O Natal na Voz do Povo 3

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O Natal na Voz do Povo 3

  1. 1. O 1 TATAI, NA VOZ DO POVO DE PRO EN ÇA-AN OVA III Natalinovas A Consoada na Vida e VOZ do Povo de Proença~a›NoVa Unicfpio 1 . Proenço-c-Nova Dezembro 2010
  2. 2. O NATAL FICHATÉCNICA Título O Natal na Voz do Povo de Proença-a-Nova III- Natalinovas A Consoada na vida e voz do Povo de Proença-a-Nova Coordenação João Crisóstomo Manso (Vereador do Pelouro da Educação) Autores Madala (Francisco José Simões Cabral); Sampedro (Maria Leonarda Tavares); Maria (Henrique Martins); Teimoso (José Emilio Ribeiro Sequeira); Zaratustra (José Ribeiro Farinha); Belgaia (José Ribeiro Farinha) Textos O Batuque (Madala); Natal de 1967 - Consoada em tempo de guerra (Sampedro); Mais uma noite. .. (Maria); Consoada de Amor (Teimoso); As receitas do Ze' Luís (Zaratustra); Cantilena de Natal- Consoada e Missa do Galo (Belgaia) Ilustradores Alfredo Cavalheiro, Francisco José Simões Cabral, Paulo Santiago, Silvia Mathys, José Ribeiro Farinha Colaboradores Catarina Alves, Carla Gaspar (Câmara Municipal de ProençararNova / Biblioteca Municipal de Proença-a-Nova); Prof. António Gil Martins Dias, Prof. Jorge Cardoso, Prof. Alfredo Bernardo Serra, Prof. Maria Helena Ferreira Nunes Edição Câmara Municipal de Proença-a-Nova la Edição, Dezembro 2010 Tiragem 500 Impressão Depósito Legal
  3. 3. .. J _v_ . . JP' . ..t. _,. . , _. x1. R É . s. . . u. . w : :rui J m s c _. . _ u. .mw s a . p¡ «In . .ÊÉIE. .. HJSvAÉFÍÍaÉÉ . , 1 En! . ..um . . _x . . ara , . . taljdÍ/ síd . . , _ . , _, . . . / /_ . . 7:_ _. , a, ... x . .. . r/ , 1 . u _ . .. . , . . . r. , .M. .. . . . . i r. . .., ._ . ,. . 7x/ .
  4. 4. O NATAL
  5. 5. NA VOZ DO POVO DE PROENÇA-A-NOVA III PREFACIO CONSOADA Consoada, o mesmo é dizer, ceia de família na noite de natal. A Consoada não é portanto uma qualquer ceia de família mas tão somente a refeição tomada em família à hora da ceia, na noite de natal, e antes da missa do galo. A Consoada e' um acto que faz parte do reportório das tradições da quadra festiva do Natal. Assim era nas famílias de Proençaa-Nova, e, felizmente, ainda hoje a ceia de natal e' motivo de união familiar na noite de natal. Porque é preciso preservar e fazer o registo de rituais como a Consoada, o desafio foi lançado para que os contadores e poetas recuperassem a memória e cantassem aConsoada. Na terceira edição do concurso, O Natal na Voz do Povo de Proençaa-Nova”, os autores recriaram vivências da meninice, recorreram a histórias de Vida e contaram noites de consoada passadas algures em viagem, na diáspora, na mesa de bacalhau e iguarias à farta e nas cozinhas frugais dos humildes casebres proencenses. Mas seja qual for o cenário, história contada e consoada versada, sempre daquela ceia de natal ressuma por principal condimento a saudade dos entes queridos, a (re)união da Família. Consoada de Amor! Alfredo Bernardo Serra
  6. 6. O NATAL
  7. 7. NA VOZ DO POVO DE PROENÇA-A-NOVA III CONTOS DE NATAL (INÉDITOS)
  8. 8. O NATAL
  9. 9. O BATUQUE “Senhores" Chefe tribal cido africano Aguardente . Terreno de cultivo hortas velhos '. ~'. °“-"7'*P“! *”! -' NA VOZ DO POVO DE PROENÇA-A-NOVA III O BATUQUE A savana africana calara~se, deixando apenas sobressair os sons que se erguiam, diferentes, naquela noite, do terreiro ladeado pelas palhotas da aldeia. Era noite de festa. Noite de Natal, festa do Deus dos "mesungosw brancos. Espevitavam~se as fogueiras que projectavam no ar fantasmagóricas línguas de fogo. Concluiam-se os últimos preparativos enquanto cada um procurava ocupar o seu lugar. O “réguloz” da região, convidado de honra, dá o sinal para que se inicie o banquete, enquanto “na casa grande" os iimesungos" brancos se preparavam para a Consoada. Em círculo, sentados em esteiras de palha, os homens aguardam ser servidos pelas mulheres que vestem para a ocasião as suas melhores “capulanas” e ostentam as suas mais vistosas braceletes de marfim e colares de “missangas". Os odores dos assados de carne de antilope, mandioca e batata-doce convidam ao apetite. Tudo será bem "regado" com a tão tradicional bebida, a iicabanga", e sobretudo com a apreciada “água de Lisboa” oferta generosa dos “mesungos” brancos, como forma de apreço pelos bons trabalhos prestados nas suas “sanzalasw e “machambasó”. As conversas sucedem-se num ritmo crescente, desde os "massocos", simples novidades, até ao recordar, pelos “cocuanas”, de tradições que serão perpetuadas pelos mais novos. Estes iimuanas", na sua avidez de aprender, aguardam ansiosos o momento alto da festa - o “batuque”, dedicado ao “poderoso” e generoso Deus “muana” dos "mesungos" para que também protegesse os deuses africanos e suas gentes. A vozearia cessa de repente. Eis que e' chegada a hora. As atenções voltam›se para o centro do terreiro onde já tomaram posições os dançarinos. Ao centro, aquele que personifica o feiticeiro da tribo, ergue os braços em que ostenta os bastões mágicos. A sua cabeça está coberta com uma cabaça e a máscara de palha, que lhe cobre o rosto, deixa passar os sons da iilengalenga" de agradecimento aos deuses pela protecção para todos os males. À sua volta, em perfeita formação, os guerreiros, armados de escudos de pele de antilope e azagaias, ll
  10. 10. O NATAL marcam compasso batendo com força e a uma só vez com os pés no chão. Dos ombros pendem-lhes peles de leopardo enquanto vistosas plumas lhes enfeitam o alto da cabeça e colares de pequenos ossos lhes rodeiam o pescoço, tudo à maneira das lendárias “impisfi” do reino do Monomotapa. Um dos guerreiros destaca-se do grupo e avança, sempre em passo de dança, para o “régulo”, lançando a seus pés o escudo de pele de antilope num gesto tradicional de submissão e respeito àquele que se diz descender ainda de Gongunhana. A noite, morna, enche-se dos sons do batucar dos tambores, marimbas e chocalhos, à medida que aumenta o frenesi da dança. E como que o pulsar do coração daquela savana tropical em noite de Consoada. o BATUQUE. Madala 12 8. Hostes
  11. 11. › NA VOZ DO POVO DE PROENCA-A-NOVA III 13 o 40 v'n. ' . n' ¡gt-ig!
  12. 12. O NATAL
  13. 13. CONSOADA EM TEMPO DE GUERRA NA VOZ DO POVO DE PROENÇA-A-NOVA III Natal de 1967 CONSOADA EM TEMPO DE GUERRA Na madrugada em que atravessei Lisboa, a caminho do cais, havia pedaços de Natal aqui e ali. As montras das lojas reluziam, iluminadas pelos faróis do carro. No Cais da Rocha do Conde de Óbidos, em Lisboa, uma multidão, em terra, gritava, acenava e chorava. Cumpridas as formalidades de embarque, entrei no navio Império. Na qualidade de oficial tive direito a ocupar um camarote partilhado com três camaradas. Não me recordo se chovia ou se estava frio. Lembro~me, porém, de um vago cheiro a castanhas assadas e de um sentimento de tristeza a entranhar-se no peito. Estava a viver um pesadelo. Invadiam~me os pensamentos mais sombrios. Desejava adormecer e só acordar no final da viagem. Tinha vinte e três anos. Nunca sentira antes a dor de deixar o meu país, a família e os amigos. Também seria a primeira vez sem o Natal aconchegante que sempre tivera. O navio aportou em terras de Moçambique quinze dias depois, a dezassete de Dezembro. Vivi breves momentos de desanuviamento ao encontrar~me com alguns conterrâneos. O bom marisco, a cerveja e a beleza da cidade foram, porém, um fugaz tranquilizante: dois dias após o desembarque, iniciávamos a viagem para norte, o caminho para o desconhecido, o caminho para a guerra. .. Uma dúvida pesada caía sobre nós. Ninguém dizia nada. Ninguém sabia nada. As viaturas militares, em coluna, prosseguiam envoltas em nuvens de pó e de calor. A nossa juventude ficava para trás. .. Tudo ia ficando para trás. No dia 23 de Dezembro, num final de tarde, chegámos ao destino inóspito e selvagem. Os roncos dos motores calaram-se e a poeira filtrava já os últimos raios de Sol e, à medida que assentava no solo, clareava a nossa visão e distinguiamos o que nos rodeava, uma clareira parcialmente bordejada de arvores de onde se avistava um aldeamento de cubatas. Não fora a cobertura com folhas de palmeira e assemelhar-se-iam às casas de brincar que os 15
  14. 14. O NATAL irmãos mais velhos, noutros tempos, nos construíam no pinhal, aproveitando os desperdícios da limpeza da mata. A residência do iicantineiro" local era a que apresentava um pouco mais de solidez. Anadia, o cozinheiro da companhia, olhou enfastiado e exclamou: - Se Nossa Senhora e S. José tivessem vindo para estas bandas, nem um estábulo teriam encontrado. - Por falar nisso, disse o comandante, vamos aproveitar a claridade que nos resta para improvisar abrigos, ate' edificarmos algo de mais definitivo. Os oficiais pernoitam nas instalações do iicantineiro". Que lugar terrível! Não havia luz eléctrica e a água ficava longe. Faltava quase tudo, mas o cansaço tão profundo venceu~nos nessa noite. Até teriamos dormido sobre espinhos. Com o clarear do dia seguinte, tomamos uma consciência mais real do desconforto e da estranheza da situação em que nos encontrávamos. Enquanto fumava um cigarro, engolia fumo e lágrimas e olhava o que não queria ver. E de novo o fim do dia. .. Era véspera de Natal. Os telemóveis e a Internet ainda não tinham sido inventados. Milhares de quilómetros separavam~me de Proença-a-Nova, a minha terra. Reconfortava-me pensar que algures existia um pedaço de chão a que pomposamente chamava meu. Aquela hora, já o tronco, em frente da Igreja, estaria aceso. Curiosamente, naquele momento, chegou-me o cheiro de lenha a arder. Era o Anadia, rodeado de alguns soldados, provavelmente, a tentar aquecer a água do cafe'. Puro engano. Nunca cheguei a saber qual teria sido a utilidade daquela fogueira, porque ainda não havia nada que se comesse para além dos liofilizados e das rações de combate. Talvez servisse para afugentar os mosquitos e outros insectos, que saciavam o seu apetite nos incautos recémchegados. Poucas conversas e nem uma palavra sobre o Natal. Parecia tratar-se de um tabu. Só fisicamente estava ali, envergando uma farda descuidada, a cheirar a suor e a pó. A mente recusava ausentar-se do bulicio da minha casa. Os tios, os primos e todos os que costumavam juntar-se a nós já deviam ter 16
  15. 15. CONSOADA EM TEMPO DE GUERRA NA VOZ DO POVO DE PROENÇA-A-NOVA III chegado. Sabia que não se cansariam de falar de mim, que tentariam situar-me, algures, em Moçambique, embrenhado na selva, saudoso e triste. Mas por mais prodigiosa que fosse a sua imaginação não conseguiriam visualizanme. Aquele lugar era impensável. No presépio grande da sala de entrada até o Menino Jesus sentiria a minha falta e a minha angústia. A minha mãe, essa, ajudada por outra pessoa, deveria estar a fritar as filhós. Outros cuidariam do prato principal: o bacalhau com as batatas e as couves. Até ouvia o crepitar da lenha de pinho. .. E os mais pequenos perguntavam, amiúde, se ainda faltava muito para as prendas. Os sapatinhos deles já estavam alinhados em redor da lareira. Fiz questão de me sentar à mesa: entre a minha irmã Leonor e o meu sobrinho Pedro. Soube mais tarde, quando recebi a cassete, que, depois do jantar, antes de saírem para a Missa do Galo, fora o momento em que todos tinham gravado aquela breve mensagem. Senti uma palmada nas costas. Era o Pires: «Junta-te à rapaziada. Está quase na hora de jantar. Não recordo o que comi. Um enlatado qualquer. Os que já tinham bebido umas cervejas, falavam alto, ensaiavam risos, mas a palavra Natal continuava a não ser pronunciada, apesar de saber, com toda a certeza, que os meus camaradas, oriundos de norte a sul do pais e também das ilhas, mastigavam a saudade e a tradição das suas consoadas. Interiorizei naquela noite que, no aconchego da familia, o sabor do azeite novo a perfumar as batatas, as couves e o bacalhau eram o melhor manjar do mundo numa Consoada de Natal. E as filhós de Proença~a-Nova pertenciam ao grupo das iguarias requintadas que saboreamos sempre com um prazer renovado. Nunca tinha pensado na importância dessas coisas simples. Inesperadamente, à mistura com sons nocturnos não identificados, ouvi um fungar tímido, quase imperceptivel. O Anadia escondia entre as mãos o rosto gorducho e redondo. Era o único que tinha deixado um filho, recém-nascido. Ninguém fazia menção de se deitar, pois 17
  16. 16. O NATAL ninguém esperaria que o Menino Jesus nos visitasse naquele sitio. .. A guerra morava ali, mas ainda não a conhecíamos. Apenas a luz do luar permitia distinguir os rostos dos que, reunidos na clareira, conversavam em pequenos grupos. O meu pensamento, porém, voava para outras praças: a Missa do Galo devia estar quase a terminar. O cepo, incandescente, iluminava o Largo da Igreja, à saida. Em casa, a lareira ainda arderia. A tia Maria, de noventa anos, continuaria a pé. A Consoada não terminara. Só depois da meia~noite se comia carne. No brasido do lume assavam-se lombinhos de porco e chouriças frescas. Sobre a mesa havia uma grande travessa de filhós, cavacas e figos secos da tia do Mação, nozes, uvas que tinham estado dependuradas na adega desde a vindima, melão conservado em areia e bolinhos de mel da minha mãe. E permaneci, assim, na solidão daquela noite, em que cada um de nós se recolhia no silêncio das suas recordações, e a coberto da escuridão que não me denunciaria, deixei rolar umas lágrimas envergonhadas. As vozes tinham começado a apagar-se. As pontas de cigarros, quais pirilampos, piscavam um pouco por todo o lado. Cheirava a tabaco e a terra molhada, ainda do que tinha chovido pela manhã. Sem uma palavra de despedida, sorrateiramente, esgueirei~me em direcção ao chão de terra batida de uma divisão da casa do “cantineiro", que me servia de cama e a três camaradas oficiais. As apalpadelas procurava, na desarrumação do meu saco, uma peça de vestuário que servisse de almofada quando, inesperadamente, encontrei as duas latas cilíndricas que me entregaram na minha visita de despedida a Proença-a-Nova. Uma centelha de contentamento atravessou o meu coração. Uma continha carne de porco assada e outra, enchidos, ambos conservados em azeite, hermeticamente fechadas por soldadura. Os presentes da minha prima Esmeralda para o irmão, que residia, há anos, na cidade da Beira. Desencontrámo-nos e as iguarias não chegaram ao destinatário. Abracei as latas, como se de um tesouro se tratasse e em passos cautelosos atravessei a escuridão: 18
  17. 17. CONSOADA EM TEMPO DE GUERRA NA VOZ DO POVO DE PROENCA-A-NOVA HI - Anadia, junta as brasas da fogueira, temos chouriças para assar! Uma exclamação de alegria ergueu-se na quietude da noite. Nos pratos de folhas de bananeira repartimos a carne, os pedaços de chouriça e os restos do pão que alguém tinha cosido num buraco escávado no barro. A Esmeralda, sem saber, serviu-nos a Consoada de Natal. .. O Pires, natural de Pedrógão Grande, disse com a voz entrecortáda de emoção: - Senti o cheiro e o sabor da minha terra! - Em jeito de oração acrescentou pouco depois: - Que o Menino Jesus abençoe a tua prima! -Amenl - Responderam os meus camaradas. Sampedro 19
  18. 18. O NATAL 20
  19. 19. O NATAL 22
  20. 20. MAIS UMA NOITE. .. NA VOZ DO POVO DE PROENÇA-A-NOVA III MAIS UMA NOITE. .. Na aldeia onde nasceu e cresceu já há muito que a massa para as filhós se encontrava pronta para a fritura. Os sonhos já boiavam à lareira, em cima dos trempos, no enorme tacho de azeite quente. Quando a massa se encontrava frita, por um lado, os sonhos, ganhando vida própria, voltavam~se sozinhos. A lenha de azinho ou oliveira cortada durante a tarde serve de combustão para aquecer todo o ambiente. Por vezes não chove, mas todos os anos o frio é bastante intenso principalmente no final de tarde, quando o sol começa a desaparecer e as nortadas transportam até a aldeia uma brisa enregeladora. Toda a aldeia está embebida de um inequivoco cheiro de iguarias regionais. Algumas são comuns em todos os lares e fazem a delícia de miúdos e graúdos, fazendo-os esquecer, por momentos, as dificuldades do dia-adia. Para o comum dos visitantes o perfume é indecifrável, contudo é tão semelhante como distinto. Também o jantar já se encontra pronto há algum tempo. Cozido ao lume, o tradicional bacalhau e as couves com batatas do quintal, cozidas, chamavam a si os estômagos vazios. Lamentamos informar que devido a falha eléctrica o comboio se encontra quinze minutos atrasadol. ..". As pessoas que se encontravam sentadas no abrigo suspiraram incomodadas, enquanto enroscavam as mãos bem no fundo dos bolsos do casaco e protegiam o queixo com o cachecol. O vento soprava agora com maior intensidade, empurrando a chuva, que se entranhava em todo o lado. Os guarda-chuvas eram impotentes. Nem a chuva nem o vento pareciam importar-se com a Consoada, até parecia que tinham esperado por esta noite para libertarem toda a tensão acumulada ao longo do ano. 23
  21. 21. O NATAL Mais uma vez, Maria procurou a melhor posição junto do abrigo para se defender da chuva e do vento frio, enquanto tentava controlar o pequeno guarda-chuva, que já dava mostras de não resistir por muito mais tempo. Também suspirou. Os quinze minutos de atraso anunciados passaram agora para vinte, e os suspiros sucediam-se cada vez mais profundos e em maior número, por todos os prisioneiros, alguns já de raiva, outros de lamentação e até os houve seguidos de algum praguejar. A estação encontrava~se praticamente deserta. Com o adiantado da hora, na noite de Natal, não se via vivalma pelas ruas, apenas alguns carros seguiam calmamente o seu caminho. A inquietude apoderava-se de quem esperava pelo comboio e de cinco em cinco minutos a voz insipida que ecoava pelo altifalante anunciava mais atrasos e Maria tirou a mão, trémula pelo frio, do bolso, juntamente com o pequeno telemóvel e, premindo um botão, viu as horas: eram já dez e meia da noite e ainda se encontrava longe de casa. Lembrou-se que teria de se levantar às seis e meia da manhã para iniciar o regresso ao trabalho e teve vontade de chorar. Reparou ainda que tinha uma chamada não atendida: era dos seus pais, tentaram Contacta-la havia duas horas. Ia retribuiu a chamada, mas, entretanto, chegou o comboio e o barulho ensurdecedor que o acompanhava levaram-na a desligar e a prometer a si mesma que ligaria mais tarde. Entrou na carruagem praticamente vazia e sentou-se junto à janela. A sua frente ia sentado um jovem casal que se acarinhava e se beijava como se o mundo não existisse, como se estivessem isolados, sem ninguém a quem prestar contas. Virou-se para a janela encostando a cabeça e fechou os olhos. Recordou a sua infância, como brincava com os seus amigos da aldeia. Em pequena, possuía aparências de rapaz: gostava de jogar à bola pelas ruas, de correr pelas hortas acabadas de serem 24
  22. 22. MAIS UMA NOITE. .. NA VOZ DO POVO DE PROENÇA-A-NOVA III ougadas, nos dias quentes de verão; de sentir a frescura da água a bater nas pernas e saltar pelo corpo todo; de subir às árvores à procura de ninhos; de andar de carrinhos de rolamentos pelas ruas; de jogar à apanhada, à noite, em que o poste de electricidade, que iluminava o recinto de jogo, era o único lugar a salvo. .. Até o seu cabelo tinha um corte masculino. Apelidavam-na de Maria Rapaz e não se importava. Era assim que gostava de ser. Nas tardes de Natal adorava ir com os amigos à lenha que iria aquecer os pés ao menino Jesus, mesmo à porta da Capela. Tiravam a carroça de varais da cabana, percorriam o bardo sem fazer barulho e saíam pelo portão sem que o avô se apercebesse. Percorriam distâncias loucas, pelas encostas acima e pelas encostas abaixo, em busca de cepas secas esquecidas nos terrenos vizinhos, nos pinhais ou no mato. Só os mais pequenos, à guarda dos irmãos mais velhos, é que iam em cima da carroça, todos os outros faziam- na rolar. Não havia nem burro nem macho nestas ocasiões. Uma vez carregada, era despejada em monte, junto à porta da Capela e ateada com a ajuda de carquejas e pinhas secas. Esta cerimónia era a mais esperada, a noite já avançava e o frio também já era muito, quando ateavam a fogueira que os aquecia a todos dos pés à cabeça, por dentro e por fora. Mas de um dia para o outro tudo mudou. A sua percepção do mundo alterou-se radicalmente e as brincadeiras que outrora eram indispensáveis agora eram insuportáveis. Maria deixara de ser Rapaz. Vivia agora na grande cidade, longe de casa, longe do aconchego materno e das vozes amigas das gentes da aldeia, longe dos amigos e das suas confissões, longe dos campos em flor e cheios de vida. Encontrava-se num mundo que para ela era cinzento e mudo, mas que foi o único que lhe abriu as portas, prometendo-lhe qualidade de vida, concretização dos seus sonhos e enriquecimento profissional e pessoal. Deixou cair em cima dos pés o guarda-chuva 25
  23. 23. O NATAL que tinha na mão, abriu os olhos sobressaltada e reparou que tinha chegado ao destino. Pegou nas suas coisas e saiu ainda meio zonza pelo sono. Continuava a chover. O vento era agora mais impiedoso. Ao tentar abrir o guarda-chuva sentiu-o quebrar e voar ao longo da linha, fugindo da sua dona. Desesperada, levantou a cabeça em direcção ao céu e sentiu a chuva fria a cair~lhe no rosto. Baixou o olhar, aconchegou o casaco junto ao pescoço e seguiu decidida em direcção a casa. Entrou em casa toda ensopada e a tremer de frio. Não sentiu o aconchego quentinho do lar pois a casa era bastante húmida, fria e vivia sozinha. Correu para a casa de banho, tirou as roupas completamente encharcadas e começou a tremer ainda mais. Ligou o ventilador no máximo e colocou-se à frente do ar quente que vinha do pequeno aparelho. Os seus lábios carnudos moviam- se sem que ela os estivesse a controlar e tentava aquecer o corpo com os braços cruzados, mas não estava a dar resultado. Ligou a torneira da água quente do duche e entrou na banheira. Encolhida, sentia a água quente a bater-lhe nas costas e na cabeça, como um punhal que lhe era cravado no corpo, até que começou a aquecer e a habituar-se. Ao fim de alguns minutos já se sentia melhor, mas as suas pernas não obedeciam à sua mente e deixou~se estar mais um pouco. Juntou a pouca coragem que lhe restava, fechou a torneira, envolveu-se na toalha e correu em direcção ao quarto. Rapidamente vestiu o pijama polar que concordou ter sido uma das maiores invenções até ao momento. Através das paredes conseguia ouvir as vozes dos vizinhos em festa: riam, riam e falavam alto e tornavam a rir mais um pouco. A festa estava animada. Baixou o olhar e lembrou-se de ligar para casa para falar com os pais. Pegou no telemóvel, que apenas se encontrava molhado por fora, e reparou que tinham tentado ligar de casa e retribuiu a chamada mais uma vez. O telefone tocou, tocou, 26
  24. 24. MAIS UMA NOITE. .. NA VOZ DO POVO DE PROENÇA-A-NOVA III tocou e nada nem ninguém atendia. Lembrou-se de ligar para o telemóvel do pai, que, desde que o comprara, passara a ser o seu melhor amigo, mas nada. Em casa não havia rede. Contudo, em casa, a algazarra era total. Os sobrinhos, que há bem pouco tempo tinham aprendido a falar, moviam~se freneticamente pela casa e o sossego era palavra desconhecida. Já tinha sido o substantivo mais identificativo deste lar, mas agora estava repleto de vida, de vida irrequieta, numa luta titânica contra o inimigo Morfeu, que os chamava para brincar, mas ninguém queria brincar, pois o objectivo de Vida destes seres era a abertura dos presentes. O barulho impedia que alguém a ouvisse. Tentou mais uma vez o telefone e nada. Sentiu-se só. Estava cansada, triste e só na noite de natal. No dia seguinte, antes do sol se levantar, tinha ela de se levantar para ir trabalhar. Sentia-se tão vazia que uma pequena lágrima surgiu da fonte dos seus olhos azuis e j orrou pela bochecha macia. A seguir, outra e outra. Deitou-se na cama, tapou~se e escondeu-se debaixo das mantas, como que para evitar que os seres ausentes a vissem a descarregar toda a água armazenada no saco lacrimal. Por entre este estado de abatimento e submissão, ouviu o telemóvel vibrar em cima da mesa-de-cabeceira. Um SMS tinha acabado de entrar na sua caixa de mensagens. Recompôs-se um pouco, lutando contra parte do seu corpo que se sentia vencido e pegou no telemóvel. Limpou a cara com as mangas da camisola do pijama e abriu a mensagem. De repente, os seus olhos começaram a brilhar, o seu rosto rejuvenesceu-se e esboçou um sorriso confidente. Apenas cinco pequenas letras foram suficientes para a transfigurar: "Amo-te”. Retribuiu a mensagem ao remetente e deitou-se, agora em paz e sossego. Lá fora as estrelas brilhavam ainda, mas agora com maior intensidade! Maria 27
  25. 25. O NATAL 28
  26. 26. CONSOADA DE AMOR. .. NA VOZ DO POVO DE PROENÇA-A-NOVA III CONSOADA DE AMOR. .. António chegou ao alto, parou o carro e escondeu~o fora da estrada, num caminho que lhe pareceu não ser usado. Era para além disso um sítio de onde se avistava toda a aldeia. Aqui começaria a parte mais dificil do seu plano. A aldeia crescerá imenso, nada fazia lembrar aquele pequeno povoado que deixara há quase cinquenta anos. As memórias não eram muitas, tinha partido com apenas dezasseis anos. Verificava, agora, que tinha havido uma grande evolução no povoado: luz, ruas largas. .. até conseguia ver umas rotundas corn um ar bem moderno! Olhou a Igreja completamente nova: nada que se comparasse com a pequena capela do seu tempo. Também o local não lhe pareceu ser o mesmo, pois a outra ficava no cimo de uma ligeira encosta, para os lados do cemitério. Não teve grande dificuldade em localizar o cemitério; os ciprestes da entrada ainda seriam os mesmos, só que estavam agora muito maiores, o próprio cemitério seria mesmo bastante mais do dobro do tamanho do primitivo espaço. Recordou os seus pais, que nesta altura já deviam ter morrido, sentiu mesmo um forte remorso por nunca ter dado sinal de vida desde que partira. O que teriam pensado? Talvez mesmo que tivesse morrido. A culpa era apenas sua e já não havia remédio, o mal estava feito, havia que seguir em frente. Notou então que a pequena capela ainda continuava no mesmo local. Olhou o pequeno adro, onde brincara algumas vezes, poucas, porque as horas de ócio eram raras, havia sempre algo a fazer e nessa altura a idade não era impeditiva para o trabalho. Não foi por falta de trabalho que partirá, mas sim em busca de uma vida melhor. Fora um pouco às cegas, ouvira falar que na América tudo produzia riqueza. Nem a oposição férrea dos pais o tinham feito mudar de ideias, estava decidido e tinha que ir. Rumou até à Venezuela, onde trabalhou numa quinta como guardador de gado; era uma manada enorme de vacas, dezenas e dezenas de cabeças, trabalho árduo e de poucos ganhos, por isso não descansou enquanto não arranjou coisa melhor. Mesmo não 29
  27. 27. O NATAL sabendo de mecânica, lá foi trabalhar para uma oficina de automóveis. Foi aprendendo à sua custa que se tornou um razoável mecânico e isso acabou por ser fundamental para dar o salto para os poços de petróleo, onde, ai sim, tinha já um bom ordenado. Foi aqui que conseguiu juntar os primeiros dinheiros numa conta bancária (na verdade, trabalhando numa plataforma petrolífera não havia onde gastar o dinheiro), e aproveitava todos os momentos para o trabalho. Em horas extraordinárias conseguia, por vezes, mais que o ordenado. Por ali ficou mais de vinte anos, vinte anos que fizeram engordar e muito a sua conta bancária. Como era só, com aquela vida nem pensar em casar, aquilo não era lugar para mulheres, era vida dura e bem dura, mesmo para homens, tinham de ser fortes, ou não aguentavam aquela vida árdua. Por fim, resolveu deixar aquela vida, estava cansado, saíra de casa ia para trinta anos, dinheiro tinha mais do que suficiente para viver uma vida descansada, logo veria o que fazer, pois sentia-se novo para se reformar e velho para procurar um novo emprego. Para já iria descansar, depois logo se veria o que lhe reservava o futuro. Caracas era o seu destino, pois fora dali que partirá para trabalhar no petróleo. Hospedou~se numa residencial calma, nos arredores da cidade. Um dia resolveu ir visitar a oficina onde trabalhará como mecânico, se é que ainda existia depois de tantos anos. Foi com surpresa que viu que as instalações eram agora muito maiores e modernas, tendo mesmo uma grande faixa que dizia: "Hernandez- Transportes". Hernandez? Era assim que se chamava o seu antigo patrão. Seria o mesmo? Resolveu entrar. Estava a admirar toda aquela grandeza quando pelos altifalantes ouviu: “Senhor António Fernandes, é favor dirigir›se ao gabinete da gerênciaV'. A princípio nem reparou que era consigo, só à segunda vez isso aconteceu. Ao ver o seu antigo patrão abraçaram~se e começou um longo desfiár de vidas: cada um contou o que tinha feito nos últimos quinze anos, como tinham subido na vida, os trabalhos que tinham passado para vencer. Os dias foram passando, os encontros eram 30
  28. 28. CONSOADA DE AMOR. .. NA VOZ DO POVO DE PROENÇA-A-NOVA III diários, até que o António acabou por entrar como sócio para a firma de transportes. O negócio continuou a prosperar a olhos vistos e cada um deles ia acumulando mais riqueza. Assim continuaram ao longo dos anos, até que apareceu um comprador para a firma, que ofereceu uma quantia irrecusável. Os dois sócios pensaram, pensaram. .. e, de comum acordo, resolveram vender. Dava uma boa maquia para cada um; na verdade o António andava temeroso com a insegurança que se vivia no pais e, estava deserto para se ver livre daquela situação. Consumado o negócio e dado que não tinha familia ali, começou a pensar na hipótese de voltar ao seu país. A familia, os três irmãos que por lá deixara, certamente lhe perdoariam o ter abandonado a casa em busca de urna vida melhor, para além disso possuía uma boa fortuna que por aqui não tinha a quem deixar. Resolveu voltar. Iria aparecer de surpresa, mas, à cautela, nada diria da sua fortuna, queria ver como o acolhiam os irmãos, depois logo veria o que fazer. Apressou o regresso, pois o Natal aproximava-se e queria passa-lo junto dos seus. Não foi fácil tratar de tudo: passaporte, transferências de dinheiros. .. o tempo começou a ficar curto, só mesmo em cima do Natal conseguiu embarcar. Durante a viagem arquitectou um plano para se apresentar aos familiares. Como estariam os seus irmãos? O Manuel, a Antonieta e o Joaquim? Eram todos mais novos que ele, a Antonieta nascera pouco antes de ele partir. Agora ali estava, olhando a aldeia que o vira nascer, não o vira crescer, nem ele a ela, mas era tempo de pôr o plano em marcha. Tirou da mala do carro todos os preparos, começou a caracterização. Olhou-se no espelho e não se reconheceu; estava totalmente diferente, era um autêntico farrapo humano, um pedinte. Com um saco às costas foi descendo em direcção ao povoado. Todos o olhavam com desdém; na verdade nunca tinham visto antes aquela pobre criatura por ali. Ia andando, passou uma senhora que lhe deu uma esmola para comer algo; era por intenção do seu falecido marido. Pelos miúdos conseguiu saber onde moravam os seus irmãos Joaquim e Antonieta. O Manuel, veio a saber, falecera ainda solteiro, com a pneumónica. O 31
  29. 29. O NATAL Joaquim era rico, tornara-se construtor civil, morava numa bela vivenda no cimo da vila, a melhor casa da aldeia, embora dissessem que agora a vida não lhe estava a correr lá muito bem, e que por isso trazia à venda a vivenda; a Antonieta não tivera sorte, fora mãe solteira já no tarde, todos a abandonaram, até o irmão; vivia numa velha casa com dois filhos solteiros, casa essa que ficava isolada do povoado, não tinha água nem luz. Era véspera de Natal. António, disfarçado de velho, dirigiu-se a casa do irmão; tocou a campainha, apareceu um rapaz ainda novo que, ao ver o seu aspecto, logo lhe disse: "fora daqui, não queremos aqui pedintes, se eu chamar o meu pai, ele solta-lhe os cães e você vai ver”! O pai do rapaz apareceu mesmo ali e não se conteve, logo começou a insultar o pobre velho e a ameaçá~lo com os cães. O velho partiu. Dirigiu-se, então, para a casa da Antonieta, mas não chegou a bater. Um rapaz aproximou- se dele e com carinho disse-lhe: “Pobre homem deve estar com fome, venha cá, temos pouco, mas o pouco bem dividido dá para todos, a minha mãe dá-lhe de comer”. Entrou. A mulher, ao ver o homem, logo disse: "Ai, coitado, está faminto, mas tem sorte, hoje é rancho melhorado, é a Consoada de Natal, couves com bacalhau: coma à sua vontade, se não sobrar para nós não faz mal, já comemos ao almoço. Coma que depois terá aqui uma cama para dormir e descansar". O velho, ao ouvir isto, arrancou a barba, tirou a cabeleira, olhou a irmã e disse-lhe: “Antonieta, sou o teu irmão António, que saiu de casa, faz muitos anos, foi para a Venezuela e ganhou muito dinheiro. Não quero comer as tuas couves, acabas de me servir o melhor prato da Consoada, uma travessa cheia de amor". Abraçaram-se. Era Natal! Conversaram sobre as suas vidas, os sacrifícios que passaram, as agruras que sentiram. .. os sobrinhos iam ouvindo tudo em silêncio e sorriram ao ouvir o tio dizer que no outro dia iria comprar a casa do irmão Joaquim e para ali se mudariam logo que possível, eles seriam os futuros herdeiros da sua fortuna. Já o sol raiava quando todos se foram deitar. .. Teimoso 32
  30. 30. NA VOZ DO POVO DE PROENÇA-A-NOVA III 33
  31. 31. O NATAL
  32. 32. AS RECEITAS DO ZE LUIS NA VOZ DO POVO DE PROENÇA-A-NOVA III As RECEITAS DO zE LUÍS Nos arquivos da mente, as ressonâncias do passado revelam~se ao viajarmos pelas lembranças marcantes dos dias que deixamos para trás. Revivemos o que fomos e o que fizemos, ainda que, muitas vezes, o real e o imaginário se confundam no turbilhão das vivências que tivemos. Pelos trilhos da memória encontramos as marcas de encantamento e magia da meninice distante. E assim que, neste espaço, evocaremos a Festa de Natal de uma família do nosso Concelho, nos finais da década de 50. Uma forma também de homenagear as gerações que nos precederam, a quem devemos muito do que somos. Não tinham então os meios de que hoje dispomos para nos facilitar a vida, mas venceram dificuldades e carências e criaram proles numerosas a quem apontaram o futuro. A história apresenta Zé Luís, o mais velho dos cinco filhos do casal aqui lembrado, de uma aldeia dos arredores de Sobreira Formosa, o único a tentar a sorte fora da terra que o viu nascer. Nos distantes anos da sua chegada à cidade, as ocasiões para visitar a família na aldeia eram poucas. Pelo Natal, porém, o chamamento das raízes levava~o a correr de encontro aos afectos e ao aconchego do lar, onde o esperavam os eternos odores dos rituais da Consoada e dos manj ares da casa~mãe. Poucas vezes ia pela Páscoa e faltava a casamentos da família por causa da viagem. Mas o Natal é sempre tempo de reencontro, a lembrar outros Natais, outras gentes. Com os tostões contados, os gastos tinham de ser bem controlados, que o emprego era fraco e as despesas com o quarto, a alimentação e os livros exigiam forte contenção. Outros tempos, outras formas de vida: basta lembrar as cánseiras e o tempo que se perdia para chegar à aldeia, por más estradas a serpenteár montes e vales, com muitas paragens no percurso. Autêntica aventura de sete ou oito horas que, mesmo assim, valia o esforço. Com 18 anos, desenraizado mas com vontade, Zé Luís ia moldando o seu provincianismo ao agitado pulsar da capital, bem longe da pacatez da aldeia. Em casa de D. Aida, nas Avenidas Novas, alugou um quarto onde, com a nova família, ia aguentando as saudades, contando os dias para uma próxima ida à terra. Trábalhava de dia e à 35
  33. 33. O NATAL noite estudava, sem ter ideias claras sobre a sua vocação em relação ao futuro, sabendo que os estudos seriam uma mais~valia, oportunidade para melhor emprego. A comovente simpatia facilitava~lhe o convívio com os outros, tanto na escola como no seio dá família com quem morava, que lhe franqueava a sala para estudar, ouvir rádio e ler os livros da estante. A nostalgia povoava» lhe as noites com os ecos da Beira carregados de cheiros e sabores a colarem~se à memória, mas os efeitos da separação eram amaciados pelas cartas e mimos que iam chegando pelo correio. No início foi duro, várias vezes se viu à beira do desânimo total, em apuros, que quase o levaram a largar tudo e a regressar à aldeia. No corre, cai, levanta, segue, o sonho ia mas tornava para tudo recomeçar. Contava com o apoio da família de D. Aida e a ajuda de colegas e professores, com os seus conselhos. Não vale a pena referir aqui as discriminações, as portas que se lhe fechavam na cara, o martelar de intrigas por parte de gente despeitada, as humilhações por que, como tantos outros, teve de passar. Para Combater o desânimo, Zé Luís criava defesas contra os tropeções do dia-adia e escapes vários para aliviar tensões, na solidão do seu quarto. Abria~se aos amigos, alargava o leque dos que, amiúde, lhe abriam as portas para estudarem juntos. Com a força anímica da família no pensamento, parecia-lhe até menor a distância que os separava, mais curto o tempo para o próximo encontro, tendo como referência maior o Natal e a Consoada com a família. Interessado e curioso, pronto á aprender sempre mais, Zé Luís atravessava com cuidado o tempo e o espaço, evitando dar "o passo maior que a perna, " sem desperdiçar oportunidades que pudessem contribuir para o seu crescimento e atenuar um pouco a dureza da aprendizagem sem fim a que a vida o obrigava. Em casa de D. Aida recreavá~se e aprendia a ouvir rádio. Foi lá que descobriu a sua paixão pela música, âncora segura para o seu equilíbrio emocional: ligeira, regional ou folclórica, de salão ou jazz, baladas, etc. , desde que boa. O aparelho estava, regra geral, sintonizado nos postos que transmitiam música popular e folhetins de teatro radiofónico, que D. Aida não perdia. Naquela época a rádio era, como viria a ser mais tarde a televisão, 36
  34. 34. AS RECEITAS DO ZE LUIS NA VOZ DO POVO DE PROENÇA-A-NOVA III “a caixa que mudava o mundo. ” Rodava-se um botão e ficava-se hipnotizado com os sons e as vozes que, por magia, nos prendiam à caixinha! Hoje, com o domínio do visual sobre o auditivo, São as imagens da T. V. que se impõem, as telenovelas levam a melhor sobre os programas radiofónicos. É o progresso com o imparável avanço tecnológico. Adiante! ... Talvez um pouco fora do contexto da história que pretendemos contar, referimos aqui aspectos do seu interesse pelas coisas da cultura, em especial da arte dos sons. Na busca de sintonia, Zé Luís fixava-se num posto que dava outro género de música: sonoridades estranhas, diferentes, mas agradáveis ao seu ouvido, muito distintas da “maria~vai~com~as-outras” de outras estações. A total ignorância em relação àquela música não o impedia de continuar a ouvi-la, quase a medo, porque as filhas de D. Aida se riam, estranhando que ele pudesse apreciar música de que não entendia pataviná. Certo é que aqueles sons melancólicos, “tristemente belos” »que mais tarde se esforçaria por entender melhor «tocavam fundo no seu espírito nostálgico e solitário, confortávam-lhe a alma, davam-lhe forças para continuar a ter esperança. Sincero nas suas escolhas, não era por pedantismo ou vaidade que ia aos concertos ou ouvia a rádio clássica, mas por que adorava a música que, muitas vezes, o comovia até às lágrimas. Importante na sua vida, não mais deixou de ter a música por companhia. Quase por acaso a descobriu, muitas vezes lhe serviu como veiculo de introspecção e reflexão, nos difíceis caminhos da vida. Por isso umas dicas mais, muito pela rama, sobre o assunto, antes de recuar aos anos da chegada de Zé Luís a casa de D. Aida e à Consoada na aldeia natal. Ao contrário do que em geral sucede, o jovem só procurou dados biográficos dos autores, depois de escutar com emoção as suas belas composições. Nomes como os de Beethoven, Bach, Mozart, Schubert, Schumann, e tantos outros, bem como suas obras, suas vidas, e nacionalidades, eram~lhe totalmente desconhecidos, antes. Depois, esforçou~se por saber mais sobre autores e obras da dita “música erudita, ” para poder distinguir géneros -sinfónica, de câmara, de bailado, ópera, etc. , -e usufruir cada peça com algum conhecimento e proveito. Com os colegas conseguia ingressos gratuitos nos 37
  35. 35. O NATAL concertos da Estufa~Fria, do Pavilhão dos Desportos e nas récitas populares de ópera no Coliseu e, assim, se tornou um melómano compulsivo. Anos mais tarde, viria até a organizar, com algum êxito, sessões de música gravada e comentada. Mas isso, sendo interessante, "são contas de outro rosário". Tornemos ao Natal e à consoada na aldeia do Ze' Luís, de que nos iremos ocupar. AproXimava-se a partida e o jovem não pensava já noutra coisa que não fosse o reencontro com a família e amigos. Falava dos costumes, das pessoas da aldeia, das romarias anuais, etc. , contava histórias a D. Aida, que já conhecia os familiares do hóspede de tanto ouvir falar deles, com o entusiasmo e a alegria de quem desejava abraça-los. Veio à baila a gastronomia, a vida simples dos habitantes da terra em grande medida dependentes do trabalho do campo e dos produtos que a terra dava. Interessada, D. Aida questionava~o sobre os pratos e os doces típicos da região, que Ze' Luís descrevia com conhecimento de causa: os maranhos, o bucho, as sopas escaldadas, o cabrito no forno, etc. As filhós, as broas de mel, a tigelada, os sonhos, as rabanadas, etc. etc. Também nomeou o bacalhau com couves e batatas, bem regado com o azeite da região, que entrava na Consoada dos mais remediados. Contudo, nos dias festivos como o Natal, mesmo os mais carenciados tinham uma ceia diferente: se não tinham bacalhau, recorriam às aves da capoeira ou à salgadeira, - recurso importante na economia doméstica da aldeia - onde havia sempre alguma carne da matança do porco, toucinho e enchidos, por exemplo. D. Aida interessou-se pelas filhós da mãe, cuja confecção ele descrevera com algum colorido. Feliz pela cumplicidade que se criara mas receando falhar algum pormenor, Zé Luís prometeu trazer-lhe a receita quando regressasse. A mãe ficaria honrada com o seu pedido. Antes da partida, juntou pequenas lembranças para os seus e abalou feliz. Tudo correu bem, família e amigos festejaram a sua chegada com as tiradas do costume: “estás muito bonito, " dizia a mãe; "estás diferente; ”diziam alguns vizinhos; “estás feito um homem, ” dissera›lhe o pai; “agora és um senhor" diziam, com algum despeito, certos jovens da sua idade. Era 38
  36. 36. AS RECEITAS DO ZE LUIS NA VOZ DO POVO DE PROENÇA-A-NOVA III assim: apareciam na aldeia os forasteiros bem-falantes, bem vestidos, a fumar aromáticos cigarros de luxo e deixavam, na cabeça de muitos, os sentimentos à solta, com sementes a germinar na alma dos que sonhavam com a sua terra prometida e, a todo o custo, desejavam zarpar dali. Naqueles dias, cerca de uma semana, visitou tios, primos e amigos nas aldeias vizinhas, carregou energias, reforçou a auto-estima. Assistiu à missa do Galo, mais por hábito que por devoção e participou, com a malta, nos ruidosos festejos em redor da fogueira do adro da igreja matriz. Voltaria a Lisboa mais confiante mas com pena do que deixava para trás. Da consoada simples, plena de paz e de partilha na união da família, daria Zé Luis conta a D. Aida, à chegada. Cumprindo o que havia prometido, trazia receitas que a mãe enviara e, surpresa de todos, mostrava uma dúzia de deliciosas filhós que a mãe mandara para provarem, uma dúzia de broas de mel com a receita e um frasco de mel da região. O gesto conquistou o coração dos donos da casa. As filhas, adolescentes, mostraram~se interessadas em visitar a terra do Zé Luis e ate' o Sr. Lopes, sempre tão reservado, se abriu num sorriso franco e apoiou a esposa na sua vontade de tentar fazer filhós em sua casa com a ajuda do hóspede, a quem logo se dirigiu: -°°Fica combinado, só tens de dizer-nos o que devemos comprar, contamos contigo. Faremos uma pequena festa à moda da tua terra, podemos escolher já o dia. " Lamentaram-se as filhas pelo facto de muita gente ir para a terra e eles, sendo de Lisboa, não tinham terra para passar o Natal ou fazer férias. Marcada a festa para o dia de Reis, onde o bolo- rei seria destronado pelas rainhas filhós, Ze' Luís continuou o seu relato sobre a estadia na aldeia. Acarinhado, sentia-se o centro das atenções, convicto de que a sua terra deixava de ser uma qualquer aldeia perdida no Interior para ser um espaço muito apreciado. E empurrado pelo entusiasmo deixou-se levar, falou dos passeios com a malta nova, das visitas a várias aldeias de Proença e da Sobreira e da preparação da ceia da consoada que, na verdade, fora uma bela Festa da família. Depois, como se recuasse às vésperas de Natal e olhasse as imagens de um filme prosseguiu, quase distraido, sob o 39
  37. 37. O NATAL olhar atento da familia Lopes: -“Como mais velho, tive participação activa, com a mãe, na confecção das filhós, na sala comum. A um canto, na lareira ~ importante elo de ligação entre todos - o fogo desenhava formas a vermelho laranja e negro que, ondulantes, lambiam as paredes e temperavam o ambiente naquela noite fria. A casa não sendo grande e sem o conforto das casas da cidade, era funcional e acolhedora. ” Com afã, Ze' Luís continuou: ~“A preparação da massa das filhós de Natal é um ritual quase sagrado. Todos querem ajudar mas os mais novos só atrapalham e, por isso, a mãe os manda brincar fora dali. Numa masseira do pão coloca- se a farinha, o açúcar, algum sal, os ovos previamente batidos, raspa da casca de uma laranja e algum sumo, um copo de azeite quente, um cálice de aguardente, fermento do padeiro, o “ crescente' (massa de pão levedado) e um pouco de bicarbonato de sódio. Depois de tudo bem amassado e batido, a massa tapa-se com um lençol branco e fica a levedar duas ou três horas, bem agasalhada com uma manta de lã para fintar e crescer. " ›“Dava gosto Ver a mãe a preparar tudo na cozinha. Mãos no ar a prolongar os gestos, parecia desenhar figuras de prestidigitação, nomeava os ingredientes que juntava e os temperos que utilizava, em que privilegiava os produtos da lavra. E a malta em redor, hipnotizada, esperava que o resultado final não demorasse para poder saboreá-lo! Agora as filhós: com a massa bem no ponto e o azeite (ou óleo) a ferver na “caldeira, ' pendurada na corrente de ferro sobre a lareira, tudo estava pronto para começar a fritura. " A família Lopes ouvia sem pestanejar: -“A mãe, com um auxiliar, (que no caso era eu) sentara-se junto da lareira e ia cortando os pedaços de massa que estendia, formatando as filhós sobre o joelho e colocava~as na fritadeira. Ao ajudante, munido de um enorme garfo, cabia a tarefa de virá-las e tirar as que já estivessem fritas, para um cesto forrado a papel absorvente ou para o tampo de uma mesa, também forrado, para enxugarem. Mal esfriavam começava o ataque, com um coro de elogios à mãe, a confirmar que eram óptimas. Uma alegria, uma fartura, aqueles dias. " De repente o jovem, como se acordasse de um sonho, apercebeu~se do devaneio em que caira e pediu 40
  38. 38. As RECEITAS DO ZE LUIS NA VOZ DO POVO DE PROENÇA-A-NOVA III desculpa, meio envergonhado. Afinal não havia razão para tal, a avaliar pela reacção de D. Aida: '5 É sempre bom que não se perca o sentido do que é profundo e verdadeiro, sabermos valorizar o que é nosso, aquilo em que acreditamos. Zé Luís, sabes que gostamos de ti como se fosses da família, não fiques assim constrangido. " Algumas palavras sobre a ceia do dia de Reis em casa da família Lopes, pretexto para o hóspede mostrar a sua arte de confeccionar filhós, com receita da mãe, que tão elogiadas tinham sido: concretizara›se com sucesso, apesar das condicionantes, a festa beirã na casa de D. Aida. Convidados alguns familiares seus, esperavam com curiosidade o que seria o moço capaz de preparar, já que tinha toda a liberdade de acção, dada pelos anfitriões. Para sobremesa, além das filhós, fez uma bela tigelada que, como se sabe, e' uma espécie de pudim feito à base de farinha, ovos, leite e açúcar. Esta ficou muito boa, porosa e leve. Servida gelada, a tigelada do Zé Luís foi um êxito. D. Aida também colaborou com o seu arroz~doce especial. Para prato principal pensou nos maranhos mas, por questões logísticas, deixou a ideia para outra ocasião, talvez a Páscoa. Em pouco tempo não seria fácil arranjar, em Lisboa, os buchos para os saquinhos além de que, a preparação das carnes e' sempre demorada. Lembramos que são confeccionados com "carne de cabrito, presunto ou bacon, chouriço, tudo cortado miudinho, a que se junta alho, vinho branco, arroz e um pouco de água, ficando a marinar para o dia seguinte. Antes de se colocar o preparado nos saquinhos feitos de buchos de cabra, já cosidos com linha banca e com uma abertura, ainda se junta salsa picada e hortelã. Cheios os sacos, fecham-se e ficam prontos a cozer e a servir com hortaliça, salada ou o que se quiser. " Descartada a hipótese dos maranhos, optou pelo cabrito no forno e por um simples bacalhau assado com "batatas a murro' a pensar na garrafa de azeite da terra que a mãe mandara, para o regar muito bem. Como previra, haveria limitações, tanto em relação às filhós como aos restantes pratos: no lugar da masseira, um alguidar de folha de zinco; em vez do lume ao vivo da lareira, o fogão com gás de botija; o forno a lenha para os assados de carne, dava lugar ao pequeno forno do fogão. .. 41
  39. 39. O NATAL Mesmo assim, tudo correu pelo melhor, o cozinheiro foi aprovado com distinção e a sua fama transpôs os limites da família Lopes. Foi assim que, numa festa beirã nas Avenidas Novas, com receitas da mãe do Ze' Luis, nasceu uma grande atracção pelos valores do nosso Concelho, por parte dos seus amigos e da família Lopes, que os divulgava sempre que podia. Sobretudo depois de, alguns deles, terem visitado a nossa região a convite da família do protagonista, na época de Natal e no tempo das belas cerejas que enfeitam Proença, Montes da Senhora, Sobreira Formosa »todas as terras do Concelho. Na época da floração, as nossas Cerejeiras não ficam nada atrás das famosas amendoeiras floridas de outros locais do País. Termino com duas palavras sobre os anos de Ze' Luís em casa de D. Aida. Viveu ali dias muito bonitos durante mais de três anos, que o faziam esquecer a ausência da própria familia. Pena foi que esses belos anos tivessem terminado, com muita pena sua e dos donos da casa, mais cedo do que desejava. A tropa foi o pretexto mas, sem entrar em detalhes, a precipitação deveu-se ao facto de as meninas da casa terem crescido depressa de mais. Sem se dar por isso, a mais velha enamorou-se seriamente pelo amigo que, em nada, contribuira para isso. Ninguém estava preparado e, para evitar males maiores - nem sequer havia reciprocidade na situação criada - a melhor solução seria a da saída discreta do hóspede sem zangas e, se possível, sem perder o que de bom ele guardava da sua segunda familia. Da parte da menina as coisas seriam bem mais complicadas, Zé Luís teria de se precatar contra as mais que certas perseguições, no futuro. Uma complicada história, interessante mas para outra oportunidade. Conto inédito, escrito de acordo com a antiga ortografia Zaratustra 42
  40. 40. › w 'v m» ~ . a : I »a Will. . P « »ih I ¡I-I! - k v: ' "é n. L lãàêíàñílbut. : ' a. ' ç W ' ~ ~. , .Hmh ' Jp¡ B: . ___. __~ L › 'm' .
  41. 41. O NATAL 44
  42. 42. NA VOZ DO POVO DE PROENÇA-A-NOVA III POEMAS DE NATAL (INÉDITOS)
  43. 43. O NATAL
  44. 44. NA VOZ DO POVO DE PROENÇA-ANOVA III Cantilena de Natal CONSOADA E MISSA DO GALO Começa bem cedo a azáfama Que o Natal vem a caminho É véspera do santo dia Que celebra o Redentor. .. Em louvor do Deus Menino Cantemos com alegria Num clima de paz e amor! Nos lares já se inicia A preparação da ceia, Da consoada em familia. Que bom ver a casa cheia! Em louvor do Deus Menino Cantemos com alegria Vamos acordar a aldeia! A mesa está já posta CONSOADA E Sobre a toalha de linho MISSA DO GALO De belos pratos composta: Filhós, bom pão e bom vinho E as iguarias da quadra Mais os bons frutos da lavra. .. Cantemos ao Deus Menino! Os madeiros na lareira Lançam fagulhas no ar São por artes de magia Pirilampos a dançar E a beijar o teto e as telhas. .. Cantemos ao Deus Menino As nossas canções mais belas! Oiçam! já tocam os sinos: Chamam à missa do Galo! Muita gente vai chegando Junto à fogueira do adro, Que a noite está muito fria. .. Para o Menino Jesus Cantemos com alegria! 47
  45. 45. O NATAL Na paz da noite sagrada Os fiéis lá vão entrando Na igreja iluminada Esperando a sua vez Para a santa imagem beijar. .. Em honra do Redentor Vamos de novo cantar! Belgaia 48
  46. 46. NA VOZ DO POVO DE PROENÇA-A-NOVA III L bwmmur! .v. . , suit . , . dnuflhtl. VI. R&À. T'T%. .DÃ&I§ . , .
  47. 47. O NATAL 50

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