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Afirmamos até agora que, de acordo com o próprio método utilizadopor Marx, a história do pensamento econômico por ele elab...
mortas oprime os vivos. Apresenta-se, assim, a questão da ideologiapara o nosso debate.Se a existência determina a consciê...
Considerando estas observações de Marx, vale a pena fazermos umapequena digressão sobre a concepção de ideologia. Inicialm...
Marx utilizaria o termo em A Ideologia Alemã.A partir desta conceituação Marx indica que o papel da ideologia éformular co...
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O trabalho de HPE de Marx é revolucionário em sua época dada acomplexidade de seu método e a sua consciência de que boa pa...
definitivamente a explicação divina de seu seio.Marx, porém, realizava uma obra de crítica à economia política, o quesigni...
26 adendos, os temas perseguidos por Marx são poucos e bemarticulados: a abordagem da origem e da distribuição da renda, d...
o caminho de acesso à compreensão histórica dos problemas se suaépoca. Sem abrir mão de ser um homem do seu tempo, Marx in...
EAGLETON, T. (1991) Ideologia, Boitempo Editorial, Unesp Editora SãoPaulo, 1997.GAREGNANI, P. & PETRI, F.; Marxismo e Teor...
________ (1905), Teorias da Mais-valia: história crítica do pensamentoeconômico,Bertrand Brasil, 1987 traduzida da edição ...
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  1. 1. MARX E A HISTÓRIA DO PENSAMENTO ECONÔMICO: UM DEBATE SOBRE MÉTODO E IDEOLOGIA (texto preliminar para apresentação no Seminário de Pesquisa do IE/UFRJ) Maria Mello de Malta1 Rodrigo Castelo INTRODUÇÃO Quando toca o sinal que anuncia o final dos cursos de apresentação do pensamento de Marx, o Livro IV de O Capital ainda não foi lido e, muitas vezes, nem mesmo mencionado. Neste texto vamos abordar exatamente esta parte da referida obra – mais conhecida pelo título de Teorias da Mais-valia – pois acreditamos que compreender o trabalho de Marx em sua totalidade implica em entender o papel integrado de seu estudo crítico da história do pensamento econômico (HPE). O estudo do autor alemão da história do pensamento econômico (HPE) perpassa toda sua obra, especialmente depois de seu contato com o trabalho de Engels Esboço de uma Crítica da Economia Política publicado no primeiro e único número dos Anais Franco-Alemães, de fevereiro de 1844. Naquele período se completou a convergência do que Lênin (1913) chamaria de as três fontes e as três partes integrantes do marxismo, o socialismo francês, a filosofia alemã e a economia política inglesa2.1 Maria Mello de Malta e Rodrigo Castelo são ambos pesquisadores do LEMA/IE/UFRJ. Estetexto é baseado em aulas preparadas para o curso Economia Política Marxista, oferecido pelo LEMA noâmbito do Programa Latino-americano de educação a distância (PLED). Os autores agradecem aoscompanheiros Mauro Iasi (ESS/UFRJ e NEP 13 de maio) e Luis Carlos Scapi (NEP 13 de maio) pelodebates acerca da temática apresentada a seguir, porém sem responsabiliza-los por quaisquer dosproblemas que possam ter permanecido no trabalho.2 “A doutrina de Marx é onipotente porque é exata. É completa e harmoniosa, dando aos homensuma concepção, integral do mundo, inconciliável com toda a superstição, com toda a reação, com toda adefesa da opressão burguesa. O marxismo é o sucessor legítimo do que de melhor criou a humanidade no 1
  2. 2. Nesta época Marx realizou seu primeiro estudo de economia política. Este trabalho completo foi posteriormente publicado em 1932 sob o nome de Manuscritos Econômico-Filosóficos, também conhecidos como Manuscritos de Paris. A leitura dos Manuscritos é muito importante para a identificação do processo que articula a evolução do pensamento de Marx com seus estudos da HPE. É a partir da sua relação com os textos da economia política clássica que o autor alemão dá corpo, no campo das idéias, a sua percepção, já constituída por meio da prática política, do papel central que a categoria trabalho tem no entendimento da sociedade capitalista, elemento que marcará definitivamente sua obra. No seu trabalho de redação de O Capital, Marx se dedica longamente ao estudo dos autores clássicos e seus contemporâneos no campo da economia política. Neste processo elaborou um imenso manuscrito entre 1861 e 1863 onde constam as notas que foram referência para a construção de Teorias da Mais-Valia, bem como os temas que se transformaram nos livros I e III de O Capital. Teorias da Mais-Valia é a maior e mais elaborada parte do referido manuscrito, composto de 23 cadernos, com páginas numeradas de 1 a 1472. Aquele trabalho, também publicado sob o título de Uma História do Pensamento Econômico, compreende os cadernos VI a XV e o XVIII, além de mais umas 40 páginas espalhadas pelos cadernos XX, XXI, XXII e XXIII (Rubin, 1929). Embora Marx tenha se dedicado, naquele manuscrito, de forma mais abrangente e mais completa exatamente a essa análise crítica das idéias dos economistas que lhe precederam ou eram seus contemporâneos, acabou destinando-a a ser o livro IV, o último, de O Capital. Esta decisão de Marx parece ter fortalecido uma interpretação usual de que a economia política clássica seria algo consideradoséculo XIX: a filosofia alemã, a economia política inglesa e o socialismo francês. Vamos deter-nos brevemente nestas três fontes do marxismo, que são, ao mesmo tempo, as suastrês partes constitutivas.” (Lenin, 1913, p.1) 2
  3. 3. definitivamente superado por ele, e neste sentido uma HPE, comoaquele que ele realizara, que buscasse reconstituir criticamente oscaminhos lógicos dos economistas políticos clássicos, não passaria deuma curiosidade de eruditos. É exatamente esta interpretação quepretendemos questionar.A CONSTRUÇÃO DA INTERPRETAÇÃO CINDIDA ENTRE A HPE DEMARX E SUA OBRADe nosso ponto de vista, a idéia de que Marx teria rechaçado ascontribuições científicas da economia política inglesa enquanto base,ainda que crítica, para os seus desenvolvimentos teóricos, origina-semuito mais da influência da interpretação dominante de que otrabalho de história do pensamento econômico não é parte do corpode desenvolvimento os novos caminhos da ciência, do que provenientede um estudo aprofundado do papel da HPE de Marx na totalidade desua obra.Porém, como já dissemos há elementos importantes na própriahistória de publicação das obras de Marx que possam ter dado espaçopara a instalação de tal interpretação como verdadeira. Jámencionamos a decisão de Marx em posicionar seu estudo de HPEcomo o livro IV de O Capital, mas ainda podemos destacar outraquestões.Mais um elemento de reforço a esta concepção se deu por conta daforma pela qual Teorias da Mais-Valia fora publicada. A primeiraedição do livro IV foi feita por Kautsky entre 1905-1910, portantomais de dez anos depois da publicação do livro III e mais de quarentaanos depois do livro I. Além de carregar o distanciamento temporal dorestante da obra, tal versão foi posteriormente muito criticada emvirtude de seu editor ter alterado a organização dos temas conformeindicados por Marx; a versão kautskiana também continha erros de 3
  4. 4. interpretação associados a incompreensão da caligrafia do autor,supressões injustificáveis de passagens do manuscrito, erros detradução para o alemão de passagens registradas originalmente emoutras línguas e alterações na terminologia empregada por Marx.Assim, uma nova publicação da obra se fez necessária. Porém esta sóocorreu cinco décadas depois, a partir do trabalho de duas décadasrealizado por pesquisadores da ex-União Soviética que se dedicaram aestudos e investigações daquele manuscrito. O objetivo deste projetoera levar ao público a obra seguindo os originais deixados por Marx,além de sua orientação básica de ordenar as idéias de acordo com olugar que ocupavam no desenvolvimento do processo histórico, o quenão coincide necessariamente com a cronologia dos autores e obrasconsiderados em seu estudo. Dessa forma, Teorias da Mais-Valiaganhou sua versão russa completa entre 1954 e 1961, enquanto aversão alemã apareceu entre 1956 e 1962, marcando uma distânciade quase um século entre estas versões e a publicação do livro I. Note-se, também, que boa parte do debate crítico à obra marxiana já haviasido desenvolvido quando se tornou pública a versão mais completado trabalho de Marx sobre HPE.Os problemas na publicação de Teorias da Mais-Valia, seja pelademora de sua publicação, seja pela forma de apresentação de seuconteúdo, não são os únicos motivos pelos quais esta parte dotrabalho de Marx fora sistematicamente colocado em segundo plano.A visão mais tradicional de HPE a trata, conforme já afirmamos, comouma curiosidade de eruditos, um relato conclusivo de “errospassados” e muitas vezes até “um apêndice incômodo que precisa serneutralizado” (Tolipan, 1982, p.5). Não raro, foi visto assim também otrabalho de Marx sobre o tema.No entanto, possuímos uma outra perspectiva sobre esta questão.Consideramos que o conhecimento da HPE é essencial para umacompreensão aprofundada da economia política, e ainda mais 4
  5. 5. importante no que se refere ao sistema teórico desenvolvido pelorevolucionário alemão. Não foi a toa que, antes de escrever a suaprópria teoria, Marx estudou meticulosamente uma rica literaturaeconômica, produto do trabalho de várias gerações de economistaseuropeus entre os séculos XVII e XIX. Desde sua primeira página, OCapital é carregado de referências a autores anteriores a sua obra e acada passo de sua exposição, tanto em texto como em nota de rodapé,Marx apresenta pensamentos valiosos de economistas importantes dahistória do pensamento até então estabelecida. Independentemente doquão rudimentar ou ingênua seja uma idéia econômica, Marx adotauma postura diante daquelas obras de atenção completa e análisediligente, valorizando-as como uma preciosa semente que possa terpassado despercebida a uma primeira vista.O tratamento atento e paciente que Marx deu a seus predecessoresnão é para ser tomado como um capricho diletante de um especialistaem escritos econômicos antigos, mas como o caminho de acesso aoseu laboratório do pensamento. A partir da publicação dos Grundrisse– publicado em alemão entre 1939-1941 – e, particularmente, dasTeorias da Mais-Valia este caminho se abriu. Assim, somos capazesde compreender como cada breve referência a Smith, Ricardo ou outroeconomista que Marx distribuiu entre as notas de rodapé de OCapital, é um resumo parcimonioso de pesquisas altamentedetalhadas contidas naquela obra, o que as faz parte orgânica de seutexto.A partir desta perspectiva identificamos o quanto estava claro paraMarx o quão inseparável eram as tarefas de estudar os pensadoresanteriores e construir seu próprio sistema de pensamento. Podemosainda afirmar que o quanto mais profundamente penetrava notrabalho dos clássicos, mais perto chegava de sua construção original.O MÉTODO DE MARX PARA A HISTÓRIA DO PENSAMENTOECONÔMICO 5
  6. 6. Ricardo Tolipan, um importante historiador brasileiro do pensamentoeconômico, escreveu uma vez que fazer HPE é recuperar “o estímuloacadêmico à imaginação teórica e à crítica irônica do dogma e deve-separa isto analisar o modo de construção da ciência” (Tolipan, 1982,p.10). Na leitura do trabalho de HPE de Marx podemos perceber estaintenção.O interesse de Marx era ir além do ponto de entender como as idéiaseconômicas se desenvolvem a partir de sua própria lógica interna. Elequis conhecer os processos pelos quais certas formulações teóricasforam sendo criadas em ambientes sociais específicos. Concebia oconhecimento científico como um tipo de produto social, e rendeu-seà importância de considerar os espaços concretos que organizavameste conhecimento (Nunes e Bianchi, 1999).Neste sentido, sua abordagem para estudar o pensamento econômicoconstitui-se em encará-lo como resultado de um conjunto inseparávelde observação da realidade histórica e da visão de mundo sob a qualesta observação se realiza. Sendo assim, não se pode operar com umadistinção entre economia como análise pura e economia como visãodos processos sociais da base material, sendo a primeira uma análiseisenta e a segunda aquela em que entram inevitavelmente tendênciase matizes ideológicos, tal como Schumpeter (1954) trabalha. “Taldistinção não pode ser sustentada porque a teoria econômica, namedida em que se pretende como afirmação substancial sobre asrelações reais da sociedade, não pode deixar de incorporar a intuiçãohistórica, a perspectiva e a visão social de mundo, em sua formulaçãoe no próprio ato de julgamento do seu grau de realismo” (Dobb, 1977,p.52).Desta forma, o seu método de pesquisa da HPE combina o estudo doperíodo histórico de referência (amplamente explorado no livro I de OCapital) com um estudo da teoria econômica elaborada até então, demodo a compreender a produção intelectual resultante destasinfluências. Esta perspectiva tem como princípio o materialismo 6
  7. 7. histórico, em contraponto com o idealismo hegeliano. O idealismo deHegel afirma ser possível existir idéias provenientes de um “espíritoabsoluto” sem a necessidade de uma base material que as origine.Marx, por sua vez, anota que as idéias de uma época são expressãointelectual das relações sociais vigentes com todas as contradições eas influências herdadas da história da política.Em A Ideologia Alemã (1846) Marx e Engels apresentam um raciocíniosintético que relaciona o pressuposto materialista com sua basehistórica, afirmando que foram “forçados a começar constatando queo primeiro pressuposto de toda a existência humana e, portanto, detoda a história, é que os homens devem estar em condições de viverpara poder ‘fazer história’. Mas, para viver, é preciso antes de tudocomer, beber, ter habitação, vestir-se e algumas coisas mais. Oprimeiro ato histórico é, portanto, a produção dos meios quepermitam a satisfação destas necessidades, a produção da própriavida material, e de fato este é um ato histórico, uma condiçãofundamental de toda a história, que ainda hoje, como há milhares deanos deve ser cumprida todos os dias e todas as horas para manter oshomens vivos” (Marx e Engels, 1846, p.21). Donde concluem que aexistência precede a consciência.Combinado com este pressuposto materialista está a lógica dialética,esta sim incorporada de Hegel. A lógica de uma construção científica éa forma de organizar o pensamento que a produz e nada impede queargumentos científicos que sigam uma mesma lógica possam terpressupostos diferentes. A lógica dialética pretende superar a lógicaformal incorporando alguns de seus princípios. Por exemplo, a lógicadialética também trabalha com identidade, porém a trabalhaenquanto identidade de contrários, ao invés da identidade comocontraponto à diferença, conforme faz a lógica formal (Iasi, 2007).Interessa-nos, todavia, identificar alguns princípios gerais quepossam caracterizar a dialética. Em primeiro lugar, a lógica dialética 7
  8. 8. busca o movimento próprio do objeto estudado, pois entende que parase compreender qualquer objeto há que se captar seu movimento.Uma forma não apenas é. Ela “era, é e tende a ser”, estando emmovimento contínuo. É necessário também compreender acontradição presente em todos os objetos, pois é desta contradiçãointerna que depende o seu movimento. Portanto, toda estrutura éuma união de contrários. Isto torna o movimento permanente, poiscada forma traz em si o germe de sua superação, a sua contradição.Desta maneira, cada forma pode ser ao mesmo tempo outra semdeixar de ser o que é. Por isto pode ser representada como umaidentidade de contrários. Finalmente, o movimento se dá porcontradições que chegam a um ponto de ruptura no qual ocorre umsalto de qualidade. Neste momento surge uma nova forma, quesupera a antiga, mas carrega alguns de seus elementos, comotambém se constitui em parte do germe que gerará a sua superação,ou seja, sua negação. Note-se que esta última negação, será anegação de uma negação da forma imediatamente anterior, portantouma negação da negação.O próprio Marx já afirmou na famosa Introdução de 1857, que oprocedimento metodológico correto é iniciar a investigação pelo real,pelo concreto, que é a pressuposição prévia e efetiva. No entanto,afirma que graças a uma observação mais atenta, tomamosconhecimento de que este processo é incompleto. Não basta observaro concreto para desvelar suas partes constituintes. Assim, seanalisarmos somente o real como se apresenta em sua aparência,teríamos uma representação caótica do todo.É necessário apreendermos intelectualmente o real. A questão resideno método de apreensão da realidade concreta. Segundo Marx, ocientista social dispõe do poder de abstração para analisar comprofundidade a realidade, chegar ao seu âmago constituinte. Destaforma, passaríamos do concreto a abstrações cada vez mais tênuesaté atingirmos as mais simples determinações. Ao chegarmos a este 8
  9. 9. ponto teríamos que fazer a viagem de volta até chegarmos aoconcreto, agora não mais como uma representação caótica do todo,porém como uma rica totalidade de determinações e relações diversas.Neste caso, o concreto é concreto porque é a síntese de múltiplasdeterminações, isto é, uma unidade do diverso.Por isso o concreto aparece no pensamento como síntese, comoresultado e não como ponto de partida, ainda que seja o ponto departida efetivo e, portanto o ponto de partida também da intuição e darepresentação. No método exclusivamente analítico, usado peloseconomistas políticos, a representação plena se perde emdeterminações abstratas; no método dialético marxiano, que uneanálise e síntese, as determinações abstratas conduzem à reproduçãodo concreto, agora compreendido, por meio do pensamento.Marx nos ensinou que foi por este motivo que os idealistas dialéticos,como Hegel, caíram na ilusão de conceber o real como resultado dopensamento, identificando na idéia a origem de tudo. Nesta visão, opensamento aprofundar-se-ia em si mesmo, de forma independenteda realidade, implicando que seria no campo ideal que ocorreriam asgrandes mudanças e os grandes movimentos. Alerta-nos, no entanto,que caminhar no sentido da síntese, ou seja, do abstrato ao concreto,é a maneira de proceder para se apropriar do concreto, pararepresentá-lo como concreto pensado, ou seja, para compreendê-lo.Porém este não é, de modo nenhum, o caminho de determinação desua origem. A origem, o pressuposto, é a existência. É ela quedetermina a essência.Além do próprio trabalho de Marx, os textos, por exemplo, de VladimirLênin (vários escritos), Henri Lefebvre (1969) e Lucien Goldman (1956)sobre a dialética nos mostram uma variedade de formas de apresentá-la. Não pretendemos dar origem a uma nova explicação à lógicadialética, até porque todos os autores citados realizaram trabalhosque jamais superaríamos. Nosso objetivo é fazer com que o leitor 9
  10. 10. perceba como o próprio método de Marx abre o espaço paraincorporação da dimensão da história na elaboração da ciência. Omomento histórico existe em sua dupla face: a materialidade dasrelações sociais e sua expressão superestrutural. Por isso afirma quea cada tipo de apresentação das formas de produção e reproduçãomaterial da existência humana correspondem formas específicas deestruturação social, além de valores e formas de apreensão darealidade.Fazer a história do pensamento econômico é compreender as formasde apreensão da realidade econômica estruturada em cada tempohistórico, fundamentalmente embebida em valores da época. Sendoassim, o autor alemão não apenas admite a presença da visão socialde mundo na elaboração da ciência econômica, como também a revelainseparável desta.Marx pretendeu explicitar as formas existentes, em sua época, daexpressão das relações de produção e reprodução da vida, comohistórica e socialmente determinadas, diferentemente do que fizeramos economistas políticos clássicos, que as naturalizaram. De seuponto de vista, não é entendendo as formas de pensamento que seentende a história, mas é compreendendo a história, movida pela lutade classes, que se compreende as formas de pensamento.Se o método de Marx se estrutura incorporando a história como parteessencial de sua formulação, não há como ignorarmos o papel dahistória do pensamento econômico na formulação crítica da economiapolítica clássica que Marx pretendeu realizar. A construção intelectualde Marx é uma composição que segue seu método e que carregadentro de si a economia política inglesa, sem com isso se tornar partedela, pois lhe agrega contradições (teóricas, históricas e política) quedão origem ao movimento de seu pensamento sobre economia política.A QUESTÃO DA IDEOLOGIA 10
  11. 11. Afirmamos até agora que, de acordo com o próprio método utilizadopor Marx, a história do pensamento econômico por ele elaborada éparte componente de seu pensamento. Há ainda um outro caminhode afirmação do mesmo ponto de vista que amplia nosso debate paraalém do campo do marxismo, abrindo uma batalha no âmbito daprópria tradição da história do pensamento econômico.A visão mais tradicional da história do pensamento econômico éessencialmente referenciada em Schumpeter (1954) a partir de suaseparação analítica fundante dos possíveis caminhos para se estudara HPE. Na concepção de Schumpeter, a história da análise econômicase refere à história da “evolução” dos modelos analíticos de base paraa teoria econômica; a história dos sistemas de economia políticaconsidera a seqüência temporal dos conjuntos de políticaseconômicas que os autores sustentam sob princípios normativosunificadores; e finalmente a história do pensamento econômico seria asoma total das opiniões e desejos referentes a assuntos econômicos,especialmente relativos à política governamental, que correm peloespírito público em determinado tempo e espaço. A sua perspectivasustenta que a história da análise econômica concentra o que éfundamental para o estudo da história da teoria, na medida em que éum recorte “limpo” das influência ideológicas presentes nas outraspartes do pensamento econômico.Além do que já está apontado quanto a construção do próprio métodode pesquisa de Marx o trabalho deste autor afirma abertamente umaposição contrária a esta apresentada em Schumpeter (1954). Noclássico 18 de Brumário de Luis Bonaparte (1851), Marx afirma que“os homens fazem sua própria história, mas não a fazem comoquerem, não fazem sob as circunstâncias de sua escolha e sim sobaquelas com que se defrontam diretamente, ligadas e transmitidaspelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime comoum pesadelo o cérebro dos vivos” (Marx, 1851, p.21).Coloca-se então a pergunta de como a tradição de todas as gerações 11
  12. 12. mortas oprime os vivos. Apresenta-se, assim, a questão da ideologiapara o nosso debate.Se a existência determina a consciência como é que mortos oprimemvivos? O ponto é exatamente que as idéias não apenas existem, masse materializam na forma dos elementos da superestrutura,influenciando diretamente os elementos da base econômica. Ou seja,as representações teóricas não são somente reflexo passivo da baseeconômica, mas ajudam a determinar as configurações da própriabase.A superestrutura política e jurídica e a consciência social sãorepresentação muito concreta da forma histórica com que os sereshumanos se relacionam com a natureza e entre si. Apesar doselementos superestruturais serem uma expressão, uma noçãodeterminada intelectualmente, de certa conjuntura histórica, tambéma condicionam e, por longo tempo, perpetuam as formas de relaçãodominantes naquele período histórico. O pensamento econômico fazparte da consciência social de sua época e deve ser reconhecidoenquanto tal.Na seção 15 do capítulo IV de Teorias da Mais-Valia, Marx escreve que“para observar a conexão entre produção intelectual e a material, éfundamental antes de tudo apreender esta não como categoria geral,mas como forma histórica definida. Assim, por exemplo, ao modo deprodução capitalista corresponde a produção intelectual de espéciediferente daquela do modo de produção medieval. Se não se concebe aprópria produção na forma histórica específica, é impossível entendero que é característico na produção intelectual correspondente e ainteração entre ambas” (Marx, 1905, p.267, grifos no original).É bastante evidente que os modos de produção duram mais tempoque as vidas individuais dos seres humanos. O mesmo ocorre comsua produção intelectual. Assim, mortos assombram vivos por meioda reprodução dos sistemas de relações sociais que incluem estruturae superestrutura. 12
  13. 13. Considerando estas observações de Marx, vale a pena fazermos umapequena digressão sobre a concepção de ideologia. Inicialmentepodemos dizer que a expressão ideologia é comumente consideradaum sinônimo para conjunto de idéias. Se ideologia é apenas umconjunto de idéias, se quisermos manter nosso pressupostomaterialista, coloca-se em questão quais são as relações sociais queestão representadas neste conjunto de idéias.A resposta mais comum é que as idéias são de uma época.Expressam, portanto, um determinado período histórico. Como jádiscutimos, a cada época histórica corresponde uma forma deproduzir e reproduzir relações sociais e a vida, porém é possível queem cada época convivam formas diferentes de se realizar esta tarefasocial fundamental. Qual então será a forma considerada adiferenciadora e a definidora daquele período específico?Imediatamente pensamos: é claramente aquela maneira que for amais comum, a dominante. Assim, se a forma de produzir ereproduzir a vida que representa uma época é aquela dominante,também as idéias que a representarão serão as dominantes.Levando em conta que a primeira forma de apresentação daconsciência social é o senso comum, fruto da alienação, por meio daqual os indivíduos tomam as idéias instituídas como sua própriaconsciência, então o conjunto de idéias dominantes de uma época setorna sua ideologia, quando se utiliza da alienação para dominação. Aideologia dominante é, portanto, a expressão ideal das relaçõesmateriais dominantes.Segundo Michael Löwy (1985), quando Marx encontra pela primeiravez o termo ideologia nos debates da primeira metade do século XIX,este está sendo usado no sentido de especulação metafísica queignorava a realidade. Ideologia ganha assim o sentido de ilusão, falsaconsciência, concepção idealista na qual a realidade é invertida e asidéias aparecem como motor da vida real. Seria neste sentido que 13
  14. 14. Marx utilizaria o termo em A Ideologia Alemã.A partir desta conceituação Marx indica que o papel da ideologia éformular concepções das relações sociais existentes nas quais elasapareçam invertidas, naturalizá-las, obscurecer sua essência parapoder justificá-las, apresentando um interesse particular comouniversal e criar o espaço para a manutenção da dominação. Para secontrapor à ideologia, na concepção de nosso autor, existe a ciência. Aciência teria o papel de compreender, revelar e historicizar as relaçõessociais existentes, para com isso desinverter sua forma deapresentação e abrir espaço para o questionamento da dominação.No livro 18 de Brumário, Marx amplia o conceito de ideologia e faladas formas ideológicas através das quais os indivíduos tomamconsciência da vida real. Ele as enumera como sendo a religião, afilosofia, a moral, o direito, as doutrinas políticas, entre outras. Löwynos diz que “para Marx, claramente, ideologia é um conceitopejorativo, um conceito crítico que implica ilusão, ou se refere àconsciência deformada da realidade que se dá através da ideologiadominante: as idéias da classe dominante são as ideologiasdominantes na sociedade” (Löwy, 1985, p.12).O conceito de ideologia segue um longo percurso na tradição marxistae vai sendo modificado em cada nova acepção. Lênin e Gramsci são osmais famosos autores marxistas que formulam novas concepções emtorno no termo ideologia. Neste sentido, não é simples abrir umadiscussão sobre ideologia em Marx sem se deixar influenciar peloandamento da discussão marxista. Afinal, estamos aqui afirmandoque a produção intelectual de cada época vai ser assombrada pelasidéias e pela história que a precedeu e que lhes são contemporâneas.Buscando respeitar o sentido que Marx deu ao termo ideologia,gostaríamos aqui de usar um recurso didático estabelecendo doisconceitos distintos para o nosso trabalho: ideologia e visão social demundo. O conceito de visão social de mundo se diferenciaria daquele 14
  15. 15. de ideologia por não carregar em si o objetivo de dominação, porémmantém a noção de historicidade e de perspectiva social em seusignificado. Neste sentido, ideologia e visão de mundo seriamconceitos muito próximos, cuja única diferença seria o sentido dedominação que o primeiro possuiria.Tal recurso nos serve para afirmar que a Marx não escapa que aciência não tem como se separar da visão de mundo daquele que aformula, sem implicar que todo cientista tenha um projeto dedominação por trás de seu trabalho, ainda que alguns o possam ter.Em sua crítica a Henri Storch, economista político francês daprimeira metade do século XIX, o posicionamento de nosso autor ébem direto, pois afirma que: “da forma específica da produção material resulta: 1) determinada estrutura da sociedade e 2) determinada relação dos homens com a natureza. As duas determinam o governo e a visão intelectual dos homens. Em conseqüência, também o gênero da produção intelectual”. (Marx, 1905, p.267)Neste contexto, Marx denuncia a incapacidade de Storch decompreender a produção intelectual, até porque este autor a definecomo associada às atividades profissionais relacionadas com a classedominante, sem compreender que estas últimas existem e se definemespecificamente naquela determinada estrutura histórica por elevivenciada. A partir disso Marx conclui que um historiador das idéiasque não concebe a própria produção material no domínio histórico e aultra-generaliza, priva-se da única base que o possibilitaria entenderos componentes ideológicos da classe dominante e ainda a produçãointelectual crítica a esta formação social.A HISTÓRIA DO PENSAMENTO ECONÔMICO, POR KARL MARX 15
  16. 16. O trabalho de HPE de Marx é revolucionário em sua época dada acomplexidade de seu método e a sua consciência de que boa parte daprodução intelectual sobre economia não passava de uma produçãoideológica que rompia o compromisso científico. Neste sentido, oestudo detalhado de autores das mais variadas origens e influênciasera o caminho para reconstituir a linha científica da economiapolítica. Por isso, Marx fez questão de diferenciar os economistaspolíticos clássicos dos economistas vulgares. Esta diferenciação estápresente no posfácio da 2ª edição alemã e em algumas notas derodapé de O capital, porém é mais claramente exposta no item 5 doAdendo à terceira parte de Teorias da Mais-Valia.Neste ponto de seu trabalho o autor alemão está se questionandosobre as formas de apresentação de como são formados os preços dasmercadorias pelos clássicos e pelos vulgares. Marx aponta que osclássicos buscam a identificação da origem dos rendimentos docapital, do trabalho e da terra no reino da produção. Neste processoacabam por identificar contradições nas relações sociais e no própriopensamento por eles construído, enfrentando as dificuldades de seproduzir ciência. Os economistas vulgares procuraram dar umaaparência suave ao processo por meio do qual surgem os diferentestipos de rendimento. Preferiram falar em juros, ao invés de lucros,para desconectar a relação entre produção e o rendimento do capital.Acabaram por intencionalmente se tornarem apologetas e realizaramtentativas extenuantes de apagar a existência das idéias quecontivessem contradições. O caminho de distanciamento da ciênciavai se tornando tão evidente que autores como Frederic Bastiat,contemporâneo de Ricardo, vão recorrer a explicações divinas paradar conta da origem da renda da terra, bem como se utilizam deargumentações morais e religiosas para explicar a diferença existentena distribuição da propriedade privada. Com este tipo de recurso oseconomistas vulgares rompem inclusive com o projetoliberal/iluminista de construção de uma ciência cujo modo deentendimento da ordem econômica e social pretendia expulsar 16
  17. 17. definitivamente a explicação divina de seu seio.Marx, porém, realizava uma obra de crítica à economia política, o quesignificava que os economistas clássicos não estavam salvos davirulência de seus argumentos. A questão da economia políticaclássica estava em outro âmbito. Havia sim um compromisso emexplicar a realidade no trabalho daqueles autores. Porém, nãoestavam interessados em verificar como cada uma daquelas formassociais que estudavam haviam se materializado da exata maneira emque se apresentavam para eles. Todos aqueles autores tomavam cadaum dos objetos que analisavam como premissas dadas, pontos departida inquestionáveis. Assim, “a falha dos economistas clássicos eraque não concebiam a forma básica do capital, isto é, a produçãodesenhada para se apropriar do trabalho de outras pessoas, comouma forma histórica, mas como uma forma natural da produçãosocial; a análise levada a frente pelos próprios economistas clássicosacabou por pavimentar o caminho para a refutação desta concepção.”(Marx, 1905, p. 1538, grifos no original)A preocupação principal da obra de história do pensamentoeconômico de Marx não era um confronto dos métodos em si. Aabertura de Teorias da Mais-Valia já nos indica o corte analíticocrítico por meio do qual será feito o trabalho de HPE de Marx. Em suaObservação Geral, que consta no início do livro IV de O Capital, afirmaque todos os economistas incorrem no erro de não examinarem amais-valia enquanto tal, pura, mas nas formas especiais de lucro e derenda fundiária. Sendo assim, torna-se explícito que estudar opensamento econômico para Marx tinha como função compreender asformulações teóricas anteriores com o objetivo de identificar seuslimites, fazer a crítica e desenvolver sua própria teoria neste processode estudo.As questões que buscou estudar nos clássicos podem seridentificadas na longa lista de capítulos e adendos, todos divididos eminúmeros subitens, que formam o livro IV. Apesar dos 24 capítulos e 17
  18. 18. 26 adendos, os temas perseguidos por Marx são poucos e bemarticulados: a abordagem da origem e da distribuição da renda, dolucro, dos juros e dos salários em articulação com a questão do valor,bem como a concepção do processo de acumulação e com ela asnoções da composição orgânica do capital e da produtividade. Não écoincidência que estes sejam os mesmos temas presentes nos trêsprimeiros livros de O Capital, nos quais Marx expõe a sua própriaexplicação crítica para a produção e reprodução do sistemacapitalista.A pesquisa de HPE elaborada por Marx seguiu a estrutura teórico-conceitual apresentada no pensamento econômico, primordialmentecientífico, produzida entre os séculos XVII e XIX. Nela mapeou-se osprincipais debates que Marx considerou fundamentais para construirsua própria contribuição interpretativa e que são alguns dosprincipais temas da economia política marxista até os dias atuais.Teorias da Mais-Valia ganha este título porque busca identificar comotantos autores se aproximaram da questão da mais-valia semidentificá-la em sua complexidade. O conceito de excedente é aprimeira formulação que indica a presença de uma reprodução deriqueza em volume maior que aquela que fora necessária paraproduzi-la. Deste ponto de partida iniciam-se as questões sobre deonde vem esta riqueza e, associada a ela, a pergunta sobre para quemdeve ir tal riqueza. As respostas a estas questões originárias doprojeto da economia política estão mapeadas desde as contribuiçõesde William Petty, dos fisiocratas e de David Hume passando, porAdam Smith, James Steuart, chegando a David Ricardo, Rodbertus,Thomas Malthus, Robert Torrens, James Mill e seu filho John StuartMill. Nenhuma delas satisfaz a Marx, por isso se tornam suareferência crítica.Neste sentido, a proposta de leitura da HPE por Marx é parteessencial de sua construção crítica. Estudar a forma de apreensão darealidade capitalista expressa pelos cientistas sociais de sua época era 18
  19. 19. o caminho de acesso à compreensão histórica dos problemas se suaépoca. Sem abrir mão de ser um homem do seu tempo, Marx introduza contradição no pensamento dominante com que se confrontara econstrói uma síntese única que se expressa em sua forma deinterpretação das relações sociais vigentes.CONCLUSÃOO Capital em seus quatro livros é o resultado do esforço de Marx depropor uma nova leitura da realidade estrutural e superestrutural emque vivia, abrindo a perspectiva de um questionamento das formas deorganização da produção e reprodução da vida no capitalismo e comela das idéias que a representam. Sua pesquisa da HPE é parteconstitutiva deste projeto, especialmente porque esta representa aconsciência e a ciência social do sistema que buscava compreender esuperar.Esta compreensão integrada do trabalho de Marx torna fundamentala tarefa de estudar a história do pensamento econômico elaboradapor ele, tanto para o entendimento contextualizado de sua obra,quanto para inserí-lo de maneira adequada da HPE. Nosso autor é umpensador do seu tempo, com os limites e as possibilidades que suavisão de mundo abriram para ele. Também, como todo grandecientista de seu tempo, contribuiu de maneira crítica para elaboraruma interpretação do capitalismo. Tal interpretação permanece comoreferência fundamental para compreender atualidade. Afinal, por maistempo que tenha passado entre a produção intelectual de Marx e osdias de hoje, a ordem histórica vigente permanece sendo a ordemcapitalista.BIBLIOGRAFIABHARADWAJ, K; Themes in value and distribution; classical theoryreappraised, Unwin Hyman, London, 1988. 19
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