuridão ressoava de lágrimas, gritos e gemidos. Contudo, após alguns dias de travessia, Ana tinha-se sentido um pouco melhor, e tinha engolido um pouco da ração que lhes davam duas vezes por dia. A mãe não comia, porém. Tinha o corpo a arder, os olhos sempre fechados, e era violentamente sacudida por tremuras que a filha tentava em vão acalmar, apertando-a nos bracitos magros. Nem conseguia pensar no que sucedera depois. Com um olhar cansado e os lábios gretados, a mãe murmurara: ― Não te esqueças, minha filha, de que o teu pai era um grande chefe. Sê corajosa, como ele. ― Prometo! ― dissera a filha. Quando ouviu a respiração fraca da mãe transformar-se num gemido assustador, e sentiu o seu corpo acolhedor e quente transformar-se em algo de rígido e frio, a coragem abandonou-a e a noite apoderou-se do seu espírito. O mundo em redor tornou-se confuso e obscuro, como se as máscaras sagradas da sua aldeia a tivessem conduzido às profundezas da floresta interdita, onde só reinava o caos e as trevas. Não se lembrava do que acontecera em seguida. Mesmo o sol e o ar livre não conseguiram libertá-la da noite permanente em que estava mergulhada. Pascale Maret Esclave ! Toulouse, Milan Poche Junior, 2007 (tradução e adaptação)
  47. 47. 44 O destino de Daisy De manhã, habitualmente, Daisy fica com a Tia Marta, a velha escrava que se ocupa dos mais pequenos. Daisy embala os bebés, a sua ocupação favorita. Os bebés, mesmo quando choram, são tranquilos. A Tia Marta trata-a bem. Dá-lhe de comer e de beber. Depois, Daisy vai procurar pauzinhos para acender o lume. Anda descalça e veste um saco de pano a fazer de vestido. É raro os seus cabelos verem um pente… Só que, esta manhã, tudo é diferente. Mandaram-na ir à “casa grande”. Uma escrava que mal conhece lavou-a, deu-lhe um vestido velho, e penteou-a. Daisy foi sentar-se nos degraus da cozinha da casa à espera, não sabe bem de quê. Entretanto, chega uma carroça conduzida por um negro e Daisy vai com ele. Nessa noite, quando a sua mãe chegar dos campos, dir-lhe-ão que a filhinha de 9 anos foi vendida e que não sabem onde está. Hélène Montardre Les esclaves en Amérique du Nord Paris, Éditions De La Martinière, 2004 (tradução e adaptação)
  48. 48. 45 Tom, o carregador de água Tom tem oito anos. Este ano, já é suficientemente grande para ir trabalhar nos campos de algodão… mas ainda é pequeno para participar na colheita. Tem de levantar-se ao mesmo tempo que os mais velhos, antes do sol raiar, e pôr-se a encher os bidões de água, que serão carregados numa carroça que ele seguirá até ao campo. Quando lá chega, os escravos já estão a trabalhar. Tom contempla as cabeças por entre as plantas e vê que a maioria dos trabalhadores tem um chapéu de palha na cabeça. As mulheres protegem-se com lenços de cor. Tom entra no campo para levar água aos escravos que o capataz lhe indicar. Se um escravo, de acordo com a opinião do capataz, fizer mal o trabalho, fica sem beber. Todos os dias, Tom anda quilómetros com um bidão e um copo, tentando fazer com que o capataz não se zangue com ele. Ao menor erro, Tom será castigado. Por isso, nada de andar devagar, nem de se sentar à sombra, e muito menos falar com os trabalhadores. Isso pode fazê- -los abrandar o ritmo de trabalho. Hélène Montardre Les esclaves en Amérique du Nord Paris, Éditions De La Martinière, 2004 (tradução e adaptação)
  49. 49. 46 Os escravos na América do Norte Introdução No século XVII, na América do Norte, desenvolvem-se grandes plantações, em especial nos estados do Sul. Cultivam-se primeiro a cana do açúcar e o tabaco e, mais tarde, o algodão. Nestas grandes explorações agrícolas vivem dois tipos de população. O primeiro é constituído por homens brancos, oriundos da Europa, que fundaram e expandiram colónias que dependem das grandes potências europeias. O segundo compõe-se de homens negros, que os colonos brancos trouxeram de África, para cultivar as terras das grandes plantações. Separa-os uma diferença fundamental: os brancos são livres; estão na América porque querem e beneficiam de todos os direitos dos homens livres. Os negros são escravos. Pertencem aos seus senhores, que os podem vender e comprar, como objetos. Não têm quaisquer direitos. A escravatura sempre existiu, sob formas diversas, em tempos e lugares diferentes. Mas o tipo de escravatura que, aos poucos, se implanta na América do Norte, é diferente das anteriores, porque assenta na cor da pele. Durante mais de três séculos, os navios cruzaram os oceanos para levar os Africanos para a sua nova pátria. As condições da viagem eram indescritíveis e muitos escravos morriam na travessia. Quando chegavam, as famílias eram separadas; homens, mulheres e crianças eram vendidos. Depois, tinham de se adaptar ao novo ambiente, aprender a língua dos donos, efetuar as tarefas mais duras, suportar as condições de vida mais difíceis. Tinham um bairro reservado para eles em cada plantação. O pequeno escravo aprendia desde cedo a sua nova identidade. Mas também aprendia que a sua era uma comunidade forte,
  50. 50. 47 na qual reinava uma grande solidariedade. Vão ser precisos anos de luta e uma guerra civil para que a escravatura seja oficialmente abolida na América do Norte, em 1865. Homens brancos e negros terão de aprender a partilhar o mesmo território. A descoberta da África No século XV, a África é um continente desconhecido dos Europeus. Os navegadores portugueses tinham começado a aventurar-se nas suas costas e, durante as suas viagens, faziam prisioneiros que vendiam como escravos quando chegavam a Portugal. Um pouco mais tarde, durante a segunda metade do século XVI, os Portugueses instalam-se nas ilhas de Cabo Verde, ao largo do Senegal, e na ilha de S. Tomé, no Golfo da Guiné. O clima da ilha de S. Tomé é tão ameno que permite o cultivo da cana do açúcar, uma planta muito em voga entre os Europeus. Mas esta cultura exige uma grande mão de obra. Então, os Portugueses fazem vir homens da vizinha África para trabalharam nos campos. Ao mesmo tempo, enviam-se também Africanos para Portugal. Estes homens não são necessariamente escravos; podem ser criados ou trabalhadores agrícolas. Nos finais do século XV, os Europeus descobrem as Américas e, no século seguinte, as grandes nações europeias partilham entre si este imenso território. Ingleses, Franceses e Holandeses instalam-se na América do Norte e nas Antilhas. Portugueses e Espanhóis instalam-se na América do Sul. Na América do Norte, nascem grandes plantações. Cultiva-se a cana do açúcar, o café, o cacau, o arroz, o índigo, o tabaco e o algodão. Onde encontrar mão de obra que pudesse assegurar todas estas culturas? As populações locais, os Índios, foram rapidamente dizimadas pelas doenças levadas pelos Europeus. Os colonos que chegam do velho Continente fazem-se acompanhar de trabalhadores com contrato. Isto significa que a viagem, a alimentação e o alojamento destes é paga pelo patrão. Em troca, têm de trabalhar durante sete anos. Mas o Europeus não se habituam ao clima das Américas e muitos trabalhadores fogem, a fim de se instalarem noutras partes do continente e escaparem a condições de trabalho demasiado árduas. Resta uma terceira solução: seguir o exemplo dos Portugueses, que utilizam os Africanos nas grandes explorações que detêm. Tanto os colonos portugueses como os espanhóis utilizam este sistema na América do Sul. Em 1619, um barco holandês desembarca uma vintena de Africanos em Jamestown, na América do Norte, e estes são imediatamente contratados. Quando chegam, estes homens são vistos como trabalhadores iguais aos brancos que costumam acompanhar os colonos. Só que, sete anos depois do contrato cumprido, os patrões vão “esquecer-se” de os libertar e mantê-los-ão como escravos. Este comportamento será tanto mais fácil quanto os negros têm duas

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