Ficha formativa-"Apontamento" de Álvaro de Campos

34.629 visualizações

Publicada em

Análise de um poema de Álvaro de Campos- "Apontamento"- com sugestão de correção.

Publicada em: Educação
0 comentários
1 gostou
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
34.629
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
22.969
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
537
Comentários
0
Gostaram
1
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

Ficha formativa-"Apontamento" de Álvaro de Campos

  1. 1. Agrupamento de Escolas de Ribeira de PenaAVALIAÇÃO FORMATIVA- FERNANDO PESSOA (ÁLVARO DE CAMPOS)Apontamento15101520A minha alma partiu-se como um vaso vazio.Caiu pela escada excessivamente abaixo.Caiu das mãos da criada descuidada.Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.Asneira? Impossível? Sei lá!Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.Não se zangam com ela.São tolerantes com ela.O que eu era um vaso vazio?Olham os cacos absurdamente conscientes,Mas conscientes de si-mesmos, não conscientes deles.Olham e sorriem.Sorriem tolerantes à criada involuntária.Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?Um caco.E os deuses olham-no especialmente, pois não sabem por que ficou ali.Álvaro de Campos, 19291. Delimita, no poema, as seguintes partes lógicas:• a alma partiu-se em cacos;• os deuses assistem complacentes;• o fragmento cintilante.2. “A minha alma partiu-se como um vaso vazio.” (v. 1).Explica como, a partir desta inesperada comparação, se constrói o tema da fragmentação do eu.3. “Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu” (v. 6)“O que eu era um vaso vazio” (v. 13)Interpreta estes versos, à luz daquilo que já sabes da poética pessoana.4. Interpreta a última estrofe.1 http://textosintegrais.blogspot.pt
  2. 2. 5. Mostra a dimensão modernista da linguagem do poema, patente nas ruturas ao nível da coesão eda coerência textual.BOM TRABALHO!!!A PROFESSORA: Lucinda CunhaPROPOSTA DE CORREÇÃO (ficha de trabalho e proposta de correção retiradas do manual “Plural 12º”,Lisboa Editora, p. 193- correção no livro do professor, p. 41)1. Partes do poema:Estrofes 1 e 2Estrofes 3 a 6Estrofes 7 e 82. “A minha alma partiu-se como um vaso vazio” é a imagem que serve de ponto de partida para atemática que Álvaro de Campos partilha com Pessoa- a fragmentação do eu. A comparação com ovaso sugere a múltipla fragmentação, porque um vaso que cai, ainda mais por uma escada, parte-se em inúmeros cacos. O poeta é então um vaso que uma criada descuidada, a mando dos deuses(O destino? O poeta?) deixa cair pelas escadas. Os deuses assistem complacentes, sem nadafazer.3. O poeta não passava de “um vaso vazio”, porque ainda não se tinha confrontado com a busca de simesmo, não se conhecia. Para se conhecer, ou pelo menos para se procurar, foi precisofragmentar-se, partir-se em muitos pedaços, tantos quantos os seus eus. Agora, fragmentado,pode sentir mais, porque é mais completo, ainda que tenha perdido a unidade, ainda que afragmentação tenha sido uma guerra interior (“Fiz barulho na queda como um vaso que se partiu”).É interessante atentar na dimensão simbólica de escada, metáfora muitas vezes utilizada parasugerir a caminhada da vida que é, naturalmente, progressiva, ascendente. Mas em Campos,como em Pessoa, essa caminhada, que se quer também ascendente, pois corresponde à procurade si mesmo e ao desejo do impossível, acaba, no entanto, por ser descendente pelo custo deperda de unidade que comporta – uma perda desejada, mas ainda assim perda. No entanto,paradoxalmente, conduz ao infinito sugerido pelas estrelas que a atapetam e pelos astros entre osquais o fragmento brilha.4. O poeta sugere, interrogando-se, que o seu mais brilhante fragmento é a sua obra, equivalente aoseu eu mais profundo, à sua vida verdadeira.5. O poema, como a maioria dos poemas de Campos, apresenta uma utilização modernista dalinguagem patente sobretudo nas ruturas ao nível da coesão e da coerência, com efeitosestilísticos muito expressivos.Coesão:No interior das estrofes, é nítida a intencional falta de coesão no discurso, pela não utilização deconectores interfrásicos. A mesma falta de coesão verifica-se entre as estrofes. Além disso, étransgredida a coesão temporal, na medida em que são usados tempos diferentes para narrar omesmo acontecimento: o pretérito perfeito (“Caiu”) e o presente do indicativo (“Não se zangam”;“olham e sorriem”). É claro que esta rutura da coesão tem uma finalidade semântica, pois há um2 http://textosintegrais.blogspot.pt
  3. 3. tempo passado em que o sujeito se partiu em pedaços e há o presente em que o sujeitopermanece fragmentado, dando-se em espetáculo aos deuses.Coerência:A falta de coerência verifica-se a nível semântico, em versos como, por exemplo, “Sou umespalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir” e em muitas outras metáforas, mastambém ao nível sintático, pois as regras de sintaxe são quebradas em versos como “fez-se emmais pedaços do que havia loiça no vaso” “O que eu era um vaso vazio?”.3 http://textosintegrais.blogspot.pt

×