A reconciliação

131 visualizações

Publicada em

Capítulo do livro "O Amor Fundamental".

Publicada em: Espiritual
0 comentários
0 gostaram
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

  • Seja a primeira pessoa a gostar disto

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
131
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
1
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
0
Comentários
0
Gostaram
0
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

A reconciliação

  1. 1. A reconciliação Quando o meu corpo descansou e a minha mente voltou a trabalhar eu senti subitamente uma grande esperança. Eu estava completamente inundada por uma enorme alegria, porque estava viva. Senti que o calor do amor de Deus aquecia o meu corpo e me renovava. Vi a maravilhosa luz do dia. A sombra havia me deixado e Deus tinha tido piedade e compaixão por mim, mesmo tendo eu O abandonado. Deus me provou o quanto Ele era realmente generoso, me perdoou e me acolheu em Seus braços, mesmo tendo eu Lhe virado as costas. Agiu como um verdadeiro Pai que entende os momentos de fraqueza de um filho e que lhe estende a mão, mesmo quando o filho o rejeita ou o decepciona. Um Pai que ama incondicionalmente e que não pede absolutamente nada em troca. Tive a certeza plena de que era amada por Deus e como eu precisava disso! A partir daí, deu-se início a minha reconciliação com o Pai e a renovação da nossa aliança. A principal palavra na qual eu pensava era aceitação. Descobri que era disso que eu precisava. Comecei a relembrar a história de Santa Rita de Cássia que, em oração, admirava a imagem de Cristo na Cruz, quando um espinho da coroa do Cristo se desprendeu da imagem e fincou na sua testa, deixando-a com uma ferida aberta, de mau odor e purulenta. Aquilo aconteceu com Santa Rita, pois ela se ressentia e tomou para si as dores que Jesus sentiu ao morrer na cruz para nos salvar. Santa Rita aceitou aquela ferida como forma de buscar a sua redenção. A história de Santa Rita me comovia porque desde menina eu me incomodava e não compreendia o flagelo de Cristo, não entendia como e por que seu próprio Pai lhe atribuiu ou permitiu que Ele sentisse tamanha dor. Também não entendia por que Deus, que é todo poderoso, que é um Pai generoso, de infinita bondade e misericórdia permitia que algumas pessoas boas precisassem passar por tanto sofrimento. Eu mesma não achava que merecia passar por aquela dor. Eu conversava muito sobre isso com o meu pai, buscando ansiosa e insistentemente por uma resposta. Eu necessitava de uma explicação, porque um verdadeiro Pai não deseja mal algum a seus filhos e eu acreditava que Deus era verdadeiramente Pai. Também acreditava que Deus podia todas as coisas, nada era impossível para Ele e que nenhuma folha de uma árvore caía sem que Ele assim o permitisse. Meu pai, então, costumava dizer que Deus permite que o mal aconteça para evitar mal maior. Aquela resposta parecia ter sentido, mas eu era muito menina e não conseguia compreendê-la exatamente. Passei na verdade a vida toda tentando entender que mal maior seria esse. Ainda não entendo completamente, mas tenho uma ideia um pouco melhor. Um mal maior poderia ser, por exemplo, cercear os seres humanos do livre-arbítrio, dom esplêndido que nos Deus nos concedeu, mesmo sabendo que poderíamos mal utilizá-lo, o que de fato fazemos, e que nós poderíamos por meio do livre-arbítrio causar um mal a nós mesmos. Observe. Ao permitir que o homem seja livre e faça as próprias escolhas, Deus permite que este mesmo homem faça escolhas ruins para a sua vida, mas o mal maior seria impedi-lo de ter tal liberdade. Quando usamos os nossos olhos para realmente ver e a nossa mente para realmente compreender, nós somos capazes de reconhecer o tamanho da generosidade de Deus Pai por
  2. 2. nós. Deus age como o Pai da parábola do filho pródigo que, quando o filho decide pegar sua parte da herança e deixá-lo, ele aceita a decisão do filho e o deixa partir, mas permanece de braços abertos aguardando a sua volta e pronto para perdoá-lo. Tal decisão, no entanto, é única e exclusiva do filho. Deus nos aconselha e nos ensina a todo o tempo o caminho que devemos seguir para alcançarmos a plena e verdadeira felicidade, mas ele generosamente nos permite escolher se desejamos ou não este caminho. A escolha é de cada um. No entanto, o flagelo de Cristo e de outros filhos de Deus de bom coração ainda permanece sem explicação. Esses homens não se desviaram do caminho de Deus. Por que tanto sofrimento? Isso já é bem mais difícil de entender e continuo procurando as respostas, mas tento pensar no seguinte: de certa forma tudo o que nos acontece na vida é fruto do nosso próprio desejo e das nossas próprias escolhas, o que também está intimamente ligado à questão do livre-arbítrio. Podemos não ter consciência de que algumas coisas, talvez até ruins, nos acontecem porque nós mesmos as buscamos. Lembre-se novamente do exemplo do filho pródigo ao tomar a decisão de deixar a casa do seu pai. É difícil imaginar isso, mas acontece. Também penso que ninguém foi enviado por Deus para este mundo a passeio ou em vão. Todos temos a nossa missão e todos nós, no íntimo, desejamos essa missão e desejamos também que ela seja grandiosa e interessante, porque todos temos a necessidade de justificar a nossa própria existência e de nos atribuir utilidade e real valor. Se existe o livre-arbítrio e se ele sempre nos pertenceu, por que não podemos imaginar que o nosso próprio destino não foi escolhido por nós mesmos em comunhão com Deus? Quando exatamente começa o nosso livre-arbítrio e as nossas decisões acerca da nossa própria vida? A religião espírita possui essa crença e não entendo muito bem por que os católicos atribuem todos os nossos males aos desígnios e planos de Deus. Por que Deus nos desejaria mal se Ele é puro amor e perdão? Por outro lado, por que desejaríamos mal a nós mesmos? Bem... tente responder por que uma pessoa se droga, por que uma pessoa fuma, por que homens se matam e, quem sabe, conseguirá encontrar essa resposta. Poderia ser pior... É claro que eu não desejei para mim uma paralisia facial, tão pouco desejei passar por uma cirurgia ou ter um tumor na cabeça. É óbvio que não. Mas eu desejei sim ardentemente, por muito tempo e em voz alta o seguinte: “Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz. Onde houver ódio, que eu leve o amor, Onde houver ofensa, que eu leve o perdão, Onde houver discórdia, que eu leve a união, Onde houver dúvida, que eu leve a fé, Onde houver erro, que eu leve a verdade, Onde houver desespero, que eu leve a esperança, Onde houver tristeza, que eu leve a alegria, Onde houver trevas, que eu leve a luz.
  3. 3. Ó Mestre, fazei que eu procure mais consolar que ser consolado; compreender que ser compreendido, amar, que ser amado. Pois é dando que se recebe é perdoando que se é perdoado e é morrendo que se nasce para a vida eterna...” Quando eu era criança eu ganhei um cartaz com a oração de São Francisco de Assis que ficava preso na porta do meu armário e eu tenho esse cartaz até hoje. Eu desejei a minha vida inteira ser um instrumento da mensagem e do amor de Deus e agora parece que eu encontrei o meu meio de fazer isso, pela escrita deste texto, mas eu precisei vivenciar esse processo para que eu encontrasse a coragem necessária para tal e para que, de certa forma, eu aceitasse a minha missão. Tudo isso foi preciso para que eu me movesse e para que eu entendesse a dimensão de Deus na minha vida. Quantas vezes nós dizemos, nós não entendemos os desígnios de Deus e não entendemos mesmo, mas graças ao próprio Deus eu acredito que eu esteja sendo abençoada pela enorme graça de entender um pouco sobre o Seu plano para mim. Posso estar tremendamente equivocada, mas isso no momento não sai da minha mente, da minha alma e do meu coração. Sinto-me renovada, cheia de esperança, de força e de alegria. Sinto que preciso urgentemente fazer algo maior, que transcende a minha vida, a vida da minha família. Preciso cumprir minha missão de levar esperança aos que se encontram em situação de desespero e fé aos que estão vivendo na dúvida. A minha cirurgia e também a minha dor, por que não, foram os meios que Deus encontrou de, na verdade, me conceder o que eu mesma desejei profundamente. E quem há de dizer que em algum momento eu não concordei com isso? Obrigada, Senhor, por que, através de mim e de todos os homens, Você faz maravilhas. Obrigada, Senhor, por minha liberdade e por atender as minhas preces. Escrevo estas palavras exatamente no 12º dia após a cirurgia na cabeça para retirada de neurinoma do acústico, mais precisamente, no dia 23 de junho de 2013. Faço questão de destacar isso para que as pessoas que passarão por cirurgias também delicadas possam ter noção do potencial que poderão atingir em poucos dias de recuperação e que o seu próprio bem-estar depende muito da sua perspectiva do futuro e de como você mesmo lida com a sua fase de recuperação. Comecei a escrever as primeiras palavras do livro no dia 19 de junho, 8º dia após a cirurgia, e em poucos dias eu já tinha escrito a apresentação e o capítulo que fala sobre os dias mais difíceis. A paralisia facial ainda está acentuada, minha visão continua embaçada, não tenho controle sobre os movimentos do olho esquerdo e o equilíbrio ainda não está normal, mas minha mente está serena e límpida e os pensamentos fluem de forma rápida. Estou me sentindo forte, estável e bem. Escrevo como estratégia para controlar a minha ansiedade e para que as minhas horas e dias de recuperação passem mais rápido, para que eu possa voltar o mais rápido possível para casa e
  4. 4. possa estar de novo com a minha filha nos braços. Escrever para mim é uma forma de chamar os meus fantasmas pelo nome, sempre considerei este um bom meio de lidar com os males da vida. Essa é uma forma de enfrentá-los. Eu devo dominá-los e não o contrário. Quando escrevo tenho a sensação de que estou retirando as angústias de dentro de mim e deixando-as no “papel”. Elas estão lá registradas, não serão ignoradas porque foram importantes e marcantes demais para isso, mas estão guardadas apenas para quando eu, por vontade própria, quiser revisitá-las, mas eu não as levarei o tempo todo comigo, porque preciso seguir em frente, e não sobrecarregarei os meus ombros e a minha alma com aquilo que pode ficar bem guardado. Ludimila Monjardim Casagrande em “O amor fundamental”

×